Mais uma escolha difícil
Olá, a dúvida é pertinente. Se você é bilionário, pense bem em quem votar.
.Vamos à luta. Com o sinal amarelo aceso pelas últimas pesquisas, o Planalto e o PT começaram a esboçar o tom da campanha e a cara do programa eleitoral. Parte do sucesso da operação vai depender da afinação entre os dois ministros da articulação política, Guilherme Boulos para os setores mais populares e Josué Guimarães para o centrão. A prioridade número um é a aprovação do fim da escala 6x1 no Congresso, de preferência antes de julho. Aqui, o PL de urgência do governo funcionou como mecanismo de pressão e não há problema se o projeto aprovado for uma das PECs em tramitação. O que incomoda o governo é a tentativa do centrão de compensar a medida com a volta da desoneração ou algum outro benefício para o setor empresarial. Menos sorte teve o projeto de regulação dos trabalhadores de aplicativo que, sem consenso, fica para o fim do ano ou na gaveta. A segunda urgência é atacar o alto endividamento da população. Outras medidas como o subsídio para a gasolina e o fim da “taxa de blusinhas” também estão sendo consideradas. Além disso, o PT apresentou uma proposta para proibir e eliminar todas as bets. A ideia geral do pacote é mirar em mulheres, evangélicos e no sudeste. A novidade que o programa eleitoral do PT na televisão trouxe foi pôr o bode do Master no meio da sala, mirando na regulação do sistema financeiro e propondo uma reforma do Judiciário. Outra novidade é a possibilidade de novas medidas para a segurança pública. Este outro bloco mira no eleitor mais conservador ou de centro. Em um documento que deve orientar a atuação do partido nos próximos anos, projeta-se também a revisão do teto de gastos e do papel dos militares, além de alianças com a direita liberal contra a extrema-direita. Outra dimensão da tática eleitoral foi demonstrada pelo presidente brasileiro na viagem pela Europa. Soltinho, Lula abriu a caixa de ferramentas contra Trump e de quebra nas big techs. Ao bater no presidente alaranjado, Lula mira no candidato-laranja de Jair Bolsonaro, colando o tarifaço e o risco de perda da soberania em Flávio. Porém, apesar da reciprocidade no episódio da expulsão do delegado da PF dos EUA, o Planalto também vai ter que mediar o discurso e a prática, porque ainda aguarda uma reunião com Trump para ajustar as arestas na economia. Nesta mesma toada, o debate sobre as terras raras é uma forma do governo firmar pé na soberania e se diferenciar de Trump e dos Bolsonaros, ainda que o PT e o Planalto tenham opiniões diferentes sobre a criação de uma estatal para terras raras.
.Tango na cuíca. A direita brasileira sonha em ser gringa, mas seu comportamento é cada vez mais parecido com o dos hermanos. Primeiro porque uma vitória nas eleições de outubro representaria um movimento pendular tipicamente argentino. Segundo porque, com a perda de reputação internacional de Trump, Javier Milei se tornou o tipo ideal dos candidatos da oposição por aqui. A começar pelo projeto de governo esboçado por Flávio Bolsonaro. Mesmo sem o discurso truculento e militarista do pai, o sucessor da família flerta com o radicalismo neoliberal da Faria Lima. Não à toa, a suposta moderação de Flávio não convence a maior parte do eleitorado. No horizonte do candidato do PL está um “tesouraço” nos gastos públicos inspirado no choque argentino, uma nova rodada da reforma da previdência e mais desregulamentação das relações trabalhistas. A intenção é enviar um recado ao mercado de que Flávio é o candidato mais comprometido com a austeridade. Flávio também tenta se apresentar como o candidato do agro, no que bate de frente com Caiado, mas precisa conquistar o voto feminino e ampliar sua base no nordeste, o que o mantém dividido entre a indicação da veterana senadora ruralista Tereza Cristina (PP-MS) para assumir o cargo de vice, ou a novata vereadora de Fortaleza Priscila Costa, ligada ao PL Mulher. Vale notar que o excesso de candidatos disputando o espólio do bolsonarismo também inflaciona as pautas da oposição. A estratégia de outro Milei verde-amarelo, Romeu Zema, é privatizar geral, acabar com a CLT e capturar a base bolsonarista, apresentando-se como o inimigo número 1 do STF - num embate direto com o ministro Gilmar Mendes. Também não passa despercebida a familiaridade entre o lema de Zema, “Brasil sem intocáveis”, e o velho conhecido “caçador de marajás” de Fernando Collor de Mello. Mas todo mundo sabe que o STF se tornou alvo dos candidatos de direita não tanto por questões morais, e sim porque eles, e seus aliados, estão envolvidos em processos que tramitam na Corte. E, nisso, a oposição pode receber uma ajudinha do Congresso. É que Hugo Motta defende a derrubada do veto contra o PL da Dosimetria, a versão light da anistia aos golpistas aprovada pelo Congresso e vetada por Lula em janeiro.
.Ponto Final: nossas recomendações.
.Juventude e Esquerda: um adeus? No Outras Palavras, Rafael Rodrigues da Costa reflete sobre a captura da juventude pelos valores conservadores.
.Os sistemas de saúde africanos só funcionam para os ricos. Como as exigências do FMI e do Banco Mundial impedem o acesso à saúde no continente africano. Na Jacobin.
.30 anos do massacre de Eldorado dos Carajás: o fotógrafo do Bem-Querer diante do horror. O fotógrafo João Roberto Ripper relembra sua cobertura do massacre no Pará. Na Agência Pública.
.Quem está por trás da mineração em terras indígenas no Brasil? Relatório da APIB demonstra articulação entre empresas estrangeiras e os três poderes para abrir terras indígenas para mineração. No Diplô Brasil.
.Uber Conta, operada pela Digio, retém até 100% de corridas de motoristas endividados. Como Uber e banco digital operam uma nova forma de escravidão digital por dívida. Na Pública.
.Livro resgata Apulco de Castro, jornalista negro linchado no século 19 e apagado da história brasileira. A Revista Ópera recupera a história do jornalista negro morto por oficiais do Exército ligados à guarda pessoal de Dom Pedro II.
.Ogum e a dimensão civilizatória: uma leitura para além da guerra. Na Alma Preta, David Dias recupera a construção de sentido e a dimensão transformadora do orixá da forja.
--------------------
Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.












