17 março, 2026

9º Intereclesial das CEBs do Paraná

Segue material que escrevi para uma preparação para o Intereclesial


9º Intereclesial das CEBs do Paraná
30 de abril a 03 de maio de 2026 em Curitiba.

Tema: CEBs, fortalecendo a caminhada Sinodal no Cuidado da Casa Comum.
Lema: “Caminhavam juntos, partilhavam o Pão e perseveravam nas orações e no Bem Viver (cf. At 2,42)


CAMINHADA SINDODAL


Ao acompanhar e ler alguns trechos nas redes sociais do Papa Leão XIV, a respeito da sinodalidade, para ele é uma atitude, uma abertura, uma disposição para entender e que cada membro da Igreja tem uma voz e um papel a desempenhar por meio da oração, da reflexão… por meio de um processo. Existem muitas maneiras de que isso possa acontecer, mas por meio do diálogo e do respeito mútuo. A sinodalidade é uma forma de descrever como podemos nos unir e ser uma comunidade, buscar a comunhão como Igreja, de maneira que seja uma Igreja cujo foco principal não está em uma hierarquia institucional, mas sim em um senso de ‘nós juntos’, ‘nossa Igreja’.

A sinodalidade é um dos eixos centrais do pontificado do Papa Francisco e expressa um modo de ser Igreja profundamente enraizado no Evangelho e na tradição dos primeiros cristãos. Mais do que um conceito teórico, trata-se de um caminho espiritual, pastoral e missionário que convida todo o povo de Deus a caminhar junto. Não é uma moda passageira, segundo o Papa Francisco, mas uma exigência do Evangelho para o nosso tempo. Ela aponta para uma Igreja mais humana, fraterna e comprometida com a transformação do mundo, onde todas e todos caminham juntos, escutando-se mutuamente e discernindo a vontade de Deus na história.

A sinodalidade encontra seu fundamento na experiência das primeiras comunidades cristãs, especialmente em textos como Atos 2,42-47, onde os fiéis viviam a comunhão, a partilha e a escuta da Palavra. Também se inspira no Concílio Vaticano II, que recuperou a imagem da Igreja como “Povo de Deus”, valorizando a corresponsabilidade de todas e todos os batizados.

Segundo o Papa Francisco, a sinodalidade se sustenta em três dimensões fundamentais:

- Comunhão: reconhecer que todos pertencem ao mesmo Corpo de Cristo, superando divisões e exclusões.

- Participação: garantir que todos tenham voz, especialmente os pobres, as mulheres e aqueles que historicamente foram silenciados.

- Missão: caminhar juntos não por si mesmos, mas para anunciar o Evangelho e transformar a realidade.

Um elemento essencial da sinodalidade é a escuta. Não apenas ouvir opiniões, mas acolher o que o Espírito Santo diz por meio do povo. O discernimento comunitário torna-se, então, um exercício espiritual profundo, onde a Igreja busca a vontade de Deus na realidade concreta.

A sinodalidade exige uma verdadeira conversão: sair de estruturas autorreferenciais e clericalistas para uma Igreja mais simples, próxima e servidora. O Papa Francisco insiste que o clericalismo é um dos maiores obstáculos à sinodalidade, pois impede a valorização dos dons do povo de Deus.

A sinodalidade está intimamente ligada à ideia de “Igreja em saída”, outro conceito-chave do Papa. Caminhar juntos significa também ir ao encontro dos que estão nas periferias existenciais e sociais, promovendo justiça, dignidade e cuidado com a vida.

São muitos os desafio autuais, viver a sinodalidade não é simples, implica aprender a dialogar em meio às diferenças; superar resistências internas; formar comunidades mais abertas e participativas; cultivar espiritualidade de comunhão.


CUIDADO DA CASA COMUM


Essa perspectiva dialoga fortemente com o caminho sinodal da Igreja: caminhar juntos, escutar, discernir e agir em favor da vida.

“Cuidar da Casa Comum” é reconhecer que a Terra é dom, responsabilidade e missão. É assumir que a vida humana está profundamente ligada à vida do planeta e que não há futuro possível sem justiça social e equilíbrio ambiental. É um chamado a amar — de forma concreta e comprometida — tudo aquilo que Deus criou e confiou às nossas mãos.

O conceito de “Cuidado da Casa Comum” tornou-se uma expressão central especialmente a partir da encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco. Seu significado vai muito além de uma preocupação ecológica: trata-se de uma visão integral da vida, da fé e da responsabilidade humana no mundo.

A “Casa Comum” é o planeta Terra entendido não apenas como espaço físico, mas como lar compartilhado por toda a criação: seres humanos, animais, plantas e todos os ecossistemas. Essa expressão rompe com a ideia de domínio absoluto do ser humano sobre a natureza e reforça a noção de interdependência. No livro do Gênesis, o ser humano é chamado a “cultivar e guardar” o jardim (Gn 2,15), indicando uma missão de cuidado, e não de exploração.

Não se pode separar o cuidado com a natureza do cuidado com as pessoas — especialmente as mais vulneráveis, por isso o Cuidado da Casa Comum” propõe uma ecologia integral, ou seja, uma visão que une:

- Ecologia ambiental: preservação da natureza, combate à poluição, cuidado com a água, o ar e a biodiversidade.

- Ecologia social: atenção às desigualdades, pois os pobres são os mais afetados pela degradação ambiental.

- Ecologia econômica: crítica a modelos de produção e consumo que geram exclusão e destruição.

- Ecologia cultural: respeito aos saberes dos povos originários e às culturas locais.

- Ecologia espiritual: reconhecimento de que toda a criação é dom de Deus e possui um valor sagrado.

Nesse sentido, há uma dimensão profundamente profética, pois questiona estruturas econômicas e políticas que colocam o lucro acima da vida, sendo assim, necessário a dimensão ética e profética. Cuidar da Casa Comum é também um imperativo ético que denuncia o consumismo desenfreado; a exploração irresponsável dos recursos naturais e a cultura do descarte. E anuncia um novo modo de viver baseado na sobriedade, solidariedade e justiça.

Essa perspectiva dialoga fortemente com o caminho sinodal da Igreja: caminhar juntos, escutar, discernir e agir em favor da vida. O cuidado não é tarefa individual isolada, mas missão coletiva, exige a dimensão comunitária e sinodal e se realiza nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), nas outras formas de comunidades, nos movimentos sociais, nas políticas públicas e nas práticas cotidianas de cada pessoa.

Como recorda a Laudato Si’, “tudo está interligado”. Portanto, ferir a natureza é, de certo modo, ferir a própria humanidade. Cuidar da Casa Comum é também um ato espiritual, a dimensão espiritual implica: contemplar a criação como obra de Deus - cultivar gratidão - rever hábitos de vida - viver uma espiritualidade encarnada, que une fé e compromisso com a realidade.

Um chamado à conversão ecológica, não se trata apenas de ideias, mas de uma transformação concreta da forma de viver, produzir e se relacionar. O “Cuidado da Casa Comum” é um convite à conversão ecológica, que envolve: mudança de mentalidade - revisão de estilos de vida - compromisso com práticas sustentáveis - engajamento social e político.


“CAMINHAVAM JUNTOS, PARTILHAVAM O PÃO E PERSEVERAVAM NAS ORAÇÕES E NO BEM VIVER” (CF. AT 2,42)


O texto de Atos dos Apóstolos evidencia elementos fundamentais da vida da primeira comunidade cristã, que se tornaram referência inspiradora para a caminhada das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). A passagem descreve não apenas práticas religiosas, mas um modo de viver a fé de forma comunitária, solidária e missionária.

A não era vivida de forma individual, mas partilhada e aprofundada na comunidade. A mesa partilhada era sinal da presença de Cristo e fortalecia a unidade da comunidade. Nas CEBs, essa dimensão aparece nas celebrações da Palavra, nas liturgias simples e na espiritualidade comunitária. A espiritualidade era parte essencial da vida cotidiana, sustentando a missão e a comunhão entre os membros. Isso evidencia uma dimensão social da fé, em que a comunidade busca superar desigualdades e cuidar dos mais necessitados. Esse aspecto inspira fortemente a prática das CEBs, que unem fé e compromisso com a justiça. Por causa desse modo de viver, a comunidade era estimada pelo povo e crescia continuamente. O crescimento da Igreja aparece como fruto do testemunho de vida, e não apenas da pregação.

Atos dos Apóstolos evidencia um modelo de Igreja comunitária, fraterna, orante, solidária e missionária, centrada na Palavra, na partilha e na celebração. Por isso, essa passagem é frequentemente considerada um paradigma bíblico inspirador das Comunidades Eclesiais de Base, que buscam viver a fé de forma participativa, comprometida e encarnada na realidade do povo.


BEM VIVER


O conceito de Bem Viver nasce das cosmovisões dos povos originários da América Latina. Ele propõe uma forma de vida centrada na harmonia entre as pessoas, a comunidade e a natureza, em contraposição ao modelo dominante baseado no crescimento econômico ilimitado e no individualismo.

Essa visão rompe com a lógica moderna de progresso, que frequentemente coloca o lucro acima da vida. No Bem Viver, a centralidade está na vida plena, na dignidade, na reciprocidade e no cuidado. A natureza é entendida como sujeito de direitos, e não como objeto de exploração. A terra, a água e todos os seres possuem valor próprio. A comunidade é o espaço central da vida. O bem individual está ligado ao bem coletivo. Práticas como solidariedade, partilha e cooperação são essenciais.

Bem Viver propõe uma vida baseada no necessário, evitando o consumismo. A felicidade não está no acúmulo, mas na qualidade das relações. Valoriza-se a pluralidade de culturas, saberes e modos de viver, reconhecendo que não existe um único caminho para o desenvolvimento. A espiritualidade não é separada do cotidiano, mas está presente nas relações com a natureza, com os outros e com o sagrado.

O Bem Viver também se apresenta como crítica ao sistema econômico global, que gera desigualdades sociais, degradação ambiental e exclusão. Ele questiona a ideia de desenvolvimento baseada apenas no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e propõe novos indicadores de qualidade de vida, centrados no bem-estar integral. Nesse sentido, ele dialoga profundamente com propostas contemporâneas como a ecologia integral e a construção de sociedades mais justas e sustentáveis.


INTERECLESIAIS DAS CEBs


Os Intereclesiais das CEBs são fonte de animação, espaço de grande troca de experiências, reflexões e orações da Igreja simples, alegre, criativa, ecumênica e profética. Uma grande partilha da acolhida fraterna e sorrisos contagiantes, das comidas gostosas, da cantoria e alegria, do saber falar e do saber ouvir, das muitas lutas e festas, da profecia e das muitas sementes lançadas.

Os intereclesiais são iluminações para a esperança de algo novo que acontecerá como uma semente se deixa romper sob a terra, deixar morrer do velho para nascer o novo, do como fazer nascer da Igreja clerical uma Igreja popular, afirmação da Igreja como Povo de Deus apresentada no Concílio Ecumênico Vaticano II.

Os intereclesiais são essa fonte de animação, no Regional Sul II, o Paraná, envolvidos pelo símbolo do estado a “Gralha Azul” e a “Araucária”. Da Gralha Azul a mística que envolve vem de sua inteligência e seus diversos termos vocais para se comunicar e sua habilidade de esconder a sua comida, o pinhão, para comê-lo depois, sem saber que isso vai dar continuidade nas plantas. Da Araucária, a mística em torno de serem dioicas, expressão de gênero, existe uma árvore feminina e outra masculina. Na árvore feminina, em uma estrutura denominada estróbilo, ou pinha, se desenvolvem os pinhões.

Uma espécie dioica é aquela em que os gâmetas femininos (ex.: óvulos, oosferas que são célula sexual feminina das plantas) e os gâmetas masculinos (ex.: espermatozoides e anterozóides que são célula sexual masculina das plantas) são produzidos por indivíduos distintos, femininos e masculinos, respectivamente.

Aos participantes do intereclesial a quem as paróquias das Arq/Diocese enviam para vivenciar a expressiva experiência dos intereclesiais é fundamental o conhecer, acolher, envolver e comprometer-se com as CEBs - a Igreja onde os pobres deixam de ser prioridades, e passam ser sujeitos da missão evangelizadora e sujeitos de sua própria história.

Os intereclesiais das Comunidades Eclesiais de base, as CEBs, acontecem em nível nacional e nos intervalos desses acontecem nos Intereclesiais Regionais. Em cada tema escolhido as reflexões e a partilha de como as CEBs se inserem na realidade do povo, para ser sinal de esperança e vida.


O TREM - SÍMBOLO DOS ENCONTROS INTERECLESIAL DE CEBS NO BRASIL


Segundo Pe. Nelito Dornelas (em memória), Frei Betto é mineiro, ele morava em Vitória, em uma favela, quando acontecem os intereclesiais, o primeiro em Vitória, do Espírito Santo em 1975.

Vitória e Belo Horizonte tem o maior trem de passageiros do Brasil, que liga as duas capitais, mais ou menos 600 km de distância, essas duas capitais são simbolizadas pelo trem de passageiros. Então Frei Betto foi quem idealizou essa imagem para CEBs, a partir dessa experiência do maior trem de passageiros que liga essas capitais, explica Nelito.

Recorda Nelito, assim foi consolidado e foi também no encontro que aconteceu no Espírito Santo, em que frei Carlos Mesters estava assessorando as comunidades de São Mateus, lá também foi confirmado à ideia do trem de passageiro como símbolo das CEBs.

Então essa ideia explica Nelito, vai nascer do Frei Betto, que é mineiro morando em Vitória, onde acontece o primeiro intereclesial das CEBs e São Mateus, Espírito Santo, ali que vai nascer marcado pela experiência do trem de passageiros que o povo tinha como único meio de transporte barato, simples e popular.

A imagem tem a ver também com essa ideia de coisa do povo, coisa simples, coisa dos pobres, onde todo mundo pode entrar, levando sua carga, levando sua bagagem, levando seus mantimentos, porque o trem sempre foi isso, um meio de transporte barato do povo, assim conclui Nelito a explicação do trem como símbolo.

E a CEBs diz Nelito, simbolizam isso, lugar dos pobres que podem entrar com sua bagagem, sua cultura, sua história, com tudo aquilo que é, quer ser e precisa ser e pode ser para de fato ser Igreja dos Pobres.

10 março, 2026

Nas CEBs o Pobre não é prioridade, é sujeito. Isso incomoda.

Republico um texto que escrevi e publiquei  08 de janeiro de 2023 - continua atual

A baixo segue o texto, quem desejar ler na primeira publicação, clique aqui.


Nas CEBs o Pobre não é prioridade, é sujeito. Isso incomoda.

O pobre quando deixa de ser prioridade e passa a ser sujeito, seja na dimensão social ou religiosa, incomoda e gera até raiva em muitos — revela uma tensão profunda presente na história das sociedades e também na caminhada das igrejas.

Durante muito tempo, o pobre foi visto sobretudo como objeto de assistência. Era alguém a quem se devia ajudar, socorrer ou proteger. Essa atitude, embora possa conter gestos de solidariedade, muitas vezes mantém uma relação vertical: alguém ajuda e outro apenas recebe. Nessa lógica, o pobre continua sem voz, sem participação e sem poder de decisão sobre sua própria vida.

Quando, porém, o pobre deixa de ser apenas “prioridade” — no sentido de destinatário da caridade — e passa a ser sujeito de sua própria história, a realidade muda profundamente. O pobre começa a falar, organizar-se, reivindicar direitos, interpretar a realidade a partir de sua experiência e participar das decisões que dizem respeito à sua vida. Nesse momento, ele deixa de ser apenas alguém a ser ajudado e passa a ser protagonista.

É justamente esse protagonismo que muitas vezes incomoda.
Incomoda porque questiona estruturas injustas, privilégios históricos e modos estabelecidos de exercer poder. Quando o pobre toma a palavra, ele revela as contradições do sistema econômico, social e até religioso. Sua voz pode desvelar desigualdades que antes eram naturalizadas ou escondidas.

Na dimensão social, isso aparece quando populações empobrecidas se organizam em movimentos, associações, ocupações ou lutas por direitos. Não pedem apenas ajuda; pedem justiça. E justiça exige mudanças estruturais, o que provoca resistências daqueles que se beneficiam da ordem existente.

Na dimensão religiosa, o mesmo fenômeno ocorre quando os pobres assumem seu lugar na vida da Igreja, interpretam a Palavra de Deus a partir de sua realidade e participam ativamente da missão.

Nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) os pobres não são prioridades - não são apenas destinatários da evangelização, mas sujeitos eclesiais. Isso pode gerar tensões, porque desloca a compreensão de Igreja de uma estrutura centrada apenas na autoridade para uma comunidade de irmãs e irmãos que caminham juntos.

A própria Bíblia testemunha esse movimento. Deus não apenas socorre o pobre, mas o levanta, o faz sujeito da libertação. No Êxodo, o povo escravizado se torna protagonista de sua saída. Nos Evangelhos, Jesus não trata os pobres como objetos de piedade, mas os coloca no centro do Reino e os reconhece como bem-aventurados (Mt 5,3; Lc 6,20).

Por isso, quando o pobre se torna sujeito, ele não ameaça a verdadeira fraternidade; ao contrário, revela o caminho do Evangelho. O incômodo e até a raiva que surgem em alguns contextos mostram o quanto ainda estamos presos a estruturas que preferem o pobre silencioso ao pobre consciente.

Reconhecer o pobre como sujeito é dar um passo decisivo rumo a uma sociedade e a uma Igreja mais justas, onde se constrói juntos a história, não há dúvida, as CEBs são, por excelência, um espaço de sinodalidade onde o pobre não é prioridade e sim sujeito – a Igreja tem a obrigação de reconhecer o papel fundamental das Comunidades Eclesiais de Base, desde sua origem até os dias atuais.

08 março, 2026

Quando a dignidade das mulheres é respeitada, toda a humanidade floresce


 

Dia Internacional da Mulher. Quando a dignidade das mulheres é defendida, a vida floresce para todos.


Dia Internacional da Mulher. Quando a dignidade das mulheres é defendida, a vida floresce para todos.

Neste Dia Internacional da Mulher, elevamos nossa gratidão a Deus pelo dom da vida e pela presença transformadora de nós mulheres na história, na Igreja, nas comunidades, na sociedade.

A Sagrada Escritura nos recorda que mulheres e homens foram criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27). Por isso, toda nós mulher carrega uma dignidade sagrada que deve ser respeitada, cuidada e promovida.

Celebramos hoje as inúmeras qualidades que marcam a presença feminina: a capacidade de gerar vida, de cuidar, de resistir nas dificuldades, de manter viva a esperança e de construir caminhos de solidariedade e justiça.

Contudo, este dia também nos convoca à profecia. Ainda são muitas as mulheres que sofrem violência, discriminação e desvalorização. Como comunidade de fé e como sociedade, somos chamados a denunciar essas realidades e a trabalhar unidos para que toda mulher viva com respeito, segurança e dignidade.

Inspirados pelo Evangelho, que sempre valorizou e acolheu as mulheres, renovemos nosso compromisso de construir relações baseadas no amor, na justiça e na fraternidade.

Que este dia renove em todos nós o compromisso com uma sociedade mais justa, onde mulheres e homens caminhem juntos no respeito, na igualdade e na promoção da vida.

Celebramos as conquistas, honramos as lutas e renovamos a esperança: quando a dignidade das mulheres é respeitada, toda a humanidade floresce.

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Eu, Lucimar Moreira Bueno (Lúcia)

Assessora das CEBs na Arquidiocese na Arquidiocese de Maringá, coordenadora das CEBs na Província Eclesiástica de Maringá e membra da coordenação das CEBs no Regional Sul II da CNBB.

06 março, 2026

O poderoso chefão

6 de Março de 2026

O poderoso chefão


Olá, no imaginário da direita Lula é o bandido, mas na vida real da política brasileira o chefe de quadrilha é um banqueiro.

.Bomba atômica. Se alguém em Brasília tinha esperanças de que o caso Master fosse esfriar aos poucos, ela não só acabou, como deu provas de que ainda há muito combustível para queimar até outubro. A nova prisão de Daniel Vorcaro acrescentou à ficha criminal a liderança de uma organização criminosa. O núcleo central era “A turma”, uma espécie de milícia privada que monitorava autoridades e desafetos, acessando ilegalmente informações sigilosas de instituições de segurança pública e ameaçava jornalistas e funcionários. O coordenador da milícia e chefe de segurança de Vorcaro, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, tentou tirar a própria vida após a prisão. O esquema criminoso envolvia o pagamento de mensalidades para que dois diretores do Banco Central atuassem a favor do banqueiro dentro da instituição durante toda a gestão Campos Neto, o que só foi denunciado e investigado na atual gestão de Gabriel Galípolo. As mesadas de Vorcaro incluíam também sites de notícias e jornalistas. Diante de tantas evidências de que a quadrilha de Vorcaro continuava agindo e ameaçando desafetos ou testemunhas, até André Mendonça achou estranho que Paulo Gonet e a PGR não tenham visto perigo para a sociedade ou motivo para prisão. Principalmente porque a ação da PF dá indícios de que há mais sujeira e mais tentáculos a serem descobertos. Por exemplo, Vorcaro tinha conhecimento prévio sobre procedimentos investigativos em andamento. Já Mariana Barbosa lembra que as suspeitas sobre a família Vorcaro remontam a 2016 e que o banqueiro não foi preso em 2020, quando o Master ainda se chamava Banco Máximo, porque foi salvo por uma decisão da desembargadora Maria do Carmo Cardoso, do TRF da 1ª Região. E evidentemente toda a lama transborda para dentro do Congresso. A lista vip de amigos de Vorcaro aumenta a cada dia e até Nikolas Ferreira, que pedia “fora Toffoli” no domingo, precisou explicar, na segunda, o que fazia no jatinho do dono do Master. Agora, enquanto uma parte dos parlamentares tenta ressuscitar uma CPI do Banco, a do Crime Organizado vê nos episódios o impulso que precisava para reverter as derrotas da semana passada, quando foi impedida de quebrar o sigilo da família Toffoli. Diante de tudo isso, André Mendonça foi catapultado à peça central das eleições, afinal passa por ele também o caso do INSS. Segundo um deputado do centrão, se alguns ministros possuem metralhadoras e fuzis, Mendonça tem duas bombas atômicas.

.Um dia após o outro. Com tantas crises em andamento, a ideia de que a eleição presidencial é um jogo ganho ficou para trás. Os reflexos eleitorais são evidentes, ameaçando inclusive a hegemonia petista na região nordeste. Com isso, o caminho escolhido pelo PT para definir os palanques estaduais é a paciência e o diálogo com as lideranças nacionais e regionais. Lula sabe que é urgente recuperar a popularidade, que sofreu um novo baque em fevereiro. O cenário que já era difícil se complicou ainda mais com o alastramento do conflito no Oriente Médio. Não só por razões diplomáticas, mas também pelas econômicas. Afinal, o petróleo brasileiro pode até se valorizar no mercado internacional, mas o saldo geral para o país tende a ser negativo com o aumento da instabilidade financeira, prejuízo às exportações para a Ásia, encarecimento dos combustíveis e pressão sobre a inflação e os juros. Já no Congresso, uma das maiores apostas do Planalto para alavancar a popularidade, o fim da escala 6 X 1, avança a passos lentos frente às resistências da direita, do empresariado e do chove-não-molha de Hugo Motta. Lula procura atenuar os conflitos reeditando o velho discurso trabalhista da negociação entre patrões e empregados com a mediação do Estado mas sem garantias de que alguém abrace a ideia. Mas nem tudo está perdido. Como já era de se esperar, a PEC da Segurança Pública avançou mais rápido que a mudança da escala de trabalho e foi aprovada na Câmara, embora a versão original do Planalto tenha sido modificada ao longo das negociações. No Senado, depois de muitas idas e vindas, o acordo do Mercosul com a União Européia foi aprovado, uma pauta tida como prioritária por Lula, ainda que suas vantagens para o país sejam duvidosas. E, na CPI do INSS, a quebra do sigilo bancário e fiscal de Lulinha, uma sonhada bala de prata da direita para sangrar o Planalto até o fim - referendada por Davi Alcolumbre - passa por uma queda de braços entre o presidente da Comissão, Carlos Viana, e Flávio Dino. É que o ministro do STF acolheu o recurso de outra investigada e decidiu pela anulação das quebras de sigilo “no atacado” feitas pela CPI. Mesmo assim, com a divulgação de que Lulinha movimentou cerca de R$ 19,5 milhões nos últimos 4 anos, uma parte do estrago já foi feito.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Programa atômico do Irã foi criado pelos EUA que hoje lança “Fúria Épica” sobre o país. A Pública narra a trajetória que vai da cooperação nuclear entre Irã e Estados Unidos à guerra atual.

.Quem são as quatro principais ditaduras de estimação dos EUA. Conheça os aliados pouco democráticos dos Estados Unidos no Oriente Médio. No Esquerda Online.

.Bolsonaristas usam desinformação para desacreditar dados econômicos do IBGE. Aos Fatos mostra como a rede de desinformação liderada por Flávio Bolsonaro mira nos índices econômicos do governo Lula.

.Estudo da Unicamp estima até 4,5 milhões de empregos com redução da jornada. Estudo que integra o “dossiê 6 x 1” mostra os potenciais benefícios de uma redução da jornada de trabalho 44 para 36 horas semanais. No Uol.

.Donos do vento: capital estrangeiro domina 70% das usinas eólicas no Nordeste. Em entrevista ao Conversa Bem Viver, a pesquisadora Monalisa Lustosa comenta sobre os impactos sociais e a dependência econômica da “energia limpa”.

.Justiça restaurativa pode reparar danos da Guerra de Canudos. A ação civil pública do município de Canudos contra a União para o reconhecimento oficial da Guerra de Canudos como massacre e a reparação pelos danos causados à população em 1897.

.Sucrilhos, para ficar fortinho e crescer. Lobby, açúcar em quantidades obscenas e muita publicidade infantil. Podcast do O Joio e o Trigo conta a história do cereal criado para combater o desejo sexual.

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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

04 março, 2026

Do Deus perverso que ameaça com câncer a denúncia profética no meio do Sambódromo

"manter a serenidade, a coerência e o compromisso com a verdade já é, por si só, um posicionamento importante num tempo em que gritar virou regra e pensar virou resistência."


Do Deus perverso que ameaça com câncer a denúncia profética no meio do Sambódromo

Quando a gente olha com calma para certas conversas desenvolvidas nos grupos de whatsapp e nas mídias sociais, dá para perceber que o conservadorismo atualmente não é algo solto ou improvisado. Ele é organizado, estratégico, bem pensado. E o mais curioso é que esse discurso tem alcançado pessoas que, num primeiro olhar, a gente não imaginaria ver defendendo essas posições. Há pessoas negras, LGBTI+, gente de tradições religiosas diversas, não cristãs, que acabam aderindo a narrativas alinhadas à extrema-direita e apoiando movimentos cristãos autoproclamados conservadores que durante anos praticam todo tipo de intolerância. Isso não acontece por acaso. Existe uma disputa muito forte de narrativa, de informação e de emoção acontecendo o tempo todo, no Brasil e no mundo.

Assim, podemos ver uma analogia muito clara aí com o discurso da chamada “família tradicional conservadora”. Ela se apresenta como saudável, moralmente correta, guardiã de valores. Mas, muitas vezes, o que sustenta essa estrutura não é amor nem cuidado, e sim conservantes ideológicos tóxicos: autoritarismo dentro de casa, silenciamento das mulheres, naturalização da violência doméstica, controle sobre as sexualidades, rejeição de pessoas LGBTI+, racismo velado ou explícito. Enquanto se diz “tradicional” e “conservadora”, mantém dentro de si elementos que adoecem as relações e produzem sofrimento. Assim como no alimento cheio de aditivos e conservantes, a aparência pode ser estável e duradoura, mas o custo para quem consome, ou para quem vive ali dentro da família tradicional -, pode ser profundamente destrutivo.

Nesse ambiente polarizado, quando alguém denuncia racismo, machismo ou desigualdade, logo aparece quem diga que é exagero, vitimismo ou “mimimi”. Ao mesmo tempo, problemas reais e graves são usados como arma política para atacar adversários. Fica tudo embaralhado: quem critica injustiças é chamado de intolerante; quem aponta divisões é acusado de ser o responsável por dividir. É uma inversão constante. E muitas vezes as pessoas nem percebem que estão reproduzindo argumentos prontos, construídos exatamente para confundir e deslocar o foco.

Diante disso, talvez o caminho não seja apenas bater de frente o tempo todo, nem também se calar. O desafio é outro: qualificar a conversa, investir em letramento político, explicar melhor as coisas, trazer contexto, ajudar a refletir. Nem sempre vai funcionar, porque há quem esteja mais interessado em distorcer do que em dialogar. Mas manter a serenidade, a coerência e o compromisso com a verdade já é, por si só, um posicionamento importante num tempo em que gritar virou regra e pensar virou resistência.

Reforço: tenhamos atenção plena, esse assunto sobre a pseudo intolerância religiosa praticada pela escola de samba Académicos de Niterói se equipara a mamadeira de P e ao Kit Gay de 2018.

Izaías Torquato, reverendo Anglicano

Paróquia Anglicana São Felipe – DAB-IEAB, Goiânia-GO.


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Fonte: CEBI


26 fevereiro, 2026

O Tempo da Quaresma e os ensinamentos dos Papas

Escrevi este texto para iluminar.


O Tempo da Quaresma e os ensinamentos dos Papas

O Tempo da Quaresma sempre ocupou um lugar central no ensinamento dos Papas, como caminho de conversão, justiça e renovação da vida cristã. Ao longo da história recente da Igreja, diversos pontífices destacaram dimensões espirituais e sociais desse tempo forte.

Nos ensinamentos dos Papas, a Quaresma é:
- Tempo de conversão sincera
- Caminho de oração profunda
- Exercício de jejum libertador
- Prática de esmola solidária
- Preparação alegre para a Páscoa

Mais do que um período de tristeza, é um tempo de esperança, em que a Igreja caminha com Cristo rumo à vida nova.

Papa Leão XIV, “Escutar e jejuar. Quaresma como tempo de conversão” O Pontífice convida os fiéis a um “jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro”.

Papa Francisco insistia que a Quaresma é tempo de “voltar ao coração”, romper com a indiferença e abrir-se à misericórdia. Em suas mensagens quaresmais, ele recorda que jejum, oração e esmola não são práticas externas, mas atitudes que nos libertam do egoísmo e nos aproximam dos pobres. Para ele, a Quaresma tem também dimensão social: é tempo de rever estruturas injustas e praticar a fraternidade concreta.

Papa Bento XVI enfatizou a Quaresma como caminho de fé e caridade. Destacava que a conversão não é apenas moral, mas encontro pessoal com Cristo. Para ele, a esmola expressa partilha, o jejum fortalece o espírito e a oração nos coloca em comunhão com Deus. Recordava que a verdadeira renovação começa no interior do coração.

Papa João Paulo II via a Quaresma como um itinerário pascal, centrado na cruz e na esperança da Ressurreição. Convidava os cristãos a viverem a solidariedade com os que sofrem, especialmente os pobres e marginalizados. Reforçava que a conversão quaresmal deve gerar compromisso com a justiça e a defesa da vida.

“Peçamos a graça de uma Quaresma que torne os nossos ouvidos mais atentos a Deus e aos últimos. Peçamos a força dum jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro. E comprometamo-nos a fazer das nossas comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação, tornando-nos mais disponíveis e diligentes no contributo para construir a civilização do amor.” (Papa Leão XIV)

Finalmente, justiça por Marielle e Anderson

O mundo sabe quem matou e quem mandou matar Marielle e Anderson. A justiça, enfim, foi feita.

Quem mandou matar a vereadora Marielle Franco (Psol) não podia imaginar que ela era semente. Provavelmente também não imaginava que um dia estaria sentado no banco dos réus e, mais do que isso, condenado a 76 anos de prisão.

Nesta quarta-feira, 25 de fevereiro, a poucos dias de se completarem oito anos do assassinato da parlamentar carioca e do motorista Anderson Gomes, a justiça, finalmente, se fez valer. Os irmãos Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro (TCE-RJ), e Chiquinho Brazão, ex-deputado federal, foram condenados como mandantes do assassinato que interrompeu precocemente a vida da vereadora, em 14 de março de 2018.

Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, recebeu pena de 18 anos de prisão pelos crimes de obstrução de Justiça e corrupção. Ronald Alves de Paula, major da Polícia Militar, foi condenado a 56 anos de prisão. Robson Calixto, ex-policial militar, recebeu pena de nove anos.

A luta das famílias de Marielle e Anderson por justiça começou naquele 14 de março e durou ininterruptos 2.905 dias. Ao longo desses oito anos, o Brasil de Fato acompanhou cada manifestação. Viu Marielle virar semente e brotar em cada luta contra a violência de gênero, de raça e por justiça social. Mulheres, como sua filha Luyara Franco, que multiplicam seu legado e defendem sua memória.

O choro de dona Marinete, mãe de Marielle, e de Ágatha Reis, viúva de Anderson, está registrado em imagens que revelam dor e indignação diante da impunidade que prevaleceu por quase uma década. As relações dos envolvidos com certos clãs da política também estão expostas.

Cada novidade sobre a investigação, que o BdF acompanhou de perto, inaugurava a possibilidade de que a justiça, um dia, fosse feita. Parte dela chegou em outubro de 2024, com a condenação de Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, que apertaram o gatilho e executaram Marielle e Anderson.

Mas havia pistas, desde o começo, de que não se tratava de um homicídio comum. A atuação combativa de Marielle contra as milícias no Rio de Janeiro indicava que havia o envolvimento de figuras poderosas na articulação do crime.

Hoje o mundo sabe quem matou e quem mandou matar Marielle e Anderson. A justiça, enfim, foi feita. Ela não é capaz de trazê-los de volta, mas, como disse a irmã da vereadora e ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, a memória deles foi honrada e agora há esperança de que o Brasil inicie um novo marco histórico contra a violência política de gênero e raça, sem que haja espaço para a impunidade na nossa democracia.

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