22 outubro, 2026

Eleições 2026: Deus Ouve os Clamores do Povo. E Nós?


Eleições 2026: Deus Ouve os Clamores do Povo. E Nós?

Que sociedade estamos construindo e quem se beneficia das decisões políticas?

Ao nos aproximarmos das eleições, somos convidadas e convidados a refletir não apenas sobre quem merece nosso voto, mas sobre qual projeto de sociedade queremos construir.

A realidade brasileira é marcada por profundas diferenças econômicas. A população trabalhadora — assalariadas e assalariados, trabalhadoras domésticas, profissionais autônomos, trabalhadoras e trabalhadores rurais, pequenos comerciantes e tantas outras pessoas — sustenta a sociedade com seu trabalho. Mesmo assim, muitas pessoas enfrentam dificuldades para garantir alimentação, moradia, transporte e outras necessidades básicas.

As famílias de baixa renda convivem com maiores dificuldades e, muitas vezes, dependem de políticas públicas e serviços sociais para assegurar direitos essenciais. A classe média, embora tenha maior poder de consumo, também pode depender do salário mensal e enfrentar insegurança financeira. Já a população rica e muito rica concentra rendimentos elevados e, em muitos casos, patrimônios, empresas e investimentos.

Essas diferenças não determinam como cada pessoa pensa ou vota, mas nos ajudam a compreender que as decisões políticas e econômicas afetam de maneiras diferentes os diversos grupos sociais.

E o nosso voto, considera essa realidade?

Se você tem uma microempresa ou uma empresa de pequeno ou médio porte, no comércio, na indústria ou nos serviços, pergunte-se: a que grupo pertence a maior parte de sua clientela? À população trabalhadora, à população de baixa renda, à classe média ou à população rica e muito rica?

Entre os planos de governo, qual apresenta melhores condições para que seus clientes tenham poder aquisitivo e possam consumir seus produtos e serviços?

E você, trabalhadora ou trabalhador, que depende do emprego para sustentar sua família: qual projeto de governo oferece melhores perspectivas para a continuidade da empresa em que trabalha, a manutenção dos empregos e a valorização do trabalho?

A economia está interligada. Quando há trabalho e renda, as pessoas consomem, o comércio se movimenta e as empresas podem crescer. Quando faltam emprego e poder aquisitivo, toda essa dinâmica é afetada.

Por isso, precisamos olhar além dos discursos e das preferências pessoais. É necessário comparar propostas e perguntar: quais delas enfrentam a fome e a pobreza, fortalecem a saúde e a educação públicas, promovem trabalho digno, reduzem desigualdades e respeitam a democracia e os direitos humanos?

Deus viu, ouviu e conheceu os clamores do seu povo

No livro do Êxodo, Deus diz a Moisés:

“Eu vi, eu vi a miséria do meu povo [...] Ouvi o seu clamor [...] conheço as suas angústias.” (Êxodo 3,7)

Deus não permanece indiferente ao sofrimento do povo. Ele vê, ouve, conhece suas necessidades e chama Moisés para participar do processo de libertação.

Essa passagem nos provoca a olhar para o Brasil de hoje. O que temos visto e ouvido? Quais são os clamores que vêm das ruas, das comunidades, dos locais de trabalho e das famílias? O que nos dizem as pessoas que enfrentam o desemprego, a fome, a falta de moradia e as dificuldades para ter acesso aos serviços essenciais?

Diante desses clamores, não basta ouvir os discursos eleitorais. Precisamos examinar as propostas e as práticas de quem pretende governar e perguntar a quem elas beneficiam?

Jesus também nos ensina que o compromisso com as pessoas mais necessitadas está diretamente ligado à nossa relação com Ele (Mateus 25,31-46). Como cristãs e cristãos, não podemos separar a fé das escolhas que afetam a vida do povo.

Votar é assumir uma responsabilidade coletiva

Assim como Moisés foi chamado a participar da libertação do povo, cada cidadã e cada cidadão tem a responsabilidade de contribuir para a construção da sociedade.

Neste segundo turno, somos convidadas e convidados a avaliar os projetos de governo e suas consequências para a vida da população. Qual deles apresenta propostas mais consistentes para garantir direitos, enfrentar as desigualdades, promover trabalho digno e responder aos clamores do povo?

Não se trata de acreditar cegamente em promessas, mas de analisar, comparar e escolher com consciência, responsabilidade e compromisso com o bem comum.

O Evangelho não nos oferece uma lista de candidatos, mas nos apresenta critérios para discernir nossas escolhas.

Se acreditamos em um Deus que vê, ouve e conhece os clamores do seu povo, precisamos também perguntar a nós mesmas e a nós mesmos: estamos vendo? Estamos ouvindo? Estamos comprometidas e comprometidos com a transformação dessa realidade?

Que sociedade estamos construindo? Quem se beneficia das decisões políticas? E que lugar ocupam, em nossas escolhas, as pessoas que mais precisam?

Que nosso voto seja expressão de uma fé comprometida com a vida, a justiça, a fraternidade e a esperança, para que todas as pessoas tenham vida, e vida em abundância (João 10,10).

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Eu, Lucimar Moreira Bueno (Lúcia)

21 outubro, 2026

Movimento Vovó Vota defende consciência cidadã contra abstenção

Brasil tem cerca de 16 milhões de idosos com mais de 70 anos

A quebradeira de coco Maria Alaídes participa do movimento Voto 70+ - Maria Alaídes Alvas de Souza/ Arquivo pessoal

Na paisagem rural da comunidade maranhense de Ludovico, cidade de Lago do Junco a 300 quilômetros de São Luís, a quebradeira de coco babaçu Maria Alaídes Alves de Souza, de 71 anos, caminhou 600 metros para votar no primeiro turno das eleições, em 4 de outubro.

Para conscientizar outras idosas sobre a importância de votar, no entanto, ela percorre distâncias bem maiores. Na prática, ela faz uma busca ativa para que outras trabalhadoras e avós, como ela, não deixem de exercer o direito ao voto.

O Brasil tem hoje cerca de 16 milhões de idosos com mais de 70 anos, o que corresponde a 10,6% dos eleitores. Essa população tem voto facultativo desde a promulgação da Constituição de 1988 e histórico de alta abstenção.

Na comunidade em que Maria Alaídes vive, são 150 famílias, mas ela se preocupa com outras cinco comunidades da região: São José, Mata dos Reis, Marajá Alto Alegre, Estirão e Pau Seco.

“A gente busca motivar explicando que é muito importante a pessoa registrar o seu voto. Ninguém pode desanimar”, conta Maria, que tem sete filhos e sete netos.

Como liderança de um movimento interestadual de quebradeiras de coco, ela defende que é pela participação popular que se conquistam direitos e políticas públicas.

“O voto para mim é orgulho. Voto pela manutenção de direitos e pela democracia”.

Entre as prioridades dela está o enfrentamento das mudanças climáticas, que impactam diretamente as atividades das quebradeiras.

A estimativa é de que existam mais de 300 mil trabalhadoras nos estados do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins.
Participação popular

Mulheres entusiasmadas com as eleições como Maria Alaídes, mesmo em uma faixa etária em que o voto não é obrigatório, fazem jus à histórica luta pelo sufrágio feminino.

A abstenção de pessoas com mais de 70 anos caiu quase 10 pontos percentuais no primeiro turno das eleições, segundo levantamento do Movimento Voto 70+.

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o percentual de eleitores nessa faixa etária que não foram votar passou de 58,8% em 2022 para 49,1% no primeiro turno de 2026.

No intuito de que essa abstenção caia ainda mais no próximo domingo (25), o movimento apartidário promove a campanha Vovó Vota, que propõe aproximar netas e avós durante as eleições.

Uma das mensagens é que, mesmo que a pessoa não tenha votado no primeiro turno, pode participar no segundo, sem nenhuma restrição.


Maria Albino Costa não votou no primeiro turno, mas vai comparecer às urnas no próximo domingo (25) - Maria Albino Costa/ Arquivo Pessoal

Agora, eu vou

Na cidade de Orizona, a 130 quilômetros de Goiânia, Maria Albino Costa, de 85 anos, não votou no primeiro turno porque achou difícil ir às urnas com tantos números para anotar ou lembrar. No último dia 4, o eleitor escolheu deputados, senadores, governadores e presidente.

“Mas dessa vez, é só para o cargo de presidente. Então, eu vou desta vez. Minha filha e minha neta vão me levar. Preciso garantir nossos direitos. Eu faço questão agora.”

A aposentada já morou na roça, foi merendeira e empregada doméstica, e diz que não gosta de faltar na eleição porque passou muito tempo sem votar durante a ditadura (1964-1985). Ela também quer ser exemplo para os sete filhos, 22 netos, seis bisnetos e um tataraneto.

A filha, a professora Sandra Oliveira, de 48 anos, foi a primeira da família a cursar o ensino superior, e conta que sente muito orgulho da trajetória da mãe. Tanto que costuma citá-la em suas aulas na área rural e na região urbana onde já ouviu manifestações machistas de alunos contra o voto feminino:

“Eu conto histórias de minha mãe e de outras mulheres que não tiveram direitos. A gente precisa garantir nosso espaço”.

A professora aposentada Maria José Cantarelli já baixou o e-título - Maria José/ Arquivo Pessoal

Tive medo

A professora aposentada Maria José Cantarelli, de 80 anos, que mora em Olinda (PE), também não votou no primeiro turno. Aliás, há 12 anos deixou de participar das eleições.

No entanto, ela conversou em casa com os filhos e com a neta, e chegou à conclusão de que o momento exige abrir uma exceção. Ela se ressente do clima de acirramento emocional nas ruas.


“Há ofensas e agressões que fazem com que a gente tenha medo. Existe muita violência nas ruas e os ânimos estão muito acirrados”, lembra.

Ela guardou o título eleitoral no armário e não encontrou mais. No entanto, já baixou o aplicativo e-título para votar no dia 25.

Maria José disse que guardou, durante toda a vida, os comprovantes eleitorais e que vai voltar a tê-los na carteira. A neta, que também é Maria, tem 19 anos e ficou feliz com a decisão da avó.
Voto por direitos

Inspirações para essas avós não faltam, como na casa de Francisca Barroso Monteiro, de 84 anos, que hoje mora na cidade maranhense de Nova Iorque (a 560 quilômetros de São Luís-MA).

Ela diz que o direito à cidadania possibilitou que ela lutasse para que os 10 filhos frequentassem a escola.

“Eu sempre dizia ao meu esposo que eles iam estudar. Eu não estudei porque não tive oportunidade. Mas meus filhos, sim. Por isso é muito importante votar”.

Ela espera que a eleição garanta representantes que não deixem faltar remédio ou alimentos para crianças ou idosos.
Dificuldades

No Rio de Janeiro, Prazeres Maria da Silva Antunes, de 72 anos, espera que não passe pela dor de cabeça que teve no primeiro turno, quando enfrentou filas longas: “demorou um tempo para começarem a chamar os mais idosos”.

Também não foi fácil para a aposentada paulista Beatriz Cintra Labaki, de 79 anos, em São Paulo. Ela precisou subir escadas em seu local de votação.

Uma resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determina que pessoas idosas tenham atendimento prioritário nos locais de votação, sem necessidade de aguardar na fila comum.

Além disso, devem ser garantidas medidas de acessibilidade que assegurem autonomia e segurança durante o processo de votação.

Beatriz contou com a ajuda do filho para chegar à sala de aula e à urna. Para escolher seus candidatos, levou em conta a postura em relação aos temas de saúde e educação.

"Não adianta ser eleito e ficar sentado lá. Tem de ser atuante e gostar de trabalhar com a população".


Suely Mendonça tem orgulho em participar das eleições - Fernando Frazão/Agência Brasil

Memórias

No dia 25, as pessoas idosas também levarão a memória da importância de votar. Inclusive porque não puderam escolher o presidente por mais de duas décadas.

A aposentada carioca Suely Mendonça, de 79 anos, diz que se emociona ao caminhar até a seção de votação:

“É o momento em que estou me sentindo mais participante da vida do país. Sempre estudei na rede pública, do ensino básico ao ensino superior. Teve o golpe militar e eu estava estudando”.

Ela recorda que os professores não podiam mencionar as letras de música e que os filmes e as peças de teatro eram censuradas.

“Eu participei das Diretas Já, o pontapé inicial da redemocratização. Eu nunca associei meu voto a um partido. Eu escolhia o candidato pelos compromissos assumidos com a gente e os que tinha lutado contra o regime ditatorial”.

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Fonte: AgênciaBrasil

Luiz Cláudio Ferreira, Luciano Nascimento, Guilherme Jerônimo e Ana Cristina Campos
Publicado em 21/10/2026 - 10:54
Brasília

Mateus 13,13


Com salário de senador, Flávio Bolsonaro levaria ao menos 15 anos para pagar a mansão

Com salário de senador, Flávio Bolsonaro levaria ao menos 15 anos para pagar mansão de R$ 6 milhões citada por Lula em debate da Band.

A mansão do senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em Brasília foi um dos assuntos abordados no debate da Band deste domingo (18). Ao comparar o próprio patrimônio ao do adversário, o presidente Lula (PT) questionou a origem dos recursos usados na compra do imóvel. “Esse cidadão, que ganha o mesmo salário que eu, comprou uma casa de R$ 10 milhões.”

O tema surgiu com uma pergunta do petista. “Mas me explica como é que você comprou uma casa de R$ 10 milhões com salário de senador?”. Flávio Bolsonaro respondeu que comprou o imóvel “com trabalho”.

Lula, então, usou a própria situação como parâmetro. “Eu sou presidente há 12 anos e tenho um apartamento de 190 m² de R$ 1,5 milhão”, afirmou. Na mesma fala, Lula relacionou a compra da mansão do adversário ao BRB, banco investigado no caso Master.

O imóvel, no Lago Sul, bairro nobre da capital federal, custou R$ 5,97 milhões, um pouco abaixo do valor mencionado por Lula. Uma simulação feita pelo Brasil de Fato com base no Portal da Transparência do Senado mostra que, se dependesse apenas do salário de senador, Flávio Bolsonaro levaria cerca de 15 anos para pagar a casa se guardasse cada centavo do que recebe. O cálculo desconsidera juros, despesas pessoais e outras fontes de renda.

Segundo os dados de remuneração do candidato à presidência, ele recebeu cerca de R$ 2,9 milhões líquidos em salários e subsídios entre fevereiro de 2019, ao completar o primeiro mês de mandato no Senado, e setembro de 2026. Em 92 meses, isso representa uma média de cerca de R$ 31,6 mil por mês. O valor da mansão equivale a mais que o dobro de tudo o que ele teria recebido como senador em quase oito anos. O último salário líquido recebido por Flávio Bolsonaro foi de R$ 35.187,20.

O imóvel foi comprado em 2021. Na ocasião, o senador e a esposa, a cirurgiã-dentista Fernanda Bolsonaro, deram uma entrada de R$ 2,87 milhões, valor que corresponde a cerca de sete anos e meio do salário líquido médio de Flávio Bolsonaro no Senado. O restante, R$ 3,1 milhões, foi financiado no Banco de Brasília (BRB) em 360 parcelas, com prazo de 30 anos. A dívida, porém, foi quitada em 2024, três anos depois da compra. O valor financiado equivale a pouco mais de oito anos de salário líquido do parlamentar.

Investigação da PF

A Polícia Federal (PF) investiga as condições do financiamento. A apuração foi revelada pelo jornal O Globo e é um dos focos do inquérito da Operação Compliance Zero, que investiga o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e a relação do Banco Master com o BRB.

De acordo com as reportagens, o contrato previa juros de 3,71% ao ano, abaixo da média de cerca de 4,85% praticada pelo próprio BRB naquele período. As supostas irregularidades foram apontadas por uma auditoria independente que o banco contratou depois da mudança em sua diretoria, e o relatório foi entregue à PF em fevereiro. Quando o contrato foi assinado, o BRB era presidido por Paulo Henrique Costa, preso neste ano no âmbito da Compliance Zero.

O financiamento já havia sido questionado na Justiça em 2024, em ação popular movida pela deputada federal Erika Kokay (PT-DF). Ela sustentava que o empréstimo foi concedido em desacordo com as regras internas do banco e que a renda informada pelo casal não seria suficiente para a operação.

Quando a compra veio a público, em 2021, Flávio Bolsonaro declarou renda mensal de R$ 56 mil, vinda do salário no Senado e de outras fontes, e afirmou ter capacidade financeira para arcar com o financiamento. Em vídeo divulgado à época, disse que a transação era legal e resultado da venda do imóvel onde morava e da participação em uma loja de chocolates.

Após a quitação, em 2024, o senador afirmou em nota à imprensa que, além da atividade parlamentar, é “empresário e advogado” e que seus recursos são lícitos e “fruto do suor de meu trabalho”. Questionada naquela ocasião sobre quais seriam os clientes e as atividades empresariais do parlamentar, a assessoria não respondeu. Em novembro de 2024, o jornal O Globo identificou ao menos dez ações em que Flávio Bolsonaro atua como advogado no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF).

Sobre a investigação da PF, a defesa do senador afirmou que a regularidade do empréstimo “já foi atestada judicialmente, com decisão transitada em julgado”. Segundo a nota, a Justiça concluiu que a operação “não trouxe risco ou prejuízo ao banco”, tratando-se de “operação legal, corriqueira e que já foi integralmente quitada”.

Patrimônio declarado

A mansão também puxou o crescimento do patrimônio que Flávio Bolsonaro declara à Justiça Eleitoral. Em 2026, ao registrar a candidatura à Presidência, ele declarou R$ 8.186.555,83 em bens, um aumento de R$ 6.444.797,68 em relação a 2018, quando informou R$ 1.741.758,15 ao concorrer ao Senado.

Além da mansão, avaliada em R$ 6,2 milhões na declaração, o senador informou R$ 1 milhão em um fundo de investimentos, R$ 568,7 mil em conta bancária, R$ 103,7 mil em poupança e um automóvel de R$ 133 mil.


Proposta de Flávio Bolsonaro desfigura o Bolsa Família e pode aumentar a miséria


A assessora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), Daniella Marques, disse nesta segunda-feira (19) que haverá uma regra de transição limitada de até dois anos para que os beneficiários do Programa Bolsa Família encontrem emprego ou abram o próprio negócio, caso o candidato de extrema direita seja eleito presidente. Nessa data, seria preciso provar que conseguiu um emprego ou abriu um negócio.

Marques, entretanto, não esclareceu de que forma esse prazo seria contado. Também não detalhou quais seriam os critérios para desligamento e retorno ao programa. Mais tarde, após a repercussão negativa, Marques foi às redes sociais e tentou amenizar, dizendo que a proposta não significaria uma exclusão dos beneficiários.

Atualmente, o principal critério para o recebimento do benefício é a renda familiar e não impede que as pessoas estejam trabalhando, além de ter uma regra de transição que garante uma saída do programa, com diminuição gradual do benefício. Segundo o governo, 5,1 milhões de beneficiários do Bolsa Família já saíram do programa, desde 2023, após aumentar a renda familiar.

O limite de renda inicial para beneficiários do Bolsa Família é de R$ 218 por pessoa (per capita). Ou seja, toda a renda da família, dividida por todos os membros, deve ser de até este valor. Se a família melhorar de condição econômica, o governo federal tem regras de transição para que o beneficiário se estabeleça no mercado antes de deixar o programa.

Quando a renda da família ultrapassa R$ 218 por pessoa, a família pode continuar recebendo 50% do valor do benefício que recebia antes, por um período de até 12 meses. É a chamada Regra de Proteção. Para estar nela, a renda mensal por pessoa não pode ultrapassar o valor de R$ 706.

“O objetivo é evitar o cancelamento imediato do benefício, reconhecendo que a superação da pobreza não acontece de forma automática com a conquista de um emprego. Esse é um processo gradual, que exige um período de adaptação e estabilização”, diz nota do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.

Além disso, para manter o benefício, a família deve garantir a frequência escolar das crianças e a vacinação, por exemplo.

O programa de Flávio Bolsonaro desfigura o programa como transferência de renda, além de apostar na precarização do trabalho que já existe para quem é beneficiário, apontam os especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato.

Dois aspectos chamam atenção do que foi revelado pela assessora econômica de Flávio Bolsonaro: a ideia de que as pessoas possam deixar o programa a partir do empreendedorismo e o apontamento de que a regra de transição vai ser aplicada ao fato de o beneficiário, ou seja, o titular, passar a ter emprego formal. Hoje, a regra leva em consideração o conjunto da família.

Para a professora do curso de Serviço Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Verônica Ferreira, o beneficiário não está fora do mercado de trabalho, mas tem um trabalho precário, com muita gente em “situação de bico, de viração”.

“Na realidade, as pessoas já estão se virando, fazendo coisas, só que as coisas que as pessoas fazem estão na informalidade, naquele nível de precarização assim mais resiliente. E o que fazem não é suficiente para garantir uma renda”, aponta a assistente social, que critica o modelo do bolsonarista por não apresentar o que seriam esses critérios de empreendedorismo.

Além disso, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro não lembra das principais beneficiárias do Bolsa Família, que são as mulheres, e de seu trabalho invisível de cuidados das crianças, da família.

“Esse trabalho é fundamental para romper com o ciclo da pobreza, garante a saúde, garante a educação e é um trabalho amparado pelo Bolsa Família”. Para a professora, “haverá um aumento da miséria e da insegurança alimentar caso esse projeto se concretize”.

“É mais do mesmo velho baile no Hotel da Transilvânia. Não tem muita novidade”, ironiza o educador social e representante do estado de São Paulo no Fórum Nacional de Trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS), Allan Carvalho. “É a precarização da precarização. Eles tornam o capitalismo ultrasselvagem, o neoliberalismo em hiper-neoliberalismo, o estado mínimo em micro, e eles vão arrochando, arrochando sem parar”, aponta.

Para o educador, o projeto de Flávio quer reduzir a assistência social à mera porta de saída. “Acaba virando uma obsessão compulsiva que distorce a própria razão de ser da política e inviabiliza tudo aquilo que a Constituição preconizou: proteção social interrelacional”.

Flávio Bolsonaro sempre criticou o Bolsa-Família. Na terça (13), o senador se reuniu com cerca de 500 empresários, em São Paulo (SP), e apresentou um plano econômico que propõe, entre outros pontos, revisar os critérios de concessão e permanência no Bolsa Família. Sobre a proposta atual, Marques falou em liberdade: “A gente quer que você se liberte, a gente não quer perpetuar as pessoas na pobreza”, afirmou.

A proposta anuncia o empreendedorismo como saída sem garantir nenhum tipo de viabilidade. “Na verdade, ele reproduz, com aparência técnica, o discurso conservador de sempre de que as pessoas vão trabalhar, vão poder trabalhar no mercado de trabalho, o que é extremamente frágil. Além de insustentável, porque não tem nenhuma avaliação concreta sobre a situação de pobreza e de trabalho precário”, critica Alan Carvalho.

“Ele não está falando de gerar postos de trabalho, de concurso público, de trabalho formal. Ele está falando de empreendedorismo, que é, na verdade, trabalho mais precário. A informalidade traz problemas para a previdência, funciona em um ciclo vicioso de formas sucessivas porque não tem arrecadação. É uma crônica de morte anunciada”, destaca Carvalho.


20 outubro, 2026

Local de votação ainda pode mudar até o dia 25 da eleição

TREs alertam para verificar em sites oficiais ou no e-Título



Lucas Pordeus León - repórter da Agência Brasil
Publicado em 20/10/2026 - 12:07
Brasília


Mesmo que o eleitor tenha consultado o local de votação com antecedência, ele deve verificar novamente a informação no dia da eleição, no domingo (25), antes de sair de casa.

Outra dica é votar pela manhã, para ter mais tempo de se deslocar caso a seção eleitoral tenha mudado de lugar.

A Justiça Eleitoral tem alertado que o local das seções eleitorais pode mudar até o próximo domingo (25), dia do segundo turno. Na última sexta-feira (17), chegava a 4 mil o número de seções alteradas após o primeiro turno, mas nova divulgação na segunda-feira (19) informou um número menor, de 444 seções.

“Até o dia da realização do segundo turno, cada um dos 27 Tribunais Regionais Eleitorais divulgará, por todos os meios de comunicação disponíveis, os locais de votação eventualmente modificados”, diz nota conjunta dos TREs.
Onde conferir o local de votação

O eleitor deve conferir o local de votação apenas nos canais oficiais da Justiça Eleitoral, seja no botão “onde votar” do aplicativo e-Título, ou nos portais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e dos TREs.

Nos últimos dias, têm circulado diversas mensagens em grupos de WhatsApp ou nas redes sociais com links não oficiais sobre locais de votação que não são confiáveis.

O eleitor não deve consultar o local de votação em links que não sejam os oficiais da Justiça Eleitoral.
TREs explicam mudanças

Em nota conjunta, os TREs alegam que as mudanças nos locais de votação ocorrem apenas quando é “absolutamente necessário”


“Os motivos são sempre extraordinários e estão relacionados a situações climáticas extremas, problemas não identificados previamente nas estruturas dos prédios utilizados como locais de votação e questões de segurança pública”, diz nota dos presidentes dos 27 TREs do país.

Ainda segundo a nota do Colégio de Presidentes dos Tribunais Regionais Eleitorais (Coptrel), o TSE não tem ingerência sobre essas alterações.
Alterações confundem eleitor

As mudanças nos locais de votação nos últimos dias podem confundir os eleitores, avaliou o advogado especialista em direito eleitoral Alberto Rollo.


“Realmente, mudar de 4 mil para 400 seções modificadas é uma coisa esquisita, mas eu não vejo nenhum tipo de dolo [má-fé] para atrapalhar o eleitorado. Eu acho que é desencontro de informação”, explicou.

Rollo acrescentou que é comum ocorrerem mudanças excepcionais de locais de votação antes do pleito, devido a mudanças no clima ou na estrutura das escolas.

“Sempre lembrando que o Brasil é muito grande, então, pode ser que chova hoje no Sul ou no Norte, e a escola fica prejudicada para domingo. Com isso, é atualizada a informação, mas vão ser algumas seções eleitorais, só em algumas escolas, e não baixar de 4 mil para 400”, acrescentou.

Ainda segundo o especialista, a Justiça Eleitoral não teria condição de informar as mudanças em local de votação individualmente, para cada eleitor, por causa dos cadastros, que não são completos, com e-mail ou número de telefone.

“Não daria para fazer a comunicação para essas pessoas individualmente. Mas a Justiça Eleitoral pode fazer essa comunicação via grande imprensa, colocar nos jornais de papel, colocar nas televisões abertas, nas rádios. Isso dá para melhorar”, concluiu.

#Ato em apoio a Lula e à democracia mobiliza milhares de pessoas em Maringá-Pr

Ato realizado no dia 18/10/2026.


Eu fazendo parte dessa linda história pela Democracia e pelo Luiz Inácio Lula da Silva




Respeito também é democracia!


 

19 outubro, 2026

E se isso mudasse a história da política brasileira?



Diante do desafio lançado por Lula a Flávio Bolsonaro para a abertura dos sigilos bancário e telefônico, fica uma reflexão: e se a transparência patrimonial e financeira, dentro dos limites da lei, fosse uma exigência mais rigorosa para todas as pessoas candidatas a cargos públicos?

Não se trata de condenar ninguém antecipadamente, mas de fortalecer a confiança do povo em quem deseja representá-lo.

Quem deseja administrar o que é de todas e todos precisa assumir o compromisso de prestar contas à sociedade.

Talvez seja hora de transformar essa reflexão em proposta de mudança na legislação eleitoral. Com regras iguais para todas as candidaturas, fiscalização independente e respeito aos direitos fundamentais, poderíamos dar um passo importante na construção de uma política mais ética, transparente e comprometida com o bem comum.

A democracia não se fortalece apenas com o direito de votar, mas também com o direito de saber, fiscalizar e cobrar responsabilidade.

E se isso mudasse a história da política brasileira?

E se a transparência patrimonial e financeira, dentro dos limites da lei, fosse uma exigência mais rigorosa para todas as candidaturas a cargos públicos?

Quem deseja representar o povo precisa estar disposto a prestar contas à sociedade.

Com regras iguais para todas e todos, fiscalização e transparência, podemos avançar na construção de uma política mais ética e comprometida com o bem comum.

A democracia também se fortalece com o direito de saber, fiscalizar e cobrar responsabilidade!

15 outubro, 2026

Fim da 6x1: saiba quando entra em vigor nova jornada de trabalho


O Senado aprovou na quarta-feira (14) a proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a jornada de trabalho 6x1 – seis dias de trabalho para um de descanso. Com a mudança na legislação, o trabalhador agora terá dois dias de folga na semana, para cada cinco trabalhados, sem redução de salário.

O texto também prevê a redução da jornada de trabalho das atuais 44 horas para 40 horas semanais. A PEC, agora, deverá ser promulgada pelo Congresso Nacional.

Levantamento do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) aponta que o fim da escala 6x1 e a redução da jornada máxima de trabalho para 40 horas semanais deve beneficiar 26,8 milhões de trabalhadoras e trabalhadores.

O total reúne 22 milhões de trabalhadores formais, o equivalente a 54% dos empregados com carteira assinada, e aproximadamente 4,8 milhões de trabalhadores informais que atualmente cumprem jornadas superiores a 40 horas por semana. O estudo foi elaborado com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE) referente a 2025.


Quando passa a valer?

De acordo com o texto aprovado, em 60 dias após a promulgação da emenda constitucional, as empresas terão que garantir a escala 5x2, assim como a redução da jornada de 44 para 42 horas semanais.

Dessa forma, caso a PEC seja promulgada ainda em outubro, as regras entrariam em vigor em dezembro de 2026.

Após essa primeira redução, 12 meses depois a jornada cai para 40 horas. Com isso, a transição completa levará 14 meses.

A exceção são os trabalhadores terceirizados da administração pública, que terão uma regra de transição diferenciada (confira abaixo).


Veja as regras de transição da PEC que acaba com a escala 6x1:

- escala de 5 dias de trabalho com 2 dias de descanso (após 60 dias);
- redução da jornada de 44 horas para 42 horas semanais (após 60 dias)
- jornada de 42 horas para 40 horas semanais, mantida a escala 5x2 (em 14 meses).


Como será feito o cálculo das horas de trabalho?

No intervalo entre o segundo e o 14º mês após a promulgação, o empregador deverá distribuir, ao longo da semana, as duas horas acima das oito normais de serviço. Se repartidas igualmente, o empregado terá que trabalhar 8 horas e 24 minutos nos cinco dias na semana.

Finalizada a fase de transição, todos os empregados devem trabalhar, no máximo, oito horas diárias e 40 horas semanais em 5 dias na semana. Para trabalhar mais horas, apenas mediante pagamento de hora-extra.

A proposta prevê que lei complementar posterior poderá estabelecer medidas transitórias de mitigação dos impactos da redução da jornada para os microempreendedores individuais (MEIs), microempresas e empresas de pequeno porte.


Compensação

O texto permite, excepcionalmente, e mediante convenção ou acordo coletivo de trabalho, que seja estabelecido regime compensatório que permita escala diferente da 5x2.

Nesses casos, os trabalhadores precisam ser compensados no mesmo “mês-calendário”, garantindo “o gozo de pelo menos um dos dias dentro do período máximo de uma semana de trabalho”.

Ou seja, um trabalhador pode fazer ainda a escala 6x1, desde que prevista em acordo coletivo. Nesse caso, o dia trabalhado a mais terá que ser compensado com uma folga dentro do mesmo mês.

Ao final desse mês, ele terá que ter gozado, na média, o equivalente a duas folgas remuneradas por semana.


Terceirizados do Estado

A regra de transição para os trabalhadores terceirizados do poder público é diferente, sob o argumento de “evitar riscos de descontinuidade na prestação de serviços públicos essenciais executados mediante terceirização”.

As empresas que prestam serviços para o Estado terão prazo de 12 meses após a promulgação da emenda, e não 60 dias como as demais, para acabar com a escala 6x1 dos empregados.

Os contratos aditados após 60 dias da promulgação da emenda já terão que observar a nova jornada de trabalho instituída pela PEC.


Salários acima de 21 mil

A PEC prevê ainda que a redução da jornada diária não se aplicará aos empregados com diploma de nível superior com remuneração mensal igual ou superior a 2,5 vezes o limite máximo dos benefícios do INSS. Atualmente, essa conta dá R$ 21.188,87.

Nesses casos, a redução da jornada só ocorrerá por liberalidade do empregador (quando é concedido sem obrigação legal) ou se estiver prevista em acordo ou convenção coletiva de trabalho. O texto, contudo, determina a realização da escala 5x2 nestes casos.

Fim da escala 6×1: um passo em defesa da vida e da dignidade!



Obrigada presidente Lula!

A PEC que prevê o fim da escala de trabalho 6×1 propõe dois dias de descanso semanal, a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial.

Essa mudança representa um avanço na luta por melhores condições de trabalho, garantindo mais tempo para o convívio familiar, o lazer, o cuidado com a saúde, a participação comunitária e a vida pessoal.

O trabalho deve estar a serviço da vida, e não a vida a serviço do trabalho!

Defender direitos trabalhistas é promover a dignidade humana, a justiça social e o bem comum.

09 outubro, 2026

O Brasil que sai das urnas: uma análise sobre os primeiros resultados das eleições!

O Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara (CEFEP) promove, nesta sexta-feira (9), uma live especial para refletir sobre os desafios e as perspectivas da democracia brasileira a partir do resultado das urnas.

Como debatedores Robson Sávio e Sandra Quintela, trazendo diferentes olhares e contribuições para compreender o Brasil que emerge do processo eleitoral.

Sexta-feira | 09 de outubro
19h30
Transmissão pelo YouTube do CEFEP



E agora, Luiz Inácio?

Olá, enquanto tenta entender de onde veio o rolo compressor que a atropelou, a esquerda corre desesperada atrás do atraso.

.Atordoados. Todos foram surpreendidos pelo resultado das urnas. Os dados de votação e as análises no calor da hora indicam alguns fatores que podem ter sido determinantes para o desempenho de Lula no primeiro turno. O primeiro é bem conhecido e refere-se às fragilidades do próprio governo. Trata-se da ausência de um projeto de futuro, com uma campanha mais voltada para a história e o legado de Lula do que para aquilo que pode efetivamente melhorar a vida das pessoas. Em outras palavras, o lulismo aceitou a condição de ser o menos pior, o que pode ter contribuído para o aumento nas abstenções que provavelmente prejudicaram o candidato petista. Outro diagnóstico já conhecido é a perda da narrativa sobre a economia. Apesar dos dados serem relativamente positivos, como crescimento do PIB, controle da inflação e desemprego em baixa, o que prevaleceu foi a sensação de um aumento do sofrimento econômico puxado pela elevação do custo de vida que ocorreu no mundo todo após a pandemia. A isso soma-se o endividamento familiar e a precarização do trabalho. Outro fenômeno foi a desidratação de Lula nas cidades do interior, inclusive entre aquelas mais afetadas pelo tarifaço de Trump, o que indica uma forte atuação do agronegócio contra o governo. Houve ainda uma supremacia da direita nas redes sociais. O atrito entre o governo e as big techs cobrou seu preço - com sabotagens às postagens pró-Lula, sites ilegais de criptomoedas e publicações irregulares nas redes sociais. Essa última, apenas mais uma conivência do TSE comandado por Kássio Nunes com o vale-tudo da direita. Mas também é verdade que a campanha de Lula investiu pouco na disputa virtual. Porém, há o outro lado da moeda. Para além do voto útil em Flávio, o bolsonarismo mostrou-se mais forte do que parecia. Exemplo disso é que dos 20 candidatos que utilizaram o sobrenome Bolsonaro, 13 se elegeram ou ficaram como suplentes. O PL, que já vinha crescendo nas últimas eleições, se tornou, sob o comando de Rogério Marinho, um partido mais orgânico e ideológico, consolidando-se como a contraface do PT. O retrato dessa polarização foi a desidratação dos partidos de centro, a derrota de algumas figuras políticas já carimbadas e uma certa tendência à renovação de lideranças, principalmente à direita.

.O que fazer? Passada a ressaca do primeiro turno, o desafio da campanha petista é duplo: compreender os motivos da derrota e esboçar a estratégia de virada. O problema é gigante e o tempo é curto. Lula saiu mais de 2 milhões e 200 mil votos atrás de Flávio, numa disputa onde a abstenção chegou a 21% do eleitorado, e quase 5% de votos brancos e nulos, e tem até dia 25 de outubro para virar o jogo. Além disso, ao contrário de Flávio, Lula chega ao segundo turno sem receber o apoio de nenhum dos outros candidatos ou de novos partidos. A avaliação é de que o tom bem comportado e republicano da campanha no primeiro turno não colou. A única certeza é que a campanha precisa ganhar corpo. Felizmente, enquanto a esquerda ainda tentava entender o que estava acontecendo e remoía a própria derrota, uma onda de mobilizações estudantis tomou conta das principais cidades do país. Sem planejamento centralizado, a campanha ganhou as ruas e extrapolou as universidades. Nesse cenário, o problema é achar a combinação ideal entre radicalização, trazendo de volta o Lula do velho testamento, e o diálogo com um eleitor insatisfeito que votou em outro candidato, ou não foi votar, e não está disposto a conversar. Lula também precisa se desvincular do STF, insistindo em uma reforma do Judiciário, dialogar com um trabalhador insatisfeito e abraçar a pauta de segurança pública, um dos temas em que a direita sempre corre na frente. A síntese dessa segunda fase da campanha é “Para o povo trabalhador, proteção; para o bandido, a prisão". Além de ir aos debates televisivos, a partir da contribuição dos parlamentares jovens de esquerda eleitos, Lula foi aconselhado a “botar a cara” nas redes sociais, fazendo vídeos curtos em que fala diretamente com seus eleitores. O alvo da campanha deve ser ampliar a votação nas tradicionais bases do petismo, as classes C e D, o eleitorado do nordeste que se absteve, além de reverter a enorme derrota sofrida no sudeste. Nesse caso, a tramitação do fim da escala 6x1 no Senado não só ajuda a campanha petista a se reaproximar do trabalhador precarizado, mas principalmente joga a contradição no colo de Flávio.

.Programa do fim do mundo. A condição de primeiro colocado no primeiro turno coloca a campanha de Flávio numa nova situação, a de ter que dizer, afinal, do que trata seu programa. Não que alguém fosse realmente ficar surpreso ou ainda acreditasse que Flávio era “o Bolsonaro moderado”. Mas o impacto é sempre maior vindo da boca do próprio candidato, sem suposições, nem hipóteses. Todos sabem que a liberdade do pai e a anistia aos golpistas de 8 de janeiro vem em primeiro lugar, assim como os ataques ao STF devem prosseguir e a volta da política de desregulamentação para as armas. É possível também apostar que as bets voltarão. Também não será surpresa se, no alinhamento ao Trumpismo, o Brasil aderir ao Escudo das Américas, iniciativa liderada por Washington supostamente para perseguir o narcotráfico. Mas vejam só que a reforma do Judiciário inclui uma redução da maioridade penal. E, de repente, o que eram reformas, já virou uma proposta de mudança da Constituição. Até aqui, o mercado está efusivo com Bolsonarinho, já que o pacote econômico de Flávio consiste no sonhado corte em educação, saúde e aposentadorias. E, como se viu depois do sincericídio de Valdemar da Costa Neto, que não negou o apreço dos Bolsonaros por novos golpes de Estado, a Faria Lima não está nem um pouco preocupada que eliminar a democracia também faça parte do pacote. Na verdade, as dúvidas na turma do mercado são se os cortes que Flávio promete não deveriam ser maiores e se os Bolsonaros serão mesmo capazes de realizar os sonhos da Faria Lima. Assim como os militares, que acham ótimo que Flávio e Trump queiram o exército dos EUA nas nossas fronteiras, mas ter bases militares aqui, talvez seja demais. Como o eleitor vai reagir às propostas de Flávio? Veremos nos próximos dias. O recuo da proposta de reforma da Constituição pode ser um sinal de que as coisas não serão tão simples no segundo turno. Mas, para o PL e a turma do centrão, o clima em Brasília é de “já ganhou”, tanto que, na mesma medida em que recebeu o apoio dos partidos do bloco, Flávio já negociou cargos e ministérios.

.Cada um por si. Enquanto o segundo turno não acaba, as instituições supostamente continuam funcionando. No Congresso, o centrão vai poder se livrar do nome fantasia para finalmente se assumir como um direitão. Pautas como redução dos direitos, redução da maioridade penal, negação da mudança climática vão fazer a tabelinha entre a bancada do Boi, Bala, Bíblia e Bets com um hipotético governo Bolsonaro. Inclusive entre os aliados de Flávio já começaram as disputas pelas presidências da Casa. Sóstenes Cavalcante na Câmara e Tereza Cristina e Rogério Marinho de olho no Senado. E, nenhuma surpresa, Arthur Lira também consta na lista dos favoritos. A incógnita é o que farão Davi Alcolumbre e Hugo Motta neste cenário, pois mesmo que o Republicanos tenha declarado apoio a Flávio, a permanência de Motta na cadeira é improvável pelo apoio público a Lula. Mas as tensões maiores estão, obviamente, no outro lado da Praça dos Três Poderes. Os sinais dos bastidores indicam que o STF estaria disposto a um “grande acordo nacional”, que implicaria na liberdade de Jair Bolsonaro, e quem sabe entregar a cabeça de Dias Toffoli. Mas como Toffoli é irmanado em Vorcaro como Flávio, também não seria surpresa que ele se salvasse, aderindo à bancada de André Mendonça e Kassio Nunes. Neste caso, o mais provável é que o sacrificado para pacificar o STF com a extrema-direita seja mesmo Alexandre de Moraes. O vídeo de Michel Temer apoiando Flávio é também um sinal de que “ninguém solta a mão de ninguém” não existe na direita. Assim como os encontros de Flávio com Gilmar Mendes. O que não significa que Moraes não vai cair atirando ou sem resistir, como visto no pedido de prisão de Eduardo Bolsonaro.


.Ponto Final: nossas recomendações.

.'Papai, por que você votou no Hitler?'. Conrado Hübner Mendes escreve sobre os riscos da normalização do fascismo pelo pragmatismo político ou frustração eleitoral.

.Flavio x Lula: como escândalos podem ter favorecido virada. A estranha eleição em que o eleitor indignado com a corrupção votou no corrupto. Na Pública.

.Como a extrema direita transformou o antifeminismo em máquina de votos no Congresso. Como se formaram e como atua a bancada de mulheres antifeministas. No Intercept.

.Como uma rede extremista no X articulou a falsa associação de Lula à pedofilia. Aos Fatos disseca a campanha suja da direita na reta final do primeiro turno.

.416 milhões trabalham para alimentar o mundo sem ganhar o suficiente para viver. O Joio e o Trigo mapeia as condições de trabalho nos sistemas alimentares.

.Juventude ativista: quais temas engajam os jovens hoje? A pesquisa “Juventudes: Um desafio pendente”, traça um perfil da militância jovem. Na Revista Gama.

.Os motivos que levaram à revolta dos estudantes na França. Nas ruas desde setembro, os estudantes franceses colocam Macron contra a parede. Na DW.


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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.