07 dezembro, 2017

Ninguém te ensinou como se ama uma mulher


Eu sei, é difícil.

Ninguém te ensinou como se ama uma mulher. Tudo o que você aprende sobre como uma mulher deve ser é o oposto do que te ensinam sobre o que é admirável: força, inteligência, agilidade, assertividade, coragem.




Ninguém te ensinou como se ama uma mulher

Eu sei, é difícil.

Ninguém te ensinou como se ama uma mulher. Tudo o que você aprende sobre como uma mulher deve ser é o oposto do que te ensinam sobre o que é admirável: força, inteligência, agilidade, assertividade, coragem. O mundo é um apanhado imagético de símbolos que valoriza tudo o que dizem que uma mulher não deve ser. Tudo começou a dar errado porque você não nasceu um homem. Porque você não é consumidor. É fornecedora. E vai dar trabalho. A princesinha. Sempre frágil. Esperando um príncipe, que te aceite, que te ame. Que venha te salvar.

Você foi criada para implorar amor. Para ser uma “mocinha comportada e boazinha”. Senão “ninguém iria gostar de você”. Aliás, você foi ensinada que ninguém iria gostar de você por muitos motivos: se você fosse feia, se você fosse desafiadora, se você fosse muito inteligente. Te mostraram que você precisa de aceitação e validação o tempo todo. Você foi criticada a vida inteira. E você aprendeu a criticar também. Aprendeu a odiar outras mulheres. A julgá-las. Por sua roupa, seu comportamento, sua aparência. O tempo todo.

É difícil se amar assim, eu sei. Se esperam que você seja burra, bela, frágil e acessível. Se você não ser pode ser humana, natural, amar seu corpo como ele é. Com pelos, com manchas, com formas. Se o mundo exige um esforço enorme para que você atenda às expectativas do que te dizem que é ser mulher. E se você não corresponde, te rejeitam, te criticam, te rebaixam, riem de você, fazem piada, debocham, duvidam. E o tempo todo tentam te colocar no seu lugar. Seu lugar de menina bonita esperando marido.

Homens também não são ensinados a amar mulheres. Mas antes a desejá-las, cobiçá-las como troféus, consumi-las como a um objeto. Não são ensinados a admirá-las. Não são ensinados a vê-las e aceitá-las em sua plenitude. Como companheiras. São ensinados a avaliar seu corpo, a explorar sua mão de obra, a esperar sua submissão, sua servidão. A ignorar suas mentes, desejos, particularidades.

Não, também não é fácil para um homem amar uma mulher. A mulher que ele aprende a ansiar não existe de verdade. É um amontoado de estereótipos e frases feitas. É um ser mutilado, depilado, fantasiado. Que não sangra, não escarra, não diz não. É alguém que deve estar ali por ele, pra ele. Servil.

Ninguém é ensinado a amar mulheres como elas são.

Então, eu sei. É difícil se olhar no espelho e se ver como uma pessoa. Quando a vida inteira você foi vista como um pedaço de carne. “Feia de corpo, mas bonita de rosto”, “feia, mas gostosa”, “bonita e inteligente”, “burra, mas gostosa”, “bacana, mas muito feia”. É doloroso. Homens são pessoas. Mulheres são um objeto sempre avaliado em função de como se parecem.

E eu tenho certeza, certeza absoluta aliás, que você é tantas outras coisas.

Você, mulher, é uma pessoa. E eu sei que isso parece meio óbvio mas essa é uma percepção importante para que você olhe para si e seja capaz de olhar para além das imperfeições que passaram a sua vida inteira inventando que você tem.

Você tem emoções, sentimentos, ideias, amigos, família, conquistas, derrotas. Tem histórias para contar. Tem realizações. Tem aquilo que você é capaz de fazer tão bem, com tanto carinho. E tem seus erros, seus dias ruins. Como qualquer um.

Você é uma pessoa.

E você merece se amar. De verdade. Merece se libertar dessa prisão maldita chamada feminilidade e beleza. Chamada submissão. Amar cada pedaço do seu corpo, ilimitadamente. Amar sua voz, a maneira como você sorri. Amar as suas boas e más ideias. Amar o que você produz. Você merece amar a pessoa maravilhosa que você é. Incondicionalmente.

Você merece amar outras mulheres. Admirá-las. Criar laços legítimos de união. Ser capaz de criar vínculos verdadeiros, compartilhar tantas coisas em comum. Ter o aconchego de boas amigas que vão saber como você se sente porque passaram pelas mesmas dores. Porque compartilham da tua biologia. Porque compartilham da tua socialização. Mulheres não são inimigas. Não são competidoras. Nenhum homem na Terra merece ter a possibilidades de afeto entre duas mulheres afetada por causa dele.

E você merece ser amada. Por pessoas que olhem nos seus olhos, não para os seus seios. Que gostem do que você diz, do que você faz. Não de como você aparenta. Você merece alguém que vai amar o que você é, porque isso é o que você vai levar para sua vida inteira. Alguém que seja capaz de admirar sua inteireza e todas as transformações do seu corpo e da sua mente.

Sim eu sei que nada nem ninguém nos ensina como é possível amar mulheres. Enquanto pessoas. Seres humanos. Mas mulheres são isso, apenas pessoas. Não são divas, princesas, rainhas, beldades, sagradas, divinas. São maravilhosas e admiráveis pessoas, com qualidades e defeitos como qualquer um, espalhadas por aí, pela metade da população do mundo, esperando e merecendo respeito. Admiração genuína. E apesar de tudo que nos ensinaram, e de ser difícil sim, para amar de verdade mulheres basta enxergá-las como elas são.


Fonte: Texto de Cila Santos para QG Feminista, 17/11/2017.

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