O que segue a baixo, é newsletter, recebido em meu e-mail, do "Brasil de Fato" (03/07/2026).
E se o Brasil virar uma Venezuela?
Quem diria que a divisão da Terra em camadas, a união das placas da América do Sul e do Caribe e a capacidade da litosfera de segurar suas tensões trariam mais más notícias para um país que está tendo um 2026 já bastante desafiador, e desde seus primeiros dias.
Em um ano no qual sua população já viveu um bombardeio que deixou diversos militares mortos e muitos moradores traumatizados, que teve como consequência o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira combatente Cília Flores, aparentemente os Estados Unidos não são o único inimigo — mesmo que sigam sendo um dos principais.
Passados nove dias da maior tragédia natural vivida pela Venezuela em mais de um século, a força e a dedicação para resgatar a população são inspiradoras. No último informe, o número de mortos ultrapassava os 2,2 mil, mas o de resgatados era mais de 6,4 mil. Os feridos e desabrigados são muitos, mas há assistência interna e estrangeira, abrigos temporários, hospitais de campanha, equipes de resgate e campanhas solidárias.
A solidariedade nessas horas merece atenção. Porque ela vem de países que estão mais bem supridos, como a China, de alguns que têm seus próprios escombros a lidar, como a Rússia, e até daqueles que conhecem bem o que é passar por dificuldades, mas não por isso deixariam de estender as mãos, como Cuba.
A Venezuela não está sozinha. Pelo menos, não agora. Já são mais de 30 países que enviaram equipes de resgate e ajuda humanitária para este momento tão difícil. Afinal, é preciso buscar, quebrar, apoiar, medicar, confortar, cuidar e, para tudo isso, quanto mais pessoas, melhor. A Organização das Nações Unidas está envolvida e tem até cachorros vietnamitas participando da busca por sobreviventes.
Mas e depois? Em algum momento, infelizmente, a busca deve parar de encontrar pessoas com vida e vai servir mais para oferecer um fim de respeito para quem padeceu. Os feridos serão tratados e receberão alta, podendo voltar a viver, mas não necessariamente voltar à vida anterior, porque passar por um evento deste tamanho muda um destino para sempre.
E o país passará por um longo processo de reconstrução. O caminho, me parece, é este: destruição, busca e acolhimento, aceitação, superação e reconstrução. Mas como realmente ocorre o processo de reconstrução e recuperação de uma nação que sofre influências externas na intensidade que acontece com a Venezuela?
O país vive uma crise histórica devido às sanções e bloqueios impostos pelos Estados Unidos, que minam aspectos econômicos e dificultam o acesso a equipamentos e tecnologias de resgate essenciais — e não só agora, que são ainda mais necessários.
Essa agressão política reduz o potencial de resposta rápida da Venezuela para lidar com um desastre natural como este, pois não há insumos, não há profissionais qualificados, não há abertura e sequer há dinheiro para superar as adversidades. E não são só os Estados Unidos: a União Europeia trata essa tragédia da mesma forma que faria há 500 anos, com indiferença e insensibilidade.
Ainda assim, a dupla agressão, política e natural, poderia fazer qualquer um desistir. Mas, tal qual os brasileiros, os venezuelanos não desistem nunca. A força latina de um povo que lutou para se libertar corre no sangue da sua população até agora, e é isso que os mantém em frente.
Cada novo sobrevivente é comemorado. Cada nova ajuda é celebrada. A esperança, a dedicação e o empenho que já faziam parte do dia a dia do venezuelano, inclusive em um ano com mais debilidades, tentam se fortalecer em meio a tanta dor.
A Venezuela resiste. A Venezuela se recupera. Não vai ser fácil. Assim como a última semana foi bastante triste e pesada, infelizmente este sentimento vai perdurar e os próximos meses não serão leves. Mas, sem esperança, fica difícil viver. E se tem uma coisa que o latino-americano tem, é vontade de viver.
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Rafaella Coury
Supervisora de edição