23 fevereiro, 2018

Papa: a Igreja deve abrir-se e não se mumificar

Veja imagens da saudação do Papa Francisco ao Pe. Tolentino, na conclusão dos Exercícios Espirituais de Ariccia.


Ao concluir os Exercícios Espirituais de Quaresma, o Papa Francisco agradeceu ao Padre português José Tolentino de Mendonça pelas meditações propostas nesses cinco dias de retiro. O tema das dez reflexões foi “O elogio da sede”.

Antes de regressar ao Vaticano, o Pontífice se dirigiu ao Pe. Tolentino falando em nome de todos os seus colaboradores presentes em Ariccia, na Casa “Divino Mestre”. Eis as palavras do Papa:

“Padre, gostaria de agradecer, em nome de todos, por este acompanhamento nesses dias, que hoje se prolongarão com o dia de oração e jejum pelo Sudão do Sul, o Congo e também a Síria.

Obrigado, Padre, por nos ter falado da Igreja, por nos ter feito sentir a Igreja, este pequeno rebanho. E também por nos ter advertido a não “diminui-lo” com as nossas mundanidades burocráticas! Obrigado por nos ter recordado que a Igreja não é uma gaiola para o Espírito Santo, que o Espírito voa também fora e trabalha fora. E com as citações e as coisas que o senhor nos disse, nos fez ver como trabalha nos não crentes, nos ‘pagãos’, nas pessoas de outras confissões religiosas: é universal, é o Espírito de Deus, que é para todos. Também hoje existem os “Cornélios”, “centuriões”, “guardiões da prisão de Pedro” que vivem uma busca interior ou sabem também distinguir quando há algo que chama. Obrigado por esta chamada a nos abrir sem medo, sem rigidez, para sermos suaves no Espírito e não nos mumificar nas nossas estruturas que nos fecham. Obrigado, padre. E continue a rezar por nós. Como dizia a mãe superiora às irmãs: “Somos homens!”, pecadores, todos. Obrigado, padre. E que o Senhor o abençoe.”

Fonte: Vatican News

“As pessoas pensam que freiras são bobinhas. Como podem escrever literatura?”


Uma das escritoras mais talentosas da literatura brasileira contemporânea tem 75 anos, é freira missionária e vive fora do eixo cultural mais batido do país. Maria Valéria Rezende (Santos, 1942) não é o que se espera de um “novo nome das letras nacionais” e nem de uma “freira/veterana/escritora juvenil”, como ela mesma conta que já a descreveram por aí. Autora dos premiados romances Quarenta dias, vencedor do Jabuti em 2015, e Outros cantos, que em janeiro recebeu o prêmio Casa das Américas de 2016, Maria Valéria não espera encaixar no que costumam dizer sobre ela. À sua maneira discreta, porém franca e divertida, ela se faz conhecer através de uma escrita inventiva, solta e profunda, sem jamais ser pesada. Descobriu-se escritora – não só de romances, mas de contos, crônicas e de literatura infantojuvenil – aos 60 anos. Eis a primeira surpresa.

A entrevista é de Camila Moraes, publicada por El País, 23-02-2017.


De João Pessoa, onde vive com outras três irmãs de sua congregação, a voz rouca de Maria Valéria ao telefone sobe alguns tons em emoção e volume quando relembra os anos vividos em Cuba. Nessa época, em que era parte de uma rede latino-americana de alfabetização popular, ela tomava café com Gabriel García Márquez e caminhava pelas ruas de Havana com Fidel Castro. “Era interessante, porque não era escritora, nem nada. Eu era uma formiguinha. Mas uma formiguinha que tinha a sorte de estar em lugares interessantes”, diz ao El País.

Este ano, “depois de passar a vida inteira andando pelo mundo” como educadora, Maria Valéria trabalha em seu quarto romance, Carta à rainha louca. O livro aborda histórias de mulheres brasileiras do período colonial, mas para ela fala da realidade “das mulheres brasileiras de sempre”. A freira escritora não planejou, mas ao parecer lança este ano uma obra de veia feminista. Mais uma surpresa para quem tenta encaixá-la nas manchetes dos jornais.

Eis a entrevista.

Quando as pessoas falam de você ao abordar seus livros, elas parecem mais surpresas pelo fato de você ser freira do que escritora e educadora. Por quê?

Acho que maioria tem uma ignorância absoluta em relação às freiras. Imaginam que a pessoa vai ser freira e fica ali toda reprimida, trancada. Mas nós somos leigas, ou seja, não somos membros do clero. Apenas optamos por viver em comunidade e fizemos três votos, que para nós são votos de liberdade: o de castidade, pelo qual você não está preso à família, nem a ninguém, e está disponível para ir aonde for preciso; o de pobreza, que na verdade é um voto de partilha pelo qual você não fica preso a uma carreira profissional, e por fim o voto da obediência, que é uma discussão com a comunidade, uma obediência aos apelos. Passei a minha vida inteira andando pelo mundo. Ainda assim, as pessoas têm aquela ideia de que as freiras são meio bobinhas, meio burrinhas [risos]... Como pode escrever literatura e ainda ganhar prêmio? Inclusive, muitos jornais – tranquilamente, sem me perguntar nada – escrevem que sou “ex-freira”. Porque para eles é inconcebível que uma freira que continua a ser freira tenha o mínimo de inteligência. O fato é que nossa vida é o contrário do que propaga o modelito oficial.

Você faz muitas coisas ao mesmo tempo. Ser freira em algum momento foi um porém para conciliar tantas atividades?

Já tenho 75 anos e, como todo mundo, não sou obrigada a fazer nada. Se continuo a ser freira, é porque continuo a acreditar que o serviço aos outros é a forma melhor de encarnar o evangelho. E vivo atarefada, porque se aparece alguém com um problema, quero logo resolver, ainda que isso seja mais difícil aos 75. Quando escolhi esse caminho, perguntava-se para as adolescentes assim: “Você já resolveu se quer casar ou quer ser freira?”. Eu, que sou a mais velha de seis irmãos, já tinha cuidado de criança a vida toda e, além disso, tinha fé (não só fiz uma opção pragmática)... Eu queria andar pelo mundo, então era muito mais inteligente ser freira missionária. De fato, não me decepcionei nem um pouquinho. Dei três voltas ao mundo sem nunca pagar passagem, porque toda a vida fui chamada para trabalhar aqui e ali.

A Casa das Américas, um coração de cultura latino-americana em Cuba, premiou recentemente seu romance Outros cantos. Que importância tem esse reconhecimento para você?

É um prêmio que me emociona muito, porque convivi com muita gente de lá quando trabalhei em Cuba. Meus laços com a América Latina têm origem na ditadura militar brasileira, quando o pessoal ligado ao movimento da teologia da libertação e às comunidades de bairro da Igreja Católica passou a se dedicar à alfabetização em toda a região. A gente reconstruiu, ao longo dos anos 60 e 70, uma rede de educação popular. Em 1979, quando houve Revolução Sandinista, a primeira grande ação tomada na Nicarágua foi alfabetizar todo o povo. Foi gente de todos os países latino-americanos para lá. Em Cuba, também fizeram uma cruzada de alfabetização no começo da Revolução Cubana. Lá houve um encontro muito interessante, porque a metodologia era outra, já que eles tinham uma ideia completamente diferente da Igreja Católica. Não entendiam como a gente podia ser católico e apoiar uma revolução socialista [risos]... A Casa das Américas, ainda que fosse mais dirigida à Cultura no sentido mais restrito, assumiu um papel natural de interlocutor. Criamos então uma comissão latino-americana, que era formada por uma pessoa da Casa e os educadores da América Latina. Eu coordenava essa equipe, então ia todo ano para lá. Faz 20 anos que não volto a Cuba, por razões variadas. Mas muitos amigos me escreveram quando saiu o prêmio.

O que você mais guarda da sua experiência em Cuba?

Fiquei hospedada um tempo em uma casa oficial do Governo cubano ao lado da casa onde fica o Gabriel García Márquez. Ele gostava de tomar café num quiosque na rua com uma porção de gente, vizinhos etc. Eu ficava lá, junto, batendo papo, contando histórias do interior do Nordeste e coisas assim. O Fidel era uma pessoa interessantíssima também. Tinha uma memória brutal. E um interesse em conversar comigo, porque eu vinha da zona canavieira e ele tinha uma curiosidade de saber como era a vida dos trabalhadores da cana. O que dizem do Fidel não tem nada a ver com o que ele é ao vivo. O problema quando começa a virar mito ­– a favor e contra – é que surgem lendas, e isso atrapalha muito o contato pessoal. Eu, por exemplo, andei com ele no meio da rua, em Havana Velha, sem nenhum aparato

Hoje a relação entre latino-americanos parece ser muito mais fria do que nesse tempo. A que se deve isso, na sua opinião?

Acho que ela vai reaquecer por causa do muro do Trump, né? Ele deve terminar unindo tudo o que está para baixo da fronteira dos Estados Unidos com o México. Naquela época, a aproximação veio muito por causa da resistência às ditaduras e do processo de libertação desses regimes para tentar construir um mundo melhor, mais democrático, de baixo para cima, através dos movimentos populares. Hoje também estamos passando por uma reação, mas não sabemos aonde isso vai parar.

Alguns acontecimentos da sua vida pessoal inspiram sua literatura. De que maneira o que você viveu está nos seus livros?

Não é que inspirem no sentido literal. Eu respirei o mundo inteiro, e isso entrou pelos meus cinco sentidos. Há uma variedade de lembranças, sensações, impressões... e é com isso que eu construo a minha literatura, sem dúvida nenhuma. Porque a minha cabeça nasceu vazia e tudo o que está lá dentro é porque entrou. Não fiz estudos de teoria literária, oficina de escrita criativa, nada disso. Então, o que escrevo só pode vir do que vi, ouvi, senti, cheirei, andei... Minha matéria prima certamente é isso e o que eu li toda a minha vida, uma média de 1.000 páginas por semana. Quando vivia no interior, não tinha nada para fazer de noite, então lia cinco, seis horas por dia. Não tenho preconceitos com literatura, não. Li tudo quanto é best seller. É uma coisa informativa, ajuda a completar o que a gente conhece do mundo.

Seu novo romance, Carta à rainha louca, que já vai avançado, traz histórias de mulheres brasileiras do período colonial. Há por trás dele um olhar feminista, que dialoga com a realidade de hoje?

Ele fala das mulheres brasileiras de sempre. Uma época, fiz muita pesquisa histórica sobre a era colonial no Brasil e no resto da América Latina. Era uma pós-graduação que fiz, e eu tinha muito material que ficou guardado. Tento fazer esse livro com uma linguagem plausível no século XVII e legível no século XXI. Na verdade, desconfio da minha cabeça de século XXI para falar no lugar de uma mulher do século XVIII. Então, a mulher diz uma porção de coisas que seria impossível ela dizer no século XVIII. Mas aí ela rasura. Porque ela diz “eu devo estar louca de estar pensando numa coisa dessas, que eu nunca ouvi ninguém dizer”. Acho que é uma maneira metafórica de dizer que muita coisa é verdade ainda. Não pensei “vou fazer um livro feminista”, mas ele se torna... Demoro muitos anos para escrever um romance. Escrevo três, quatro ao mesmo tempo. Então, o que vai acontecendo enquanto escrevo vai mexendo no meu texto. Mesmo que o texto não se refira diretamente a isso. É o caso desse livro.

Em que medida os prêmios literários são importantes?

Para mim, o Jabuti foi importante. Em parte, por mérito da imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro. Todos fizeram a mesma manchete: “Freira/veterana/escritora juvenil bate/derruba/desbanca/derrota Chico Buarque e Cristóvão Teeza”. Achei deselegante com eles mais do que comigo, porque ficaram repetindo que os caras foram vencidos por uma velhota desconhecida que só escreve livro juvenil e ainda por cima é uma freira. Por outro lado, isso ajudou também a despertar curiosidade. Por causa do Jabuti, 40 dias já vai pela quinta reimpressão. É provável que o prêmio da Casa das Américas também faça muito barulho. Ao menos, agora as manchetes já aparecem com o meu nome e não sai mais que eu bati em alguém. Também recebo muitas mensagens pelo Facebook de pessoas que me dizem que acabaram de ler Outros cantos. Tem que gente que diz: “Estou passando uma fase muito ruim da minha vida e seu livro me deu ânimo”. Coisas assim valem a pena. Nunca quis fazer livro de autoajuda, mas parece que a literatura ajuda.

22 fevereiro, 2018

XXXIII Jornada Mundial da Juventude

“Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus (Lc 1, 30).” Este é o tema da mensagem do Papa Francisco em preparação à XXXIII Jornada Mundial da Juventude, celebrada em nível diocesano no Domingo de Ramos (25 de março).

Segue a mensagem:

Mensagem do Santo Padre Francisco para a XXXIII Jornada Mundial da Juventude
(Domingo de Ramos, 25 de março de 2018)

«Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus» (Lc 1, 30)

Queridos jovens!

A Jornada Mundial da Juventude de 2018 constitui um passo mais na preparação da jornada internacional, que se realizará no Panamá em janeiro de 2019. Esta nova etapa da nossa peregrinação tem lugar no ano em que está convocada a Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre o tema: Os jovens, a fé e o discernimento vocacional. É uma feliz coincidência. A atenção, a oração e a reflexão da Igreja concentrar-se-ão sobre vós, jovens, no desejo de perceber e, sobretudo, «acolher» o dom precioso que vós sois para Deus, para a Igreja e para o mundo.

Como já sabeis, para nos acompanhar ao longo deste itinerário, escolhemos o exemplo e a intercessão de Maria, a jovem de Nazaré, que Deus escolheu como Mãe do seu Filho. Ela caminha connosco rumo ao Sínodo e à JMJ do Panamá. No ano passado, guiaram-nos as palavras do seu cântico de louvor – «O Todo-poderoso fez em Mim maravilhas» (Lc 1, 49) –, ensinando-nos a conservar na memória o passado; este ano, procuramos escutar, juntamente com Ela, a voz de Deus que infunde coragem e dá a graça necessária para responder à sua chamada: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus» (Lc 1, 30). São as palavras que o mensageiro de Deus, o arcanjo Gabriel, dirigiu a Maria, jovem simples duma pequena povoação da Galileia.

1. Não temas!

Compreensivelmente, a inesperada aparição do anjo e a sua saudação misteriosa («Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo»: Lc 1, 28) provocaram uma forte turbação em Maria, surpreendida por esta primeira revelação da sua identidade e da sua vocação, que Lhe eram ainda desconhecidas. Maria, como outras personagens da Sagrada Escritura, treme perante o mistério da chamada de Deus, que, dum momento para o outro, a confronta com a imensidão do desígnio divino e Lhe faz sentir toda a sua pequenez de humilde criatura. O anjo, lendo no fundo do coração d’Ela, diz-Lhe: «Não temas»! Deus lê também no nosso íntimo. Conhece bem os desafios que devemos enfrentar na vida, sobretudo quando nos deparamos com as opções fundamentais de que depende o que seremos e faremos neste mundo. É a «perplexidade» que sentimos face às decisões sobre o nosso futuro, o nosso estado de vida, a nossa vocação. Em tais momentos, ficamos turbados e somos assaltados por tantos medos.

E vós, jovens, quais são os medos que tendes? Que é que vos preocupa mais profundamente? Um medo «de fundo», que existe em muitos de vós, é o de não ser amados, bem-queridos, de não ser aceites por aquilo que sois. Hoje, há muitos jovens que, na tentativa de se adequar a padrões frequentemente artificiais e inatingíveis, têm a sensação de dever ser diferentes daquilo que são na realidade. Fazem contínuos «foto-retoques» das imagens próprias, escondendo-se por trás de máscaras e identidades falsas, até chegarem quase a tornar-se eles mesmos um «fake», um falso. Muitos têm a obsessão de receber o maior número possível de apreciações «gosto». E daqui, desta sensação de desajustamento, surgem muitos medos e incertezas. Outros temem não conseguir encontrar uma segurança afetiva e ficar sozinhos. Em muitos, à vista da precariedade do trabalho, entra o medo de não conseguirem encontrar uma conveniente afirmação profissional, de não verem realizados os seus sonhos. Trata-se de medos atualmente muito presentes em inúmeros jovens, tanto crentes como não-crentes. E mesmo aqueles que acolheram o dom da fé e procuram seriamente a sua vocação, por certo não estão isentos de medos. Alguns pensam: talvez Deus me peça ou virá a pedir demais; talvez, ao percorrer a estrada que Ele me aponta, não seja verdadeiramente feliz, ou não esteja à altura do que me pede. Outros interrogam-se: Se seguir o caminho que Deus me indica, quem me garante que conseguirei percorrê-lo até ao fim? Desanimarei? Perderei o entusiasmo? Serei capaz de perseverar a vida inteira?

Nos momentos em que se aglomeram no nosso coração dúvidas e medos, torna-se necessário o discernimento. Este permite-nos pôr ordem na confusão dos nossos pensamentos e sentimentos, para agir de maneira justa e prudente. Neste processo, o primeiro passo para superar os medos é identificá-los claramente, para não acabar desperdiçando tempo e energias a braços com fantasmas sem rosto nem consistência. Por isso, convido-vos, todos, a olhar dentro de vós próprios e a «dar um nome» aos vossos medos. Perguntai-vos: Hoje, na situação concreta que estou a viver, o que é que me angustia, o que é que mais temo? O que é que me bloqueia e impede de avançar? Porque é que não tenho a coragem de abraçar as decisões importantes que deveria tomar? Não tenhais medo de olhar, honestamente, para os vossos medos, reconhecê-los pelo que são e enfrentá-los. A Bíblia não nega o sentimento humano do medo, nem os inúmeros motivos que o podem provocar. Abraão teve medo (cf. Gn 12, 10-11), Jacob teve medo (cf. Gn 31, 31; 32, 8), e de igual modo também Moisés (cf. Ex 2, 14; 17, 4), Pedro (cf. Mt 26, 69-75) e os Apóstolos (cf. Mc 4, 38-40; Mt 26, 56). O próprio Jesus, embora a um nível incomparável, sentiu medo e angústia (cf. Mt 26, 37; Lc 22, 44).

«Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» (Mc 4, 40). Esta advertência de Jesus aos discípulos faz-nos compreender como muitas vezes o obstáculo à fé não é a incredulidade, mas o medo. Neste sentido, o trabalho de discernimento, depois de ter identificado os nossos medos, deve ajudar-nos a superá-los, abrindo-nos à vida e enfrentando serenamente os desafios que ela nos apresenta. De modo particular para nós, cristãos, o medo nunca deve ter a última palavra, mas ser ocasião para realizar um ato de fé em Deus... e também na vida. Isto significa acreditar na bondade fundamental da existência que Deus nos deu, confiar que Ele conduz a um fim bom mesmo através de circunstâncias e vicissitudes muitas vezes misteriosas para nós. Se, em vez disso, alimentarmos os medos, tenderemos a fechar-nos em nós próprios, a barricar-nos para nos defendermos de tudo e de todos, ficando como que paralisados. É preciso reagir! Nunca fechar-se! Na Sagrada Escritura, encontramos 365 vezes a expressão «não temer», nas suas múltiplas variações, como se dissesse que o Senhor nos quer livres do medo todos os dias do ano.

O discernimento torna-se indispensável quando se trata da busca da própria vocação. Pois esta, na maioria das vezes, não aparece logo clara ou completamente evidente, mas vai-se identificando pouco a pouco. O discernimento, que se deve fazer neste caso, não há de ser entendido como um esforço individual de introspeção, cujo objetivo seria conhecer melhor os nossos mecanismos interiores para nos fortalecermos e alcançarmos um certo equilíbrio; porque, então, a pessoa pode tornar-se mais forte, mas permanece em todo o caso fechada no horizonte limitado das suas possibilidades e pontos de vista. Ao contrário, a vocação é uma chamada do Alto e, neste caso, o discernimento consiste sobretudo em abrir-se ao Outro que chama. Portanto, é necessário o silêncio da oração para escutar a voz de Deus que ressoa na consciência. Ele bate à porta dos nossos corações, como fez com Maria, desejoso de estreitar amizade connosco através da oração, falar-nos através da Sagrada Escritura, oferecer-nos a sua misericórdia no sacramento da Reconciliação, tornar-Se um só connosco na Comunhão Eucarística.

Mas é importante também o confronto e o diálogo com os outros, nossos irmãos e irmãs na fé, que têm mais experiência e nos ajudam a ver melhor e a escolher entre as várias opções. O jovem Samuel, quando ouve a voz do Senhor, não a reconhece imediatamente e três vezes foi ter com Eli, o sacerdote idoso, que acaba por lhe sugerir a resposta certa a dar à chamada do Senhor: «Se fores chamado outra vez, responde: “Fala, Senhor; o teu servo escuta”» (1 Sm 3, 9). Nas vossas dúvidas, sabei que podeis contar com a Igreja. Sei que há bons sacerdotes, consagrados e consagrados, fiéis-leigos – muitos deles também jovens –, que vos podem acompanhar como irmãos e irmãs mais velhos na fé; animados pelo Espírito Santo, serão capazes de vos ajudar a decifrar as vossas dúvidas e a ler o desígnio da vossa vocação pessoal. O «outro» é não apenas o guia espiritual, mas também quem nos ajuda a abrir-nos a todas as riquezas infinitas da existência que Deus nos deu. É necessário abrir espaços nas nossas cidades e comunidades para crescer, sonhar, perscrutar novos horizontes! Nunca percais o prazer de gozar do encontro, da amizade, o prazer de sonhar juntos, de caminhar com os outros. Os cristãos autênticos não têm medo de se abrir aos outros, de compartilhar os seus espaços vitais transformando-os em espaços de fraternidade. Não deixeis, queridos jovens, que os fulgores da juventude se apaguem na escuridão duma sala fechada, onde a única janela para olhar o mundo seja a do computador e do smartphone. Abri de par em par as portas da vossa vida! Os vossos espaços e tempos sejam habitados por pessoas concretas, relações profundas, que vos deem a possibilidade de compartilhar experiências autênticas e reais no vosso dia-a-dia.

2. Maria!

«Eu te chamei pelo teu nome» (Is 43, 1). O primeiro motivo para não temer é precisamente o facto de Deus nos chamar pelo nome. O anjo, mensageiro de Deus, chamou Maria pelo nome. Dar nomes é próprio de Deus. Na obra da criação, Ele chama à existência cada criatura com o seu nome. Por trás do nome, há uma identidade, aquilo que é único em cada coisa, em cada pessoa, aquela essência íntima que só Deus conhece profundamente. Depois, esta prerrogativa divina foi partilhada com o homem, a quem Deus concedeu dar um nome aos animais, às aves e até aos próprios filhos (cf. Gn 2, 19-21; 4, 1). Muitas culturas compartilham esta profunda visão bíblica, reconhecendo no nome a revelação do mistério mais profundo duma vida, o significado duma existência.

Quando chama pelo nome uma pessoa, Deus revela-lhe ao mesmo tempo a sua vocação, o seu projeto de santidade e de bem pelo qual essa pessoa será um dom para os outros e se tornará única. E mesmo quando o Senhor quer ampliar os horizontes duma vida, decide dar à pessoa chamada um novo nome, como faz com Simão, chamando-o «Pedro». Daqui veio o uso de adotar um nome novo quando se entra numa Ordem Religiosa, para indicar uma nova identidade e uma nova missão. A chamada divina, enquanto pessoal e única, exige a coragem de nos desvincularmos da pressão homogeneizadora dos lugares-comuns, para que a nossa vida seja verdadeiramente um dom original e irrepetível para Deus, para a Igreja e para os outros.

Assim, queridos jovens, ser chamados pelo nome é um sinal da nossa grande dignidade aos olhos de Deus, da sua predileção por nós. E Deus chama cada um de vós pelo nome. Vós sois o «tu» de Deus, preciosos a seus olhos, dignos de estima e amados (cf. Is43, 4). Acolhei com alegria este diálogo que Deus vos propõe, este apelo que vos dirige, chamando-vos pelo nome.

3. Achaste graça diante de Deus

O motivo principal pelo qual Maria não deve temer é porque achou graça diante de Deus. A palavra «graça» fala-nos de amor gratuito, não devido. Quanto nos encoraja saber que não temos de merecer a proximidade e a ajuda de Deus, apresentando antecipadamente um «currículo excelente», cheio de méritos e sucessos! O anjo diz a Maria que já achou graça diante de Deus; não, que a obterá no futuro. A própria formulação das palavras do anjo faz-nos compreender que a graça divina é ininterrupta, não algo fugaz ou momentâneo, e por isso nunca falhará. E no futuro também haverá sempre a graça de Deus a sustentar-nos, sobretudo nos momentos de prova e escuridão.

A presença contínua da graça divina encoraja-nos a abraçar, com confiança, a nossa vocação, que exige um compromisso de fidelidade que se deve renovar todos os dias. Com efeito, a senda da vocação não está desprovida de cruzes: não só as dúvidas iniciais, mas também as tentações frequentes que se encontram ao longo do caminho. O sentimento de inadequação acompanha o discípulo de Cristo até ao fim, mas ele sabe que é assistido pela graça de Deus.

As palavras do anjo descem sobre os medos humanos, dissolvendo-os com a força da boa nova de que são portadoras: a nossa vida não é pura casualidade nem mera luta pela sobrevivência, mas cada um de nós é uma história amada por Deus. O «ter achado graça» aos olhos d’Ele significa que o Criador entrevê uma beleza única no nosso ser e tem um desígnio magnífico para a nossa existência. Esta consciência, certamente, não resolve todos os problemas nem tira as incertezas da vida, mas tem a força de a transformar em profundidade. O desconhecido, que o amanhã nos reserva, não é uma obscura ameaça a que devemos sobreviver, mas um tempo favorável que nos é dado para viver a unicidade da nossa vocação pessoal e partilhá-la com os nossos irmãos e irmãs na Igreja e no mundo.

4. Coragem no presente

Da certeza de que a graça de Deus está connosco, provém a força para ter coragem no presente: coragem para levar por diante aquilo que Deus nos pede aqui e agora, em cada âmbito da nossa vida; coragem para abraçar a vocação que Deus nos mostra; coragem para viver a nossa fé sem a esconder nem atenuar.

Sim, quando nos abrimos à graça de Deus, o impossível torna-se realidade. «Se Deus está por nós, quem pode estar contra nós?» (Rm 8, 31). A graça de Deus toca o hoje da vossa vida, «agarra-vos» assim como sois, com todos os vossos medos e limites, mas revela também os planos maravilhosos do Senhor! Vós, jovens, precisais de sentir que alguém tem verdadeiramente confiança em vós: sabei que o Papa confia em vós, que a Igreja confia em vós! E vós, confiai na Igreja!

À jovem Maria foi confiada uma tarefa importante, precisamente porque era jovem. Vós, jovens, tendes força, atravessais uma fase da vida em que certamente não faltam as energias. Usai essa força e essas energias para melhorar o mundo, começando pelas realidades mais próximas de vós. Desejo que, na Igreja, vos sejam confiadas responsabilidades importantes, que se tenha a coragem de vos deixar espaço; e vós, preparai-vos para assumir estas responsabilidades.

Convido-vos ainda a contemplar o amor de Maria: um amor solícito, dinâmico, concreto. Um amor cheio de audácia e todo projetado para o dom de Si mesma. Uma Igreja impregnada por estas qualidades marianas será sempre uma Igreja em saída, que ultrapassa os seus limites e confins para fazer transbordar a graça recebida. Se nos deixarmos contagiar pelo exemplo de Maria, viveremos concretamente aquela caridade que nos impele a amar a Deus acima de tudo e de nós mesmos, a amar as pessoas com quem partilhamos a vida diária. E amaremos inclusive quem nos poderia parecer, por si mesmo, pouco amável. É um amor que se torna serviço e dedicação, sobretudo pelos mais fracos e os mais pobres, que transforma os nossos rostos e nos enche de alegria.

Gostaria de concluir com as encantadoras palavras pronunciadas por São Bernardo numa famosa homilia sobre o mistério da Anunciação, palavras que manifestam a expetativa de toda a humanidade pela resposta de Maria: «Ouviste, ó Virgem, que conceberás e darás à luz um filho; ouviste que isso não será por obra de varão, mas por obra do Espírito Santo. O anjo aguarda a resposta; também nós, Senhora, esperamos a tua palavra de misericórdia. A tua breve resposta pode renovar-nos e restituir-nos à vida. Todo o mundo, prostrado a teus pés, espera a tua resposta. Dá depressa, ó Virgem, a tua resposta» (Hom. 4, 8-9: Opera omnia, Edit. Cisterc. 4 (1966), 53-54).

Queridos jovens, o Senhor, a Igreja, o mundo esperam também a vossa resposta à vocação única que cada um tem nesta vida! À medida que se aproxima a JMJ do Panamá, convido-vos a preparar-vos para este nosso encontro com a alegria e o entusiasmo de quem deseja fazer parte duma grande aventura. A JMJ é para os corajosos! Não para jovens que procuram apenas a comodidade, recuando à vista das dificuldades. Aceitais o desafio?

Vaticano, 11 de fevereiro – VI Domingo do Tempo Comum e Memória de Nossa Senhora de Lurdes – de 2018.
 

FRANCISCO

Oração


"Senhor, hoje, quero aprender a apresentar-Te os meus pedidos sem condicionar as tuas respostas, porque sei que só dás coisas boas a quem Te pede. Tu não és um distribuidor automático, que dás necessariamente aquilo que Te é pedido, nem a oração é magia para obter um qualquer efeito pretendido. Quero pedir-Te confiadamente e com perseverança aquilo que julgo importante pata mim, para a Igreja, para o mundo. Mas deixo-te o cuidado de encontrar a melhor solução, de escolheres o dom que me queres fazer. E estou certo que sempre o farás com uma criatividade que em muito ultrapassará os meus pedidos. E, quando me deres o que Te peço, aproveitarei essa graça para crescer na união Contigo, transformando o teu dom em instrumento de progresso espiritual, abrindo-me ao teu amor e ao amor dos irmãos. Amém."

Fonte: Dehonianos

21 fevereiro, 2018

A população mundial por grupos de países: 1950-2100, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

"Na revisão de 2010, a população mundial chegaria a 9,3 bilhões de habitantes em 2050 e de 10,1 bilhões de habitantes em 2100. Na revisão 2017, os números para a população total subiram mais ainda, para 9,8 bilhões em 2050 e 11,2 bilhões em 2100." 



O  artigo é de  José Eustáquio Diniz Alves, publicado por  EcoDebate , 21/02/2018.

A Divisão de População da ONU divulgou, em 21 de junho de 2017, a atualização dos cenários das projeções populacionais para todos os países e regiões. Na revisão de 2010, a população mundial chegaria a 9,3 bilhões de habitantes em 2050 e de 10,1 bilhões de habitantes em 2100. Na revisão 2017, os números para a população total subiram mais ainda, para 9,8 bilhões em 2050 e 11,2 bilhões em 2100.

O motivo da diferença está na redução mais lenta das taxas de fecundidade nos países de renda média (menos desenvolvidos) e baixa (muito menos desenvolvidos). Na revisão de 2010 da UN/ESA, a projeção da população em 2100 dos países desenvolvidos era de 1,33 bilhão, dos países menos desenvolvidos de 6,1 bilhões e dos países muito menos desenvolvidos de 2,7 bilhões. Na revisão 2017, os números passaram para 1,28 bilhão, 3,2 bilhões e 6,7 bilhões, respectivamente, conforme mostra o gráfico acima.

Ou seja, a população dos países desenvolvidos, com 1,26 bilhão de habitantes em 2017, deve ficar praticamente estável até 2100 (mesmo recebendo imigrantes dos países mais pobres). Em compensação, as projeções para os países não desenvolvidos indicam um aumento maior do que o previsto anteriormente. Isto porque as taxas de fecundidade não estão caindo no ritmo projetado anteriormente.

A população mundial em 2017 foi estimada em 7,6 bilhões de habitantes e projetada para 8,6 bilhões em 2030. O mundo terá mais 1 bilhão de habitantes nos próximos 13 anos e praticamente a totalidade deste incremento vai ocorrer nos países menos desenvolvidos (renda média) ou muito menos desenvolvidos (renda baixa).
O gráfico abaixo mostra que a população dos países desenvolvidos representava 32,1% do total em 1950 e deve cair para 11,5% em 2100. O percentual dos países menos desenvolvidos (renda média) deve se manter praticamente estável em torno de 60%. O percentual dos países muito menos desenvolvidos (renda baixa) vai subir de 7,7% do total populacional de 1950 para 28,6% em 2100.


O maior crescimento demográfico do século XXI deve ocorrer no grupo dos países mais pobres. O mundo caminha para uma situação em que os países desenvolvidos vão ter que enfrentar os problemas decorrentes do envelhecimento populacional, enquanto os países pobres, especialmente da África Subsaariana, vão ter que enfrentar os problemas decorrentes da “bolha de jovens” com poucas oportunidades de educação e emprego. A migração poderia ser uma solução parcial, mas dificilmente o fluxo de pessoas conseguirá romper as barreiras da xenofobia e das dificuldades de integração de populações com características econômicas, sociais e culturais tão diversas. A crise migratória do Mediterrâneo deve se agravar ao longo do século.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) calcula que existam 225 milhões de mulheres sem acesso aos métodos de regulação da fecundidade. Isto quer dizer que é grande o número de gravidez indesejada, especialmente entre as pessoas mais pobres e mais necessitadas. Nem os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM) e nem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) realizaram os devidos esforços para universalizar o acesso à saúde sexual e reprodutiva.

O mundo de hoje, com 7,6 bilhões de habitantes, já tem uma Pegada Ecológica 68% maior do que a biocapacidade da Terra e já ultrapassou 4 das 9 fronteiras planetárias, segundo metodologia do Stockholm Resilience Centre. O aquecimento global e a degradação dos ecossistemas agravam as perspectivas para as próximas décadas. Um acréscimo de quase 4 bilhões de habitantes nos próximos 83 anos vai colocar um grande desafio para a humanidade, que terá de garantir qualidade de vida para toda esta população, sem comprometer ainda mais as condições do meio ambiente e a garantia dos direitos da biodiversidade.

Melhor seria se o mundo tivesse no caminho do decrescimento demoeconômico. Com menos pessoas e menor consumo a Pegada Ecológica poderia ficar em equilíbrio com a biocapacidade do Planeta e a humanidade poderia respeitar as fronteiras planetária e viver harmoniosamente dentro da comunidade biótica, evitando a 6ª extinção em massa das espécies. A Terra seria um lugar melhor com menos gente e mais biodiversidade.

Referências:

UN Population Division (2017). World Population Prospects: The 2017 Revision
https://esa.un.org/unpd/wpp/

Classification of countries by region, income group and subregion of the world
https://esa.un.org/unpd/wpp/General/Files/Definition_of_Regions.pdf

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

20 fevereiro, 2018

31ª Romaria da Terra do Paraná

“O FRUTO DA JUSTIÇA SERÁ A PAZ” (IS32,17)



31ª Romaria da Terra do Paraná

“O FRUTO DA JUSTIÇA SERÁ A PAZ” (IS32,17)

Caros irmãos e Irmãs da Caminhada,

A festa nunca termina, para aqueles e aquelas que são propagadores/as da Paz. 

Vimos através desta fazer contato com você agente de pastoral,comunidades, paróquias, dioceses para anunciar nossa 31ª Romaria da Terra do Paraná. A ser realizada dia 19 de agosto de 2018, em Barbosa Ferraz, Diocese de Campo Mourão.

Esse ano sob o contexto das ameaças sistemáticas da violência dos despejos dos acampamentos é que celebraremos o Deus que acampou entre nós e anuncia a todos e todas a Paz na terra aos homens e mulheres por ele amados.

Para bem celebrar nosso encontro de romeiros e romeiras da terra, refletiremos sob a Luz do Lema “Com direito e justiça, a paz supera a violência no campo”.

Desde já estamos convidando e convocando para que coloque em sua agenda, e inicie a motivação, mobilização e organização das caravanas de seu grupo, sua pastoral, paróquia, diocese e organizações/movimento sociais e populares. Para juntos celebrar nossa esperança de que “a prática da justiça”, resultará em tranquilidade e segurança duradoura em todos” os acampamentos”. E o povo, então passará a viver em ambiente feliz moradias
(terra) seguras e tranquilas. (cf Is 32,17-18). 

E que não haja nenhuma família camponesa sem terra, porque “vós sois todos irmãos” e, tens parte dessa herança.

Fraternalmente,


Pe. Dirceu Luiz Fumagalli
Juvenal José Rocha
Coordenação da Comissão Pastoral da Terra no Paraná.

Aprender a desaprender!


“Desaprendamos para aprender aquela graça que tornará possível a vida dentro de nós. Desaprendamos para aprender até que ponto Deus é a nossa raiz, o nosso tempo, a nossa atenção, a nossa contemplação, a nossa companhia, a nossa palavra, o nosso segredo, a nossa escuta, a nossa água e a nossa sede”.

José Tolentino de Mendonça (sacerdote português)

Oração


"Ó Jesus, Tu és a Palavra feita carne, a palavra eficaz, enviada pelo Pai à terra e que a Ele voltas depois de teres realizado o seu projeto de amor e salvação em favor da humanidade. Por isso, as tuas palavras estão carregadas de extraordinário poder.
Tu ensinas-nos a dizer: «Pai-nosso». Infunde em nós o teu Espírito Santo, para que o digamos com os sentimentos e as disposições que tinhas no teu próprio Coração. Aumenta em nós o amor filial e confiante no Pai, e o amor generoso e cheio de compreensão e misericórdia para com os irmãos.
Que a tua palavra fecunde o nosso árido coração e o faça produzir frutos de vida nova, e pão de amor, compaixão e perdão que sacie todos quantos encontrarmos nos caminhos da vida. Amém."

Fonte: Dehonianos

18 fevereiro, 2018

Mais uma Afilhada!

Mais uma Afilhada! 
A surpresa na tampa da caixinha!
Ela chegou com um presente e disse:
Lu é para você.
Ao abrir a caixinha bombom...
Quando vi a parte interna da tampa da caixinha  o pedido para ser sua madrinha do Sacramento da Crisma.
Nossa...quase chorei.
Ela pertence a Paróquia São Mateus  Apóstolo de Maringá.  A celebração do Sacramento será em maio.
Essa linda gatinha, Karla Heloisa, minha sobrinha e agora afilhada também.



16 fevereiro, 2018

Oração


"Senhor Jesus, infunde em mim o teu Espírito, que seja o meu guia neste tempo da Quaresma. Quero comungar no teu jejum para estar unido a Ti, para Te experimentar como o Esposo desejado. Aumenta em mim o sentido esponsal da vida cristã. Ensina-­me a jejuar de quanto me faz esquecer de Ti, de quanto me afasta da meditação da tua Palavra, de quanto me leva a procurar outros «amantes» e a correr o perigo de Te ser infiel.

Que o meu jejum me abra também ao amor dos irmãos e me faça percorrer o caminho da caridade até amar como Tu amas, até que o meu amor pelos irmãos seja reflexo daquele amor que reina entre Ti, o Pai e o Espírito. Amém."

Fonte: Dehonianos

15 fevereiro, 2018

Biblioteca Online Pedro Casaldáliga


Biblioteca Online Pedro Casaldáliga
Para as/os que tem carinho por Pedro Casaldáliga e da sua obra.




Por ocasião dos 90 anos do autor, tome conhecimento do lançamento do novo portal online com toda sua bibliografia, disponível para todos os públicos de forma gratuita, atendendo ao pedido de Pedro.

Livros, artigos, poemas e outros muitos conteúdos do autor estão sendo incorporados ao portal, para que toda sua obra fique garantida de forma permanente durante algumas décadas.

Acessar é muito fácil: todos os conteúdos estão reunidos na plataforma "Academia.edu" e Pedro Casaldáliga tem seu próprio site ali. 

Você pode ver os títulos, fazer download e comentá-los online com outros interessados. 

Você pode ser seguidor (follow – segue) do portal e receber notícias. 

No próximo dia 16 de fevereiro Pedro completa 90 anos e a melhor forma de celebrar esta data é ler e comentar sua obra.

Divulgue esta grande notícia e comunique este portal em suas redes sociais e publicações, assim como à todas as pessoas interessadas em sua obra.
Visite a biblioteca online de Pedro.


14 fevereiro, 2018

Mensagem do Papa Francisco aos aos brasileiros por ocasião da CF 2018


Mensagem do Papa Francisco aos aos brasileiros por ocasião da CF 2018

Como caminho de conversão quaresmal, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), todos os anos apresenta a Campanha da Fraternidade.

Um caminho pessoa, familiar, comunitário e social que nos guia ao nosso Deus, a salvação.

“Fraternidade e superação da violência” é o tema da Campanha para a Quaresma, em 2018. O Evangelho de Mateus inspira o lema: “ Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8).

Tem como objetivo geral: “Construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência”.

De acordo com o Secretário-Geral da CNBB, Dom Leonardo Ulrichs Steiner, sofremos e estamos quase estarrecidos com a violência. Não apenas com as mortes que aumentam, mas também por ela perpassar quase todos os âmbitos da nossa sociedade. A ética que norteava as relações sociais está esquecida. Hoje, temos corrupção, morte e agressividade nos gestos e nas palavras. Assim, quase aumenta a crença em nossa incapacidade de vivermos como irmãos.

A Campanha será lançada oficialmente nesta Quarta-feira de Cinzas, por ocasião do lançamento da Campanha da Fraternidade 2018 o Papa Francisco enviou uma mensagem ao Presidente da CNBB, o arcebispo de Brasília, Cardeal Dom Sérgio da Rocha.


Eis na íntegra a mensagem do Papa:


Queridos irmãos e irmãs do Brasil!

Neste tempo quaresmal, de bom grado me uno à Igreja no Brasil para celebrar a Campanha “Fraternidade e a superação da violência”, cujo objetivo é construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência. Desse modo, a Campanha da Fraternidade de 2018 nos convida a reconhecer a violência em tantos âmbitos e manifestações e, com confiança, fé e esperança, superá-la pelo caminho do amor visibilizado em Jesus Crucificado.

Jesus veio para nos dar a vida plena (cf. Jo 10, 10). Na medida em que Ele está no meio de nós, a vida se converte num espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos (cf. Exort. Apost. Evangelii gaudium, 180). Este tempo penitencial, onde somos chamados a viver a prática do jejum, da oração e da esmola nos faz perceber que somos irmãos. Deixemos que o amor de Deus se torne visível entre nós, nas nossas famílias, nas comunidades, na sociedade.

“É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (1 Co 6,2; cf. Is 49,8), que nos traz a graça do perdão recebido e oferecido. O perdão das ofensas é a expressão mais eloquente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Às vezes, como é difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração, a paz. Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança é condição necessária para se viver como irmãos e irmãs e superar a violência. Acolhamos, pois, a exortação do Apóstolo: “Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento” (Ef 4, 26).

Sejamos protagonistas da superação da violência fazendo-nos arautos e construtores da paz. Uma paz que é fruto do desenvolvimento integral de todos, uma paz que nasce de uma nova relação também com todas as criaturas. A paz é tecida no dia-a-dia com paciência e misericórdia, no seio da família, na dinâmica da comunidade, nas relações de trabalho, na relação com a natureza. São pequenos gestos de respeito, de escuta, de diálogo, de silêncio, de afeto, de acolhida, de integração, que criam espaços onde se respira a fraternidade: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8), como destaca o lema da Campanha da Fraternidade deste ano. Em Cristo somos da mesma família, nascidos do sangue da cruz, nossa salvação. As comunidades da Igreja no Brasil anunciem a conversão, o dia da salvação para conviverem sem violência.

Peço a Deus que a Campanha da Fraternidade deste ano anime a todos para encontrar caminhos de superação da violência, convivendo mais como irmãos e irmãs em Cristo. Invoco a proteção de Nossa Senhora da Conceição Aparecida sobre o povo brasileiro, concedendo a Bênção Apostólica. Peço que todos rezem por mim.

Vaticano, 27 de janeiro de 2018.

[Franciscus PP.]

Cartaz campanha da fraternidade 2018


Cartaz da CF 2018

O cartaz da campanha da fraternidade 2018 mostra um grupo de pessoas de diferentes idades e etnias de mãos dadas, representando a multiplicidade da sociedade brasileira. Especialmente no Ano do Laicato, que teve início na Igreja no Brasil, no ano passado, dia 26 de novembro de 2016, o convite é para, por meio da CF 2018, refletir sobre a problemática da violência, particularmente em como superá-la.

Segundo o secretário-executivo das Campanhas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), padre Luís Fernando da Silva, as pessoas que nele formam um círculo e unem as mãos indicam que a superação da violência só será possível a partir da união de todos. “A violência atinge toda a sociedade brasileira em suas múltiplas esferas, o caminho para superar a violência é a fraternidade entre as pessoas que se unem para implementar a cultura da paz”, explica.

Oração


"Senhor, que, mais uma vez, me ofereces a graça da Quaresma, tempo favorável, dia de salvação, ajuda-me a vivê-lo no segredo onde me vês, me amas e me esperas. Sei que as coisas exteriores têm a sua importância. Mas quero vivê-Ias na tua presença. Gostaria de fazer muitas obras de penitência durante este tempo. Mas, se fizer poucas, que sejam no teu amor, o que é mais importante do que fazer muitas para atrair a admiração e a estima dos outros. Quero fazer o que puder na oração, na mortificação, na caridade fraterna; mas quero fazê-lo na humildade e na sinceridade diante de Ti. Infunde em mim o teu Espírito Santo que me conduza e guie pelo deserto da penitência, durante esta Quaresma. Amém."

Fonte: Dehonianos

09 fevereiro, 2018

Bom carnaval a todas e a todos! - "Carnaval é a Alegria Popular"


"Carnaval é a Alegria Popular"

“Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Estive recordando sambas e frevos, do disco do Baile da Saudade: ô jardineira por que estas tão triste? Mas o que foi que aconteceu… Tu és muito mais bonita que a camélia que morreu. Brinque, meu povo povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!”

Dom Hélder Câmara 

Hino oficial da Campanha da Fraternidade 2018 (legendado)

Papa: o pecador pode se tornar santo; o corrupto, não


Na missa celebrada na Casa Santa Marta, o Papa Francisco falou de Davi e Salomão e advertiu para os riscos do "enfraquecimento do coração".

Davi é santo, mesmo que tenha sido um pecador. O grande Salomão é um corrupto e o Senhor o rejeitou. O Papa Francisco concentrou a sua homilia desta quinta-feira (08/02), na capela da Casa Santa Marta, sobre este aparente paradoxo.

A leitura proposta pela liturgia, extraída do primeiro Livro dos Reis, fala de Salomão e de Davi. “Ouvimos algo um pouco estranho”, comentou o Papa: “o coração de Salomão não permaneceu íntegro com o Senhor, seu Deus, como o coração de Davi, seu pai”. E explica que é estranho porque de Salomão não conhecemos que tenha cometido grandes pecados, era sempre equilibrado, enquanto de Davi sabemos que teve uma vida difícil, que foi um pecador.

E mesmo assim Davi é santo e de Salomão se diz que o seu coração se “desviou do Senhor” para seguir outros deuses. Ele que havia sido louvado pelo Senhor quando pediu a prudência para governar ao invés das riquezas. Como se explica isso, se questionou o Papa. É porque Davi sabe que pecou e toda vez pede perdão, enquanto Salomão, de que todos falavam bem e que também a Rainha de Sabá quis encontrá-lo, tinha se afastado do Senhor, mas sem perceber.

E aqui está o problema do enfraquecimento do coração. Quando o coração começa a se enfraquecer, não é como uma situação de pecado: você comete um pecado e percebe imediatamente: “Eu cometi este pecado”, é claro. O enfraquecimento do coração é um caminho lento, que escorrego pouco a pouco, pouco a pouco, pouco a pouco… E Salomão, adormecido na sua glória, na sua fama, começou a percorrer este caminho.

Paradoxalmente, “é melhor a clareza de um pecado do que o enfraquecimento do coração”, afirmou Francisco, o grande Rei Salomão “acabou corrupto: tranquilamente corrupto, porque seu coração tinha se enfraquecido.”

E um homem e uma mulher com o coração fraco, ou enfraquecido, é uma mulher, um homem derrotado. Este é o processo de muitos cristãos, muitos de nós. “Não, eu não cometo pecados graves.” Mas como é o seu coração? É forte? Permanece fiel ao Senhor ou você escorrega lentamente?

O drama do enfraquecimento do coração pode acontecer a todos nós na vida. Que fazer então? E Francisco respondeu: “Vigiar. Vigiar o seu coração. Vigiar. Todos os dias, estar atento ao que acontece no seu coração” e depois concluiu:

Davi é santo. Era pecador. Um pecador pode se tornar santo. Salomão foi rejeitado porque era corrupto. Um corrupto não pode se tornar santo. E à corrupção se chega por aquele caminho do enfraquecimento do coração. Vigilância. Todos os dias vigiar o coração. Como é o meu coração, a relação com o Senhor. E saborear a beleza e a alegria da fidelidade.


Fonte: Vatican News

07 fevereiro, 2018

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2018


Divulgada a Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2018 

O texto foi inspirado no Evangelho de Mateus «Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos» (24, 12). 
 
O Papa Francisco adverte para as inúmeras formas que os falsos profetas podem assumir. 


Podem ser “encantadores de serpentes”, ou seja, aproveitam-se das emoções humanas para escravizar as pessoas e levá-las para onde querem. 


Segue a mensagem: 


MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA A QUARESMA DE 2018

«Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos» (Mt 24, 12)


Amados irmãos e irmãs!

Mais uma vez vamos encontrar-nos com a Páscoa do Senhor! Todos os anos, com a finalidade de nos preparar para ela, Deus na sua providência oferece-nos a Quaresma, «sinal sacramental da nossa conversão»,[1] que anuncia e torna possível voltar ao Senhor de todo o coração e com toda a nossa vida.

Com a presente mensagem desejo, este ano também, ajudar toda a Igreja a viver, neste tempo de graça, com alegria e verdade; faço-o deixando-me inspirar pela seguinte afirmação de Jesus, que aparece no evangelho de Mateus: «Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos» (24, 12).

Esta frase situa-se no discurso que trata do fim dos tempos, pronunciado em Jerusalém, no Monte das Oliveiras, precisamente onde terá início a paixão do Senhor. Dando resposta a uma pergunta dos discípulos, Jesus anuncia uma grande tribulação e descreve a situação em que poderia encontrar-se a comunidade dos crentes: à vista de fenómenos espaventosos, alguns falsos profetas enganarão a muitos, a ponto de ameaçar apagar-se, nos corações, o amor que é o centro de todo o Evangelho.

Os falsos profetas

Escutemos este trecho, interrogando-nos sobre as formas que assumem os falsos profetas?

Uns assemelham-se a «encantadores de serpentes», ou seja, aproveitam-se das emoções humanas para escravizar as pessoas e levá-las para onde eles querem. Quantos filhos de Deus acabam encandeados pelas adulações dum prazer de poucos instantes que se confunde com a felicidade! Quantos homens e mulheres vivem fascinados pela ilusão do dinheiro, quando este, na realidade, os torna escravos do lucro ou de interesses mesquinhos! Quantos vivem pensando que se bastam a si mesmos e caem vítimas da solidão!

Outros falsos profetas são aqueles «charlatães» que oferecem soluções simples e imediatas para todas as aflições, mas são remédios que se mostram completamente ineficazes: a quantos jovens se oferece o falso remédio da droga, de relações passageiras, de lucros fáceis mas desonestos! Quantos acabam enredados numa vida completamente virtual, onde as relações parecem mais simples e ágeis, mas depois revelam-se dramaticamente sem sentido! Estes impostores, ao mesmo tempo que oferecem coisas sem valor, tiram aquilo que é mais precioso como a dignidade, a liberdade e a capacidade de amar. É o engano da vaidade, que nos leva a fazer a figura de pavões para, depois, nos precipitar no ridículo; e, do ridículo, não se volta atrás. Não nos admiremos! Desde sempre o demónio, que é «mentiroso e pai da mentira» (Jo 8, 44), apresenta o mal como bem e o falso como verdadeiro, para confundir o coração do homem. Por isso, cada um de nós é chamado a discernir, no seu coração, e verificar se está ameaçado pelas mentiras destes falsos profetas. É preciso aprender a não se deter no nível imediato, superficial, mas reconhecer o que deixa dentro de nós um rasto bom e mais duradouro, porque vem de Deus e visa verdadeiramente o nosso bem.

Um coração frio

Na Divina Comédia, ao descrever o Inferno, Dante Alighieri imagina o diabo sentado num trono de gelo;[2] habita no gelo do amor sufocado. Interroguemo-nos então: Como se resfria o amor em nós? Quais são os sinais indicadores de que o amor corre o risco de se apagar em nós?

O que apaga o amor é, antes de mais nada, a ganância do dinheiro, «raiz de todos os males» (1 Tm 6, 10); depois dela, vem a recusa de Deus e, consequentemente, de encontrar consolação n'Ele, preferindo a nossa desolação ao conforto da sua Palavra e dos Sacramentos.[3] Tudo isto se permuta em violência que se abate sobre quantos são considerados uma ameaça para as nossas «certezas»: o bebé nascituro, o idoso doente, o hóspede de passagem, o estrangeiro, mas também o próximo que não corresponde às nossas expetativas.

A própria criação é testemunha silenciosa deste resfriamento do amor: a terra está envenenada por resíduos lançados por negligência e por interesses; os mares, também eles poluídos, devem infelizmente guardar os despojos de tantos náufragos das migrações forçadas; os céus – que, nos desígnios de Deus, cantam a sua glória – são sulcados por máquinas que fazem chover instrumentos de morte.

E o amor resfria-se também nas nossas comunidades: na Exortação apostólica Evangelii gaudium procurei descrever os sinais mais evidentes desta falta de amor. São eles a acédia egoísta, o pessimismo estéril, a tentação de se isolar empenhando-se em contínuas guerras fratricidas, a mentalidade mundana que induz a ocupar-se apenas do que dá nas vistas, reduzindo assim o ardor missionário.[4]

Que fazer?

Se porventura detetamos, no nosso íntimo e ao nosso redor, os sinais acabados de descrever, saibamos que, a par do remédio por vezes amargo da verdade, a Igreja, nossa mãe e mestra, nos oferece, neste tempo de Quaresma, o remédio doce da oração, da esmola e do jejum.

Dedicando mais tempo à oração, possibilitamos ao nosso coração descobrir as mentiras secretas, com que nos enganamos a nós mesmos,[5] para procurar finalmente a consolação em Deus. Ele é nosso Pai e quer para nós a vida.

A prática da esmola liberta-nos da ganância e ajuda-nos a descobrir que o outro é nosso irmão: aquilo que possuo, nunca é só meu. Como gostaria que a esmola se tornasse um verdadeiro estilo de vida para todos! Como gostaria que, como cristãos, seguíssemos o exemplo dos Apóstolos e víssemos, na possibilidade de partilhar com os outros os nossos bens, um testemunho concreto da comunhão que vivemos na Igreja. A este propósito, faço minhas as palavras exortativas de São Paulo aos Coríntios, quando os convidava a tomar parte na coleta para a comunidade de Jerusalém: «Isto é o que vos convém» (2 Cor 8, 10). Isto vale de modo especial na Quaresma, durante a qual muitos organismos recolhem coletas a favor das Igrejas e populações em dificuldade. Mas como gostaria também que no nosso relacionamento diário, perante cada irmão que nos pede ajuda, pensássemos: aqui está um apelo da Providência divina. Cada esmola é uma ocasião de tomar parte na Providência de Deus para com os seus filhos; e, se hoje Ele Se serve de mim para ajudar um irmão, como deixará amanhã de prover também às minhas necessidades, Ele que nunca Se deixa vencer em generosidade?[6]

Por fim, o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia a dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condição do nosso espírito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome.

Gostaria que a minha voz ultrapassasse as fronteiras da Igreja Católica, alcançando a todos vós, homens e mulheres de boa vontade, abertos à escuta de Deus. Se vos aflige, como a nós, a difusão da iniquidade no mundo, se vos preocupa o gelo que paralisa os corações e a ação, se vedes esmorecer o sentido da humanidade comum, uni-vos a nós para invocar juntos a Deus, jejuar juntos e, juntamente connosco, dar o que puderdes para ajudar os irmãos!

O fogo da Páscoa

Convido, sobretudo os membros da Igreja, a empreender com ardor o caminho da Quaresma, apoiados na esmola, no jejum e na oração. Se por vezes parece apagar-se em muitos corações o amor, este não se apaga no coração de Deus! Ele sempre nos dá novas ocasiões, para podermos recomeçar a amar.

Ocasião propícia será, também este ano, a iniciativa «24 horas para o Senhor», que convida a celebrar o sacramento da Reconciliação num contexto de adoração eucarística. Em 2018, aquela terá lugar nos dias 9 e 10 de março – uma sexta-feira e um sábado –, inspirando -se nestas palavras do Salmo 130: «Em Ti, encontramos o perdão» (v. 4). Em cada diocese, pelo menos uma igreja ficará aberta durante 24 horas consecutivas, oferecendo a possibilidade de adoração e da confissão sacramental.

Na noite de Páscoa, reviveremos o sugestivo rito de acender o círio pascal: a luz, tirada do «lume novo», pouco a pouco expulsará a escuridão e iluminará a assembleia litúrgica. «A luz de Cristo, gloriosamente ressuscitado, nos dissipe as trevas do coração e do espírito»,[7] para que todos possamos reviver a experiência dos discípulos de Emaús: ouvir a palavra do Senhor e alimentar-nos do Pão Eucarístico permitirá que o nosso coração volte a inflamar-se de fé, esperança e amor.

Abençoo-vos de coração e rezo por vós. Não vos esqueçais de rezar por mim.
Vaticano, 1 de Novembro de 2017
Solenidade de Todos os Santos

Francisco

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[1] Missal Romano, I Domingo da Quaresma, Oração Coleta.

[2] «Imperador do reino em dor tamanho / saía a meio peito ao gelo baço» (Inferno XXXIV, 28-29).

[3] «É curioso, mas muitas vezes temos medo da consolação, medo de ser consolados. Aliás, sentimo-nos mais seguros na tristeza e na desolação. Sabeis porquê? Porque, na tristeza, quase nos sentimos protagonistas; enquanto, na consolação, o protagonista é o Espírito Santo» (Angelus, 7/XII/2014).

[4] Nn. 76-109.

[5] Cf. Bento XVI, Carta enc. Spe salvi, 33.

[6] Cf. Pio XII, Carta enc. Fidei donum, III.

[7] Missal Romano, Vigília Pascal, Lucernário.