05 junho, 2020

Prece

Rezemos juntos “(...) para que aqueles que sofrem encontrem caminhos de vida, deixando-se tocar pelo Coração de Jesus.” (Papa Francisco)

Quanto mais perto estivermos do Coração de Jesus

“O discípulo a quem Jesus mais amava, aquele que conhecia melhor o coração de Jesus, recostado junto a Ele (Jo 13, 23) também foi o primeiro a reconhecer Jesus ressuscitado às margens do lago da Galileia (Jo 21, 7). Quanto mais próximo alguém estiver do Coração de Jesus, mais perceberá suas alegrias e sofrimentos pelos homens, mulheres e crianças deste mundo; e reconhecerá Sua presença hoje como ontem, atuando no mundo. Quanto mais perto estivermos do Coração de Jesus, menos indiferentes seremos ao que nos cerca, desejando nos comprometer com Jesus Cristo neste mundo, a serviço de sua missão de compaixão.” (Papa Francisco)

Ipatinga e mais 13 cidades pedem socorro por falta de leitos de UTI



Municípios vão cobrar ao Governo de Minas o envio de respiradores e profissionais de saúde; aumento de casos e mortes preocupa prefeitos.

Ipatinga tem cerca de 260 mil habitantes e apenas 27 leitos de UTI, que atendem também as cidades vizinhas. A ocupação está, atualmente, em 93%. Em caso de lotação, as demandas vão para uma lista de regulação, controlada pelo SUS Fácil, responsável por transferir os pacientes que precisarem de internação para o município mais perto que estiver disponível. 

Leia a matéria de Luíza Lanza publicado por R7. Clique AQUI

04 junho, 2020

Carta-denúncia Mineração e pandemia: essencial é a vida!



A população brasileira vem acompanhando o crescimento alarmante do número de casos de coronavírus no país e os reflexos da pandemia na dinâmica social, no sistema de saúde e no aprofundamento da crise econômica. Embora o contexto seja de caos social, com destaque para o sofrimento enfrentado por mais de 31 mil famílias que perderam seus entes, o setor minerário brasileiro segue sua marcha de exploração dos/as trabalhadores/as e da natureza.

Apoiadas pelo Governo Bolsonaro – que incluiu a mineração como “atividade essencial” por meio da publicação do Decreto nº 10.329/2020 – as empresas de mineração não paralisaram suas atividades, mesmo diante da recomendação expressa da Organização Mundial de Saúde (OMS) e dos especialistas no tema de que a prioridade neste momento é garantir o isolamento social. Desta forma, em plena crise sanitária, milhares de famílias de funcionários/as do setor e das populações localizadas nos arredores das minas estão sendo expostas a grave risco de contaminação. Tratar a atividade mineral como essencial, em meio a uma pandemia, retirando o direito ao isolamento social de trabalhadores e trabalhadoras, impondo que estes se aglomerem, é irresponsável.

Por outro lado, as mineradoras vêm apostando em ações de mídia e de propaganda para tentar criar uma imagem de que se importam com a saúde da população e que têm “responsabilidade social”. Esta imagem que as empresas buscam passar para a sociedade esconde o que de fato significa a continuidade das atividades minerárias no país: aumento das taxas de lucros das empresas e ameaça à vida de milhares de pessoas. Enquanto divulgam cartazes e vídeos com supostas iniciativas sociais, mantém trabalhadores/as e comunidades sob o medo constante de contaminarem-se pelo coronavírus.

Na Bahia, a situação não é diferente. Circulação de funcionários, explosões, realização de pesquisas em novas áreas, desmatamento da vegetação nativa, avanço sobre territórios de comunidades tradicionais e outras diversas ações seguem sendo realizadas, devido à manutenção do funcionamento dos empreendimentos de mineração espalhados nos municípios do estado, a exemplo da Mineração Caraíba S/A, em Curaçá, Juazeiro e Jaguarari; e da Mineradora Galvani, em Campo Alegre de Lourdes.

As duas empresas acima citadas têm dado continuidade às atividades durante o período da pandemia. Ao analisar os dados sobre a contaminação do coronavírus, verifica-se, por exemplo, que dois dos municípios onde estão instaladas encontram-se com altos índices de contaminação: segundo informações da Prefeitura de Campo Alegre de Lourdes, em 02/06/2020, existiam 27 casos confirmados, 88 notificações e 01 óbito. Na mesma data, o cenário em Curaçá era de 32 casos confirmados (Boletim epidemiológico nº 70 da SESAB) e 43 em investigação (informação veiculada pela Prefeitura), de um total de 223 notificações (informação veiculada pela Prefeitura). Destes casos, diversos aparentam ter relação com as atividades de mineração. Por outro lado, sabe-se que não há estrutura no Sistema Único de Saúde nestes locais que consiga absorver a explosão do número de pessoas contaminadas.

Preocupadas com este contexto, especialmente no momento em que se aproxima o pico de contaminação, as organizações abaixo listadas, compondo a Articulação em Defesa da Vida no Enfrentamento ao modelo mineral do Norte da Bahia, vêm por meio desta carta denunciar a situação e exigir que os poderes públicos adotem medidas para garantir os direitos dos/as trabalhadores/as do setor minerário, sobretudo o direito ao isolamento social com manutenção integral de seus salários, bem como de toda a população que sofre com risco de contaminação em função dos fatos já expostos, seja na cidade ou no campo. Destaca-se ainda a necessidade de que sejam realizadas ações de proteção dos povos e comunidades tradicionais que estão sob ameaça de contaminação em função das atividades minerárias, de modo que os moradores, muitos incluídos em grupos de risco, tenham a sua integridade preservada e que, em última instância, seja defendido o jeito tradicional de viver destes grupos!

Nada mais se espera que o compromisso com a vida e com a saúde da população e, nas palavras do Papa Francisco na Encíclica Laudato Si, que possamos cuidar da “nossa casa comum”, defendendo a natureza para as atuais e próximas gerações, lembrando sempre que “tudo está estreitamente interligado no mundo” e que “o meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos”!

Assinam este documento:

Articulação Estadual das Comunidades Tradicionais de Fundos e Fechos de Pasto;

Articulação e Coordenação Paroquial da Juventude – ACPJ;

Articulação Sindical da Borda do Lago de Sobradinho;

Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia – AATR;

Cáritas Brasileira Regional NE 3;

Coletivo Carrapicho Virtual;

Central das Associações Integradas de Uauá – Cachiu;

Central de Fundo e Fecho de Pasto, Senhor do Bonfim;

Coletivo de Jovens da região CUC (Canudos, Uaua e Curaçá);

Comissão Pastoral da Terra – CPT;

Conselho Indigenista Missionário – Cimi;

Conselho Pastoral dos Pescadores – CPP;

Cooperativa de Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá – COOPERCUC;

Fórum das entidades populares de Campo Alegre de Lourdes;

Fórum das entidades populares de Curaçá;

Instituto Popular Memorial de Canudos – IPMC;

Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – IRPAA;

Instituto Social Antônio Conselheiro, UAUÁ – ISAC;

Movimento Pela Soberania Popular na Mineração – MAM;

Movimento dos trabalhadores rurais sem Terra – MST;

Paróquia Bom Jesus da Boa Morte, Curaçá;

Pastoral Operária;

Serviço de Assistência Socioambiental no Campo e Cidade – Sajuc;

Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais – Sasop.

"O respirar dos adormecidos é um ruído que inquieta. Como se neles soasse uma outra alma. "


"O respirar dos adormecidos é um ruído que inquieta. Como se neles soasse uma outra alma. "

(Terra Sonâmbula, de Mia Couto)

Promoção em prol a Casa de Nazaré


A Casa de Nazaré, entidade de acolhida e recuperação de mulheres em situação de dependência química está iniciando uma campanha de caldo de mandioca.



Há três modos de adquirir:

1. Retirando no local
2. Delivery (+ R$ 5,00)
3. Comprando nas saídas das missas na Paróquia São Mateus (sábado e domingo à noite).

É necessário reservar previamente - fone: 3028 6232 ou 99925 0933 - caso for retirar na Casa de Nazaré ou pedir delivery.

Endereço da Casa, pra quem for retirar no local:
Rua Rio Samambaia, 1691 - Conj. Hab. Inocente Vila Nova Júnior, Maringá - PR

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Casa de Nazaré

Atendimento Espiritual
Padre Genivaldo Ubinge

PÚBLICO ALVO
Dependentes de substancias psicoativas do sexo feminino a partir dos 16 anos, inclusive gestantes.

FINALIDADE
Proporcionar um tratamento qualificado para mulheres usuárias de substancias psicoativos do Município de Maringá e Região, garantindo a permanência até o final do tratamento (período de nove meses).

OBJETIVO GERAL
A Casa de Nazaré tem por objetivo apoiar mulheres que fazem uso indevido de substancias psicoativo, visando à reintegração dos mesmos ao convívio social e familiar.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Elevar a auto-estima e a participação na vida social promovendo, a partir das palestras e oficinas, a autonomia de cada residente;

Proporcionar o desenvolvimento pessoal através da arte, cultura e atividades que possam despertar aptidão empreendedora;

Encaminhar as famílias das residentes para grupos de apoio (AMOR EXIGENTE).

Proporcionar palestras informativas (grupo de convivência) e espirituais, promovendo a prevenção de uso e abuso de substancias psicoativas.

Desenvolver trabalho com equipe interdisciplinar com vistas ao reconhecimento do atendido como um ser integral, estabelecendo espaço de interlocução e de intervenção com profissionais de diferentes áreas.

METODOLOGIA:
A entidade busca uma prática que não produz modelos de Instituições de confinamento, e sim um equipamento social dotado de recursos humanos e materiais que propiciam acolhimento, convivência, atividades pedagógica, ocupacionais, recreativas, atendimento psicológico, odontológicos, médico e espiritual, visando o desenvolvimento humano, integral e social e dos direitos de cidadania das residentes e de suas famílias que se encontram em situação de vulnerabilidade, exclusão e risco social.

O processo de tratamento é respaldado a partir da terapia, orientado pelo tripé ORAÇÃO-TRABALHO-DISCIPLINA e estudo dos 12 passos. A ORAÇÂO é à base do programa, por meio dela buscam-se levar a presença de Deus a todas as internas, em um ambiente de muita paz, fé e confiança na nova vida que está por vir. O TRABALHO apóia e impulsiona o êxito do processo de recuperação das internas, todos os serviços da Casa de Nazaré são realizados pelas internas e supervisionados pela equipe responsável, consistindo em uma terapia ocupacional. A disciplina norteia todas as atividades, com o intuito de atingir grandes resultados, é necessário seguir normas e princípios que possam sustentar a terapia. Na busca pela paz, as internas também recebem, semanalmente, atendimento psicossocial, evangelização e aprendem a fazer trabalhos manuais.

Bolsonaro veta destinação de R$ 8,6 bilhões de fundo extinto para ações contra coronavírus

O presidente Jair Bolsonaro vetou o uso do saldo remanescente do Fundo de Reservas Monetárias, de cerca de R$ 8,6 bilhões, para o combate ao novo coronavírus. A decisão foi publicada na edição desta quarta-feira (3) do "Diário Oficial da União".

A destinação do dinheiro tinha sido aprovada em maio pelo Congresso Nacional durante a análise de medida provisória editada por Bolsonaro e que extinguiu o fundo.

Ao justificar o veto, Bolsonaro argumentou que a ... Continue lendo AQUI

A estratégia “Bíblia e fuzil”. Assim, Trump desafia os protestos

Bíblia e fuzil. Foi o próprio presidente Trump quem esclareceu que essa será sua estratégia para enfrentar os protestos deflagrados nos Estados Unidos e, acima de tudo, usá-la em chave eleitoral para a reeleição em novembro. Ele fez isso na segunda-feira à noite, anunciando sua intenção de mobilizar o exército para esmagar manifestantes que violam a lei e deixando-se fotografar em frente à Igreja de São João com a sagrada Escritura nas mãos. A bispa daquela igreja episcopal, Mariann Budde, denunciou "o uso político da religião, antitético ao ensino de Jesus".
A reportagem é de Paolo Mastrolilli, publicada por La Stampa, 03-06-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.
O mesmo foi feito pelo arcebispo católico de Washington, o negro Gregory, porque ontem o presidente foi ao Santuário Nacional São João Paulo II, e não falta quem tema a militarização ditatorial da América.
Os protestos continuaram ontem, mudando o epicentro: mais tranquila Minneapolis, onde a autópsia de George Floyd conduzida pela família confirmou o homicídio por asfixia; mais agitadas WashingtonLousivilleLos AngelesSt. LouisLas Vegas e Nova York, submetidas à ação de saqueadores.
De fato, Trump imediatamente se aproveitou disso, acusando o...continue lendo AQUI

No coração da Amazônia brasileira, a Covid-19 mata sem causar notícias

“Mais um luto. Carlinhos está morto. Perdemos um filho da terra. Um professor. Era o pilar da nossa escola. Uma referência para todos”. O grito de dor da aldeia de Sapotal, na região brasileira do Alto Solimões, chega via WhatsApp: nas últimas semanas, oito pessoas foram atingidas pela Covid. Três eram idosos, dois professores.
A reportagem é de Lucia Capuzzi, publicada por Avvenire, 03-06-2020. A tradução é de Luísa Rabolini.
“Os números dos mortos não são números, são histórias de vida. Vidas cuja perda tem um enorme impacto nas comunidades. Deveríamos parar e pensar no que representa para eles verem seus idosos morrerem, guardiões do saber ancestral. E os professores, que custou tanto sacrifício formar e representam a ponte entre a cultura tradicional e os valores”, afirmam María Eugenia Lloris Aguado, missionária da Fraternidade do Divino Verbo e Raimunda Paixão, leiga e índia. Ambas fazem parte da equipe itinerante, uma das poucas instituições a visitar as pequenas aldeias indígenas espalhadas ao longo do curso do "Grande Rio". O rio Amazonas percorre os 7.500 quilômetros quadrados da Pan-amazônia, o "coração do mundo", como uma artéria vital. A pandemia, no entanto, a transformou na "estrada do contágio".
Leia na íntegra a reportagem AQUI

03 junho, 2020

Estar nas ruas é um sentido de sobrevivência das pessoas negras, no Brasil e no mundo



Estar nas ruas é um sentido de sobrevivência das pessoas negras, no Brasil e no mundo

Quando a polícia chega para matar estamos praticamente mortos, fisicamente eliminados, emocionalmente sequelados. Já não podemos respirar há muito tempo

Homem com máscara passa por graffiti de Marcos Costa, o Spray Cabuloso, na entrada da favela Solar de Unhão em Salvador, Bahia, em 15 de abril.ANTONELLO VENERI / AFP

Fonte: El País

02 junho, 2020

O que é fascismo?

O que é fascismo?
O fascismo foi um movimento político que surgiu na Itália sob a liderança de Benito Mussolini, que assumiu o poder desse país a partir de 1922 com a Marcha sobre Roma.

fascismo é entendido por cientistas políticos e historiadores como a forma radical da expressão do espectro político da direita conservadora. No entanto, é importante dizer que nem toda política praticada pela direita conservadora é extremista como o fascismo. Essa ideia também vale para o espectro político da esquerda, uma vez que nem toda política praticada por ela é radicalizada como o que foi visto pelo stalinismo, o regime totalitário liderado por Josef Stalin, entre 1927 e 1953, na União Soviética.

Afinal, o que é fascismo?

fascismo é um conceito que gera muito debate por sua complexidade, já que é um movimento político que se adapta a diferentes circunstâncias e apropria-se de ideais de diferentes ideologias. De toda forma, o fascismo, enquanto movimento político e social, possui uma retórica populista que explora assuntos como a corrupção endêmica da nação, crises na economia ou “declínio dos valores tradicionais e morais” da sociedade. Além disso, defende que mudanças radicais no status quo (expressão em latim para referir-se ao “estado atual das coisas”) devem acontecer.

Uma vez que ocupa espaços de poder, o fascismo transforma-se em um regime extremamente autoritário, baseado na exclusão social, portanto, hierárquico e bastante elitista. O termo “fascismo” pode ser usado para referir-se:
1. Ao fascismo surgido na Itália e liderado por Benito Mussolini.
2. À expressão extrema do fascismo sob a ideologia nazista, desenvolvida por Adolf Hitler.
3. Aos regimes que surgiram durante o período entre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda inspirados ideologicamente no fascismo italiano, como foram os casos do salazarismo, em Portugal, do franquismo, na Espanha, do movimento Ustasha, na Croácia etc.

Características do fascismo
O fascismo clássico, forma como o fascismo italiano é conhecido entre os historiadores, possuía algumas características:
1. Implantação de um sistema unipartidário ou monopartidário, no qual apenas o próprio partido fascista tinha direito à atuação no sistema político nacional;
2. Culto ao chefe/líder como forma de colocá-lo como a única pessoa capaz de guiar a nação ao seu destino;
3. Desprezo pelos valores liberais, nos quais estão inclusas as liberdades individuais e a democracia representativa;
4. Desprezo por valores coletivistas, como o socialismo, comunismo e anarquismo;
5. Desejo de expansão imperialista baseada na ideia de domínio de povos mais fracos;
6. Vitimização de determinados grupos da sociedade ou de um povo com o objetivo de iniciar uma perseguição contra aqueles que eram vistos como “inimigos do povo”;
7. Uso da retórica contra os métodos políticos tradicionais afirmando que estes eran incapazes de combater as crises e de levar a nação à prosperidade;
8. Exaltação dos “valores tradicionais” em detrimento de valores considerados “modernos”;
9. Mobilização das massas;
10. Controle total do Estado fascista sobre assuntos relacionados à economia, política e cultura.

O que foi o fascismo italiano?
A expressão “fascismo” foi cunhada pelo italiano Benito Mussolini (1883-1945), que criou, em 1919, uma organização chamada Fasci Italiani di Combattimento. O termo “fasci”, que significa feixe, faz referência ao feixe de hastes de madeira com um machado no centro – símbolo da unidade do poder político na Roma Antiga.
Mussolini começou sua carreira política em um núcleo socialista italiano. O vínculo de Mussolini com o socialismo italiano foi interrompido em 1914 quando publicou em jornal socialista um artigo defendendo a participação da Itália na Primeira Guerra Mundial. Esse rompimento aconteceu porque os socialistas italianos eram radicalmente contra a entrada do país na guerra.

Mussolini, então, alinhou seu discurso político com o viés nacionalista italiano. Entre 1919 e 1920, o fortalecimento político de movimentos de orientação socialista levou classes conservadoras na Itália a alinharem-se com o fascismo italiano. O fascimo ganhou muita força nas regiões rurais do centro da Itália.
Nesse contexto, a partir da organização Fasci Italiani di Combattimento, surgiu o Partido Nacional Fascista. O grande objetivo era tomar o poder da Itália tanto por via eleitoral quanto por meio de atos violentos contra opositores. O uso da violência pelos fascistas, inclusive, chegou a ser elogiado por determinadas classes da sociedade italiana que viam a agressividade como uma forma de enfraquecer os socialistas.
Mussolini chegou ao poder em 1922 após membros do Partido Nacional Fascista realizarem a chamada Marcha sobre Roma. Essa marcha aconteceu no dia 28 de outubro de 1922. Nela, fascistas de toda a Itália marcharam em direção a Roma, capital do país, para pressionar o então rei, Vitor Emanuel III, a empossar Mussolini como seu chefe de Estado (ou primeiro-ministro). Muitos fascistas contaram com apoio governamental para chegarem à capital italiana.
O resultado da Marcha sobre Roma foi que o rei destituiu o primeiro-ministro empossado e convocou Benito Mussolini a formar a base do novo governo, agora sob o controle dos fascistas. Monarquistas e conservadores da direita comemoraram a posse de Mussolini, liberais aceitaram a situação, e socialistas opuseram-se, no entanto, não tiveram forças para controlar o crescimento do fascismo. Com o tempo, Mussolini conseguiu controlar todo o Estado italiano.
O Partido Nacional Fascista planejou um modelo de Estado forte, no qual o poder executivo fosse centralizado e a figura do líder, o duce (em italiano), incontestável. O culto à personalidade de Mussolini tornou-se uma das principais características do fascismo italiano. Essa veneração do chefe de Estado também se espalhou para outros países da Europa e para outros continentes nessa época.
Dessa inspiração, surgiram os movimentos que são conhecidos entre os historiadores (e já citados neste texto) como “fascismo espanhol”, no caso de Francisco Franco; “fascismo português”, no caso de Francisco Oliveira Salazar; e “fascismo alemão”, no caso do nazismo de Adolf Hitler.

Neofascimo
Atualmente, utiliza-se o termo “neofascista” como referência a regimes políticos que possuem características semelhantes às dos fascismos tradicionais (italiano, alemão, espanhol, português, etc), mas que possuem certas diferenças ideológicas. Essas diferenciações são decorrentes do contexto de desenvolvimento do neofascismo, que é completamente diferente do contexto dos fascismos do período entreguerras. O elo, portanto, é a aproximação ideológica entre o fascismo clássico e os neofascismos.
São características do “neofascismo”:
1. Chauvinismo: patriotismo exagerado que, muitas vezes, assume posturas violentas e xenófobas.
2. Desprezo pela democracia liberal: apesar disso, o neofascismo não constrói regimes extremamente fechados e totalitários como no caso do fascismo italiano. No neofascismo, podem ser construídos regimes com ar democrático, com eleições, inclusive. No entanto, a ação autoritária e doutrinadora do regime visa a manipular as massas como forma de atender aos interesses fascistas.
3. Medidas antipovo: a ideia de “inimigo externo” do fascismo transformou-se em “inimigo interno” no neofascismo. Assim, grupos internos podem ser encarados como inimigos, e medidas contra eles são tomadas como forma de combater-se a oposição política e o debate de ideias.

Resumo
fascismo foi um movimento que surgiu na Itália na década de 1910 e alcançou o poder desse país na década de 1920, mais precisamente em 1922. A ascensão do fascismo na Itália está diretamente relacionada com a crise econômica que o país viveu. Além disso, tem relação com a frustração italiana com a Primeira Guerra Mundial e com o temor da expansão do socialismo no país.
O líder do fascismo italiano foi Benito Mussolini, político que iniciou sua carreira em movimentos socialistas, mas que, ao longo da década de 1910, foi alinhando seu discurso a pautas nacionalistas que agradavam e aproximavam-no do conservadorismo italiano. Sua popularização foi decorrente do uso da violência para reprimir grupos socialistas.
O termo “fascismo” pode ser usado para referir-se, especificamente, ao fascismo italiano, mas historiadores estendem seu uso para outros regimes daquela época, como o nazismo alemão, a Ustasha croata, o franquismo espanhol, etc. Atualmente, também há utilização do termo “neofascismo” para referir-se a movimentos políticos hodiernos que possuem aproximações ideológicas com o fascismo.
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*Crédito da imagem: Everett Historical / Shutterstock
**Crédito da imagem: withGod / Shutterstock
***Crédito da imagem: Olga Popova / Shutterstock


Por Daniel Neves Silva (Historiador)
      Cláudio Fernandes (Mestre em História)

Fonte: Brasil Escola

Oração indígena do silêncio


Live CEBs do Basil


4ª Carta às Comunidades: As CEBs em tempos de pandemia da COVID-19


Rondonópolis/MT, 01 de junho de 2020 (em memória de São Justino).

Carta às Comunidades em tempo da pandemia de COVID-19

Estimadas comunidades eclesiais espalhadas e organizadas no Brasil e na América Latina!

“Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos debilitados. Dizei às pessoas deprimidas: Criai ânimo, não tenhais medo” (Is 35,3); “Eis que eu estou convosco todos os dias” (Mt 28,20); “Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder” (Ef 6:10); “Vigiai, permanecei firmes na fé, portai-vos corajosamente, sede fortes! Fazei tudo com grande amor fraternal” (1Cor 16,13 ). “Tudo posso naquele que me conforta” (Fp 4:13) com estas palavras de fé e de esperança o Secretariado do 15º Intereclesial e a Coordenação Nacional da CEBs saúdam todos os irmãos e irmãs de caminhada das CEBs, neste tempo de pandemia de COVID-19.

Comungamos do mesmo sentimento, das mesmas preocupações e das dores de quem perdeu um ente querido neste tempo que atravessamos.

Estamos em comunhão com o nosso Papa Francisco, que tem sido uma voz profética aos povos, governos, culturas e raças sobre o cuidado com a pessoa, acima de tudo. “A narrativa dos discípulos de Emaús, nos dá a certeza de que nas noites escuras da vida e da história, o Senhor permanece conosco, Ele caminha conosco” (Lc 24, 13-35) nos encoraja o Papa. Mantemos a comunhão com os Bispos do Brasil que nos animam ao nos dizer: “Este tempo grave de Pandemia fechou as portas de nossas igrejas, mas a Igreja não está fechada, ela continua alimentando seus filhos e filhas através da oração, da Palavra, das celebrações transmitidas pelas TVs Católicas, rádios e mídias sociais, continua assistindo aos pobres e mais necessitados pela caridade e criando redes de solidariedade”.

Certamente muitos olhares se voltam para a sua comunidade, o desejo de se encontrar com pessoas, de abraçar, de sorrir, de sentar juntos, de animar a comunidade, de promover a vida da comunidade, de visitar os idosos e necessitados. Porém, neste tempo estamos fazendo aprendizado de coisas que já estavam sendo esquecidas pela vida moderna, como a importância da “Igreja doméstica”, a leitura da Palavra de Deus, a oração em família, bem como o cuidado com as pessoas.

Nossa esperança é de que em breve nos veremos novamente em comunidade, mas não iguais como antes, mas, tanto as instituições como as pessoas devem voltar diferentes, com nova visão de vida, de cuidado, de fraternidade, de tolerância, de respeito ao outro e a nossa Casa Comum. É importante recordar que no mundo há muito sofrimento em decorrência do vírus; famílias enlutadas, fome, violência, desemprego e pobreza. Na comunidade são milhares de idosos, doentes, crianças, pobres que clamam pela presença dos cristãos, daí a importância da solidariedade, comunhão e de gestos concretos.

A comunidade é experiencial de vida. É um valor internalizado dentro de nós. Não são três ou cinco meses que vão tirar este valor dentro de nós, mas ao contrário, vivemos um tempo de fortalecer nossas convicções, de amor à comunidade, de desejo de se doar mais ainda, de criar esta prática de nossa fé: vida que brota das comunidades eclesiais de base.

Estamos iniciando o mês de junho, conhecido como mês dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, bondoso, acolhedor, aquele que diz: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28).

Esse é um tempo de olhar para dentro de si, rever posturas e convicções, mas tempo também de abrir o coração para as pessoas, a realidade em que vivemos e o cuidado com este planeta em que habitamos.

Seja você um apaixonado/a pela vida das comunidades. Irradie esperança, entusiasmo. Desperte desejo de retorno à comunidade, fortaleça-se na fé e na caridade. Utilize diariamente as Redes Sociais para animar a comunidade.

Com abraço fraterno!!!

Secretariado do 15º Intereclesial das CEBs
Coordenação da Ampliada Nacional das CEBs

01 junho, 2020

“A gente pede a Deus que a pandemia não chegue nas áreas indígenas, porque eles estão totalmente desassistidos”. Entrevista com Dom Edson Damian

Entrevista com Dom Edson Damian

Recebi Dom Edson Damian em minha casa no dia 15 de setembro de 2017. Na manhã deste dia, dele um e-mail "estou em Maringá podemos nos encontrar a tarde?". Conhece-lo foi maravilhoso. São Gabriel da Cachoeira onde ele atua como bispo, localizada no oeste do estado do Amazonas, na fronteira com Colômbia e Venezuela. As terras indígenas abrangem mais de oitenta por cento do território municipal. É um dos maiores municípios do Brasil. Diocese mais isolada, mais indígena e mais pobre do Brasil.

Segue a entrevista concedida a Luis Miguel Modino, publicado pelo IHU em 01/06/2020.

Foto em minha casa no dia da visita
Foto em minha casa no dia da visita


A situação da Amazônia diante da pandemia do COVID-19 está sendo motivo de preocupação para o mundo e para a Igreja. O Papa Francisco, no Regina Coeli da Solenidade de Pentecostes, invocava “o Espírito Santo para que dê luz e força à Igreja e à sociedade na Amazônia, duramente provada pela pandemia”. O Santo Padre afirmava que “muitos são os contagiados e os falecidos, inclusive entre os povos indígenas, particularmente vulneráveis”. Os números recolhidos pela REPAM, falam de 155.592 casos confirmados e 7.449 falecidos até 29 de maio, 1861 casos e 473 falecidos dentre os povos indígenas.

No Brasil, a diocese com a porcentagem mais elevada de indígenas, mais de 90%, é São Gabriel da Cachoeira. Seu bispo é Dom Edson Damian, que desde o início da pandemia tem se integrado no comitê local de enfrentamento e combate ao coronavírus, colocando a disposição diferentes espaços da diocese. Por enquanto, uma boa notícia é que a porcentagem de óbitos ainda não é muito elevada. Os casos, se concentram nas cidades de São Gabriel e Barcelos, enquanto as comunidades do interior estão se esforçando em controlar a pandemia.

Os povos indígenas podem ser considerados entre “os mais pobres e indefesos daquela querida região”, como tem falado neste 31 de maio o Papa Francisco, quem os encomendava a MariaMãe da Amazônia, fazendo um chamado para que “não falte a ninguém a assistência de saúde”. O próprio bispo reconhece sentir “medo diante de um vírus tão avassalador e que em pouco tempo se espalho no mundo inteiro”. Ele lembra do Papa Francisco, especialmente da oração que ele fez no dia 27 de março numa Praça São Pedro deserta, e também de “Charles de Foucauld, que é o homem da fraternidade universal”, que será canonizado nos próximos meses.

O bispo afirma que “há evidencias que o governo não está à altura de coordenar esta tarefa em meio a uma pandemia que está causando perdas de milhares de vidas humanas e grande sofrimento para as famílias”, lembrando as propostas muito urgentes feitas pelos bispos da Amazônia. Frente a essa falta de capacidade, Dom Edson Damian, destaca a necessidade de aprender com os povos indígenas, sempre “desprezados, descartados pela cultura ocidental, etnocêntrica e dominadora”.

É tempo de assumir a Evangelii Gaudium e a Laudato Si, segundo o bispo de São Gabriel da Cachoeira, de “nos perguntar o que é essencial que a Igreja retome”, ainda mais num Brasil onde “é coisa de doer o coração e partir a alma, as imensas desigualdades sociais deste país”. Ele resume a missão eclesial em “testemunhar com coragem e alegria Jesus Cristo, ligar o Evangelho com a vida, e engajar-se em todas as instituições e movimentos para defender os direitos humanos dos pobres e cuidar da nossa casa comum”.

Eis a entrevista.


Qual é a situação dos povos indígenas em São Gabriel da Cachoeira diante da pandemia de coronavírus?
Aqui há muitos casos de pessoas atingidas pela COVID-19, mais de 1.600 casos notificados aqui em São Gabriel e mais de 400 em Barcelos, mas o que surpreende é a relação entre a alta taxa de contaminados e o baixo número de óbitos, comparando com as outras regiões do nosso país. Foram até ontem 21 óbitos em São Gabriel e 13 em Barcelos. Por enquanto, nos assusta o número de pessoas contaminadas, mas os óbitos são poucos.
Qual a causa em relação com esse baixo número de óbitos? Existe subnotificação, como acontece em alguns lugares?
Um aumento no número das pessoas contaminadas está havendo na verdade aqui, e em relação aos mortos, até agora, que a gente saiba, foram apenas dois nas comunidades ribeirinhas distantes, porque eles quando a situação fica mais complicada, eles são trazidos de helicóptero ou de pequenos aviões até a cidade.
Como é que os povos indígenas estão reagindo?
No início houve um grande cuidado, aqui em São Gabriel, e foram tomadas boas medidas preventivas para impedir a chegada do vírus, foram suspensos todos os barcos e aviões que transportavam as pessoas de Manaus para a região, e também vigilância nas balsas que trazem alimentos e combustíveis. Mas algumas pessoas chegaram clandestinamente e não se submeteram ao isolamento. Os dois primeiros casos foram anunciados no dia 21 de abril, houve tristeza e indignação. Eu lembro que uns dias antes, a primeira vítima do coronavírus foi um taxista em Barcelos.
Na realidade das comunidades espalhadas ao longo do Rio Negro e seus afluentes houve poucos casos notificados, mas a gente teme que poderão aparecer mais, devido às aglomerações que aconteceram na cidade para receber o beneficio social dos 600,00 reais. Não havia distanciamento nas filas, ninguém de máscara, alguns poderiam ter contraído o vírus e poderão espalha-lo nas aldeias. Tudo é muito próximo e muito partilhado, e não usam máscaras os nossos indígenas.
Ainda ontem, o médico coordenador do DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) Alto Rio Negro, informou-nos que as comunidades estão se cuidando, não aceitando visita de pessoal de outras comunidades e principalmente de não índios. Algumas comunidades até colocaram placas lá, não estacione aqui, não pare aqui na comunidade. Nos polos base do DSEI tem presença permanente de equipes de enfermagem e médicos que passam temporariamente. Mas os nossos parentes indígenas, eles estão fazendo uso intensivo da medicina caseira, com ervas medicinais, e eles dizem que está impedindo a contaminação e, quem sabe, até a cura dos contaminados. Usam muito limão, gengibre, mangarataia, jambu, boldo, cidreira, alho, e outras plantas medicinais, sem esquecer os benzimentos dos pajés. Eu inclusive, estou usando essas medicinas caseiras e tomando muito chá.
São Gabriel tem organizado um comitê de crisis onde participa a diocese. Como esse comitê está ajudando no combate da COVID-19 na região?
Em São Gabriel tem o fórum interinstitucional, que congrega as principais instituições locais, que acostuma reunir-se para enfrentar problemas e buscar soluções conjuntas. Ele nasceu depois da morte do advogado Pedro Yamaguchi Ferreira. O pai dele, deputado federal, Paulo Teixeira, do PT de São Paulo, veio aqui e incentivou para que se formasse esse fórum interinstitucional. Se conseguiram bons projetos do governo federal. A partir desse nosso fórum surgiu o comitê de enfrentamento e combate ao coronavírus.
São realizadas reuniões quase que diárias na casa dos saberes da FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), onde a gente acompanha os dados da epidemia, o que cada instituição está fazendo e como pode colaborar. Desde o início a diocese participa, eu estou presente, e colocamos a disposição do DSEI a casa de encontros da diocese, situada a dois quilômetros da cidade, num espaço muito agradável e aprazível, para colocar as pessoas que precisam, justamente os indígenas afetados pelo vírus. Eles recebem acompanhamento médico e também medicinal.
Também, há poucos dias, colocamos a disposição um hospital que foi durante muito tempo administrado pelos salesianos e salesianas, e servia para outras finalidades. Agora está sendo transformado em hospital de campanha. Aqueles atingidos pelo vírus que estão precisando de cuidados especiais, eles saem da casa de encontros da diocese e vem para este local, que é do lado da diocese. Os que precisam de cuidados ainda maiores são levados para o hospital que é administrado pelo exército, com recursos federais, estaduais e municipais, onde existem 14 ventiladores e outros recursos para terapia semi-intensiva. Os doentes graves, em condições de serem transportados, são levados para UTIs em Manaus.
A boa notícia é que no dia 25 chegou uma equipe dos Médicos sem Fronteiras, que são um surpreendente presente de Deus. Eles já estavam ajudando em Manaus e escolheram dois municípios do interior do estado, São Gabriel e Tefé. Eles vão permanecer oito semanas para ajuda complementar daquilo que mencionei acima. São médicos, enfermeiros, e outras pessoas que ajudaram a enfrentar a COVID em outros países. Por tanto, são pessoas que já tem muita experiência no combate ao coronavírus, e também trarão medicamentos e outros materiais necessários. É uma equipe muito preparada, nos impressionou pela capacidade que eles têm, e certamente irão nos ajudar. Eles disseram que em 15 dias já terão montado esse hospital de campanha aqui no prédio da diocese.
Pessoalmente, como bispo da diocese, como está vivendo este momento, quais os sentimentos que tem presentes nas últimas semanas?
Quem não sente medo diante de um vírus tão avassalador e que em pouco tempo se espalho no mundo inteiro. Além do medo, o sentimento de vulnerabilidade, ninguém pode se sentir imunizado, pois não há vacinas e nem outro medicamento que tenha efeito imediato. Eu me senti muito solidário com o querido Papa Francisco durante a inesquecível oração que realizou ao entardecer do dia 27 de março, no deserto da Praça São Pedro, símbolo impressionante da nossa vulnerabilidade, da nossa precariedade.
Achei inesquecíveis as palavras que ele diz logo no início, “a semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento”. A seguir o Papa faz como que una análise da situação e ele compara a pandemia com as aberrações do nosso tempo. Como ele diz, “avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente”.
Junto com isso cresce no mudo inteiro, cresce em todos nós, a solidariedade, a fraternidade, a gente deve lembrar que somos uma mesma humanidade, que estamos todos no mesmo barco. Como é importante nesses dias a fraternidade universal. Há poucos dias, a gente recebeu com alegria a notícia da canonização de Charles de Foucauld, que é o homem da fraternidade universal. Só acharemos uma saída dessa situação todos juntos, e numa situação difícil, desesperada como a nossa, é importante saber que o Senhor Ressuscitado está conosco no barco, e que podemos nos agarrar e seguir em frente com a esperança que nunca decepciona.
Os bispos da Amazônia, a REPAM e as organizações indígenas, têm advertido sobre a possibilidade de uma tragédia humanitária e ambiental diante do COVID-19. Tendo em conta a situação vivida em São Gabriel da Cachoeira, o senhor pensa que é possível isso acontecer?
A gente pede a Deus que não aconteça, e pelo que a gente percebe por aqui, não há sinais de que algo mais grave possa acontecer. Estamos prevenidos para tudo, mas é importante a gente se dar conta de que os nossos povos indígenas tem baixíssima imunidade. Além disso, marcados por tantas doenças trazidas pelos não índios que vieram para cá. Eles estão fragilizados também pelas continuas malárias, dengues, e outras doenças tropicais. É por isso que a gente fica agradecido a Deus e pede que não chegue nas áreas indígenas, porque eles estão totalmente desassistidos.
Além disso, aqui em São Gabriel, uma população grande, com 45 mil habitantes, um hospital com 14 respiradores, mas nenhuma UTI. Nós esperamos agora, com os médicos sem fronteiras que chegaram, eles estarão aqui e agirão para nos ajudar nesse sentido também.
O que o senhor pediria como bispo de São Gabriel, também como presidente do Regional Norte1 da CNBB, ao governo federal, estadual, e também para a Igreja do Brasil, diante da realidade que está sendo vivida na Amazônia e na diocese?
A nossa Igreja da Pan-Amazônia já se manifestou, escrevemos juntos um documento. É claro que os documentos não repercutem muito neste momento, mas eu acho que aí está feito um análise da situação e aquilo que a Igreja pede, ali são feitas propostas muito urgentes. Eu ajudei a escrever em parte aquele documento, e naqueles itens finais, as propostas que a Igreja faz para o governo nas suas diferentes instituições, elas continuam atualíssimas.
Os bispos apresentamos 13 medidas urgentes, que partiam da necessidade de salvar vidas humanas e do fortalecimento de políticas públicas, em especial do Sistema Único de Saúde (SUS). Junto com isso repudiar discursos que desqualificam as estratégias científicas, restringir a entrada de pessoas em todos os territórios indígenas, realizar testagem na população indígena, fornecer os equipamentos de proteção individual e proteger os profissionais de saúde. Também garantir a segurança alimentar e fortalecer as medidas de fiscalização contra o desmatamento, mineração e garimpo, assim como garantir a participação nos espaços de deliberações políticas e rejeitar projetos governamentais que prejudicam a Amazônia e seus povos.
Além disso, nós estamos estarrecidos diante do governo federal, é impressionante diante da tragédia, que já levou quase trinta mil pessoas, e com imensos atingidos, e o nosso governo não se preocupa com isso, mas com outras coisas. Há evidencias que o governo não está à altura de coordenar esta tarefa em meio a uma pandemia que está causando perdas de milhares de vidas humanas e grande sofrimento para as famílias. É uma afronta para todos nós ver o presidente da República e seus ministros ameaçarem prender governadores e prefeitos porque não fazem aquilo que eles querem, prender os ministros do Supremo Tribunal, mostrar interesse em destruir as leis de proteção ambiental, destilaram ódio às populações indígenas, quilombolas. É hora de uma grande unidade de todos nós para salvar a democracia, salvar a Constituição, e gritar por uma saúde que esteja à altura de atender essas necessidades urgentíssimas do povo de todo o Brasil.
Acabamos de celebrar a  Semana Laudato Si, e o senhor sempre destacou a grande capacidade de preservação do meio ambiente que os povos do Rio Negro têm desenvolvido ao longo da história. Tem quem relaciona esta pandemia, e adverte sobre futuras pandemias ainda mais graves, com a falta de cuidado da casa comum. A Semana Laudato Si, o cuidado da casa comum, deve ser um motivo a mais para aprender com os povos indígenas no cuidado da casa comum?
Sem dúvida alguma, os povos indígenas, que vivem há milhares anos aqui na Amazônia, eles sabem conviver com o meio ambiente sem destruir, e além disso, é uma tristeza perceber que esses povos indígenas, que tem tanto a ensinar, eles sempre foram desprezados, descartados pela cultura ocidental, etnocêntrica e dominadora. É por isso que a Laudato Si, o Sínodo para a Amazônia e a exortação do PapaQuerida Amazônia, são importantíssimas, porque valorizam tudo aquilo que os índios já sabem e nos ensinam, valorizar essas culturas do bem viver. Com isso se reforça essa ideia da integralidade, onde recordamos as sábias palavras do Papa Francisco: “é uma ilusão pensar que numa sociedade doente, permaneceríamos saudáveis”.
Os índios nos ensinam essa vivência em harmonia com o todo, as plantas, os rios, os animais, os minerais, e é isso que torna possível uma vida saudável, seja física, seja psíquica, espiritualmente. Aprendemos com as comunidades indígenas que somos parte de um tudo, e não patrões de tudo o que existe, não superiores, mas guardiões, responsáveis pelo cuidado, pela continuidade da obra da Criação de Deus. Os povos indígenas são os guardiões da floresta, dizem que nesta região, aqui da bacia do Rio Negro, menos de 3% das florestas foram derrubadas, a floresta está de pé, e isso é uma lição para todo o Brasil.
Os cientistas nos advertem de que 17% da Amazônia já foi destruída, se chegar ao 20% a Amazônia não se refaz mais, e aí se instala um desequilíbrio que vai afetar o mundo inteiro. A começar que não existirão mais os rios voadores, que levam as chuvas para o Sudeste do Brasil, para o Cone Sul, serão os primeiros a sentir o drama da seca, da falta de água. Então, como é importante o que os nosso índios nos ensinam. As áreas da Amazônia melhor preservadas são aquelas que são as terras indígenas, tão ameaçadas agora por esse ministro do meio ambiente que quer, na calada da noite, aproveitando o drama do coronavírus, para passar muitas leis e possibilitar a invasão das terras indígenas.
De cara ao futuro, como sociedade, mas também como Igreja, o Papa Francisco nos chama a construir a sociedade e a Igreja da pós-pandemia. Segundo seu olhar, quais deveriam ser os elementos fundamentais para construir a sociedade e a Igreja da pós-pandemia?
Quando a tempestade da COVID-19 começar a refecer, nós devemos assumir com vigor os dois documentos proféticos do nosso querido Papa Francisco, a Evangelii Gaudium e a Laudato Si. O Papa nos aponta, nos indica, com uma clareza meridiana e evangélica, como deverá ser uma Igreja em saída, que também assume com uma coragem evangélica fomentar o cuidado da casa comum. Já começamos a nos perguntar o que é essencial que a Igreja retome, regenere, e permite que o Espírito de Pentecostes assuma como missão especial.
Se Cristo está caminhando conosco, e esta mesmo neste momento trágico, para onde Ele quer nos levar. O amor por Jesus, que só merece ser amado apaixonadamente, como nos dizia Charles de Foucauld, nos conduzirá sempre para amar e servir a todos, começando com o amor preferencial pelos pobres, pelos excluídos, nas periferias geográficas e existenciais. É a Igreja enlameada, que vai vir das periferias, onde estão os últimos, os esquecidos, os abandonados, aqueles que a gente descobriu com essa história dos 600,00 reais. Quantos milhões de brasileiros que nem certidão de nascimento têm, é coisa de doer o coração e partir a alma, as imensas desigualdades sociais deste país.
Além disso, a COVID confirma a Laudato Si, que reúne a espiritualidade de Francisco de Assis com a melhor ciência sobre o cuidado da nossa IrmãMãe Terra. Uma das características mais notáveis da Laudato Si é o diálogo com a ciência moderna. Desde o início, o cuidado pastoral do Papa Francisco com a pandemia, levou em consideração as recomendações dos cientistas, dos médicos especialistas. Por fim, o mundo pós COVID-19 exigirá que os católicos, todos nós, assumamos com responsabilidade a fé e a missão como discípulos missionários do Senhor Crucificado e Ressuscitado. Na Igreja e na sociedade, as comunidades cristãs missionárias deverão testemunhar com coragem e alegria Jesus Cristo, ligar o Evangelho com a vida, e engajar-se em todas as instituições e movimentos para defender os direitos humanos dos pobres e cuidar da nossa casa comum.