24 agosto, 2016

Política, Igreja e combate à corrupção

Neste momento de campanha eleitoral, renova-se a oportunidade de continuar avançando no combate à corrupção. A pior posição seria o descrédito: “Não adianta votar, todos são iguais, nada vai mudar, são todos corruptos”.

A nossa história oferece bons exemplos de lutadores pela conquista da democracia e de grande capacidade de superar crises de todo tipo. O nosso compromisso de cidadãos não é só apertar um botão, exige discernimento, e corresponsabilidade.

Escolha e voto, são duas situações que revelam o exercício da cidadania diante da realidade que temos e aquela que queremos.

A Palavra de Deus nos relata que o Senhor chamou lideranças para libertar e governar o seu povo. Essas pessoas sentiam o peso desse chamado, mas encontravam em Deus a força para não recuar de seus compromissos. Moisés, sentindo-se impotente diante das forças da opressão, ouviu de Deus estas palavras: “Eu estarei contigo” (Ex 3,12). O sinal de estar no bom caminho era a adoração ao verdadeiro Deus e não aos ídolos. Não sabendo Moisés e Aarão o que falariam ao povo, Deus lhes assegurou: “Eu vos ensinarei o que deveis falar” (Ex 4,12). Essas são duas atitudes exemplares para o político: buscar em Deus sua força e não se deixar seduzir por ídolos, tais como o dinheiro e o poder corrupto.

Outra decisão tomada por Moisés foi aceitar a colaboração de homens sábios e experimentados, que ajudassem o povo a se organizar (cf. Dt 1,15). Na legislação dada pelo Senhor, os pobres, os órfãos e os estrangeiros tinham um lugar especial.

Jesus Cristo ensinou a seus discípulos que a atitude básica do cristão revestido de poder é a atitude de serviço, não de dominação nem de busca do proveito pessoal. Ao perceber que os discípulos discutiam entre si sobre quem seria o maior do Reino de Deus, Jesus lhes ensinou que maior é aquele que serve: “Os grandes governam oprimindo o povo. Entre vós não há de ser assim. Quem quiser fazer-se grande entre vós será vosso servidor” (cf. Mt 20,26).

A Igreja, em diferentes momentos históricos, traduziu os ensinamentos do Evangelho na sua doutrina social, base segura de uma ação política honesta e competente. Entre esses princípios doutrinais existe uma hierarquia. O primeiro deles fundamenta os demais: a dignidade da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus e a busca do bem comum.  Há ainda o princípio da subsidiariedade, segundo o qual é preciso respeitar a autonomia relativa de cada nível de competência. Ao político cabe conhecer e apoiar as iniciativas de cada comunidade.

O papa emérito Bento XVI, em sua primeira encíclica, sobre o amor cristão, afirma que a militância política é missão especifica de todos os batizados, que não se devem furtar às suas obrigações nesse campo. Estes, como cidadão do Estado, são chamados a participar pessoalmente na vida pública, assumindo funções legislativas e administrativas que se destinam a promover, orgânica e institucionalmente, o bem comum” (Deus caritas est, n. 29). A Igreja, enquanto instituição, não assume opções partidárias, mas empenha-se na luta geral pela justiça, ajudando a purificar a razão e a formar a consciência das pessoas: “A Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política, não pode nem deve se colocar no lugar do Estado. Mas também não pode nem deve ficar a margem na luta pela justiça. Deve inserir-se nela pela via da argumentação racional e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a justiça, que sempre requer renúncias também, não poderá firmar-se nem prosperar” (Deus caritas est, n. 28).  (Texto com informações das orientações da CNBB, sobre as eleições)

Dom Anuar Battisti

23 agosto, 2016

Afirmar a resistência constitucional

Depois de tantos anos de ditadura e autoritarismo superados pelas lutas dos democratas brasileiros das quais se originou a Constituição de 1988, lamentavelmente estamos vendo dia a dia o enfraquecimento dos direitos sociais e das garantias de liberdades.

O impeachment, previsto na Constituição como um remédio para punir governantes que cometem crimes de responsabilidade, foi transformado em instrumento meramente político para golpear um mandato legítimo da Presidenta da República conferido por mais de cinquenta e quatro milhões de votos.

Sem provas do crime de responsabilidade exigido pela Constituição, o parlamento rasga a Constituição e cassa um mandato. E assim fazendo, põe em risco a democracia, duramente conquistada depois de mais de 20 anos de ditadura militar.

Diante disso, reunidos em Porto Alegre neste dia 18 de agosto, os democratas signatários chamam a atenção da nação brasileira para o processo de enfraquecimento, retirada e violação de direitos sociais e fundamentais previstos em leis e na Constituição.

E também denunciam o uso do direito contra o próprio direito. Em nome da Constituição, eliminam aquilo que nela está consagrado. Trata-se da legitimação dos retrocessos através do próprio direito. Por isso, hoje, além das ruas e das arenas políticas, boa parte das lutas contra os diversos golpismos deverão ocorrer nos tribunais e nas salas de audiência.

Por isso nos propomos a manter um fluxo regular de denúncias e relatos do que está acontecendo aos órgãos nacionais e internacionais de Direitos Humanos, além de instar o Judiciário e o Ministério Público a assumirem uma perspectiva propositiva de cumprimento do texto constitucional. Vamos anunciar ao "mundo jurídico" que há um processo de resistência constitucional em marcha e que estamos aqui, vigilantes e lutando. A resistência constitucional exige que todos os operadores do direito se comprometam com a Democracia, com o Estado Democrático de Direito e com os direitos consagrados do povo.

Se a Constituição estabelece que o Brasil é uma República que visa a erradicar a pobreza, fazer justiça social e construir uma sociedade justa e solidária, é preciso saber que esse dispositivo vale e é norma. Com a Constituição como arma é que poderemos enfrentar a parcialidade da mídia, a cumplicidade de amplos setores do Judiciário, do Ministério Público e das polícias para com a repressão, cada vez mais truculenta, aos setores vulneráveis da sociedade. E, sem facciosismos, ter claro que o combate à corrupção não se faz com a transformação da justiça em justiciamento. Como já afirmou uma associação de magistrados, não se combate a corrupção rasgando a Constituição.

Se o povo e os trabalhadores não se envolveram diretamente na discussão do processo de impeachment é porque viram o episódio como uma disputa interna das elites políticas. Mas agora que começa a ofensiva contra os direitos trabalhistas, previdenciários e sociais, o verdadeiro caráter do golpe se desnuda e é o momento de dar concretude ao processo de resistência constitucional. Direitos são cláusulas pétreas. É proibido retroceder.

Resistir significa denunciar que a Constituição está sendo rasgada em nome dela mesma. E gritar que, infelizmente, depois da promulgação da Constituição de 1988 que estabeleceu um conjunto de conquistas sociais, jamais se havia pensado que chegaria o dia em que seria revolucionário defender a legalidade constitucional.

Porto Alegre, 18 de agosto de 2016.
CARREIRAS JURÍDICAS PELA DEMOCRACIA
ADVOGADOS E ADVOGADAS PELA LEGALIDADE DEMOCRÁTICA

Fonte: http://itacir-brassiani.blogspot.com.br

Mães indígenas menores de 16 anos poderão receber salário-maternidade

A Procuradoria-Geral Federal aprovou parecer que possibilita o pagamento pelo INSS de salário-maternidade a mães indígenas menores de 16 anos. A decisão considerou as condições sociais, econômicas e culturais peculiares dos povos indígenas, em que as crianças são, desde cedo, integradas ao processo de sociabilidade econômica, participando das atividades produtivas de suas comunidades.
O parecer foi elaborado em conjunto entre as Procuradorias Federais Especializadas da Funai e do INSS e representantes do Departamento de Consultoria e Contencioso da Procuradoria-Geral Federal com o objetivo de apresentar uma orientação jurídica uniforme para a implementação do benefício em questão.
Para se chegar à conclusão, foram consideradas decisões proferidas pela Justiça Federal e pelo Superior Tribunal Federal concedendo o benefício a indígenas menores de 16 anos, fundamentadas em laudos antropológicos que demonstram que as formas de organização social próprias desses povos permitem a admissão de responsabilidade laborativa às jovens indígenas, bem como o casamento em idade próxima à menarca.
Os indígenas têm acesso aos benefícios do INSS na condição de segurado especial que desempenha atividade rural em regime de economia familiar. No parecer, também foi levando em consideração o fato de que a norma constitucional que veda o trabalho a menores de 16 anos, por ter o objetivo de proteger a criança e o jovem, não pode vir a prejudicar as mães indígenas menores de 16 anos, nos casos em que estas teriam o direito ao benefício, mas ainda não teriam atingido a idade regulamentada por lei.
Observou-se o argumento da Nota Técnica elaborada pela Coordenação Geral de Promoção dos Direitos Sociais da Funai de que a formação da pessoa nas sociedades indígenas perpassa pelo treinamento que recebe desde criança nas funções que deverão desempenhar enquanto homens e mulheres de modo que as divisões etárias da nossa sociedade não correspondem à lógica desses povos. As divisões em grupos etários das sociedades indígenas possuem outra lógica de classificação dependendo, em quase sua totalidade, da consagração em ritos de passagem, que os qualifica para desempenhar novas funções em suas comunidades.
Após os rituais, que podem ocorrer antes dos 16 anos, meninas e meninos são considerados aptos para o casamento. Sendo assim, e estando a jovem mãe indígena inserida no trabalho comunitário, a compreensão é de que o benefício previdenciário do salário maternidade deverá ser concedido mesmo antes dos 16 anos, pois seu trabalho comunitário rural a caracteriza como segurada especial e o casamento, considerado pela sociedade envolvente como precoce, está dentro dos costumes e tradições dos povos indígenas.
 *Por Clarissa Tavares/ Ascom.

Fonte: http://www.funai.gov.br

22 agosto, 2016

Tocantinópolis acolhe 1º Encontrão das CEBs da Amazônia

Tocantinópolis acolhe 1º Encontrão das CEBs da Amazônia

Acolherá representatividade de quase 15 mil CEBs


O 1º Encontrão das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Amazônia reunirá representantes dos regionais Norte, Noroeste e Norte 3 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Tocantinópolis (TO),  de 26 a 28 de agosto. O evento terá como tema "O rosto das CEBs na Amazônia: lutas e esperanças”. 
De acordo com o bispo emérito de Porto Velho (RO), dom Moacyr Grechi, o encontro celebrará o jeito amazônico de ser Igreja. “Este Mini-Intereclesial vai reunir uma expressiva representatividade de quase 15 mil CEBs dos Estados do Amazonas, Roraima, Rondônia, Acre, Amapá, Pará, Tocantins e norte do Goiás, para celebrar o seu jeito amazônico de ser Igreja: uma Igreja missionária que já nasceu “em saída”, enfatiza.
O primeiro Encontrão das CEBs na Amazônia é uma preparação para o 14º Interclesial de Londrina (PR), a ser realizado em 2018.  “Nesta Amazônia cada vez mais urbana, vamos refletir sobre o tema do 14º Intereclesial de Londrina (PR): 'CEBs e os desafios no mundo urbano' e o lema 'Eu vi e ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-lo', buscando respostas para a mobilidade humana, fortalecendo as CEBs como espaço privilegiado de solidariedade e mudança social (...), procurando novos caminhos de colaboração e compromisso entre as Igrejas da Amazônia”, explica dom Moacyr.
Ainda de acordo com o bispo, "o encontro das CEBs na Amazônia não quer ficar indiferente ao clamor por justiça dos povos indígenas, muito menos à luta dos ribeirinhos, povo quilombola, comunidades migrantes e rurais, urbanas, e principalmente aquelas em situação de ocupação". 
A programação do evento contará com análise de conjuntura e apresentação de painéis com os temas “A Caminha da Igreja na Amazônia: história, missão e evangelização” e “Documentos da Igreja na Amazônia”. Também constam celebrações eucarísticas.
Fonte: CNBB

Começa a mobilização para o Grito dos Excluídos/as

Começa a mobilização para o Grito dos Excluídos/as

Cidade do Vaticano (RV) - “Este sistema é insuportável: exclui, degrada, mata!” é lema da 22ª edição do Grito dos Excluídos, que tem como tema “Vida em primeiro lugar”. A mobilização, com auge em 7 de setembro, dia da Independência do Brasil, questiona e denuncia as várias formas de desigualdades do país, apontando qual o real papel do Estado diante das exclusões.
Lema inspirado em frase do Papa
O lema escolhido para a ocasião está fundamentado em um pronunciamento do Papa Francisco durante o Encontro Mundial dos Movimentos Populares, na Bolívia, em julho de 2015. Na ocasião, Francisco falou da urgência em romper o silêncio e lutar por mudanças reais dentro do sistema capitalista, que não compreende o sentido do “cuidar da Casa Comum”.
O evento marca o Dia da Independência em diversas localidades do país, com o objetivo de “valorizar a vida e anunciar a esperança de um mundo melhor, construindo ações a fim de fortalecer e mobilizar pessoas para atuar nas lutas populares e denunciar as injustiças e os males causados por este modelo econômico excludente, que degrada e mata”. O grito é organizado nos estados brasileiros em parceria com entidades e movimentos sociais.
Desafio é estar no meio do povo
De acordo com a coordenação nacional da articulação, “o Grito precisa continuar acontecendo e manifestando indignação diante de um sistema político e econômico que exclui e descarta a maioria da população da participação e decisão dos rumos do país, independentemente de partidos e governos. O desafio do Grito é estar no meio do povo como espaço de organização e mobilização, como um pequeno grande professor que contribui levando informação e formação e incentivando a participação popular, condição essa para construirmos as mudanças”.
O bispo de Ipameri (GO) e Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Guilherme Antônio Werlang, enviou uma carta de apoio ao 22º Grito dos Excluídos aos bispos e agentes de pastorais, na qual agradeceu o apoio recebido ao longo destes anos e ressaltou o comprometimento “a continuar gritando pela vida em primeiro lugar”. Dom Guilherme ainda solicitou “o efetivo apoio à essa iniciativa que renova a esperança dos pobres e os torna sujeitos de uma nova sociedade, sinal do Reino de Deus”.
Subsídios
Para garantir a formação da base, desde início de agosto foram oferecidos textos, divididos em eixos, que são subsídios informativos que interagem com o lema “Este sistema é insuportável: Exclui, degrada, mata!”. O primeiro disponibilizado, “Unir os generosos e as generosas”, foi escrito pelo assessor da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da CNBB, frei Olávio Dotto. Nesta semana, o segundo texto, do eixo “Desmentir a mídia”, já foi enviado aos articuladores. Nos próximos dias, serão trabalhados os eixos “Direitos Básicos e Função do Estado”; “As várias formas de violência”; “Participação política” e “a Rua é o lugar”.
O material, de acordo com a secretaria do Grito, deve contribuir na realização de reuniões e os pré-Gritos, além de facilitar a organização de agendas, definição de trajetos e locais para as atividades e manifestações por parte dos articuladores de várias cidades brasileiras. As ações deverão acontecer no período da Semana da Pátria, tendo como ponto máximo o dia 7 de Setembro.
Dar voz a quem precisa
O Grito dos Excluídos nasceu da necessidade de dar voz ao povo, às minorias e à população historicamente excluída pelo Estado, que elege uma “engrenagem de negociações financeiras que somente obedecem aos interesses dos que já têm, dos ricos, das empresas, dos bancos”. A organização da mobilização analisa que o direito à saúde, moradia, transporte, trabalho, informação e vida digna ficam comprometidos, aumentando a desigualdade social no país. Desde 1995, o Grito é um espaço para que movimentos sociais organizados se manifestem e cobrem direitos já assegurados em nossa Constituição Federal. A coordenação ressalta que a realização é um processo que não começa, nem termina no dia 7 de Setembro.

(CNBB/CM)

As CEBs já sentem essa perda!

As CEBs já sentem essa perda!

Outra partilha feita no CPC da CEB São Francisco de Assis, que partilho com vocês, é a respeito da catequese.
Hoje em nossa paróquia Nossa Senhora da Liberdade, não temos mais como ponto de referencia para fazer a catequese a CEB que a criança e o adolescente moram e com isso, uma perda grande, e a CEB já sente essa perda.
Percebeu-se na partilha uma necessidade de avaliar essa “perda”.
Precisa analisar se é viável a “igreja” estar sempre cedendo, seja pela mudança do tempo, seja por necessidade dos pais ou pelos caprichos dos pais.
Para entender a “Perda”
Em nossa paróquia a catequese sempre foi realizada nas CEBs.
Cada CEB formava grupos de catequese com catequistas e catequisando da CEB, com pouquíssima exceção.
Dessa forma a CEB tinham um campo fértil para trabalhar e envolver as crianças e adolescentes de sua CEB nas atividades e também seus pais com a colaboração dos catequistas.
Através da catequese conseguia informações das famílias dos catequisandos que precisavam de um acompanhamento mais de perto por parte da CEB.
Será que estamos agindo certo em ceder tanto?
Por que sempre nós temos que ceder?

Será que não precisamos resistir mais e tentar manter a catequese como era antes?
Mesmo quando tivermos nosso centro de pastoral, que em determinada sala catequista da CEB “a” dando catequese para os catequisandos da CEB “a”.
As CEBs ganhariam muito com isso, a catequese voltaria a ajudar as CEBs a envolver e chegar até suas crianças, seus adolescentes e suas famílias.

Identificar os “rostos sofridos”

Identificar os “rostos sofridos”
Para ir ao encontro, ser presença amiga, para acolher, amar e ajudar.
Partilho com vocês o primeiro item de pauta do Conselho Pastoral da CEB São Francisco de Assis, uma das nove Comunidades Eclesial de Base que compõe a estrutura da Paróquia Nossa Senhora da Liberdade realizado no dia 17/08/2016.
- Trazer presente o CPC realizado em janeiro deste ano, voltado para a questão social da CEB e que foi realizado em dois dias.
Em janeiro quando realizamos esse CPC, vimos o que geram e quais são os rostos sofridos no mundo e desses quais estão presentes em nossa paróquia e em nossa CEB São Francisco de Assis.
Vimos que os rostos sofridos no mundo estão presentes em nossa paróquia e em nossa CEB São Francisco de Assis.
Segue alguns dos rostos identificados:
- pobre
- desempregado
- excluídos/as
- presos e familiares
- doentes
- idosos
- depressivos 
- sozinhos
- afastados da Igreja
- famílias desestruturadas
- imigrante

Segundo Passo: em CPC com esses levantamentos discutir o que podemos fazer? Qual encaminhamento?

Terceiro Passo: ir ao encontro, ser presença amiga, para acolher, amar e ajudar.

Da seguinte forma:
Quando estivéssemos reunidos com nossa família, nos encontros de catequese, nos grupos de reflexão, nas reuniões com as/os catequistas, nas reuniões com nossas lideranças, na conversa com nossos vizinhos.

Quando estivermos reunidos com nossa família, nos encontros de catequese, nos grupos de reflexão, nas reuniões onde nossas lideranças se reúnem, procurem identificar esses rostos sofridos, esse povo.

Em Janeiro o encaminhamento foi:
Que a nossa CEB São Francisco de Assis tornasse missionária no dia a dia, tendo esse povo como foco de nossa missão, da seguinte forma:
- Primeiro Passo: identificar onde estão, moram.
O Primeiro Passo, identificar onde estão e moram deveria ser feito por todos nós lideranças, por quem não são lideranças más estão sempre nos ajudando Infelizmente não conseguimos avançar, pois esse primeiro passo primordial não aconteceu de fato como deveria.
Ontem em nosso CPC, assumimos novamente esse compromisso de fazer nossa CEB ser missionária no dia a dia tendo esse povo amado como foco de nossa ação missionária.
Portanto,
Anote o endereço. Sendo possível identificar qual sua maior necessidade, anote.
Tendo esse levantamento, marcaremos um CPC extraordinário, para passarmos para o Segundo Passo: o que podemos fazer? Qual encaminhamento?
E assim de forma organizada acontecer o Terceiro Passo: ir ao encontro, ser presença amiga, para acolher, amar e ajudar.

17 agosto, 2016

Cuidado com os políticos que fazem dos nossos sentimentos um instrumento de poder


Entrevista com Zygmunt Bauman

"Os vínculos se despedaçam, o espírito de solidariedade enfraquece, a separação e o isolamento tomam o lugar do diálogo e da cooperação", afirma o sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

A reportagem é de Giulio Azzolini, publicada no jornal La Repubblica, 05-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Professor Bauman, passaram-se 10 anos desde que o senhor escreveu "Medo líquido" (Ed. Laterza). O que mudou desde então?
O medo ainda é o sentimento predominante do nosso tempo. Mas, acima de tudo, é preciso que nos entendamos sobre que tipo de medo se trata. Muito semelhante à ansiedade, a uma incessante e generalizada sensação de alerta, é um medo multiforme, exagerado na sua imprecisão. É um medo difícil de se captar e, por isso, difícil de combater, que pode arranhar até os momentos mais insignificantes da vida cotidiana e afeta quase todas as camadas da convivência.

Para o filósofo e psicanalista argentino Miguel Benasayag, a nossa época é a das "paixões tristes." O que acontece quando o medo abraça a desconfiança?
Acontece que os laços humanos se despedaçam, que o espírito de solidariedade enfraquece, que a separação e o isolamento tomam o lugar do diálogo e da cooperação. Da família à vizinhança, do local de trabalho à cidade, não há ambiente que permaneça hospitaleiro. Instaura-se uma atmosfera sombria, em que cada um alimenta suspeitas sobre quem está ao seu lado e é, por sua vez, vítima das suspeitas alheias. Nesse clima de desconfiança exagerada, basta pouco para que o outro seja percebido como um potencial inimigo: será considerado culpado até que se prove o contrário.

Contudo, a Europa já conheceu e derrotou a hostilidade e o terror: o político das Brigadas Vermelhas na Itália e da RAF na Alemanha, o étnico-nacionalista do ETA na Espanha e do IRA na Irlanda. O nosso passado ainda pode nos ensinar algo, ou o perigo de hoje é incomparável?

Os precedentes certamente existem. No entanto, poucos mas decisivos aspectos tornam as atuais formas de terrorismo muito diferentes dos casos que você lembrava. Estes últimos se aproximavam a uma revolução (visando, como as Brigadas Vermelhas ou a RAF, a uma subversão do regime político) ou a uma guerra civil (apontando, como o ETA ou o IRA, à autonomia étnica ou à libertação nacional), mas sempre se tratava de fenômenos essencialmente domésticos. Pois bem, os atos terroristas atuais não pertencem a nenhuma dessas duas situações: a sua matriz, de fato, é completamente diferente.

Qual é a peculiaridade do terrorismo atual?
A sua força deriva da capacidade de corresponder às novas tendências da sociedade contemporânea: a globalização, por um lado, e a individualização, por outro. Por um lado, as estruturas que promovem o terrorismo se globalizam muito além das capacidades de controle dos Estados territoriais. Por outro lado, o comércio de armas e o princípio de emulação alimentado pela mídia global fazem com que quem empreenda ações de natureza terrorista sejam indivíduos isolados, movidos talvez por vinganças pessoais ou desesperados por um destino infeliz. A situação que brota da combinação desses dois fatores torna quase totalmente invencível a guerra contra o terrorismo. E é bastante improvável que ele abdique de dinâmicas já autopropulsivas. Em suma, repropõe-se, sob novas formas, o mítico problema do nó górdio, que ninguém sabe desfazer: e são muitos os chamados herdeiros de Alexandre Magno, que, enganando, juram que as suas espadas conseguiriam cortá-lo.

Para muitos políticos e muitos comentaristas, as raízes do terrorismo devem ser buscadas no aumento descontrolado dos fluxos migratórios. Quais são, na sua opinião, as principais razões da violência contemporânea?
Como é evidente, os ganhos eleitorais que são obtidos estabelecendo um nexo de causa-efeito entre imigração e terrorismo são muito alentadores para que os concorrentes no jogo de poder renunciem a eles. Para quem decide, é fácil e conveniente participar de um leilão sobre o meio mais eficaz para abolir a chaga da precariedade existencial, propondo soluções falsas, como fortificar as fronteiras, parar as ondas migratórias, ser inflexível com os requerentes de asilo... E, para a mídia, é igualmente fácil dar visibilidade à polícia que invade os campos de refugiados ou difundir as imagens fixas e detalhadas de um ou dois homens-bomba em ação. A verdade é que é malditamente complicado tocar com a mão as raízes autênticas de uma violência que cresce em todo o mundo, em volume e em intensidade. E, dia após dia, torna-se ainda mais difícil, senão precisamente impossível, demonstrar que os governos identificaram aquelas raízes e estão trabalhando realmente para erradicá-las.

Isso significa que os políticos ocidentais também utilizam o medo como instrumento política?
Exatamente. Assim como as leis do marketing impõem que os comerciantes proclamem incessantemente que o seu objetivo é a satisfação das necessidades dos consumidores – embora estando eles plenamente conscientes de que, ao contrário, a insatisfação é o verdadeiro motor da economia consumista –, assim também os empresários políticos dos nossos dias declaram, sim, que o seu objetivo é garantir a segurança da população, mas, ao mesmo tempo, fazer todo o possível, e até mais, para fomentar a sensação de perigo iminente. O núcleo da atual estratégia de dominação, portanto, consiste em acender e em manter viva a centelha de insegurança...

E qual seria o propósito dessa estratégia?
Se há algo que muitos líderes políticos não viam a hora de aprender, é o estratagema de transformar as calamidades em vantagens: reacender a chama da guerra é uma receita infalível para desviar a atenção dos problemas sociais, como a desigualdade, a injustiça, a degradação e a exclusão, e fortalecer o paco de comando-obediência entre os governantes e a sua nação. A nova estratégia de dominação, fundamentada no deliberado impulso à ansiedade, permite que as autoridades estabelecidas não cumpram a promessa de garantir coletivamente a segurança existencial. Deveremos nos contentar com uma segurança privada, pessoal, física.

O senhor acredita que, desse modo, as instituições correm o risco de perder o caráter democrático?
Certamente, a constante sensação de alerta afeta a ideia de cidadania, além das tarefas a ela ligadas, que acabam sendo liquidadas ou remodeladas. O medo é um recurso muito convidativo para substituir a demagogia com a argumentação e a política autoritária com a democracia. E os apelos cada vez mais insistentes à necessidade de um Estado de exceção vão nessa direção.
O Papa Francisco parece ser o único líder disposto a desfazer aquilo que o senhor, em outro lugar, chamou de "o demônio do medo".

O paradoxo é que é precisamente aquele que os católicos reconheçam como o porta-voz de Deus na terra que nos diz que o destino de salvação está nas nossas mãos. A estrada é um diálogo voltado a uma melhor compreensão recíproca, em uma atmosfera de respeito mútuo, em que estejamos dispostos a aprender uns com os outros.

Escutamos Francisco muito pouco, mas a sua estratégia, embora de longo prazo, é a única capaz de resolver uma situação que se assemelha cada vez mais a um campo minado, saturado de explosivos materiais e espirituais, salvaguardados pelos governos para manter a tensão em alta. Enquanto as relações humanas não tomarem o caminho indicado por Francisco, é mínima a esperança de limpar um terreno que produzirá novas explosões, mesmo que não saibamos prever com exatidão as coordenadas.

Fonte: Adital

A desigualdade no Brasil


“As 26,7 mil pessoas que estão no topo da pirâmide detêm 6% de toda a renda e riqueza daqueles que declararam o imposto de renda. Este grupo ganha 6.100% a mais do que a renda média dos que declararam imposto de renda e têm um volume de riqueza (bens e direitos) 6.450% superior à média dos declarantes. Os dados para os 1% ou 5% mais ricos também são revoltantes”, constata Clemente Ganz Lúcio, sociólogo, diretor técnico do DIEESE, membro do CDES – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e do Grupo Reindustrialização.

Eis o artigo.

Tempos difíceis no mundo e no Brasil. Crise econômica profunda, desemprego, arrocho salarial, precarização dos direitos, violência crescente, migrantes em fuga, xenofobia, descontentamento com as instituições e insatisfação com a política compõem uma lista e tanto, mas são apenas parte dos problemas. Em busca de solução, há o desafio de entender o que está acontecendo, identificar causas e consequências. E há um desafio maior ainda que é transformar, pelo conhecimento, os problemas em questões que mobilizem a sociedade para atuar e intervir.

A desigualdade é uma das questões mais complicadas e a causa estrutural da maioria dos problemas que vivemos. Nasce na sociedade com e devido ao modo pelo qual se produz e distribui riqueza e renda. É isso que diz Thomas Piketty no livro O capital no século XXI. Como afirma o autor, não há determinismo econômico na distribuição da renda e da riqueza, pois esta é uma construção histórica, feita em sociedade e, por isso, política. O debate sobre o que é justo e sobre as escolhas coletivas fazem parte do jogo social.

Recentemente (maio),a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda divulgou, pela primeira vez,breve estudo com base nos dados do Imposto de Renda da Pessoa Física 2014-2015 (Relatório da Distribuição Pessoal da Renda e da Riqueza da População Brasileira). Disponível do site do Ministério, o trabalho permite uma comparação com os dados produzidos por Piketty.

O estudo analisa os dados do imposto de renda de 26,5 milhões de pessoas, de um universo de 101 milhões que trabalharam nesse período, ou seja, um quarto desse contingente. Examina o rendimento e a riqueza (bens e direitos) por faixa de salários mínimos e por decil e centil de renda(como se dividíssemos o grupo de 26,7 milhões em 10, 100 ou 1.000 grupos de igual tamanho).

As 26,7 mil pessoas que estão no topo da pirâmide detêm 6% de toda a renda e riqueza daqueles que declararam o imposto de renda. Este grupo ganha 6.100% a mais do que a renda média dos que declararam imposto de renda e têm um volume de riqueza (bens e direitos) 6.450% superior à média dos declarantes. Os dados para os 1% ou 5% mais ricos também são revoltantes.

Considere que esses dados comparam a renda e a riqueza entre aqueles que declaram imposto de renda. Há, porém,75 milhões de pessoas que estão no mundo do trabalho e não fazem declaração de IR, a grande maioria, justamente porque possui renda muito baixa. Incluindo-os na comparação, a desigualdade aumentará muito.

Considere ainda que esse dado trata de cada CPF, ou seja, de cada pessoa e que os ricos distribuem riqueza e renda entre os CPFs da família. Agregando CPFs de uma família, são obtidos números ainda mais assustadores de concentração de renda e riqueza num mesmo núcleo. E se for considerado ainda que se trata da renda e da riqueza de pessoas físicas e que os ricos detêm muito mais patrimônio e renda (lucro) como pessoas jurídicas, os números aumentam mais e mais. Levando em consideração ainda que muitos ricos, como revelam as operações denunciadas em paraísos fiscais, deixam parte relevante da riqueza escondida do fisco naqueles países, a riqueza dessas pessoas chega à estratosfera. Para expressar qualquer opinião sintética sobre essa situação toda, é necessário um longo e sonoro palavrão.

A desigualdade revelada nesse importante relatório é de obrigatório conhecimento, pois é essencial para fundamentar uma atuação incisiva para a tributação sobre a renda, a riqueza e os dividendos. Há outros importantíssimos estudos sobre o tema, que valem comentários em outras oportunidades.

Com o trabalho é produzida muita renda e riqueza, que poderiam gerar bem-estar e qualidade de vida para todos. Mas o que acontece, o que se cria, é essa absurda desigualdade, que produz muitos dos problemas que abrem esse artigo. É fundamental atuar, intervir e transformar esse quadro perverso.

Fonte: http://ihu.unisinos.br

Racismo: a máquina de matar e encarcerar negros


Os fatores que levam ao racismo resultam em mortes prematuras. A guerra às drogas é um dos principais motores dessa engrenagem. Para a ativista norte-americana Deborah Small, estamos praticando genocídio ao permitir, em silêncio, o extermínio da juventude negra.

*texto de Maria Carolina Trevisan

O primeiro grande passo para enfrentar a segregação racial nos Estados Unidos foi dado por uma mulher negra. Em 1º dezembro de 1955, a costureira Rosa Parks se recusou a ceder seu lugar no ônibus para um branco. Há apenas 60 anos, a legislação de Montgomery, Alabama, nos Estados Unidos, obrigava os negros a dar preferência aos brancos no transporte público local. A prisão de Parks deflagrou um boicote aos ônibus, que durou um ano, até a revogação da lei. Sua atitude abriu caminho para o Movimento dos Direitos Civis, a favor da liberdade e da justiça, que teve Martin Luther King Jr. como um dos principais líderes.

A repressão racial se dá, ainda hoje, pela via da Justiça. É uma forma de institucionalizar o racismo. A máquina de encarcerar e matar negros é a chamada “guerra às drogas”. Uma das principais lideranças norte-americanas na luta pela reforma das políticas de drogas e no enfrentamento ao racismo é a ativista e advogada Deborah Peterson Small, 60 anos, graduada em Direito e Políticas Públicas pela Universidade de Harvard. Ela foi diretora para assuntos legais da New York Civil Liberties Union, dedicando-se aos direitos de pobres e presos e mais tarde dirigiu a área de políticas públicas e articulação comunitária na Drug Policy Alliance. Conheceu as entranhas do sistema que mantém presos 2,2 milhões de pessoas, a maior população carcerária do mundo, e compreendeu o mecanismo que transforma negros em suspeitos.

Com essa bagagem, Deborah fundou, há dez anos, a organização Break the Chains, que tem como missão sensibilizar lideranças e a comunidade negra para os efeitos perversos da guerra à drogas. No Brasil, a lógica é a mesma: o superencarceramento, com ajuda das políticas de drogas, mantém nas cadeias do País 515.482 pessoas. Dessas, 57% são negras e mais da metade é jovem (Infopen, 2014). Um quarto dos crimes se refere a entorpecentes. A polícia brasileira é também uma das mais letais do mundo. Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as forças policiais mataram em 2015 o equivalente a oito pessoas por dia. A impunidade se repete no Brasil e nos Estados Unidos, onde 97% dos casos de violência policial não resultaram em condenação, de acordo com o site Mapping Police Violence, com dados de de 2015.

Brasileiros – Como a letalidade policial e a guerra às drogas contribuem para a violência contra a população negra?
Deborah Small – Em 2001, fui à África do Sul para a Conferência Mundial contra o Racismo, em Durban. Ali percebi as dimensões internacionais do problema. Vi que a guerra às drogas estava devastando pobres e negros, com altos níveis de letalidade policial. Também compreendi que as condições da população negra no mundo são muito similares: relações guiadas pelo racismo, pela colonização e exploração econômica. Em relação às políticas de drogas, temos enorme quantidade de dinheiro e de polícia focada em combater o tráfico de drogas, que é um “crime consensual”. As negociações sobre drogas são feitas por partes que concordam. Uma pessoa quer algo e a outra fornece. A finalidade dessa política é transformar essas partes em criminosas, permitindo que a polícia possa agir com violência até o ponto de matar.

O Brasil está passando, neste momento, por uma instabilidade política. Se o governo de Michel Temer se mantiver, o que a senhora acha que vai acontecer com as políticas afirmativas voltadas para a população negra?
Vão piorar. Isso está muito claro. O fato de Temer ter montado uma equipe ministerial sem negros e sem mulheres, ter feito cortes em muitos programas sociais iniciados no governo anterior, de a repressão policial estar aumentando e de o número de mortes estar crescendo, aponta para isso. Fiquei chocada ao saber que a letalidade policial é a segunda causa de morte no Brasil. Os números nos Estados Unidos não chegam nem perto do que está acontecendo aqui. Não se vê clamor da sociedade brasileira por isso (segundo o Fórum de Segurança Pública, a polícia matou, em 2014, 3.009 pessoas, o equivalente a um homicídio a cada três horas. A média de mortes causadas por policiais nos Estados Unidos, por ano, é de cerca de 360).

Por que as pessoas no Brasil não se sensibilizam com as mortes de jovens negros?

Em parte porque os próprios negros no Brasil foram obrigados a acreditar que os seus jovens são os inimigos, os traficantes e, por isso, mereceriam o que está acontecendo. O mais problemático não é a maneira como os não negros brasileiros se sentem acerca da letalidade policial contra os jovens negros. Mas como a população negra brasileira se sente em relação a isso. Há tantas comunidades negras que foram convencidas a pensar em seus próprios jovens como “o perigo”… Dessa forma, o único jeito que encontram para se proteger é deixando que a polícia entre nas comunidades e os mate. É o que está acontecendo. A polícia “pacificadora” é direcionada apenas às comunidades negras. Quem eles estão “pacificando”? Os jovens negros. Nessas comunidades, o fato de as pessoas se sentirem ok com isso é estranho para mim.

“O Brasil nunca será um País de primeira classe enquanto considerar natural tratar os negros como cidadãos de segunda classe”

Como abordar o racismo e a violência policial com as crianças negras?
O triste de viver num país racista é que suas crianças negras não chegam a ser elas mesmas por muito tempo. Meu neto agora tem 4 anos e meio. Ele não sabe que é negro. Ainda não sabe o que isso significa. Ele sabe que sua cor é marrom. Para ele, é só o que ele é, assim como outras crianças são de outras cores. A cor da pele, nesse momento da vida, não tem significado. Ele não vê limitações, não tem conversas sobre isso com outras crianças. O triste é que em algum momento, no futuro próximo, isso vai mudar. Ele vai perceber as coisas que eu percebi: que as pessoas reagem ao fato de ele ser negro e como isso aparece em diferentes espaços públicos. Assim que ele ficar um pouco mais velho, seu pai e eu teremos que falar com ele sobre violência. Terá de aprender que determinadas atitudes das pessoas serão tomadas pelo fato de acharem que ele é um ladrão. Terá que viver com a suposição de que, em qualquer lugar que ele for, suspeitas de crime e caos irão segui-lo. E que isso não tem nada a ver com quem ele é, ou como ele age, ou o que ele veste. As pessoas não prestarão atenção nesses detalhes.

Como isso se expressa?

Eu moro na Bay Area, Califórnia, um lugar supostamente liberal. Mas continuo assistindo a pessoas brancas segurarem firmes suas bolsas quando me cruzam na rua. É inconsciente. Elas nem notam que fazem isso porque vivem dentro de uma realidade na qual a negritude está ligada à criminalidade. Nessa situação, a população negra é involuntariamente responsável. Assim que vêem um negro, reagem automaticamente, entram em modo de autoproteção. Não importa como você aparenta, quantos anos tem. Porque essa é uma resposta programada. Isso é o que o racismo faz: você reage à simples presença de pessoas negras. Por exemplo, se eu vou a um caixa eletrônico e tem uma pessoa branca usando a máquina antes de mim, vou contar a distância que preciso manter dela para que não se sinta ameaçada por mim. Já percebi que os brancos não fazem isso. Nós, negros, passamos a vida, constantemente, fazendo esse tipo de calibragem.

Como é ser negro e viver em áreas de concentração de brancos no seu país?
É difícil. Você vai precisar se acostumar com o fato de que ser detido pela polícia é um componente da sua vida. Porque essa é a maneira com que a sociedade se estruturou. Isso tem menos a ver com crime e violência e mais a ver com o jeito com que nossos países lidam com a subjugação. É assim: não temos mais escravidão, mas continuamos tratando as pessoas como escravos, continuamos perseguindo, apreendendo, acorrentando, restringindo seus movimentos, explorando suas forças de trabalho.

A senhora sentiu isso no Brasil também?
Absolutamente. O tempo todo. Aqui no Brasil esse comportamento é ainda mais pronunciado. É um país que não está acostumado a ver negros frequentando espaços como hotéis e restaurantes, por exemplo. Te olham como se perguntassem: o que você está fazendo aqui? Acho curioso em certa medida. Porque é o oposto do que os brasileiros dizem de si mesmos. E é triste também. Com tudo isso que o Brasil está fazendo, com os Jogos Olímpicos, nunca será um país de primeira classe enquanto achar natural tratar os negros como cidadãos de segunda classe. Porque o mundo está cheio de pessoas negras. Eles não vão tolerar isso, não visitarão o Brasil e dirão a todos que não venham.

 “É uma forma de autogenocídio. Um grupo de negros matando outro grupo de negros. Porque se convenceram de que são inimigos”

É uma situação extremamente cruel…
É cruel mas está no espaço da negação. Funciona como a dependência: as pessoas cometem racismo porque têm necessidade. Provavelmente pensam que não é um bom comportamento, mas não têm a habilidade de não fazer porque toda a sua identidade está associada a esse comportamento.

Sobre identidade, nos Estados Unidos basta uma gota de sangue negro para que a pessoa seja considerada negra. No Brasil, a identidade se dá pela autodeclaração de cor. Como isso se reflete?
Nos Estados Unidos a distinção é entre negros e brancos. No Brasil é entre negros e não negros. Ou seja, as pessoas podem escolher quem elas são dentro do espectro negro. Querem ser pardas? Querem ser morenas? Você tem várias categorias. Todas relacionadas a ser negro. É um desafio porque não é necessariamente como você se percebe na sociedade. Eu vi muito isso em Salvador. Você vê muita gente que não se identifica como negra, mas é tratada como negra pela sociedade. Por isso considero o movimento de empoderamento negro na Bahia tão interessante. Se eu fosse governante, trabalharia para que essa energia chegasse à polícia, o que poderá acontecer um dia.

O que aconteceria se esse movimento chegasse à polícia?
O que vocês têm aqui é muito interessante: uma forma de autogenocídio. Um grupo de negros matando outro grupo de negros. Porque se convenceram de que são inimigos. São todos negros. A sociedade não dá a mínima para nenhum dos lados. Não se importa com os policiais negros que são mortos nem com os traficantes assassinados pela polícia. Pode ser que os policiais percebam isso eventualmente e comecem a se solidarizar, uma solidariedade racial. Seria um desenvolvimento incrível.

Como a guerra às drogas opera nesse contexto?
É uma cortina de fumaça. Eles sabem que não se trata de drogas. A polícia sabe melhor do que qualquer um que existem drogas em vários lugares onde a polícia não é enviada. Até que ponto o governo brasileiro e a sociedade esperam que os policiais continuem arriscando suas vidas e sendo mortos em nome de uma guerra que ninguém acredita que pode ganhar? Em algum momento, vão se dar conta de que estão sendo explorados também. As pessoas só reconhecem a violência quando acontece com elas. Se isso acontecer, a sociedade vai se tornar mais violenta. Mas a violência já está presente.

O policial que matou Michael Brown em Ferguson, Missouri, em 2014, não foi condenado. O que isso significa?
Acho que os brasileiros deveriam se preocupar (porque não reagem). O que levou à morte de Michael Brown foi uma série de acontecimentos: a polícia vem trabalhando nessa comunidade há anos. As pessoas têm sido constantemente abordadas e agredidas. Sempre o mesmo grupo de pessoas tem sido alvo da polícia. Quando o policial mandou que Michael Brown saísse da rua e ele disse “não”, foi um ato contra todo esse comportamento. Ele matou Brown e deixou seu corpo estendido na calçada por quatro horas, sem cobrir nem nada. Acaba de balear uma pessoa e não chama socorro médico. São sinais de falta de respeito. A população reagiu. É por isso que “Vidas Negras Importam” (referindo-se ao movimento Black Lives Matter, que surgiu em 2013 com a absolvição do policial que matou o adolescente negro Trayvon Martin). Os policiais que matam os negros continuam impunes.

Qual é o limite para esse sofrimento?
Nós temos uma alta tolerância para o sofrimento porque fomos condicionados. Mas não somos inquebráveis. Quando as pessoas chegam ao ponto de perceberem que o limite foi atingido, normalmente as coisas não acabam muito bem. Neste País (o Brasil), há muito sangue de jovens negros sendo derramado. O fato de provocar pouca comoção significa que você não se importa com essa juventude, nem com o bairro de onde ela vem, nem com sua comunidade. Não estamos dizendo que as vidas negras importam mais que outras vidas. Estamos falando que as vidas negras importam tanto quanto qualquer vida.

Qual é o papel das pessoas brancas no enfrentamento ao racismo?
Existe esse mito de que o racismo só machuca negros. Mas agride os brancos também, direta e indiretamente. O racismo dá um falso senso de quem são. Faz com que acreditem que são mais espertos do que são, mais poderosos do que são, que merecem mais do que merecem de fato. Não estou dizendo que não tenham essas características. Mas o elemento do racismo confere uma falsa percepção sobre si mesmo. Porque você está se comparando com gente com quem nunca teve que competir. Por exemplo, na universidade há sempre aquela conversa que muitos brancos têm com os estudantes negros de que “você deve se sentir sortuda por ter tido a oportunidade de estar aqui”. E eu sempre disse: “Não, não me sinto sortuda. Porque muitos de vocês não estariam aqui se seus pais tivessem de competir com os meus. Alguns de nós somos melhores. E vocês não teriam os privilégios que têm”. O que é difícil com o racismo é que essas pessoas não discutem as injustiças e privilégios que sempre tiveram. É por isso que vocês (no Brasil) brigam porque 10% de vagas foram destinadas aos negros nas universidades, mesmo a população negra sendo 50% dos brasileiros. Sério? Deveriam estar gratos em vez de contestar o acesso dos negros ao ensino superior. É tão absurdo. Esse é o problema do racismo. Parece que as cotas são um favor. E que os negros deveriam ser gratos. A obsessão dos brasileiros é tratar os negros como objetos de música e dança, mas não intelectualmente.

O presidente Barack Obama conseguiu mudar esse pensamento nos Estados Unidos?
Uma das coisas mais importantes que Obama fez foi ter destruído a ideia da inferioridade intelectual dos negros. Enfrentar o racismo é lutar contra privilégios, contra a noção de supremacia branca. Trata-se de entender do que você vai abrir mão para ter o mundo que deseja. Todos nós teremos que abrir mão de algo com o que nos importamos para ter um mundo melhor.

“O racismo leva à morte prematura. não se trata apenas de discriminação. nós morremos mais cedo”

Como a senhora vê o crescimento de Donald Trump e a possibilidade de suceder um presidente negro?
Vejo Trump como o equivalente político a um lap dancer (dançarinos de boate que recebem dinheiro ao se insinuar para a plateia). Naqueles minutos de dança, em que a plateia oferece dinheiro ao dançarino, ele faz com que as pessoas infelizes se sintam bem, nem mesmo importantes, mas se sintam bem sobre si mesmas. Mesmo que saibam que ele não está interessado nelas, vão continuar o exaltando para manter aquele sentimento bom, de que podem ser vencedoras, que podem ser poderosas, que o “mundo ficará em ordem”. Mas não é possível manter esse sentimento para sempre. A dança acaba. O dançarino troca de pessoa.

A senhora acha que Donald Trump tem chances de ganhar?
Ele tem uma grande chance de ganhar. Mas Obama tem mais popularidade do que Hillary ou Trump. Deveríamos parar com essa obsessão de proteger a classe média. Em pleno século XXI é como se houvesse só dois tipos de pessoas: as que trabalham por dinheiro e aquelas cujo dinheiro trabalha para elas. Se você trabalha por dinheiro, não importa se você ganha muito ou pouco, quando a sua fonte de rendimento acabar você estará arrasado. Se você tem dinheiro suficiente e o dinheiro trabalha para você, tudo na nossa sociedade e na economia está configurado para que você mantenha esse dinheiro, para que ele cresça e você continue tendo dinheiro. A grande maioria de nós pertence à parcela que trabalha por dinheiro. Mas a classe média não se enxerga dessa maneira, não se solidariza.

Qual a sua opinião sobre o programa de justiça criminal de Hillary Clinton? Ela trata da questão racial?
É engraçado. Por conta do Black Lives Matter e do Bernie Sanders, ela se saiu forte nessa área de justiça criminal. Mas ela tem uma questão: muito do que está errado neste momento sobre o sistema de justiça criminal está baseado em políticas promovidas por seu marido (Bill Clinton foi presidente dos Estados Unidos entre 1993 e 2001). Está sendo interessante vê-la falar sobre promoção de uma reforma na Justiça sem criticar o marido. Mas estou muito confiante de que, se for eleita, fará muito mais para mover essa agenda. Francamente, acho que ela poderá fazer mais do que o próprio Obama. De alguma maneira ela terá mais liberdade.

“Veja o que está acontecendo com a mulher branca que comandava o brasil. Se ela fosse um homem, ainda estaria na Presidência”

Por quê?
Porque Obama não poderia fazer políticas que beneficiassem especificamente a população negra. Ele seria acusado de favoritismo. O fato de presidentes brancos não fazerem nada para a população negra é perfeitamente aceitável. Mas, você sabe, não está certo ter um presidente negro comprometido em fazer algo para melhorar as vidas negras. Então, tudo o que ele fez teve que se caracterizar por impactar na sociedade como um todo. Ainda assim, a medida mais importante do governo Obama, que foi a reforma na Saúde, beneficia diretamente grande parte dos pobres e negros. É o que os brancos mais detestam e estão constantemente falando em acabar, o “Obama Care”. Essa é a realidade da política americana: parte da percepção sobre a razão de os brancos se identificarem como brancos é que suas vidas deveriam ser melhores do que as vidas negras. Então, quando ele propõe políticas para preencher esse buraco, isso é visto como uma perda, algo que estaria sendo tirado dos brancos.

As mulheres negras, pelo que já tiveram que lutar e suportar, são das pessoas mais fortes do mundo. No Brasil, são chefes de família e grandes lideranças intelectuais, como Sueli Carneiro e Luiza Bairros. Mas as mulheres negras continuam na base da pirâmide. Por que isso acontece?
O Brasil é um país misógino. Veja o que está acontecendo com a mulher branca que comandava o País. Se ela fosse um homem, ainda estaria na Presidência. O que está acontecendo com Dilma Rousseff é uma ação clássica de misoginia. Não estou dizendo que seja apenas misoginia, mas é uma grande parte. Este País não trata realmente de empoderar as mulheres, a não ser como objeto sexual e serviçal, o que acontece com todas as brasileiras, independentemente de cor. Quando se pensa na mulher brasileira, vem logo à cabeça a imagem de uma bunda na praia. Essa é a imagem que tem sido cultivada e promovida dentro e fora do País. Gera muita misoginia, que leva à violência contra a mulher e a práticas direcionadas a diminuir o poder da mulher. Se os negros estão na base da pirâmide, então, mais embaixo estão as mulheres negras. Mas eu diria que quem está bem abaixo são os indígenas, que continuam sendo exterminados e ninguém presta atenção a isso. Nem mesmo se fala sobre isso. Pelo menos se fala das pessoas negras. Os indígenas são totalmente invisíveis. É ridículo.

O movimento negro no Brasil é um dos mais importantes do País, um dos mais antigos. Mesmo com conquistas essenciais e sendo um movimento social tão potente, por que não avançamos mais?
Creio que as políticas conquistadas até agora não vão nem continuar. Porque o Temer vai se livrar delas. Tudo no Brasil que está comprometido com equidade racial ou social está ameaçado com esse governo. Vamos encarar: este País foi construído sobre a exploração das fontes físicas, materiais e humanas.

O que é o racismo para você?
O racismo é como uma morte prematura. Essa frase é da minha amiga Ruth Gilmore, professora de Geografia (docente do doutorado na City University of New York – CUNY). O racismo é uma série de práticas e políticas que um grupo de pessoas faz para impor a outro grupo de pessoas, e o resultado é a morte prematura. O racismo leva à morte prematura. Não é um exagero dizer que o que está acontecendo no Brasil é uma forma de genocídio. Não se trata apenas de discriminação. É como nos Estados Unidos. Todas essas práticas do racismo americano fazem com que os negros morram mais cedo. Nós morremos mais cedo.

Fonte: http://brasileiros.com.br

16 agosto, 2016

“A Misericórdia na Família: Dom e Missão”


Semana da Família
14 à 21 de agosto

Neste ano, o tema da semana da família é:
 “A Misericórdia na Família: Dom e Missão”.

Como já sabemos, estamos vivendo, através do convite do Papa Francisco, o Ano Extraordinário da Misericórdia. E é a família, o primeiro lugar em que podemos experimentar e viver essa misericórdia. É nela que a vida acontece de forma plena. Nosso Deus é misericordioso! Nós, criaturas Dele, devemos ser misericordiosos, assim como Ele.

15 agosto, 2016

35 anos Grupo Muzenza de Capoeira!

Foi uma linda festa
35 anos Grupo Muzenza de Maringá e Primeira Semana Cultural de Capoeira. Uma conquista, que bom que o município de Maringá, embora só agora, reconhece a capoeira e ela passa a fazer parte Cultural da cidade.