18 agosto, 2017

Carta de um jovem católico: da Renovação Carismática à descoberta da Teologia da Libertação

Jovens participam de uma romaria durante o I Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora


Dener Ricardo tem apenas 25 anos. Escreveu-me uma carta em tom pessoal, um relato pungente de sua trajetória na Igreja, da Renovação Carismática Católica e a rotina de adorações até a adesão à tradição da trajetória da Igreja latino-americana, à Teologia da Libertação –e à liderança do Papa Francisco.

No final do texto, uma convocação, um questionamento: “Vamos aspirar a uma Igreja simples, profética, que denuncia as injustiças contra os pobres e não se alia aos poderosos desta terra.”

Um jovem que torna verdade a profecia de Isaías no Segundo Canto do Servo Sofredor: “De minha boca fez uma espada cortante, abrigou-me na sombra da sua mão; fez de mim uma seta afiada, escondeu-me na sua aljava.” (Is 49, 2)

Uma carta-provocação, às vésperas do II Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora, que acontecerá entre 7 e 10 de setembro em Poá (SP).

Os ouvidos da Igreja estão se abrindo para a voz dos jovens que desejam o retorno à originalidade das primeiras comunidades cristãs? Os olhos da Igreja estão se abrindo para a luz que carregam os jovens? Já passa da hora.

[Mauro Lopes]

A íntegra da carta de Dener:

“Sou de São José do Rio Preto (SP), tenho 25 anos. Minha família sempre foi católica, mas, antes dos meus 14 anos, eu não praticava muito a religião: ia à Missa, fazia algumas poucas orações e só. Muito pouco me importava a dimensão comunitária da fé. Aos 15 anos me apresentaram a Renovação Carismática Católica (RCC). Adotei este tipo de espiritualidade com muito entusiasmo: participava ativamente dos grupos de orações e eventos da RCC. Tinha um apreço muito grande pela Canção Nova e outras emissoras de TV deste segmento. Durante três anos, a minha espiritualidade foi moldada neste contexto…até que algo começou a mudar.

Já na faculdade, passei a questionar o porquê de muitos irmãos (ãs) nada possuírem para comer ou viver com um patamar mínimo de dignidade, ao passo que uma minoria acumula rios de dinheiro. Comecei a me questionar, dentro da fé católica, se isso poderia ser justo. Mas nos grupos da RCC não encontrei nenhum tipo de resposta: pouco ou nada se falava sobre os pobres e seus mais diversos sofrimentos, quase nunca se incentivavam ações concretas para pelo menos aliviar as tribulações daqueles mais necessitados.

Em três anos de Renovação Carismática, NUNCA, repito, NUNCA houve um pregador sequer que tivesse pautado sua pregação em Mateus 25, 31-46 ou nos documentos sociais da Igreja, que eu sequer sabia que existiam. Muitas e muitas pregações, a massacrante maioria, era pautada num discurso extremamente moralizante, bem do tipo pode ou não pode, um discurso bélico e apologético. O resultado em minha espiritualidade você já pode imaginar: o meu cristianismo tinha pouco de Evangelho. Gostava de cruzadas religiosas, tinha aversão ao ecumenismo, a ponto de até recusar uma oração comum, com dois irmãos protestantes que faziam um trabalho de visita a um hospital onde eu estava internado. Discutia áspera e frequentemente com pessoas dos Testemunhas de Jeová que vinham à minha porta. Era moralista e algumas vezes gostava de julgar quem não pensava como eu. Graças a esse moralismo exacerbado deixei de viver muita coisa boa e saudável próprias do tempo de juventude.

Em um dado momento desta trajetória minha consciência começou cutucar se estas minhas atitudes eram mesmo alinhadas ao Evangelho de Nosso Senhor. Isso se somou aos questionamentos que eu fazia sobre a disparidade entre ricos e pobres. Um dia, fui apresentado à Teologia da Libertação e à Doutrina Social da Igreja. Comecei a ler os textos do padre Gustavo Gutierrez, frei Leonardo Boff, padre Jon Sobrino, Dom Helder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, as ideias de São Vicente de Paulo e Beato Antonio Frederico Ozanam, entre outros. Por meio destes cheguei aos documentos que compõem o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, bem como aos ensinamentos do Concílio Vaticano II e do CELAM.

O ponto culminante veio com o pontificado do Papa Francisco. Entrei de cabeça. Uma Igreja pobre para os pobres, uma Igreja misericordiosa, solidária, fraterna, de portas abertas e que denuncia profeticamente a injustiça social decorrente de um sistema que coloca o dinheiro no centro de tudo. Esse encontro me fez muito bem. Comecei a entender que Cristo se identifica nos pobres e sofredores do mundo e, dentro dos meus limites, comecei a dar início a pequenas ações concretas: visitar asilos, levar alimentos a instituições que atendem os pobres, inteirar-me da politica brasileira para ver o que eu podia fazer para cobrar dos governantes uma atenção privilegiada aos mais necessitados.

Neste caminho identifiquei-me com a Pastoral do Povo da Rua, onde hoje atuo com grande alegria. Confesso: Não há dinheiro no mundo que pague o trabalho junto e a favor dos pobres; ver o sorriso no rosto de um morador de rua quando encontra sorriso e amizade é algo excepcional. Passei aos poucos de uma espiritualidade pesada, intimista, preconceituosa e truncada para uma espiritualidade de partilha, comunhão, solidariedade e acolhimento. Hoje sou muito mais feliz com minha espiritualidade.

Ah, não poderia esquecer: comecei ganhar alguns rótulos de pessoas da ala conservadora da Igreja: herege, comunista, falso católico, entre outros. Confesso que fiquei um pouco chateado. Mas, se viver uma Igreja acolhedora, misericordiosa e que assume a opção preferencial pelos pobres é sinônimo de heresia, então sou um “herege”.

O caminho que se abriu permitiu-me participar melhor da Santa Missa, fazer minhas orações cotidianas e viver os sacramentos, entender que na vida nem tudo é preto no branco, por isso se faz importante o discernimento que é um dom do Espirito Santo… Minha relação com a Igreja ganhou em qualidade. Comecei a descobrir no Evangelho que Jesus sempre se colocava ao lado dos que sofriam e eram excluídos da sociedade daquela época. Provavelmente, foram estas escolhas que o levaram à cruz. JESUS ERA UM REVOLUCIONÁRIO e digo isso sem medo. De conservador ele não tinha absolutamente nada. Comecei a ver que o verdadeiro profetismo é denunciar os esquemas injustos e o acúmulo de riquezas, como fizeram os profetas do Antigo Testamento.

Contudo, não me engano: reconheço que tenho muito a melhorar como ser humano, tenho muito a converter dentro de mim, tenho muito o que aprender, para assim melhor me doar ao próximo. Peço que você reze por mim!

Por fim, se você publicar mesmo esta carta, gostaria de fazer um apelo a todos os leigos (as) e presbíteros que venham a ler esse depoimento: com palavras e atitudes vamos fazendo uma Igreja pobre, com os pobres e dos pobres. Vamos aspirar a uma Igreja simples, profética, que denuncia as injustiças contra os pobres e não se alia aos poderosos desta terra. Assim era no inicio do cristianismo e é assim que verdadeiramente iremos seguir os passos do Deus que se fez pobre, para nos enriquecer com sua pobreza.

Viva o Papa Francisco e que Deus o conceda longa vida, com muita saúde, conduzindo a Igreja pelas veredas da simplicidade do Evangelho!

Servo de Deus, Dom Helder Câmara e  Bem Aventurado Dom Oscar Romero, roguem por nós e especialmente pelos marginalizados, a quem devotaram as vossas vidas!

Dener Ricardo”

Fonte: Blog do Mauro Lopes
Publicado em 17 DE AGOSTO DE 2017 POR MAURO LOPES

Seminário de Assessores de CEBs do Nordeste!


17 agosto, 2017

Maria, ao trazer Jesus traz a nós uma alegria nova cheia de significado!

“Nos traz uma nova capacidade de atravessar com fé os momentos mais dolorosos e difíceis; nos traz a capacidade de misericórdia para perdoar-nos, compreender-nos, apoiarmo-nos uns aos outros”.

Papa Francisco

16 agosto, 2017

Papa reza pelas vítimas de calamidades naturais: 300 mortos em Serra Leoa

Após rezar o Angelus na Solenidade da Assunção na Praça São Pedro, o Papa Francisco confiou a Maria “as ansiedades e as dores das populações que em tantas partes do mundo sofrem por causa das calamidades naturais, de tensões sociais ou de conflitos. Que a nossa Mãe Celeste – pediu o Papa - obtenha para todos consolação e um futuro de serenidade e de concórdia!”.



De fato, em diversas partes do mundo populações inteiras vivem o flagelo das inundações e tragédias naturais. Na China e na Índia os mortos são mais de cem. O mau tempo também provocou vítimas nas Filipinas, em Bangladesh e Nepal.

Mas em especial a capital de Serra Leoa, Freetown, foi atingida na noite de segunda-feira por uma torrente de água e lama que provocou a morte de 300 pessoas, entre elas 60 crianças.

As fortes chuvas que atingiram aquele País da África Ocidental literalmente derrubaram a colina da capital, engolindo as casas e os seus habitantes.

A TV estatal interrompeu a programação difundindo imagens apocalípticas com homens e mulheres escavando na lama para encontrar os seus parentes, enquanto a cidade se parece com um cemitério a céu aberto.

“É provável que centenas de pessoas estejam enterradas por baixo dos escombros", disse o vice-presidente da Serra Leoa Victor Foh. "Perdemos tudo e temos um lugar para dormir", disse aos órgãos de informação uma mulher desconsolada, que conseguiu pôr-se juntamente com o marido e os três filhos subindo no telhado, antes que a sua casa fosse submergida pela água.

Muitos culpam o descaso humano: a tragédia teria sido causada pelo desmatamento e pela construção de casas em ribanceiras e outros locais inapropriados.

Freetown, uma cidade costeira com 1,2 milhões de habitantes, é regularmente afetada por inundações durante os meses de chuva, que destroem assentamentos improvisados, e o contato com a água contaminada de esgotos sem tratamento causa a propagação de doenças, como a cólera. Além disso, muitas das áreas mais pobres estão perto do nível do mar e têm um sistema de drenagem deficiente, e assim o efeito das inundações é ainda mais devastador.

As inundações são apenas uma das chagas que afligem a Serra Leoa: em 2014 o País foi um dos mais atingidos pelo vírus Ebola na África Ocidental, e que custou a vida a mais de quatro mil pessoas. Um desastre que ajudou a afundar uma economia entre as mais frágeis do mundo, onde cerca de sessenta por cento da população vive abaixo da linha de pobreza, segundo as estimativas das Nações Unidas. (JE/BS)


Fonte: Rádio Vaticano

14 agosto, 2017

Os que vivem a guerra

“É mais fácil uma criança saber o calibre de uma arma,
o nome todinho de cada arma 
do que saber o abecedário”, 
conta a educadora Mariluce Mariá, 
do Complexo do Alemão, Rio de Janeiro. 


De janeiro até julho desse ano – em apenas 43 dos 182 dias não houve tiroteio no Alemão, contam os moradores. Os alunos de Mariluce tem de se jogar no chão para escapar das balas a caminho da escola.

O bairro é um dos recordistas em tiroteios que nesses seis meses mataram 706 pessoas no Rio de Janeiro de acordo com o aplicativo Fogo Cruzado – iniciativa da Anistia Internacional feita em colaboração com os moradores – registrando o que as estatísticas oficial não registram.

Nada do que é oficial corresponde à realidade das comunidades que vivem uma rotina de guerra. Até o Censo é contestado pelos moradores do Alemão, que contaram 190 mil moradores em lugar dos 69 mil registrados pelo órgão. E não adianta recorrer à mídia que mora no asfalto e continua a divulgar o massacre cotidiano como guerra ao tráfico.

É preciso ir até ali.

“Não existe bala perdida se ela tem um endereço: a favela”, diz um líder comunitário do Alemão em nossa reportagem investigativa da semana.

É só olhar para as paredes perfuradas de balas das casas onde vivem 40 mil famílias para entender o que ele diz.

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Fonte: Texto de Marina Amaral, codiretora da Agência Pública, 11/02/2017.

Dia de Oração pelo 14º Intereclesial das CEBs


11 agosto, 2017

Para Refletir

"Suas mãos estão prontas para o mal: o príncipe exige (um presente), o juiz cobra as suas sentenças, o grande manifesta abertamente suas cobiças, todos tramam (suas intrigas)." (Miquéias, 7:3)

Tentando "Definir" a Natureza da Liturgia


Tentando "Definir" a Natureza da Liturgia
Frei José Ariovaldo da Silva

Partamos da própria palavra liturgia. É uma palavra de origem grega (leitourgía; verbo: leitourgein; substantivo pessoal: leitourgós), incorporada em nossa língua portuguesa. Ela provém da composição de laós [jônico; leós; ático] (= povo) e de érgon (= obra/serviço/ação). Traduzido literalmente,leitourgía significa serviço feito para o povo, ou, serviço diretamente prestado para o bem comum. Por exemplo, alguém participa de um mutirão... 

Os gregos diriam: Está fazendo uma liturgia. Alguém, ou um grupo, põe-se a construir uma ponte ou a organizar uma festa... Os gregos diriam: Está fazendoliturgia. Um sacerdote põe-se a prestar um serviço no templo... Está fazendoliturgia[1]. Por que? Porque são obras, serviços, ações em favor do povo, em favor das pessoas, em favor da comunidade humana, em favor da vida humana.

Ora, nesta linha de pensamento, me vem a esta altura uma pergunta pertinente que, a meu ver, nos conduz a reflexões posteriores muito interessantes. A pergunta é esta: quem realizou e continua a realizar as maiores ações em favor da comunidade humana? Ou, para sermos fiéis a terminologia grega, quem realiza as melhores liturgias? A experiência religiosa nos mostra que é Deus. 

Todo o Antigo Testamento é um grande canto e uma imensa narrativa das ações do senhor em favor do povo eleito. A grande experiência religiosa do povo eleito foi precisamente a de ter pouco a pouco descoberto – foi-lhe sendo revelado! – Deus como Aquele que, através de fatos, acontecimentos, pessoas, profetas, sábios etc., age na História em favor do seu povo (= faz liturgia!) e o salva. A experiência do êxodo é típica e paradigmática. Deus foi sendo descoberto sempre mais intensamente, sobretudo pelos sábios e profetas, como Aquele que, fielmente e com eterna misericórdia (Sl 135), opera a salvação do povo. Um Deus libertador, solidário, misericordioso, fiel, um Deus perdão, um Deus que ama a vida do seu povo, um Deus que tudo faz para que o povo tenha salvação, isto é, vida plena.

  Desse jeito Deus é! Assim é a sua política[2]! Permanente ação (serviço) em favor da vida do seu povo – liturgia! A palavra liturgia me faz lembrar que Deus é deste jeito. Então, por que não dizer que liturgia é o próprio jeito de Deus como ação amorosa em favor da humanidade? O específico jeito de ser de Deus é liturgia! Por que não dizer que Deus é a perfeição da liturgia, a própria fonte de toda liturgia?[3]. Esta Liturgia – com maiúsculo! – a gente celebra.

  Interessante que esta aproximação teológica de liturgia bate perfeitamente com a visão profética de culto. Se Deus é assim, então nossa melhor homenagema Deus é fazer o que ele faz, realizar as suas obras. E as festas, ritos e sacrifícios? São exatamente para manter acesos em nós tanto a memória do operar de Deus como o nosso consequente compromisso com a Liturgia divina, para sermos felizes. Caso contrário, festas, sacrifícios, uso da arca, existência do templo, tornam-se vazios. Deixam de ser um lugar onde o Deus vivo da história se encontra com seu povo.

O jeito de Deus como perfeição da liturgia tornou-se bem claro para nós na plenitude dos tempos, isto é, com Jesus Cristo e o seu mistério pascal. Deus Pai nos prestou este grande serviço: Ele nos deu o Filho. Aí está: A liturgia do Pai nos oferece o Filho! E o Filho vive a liturgia do Pai entre nós, porque, como sabemos, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a própria vida para a salvação de muita gente (Mc 10,45). O gesto de Jesus de lavar os pés dos discípulos é um exemplo e um sinal do modo de ser litúrgico de Jesus a ser imitado por todos nós (cf. Jo 13,1-17).

 Mas é sobretudo na paixão, morte e ressurreição de Jesus que aparece de maneira acabada a liturgia divina. Feito radicalmente servo de todos e exaltado como Senhor (cf. Fl 2,5-11), Jesus triunfou sobre o pecado e a morte, ressuscitando-nos para a vida eterna (cf. 1Cor 15,12-28). Imagine que obra ele realizou! A saber, libertou-nos da escravidão do pecado e da morte, fazendo-nos passar para a liberdade dos filhos e filhas reconciliados de Deus. É a máxima obra (liturgia) em favor da vida da humanidade. No mistério pascal, sempre atual porque Cristo está vivo, vislumbramos a maior e mais inigualável liturgia! Pois resolveu-se definitivamente para nós o angustiante problema da morte. 

Instaurou-se uma nova ordem no mundo e no cosmos, que nós chamamos Reino de Deus: que obra pública grandiosa! Que liturgia! A maior de todas!... EstaLiturgia a gente celebra.

Então, por que não dizer que liturgia é a própria vida de Jesus, vivida no amor até as últimas consequências em favor do Reino da vida? Presença do jeitolitúrgico de Deus entre nós. E daí, por que não dizer que em Jesus vemos a perfeição da liturgia divina? Por que não dizer que em seu mistério pascal se nos dá a fonte da liturgia? Por isso, com a carta aos Hebreus podemos proclamar que Jesus Cristo é o liturgo por excelência (Hb 8,2.6; 10,11-12). Esta Liturgia a gente celebra.

 Ora, de tudo o que vimos até aqui, você já pode deduzir o que pode significar celebrar a Liturgia, qual o sentido de uma celebração litúrgica cristã. A palavra celebrar vem do adjetivo célebre! Você sabe o que é célebre?

Quer dizer importante, inesquecível, irrenunciável, famoso, conhecido. 

Transformando o adjetivo célebre em verbo ativo, temos então celebrar. 

Celebrar, portanto, significa tornar célebre, fazer memória de algo muito importante. Algo muito importante e decisivo se torna presente pela memória que dele fazemos. E como se dá isso? Através de todos os nossos sentidos, usando palavras, símbolos, expressões corporais, gestos e ações simbólicas, música, etc.

 E celebrar a Liturgia? Celebrar a Liturgia significa: Tornar célebre, fazer solene memória da Liturgia divina sempre viva e atual no meio de nós. Basta lembrar que o próprio Cristo, na última ceia, nos deu esta ordem: Façam isto em memória de mim (Cf. Lc 22,19; 1Cor 11,24-25). Quer dizer: Por esta ação eucarística, vocês vão tornar célebre (sempre atual) a liturgia eternamente viva que vocês estão percebendo em mim e em vocês mesmos, reunidos em meu nome. O memorial da Liturgia divina se dá também nos outros sacramentos, nos sacramentais, no ofício divino, nas celebrações da Palavra e em tantas outras celebrações em nome do Senhor. Numa palavra: A Liturgia divinase comunica a nós pela memória que dela fazemos. E como isto se dá? De maneira sensível, a saber, em comunhão com todos os nossos sentidos, valorizando as expressões simbólicas e culturais da comunidade humana que celebra.

Daí segue que celebrar a Liturgia hoje significa: no Espírito que nos foi dado, fazer experiência comunitária da presença viva da Liturgia divina(mistério pascal – da ação da Trindade) na celebração litúrgica[4]. Na ação celebrativa que realizamos em nome do Senhor, fazemos a experiência da presença da Liturgia divina como núcleo do evangelho fermentando a nossa História, e que nos convoca a um renovado compromisso com o Reino.

Por isso, chamo a Liturgia celebrada de a melhor evangelização, pois ali é o próprio Senhor vivo e ressuscitado – o Libertador: Liturgia viva! – quem fala, ensina, comunica-se com seu povo e o liberta. Explicitar, na celebração litúrgica, esta presença viva da Liturgia divina comunicando seu amor, da melhor maneira possível a partir das nossas culturas, eis um grande desafio. Vice-versa: ALiturgia divina deseja se comunicar – se dar! – a nós de maneira mais humana e comprometedora possível, como outrora na forma cultural judaica, no judeu Jesus de Nazaré, e agora em forma litúrgico-celebrativa também brasileira. O desafio está em discernirmos uma forma litúrgico-celebrativa tal que nela possamos realmente, como comunidade cristã culturalmente localizada, sentir a presença viva e atuante da Páscoa de Jesus Cristo (Liturgia!), da Política de Deus, ontem, hoje e sempre.

PERGUNTAS PARA REFLEXÃO PESSOAL E EM GRUPOS:

1) O que nos chama a atenção neste artigo?
2) Qual é a definição mais apropriada de Liturgia para os dias atuais?
3) Porque a Liturgia é a melhor evangelização?

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[1] Interessante que o próprio apóstolo Paulo e a carta aos Hebreus usam o termo liturgia neste sentido de serviço em favor dos outros. Epafrodito presta serviços aos cristãos de Jerusalém, recolhendo esmolas para eles (2Cor 9,12). Os anjos servem a Deus em favor dos seres humanos (Hb 1,7.14).
[2] Entendo política aqui como a arte de tornar e manter humana a vida (cf. COX, Harvey. A cidade de homem. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. 278, 1968). Ruben Alves a define como a arte de fazer deste mundo um paraíso, onde todos fraternalmente possam ter vez e voz (cf. Vídeo sobreO Símbolo, produzido pelo Colégio Arquidiocesano de São Paulo).
[3] Cf. J. Corbon, Liturgia de Fonte, Paulinas, São Paulo, 1991.
[4] O grande teólogo liturgista S. Marsili chama a liturgia celebrada de momento histórico da salvação (cf. Anámnesis 1: A liturgia, momento histórico da salvação, Paulinas, São Paulo, 1987, p. 37ss) e de primária experiência espiritual cristã (título do seu artigo, in: T. Goffi – Secondin (Org.), Problemi e prospettive di Spiritualità, Queriniana, Brescia, 1983, p. 249-276). Note-se que o atual Catecismo da Igreja Católica intitula a Liturgia como obra da Santíssima Trindade (cf. edição conjunta Vozes/Paulinas/Loyola/Ave-Maria, Petrópolis/São Paulo, 1993, p. 265).

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Fonte: Blog - O Mistério e a Utopia

10 agosto, 2017

Leitura Popular da Bíblia

Leitura Popular da Bíblia
Frei Carlos Mesters, O. Carm.*

I – Critérios de leitura da Bíblia

1.        Existe uma leitura da Bíblia feita pelos pobres deste Continente nas suas Comunidades Eclesiais de Base. A leitura dos pobres, apesar das diferenças próprias de cada povo, tem algumas características comuns a todos:

a.      Os pobres levam consigo para dentro da Bíblia os problemas da sua vida; leem a Bíblia a partir da sua realidade e da sua luta.
b.      A leitura é feita em comunidade; ela é antes de tudo, um ato de fé, uma prática orante, uma atividade comunitária.
c.       Eles fazem uma leitura obediente; respeitam o texto, pois se colocam à escuta do que Deus tem a dizer, dispostos a mudar se Ele o exigir.

2.      Esta prática tão simples dos pobres é fundamentalmente fiel à prática da mais antiga Tradição da Igreja. Por isso mesmo, ela nos oferece os princípios ou critérios que devem orientar a leitura e o estudo que vamos fazer da Bíblia, e nos aponta o objetivo que esta leitura quer alcançar na nossa vida.

3.       O objetivo: escutar Deus hoje. FÉ COMUNIDADE + POVO REALIDADE + TEXTO BÍBLIA.

4.      Quando articulados entre si, estes três critérios geram um tipo de leitura bíblica, cujas características são as seguintes:

II – Características da leitura cristã da Bíblia

1.       Leitura que parte da REALIDADE

a.      A certeza maior que a Bíblia nos comunica é esta: Deus escuta o clamor do seu povo oprimido. Ele está presente na vida e na história deste povo para libertar. Por isso, como o povo e como Jesus, devemos levar para dentro da Bíblia a realidade conflitiva em que vivemos e que faz o povo gritar de dor. A situação do povo deve estar sempre presente durante a leitura da Bíblia. Antes de recorrer à Bíblia, Jesus quis conhecer a situação dos dois discípulos de Emaús: De que estão falando? Por que estão tristes?

b.      Por isso mesmo, também no estudo da Bíblia, a primeira preocupação deve ser: descobrir, através de uma leitura atenta do texto, a realidade concreta e conflitiva do povo que gerou o texto e em vista da qual ele foi formulado.

c.       Na maneira de estudar a situação do tempo da Bíblia, convém utilizar os mesmos critérios de análise que usamos para estudar a situação econômica, social, política e religiosa do povo de hoje. Isto permite realizar o confronto entre a problemática de hoje e de ontem, de que falava o Papa Paulo VI no seu discurso aos exegetas italianos.

2.      Leitura feita em COMUNIDADE

a.      A Bíblia é o livro do povo, da comunidade, da Igreja. Por isso, o lugar da sua leitura é a comunidade. A norma da sua interpretação é a fé da comunidade, da Igreja. Mesmo fazendo leitura individual, estou lendo o livro da comunidade, da Igreja. O sentido que se procura é um sentido comunitário, que eu, como indivíduo, devo assumir por ser membro da comunidade. Interpretar é, antes de tudo, uma tarefa comunitária, em que todos participam. Não é tarefa de um único fulano que estudou mais do que os outros. O estudioso, o exegeta, participa com sua parte e se coloca a serviço, como todo mundo.

b.      A descoberta do sentido que a Bíblia tem para nós não é fruto só do estudo, mas também da ação do Espírito Santo. Isto exige que se crie um ambiente de participação, de fé, de oração e de celebração, que dê espaço à ação do Espírito Santo, o mesmo Espírito que está na origem da Bíblia e que, conforme a promessa de Jesus, nos vai revelar o sentido das suas palavras. A oração cria o espaço necessário para a escuta do apelo do Espírito Santo.

c.       A leitura e a interpretação da Bíblia não podem ser atividades separadas do resto da vida da comunidade, mas envolvem, animam e dinamizam todas as atividades e lutas dos membros da comunidade. Isto terá o seu reflexo sobre o método e as dinâmicas que se adotam.

d.      No estudo do texto, devemos ter a preocupação não só em descobrir qual era a realidade do povo daquele tempo, mas também como o texto expressava a fé da comunidade daquele tempo e como ele respondia àquela situação concreta e conflitiva em que o povo se encontrava.

3.      Leitura que respeita o TEXTO

a.      A leitura da Bíblia é um aspecto do diálogo nosso com Deus. A primeira exigência do diálogo é saber escutar o outro e não reduzi-lo ao tamanho daquilo que eu quero que ele seja. A escuta exige que se faça silêncio em nós, que desarmemos os preconceitos, para que o outro se possa revelar como ele é. A atitude de escuta faz o texto falar na sua alteridade como palavra humana que nos transmite a Palavra de Deus.

b.      O texto é como o povo pobre: não consegue defender-se contra as agressões que o opressor e o manipulador lhe faz. É facilmente vencido, mas dificilmente convencido. Sabe resistir. De certo modo, a necessidade de respeitar e escutar o texto é um lado da medalha. O outro lado é respeitar e escutar o povo.

c.       Isto exige que se situe o texto no seu contexto de origem. A leitura e o estudo do texto devem, por assim dizer, reproduzir o texto, recriá-lo, para que possa aparecer o seu sentido bem concreto dentro da situação do povo daquele tempo como resposta de orientação ou de crítica ao povo.

d.      Isto exige que se levem em conta os resultados da exegese científica. Para a descoberta do sentido do texto é muito importante que o estudo nos leve a conhecer a situação econômica, social, política e ideológica do povo daquele tempo.

e.      Uma leitura que respeita o texto deve tomar todas as precauções possíveis para não utilizar ou manipular o texto, (nem para conservar e nem para transformar) e, assim, não projetar as nossas próprias ideias e desejos dentro do texto.

4.      Leitura que liga FÉ E VIDA

Articulando entre si os três critérios vindos do povo pobre, a leitura bíblica que daí resulta desloca o eixo da interpretação e retoma algumas características básicas da mais antiga tradição do povo de Deus:

a.      A preocupação principal já não é o descobrir o sentido que a Bíblia tinha no passado, mas sim o sentido que o Espírito comunica hoje à sua Igreja por meio do texto bíblico. Este tipo de leitura era chamada Lectio Divina. Ela procura descobrir o Sensus Spiritualis. É a leitura de fé que procura, com a ajuda da Bíblia, descobrir a ação da Palavra de Deus na vida.

b.      A Bíblia é lida não só como livro que descreve a história do passado, mas também como espelho (sim-bolo) da história que acontece hoje na vida das pessoas, das comunidades, dos povos da América Latina. É o que os antigos chamavam osentido simbólico. A busca deste sentido exprime a convicção de fé de que Deus continua falando a nós pelos fatos da vida.

c.       A preocupação principal já não é interpretar o texto, mas sim interpretar a vida, a história nossa, por meio do texto. Deslocou-se o eixo do texto para a vida. É o que Santo Agostinho descreveu na comparação dos Dois Livros. A Bíblia, o Segundo Livro, nos ajuda a interpretar a vida, o Primeiro Livro.

5.      Leitura em DEFESA DA VIDA

a.      O que temos de mais ecumênica e universal é a vida e a vontade de ter vida em abundância. Esta vontade de viver como gente e de ter vida mais justa e mais abundante existe sobretudo entre os pobres e oprimidos. O povo pobre é ecumênico quando lê a Bíblia. A leitura que faz é em defesa da vida ameaçada e reprimida. A própria Bíblia confirma a exatidão desta atitude ecumênica. No princípio, Deus criou a vida para ser vida abençoada. Chamou Abraão, para que o povo de Abraão recuperasse para todos a bênção da vida perdida por causa do pecado. A Bíblia surgiu e existe para iluminar a vida e defendê-la, para que seja vivida em abundância.

b.      Na situação em que vive o povo na América Latina, uma tal leitura a serviço da vida, necessariamente deve ser libertadora. Pois, a vida do povo está sendo ameaçada pelas forças da morte, explorada iniquamente. Já não é vida em abundância, não tem condições de ser vida de gente. A leitura é ecumênica quando anima o povo a se organizar para defender a vida, para lutar contra as forças da morte, para libertar-se de tudo o que o oprime.

Uma tal leitura realiza aquilo que dizia Santo Agostinho: transforma a realidade e a vida para que se torne novamente uma teofania, uma revelação de Deus.

6.     LEITURA COMPROMETIDA

Este tipo de leitura da Bíblia, quando conduzida com fidelidade, vai abrindo, aos poucos, os nossos olhos sobre a realidade e nos levará a uma opção pelos pobres e a um compromisso mais firme com a sua causa.

a.      Aos poucos a leitura começa a ser feita a partir de um outro lugar social, não mais a partir do lugar dos sábios e entendidos, mas a partir do lugar dos pequenos.Sim, Pai, eu te agradeço, porque assim foi do teu agrado.

b.      A leitura é feita não só para conhecer melhor o sentido da Bíblia, mas também e sobretudo para praticá-la. Não só ouve a palavra, mas a coloca em prática. A informação obtida pelo estudo é em vista da prática transformadora, para que novamente, a face de Deus seja revelada.

c.       Uma tal leitura comprometida com os pobres, quando feita em comunidade, aos poucos começa a assumir uma dimensão política, pois tem a ver com a conversão não só pessoal, mas também comunitária e social.

7.      LEITURA FIEL

Resumindo tudo, este tipo de leitura nada mais pretende do que ser fiel ao objetivo da própria Bíblia.

a.      O objetivo da Bíblia é um só: ajudar o povo a descobrir que Deus chegou perto para escutar o clamor dos pobres e caminhar com eles, o mesmo Deus que outrora caminhou com o povo de Israel, e a experimentar hoje a presença de Deus, Javé, Emanuel, Deus conosco, Deus Libertador. A leitura da Bíblia deve ser fiel ao objetivo da Palavra de Deus.

b.      A chave principal da Bíblia é Jesus, morto e ressuscitado, vivo no meio da comunidade. A leitura da Bíblia tem como objetivo: ajudar o povo a descobrir a grandeza do poder com que Deus acompanha e liberta o seu povo, a saber, o mesmo poder que Ele usou para tirar Jesus da morte. É o que São Paulo pedia para a comunidade de Éfeso. Fizemos esta enumeração longa e detalhada das características da leitura cristã da Bíblia para, por meio delas, oferecer um quadro permanente de referências. De vez em quando, é bom fazer uma revisão da nossa prática e do tipo de leitura que estamos fazendo da Bíblia. Aí, estas sete características podem servir como critério de avaliação e de revisão.


PERGUNTAS PARA REFLEXÃO PESSOAL E EM GRUPOS:

1) O que nos chama a atenção neste artigo?
2) O que é e como se faz a Leitura Popular da Bíblia?
3) Porque a leitura da Bíblia é um aspecto do diálogo nosso com Deus?

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* Texto retirado do livro O povo faz caminho – uma leitura latino-americana da Bíblia. 1988, p. 7-11.
[1] Arte-Vida de Luís Henrique.

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Fonte: Blog -  O Mistério e a Utopia

09 agosto, 2017

Campanha da Fraternidade 2018 e 2019


Rafael Braga Vieira é uma multidão de jovens negros, pobres e perseguidos

Rafael Braga, pobre, negro e com pouca educação é apenas o modelo ideal daqueles que são jogados na cadeia sem direito a um julgamento justo e sem ter seus direitos assegurados.


Em junho de 2013, enquanto o Brasil era sacudido pela maior onda de protestos populares até então exigindo passe livre e mais direitos sociais, Rafael Braga Vieira, à época morador de rua e catador de latas e outros materiais, foi preso no Rio de Janeiro por carregar duas garrafas de produtos de limpeza.

Mesmo com especialistas afirmando que os materiais apreendidos com ele (desinfetante Pinho Sol e água sanitária) não eram suficientes para a preparação de um coquetel molotov, muito menos feito em garrafas plásticas, ele foi condenado. Para piorar, Rafael nem sequer participava ou mesmo sabia do que se tratava a manifestação que acontecia perto do local em que ele foi preso.

Rafael foi condenado a cinco anos de prisão por carregar garrafas de material inflamável que poderia ser usado para cometer atos de vandalismo, ainda que a acusação não fizesse qualquer sentido não fosse o direcionamento tradicional do Judiciário brasileiro: sempre contrário à população negra e pobre.

O caso de Rafael Braga é semelhante ao de milhares de outros jovens negros e pobres, abandonados pela sociedade e depois varridos pra debaixo do tapete como se fossem lixo, jogados em presídios, mortos pela polícia ou submetidos a constantes humilhações até serem quebrados completamente. Alguns, como Rafael acabam presos, perseguidos, outros como Amarildo acabam mortos e seus corpos nunca mais são encontrados.

Os corpos somem, mas as balas nunca são “perdidas”, elas sempre encontram seus alvos. O Brasil vive uma constante guerra da elite – que tem a Polícia Militar para executar seus crimes – contra o resto. Contra o subproduto da exploração, do racismo, da violência.

Rafael foi condenado em 3 de dezembro de 2013, foi o único a ser condenado pelos protestos de 2013 de que ele, ironicamente, não participou. Não que outros não tivessem sido perseguidos, presos ao longo do processo, é bom lembrar. Durante os protestos mesmo quem carregasse garrafas de vinagre para amenizar os efeitos das bombas e do gás jogado pela polícia era detido, tratado como criminoso.

Mas ninguém foi condenado por carregar vinagre; Rafael foi condenado pro carregar desinfetantes – ele era pobre, descartável e alguém precisava servir de exemplo. No fim, Rafael Braga era apenas mais um pobre, negro e favelado a seguir o caminho “natural” imposto por um sistema judicial racista.

Em novembro de 2014, enquanto trabalhava fora da cadeia durante o dia – como faxineiro no escritório de advocacia que o representava, o Instituto de Defensores de Direitos Humanos – e retornava de noite para dormir no presídio, Rafael tirou uma foto em frente a uma pixação onde se lia “Você só olha da esquerda para a direita, o Estado te esmaga de cima p/baixo”. Foi o suficiente para que ele fosse jogado na solitária por dez dias. Era mais uma tentativa de quebrá-lo, de esmagá-lo.

Após permanecer preso por dois anos, Rafael foi solto em dezembro de 2015 e lhe permitiram servir o resto de sua sentença em liberdade contanto que usasse uma tornozeleira eletrônica. Sua liberdade, no entanto, durou pouco.

Ao sair da casa de sua mãe para comprar pão na favela da Vila Cruzeiro, Rafael foi abordado por policiais da UPP local que disseram ter encontrado 0,6 gramas de maconha e 9,3 gramas de cocaína com ele, além de um rojão, que é usado para alertar traficantes da chegada de policiais na favela – acusações que prontamente negou, dizendo estar sendo perseguido pela polícia.

Rafael diz ter sido incriminado, uma declaração corroborada pelo fato das 5 testemunhas de acusação, todos policiais, terem dado testemunhos conflitantes durante seu julgamento. Para seu advogado, Rafael foi vítima de um flagrante forjado.

Durante o julgamento, além das únicas provas da acusação se resumirem à palavra dos policiais que prenderam Rafael, sua defesa lhe foi negada: um vizinho que testemunharia a seu favor não foi ouvido por ter uma “relação familiar” com ele, assim como foi negado o pedido da defesa para acessar as câmeras dos carros dos policiais ou os dados da tornozeleira.

Rafael foi condenado a 11 anos de cadeia em abril de 2017 por tráfico de drogas e associação para o tráfico em um julgamento no mínimo suspeito – mas extremamente comum quando se trata de negros e pobres, as reais vítimas do sistema.

Não surpreende que o Brasil seja o quarto país no número de presos e os dados mais recentes apontam que os negros são a ampla maioria dos condenados (e muitos presos mesmo antes de julgamento e muitas vezes esquecidos nas cadeias), enquanto 95% dos presos são pobres e dois terços sequer completaram o primário.

Rafael Braga, pobre, negro e com pouca educação é apenas o modelo ideal daqueles que são jogados na cadeia sem direito a um julgamento justo e sem ter seus direitos assegurados.

Seus advogados, no entanto, decidiram apelar, pedindo um habeas corpus para Rafael. O sistema, porém, parece não falhar. Criado e mantido para controlar as massas, seguiu o roteiro tradicional e dois dos três desembargadores da 1ª Câmara Criminal do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio) decidiram manter sua prisão, enquanto o terceiro pediu vista.

Hoje, 8 de agosto, os desembargadores tomarão a decisão final sobre o habeas corpus; se Rafael permanecerá preso ou poderá esperar o julgamento de seu recurso em liberdade. Suas chances são pequenas, mas milhares de ativistas no Brasil e fora do País pressionam nas redes sociais e nas ruas, em protestos por várias cidades, pela sua libertação, para que a perseguição contra ele tenha fim.

Nas redes sociais a hashtag #LibertemRafaelBraga tem sido amplamente usada contra as arbitrariedades sofridas por ele. Rafael é um exemplo. É um exemplo do esmagamento que sofrem os mais pobres, da negação de direitos aos mais vulneráveis, da ausência de direitos humanos e a certeza de que o sistema está podre – na realidade, nasceu dessa forma, foi pensado desta forma.

Como escreveu o professor Pablo Ortellado:

“De símbolo da repressão política a protestos, Rafael está se tornando também símbolo do racismo institucional da polícia.”

Quem não tem dinheiro não tem nada no Brasil. Pobre, preto e favelado no País tem mais é que morrer, é o que pensam muitos e o que na prática fazem o Judiciário, a PM e o poder público.

Não há nada mais absurdo que a prisão de Rafael.
Não há causa mais urgente, mais nobre e mais necessária hoje.

Rafael não é apenas um, mas é uma multidão de jovens negros e pobres encarcerados sem cometer crimes, perseguidos e criminalizados por apenas existir.

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Fonte:  Texto de Raphael Tsavkko Garcia , Jornalista, é ativista e doutorando em Direitos Humanos. Publicado no site do Huffpost no Brasil, 08/08/2017.


Pensemos nos nossos irmãos da Nigéria e da República Centro-Africana e rezemos por eles todos juntos...

"Faço votos de que cesse toda a forma de ódio e de violência e não se repitam mais crimes assim vergonhosos, perpetrados em locais de culto, onde os fiéis se reúnem para rezar”.

“Fiquei profundamente entristecido pela tragédia ocorrida no último domingo na Nigéria, dentro de uma igreja, onde foram mortas pessoas inocentes. E infelizmente esta manhã chegou a notícia de violências homicidas na República Centro Africana contra a comunidade cristã. Faço votos de que cesse toda a forma de ódio e de violência e não se repitam mais crimes assim vergonhosos, perpetrados em locais de culto, onde os fiéis se reúnem para rezar”.

"Pensemos nos nossos irmãos da Nigéria e da República Centro-Africana e rezemos por eles todos juntos....Ave Maria...".

Papa Francisco

08 agosto, 2017

Papa deseja felicidades a casal gay que batizou filhos na Igreja

 Jéssica, Alyson, Toni, Filipe (na frente de Toni) e David 
na Catedral Basílica de Curitiba | Arquivo Pessoal


Papa deseja felicidades a casal gay que batizou filhos na Igreja


O Papa Francisco desejou felicidades para a família do líder do grupo Dignidade – que representa a comunidade LGBT, Toni Reis. O casal, formado por Toni e David Harrad adotou três crianças que foram batizadas na Igreja Católica, a Catedral de Curitiba, em abril deste ano.

A reportagem é publicada por Portal Paraná, 07-08-2017.

Após o batizado de Jéssica, Felipe e Alyson, Toni enviou uma carta ao Papa comunicando o batizado das três crianças. “Nós tivemos o evento e isso nos fez muito feliz com a benção da igreja para as crianças, era desejo delas serem batizadas. Como fomos visitar Roma, mandamos uma carta agradecendo a Igreja Católica por ter nos recebido e nos aceitado, já que nós, homossexuais, fomos historicamente queimados pela santa inquisição”, afirmou.

Ao voltar de viagem, a família encontrou a carta assinada pelo assessor do vaticano, Monsenhor Paolo Borgia, com a foto e assinatura do Papa Francisco. “Nós ficamos muito felizes e emocionados. É um assunto íntimo e familiar, mas nós resolvemos divulgar para mostrar que alguma coisa está mudando [na relação da igreja com a comunidade LGBT]”, comemorou.

“É a carta de um sumo sacerdote é isso um fato. Fiz questão de mostrar o papel timbrado e as assinaturas para que não haja dúvidas”, contou.

As felicitações foram encaminhadas através de Borgia. “Ao agradecer, da parte do Sucessor de Pedro, o testemunho de adesão e as palavras de homenagem, posso acrescentar: também o Papa Francisco lhe deseja felicidades, invocando para a sua família a abundância das graças divinas, a fim de viverem constante e fielmente a condição de cristãos, como bons filhos de Deus e da Igreja, ao enviar-lhes uma propiciadora Bênção Apostólica, pedindo que não esqueçam de rezar por ele”, diz a carta.




FREI CARLOS MESTERS: Crise na Bíblia e crise hoje.

07 agosto, 2017

Frei Betto: “Precisamos restaurar o protagonismo dos movimentos de base”



“Nós falhamos porque abandonamos o trabalho de formação política e de organização de base a longo prazo”, disse o escritor. / Agência de Notícias do Acre

A análise foi feita nesta sexta-feira (4), durante o 14º encontro Nacional de Moradia Popular, promovido pela União Nacional por Moradia Popular e a União dos Movimentos de Moradia de São Paulo, no centro da capital paulista. 

A reportagem é de Rute Pina e publicada por Brasil de Fato, 04-08-2017.

Durante o debate sobre democracia e o golpe no Brasil, o escritor ressaltou a importância das eleições diretas para a ruptura com o processo de golpe político, cujo ápice se deu com a saída da ex-presidenta Dilma Rousseff, mas pontuou que o problema da crise política e econômica do país não se resolve com o pleito: “É preciso um programa histórico de emancipação e libertação do país.”

“Temos que ter clareza que nossa luta é de longa duração. Anteontem [quarta-feira, dia 2 de agosto], todo mundo ficou esperando que o Congresso e os deputados fossem permitir que o [Michel] Temer fosse responsabilizado pelos graves crimes que cometeu. Mas sair Temer para entrar o Rodrigo Maia é trocar seis por meia-dúzia. Precisamos pensar o processo político popular a longo prazo”, ressaltou.

Na ocasião, Frei Betto também defendeu o fim do corporativismo e a unificação dos movimentos populares: “Ou unificamos e articulamos as lutas sociais brasileiras, ou cada um de nós vai permanecer no seu trilho, sendo atropelado pelo trem do capital e dos interesses internacionais.”

Também presente no evento, Elvio Aparecido Motta, coordenador da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf), afirmou que os retrocessos nos direitos trabalhistas e a paralisação dos programas de habitação popular evidenciam diariamente o processo de golpe no país. Para ele, o governo golpista de Michel Temer(PMDB) representou a ruptura com as políticas públicas para a classe trabalhadora e pobre do Brasil.

“É preciso construir, através do trabalho de base, a unidade da classe trabalhadora e um pacto de resistência entre o campo e a cidade, para além da pauta da habitação, mas de diálogo e concretude do país que queremos construir”, disse.

A presidenta do Partido dos Trabalhadores (PT), a senadora Gleisi Hoffmann, reconheceu limitações na atuação dos governos petistas: “Foi a construção lenta de um mínimo de bem-estar social no Brasil, um pequeno. O que nos conquistamos nesse período foi muito pouco frente às necessidades da população brasileira.”

Hoffmann defendeu três temas fundamentais, desafios para a campanha de um possível terceiro mandato do ex-presidente Lula: a reforma da mídia, a tributação do capital financeiro e a democratização do aparelho de Estado.

“Vamos encarar o desafio”, se comprometeu a presidenta do PT com a plateia de militantes de pessoas, que vieram para o encontro de diversos estados do país.

Com o lema “Nenhum direito a menos: em defesa do direito à moradia popular e da função social da propriedade”, o encontro nacional de movimentos de moradia teve início nesta quinta-feira (3) e se encerra no próximo sábado (5).

Normativa da Caixa indica fim de concursos e contratação de 'bancários temporários'



Banco estatal publica documento interno que estabelece regras para a admissão de terceirizados em todas as suas atividades. Trabalhadores alertam para precarização e exploração

A reportagem é publicada por Rede Brasil Atual - RBA, 05-08-2017.

A Caixa Econômica Federal (Caixa) publicou, na quinta-feira (3), uma nova versão de uma normativa interna – conhecida por RH 037 – que, na avaliação das representações dos trabalhadores do setor financeiro, abre caminho para que o banco, estatal, passe a contratar bancários terceirizados e, com isso, deixar de realizar concursos públicos para a contratação de novos empregados.

O documento define regras para contratação do que chamou de "bancário temporário", e deixa claro que, em tal condição, o trabalhador "poderá executar tanto as atividades-meio como as atividades-fim da Caixa".

"O serviço prestado pelo Bancário Temporário consiste no desenvolvimento de atribuições inerentes ao cargo de técnico bancário, previstas no contrato firmado com empresa especializada na prestação de serviços temporários", diz trecho do documento.

O Sindicato dos Bancários de São Paulo e a Contraf-CUT (a confederação das entidades sindicais da categoria) manifestaram imediato repúdio à normativa. Para o sindicato, a flexibilização dos vínculos de emprego apontadas pela direção da Caixa se alinha com "o desmonte da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) imposta pela reforma trabalhista e pela Lei 13.429/2017, que liberou a terceirização irrestrita", conforme nota publicada em seu site.

"Esta nova versão do normativo RH 037 é consequência direta do desmonte trabalhista promovido por Temer com a terceirização irrestrita e a reforma trabalhista. Com esta medida, a direção da Caixa deixa claro que não tem qualquer pudor em precarizar as relações de trabalho na instituição, criando o subemprego, com menores salários e sem qualquer direito", avalia o coordenador da Comissão Executiva dos Empregados da Caixa (CEE/Caixa), Dionísio Reis, diretor dos Bancários de São Paulo.

O RH 037 está em sua 21ª versão e sempre foi combatida pelas representações de bancários e de empregados da Caixa. "Nos anos 90 e início dos anos 2000, a Caixa trabalhou com muitos temporários, chegando a uma ter uma relação meio a meio com os concursados. Com a assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC), com o Ministério Público, conquistada após diversas ações judiciais contra a terceirização da atividade-fim, o banco teve de encerrar este tipo de contratação, que foi extinta em 2006, mas manteve o normativo. Sempre cobramos a revogação do RH 037 em mesas de negociação e, no ano passado, a Caixa alegou que aguardava a regulamentação do trabalho terceirizado em lei,", afirma Dionísio.

Para a Contraf-CUT, a normativa da Caixa indica o fim dos concursos públicos para a contratação de empregados. Em comunicado, Roberto von der Osten, presidente da confederação afirma também que o banco nem mesmo "vai convocar os concursados para assumir o lugar dos que se desligaram nos planos de aposentadorias".

No começo do ano, a Caixa lançou um programa de demissão voluntária, que teve adesão de cerca de 4,6 mil funcionários, enquanto o banco esperava adesão de até 10 mil empregados. No mês passado, a instituição abriu nova fase do programa, esperando participação de até 5,5 mil colaboradores. O prazo para aderir vai até 14 de agosto.

O RH 037 não estipula a quantidade de temporários que serão contratados e prevê que o número de contratações dependerá da disponibilidade orçamentária e dos resultados esperados pelo gestor, com base nas determinações da Gerência Nacional do Quadro de Pessoas e Remuneração (Geper ).

Oração:

Senhor Jesus, como me sinto semelhante ao teu povo, outrora peregrino no deserto. Todos os dias, me mandas o maná salvador da Palavra e da Eucaristia. Mas também, todos os dias, me deixo levar por saudades de outros alimentos e bebidas. A leveza do pão do céu, muitas vezes, não me satisfaz. Já experimentei a liberdade e a libertação com o êxodo do pecado. Mas, com frequência, olho para trás, sonho com o passado, e esqueço os teus dons. A minha vida assemelha-se, por vezes, ao deserto árido, e o meu caminho torna-se pesado e cheio de miragens enganadoras. Perdoa-me, Senhor! Tem paciência comigo. Renova as tuas maravilhas, para que não me esqueça de Ti e da tua Aliança. Sacia-me cada dia com o pão do céu, para que avance no deserto rumo à pátria que me preparaste. Amém.
Fonte: dehonianos