29 maio, 2026

Polarize-se!

 

Polarize-se!

Olá, a rivalidade eleitoral não terá clima de torcida de futebol, e sim de luta de classes.

.Nem todo dia um 7x1. Depois de anos amargando uma reforma trabalhista aqui, uma retirada de direitos ali, os trabalhadores e trabalhadoras tiveram uma vitória maiúscula com a aprovação do fim da escala 6x1 na Câmara. O que começou como um desabafo de um balconista de farmácia, o hoje vereador Rick Azevedo, transbordou pelas redes sociais, virou Emenda Constitucional, passou por cima da chantagem do empresariado, do terrorismo da mídia, deu um nó no bolsonarismo - que ainda tentou bagunçar a votação defendendo uma proposta mais radical para tentar aprovar uma mais conservadora - para chegar na maior conquista de direitos desde a Constituição de 1988. Na versão aprovada, a escala de 5 dias de trabalho com 2 dias de descanso remunerado e a redução da jornada de trabalho de 44 horas para 42 horas semanais passarão a valer 60 dias após a promulgação da Emenda. Já a redução da jornada de 42 horas para 40 horas semanais ocorrerá 14 meses depois. Mas não significa que a luta acabou. A proposta agora vai para o Senado, onde vai depender dos humores de um Davi Alcolumbre, com contas a acertar com o governo, e sob pressão do empresariado e do bolsonarismo, tanto para não votar antes das eleições, como para permitir contrabandos, como compensações aos empresários ou o pagamento por hora trabalhada, como quer Flávio Bolsonaro. Por fim, a aprovação é a segunda boa notícia do governo no último período, além do episódio Dark Horse, e prepara o caminho para o que deve ser a campanha Lula 4: mais a esquerda justamente num momento em que parece que a expectativa da população com a economia está melhorando, ainda que a inflação exija sempre atenção.

.Pau de galinheiro. Não é propriamente uma novidade o envolvimento de Flávio Bolsonaro com práticas ilícitas. Sua candidatura decolou sob protestos iniciais de alguns membros do centrão, que depois não titubearam em apoiá-lo assim que seu nome foi confirmado pelo PL. O mesmo fez a Faria Lima. Não é de admirar, portanto, que mesmo com uma sucessão de novos escândalos, sua candidatura continua de pé e contando com o apoio do andar de cima. Talvez porque ninguém esperasse mesmo muita lisura por parte do Zero Um. Ainda mais que logo em seguida começa a Copa do Mundo e todas as atenções estarão nos gramados. As conversas com o “amigo” Vorcaro vazadas pela imprensa até geraram uma crise em sua campanha, tendo como resultado a perda de meia dúzia de pontos percentuais nas intenções de votos contra Lula. A tentativa de desviar o foco da crise indo ao encontro de Trump não resolveu o problema, mas ajudou a tirar o foco da escandalosa confissão do chefão do PL, Valdemar da Costa Neto, de que Flávio foi buscar o “restante do dinheiro” na visita ao banqueiro. Mais importante do que isso, os irmãos Bolsonaros trouxeram Trump para as eleições brasileiras, conseguindo a classificação das facções criminosas como organizações terroristas. Mas, em se tratando de eleições, tudo tem custos e limites. O envolvimento do ex-governador do Rio, Cláudio Castro, num esquema de desvio de recursos da RioPrevidência para o Master que soma cerca de R$3,7 bilhões pode abalar a candidatura dos Bolsonaros no terceiro maior colégio eleitoral do país se comprovado algum vínculo mais direto de Flávio com seu aliado na política estadual do Rio. E, no caso Dark Horse, se as investigações apontarem que o dinheiro que foi parar nas mãos de Eduardo nos Estados Unidos foi usado não só para financiar uma vida de luxo, mas para a campanha de sabotagem contra o Brasil na questão das tarifas, pode ser que os dois irmãos ainda acabem fazendo companhia para o pai na papudinha. A possibilidade de um naufrágio da candidatura bolsonarista puro sangue tem levantado especulações sobre a possibilidade de Michelle Bolsonaro ser vice de Caiado (PSD), além de uma aproximação entre este e Romeu Zema (Novo). Mas, mesmo sendo inviável para vencer a eleição contra Lula, Flávio ainda pode ensaiar um retorno ao bolsonarismo raiz, perdendo a maioria nas urnas, mas galvanizando os 30% dos eleitores fieis, dando sobrevida ao bolsonarismo e ajudando a fortalecer a bancada da direita no Congresso.

.Ponto Final: nossas recomendações.


.Como o socialismo poderia funcionar no século XXI. Em entrevista à Jacobin, Vivek Chibber reflete sobre o planejamento estatal e a economia de mercado no socialismo.

.Quem lutará pela transformação do Brasil? Márcio Pochmann aborda a fragmentação da classe trabalhadora e os desafios para a emergência de um novo sujeito revolucionário. No Outras Palavras.

.O sistema que fabrica corrupção no governo do Rio não quer ser desmontado. Cecília Olveira detalha o que é e como funciona a máquina de corrupção carioca. No Intercept.

.Que fim levou a poupança de Lydia. A historiadora Keila Grinberg comenta sobre a investigação a respeito do destino dos depósitos da população escravizada na Caixa Econômica no século XIX. Na Piauí


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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

E se o Brasil virar uma Venezuela?

O que segue a baixo, é newsletter, recebido em meu e-mail, do "Brasil de Fato" (29/05/20266).


E se o Brasil virar uma Venezuela?

O que você conhece sobre a Venezuela? O que você sabe sobre como se vive no país, sobre sua capital Caracas, sua história, sua luta? Como você se informa sobre o que está acontecendo na Venezuela e no que você acredita?

Aqui, no Brasil de Fato, fazemos do acompanhamento próximo do que realmente acontece na Venezuela um compromisso diário. Temos correspondência fixa no país há anos, parceiros locais de longa data, acompanhamos as atividades do Movimento de Trabalhadores Sem-Terra no país e, recentemente, tive a oportunidade de passar duas semanas em Caracas estudando comunicação e luta latino-americana.

Em 120 horas de aulas, foi possível compreender que a separação consequente do Tratado de Tordesilhas vai muito além do que era de interesse dos nossos colonizadores. Enquanto um lado da América Latina fala espanhol e teve um libertador comum, falamos uma língua derivada do português de Portugal e tivemos nossa independência decretada após um combinado entre pai e filho.

Quando fazemos essa comparação por um viés mais simplista, muitos poderiam pensar que estamos perdendo. Mas o Brasil não fica atrás na luta da população. De uma história com Canudos, Contestado, dos Farrapos e de Palmares aos dias de hoje, em que lutamos pela terra, pelos direitos trabalhistas, pelo reconhecimento das minorias, a gente também sabe o que quer e vai atrás.

Se o que nos separa do resto da América Latina é uma linha invisível que trouxe diversas diferenças, o que nos une é a luta pela soberania, é a vontade de vencer um império que impõe suas garras em todo o continente, com maior ou menor intensidade, e é a crença na força do poder popular.

E acredito que é por meio da comunicação que podemos, e devemos, nos unir mais e reforçar esta união. O objetivo do curso realizado na Universidad Internacional de Comunicaciones era justamente este: criar uma rede de comunicadores populares, de esquerda, progressistas, comprometidos com as lutas de seus países e com a verdade sobre suas histórias.

Com base nessa proposta, aprendi sobre Guatemala, El Salvador, Cuba, Colômbia e Bolívia, para muito além das histórias venezuelanas. Aprendi sobre o real impacto dos Estados Unidos na história, e na sobrevivência, de cada um desses países. Confirmei como não há povo mais feliz que o latino-americano que, no meio de tanta dificuldade, perdura, dança, dá risada, e não desiste.

Enquanto brasileiros, não temos o espanhol como língua-mãe, mas nossa comunicação vai muito além disso. Não poderíamos ser mais latinos, já que dançamos, cantamos, lutamos e vivemos tudo o que essa América Latina tem a oferecer.

Que usemos essa comunicação além das barreiras para aprender com nossos hermanos. Que sejamos fonte de informação para os brasileiros sobre o que os outros povos da América Latina realmente estão passando. Que não deixemos as fake news tomarem conta do noticiário e que a luta de cada país seja devidamente reconhecida.

No caso específico da Venezuela, é sempre importante repetir: não é crise, é bloqueio. Não é captura, é sequestro. As pessoas não comem cachorros e nem estão passando fome nas ruas. Há muita unidade, educação, gentileza, alegria e luta. E Caracas é linda, linda.

A comunicação é um caminho da verdade, sim, mas também do rompimento de preconceitos. Como infelizmente não é possível viajar para cada canto deste continente para conhecer de perto a sua história, é com base na comunicação que tem lado e compromisso que a gente pode ir desvendando um pouco mais do universo que é dividir fronteiras com dez países — sem contar seus vizinhos e, assim, vai.

Se a ignorância é uma bênção, a informação é o que vai nos fazer vencer. Enquanto sociedade, enquanto país, enquanto continente. Temos esse objetivo no Brasil de Fato, e você vai encontrar diversas mídias similares na América Latina. Que a gente nunca se canse de lutar por uma informação de qualidade e pela soberania do nosso povo.

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Rafaella Coury
Supervisor de edição

28 maio, 2026

"Magnifica Humanitas" Primeira Encíclica de Leão XIV

A encíclica Magnifica Humanitas foi assinada em 15 de maio de 2026, no 135º aniversário da Rerum Novarum; e publicada oficialmente em 25 de maio de 2026 pelo Vaticano.

O documento é a primeira encíclica do Papa Leão XIV e aborda a proteção da dignidade humana na era da Inteligência Artificial.



A encíclica é um convite prático. Ela nos convoca a sermos pontes de misericórdia. O Papa Leão XIV nos pede para sairmos do isolamento de nossas telas e rotinas para olharmos nos olhos daquelas e daqueles que compartilham a vida conosco: em nossas casas, paróquias e ambientes de trabalho.

“A humanidade se torna magnífica não quando domina o mundo através da força ou da técnica, mas quando se inclina, à semelhança do Bom Samaritano, para curar as feridas do irmão.” — Papa Leão XIV (Magnifica humanitas)

A Carta Encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, apresenta uma profunda reflexão sobre a dignidade da pessoa humana diante dos avanços da Inteligência Artificial e das novas tecnologias digitais. O documento procura orientar a humanidade para que o progresso científico esteja sempre a serviço da vida, da justiça e do bem comum.

A encíclica começa reafirmando que toda pessoa humana possui uma dignidade única e inviolável, por ter sido criada à imagem e semelhança de Deus. Nenhuma máquina, algoritmo ou sistema tecnológico pode substituir o valor da consciência humana, da liberdade, da espiritualidade e da capacidade de amar. O Papa alerta para o perigo de transformar pessoas em simples dados, números ou objetos controlados pela lógica econômica e tecnológica.

Ao mesmo tempo, a Magnifica Humanitas reconhece que a Inteligência Artificial pode trazer importantes benefícios para a sociedade. A tecnologia pode colaborar na medicina, na educação, na comunicação, na proteção ambiental e em muitos outros campos que ajudam a melhorar a vida humana. A Igreja, portanto, não rejeita a ciência nem o progresso tecnológico. Pelo contrário, incentiva o desenvolvimento científico quando este está comprometido com a promoção da vida e da dignidade humana.

Entretanto, a encíclica chama atenção para os graves riscos éticos e sociais presentes no uso irresponsável da Inteligência Artificial. Entre os principais problemas estão a vigilância excessiva, a perda da privacidade, a manipulação das pessoas por meio de algoritmos, a disseminação de notícias falsas e o crescimento dos discursos de ódio nas redes digitais. O documento denuncia ainda a concentração de poder econômico e tecnológico nas mãos de poucos grupos, aumentando as desigualdades e excluindo milhões de pessoas do acesso justo aos benefícios da tecnologia.

Outro tema importante tratado pela encíclica é o valor do trabalho humano. O Papa recorda que o trabalho não é apenas um meio de produção econômica, mas também uma forma de participação na criação e realização da dignidade humana. Por isso, critica sistemas econômicos que substituem trabalhadores sem responsabilidade social, promovendo desemprego, exclusão e descarte das pessoas consideradas “inúteis” pelo mercado.

A educação também ocupa lugar central na reflexão da Magnifica Humanitas. O documento insiste na necessidade de formar crianças, jovens e adultos para o uso consciente e ético das tecnologias digitais. É necessário desenvolver senso crítico, responsabilidade e capacidade de discernimento diante das informações que circulam nas redes. A educação deve ajudar as pessoas a fortalecer valores humanos como solidariedade, respeito, diálogo e fraternidade.

A encíclica ressalta ainda que nenhuma Inteligência Artificial poderá substituir plenamente a consciência humana. As máquinas podem calcular, organizar informações e executar tarefas complexas, mas não possuem amor, compaixão, sabedoria espiritual nem responsabilidade moral. Somente o ser humano é capaz de fazer escolhas éticas fundamentadas na justiça, na misericórdia e no cuidado com o próximo.

Inspirada pela Doutrina Social da Igreja, a Magnifica Humanitas reafirma princípios como o bem comum, a solidariedade, a justiça social, a opção pelos pobres e o cuidado com a criação. O Papa convida a humanidade a construir um modelo de desenvolvimento tecnológico que promova inclusão, fraternidade e respeito à Casa Comum.

Assim, a mensagem central da encíclica é clara: o verdadeiro progresso não acontece quando as máquinas se tornam mais poderosas, mas quando a humanidade se torna mais justa, solidária e comprometida com a dignidade de cada pessoa.

22 maio, 2026

Direita rachadinha

Direita rachadinha


Olá, Flávio Bolsonaro passa vergonha, o centrão titubeia, a terceira via sonha em existir e a Faria Lima busca um candidato para chamar de seu.

.Róliudi. Antes mesmo de estrear, “Dark Horse” já rende sequências piores do que nas telas. Depois do aúdio de Flávio Bolsonaro, foi a vez do deputado Mario Frias (PL-SP), ex-secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro, chamar o banqueiro de irmão e agradecer pelo financiamento. O dinheiro de Vorcaro navegava por uma estrutura tripla: a Entre Investimentos e Participações no Brasil, o fundo Havengate Development LP no Texas (cujo agente legal é o advogado Paulo Calixto, responsável pelo processo imigratório da família Bolsonaro nos EUA), e a GoUp Entertainment LLC, sediada na Flórida. Para atrair grandes fortunas, a produção vendia cotas de US$500 mil, com um pacote especial de US$1,1 milhão que prometia "oportunidade de imigração". Com o mandato cassado, Eduardo Bolsonaro arranjou um emprego como produtor-executivo e responsável pela engenharia financeira internacional. Em diálogo interceptado de março de 2025, ele explica ao intermediário Thiago Miranda, sócio do Portal Leo Dias, que "o ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo", num indício que estamos falando de lavagem de dinheiro. O escândalo desemboca ainda na gestão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB). Karina Ferreira da Gama, presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB) e sócia da GoUp Entertainment LLC, é o elo entre os R$108 milhões pagos pela Prefeitura de São Paulo num contrato emergencial de Wi-Fi gratuito e o filme bolsonarista. O Tribunal de Contas do Município havia identificado pelo menos 20 irregularidades graves no edital — ausência de ampla concorrência, ICB sem qualquer histórico técnico em telecomunicações — e a Secretaria de Inovação seguiu adiante. Resultado: dos 5 mil pontos de Wi-Fi prometidos, foram instalados pouco mais de 3.200; três aditivos elevaram o repasse de R$ 43 milhões previstos para R$ 69 milhões efetivamente pagos. O ICB compartilha endereço, sócios e procuradores com a GoUp na Avenida Paulista e recebeu ainda emendas federais carimbadas por Mario Frias, que é procurado há mais de um mês pelo ministro Flávio Dino para prestar esclarecimentos.

.Vida real. Se as conversas entre Flávio e Vorcaro sobre o filme já eram escandalosas, o encontro presencial entre os dois depois da prisão do banqueiro caiu como uma bomba no QG dos Bolsonaros. Em primeiro lugar, o efeito se fez sentir no eleitorado: em poucos dias, as intenções de voto em Flávio recuaram 6% no segundo turno contra Lula, segundo o Instituto AtlasIntel. Mas a base aliada também foi atingida. Dentro do PL, o sentimento de traição e de que algo mais grave possa vir à tona gerou incertezas sobre o futuro da campanha do candidato bolsonarista. E, em outro pedaço importante da direita e do centrão, PP, União e Republicanos, o compasso é de espera. Até porque essa ala precisa gerir sua própria crise depois que veio à tona o envolvimento do cacique do PP, Ciro Nogueira, com Vorcaro, que a cada dia ganha novos capítulos. O mesmo compasso de espera tem marcado as reações dos principais concorrentes do espólio da direita: Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). Ambos criticaram vagamente os casos de corrupção, mas sem bater de frente com Flávio. Enquanto isso, Merval Pereira e outros viúvos da terceira via entraram em alvoroço acreditando que a finada tenha reencarnado em um corpo inesperado, como Joaquim Barbosa (DC), ou talvez até em Aécio Neves (PSDB). O saldo do desgaste de Flávio Bolsonaro também passa pelo setor evangélico e pela Faria Lima. No primeiro caso, por questões morais evidentes; no segundo, não tanto pela moral mas por falta de confiança. E é justamente o setor financeiro que Flávio deve buscar reconquistar com o anúncio de propostas e compromissos mais claros para a economia. Até porque, quando o assunto é a rede de amizades de Vorcaro, o candidato do PL não estava sozinho. Pairam dúvidas sobre as autoridades financeiras e seu envolvimento na crise do Master, especialmente o capítulo que envolve o BRB. O tema voltou à pauta pelas mãos de Renan Calheiros (MDB-AL), que comanda a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, e que solicita esclarecimentos e maior transparência sobre o papel que o Banco Central desempenhou no desenrolar da crise. Mas estas são cenas do próximo capítulo.

.Passando a boiada outra vez. Enquanto Flávio Bolsonaro busca reduzir danos, Lula dá um suspiro de alívio. É que a má-fama de Flávio respingou positivamente no presidente, que recuperou levemente a popularidade de seu governo, segundo a pesquisa AtlasIntel. Os números são singelos - a aprovação passou de 42% para 42,9% e a desaprovação caiu de 51% para 48,4% - mas em tempos de aperto cada pequena vitória conta. Animado pelas dificuldades do adversário, pelos tropeços do centrão e pela recente conversa amigável com Trump, Lula se sentiu confiante para destravar algumas pautas emperradas. No espírito de mostrar todas as cartas que têm até as eleições, o governo acenou com uma linha especial de crédito para motoristas de app e taxistas na compra de carro zero. Já no tema sensível da regulação das big techs, o governo seguiu o entendimento do STF sobre a necessidade de aumentar as responsabilidades das plataformas sobre os conteúdos veiculados nas redes. Assim, por meio de decreto, o Planalto ampliou os poderes da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) no âmbito do Marco Civil da Internet. Na prática, as empresas devem facilitar os canais de denúncias, tornam-se responsáveis por tirar do ar perfis que pratiquem crimes mesmo antes de decisão judicial, e a ANPD passa a ter maiores poderes de fiscalização. Mas as boas notícias para o Planalto tiveram vida curta. Logo em seguida, o Congresso derrubou o veto de Lula em quatro dispositivos da LDO e autorizou doações públicas para estados e municípios em ano eleitoral, o que, na prática, significa liberar a distribuição de emendas de deputados e senadores para suas bases, vitaminando seus projetos eleitorais. Assanhada, a bancada ruralista também quer passar mais uma parte da boiada de flexibilização das leis ambientais. E a direita, sem-vergonha, fez até um abaixo-assinado para incluir uma transição de 10 anos para o fim da escala 6x1, incluindo uma pegadinha na PEC que permitiria aumentar a jornada de trabalho das atuais 44 para 52 horas semanais! Com tudo isso, talvez Lula seja obrigado a recuar da ideia de indicar novamente Jorge Messias para a vaga no STF, para não bater de frente com Davi Alcolumbre e aumentar os atritos com o Congresso.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Cinco fatos que mostram risco iminente de agressão dos EUA à Cuba. Depois do fracasso na guerra contra o Irã, Trump retoma ofensiva contra a ilha caribenha. Por André Freire, no Esquerda OnLine.

.Por que a Bolívia está em chamas. Entenda como seis meses após o fracasso da esquerda nas eleições, uma nova onda de protestos varre o país andino. Por Arián Quiroga, no Outras Palavras.

.Quem salvará o Digimais? Depois do Master, a nova dor de cabeça do setor financeiro é o banco do pastor Edir Macedo. Na Piauí.

.Seleção das bets: um a cada três convocados veste camisa com bet no patrocínio principal. Dos 26 convocados para a seleção brasileira, nove atuam em times com casas de apostas no centro da camisa. Na Pública.

.Os judeus que dizem não ao sionismo. No Outras Palavras, conheça a dolorosa jornada pessoal de Bruno Hendler para dissociar o judaísmo do sionismo.

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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.


Crimes de Maio: o massacre que o Brasil ignora

O que segue a baixo, é newsletter, recebido em meu e-mail, do "Brasil de Fato" (22/05/20266)


Crimes de Maio: o massacre que o Brasil

Um célebre escritor e jornalista brasileiro chamado Eric Nepomuceno definiu o nosso país como o da amnésia, em uma entrevista ao Brasil de Fato. Ele citava o massacre de Eldorado do Carajás, quando 21 sem-terra foram brutalmente assassinados pela PM do Pará por realizarem uma passeata pacífica pela reforma agrária, em 17 de abril de 1996.

Da zona rural à urbana, do campo à cidade, o Brasil repete a tal da amnésia citada por Nepomuceno. O que aconteceu há 20 anos, em maio de 2006, em São Paulo (SP), foi esquecido pelo país. Centenas de jovens negros foram assassinados sem sequer saberem o motivo pelo qual eram baleados pelas costas ou rendidos no chão.

Aqui digo centenas porque, de fato, ninguém sabe ao certo quantos foram mortos. Foram mais de 500, mas até isso o Estado brasileiro se esforça em ignorar: a dimensão do crime que cometeu e o mínimo respeito com as vítimas.

Como remédio para esse esquecimento, o Brasil de Fato e a Ponte Jornalismo lançaram, neste mês, o podcast Crimes de Maio. O trabalho está dividido em cinco episódios, lançados semanalmente (já foram dois, temos mais três), disponíveis nas plataformas de podcast, no YouTube e nos sites dos veículos.

O ponto de partida do podcast é discutir a memória que a população, no geral, tem do que foi essa semana trágica para a história do país. O lugar comum é que uma série de rebeliões e motins do Primeiro Comando da Capital (PCC) causaram a morte de dezenas de policiais, que apenas responderam aos ataques, o que levou à morte de bandidos.

Contestar a versão oficial é um desafio, afinal muitos assassinatos foram ocultados, tiveram a cena alterada ou corpos levados antes da perícia. Mas que a verdade seja dita: sabemos que não eram bandidos, a grande maioria eram inocentes, apenas mais jovens negros de periferias do país. Como Edson Rogério Silva dos Santos, filho da revolucionária Débora Maria da Silva, uma das fundadoras do movimento Mães de Maio.

Inclusive, essa é a principal chama de esperança que resiste em meio a mais uma tragédia brasileira. O que surgiu deste massacre é único e persevera até hoje.

Na semana passada, quando se completaram os 20 anos, em Santos (SP), uma das cidades-palco dos crimes, em meio à chuva, centenas de pessoas se reuniram para lembrar do que aconteceu naquela semana de maio de 2006.

O podcast faz a ponte do legado da ditadura com os crimes, relembra a chacina do Parque Bristol, na zona sul da capital paulista, o assassinato de Ana Paula Gonzaga dos Santos, grávida de nove meses, e de tantas mães que já morreram e não viram um pingo de justiça cair sob o colo de luto e ausência diária.

Convidamos toda nossa audiência a relembrar o que foram os Crimes de Maio ou ressignificar a lembrança do que aconteceu há 20 anos, em mais uma semana de tragédia na periferia brasileira.

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Lucas Salum
Supervisor da Rádio Brasil de Fato