19 junho, 2026

Só acaba quando o juiz apita


Só acaba quando o juiz apita


Olá, imersa no escândalo do Master e nas disputas internacionais, a eleição brasileira tem favorito, mas só terá ganhador depois de outubro.

.Sai Neymar, entra Lula. As chances eleitorais de Lula crescem na mesma proporção que a família Bolsonaro cria problemas para si mesma. Não bastam as relações íntimas de Flávio com Vorcaro, que já leva um antigo aliado da família, Silas Malafaia, a tomar distância, assim como uma parte significativa do eleitorado evangélico. Nem a autossabotagem de Jair, depois que uma arma registrada em seu nome foi apreendida com seu segurança em uma blitz, o que pode comprometer sua prisão domiciliar. Agora a condenação de Eduardo só ajuda a aprofundar a crise. E, mesmo que ele não seja preso de imediato, porque Trump não tem pressa de extraditá-lo e deve explorar a situação para atrapalhar as eleições brasileiras, a família Bolsonaro continuará nas páginas policiais. Além de reabilitar Alexandre de Moraes no STF, que andava meio apagado desde as revelações de sua proximidade com Vorcaro, a condenação de Eduardo dá mais munição para a campanha de Lula. Afinal, se nos gramados a moral do Brasil anda baixa, é na diplomacia que o país tem se vestido verde e amarelo. Indiretamente, o próprio Trump ajuda Lula sempre que mostra desprezo por seus aliados, como ao confundir Flávio e Eduardo, ou quando ataca o Brasil, dando a oportunidade perfeita para Lula contra-atacar e marcar pontos dentro de casa. O presidente brasileiro já entendeu que as bilaterais com Trump mais atrapalham do que ajudam e tem preferido usar os temas quentes - como o combate ao terrorismo, tarifaço e eleições - para fazer o enfretamento público à ingerência estrangeira, defender a soberania brasileira e, de lambuja, ser o porta voz dos Brics e das nações mais pobres na reunião do G7. Ao mesmo tempo, enquanto Flávio Bolsonaro gerencia as crises na família e na campanha, Lula busca conquistar os eleitores de centro. Daí sua fala calculada dizendo que nunca foi um esquerdista. Afinal, apesar de um cenário polarizado, tudo leva a crer que a eleição será decidida pelos eleitores independentes.

.Oi, sumido. Nos poucos dias que faltam até o recesso parlamentar de julho, o plano do governo era aprovar três matérias estratégicas: a PEC do fim da escala 6×1, a criação da Política Nacional de Minerais Críticos e a PEC da Segurança Pública. Porém, com os empecilhos criados por Alcolumbre e sem acordo na Câmara e no Senado para votar os vetos presidenciais, a semana terminou morna. A falta de protagonismo do Congresso é similar à de Neymar e do presidente do Banco Central. Depois de um breve protagonismo na liquidação do Banco Master, Gabriel Galípolo seguiu confortável no banco de reservas e sem muita vontade de entrar em campo. Mas é muito difícil passar incólume como presidente do Banco Central quando o escândalo do Master só cresce, revelando como Daniel Vorcaro comprou boa parte da República com cheques sem fundos, e quando o pix está no centro dos ataques dos EUA ao país. Além disso, Galípolo tomou posse apresentado por Lula como um “garoto de ouro” que todos esperavam que interromperia a alta crescente dos juros, mas que na prática levou a Selic ao mais alto patamar num ano eleitoral dos últimos vinte anos. E se depender da última reunião do Copom, o cenário não deve se alterar. Ainda que o BC tenha reduzido os juros para 14,25%, o confuso comunicado emitido após a reunião dá sinais de que o raquítico ciclo de cortes chegou ao fim, para alegria da Faria Lima. Com exceção dos banqueiros, a necessidade de cortar os juros, ao lado de Endrik, é um dos poucos consensos da sociedade brasileira, capaz de juntar a CUT à Confederação Nacional da Indústria. E esse não é o único ruído entre Galípolo e o Planalto. O presidente do BC defende a PEC 65 que completa a autonomia do Banco Central, e que substituiria o conceito de “empresa pública” por “entidade pública de natureza especial”. Isso permitiria que o BC gerenciasse seu próprio orçamento sem depender da Lei Orçamentária da União, mas também reduzindo a vinculação direta ao Executivo. Por sua vez, a proposta tem oposição do ministro da Fazenda, Dario Durigan, endossada por um manifesto de economistas do calibre de Bresser Pereira, Luiz Gonzaga Belluzzo e Paulo Nogueira Jr.

.Classificado para a final. Além de Donald Trump, o outro grande puxador de votos dessas eleições será Daniel Vorcaro. Aparentemente, a falta de molho das tentativas de delação vinham justamente da aposta do banqueiro em esperar um cenário mais confortável após as eleições. Em outras palavras, contar com uma vitória de Flávio. Além do desempenho de Bolsonarinho nas pesquisas não ajudar, da parte da PGR Vorcaro já gastou suas chances, e a percepção na Polícia Federal é de que, com o material apreendido nos celulares, a delação vai se tornando desnecessária. Tanto é que, sem abrir a boca, só nesta semana, a investigação têm aprofundado as relações financeiras entre o banqueiro e Ciro Nogueira, encontrando hospedagens pagas para o líder do PP e o presidente da Câmara Hugo Motta, que também teria recebido “empréstimos” para uma cunhada. Até um obscuro ex-ministro da Cidadania do governo Bolsonaro, Ronaldo Vieira, já teve suas relações com o banqueiro reveladas. Além disso, uma ação de busca e apreensão na casa do senador Jaques Wagner (PT-BA) acendeu o alerta no governo de que o caso pode respingar diretamente no PT e na base aliada e, indiretamente, em Lula. A PF já prepara a próxima fase de investigações mirando em operadores do mercado financeiro que lucraram com as fraudes do Master. Portanto, não há chances de que o caso se encerre ou não respingue nas eleições presidenciais até outubro. Além da disputa pelo Executivo e da lama no Legislativo, o Master voltou ao centro do STF nesta semana. Por trás da discussão do pedido de prisão domiciliar do Vorcaro pai, apareceram as divergências dos bastidores da Corte, que estavam mais discretas desde a substituição de Dias Toffoli por André Mendonça na relatoria do caso. Gilmar Mendes, único a defender a prisão domiciliar, aproveitou para alfinetar Mendonça, que não se fez de rogado e rebateu. Na segunda turma, especificamente, o fiel da balança será Nunes Marques, uma incógnita em se tratando do Master, mas que neste episódio acompanhou o relator.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Os vencedores da guerra no Irã. Quem são os 41 magnatas que aumentaram sua riqueza em US$ 23,5 bilhões especulando com petróleo, gás e fertilizantes. Na Revista Ópera.

.Argumento original de Dark Horse tinha jornalista como inimiga número 1. Na fantasia milionária dos Bolsonaros, a imprensa era a inimiga a ser batida. No Intercept.

.Quem são os brasileiros deportados dos EUA? O Observatório de Deportações traça um perfil dos 3 mil brasileiros deportados por Trump. N’A Terra é Redonda.

.O trabalho invisível que sustenta as cozinhas solidárias. Como funcionam e os desafios que enfrentam as 4 mil cozinhas solidárias nas periferias. N’O Joio e o Trigo.

.Aqueles dias em Havana. No Jornal da USP, Daniel Afonso da Silva relembra a prisão do jovem Milton Santos pela ditadura militar.

.O que motivou a pintura de ruas na véspera da Copa do Mundo. Da convocação de Neymar às doações de tintas, as razões para a volta das ruas pintadas para a Copa. Na Agência Mural.

.João Saldanha: o comunista que virou técnico da seleção tricampeã na ditadura. No Brasil de Fato Entrevista, biógrafo resgata a trajetória do técnico que levou o Brasil ao tricampeonato.

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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

O fentanil e a mentira da guerra às drogas

O que segue a baixo, é newsletter, recebido em meu e-mail, do "Brasil de Fato (19/06/2026)


O fentanil e a mentira da guerra às drogas

Em 27 de maio de 2026, o senador Flávio Bolsonaro reuniu-se com Donald Trump em Washington e pediu que os Estados Unidos declarassem o PCC e o Comando Vermelho organizações terroristas estrangeiras. Um dia depois, o Departamento de Estado (DEA) anunciou a classificação. Em 5 de junho, ela entrou em vigor.

O governo brasileiro rejeitou a medida. O Ministério da Justiça já havia concluído, em 2025, que as facções não se enquadram na lei antiterrorismo brasileira por não terem motivação ideológica, política ou religiosa. Para o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a decisão americana é uma "forçação de barra" com "caráter político muito mais do que técnico". Concordamos.
A rejeição à medida não neutraliza as consequências práticas. Sob a legislação estadunidense, organizações designadas como terroristas estrangeiras podem ser alvo de congelamento de bens, bloqueio de transações internacionais e, em casos precedentes, de operações militares em território de terceiros países. Faz parte da construção de uma narrativa que busca justificar o injustificável, embasando parte da opinião pública para atuação de medidas políticas e militares. Mais uma vez os EUA estão agindo como donos do mundo.

Já vimos isso acontecer diversas vezes na América Latina. O desespero de perda de controle de Trump o faz retomar muitas medidas que recuperam e atualizam a Doutrina Monroe.

O mesmo roteiro

O discurso do combate às drogas como instrumento de intervenção é tão antigo quanto o imperialismo estadunidense.

Em 1989, Manuel Noriega, general panamenho que, durante anos, serviu à CIA, foi preso e extraditado sob acusação de narcotráfico quando deixou de ser útil a Washington. Na Colômbia, o Plano Colômbia distribuiu bilhões em armamentos sob o argumento do combate ao tráfico. A cocaína continuou fluindo.

Na Nicarágua dos anos 1980, o relatório de mais de mil páginas do Subcomitê de Terrorismo e Narcóticos do Senado estadunidense concluiu que grupos da Contra financiados pela CIA estavam envolvidos no tráfico de cocaína, e que a agência impediu investigações da própria DEA sobre essas redes.

Na Bolívia, Evo Morales expulsou a DEA em 2008 depois de documentar o envolvimento da agência no tráfico que alegava combater. Em janeiro de 2026, o mesmo argumento do narcotráfico justificou o sequestro do presidente legítimo da Venezuela, Nicolás Maduro, país submetido há anos a sanções econômicas criminosas e sabotagens de infraestrutura.

Em todos esses casos, o roteiro é o mesmo. Classificar um governo ou organização como ameaça ao combate às drogas, construir a narrativa internacionalmente e, então, intervir. O que muda é apenas o alvo.

A contradição e a epidemia de dentro

Em 1971, Nixon declarou a "guerra às drogas". Em 1994, John Ehrlichman, seu chefe de política doméstica, descreveu o que ela realmente foi: "A campanha de Nixon em 1968, e a Casa Branca depois, tinham dois inimigos: a esquerda antibelicista e a população negra. Não podíamos tornar ilegal ser contra a guerra ou ser negro. Mas associando os hippies à maconha e os negros à heroína, e então criminalizando pesadamente os dois, poderíamos desarticular essas comunidades." A entrevista foi publicada pela Harper's Magazine em 2016.

Enquanto exportava esse discurso para o mundo, o capital farmacêutico estadunidense fabricava a maior epidemia de dependência química da história recente. Em 1996, a Purdue Pharma lançou o OxyContin, vendido como analgésico de baixo risco de dependência, autorizado inclusive pela FDA, agência governamental responsável por monitorar questões de saúde pública. Era uma grande mentira.

A empresa enviou representantes a médicos de regiões desindustrializadas, onde trabalhadores carregavam no corpo anos de mineração sem saúde pública para ampará-los. Miravam a região conhecida como Cinturão de Ferrugem. Em 2020, a Purdue Pharma pagou mais de US$ 5 bilhões em penalidades por subornar médicos e enganar a DEA. A família Sackler, dona da Purdue, preservou a fortuna. O filme “Máfia da Dor”, de 2023, retrata muito bem essa história.

O fentanil veio quando os opioides prescritos ficaram mais difíceis de obter. Cinquenta vezes mais potente que a heroína, distribuído em microgramas. Em 2022, 73 mil americanos morreram por overdose de fentanil, segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês). Em 2024, após intervenção federal, o número caiu para 54 mil. As cenas de pessoas nas ruas sob o efeito da droga tomam as redes sociais e são assustadoras. Síntese do que o capitalismo é capaz de fazer com os seres humanos.

Os estados com maiores taxas de overdose em 2024 são West Virginia, o mais pobre da nação, ex-coração da mineração de carvão destruído pela desindustrialização; Alasca, que concentra as maiores populações de nativos americanos do país; e o Distrito de Colúmbia, com os maiores índices de desigualdade racial urbana dos EUA. São as comunidades que o capital abandonou depois de extrair o trabalho, os recursos e o território.

O país que registra dezenas de milhares de mortes anuais por fentanil dentro de suas próprias fronteiras se apresenta ao mundo como autoridade moral no combate às drogas de outros países. Recebe o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, golpista e preso, para negociar o enquadramento jurídico que abre portas para intervenção militar em solo brasileiro. E classifica como terroristas internacionais organizações criminosas do Brasil, deixando de fora as milícias ligadas à família que fez o pedido.

A China reagiu invocando o princípio de não interferência. O Brasil precisa fazer o mesmo, com clareza e firmeza. A narrativa que se constrói em torno do PCC e do CV como ameaça global, se não contestada agora, estará disponível amanhã para justificar intervenções sobre as quais o Brasil não terá controle. Conhecemos o roteiro. Vimos em Caracas, capital da Venezuela, o que ele produz.

O Brasil de Fato cobre essa história porque ela revela o sistema. E esse sistema exporta muito mais do que drogas.

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Nina Fideles
Diretora-executiva

18 junho, 2026

Da Setorização às CEBs: o amadurecimento da comunidade missionária!

Nas paróquias da Arquidiocese de Maringá, o processo de setorização do espaço geográfico paroquial já foi realizado em sua totalidade. Essa iniciativa representou um importante passo na busca de uma Igreja mais próxima das pessoas, presente nos bairros, vilas e realidades onde o povo vive.

Ao longo desse caminho, os resultados foram diversos. Em algumas paróquias, apenas uma pequena parcela dos setores permanece organizada como setor. Em outras, muitos desses setores amadureceram e se transformaram em comunidades, desenvolvendo uma espiritualidade comunitária própria. Nelas, já existem grupos de reflexão organizados, celebrações frequentes, participação ativa na vida paroquial e iniciativas pastorais que fortalecem a comunhão e a missão.

Entretanto, os frutos mais significativos podem ser percebidos onde as comunidades deram um passo além e se constituíram como Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Nessas experiências, a comunidade deixa de ser apenas um agrupamento territorial e assume plenamente sua identidade eclesial missionária. O povo organiza-se para cuidar da vida da comunidade, da evangelização, da celebração da fé e da solidariedade entre as pessoas.

As CEBs tornam-se espaços onde os moradores se conhecem, partilham suas alegrias e dificuldades, cuidam uns dos outros e assumem corresponsavelmente a missão da Igreja. Além de olhar para sua própria realidade local, mantêm uma profunda comunhão com a paróquia, a Arquidiocese e a sociedade, contribuindo para a transformação social à luz do Evangelho.

A experiência tem demonstrado que a setorização alcança sua maior fecundidade quando gera comunidades vivas e missionárias, e estas, por sua vez, amadurecem como CEBs. É nesse processo que a Igreja se torna mais próxima do povo, fortalece o sentimento de pertença, forma lideranças e promove uma evangelização encarnada na realidade das pessoas. Assim, a comunidade deixa de ser apenas um lugar onde se participa de atividades religiosas e passa a ser uma verdadeira família de fé, esperança e compromisso com o Reino de Deus.
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Eu, Lucimar Moreira Bueno (Lúcia)

Fim da escala 6×1: uma reflexão pastoral sobre o tempo e a dignidade da vida


O debate em torno da PEC nº 8, de 2025, ultrapassa a simples discussão sobre jornadas e escalas de trabalho. No centro dessa reflexão está uma questão profundamente humana e cristã: o valor do tempo na vida das trabalhadoras e dos trabalhadores.

O trabalho é uma dimensão essencial da existência humana. Por meio dele, mulheres e homens colaboram com a obra da criação, sustentam suas famílias e contribuem para o bem comum. Contudo, o trabalho não pode ocupar todo o espaço da vida. A pessoa humana é chamada também ao descanso, à convivência familiar, ao cultivo da espiritualidade, à participação comunitária, ao estudo, ao lazer e ao compromisso com a sociedade.

Quando refletimos sobre o tempo das trabalhadoras e dos trabalhadores, estamos refletindo sobre a qualidade das relações humanas. Estamos falando do tempo para acompanhar as filhas e os filhos, cuidar das idosas e dos idosos, participar da comunidade de fé, envolver-se nas ações solidárias, estudar, ler, ampliar conhecimentos e exercer a cidadania. Estamos falando do direito de viver plenamente.

A Doutrina Social da Igreja recorda que a economia e as estruturas sociais devem estar a serviço da pessoa humana, e não o contrário. Por isso, toda discussão sobre a organização do trabalho precisa considerar não apenas a produtividade, mas também a dignidade humana, a saúde física e mental, a vida familiar e a participação social.

Como comunidades cristãs, somos chamadas e chamados a olhar para esse debate com serenidade, consciência crítica e compromisso com o bem comum. Não podemos reduzir essa reflexão a uma questão meramente técnica ou econômica. Trata-se também de perguntar que tipo de sociedade queremos construir: uma sociedade em que as pessoas tenham condições de trabalhar com dignidade e, ao mesmo tempo, encontrem espaço para viver, conviver, aprender, celebrar a fé e participar da transformação da realidade.

A defesa de mais tempo para a vida não significa menos compromisso com o trabalho. Significa reconhecer que mulheres e homens são mais do que força de produção. São filhas e filhos de Deus, chamados a desenvolver todas as dimensões de sua existência: familiar, comunitária, cultural, espiritual, social e política.

Que este debate nos ajude a reafirmar um princípio fundamental do Evangelho: a vida humana vale mais do que qualquer lógica de produção. O trabalho deve servir à vida, e não a vida servir ao trabalho. Afinal, Deus não criou as mulheres e os homens apenas para trabalhar, mas para viver em plenitude, em comunhão com as outras pessoas e com toda a criação. Que cada trabalhadora e cada trabalhador tenham garantido o direito não apenas de sobreviver, mas de viver plenamente, participando da família, da comunidade e da construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.

12 junho, 2026

Tá liberado acreditar!

Tá liberado acreditar!

Olá, Flávio acredita que será salvo pela Copa, enquanto Lula acredita que ganhará o tetra.

.Faz o L outra vez. Nem mesmo a decisão do ministro Nunes Marques de proibir a divulgação de uma pesquisa eleitoral supostamente enviesada foi capaz de esconder o óbvio: Flávio Bolsonaro segue em queda enquanto Lula amplia a vantagem, como demonstrou a última rodada da Quaest. Apesar da cristalização da polarização, o que explica a resiliência do candidato do PL, Lula tem conseguido conquistar os eleitores independentes. Três fatores explicariam o movimento: o envolvimento de Flávio no caso Master, o rechaço do eleitorado brasileiro à interferência de Trump em assuntos de segurança pública e o novo tarifaço. Trocando em miúdos, o melhor cabo eleitoral de Lula tem sido o próprio Trump. Não passa batido também a melhora na avaliação do governo. Os setores mais favoráveis à gestão petista são as mulheres, os católicos, a população de baixa escolaridade, de renda inferior a dois salários mínimos, e da região nordeste. Já os mais críticos são homens, moradores da região sul, com ensino superior, evangélicos e com renda acima de cinco salários mínimos. É visando reduzir os danos nestes territórios do bolsonarismo que a campanha de Lula tem se esforçado para dialogar com a base evangélica, conseguindo inclusive reduzir a rejeição deste público ao presidente. Melhorar a coordenação da campanha nas redes sociais também é visto como prioridade, centrando fogo no desgaste de Flávio, como foi feito no caso Dark House e na relação com Trump. Porém, apesar da melhora na percepção geral, a economia continua sendo o ponto fraco: 44% dos eleitores considera que a situação piorou nos últimos 12 meses e apenas 20% acham que melhorou. A nova versão do Desenrola até ajudou mas não resolveu o problema do endividamento, e as pressões do mercado pela elevação dos juros, num cenário de restrições externas, podem comprometer os ganhos obtidos até agora. Isso sem contar notícias ruins em diferentes áreas, como o veto da União Europeia à carne brasileira e a suspensão temporária da vacina contra a dengue devido a efeitos colaterais não previstos, o que reforça a sensação de insegurança e podem ser usadas pela extrema-direita para desgastar o governo e alimentar o negacionismo.

.Prioridades. Depois de garantir a aprovação da PEC do fim da escala 6x1 na Câmara, o plano de Hugo Motta é acelerar a tramitação do Projeto de Lei do Executivo que trata do mesmo tema, mantendo o mesmo relator, e passar a bola para o Senado. O problema é que, desde que quebrou os pratos com o Planalto por Lula não ter aceitado um acordo - com STF, com tudo - para conter o escândalo do Master, Davi Alcolumbre tem feito de tudo para emperrar as pautas de interesse do governo. Sob a pressão das eleições, senadores de direita começaram a desembarcar da projeto de Rogério Marinho (PL-RN) que pretende rivalizar com a proposta governista e que propõe a flexibilização da jornada de trabalho, pagamento por hora e acordos individuais entre patrões e empregados. Mas o recuou não significa que o fim da 6x1 vai avançar mais rápido no Senado. O problema é que Alcolumbre está fazendo corpo mole para atrasar o andamento dos trabalhos, adiando o encontro de líderes e a reunião com o presidente da CCJ. A Copa chegou, a PEC segue parada no Senado e o PL de autoria do governo pode ter o mesmo destino. A resistência de Alcolumbre contribui para que outros setores coloquem um pé no freio. O ministro do TCU, Augusto Nardes, repete a ladainha de que a redução da jornada irá prejudicar a Previdência e ampliar a informalidade. Mas todo mundo sabe que as resistências têm outro motivo: a pauta favorece os trabalhadores e não os empresários. Casualmente, o recado foi dado pelo próprio Alcolumbre quando afirmou que não poderia colocar em pauta a aprovação de pisos salariais para diferentes categorias de trabalhadores em ano eleitoral para não pressionar os cofres públicos. Em contrapartida, o agronegócio não teve dificuldades em aprovar a toque de caixa no Senado o refinanciamento de suas dívidas, que custará R$140 bilhões. E, enquanto os brasileiros se vestiam de verde e amarelo e pegavam a vuvuzela, a CCJ aprovava a autonomia financeira e orçamentária do Banco Central e a proposta de redução da maioridade penal.

.Retranqueiro. Ninguém torcerá mais na Copa do que Flávio Bolsonaro. Com a bola rolando, Bolsonarinho ganhou 50 dias para que um bom desempenho da seleção brasileira jogue para baixo do tapete o caso Dark Horse e o tiro pela culatra da visita a Trump. Quando a Copa terminar, a campanha eleitoral começa de verdade. Até lá, se tiver sorte, Flávio vai desaparecer e torce para que os problemas façam o mesmo. Felizmente, isso não depende apenas da seleção ou do próprio Flávio. Primeiro, a nova delação de Daniel Vorcaro incluiu as negociações sobre as relações entre os Bolsonaros e os banqueiros. E mesmo assim não despertou confiança da Polícia Federal. Entre outras coisas, porque Vorcaro continua não confessando o que a PF já sabe, enquanto novas reportagens da Intercept demonstram que as relações eram mais profundas do que os dois reconhecem, com direito a planilha de pagamento e cronograma. Assim, ou Vorcaro abre mais a caixa preta ou as revelações podem passar por cima do banqueiro e de Flávio do mesmo jeito. Segundo, os Bolsonaros impuseram o candidato mas não conseguiram ainda unificar a direita. Ciro Nogueira, outro envolvido até o pescoço com o Master, continua magoado com a falta de solidariedade e não se sabe se ele vai manter a aliança do PP com o PL. A falta de carisma de Flávio também ajuda e os sinais estão no comportamento dos aliados nas redes sociais, como Tarcísio de Freitas, que evitou aparecer muito com o filho do chefe na Marcha de Jesus. Outra prova é a falta de um palanque robusto no Rio e em Minas, colégios eleitorais determinantes. Bolsonaros representam a política de Trump no Brasil, seja no modelo de segurança pública da extrema-direita, seja na economia. E é óbvio também que Trump não deixará de interferir nas eleições brasileiras, como já fez na Argentina e, mais recentemente, na Colômbia. Quem acha que basta a “química” entre Lula e Trump para sair dessa está subestimando os interesses e o alcance dos EUA. Por outro lado, além da pecha de traidor da pátria, sempre alimentada pelo irmão Eduardo, a estratégia de colar em Trump tem outros riscos, incluindo a associação com um presidente que tem promovido um fiasco atrás do outro na Copa do Mundo.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Um continente sequestrado do futuro: a América Latina entre o caos neoliberal e o declínio dos Estados Unidos. No Terapia Política, Márcio Pochmann analisa os impasses da atual conjuntura latino-americana.

.O que muda em Cuba após as propostas de reforma do Estado? A professora Amanda Álvarez Martínez (Universidade de Havana) analisa os impactos das novas leis de trabalho, habitação e terras. No Brasil de Fato.

.Para entender a indústria do Holocausto. No Outras Palavras, a visita ao Brasil de Norman Finkelstein, o autor judeu que denuncia a “indústria do holocausto”.

.A conta do vento. O Le Monde explica porque o centrão abraçou a energia eólica enquanto o governo passou a defender as termelétricas.

.Por que professores estão adoecendo em São Paulo? Pressão, violência e sobrecarga no cotidiano escolar. Na Agência Pública.

.CEU Cidade Dutra monta álbum da Copa coletivo para a comunidade. O álbum de figurinhas coletivo da Copa de uma escola pública da periferia de São Paulo. Na Agência Mural.

.O que foi a Batalha de Vertières, símbolo da camisa do Haiti censurada pela FIFA. Entenda o impacto do símbolo que retrata a vitória da revolução haitiana sobre a França. No Alma Preta.

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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.