23 janeiro, 2020

Desigualdade


Livro: A vovó virou bebê


Livro para criança sobre a doença de Alzheimer

Sinopse:

Sofia é uma menina de sete anos. Ela mora com os pais em uma vila e é praticamente vizinha de sua avó Dorinha, com quem gosta de passar bastante tempo. Mas um dia a vovó Dorinha começa a agir de maneira muito esquisita. Ela abotoa a blusa errado, esquece das coisas que estava fazendo e chega a precisar de uma babá. A vovó Dorinha tem Alzheimer, uma doença de causa e cura desconhecidas.

Como muitos familiares que passam por essa situação, Sofia fica cheia de medos e dúvidas. Mas, com a ajuda da mãe, a menina aprende mais sobre a doença e descobre que os melhores remédios são paciência, amor e carinho.


Título: A vovó virou bebê
Autora: Renata Paiva
Ilustradora: Ionit Zilberman
Editora: Panda Books
Nº de pág: 56

Os 6 princípios da mística de Casaldáliga


Os comentários – cautelosos ou apocalípticos ou clarividentes - acerca da conjuntura, proliferam, nestes dias, nos meios de comunicação.

Não vou repetir “o óbvio ululante”. O problema está em saber ler a conjuntura à luz dos sinais dos tempos, descobrindo causas, interesses, “efeitos colaterais”, jogos de vida ou morte para a família humana.



A obra de Pedro Casaldáliga

Nesta hora kairós de mundialização e de maturidade de consciência, que é simultaneamente uma hora nefasta de novas prepotências, de macroditaduras, de fundamentalismos e de radicalizações, se impõe para nós, como um dom e como uma conquista, o diálogo, interpessoal, intercultural, ecuménico e macroecuménico.

Um diálogo de pensamentos, de palavras e de corações.

Não a simples tolerância, que se parece demais com a guerra fria, mas a convivência cálida, a acolhida, a complementariedade.



Esses processos de mudança, que são sonho e missão, reclamam de todos nós, cristãos ou não, uma forte espiritualidade, uma mística de vida.

Cada qual a viverá segundo a respectiva fé, porém sem essa espiritualidade não se faz caminho.

Pensando nisso, e a raíz do retiro espiritual que celebramos todos os anos a equipe pastoral da Prelazia à beira do Araguaia, naquele morro acolhedor de Santa Terezinha, eu resumia assim essa espiritualidade, tão nova e tão antiga, como sendo espiritualidade de:

1. Contemplação confiada
Abrindo-se mais gratuitamente ao Deus Abbá, que é, por autodefinição suprema, misericórdia, amor.

Uma contemplação mais necessária do que nunca nestes tempos de eficiências imediatas e de visibilidades.

Confiada, digo, porque tenho a impressão de que volta – o quiçá nunca foi embora- a religião do medo, do castigo, da prosperidade ou do fracasso, segundo como a gente se haver com Deus. Falta-nos, pois, confiança filial, infância evangêlica, a descontraida liberdade dos pequenos do Reino.

2. Coerência testemunhante
Tem-se repetido até a saciedade que vivemos na civilização da imagem, que o mundo quer “ver”.

O testemunho foi sempre uma espécie de definição do ser cristão. “Vocês serão minhas testemunhas”, dizia Ele por toda recomendação, por todo testamento.

E esse testemunho, hoje mais do que nunca, quando tudo se vê e tudo se sabe, tem de ser coerente, sem fisuras, na vida pessoal e na gestão estrutural da Igreja (que poderá ser a Igreja Católica ou uma Igreja Evangélica, o Vaticano, uma diocese, uma congregação religiosa, uma comunidade).

Veracidade e transparência pede o mundo, tão submetido à mentira e à corrupção.

3. Convivência fraterno-sororal
A isso se reduz o mandamento novo. Este é o desafio maior e o mais cotidiano para as pessoas, para as comunidades, para os povos.

Conviver, não coexistir apenas; conviver carinhosamente em fraternura e sororidade; não apenas em tolerância mútua. Ajudar a tornar a vida agradável.

Ser “sal da terra” deve significar isso também.

4. Acolhida gratuita e serviçal
Capacidade de encontro e de diaconia. Não somente descer do burro e atender o caído quando por casualidade a gente o encontrar à beira do caminho, mas se fazer encontradiço.

Acolher ás vezes somente com uma palavra ou com um sorriso, porém acolher sempre, gratuitamente. Fazer de todos os ministérios e de todas as profissões aquele serviço desinteressado e generoso que nos propunha aquele Senhor que não veio a ser servido mas a servir.

É mais facil celebrar uma eucaristia ritual que exercer um lava-pés engajado.

5. Compromisso profético
Continua a ser a hora, e talvez mais do que nunca, de se comprometer proféticamente contra o deus neoliberal da morte e da exclusão e em favor do Deus do Reino da Vida e da Libertação.

É preciso sugar da fé toda a sua força política.

Fazer da profecia uma espécie de hábito conatural -fruto específico do batismo para os cristãos e cristãs-, de denúncia, de anúncio, de consolação.

A caridade socio-política é a caridade mais estrutural. Vai às causas, não somente aos efeitos. Cuida a Vida. Transforma a História. Faz Reino.

6. Esperança pascal
Depois da “morte de Deus” e da “morte da Humanidade”, nesta posmodernidade facilmente sem sentido, e já no “final da história”, parece que a esperança não tem muito a fazer. Hoje, mais do que nunca, se impõe a esperança!. Ela é a virtude dos “depois de”.

“Contra toda esperança” (produtivista, consumista, imediatista, pasiva), esperamos.

Devemos proclamar humildemente, porém sem complexos, nossa esperança pascal e escatológica. E devemos torná-la crível aquí e agora. Porque esperamos, agimos. O tempo e a história são o espaço sacramental da esperança.

Pedro Casaldáliga, Carta Cirular de 2002.

Fonte: les causes de Casaldáliga - Associação Araguaia i ANSA

"Pastoral Carcerária promove formação em Maringá"


A Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Maringá promoverá formação para agentes e interessados em conhecer os trabalhos da pastoral, no dia 15 de fevereiro, das 8h às 12h.

A formação será no centro pastoral da paróquia Santa Maria Goretti. Outras informações com a coordenadora arquidiocesana, Jordana Ebihara, no 044 999257633 ou jordanamartine@gmail.com

Fonte: Site da Arquidiocese de Maringá

22 janeiro, 2020

Bom humor, uma raridade



Bom humor, uma raridade

Bom humor, bom humor mesmo, pouco tem a ver com essa alegria que as pessoas julgam obrigatória nas intermináveis fotos do FB e redes semelhantes. E muito menos na ostentação de uma suposta felicidade, que hoje parece ser um dever coletivo. O bom humor, pelo menos um que seja mais duradouro, brota é de um certo olhar sobre nós mesmos, da capacidade de rir de nós mesmos, de uma espécie de desinflação psíquica. De fato, está passando da hora de reconhecermos que não somos tão bons quanto nos julgamos, nem tão inteligentes, nem tão perspicazes quanto gostamos de parecer. E nem nossos adversários são tão estúpidos, ignorantes ou passíveis de suspeição quando alardeamos. A linha que divide bons e maus existe, embora não seja tão nítida como desejamos.  E mais;  nenhum de nós está o tempo todo do lado bom. O mundo, o mundo real, não cabe inteiro nos nossos discursos por mais articulados que pareçam. Sobra sempre, ainda bem. O ódio que cultivamos, a indignação que esbravejamos, não poucas vezes, fala mais de nós mesmos e não tanto sobre os outros. Claro, não é o caso de defender nenhum indiferentismo e nem afirmar que todos os gatos são igualmente pardos. Não são, mas um bom humor desse tipo parece necessário se quisermos, de fato, retomar a conversação entre nós, sair de nossas ilhas, relaxar nossas defesas. Embora andemos esquecidos, fomos feitos, nós, os humanos, uns para os outros, para que nos eduquemos mutuamente. E não para essa raiva surda, cheia de certezas e, suspeito, desesperada, que tem marcado nosso cotidiano.  E lembrando Fernando Pessoa andamos precisando de um Esteves. Não um Esteves sem metafísica, que a metafísica tem lá seu encanto, mas um Esteves que nos tire do nosso endurecido mal humor. 

 Ricardo Fenati
Equipe do Centro Loyola

Papa: a hospitalidade é uma virtude ecumênica que exige disposição para ouvir os outros


Na Audiência Geral desta quarta-feira, Francisco abordou o tema da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos “Trataram-nos com gentileza”, partindo do Livro dos Atos dos Apóstolos que fala sobre a hospitalidade dos habitantes de Malta para com São Paulo e seus companheiros de viagem que naufragaram com ele. O mar que fez Paulo naufragar junto com seus companheiros é ainda “um lugar perigoso para a vida de seus navegantes”. "Homens e mulheres migrantes enfrentam viagens arriscadas para fugir da violência, da guerra e da pobreza."

A catequese da Audiência Geral do Papa Francisco, nesta quarta-feira (22/01), realizada na Sala Paulo VI, foi dedicada ao tema da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos “Trataram-nos com gentileza” (At 28,2).


Francisco sublinhou que o tema deste ano é o da hospitalidade e foi desenvolvido pelas Igrejas cristãs de Malta e Gozo, a partir da passagem do Livro dos Atos dos Apóstolos que fala sobre a hospitalidade dos habitantes de Malta para com São Paulo e seus companheiros de viagem que naufragaram com ele.

O Papa iniciou, contando a experiência dramática desse naufrágio.

O navio em que Paulo viaja está à mercê dos elementos. Durante  catorze dias eles estão no mar, e como nem o sol e nem as estrelas são visíveis, os viajantes se sentem desorientados, perdidos. Abaixo deles, o mar bate violentamente contra o navio e eles temem que o navio se rompa por causa da força das ondas. Do alto eles são açoitados pelo vento e pela chuva. A força do mar e da tempestade é terrivelmente poderosa e indiferente ao destino dos navegantes: mais de 260 pessoas!

A hospitalidade comunica algo do amor de Deus

Porém, Paulo sabe que não é assim. A fé lhe diz que a sua vida está nas mãos de Deus que ressuscitou Jesus dentre os mortos e chamou o Apóstolo dos Gentios “para levar o Evangelho aos confins da terra. A sua fé também lhe diz que Deus, segundo o que Jesus revelou, é um Pai amoroso. Portanto, Paulo dirige-se a seus companheiros de viagem e, inspirado pela fé, anuncia a eles que Deus não permitirá que um fio de cabelo deles seja perdido”.

“Essa profecia se torna realidade quando o navio encalha na costa de Malta e todos os passageiros chegam sãos e salvos a terra firme. Ali, eles experimentam algo novo. Em contraste com a violência brutal do mar tempestuoso, eles recebem o testemunho da “humanidade rara” dos habitantes da ilha. Essas pessoas, desconhecidas, estão atentas às suas necessidades. Acendem uma fogueira para eles se aquecerem, lhes oferecem abrigo contra chuva e alimento. Mesmo que ainda não tenham recebido as Boa Nova de Cristo, manifestam o amor de Deus em atos concretos de bondade. De fato, a hospitalidade espontânea e os gestos de carinho comunicam algo do amor de Deus, e a hospitalidade dos malteses é recompensada pelos milagres de cura que Deus opera através de Paulo na ilha. Portanto, se o povo de Malta foi um sinal da providência de Deus para o apóstolo, ele também foi testemunha do amor misericordioso de Deus por ele.”

Hospitalidade, virtude ecumênica
A seguir, o Papa disse:

“Queridos, a hospitalidade é importante; é uma importante virtude ecumênica também. Primeiramente, significa reconhecer que outros cristãos são realmente nossos irmãos e irmãs em Cristo. Nós somos irmãos.”

"Alguém lhe dirá: "Mas esse é  protestante, aquele é ortodoxo ..." Sim, mas somos irmãos em Cristo. Não é um ato de generosidade numa só direção, porque quando hospedamos outros cristãos, os acolhemos como um presente que nos é dado. Como os malteses, bons malteses, somos recompensados, porque recebemos o que o Espírito Santo semeou em nossos irmãos e irmãs, e isso se torna um presente para nós também, porque o Espírito Santo semeia suas graças em todos os lugares.”

“Acolher os cristãos de outra tradição significa, primeiramente, mostrar o amor de Deus por eles, porque eles são filhos de Deus, nossos irmãos, e também significa acolher o que Deus realizou em suas vidas”, ressaltou Francisco.

“A hospitalidade ecumênica exige disposição para ouvir os outros, prestando atenção em suas histórias pessoais de fé e na história de sua comunidade, comunidade de fé com outra tradição diferente da nossa.”

"A hospitalidade ecumênica envolve o desejo de conhecer a experiência que outros cristãos têm de Deus e a expectativa de receber os dons espirituais que surgem. E isso é uma graça; descobrir isso é uma graça. Penso nos tempos passados, na minha terra, por exemplo. Quando alguns missionários evangélicos chegaram, um pequeno grupo de católicos foi queimar as tendas. Isso não. Não é cristão. Somos irmãos, somos todos irmãos e devemos ser hospitaleiros uns com os outros.”

Migrantes enfrentam viagens arriscadas para fugir da violência

Francisco disse ainda que hoje, o mar que fez Paulo naufragar junto com seus companheiros é ainda “um lugar perigoso para a vida de seus navegantes”.

“Em todo o mundo, homens e mulheres migrantes enfrentam viagens arriscadas para fugir da violência, da guerra e da pobreza. Como Paulo e seus companheiros, experimentam a indiferença, a hostilidade do deserto, dos rios, dos mares. Muitas vezes não deixam eles desembarcar nos portos. Infelizmente, às vezes eles também encontram a hostilidade pior dos homens. São explorados por traficantes criminosos. Hoje! São tratados como números e como uma ameaça por alguns governantes. Hoje! Às vezes, a falta de hospitalidade os rejeita como uma onda em direção à pobreza ou aos perigos dos quais fugiram.”

Francisco concluiu sua catequese, dizendo que nós cristãos devemos trabalhar juntos para mostrar aos migrantes o amor de Deus revelado em Jesus Cristo. “Podemos e devemos testemunhar que não há somente hostilidade e indiferença, mas que cada pessoa é preciosa para Deus e amada por Ele. Trabalhar juntos para viver a hospitalidade ecumênica, tornará todos os cristãos, protestantes, ortodoxos, católicos, todos os cristãos, seres humanos melhores, discípulos melhores e um povo cristão mais unido.”

A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, no Hemisfério Norte, teve início no último dia 18 e prossegue até o próximo dia 25. No Brasil, é celebrada entre Ascensão e Pentecostes.

Fonte: Vatican News - Mariangela Jaguraba - Cidade do Vaticano

21 janeiro, 2020

Textos sobre Samba Enredo 2020 da Estação Primeira de Mangueira - A Verdade Vos Fará Livre

Nas postagens abaixo dois textos e o vídeo do Samba Enredo
2020 da Estação Primeira de Mangueira - A Verdade Vos Fará Livre

Um do meu amigo irmão o teólogo Celso Pinto Carias e o outro
do Padre Geraldo Natalino

Celso Pinto Carias
“Por favor, voltemos ao que é fundamental. Não deixemos que
o cristianismo seja tão desfigurado. E viva a Mangueira, parabéns ao
Carnavalesco Leandro Vieira pela sensibilidade carinhosa com o Caminho de Jesus
Cristo.”

Padre Geraldo Natalino
“acolho a notícia do samba enredo da Mangueira para o
carnaval de 2020 como uma provocação às igrejas cristãs amordaçadas neste
momento dramático e trágico na história do Brasil”



Vejam o vídeo, leiam os dois textos e uma boa reflexão


 





Texto do Teólogo Celso
Pinto Carias sobre o Samba Enredo 2020 da Estação Primeira de Mangueira - A
Verdade Vos Fará Livre
  
JESUS CRISTO: UM DESCONHECIDO

Celso Pinto Carias (Doutor em Teologia pela Puc-Rio)
Autor do livro “Teologia para Todos”, Editora Vozes.

Mais uma vez se abre uma POLÊMICA religiosa. Mais uma vez se
trata de uma polêmica sem sentido, superficial, desviante, pois o foco não é
propriamente a questão religiosa, a possível defesa de um ser divino que não
precisa de defesa. DEUS NÃO PRECISA DE ADVOGADO.

Costumo dizer para os meus alunos e alunas que a religião,
qualquer religião, a sua e a minha, pode ser utilizada para um projeto de poder
dominador. E uma razão de fundo é a uma fé que se pensa apenas como “toma lá dá
cá” e não uma fé que configura o sentido fundamental da vida. Uma fé que não se
constitui como um projeto de vida, seja qual for a situação da sua vida. Por
isso, também costumo dizer que Jesus Cristo é um ilustre desconhecido, pois não
assumem o Seu projeto de vida.

Aí, uma escola de Samba, Mangueira, 2020, faz uma samba no
qual Jesus Cristo é a figura central, que diz de forma artística o que boa
parte da teologia cristã disse no passado e continua a dizer hoje, e chamam
isso de blasfêmia. Determinantemente: não conhecem Jesus Cristo.

“Ele tinha condição divina,... Mas esvaziou-se a si mesmo, e
assumiu a condição de servo” (Fl 2,6a-7a). É dogma da fé cristã, FÉ CRISTÃ, ou
seja, não apenas católica, protestante, ortodoxa, anglicana, que Jesus é
verdadeiramente Deus e verdadeiramente humano (Concílio de Calcedônea, 451). Ou
seja, Nele encontramos resposta para duas perguntas fundamentais: quem é Deus e
quem é ser humano. Ser cristão e cristã é estar disposto a fazer o mesmo
CAMINHO HUMANO DE JESUS CRISTO: “Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo
Jesus” (Fl 2,5).

Assim sendo, os Evangelhos nos dão o itinerário do Caminho.
“Ele que passou fazendo o bem” (At 10,38). Ele fez milagres? Sim, milagres de
cura como sinal do grande bem que é a vida humana. Não deve ter curado 1% dos
doentes de Jerusalém. Procure, se você tem o Novo Testamento, se Jesus marca
dia, hora ou local para fazer milagres. Ele não foi um milagreiro, mas a
aproximação de Deus até o extremo da humanidade para dizer para nós: “Dei-vos o
exemplo para que, como eu voz fiz, também vós o façais” (Jo 13,15). Ou seja, a
missão central de Jesus Cristo foi a de apresentar o Projeto do Reino de Deus
que se consuma na ressurreição final, mas que começa aqui e agora. Projeto de
paz, justiça, fraternidade, solidariedade e perdão.

Portanto, em vez de ficarmos tentando ser FISCAIS de Jesus
Cristo, façamos o que Ele fez. O critério fundamental de adesão a ele está em
Mateus 25: tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber, estava
nu e me vestistes, era peregrino e me acolhestes. Aprendamos com as “Bem
aventuranças”: “Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem,...” (Lc
6,20-23). Aprendamos a misericórdia com Ele: “Sede misericordiosos, como vosso
Pai é misericordioso” (Lc 6,36). E aprendamos com todos e todas que fizeram de
suas vidas o que Jesus de Nazaré fez com a dele: Oscar Romero (hoje santo
católico), Martin Luther King (pastor batista norte-americano), Madre Tereza de
Calcutá (também santa católica), entre tantos e tantas.

Por favor, voltemos ao que é fundamental. Não deixemos que o
cristianismo seja tão desfigurado. E viva a Mangueira, parabéns ao Carnavalesco
Leandro Vieira pela sensibilidade carinhosa com o Caminho de Jesus Cristo.


Texto do Padre
Geraldo Natalino sobre o Samba Enredo 2020 da Estação Primeira de Mangueira - A
Verdade Vos Fará Livre

“Sou mestre em teologia sistemático-pastoral pela PUC-RJ e
doutor em ciência da religião pela PUC-SP. Como religioso católico, padre há 25
anos na diocese do Rio de Janeiro, 
acolho a notícia do samba enredo da Mangueira para o carnaval de 2020
como uma provocação às igrejas cristãs amordaçadas neste momento dramático e
trágico na história do Brasil. Provocar (“provocare”) é “chamar para a briga”,
incitar, desafiar… Desse modo, o enredo da Mangueira de 2020 “A VERDADE VOS
FARÁ LIVRES” pode constituir um desafio aos que se dizem cristãos!

Certa feita, num livro antigo de Leonardo Boff, conheci o
termo “profecia externa”. Para o teólogo, a expressão se referia a
possibilidade de a sociedade, de diversificada forma, exercer a profecia, isso
é, falar em nome de Deus na defesa da vida. Dizendo de outro modo, pessoas e
grupos, como, por exemplo, movimentos sociais, em princípio, não religiosos,
podem, as vezes com mais coragem do que os que se dizem seguidores ou
seguidoras de Jesus, viver e lutar por um mundo de amor, justiça, igualdade,
democracia e paz.

Nesse horizonte, recebo o enredo da Mangueira como “profecia
externa”. O último pleito eleitoral revelou setores cristãos (católicos e
evangélicos) despudoradamente aliados à grupos políticos promotores da
violência e da matança dos pobres e indefesos. De forma explícita e velada
grupos cristãos se apresentaram como coniventes dos esquadrões da morte. E
todos esses grupos tem hoje nas mãos o sangue dos Wajãpi e responderão no juízo
final por suas vidas brutalmente ceifadas. Muitos cristãos, sobretudo da
hierarquia religiosa, jamais seriam capazes de assassinar, mas isso não os
impede de amolar a faca para que outros o façam.

Em resumo, a capacidade de o cristianismo ser aliado dos
vitimizados da história foi mais uma vez, terrivelmente, posta em cheque. De
que lado estão os cristãos: do lado das vítimas ou dos carrascos? A Bíblia está
repleta da denúncia acerca de profetas que se venderam e se calaram diante das
atrocidades da história . O próprio Jesus aventou a possibilidade de, em face
do silenciamento dos profetas, as pedras se pronunciarem na defesa da vida (“as
pedras gritarão”). Então, é na contramão da apresentação, por parte de muitos
cristãos, de um Jesus Cristo “açucarado”, conivente e insensível ante a dor dos
pobres e segregados de toda sorte (indígenas, negros, mulheres, gays, terreiros
etc..), que a Estacão Primeira de Mangueira, a meu juízo, profeticamente, pode
estar mais próxima do Jesus dos Evangelhos do que muitos que não tiram a Bíblia
debaixo dos braços e sabem citar de cor quaisquer capítulos ou versículos. Terá
a narrativa da Mangueira mais pertinência e relevância que a dos doutos (e
quase sempre arrolhados e encastelados) biblistas?

A propósito, o termo “Evangelho” quer dizer notícia feliz,
interessante, oportuna e significante… De certo, é razoável pensar que o que
interessa às vítimas seja diametralmente oposto ao que interessa aos verdugos;
a notícia oportuna à senzala não é a mesma desejada pela casa grande.
Considerando que Jesus não é propriedade privada de nenhuma igreja e que o
Espirito Santo é livre e, por isso, fala onde quer e como quer, é possível
pensar num Deus falando na Sapucaí, infelizmente, as vezes de forma mais
potente do que nas igrejas.

Ler o Evangelho é também um ato político, uma interpretação
que nasce de um “lugar de fala”, nos termos de Djamila Ribeiro. E não existe
leitura – inclusive, bíblica – neutra! Praza Deus, o discurso da Mangueira,
como diz Conceição Evaristo, consiga, na potência evangélica do samba, acordar
a casa grande de seus sonos injustos! A Verdade que liberta o oprimido, ao
mesmo tempo, desnuda e denuncia as mentiras do opressor!

Desejo, pois, que as igrejas cristãs se convertam do olhar
colonialista , preconceituoso e racista para com o carnaval e tantas outras
expressões culturais e religiosas afro-brasileiras. É hora de passarmos de uma
política vincadamente policialesca para uma política do diálogo e da troca
positiva. Ademais, o samba também evangeliza, inclusive aos que se dizem
cristãos! Se as “pedras” podem profetizar, por que o samba não pode? Vale
repetir: o Espírito Santo é livre e sopra onde quer! As vezes fala onde menos
se espera… Deus é desconcertante! Da minha parte, como pesquisador das
religiosidades das populações subalternizadas, estou, pessoal e visceralmente,
ansioso e esperançoso para ver/ouvir a exegese bíblica do Samba, a versão, a
hermenêutica decolonial de Leandro Vieira – o Evangelho de Jesus segundo a
Estacão Primeira de Mangueira!”
*Padre Geraldo Natalino – mestre em teologia e doutor em
ciência da religião – é conhecido popularmente no Complexo de Manguinhos como
Padre “Gegê”.

Ainda não consigo voltar a ler!

Ainda não consigo voltar a ler!

Por um bom tempo e por tanto motivos. Concentração e foco, ainda difícil. Minha mente esta a mil por horas. Rsrsrs

“A leitura nos torna mais felizes e nos ajuda a enfrentar melhor a nossa existência. Os leitores vivem mais contentes e satisfeitos do que os não leitores, e são, em geral, menos agressivos e mais otimistas”.
A afirmação é dos responsáveis por uma análise efetuada recentemente pela Universidade de Roma III



17 janeiro, 2020

Vindas e Vidas - trailer 1 (1'38")







O Ministério Público Federal (MPF) na 5ª Região, a
Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e a Cáritas Brasileira Regional
Nordeste 2 lançam, no dia 20 de janeiro de 2020, o documentário “Vindas e
Vidas”. A sessão de lançamento será única e ocorrerá às 19h, no Cinema São Luiz,
no Recife, com entrada gratuita. Os ingressos poderão ser retirados uma hora
antes do evento. Na ocasião, serão arrecadados itens de higiene pessoal para os
migrantes. Após a exibição, haverá debate.

O documentário relata o drama dos migrantes a partir da
história de quatro famílias venezuelanas que deixaram o seu país por conta da
crise econômica e humanitária e entraram no Brasil pela fronteira com Roraima.
Três das famílias entrevistadas chegaram a Pernambuco por meio do Programa de
Interiorização Voluntária (PANA), que faz parte da Operação Acolhida,
organizada, em 2018, para receber os migrantes que chegam ao país diariamente.
Segundo a Plataforma de Coordenação para Refugiados e Migrantes da Venezuela
(R4V), até novembro de 2019, o Brasil era o sexto destino mais procurado pelos
venezuelanos em busca de acolhimento, atrás de Colômbia, Peru, Chile, Equador e
EUA, contabilizando a entrada de 224 mil migrantes.

O foco do documentário é explicar o que é ser migrante e
refugiado, independentemente da nacionalidade, e quais os desafios do
acolhimento e da integração dessas pessoas em seu local de destino, tanto para
elas quanto para os que as recebem. A partir da narrativa dos personagens e das
autoridades ouvidas, é possível desmistificar alguns preconceitos, como o de
que os refugiados são migrantes econômicos ou que saíram do seu país de origem
por opção. Além disso, esclarece que a própria Constituição Federal não
estabelece distinção entre brasileiros e estrangeiros residentes no país e que
todos devem ter seus direitos fundamentais e humanos garantidos.

Produção – Gravado no primeiro semestre de 2019 sem fazer
uso do orçamento das instituições responsáveis, o documentário “Vindas e Vidas”
contou com o esforço das equipes de comunicação das instituições envolvidas e
com o apoio de voluntários.

Sob direção institucional do procurador-chefe da PRR5,
Marcelo Alves, do reitor da Unicap, padre Pedro Rubens, e do secretário
regional da Cáritas em 2019, diácono Antônio Lisboa, o documentário tem direção
técnica de Ana Cláudia Dolores, Cláudia Holder, Jaqueline Maia e Lícia Magna,
roteiro de Ana Cláudia Dolores, Cláudia Holder e Nildo Ferreira e edição de
Luca Pacheco. A trilha sonora foi composta exclusivamente para a obra pelo
acordeonista austríaco Stefan Matl e foi gravada, mixada e masterizada pelo
Estúdio Núcleo Beat. O evento de lançamento no Cinema São Luiz tem o patrocínio
da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR).

Para refletir


Primeiros dias de 2020 já registram ataques contra indígenas e quilombolas


Povos tradicionais e originários foram vítimas de assassinatos e agressões no Mato Grosso do SulAmazonas e Maranhão.

A reportagem é de Lu Sudré, publicada por Brasil de Fato, 15-01-2020.



Ano novo, velha violência. Nos 13 primeiros dias de 2020, indígenas e quilombolas foram vítimas de assassinatos e ataques que deram continuidade à escalada de violência que atingiu os povos tradicionais e originários no ano passado.

O número de lideranças indígenas mortas em conflitos no campo, por exemplo, foi o maior em pelo menos 11 anos. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) registraram sete mortes em 2019, contra duas mortes em 2018. As informações são preliminares e o balanço final só será divulgado em abril deste ano.
Entretanto, a tônica continua a mesma. Logo no início de 2020, no dia 2 de janeiro, cerca de 180 famílias Guarani e Kaiowá sofreram ofensiva de seguranças privados em Dourados, no Mato Grosso do Sul. O confronto, que durou 16 horas e terminou apenas no dia seguinte, deixou sete indígenas feridos por balas de borracha e projéteis de arma de fogo.
Entre eles, um indígena de 12 anos que perdeu três dedos da mão esquerda ao manipular uma granada deixada para trás pela polícia. Os policiais, de acordo com o Centro Indigenista Missionário (Cimi), foram até o local durante o ataque dos seguranças privados e também agiu de forma violenta contra os indígenas.
A ação de seguranças privados de fazendeiros contra os indígenas que ocupam os territórios nos limites da Reserva de Dourados, do qual foram expulsos, é constante. Após o ataque do início do ano, a Defensoria Pública da União (DPU) de Campo Grande solicitou ao governo estadual que requisite o envio da Força Nacional de Segurança Pública para atenuar os conflitos.
Já no primeiro domingo do ano, dia 5 de janeiro, dois camponeses quilombolas foram brutalmente assassinados no município de Arari, no Maranhão. Lideranças da associação quilombola do CedroCelino Fernandes e Wanderson de Jesus Rodrigues Fernandes, pai e filho, foram mortos com tiros no rosto após terem a residência invadida por quatro pistoleiros.
Segundo a CPT, os trabalhadores haviam denunciado o conflito agrário entre a comunidade e os grileiros, que cercam – inclusive com cercas elétricas – terrenos públicos da região para criação de búfalos.
Paulo Moreira, da coordenação nacional da CPT, avalia que o primeiro ano do governo Bolsonaro aprofundou a violência contra os povos tradicionais da floresta.
“O recado do governo foi claro. Ele não vai apoiar de forma alguma políticas em apoio aos povos e comunidades tradicionais. Isso está provocando, tem provocado ao longo dos últimos anos, esse incentivo à violência. O governo tem uma política de favorecimento ao capital, ao agronegócio e às mineradoras. Deliberadamente e sistematicamente, paralisou as políticas dos povos do campo e avançou no sentido contrário”, denuncia Moreira, acrescentando que a perspectiva negativa se mantém para 2020.
Durante a noite de 6 de janeiro deste ano, no dia seguinte ao assassinato dos quilombolas maranhenses, três indígenas do povo Miranha, da Terra Indígena Cajuhiri Atravessado, no município de Coari (AM), também foram assassinados. As mortes ocorreram devido a conflito local envolvendo indígenas e não indígenas e desavenças relacionadas à extração de castanha do Pará na região.
Professor, o indígena Joab Marins da Cruz foi assassinado em casa, na aldeia Cajuhiri Atravessado. De acordo com a PM de CoariJoab teria entrado em confronto com proprietário de uma espingarda supostamente roubada por seu irmão.
Logo depois, Marcos Marins da Cruz e Francisco Marins da Cruz também foram mortos após tentar localizar e perseguir os autores dos disparos contra Joab. Um dos assassinos está preso.
Para Paulo Moreira, não é coincidência que grande parte dos conflitos e assassinatos contra indígenas e quilombolas historicamente aconteçam na Amazônia. Ele ressalta que os territórios dos povos tradicionais são extremamente valiosos e cobiçados por diversos setores.
“É um mercado que avança de forma violenta, incentivado pelo Estado, a exterminar os povos para exploração da floresta. É o fim da floresta”, lamenta o coordenador da CPT.

Outra forma de violência

Desde o início de janeiro, seis crianças indígenas com menos de um ano de idade também morreram na região da Terra Indígena Vale do Javari. Em entrevista ao CimiJorge Duarth, coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), afirmou que as mortes ocorreram por conta das condições insalubres do porto local, onde as canoas indígenas são atracadas e não há saneamento básico.
Ainda de acordo com informações do DSEI, a maioria dos óbitos ocorreu na cidade de Atalaia do Norte, município brasileiro do interior do estado do Amazonas.
Antonio Eduardo Cerqueira de Oliveira, secretário-geral do Cimi, analisa que a desestruturação completa de uma rede de assistência que garanta direitos básicos é outra forma de violência responsável pelo aumento de mortes de indígenas no Brasil.
Como exemplo, ele cita o desmonte de instituições importantes desde o início do governo de Jair Bolsonaro. Entre elas, a Fundação Nacional do Índio (Funai), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
“As populações indígenas e quilombolas estão sendo colocadas como inimigas do Estado, do povo brasileiro. Isso é terrível. O próprio Estado brasileiro patrocina uma violência tamanha que crianças morrem e isso parece natural. Três indígenas foram assassinados e isso parece natural”, lamenta Cerqueira de Oliveira.
Segundo ele, o governo Bolsonaro tem a intenção de privatizar o atendimento à saúde das comunidades indígenas e já iniciou o processo de desarticulação dessa rede.
Crítico ao projeto de mineração em terras indígenas apresentado pelo governo, o secretário do Cimi relata ainda que o fim do programa Mais Médicos e a consequente retirada de médicos cubanos das regiões mais vulneráveis do país precarizaram ainda mais o atendimento aos indígenas.
“São sinais de que estamos vivendo uma situação de barbárie. A população indígena, rural e mais pobre, está completamente desprotegida”.
Fonte: IHU

Cinco livros que revelam a marca deixada pela escravidão na literatura


Professor de história e estudos afro-americanos na Universidade de Harvard, Sidney Chalhoub indica cinco livros que revelam a marca deixada pela escravidão na literatura

A escravidão moldava a literatura brasileira do século 19 de diferentes formas, nem sempre muito aparentes. Apesar de tudo que se escreveu sobre ela de modo direto – em peças teatrais, poesia, romances, contos e crônicas –, a tendência de longo prazo, salvo exceções, como no caso da poesia de Castro Alves, foi incorporar ao cânone obras outras, que supostamente nada diziam sobre a horrenda instituição.


Playing in the dark: whiteness and the literary imagination
Toni Morrison (Vintage Books, 1993)

O problema das representações sobre a escravidão em obras canônicas, quase sempre escritas por homens brancos, era comum às literaturas das principais sociedades escravistas do século 19 – Estados Unidos, Brasil e Cuba. Em texto de reflexão teórica sobre a presença da escravidão e do racismo no cânone literário norte-americano, Morrison mostra que, apesar de ocupar pouco espaço na superfície do texto, episódios que revelavam a injustiça racial estruturante da experiência histórica dos autores e seus personagens eram com frequência a chave de narrativas que aparentemente giravam em torno de outros assuntos.

Memórias póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis (1881, várias edições)

Machado de Assis inventou narradores muito fincados em seu lugar de classe, gênero e raça. Brás Cubas foi sujeito de família ilustre, herdeiro de grossos cabedais, senhor de escravos e, quanto às mulheres, imaginava-se grande sedutor e controlador delas. Ao rememorar episódios de sua vida, conta dos preparativos para uma festa quando ainda era menino, para a qual “lavaram-se, arearam-se, poliram-se as salas, escadas, castiçais, arandelas”. O uso da voz passiva esconde os sujeitos desses verbos todos a descrever o trabalho realizado: os escravizados da família labutaram para garantir o desfrute de Brás e seus pares.

Quincas Borba
Machado de Assis (1891, várias edições)

O narrador de “Quincas Borba” tem acesso livre às mentes das personagens da estória que conta. Todavia, exerce essa prerrogativa a partir de sua subjetividade, marcada por seu lugar social. Nas dezenas de capítulos iniciais do romance, acompanha de perto os pensamentos de Rubião, nada diz sobre o que ia na cabeça de Sofia, de modo que os leitores são levados a acreditar que esta mulher casada ardia por ter um caso com aquele simplório de Barbacena. Acusada por Palha, seu marido, de ter dado corda ao conquistador, Sofia chega ao auge de sua irritação com o cônjuge ao ver “um pobre preto velho que, em frente à casa dela, trepava com dificuldade um pedaço de morro. As cautelas do preto buliam-lhe com os nervos”. O narrador não explica, talvez não entenda, que Sofia percebeu compartilhar com o negro escravizado a experiência do jugo senhorial, masculino, de gente como Palha, que se achava senhor tanto dela quanto de negros escravizados.

Escritos de liberdade: literatos negros, racismo e cidadania no Brasil oitocentista
Ana Flávia Magalhães Pinto (Editora Unicamp, 2018)

Para entender a imaginação literária de alguém como Machado de Assis, nenhuma massa de informação é suficiente, mas muita coisa é indispensável. “Escritos de liberdade” insere Machado de Assis num elenco formidável de intelectuais negros seus contemporâneos, entre os quais Luiz Gama, José do Patrocínio e Ferreira de Menezes. Ao observar o processo de crise da escravidão e a configuração das ideologias racistas do período, esses pensadores negros enfrentavam o problema comum de lidar com gente como Silvio Romero, autor influente à época, capaz de acreditar em estultices tais como esta: “o negro é um ponto de vista vencido na escala etnográfica”.


As máscaras de Lélio: política e humor nas crônicas de Machado de Assis (1883-1886)
Ana Flávia Cernic Ramos (Editora Unicamp, 2016)

A literatura brasileira do século 19 acontecia na imprensa. Era lá que romances apareciam em capítulos nos folhetins, ao lado de contos, poesia e muita matéria jornalística carregada de procedimentos de ficcionalização – quer dizer, marcada por estratégias narrativas pertinentes à literatura. A crônica era o gênero por excelência dessa convivência entre notícia e literatura, entre jornalismo e experimentação literária. “As máscaras de Lélio” é um estudo denso e inspirador de uma série coletiva de crônicas, intitulada “Balas de Estalo”, na qual Machado de Assis participou por alguns anos, e na qual comentou em detalhe a crise da escravidão na década de 1880.

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Sidney Chalhoub é professor dos departamentos de História e de Estudos Africanos e Afro-americanos, Harvard University. É professor titular colaborador da Unicamp. Fez a indicação editorial e escreveu o posfácio do romance “Fantina: cenas da escravidão”, de Duarte Badaró, de 1881, republicado em 2019 pela Chão Editora.

Fonte: .nexojornal.com.br

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Frei Carlos Mesters fala sobre o Livro do Deuteronômio em entrevista a frei Gilvander

14 janeiro, 2020

Para refletir


A autoridade não é comando, mas coerência e testemunho

Quanto mal fazem os cristãos "incoerentes" e os pastores "esquizofrênicos" que não dão testemunho, afastando-se assim do estilo do Senhor, da sua autêntica "autoridade": a homilia do Papa Francisco na Casa Santa Marta foi um comentário ao Evangelho proposto pela liturgia do dia.

"Jesus ensinava como quem tem autoridade". O Evangelho de Marcos (Mc 1,21-28) narra Jesus que ensina no templo e a reação que suscita entre as pessoas o seu modo de agir com "autoridade", diferentemente dos escribas. É desta comparação que o Papa se inspirou para explicar a diferença que existe entre "ter autoridade", "autoridade interior", como Jesus, e "exercitar a autoridade sem tê-la, como os escribas". Estes, mesmo sendo especialistas no ensinamento da lei e ouvidos pelo povo, não eram críveis.



O estilo de Jesus

Qual é a autoridade que Jesus tem? É o estilo do Senhor, aquela 'senhoria' – digamos assim – com a qual o Senhor se movia, ensinava, curava, ouvia. Este estilo  senhorio – que é algo que vem de dentro – mostra... O que mostra? Coerência. Jesus tinha autoridade porque era coerente com aquilo que ensinava e aquilo que fazia, isto é, como vivia. Aquela coerência é o que dá a expressão de uma pessoa que tem autoridade: “Esta pessoa tem autoridade porque é coerente”, ou seja, dá testemunho. A autoridade se mostra nisto: coerência e testemunho.

Os escribas, pastores esquizofrênicos que não dizem e não fazem

Ao contrário, os escribas não eram coerentes e Jesus, afirmou o Papa, de um lado adverte o povo a "fazer o que diziam, mas não o que faziam"; de outro, não perde a ocasião para repreendê-los, porque "com esta atitude caíram em uma esquizofrenia pastoral”, segundo Francisco: diziam uma coisa e faziam outra. E o Papa recordou que isso acontece em vários episódios do Evangelho: às vezes, Jesus reage colocando-os de lado, às vezes não dando a eles nenhuma resposta e, ainda, “qualificando-os":

E a palavra que Jesus usa para qualificar esta incoerência, esta esquizofrenia, é “hipocrisia”. É um terço de qualificativos! Vamos pegar o capítulo 23 de Mateus; muitas vezes diz: “hipócritas por isso, hipócritas …”. Jesus os qualifica “hipócritas”. A hipocrisia é o modo de agir daqueles que têm responsabilidade sobre as pessoas – neste caso, responsabilidade pastoral -, mas não são coerentes, não são senhores, não têm autoridade. E o povo de Deus é manso e tolera; tolera muitos pastores hipócritas, muitos pastores esquizofrênicos que dizem e não fazem, sem coerência.

A incoerência cristã é um escândalo

Mas o povo de Deus que tanto tolera – acrescentou Francisco – sabe distinguir a força da graça. E o Papa explicou fazendo referência à Primeira Leitura de hoje, em que o idoso Eli "tinha perdido toda a autoridade e tinha ficado somente com a graça da unção" e, com aquela graça abençoou e fez um milagre em Ana, que por sua vez suplicava para ser mãe. Este episódio serviu para Francisco fazer uma consideração acerca dos cristãos e dos pastores:

O povo de Deus distingue bem entre a autoridade de uma pessoa e a graça da unção. “Mas você vai se confessar com aquela pessoa, que é isso, isso e isso?” – “Mas para mim ele é Deus. Ponto. Ele é Jesus”. E esta é a sabedoria do nosso povo, que tolera tantas vezes, tantos pastores incoerentes, pastores como os escribas, e também cristãos que vão à missa todos os domingos e depois vivem como pagãos. E as pessoas dizem: “Isto é um escândalo, uma incoerência”. Quanto mal fazem os cristãos incoerentes que não dão testemunho e os pastores incoerentes, esquizofrênicos, que não dão testemunho!

O Papa concluiu a homilia pedindo ao Senhor para que todos os batizados tenham a "autoridade", "que não consiste em comandar e aparecer, mas em ser  coerente, ser testemunha e, por isso, ser companheiro de estrada no caminho do Senhor ".

Gabriella Ceraso – Cidade do Vaticano
Vatican News

13 janeiro, 2020

Há crianças feridas escondidas em adultos "difíceis"



Ricos e pobres, cada vez mais separados


Mais abastados tendem a morar em bairros separados da confusão da grande cidade enquanto os menos felizardos enfrentam condições pós-apocalípticas de poluição e superpopulação.
A reportagem é de Sergio C. Fanjul, publicada por El País, 12-01-2019.
Nas cidades as pessoas diferentes vivem em locais diferentes: se chama segregação urbana. A segregação pode ocorrer por diversos motivos, como a etnia e os estilos de vida, mas o fator mais importante é o econômico. Os que têm mais dinheiro podem escolher onde moram, para os mais pobres a escolha não é tão ampla. Os primeiros moram em bairros melhores, com melhores serviços, melhor construção e qualidade ambiental. Os pobres precisam se resignar a morar em bairros onde tudo é um pouco mais precário e até a expectativa de vida alguns anos menor. A influência da segregação residencial na trajetória vital das pessoas se chama “efeito bairro”, muitas vezes traduzido em fracasso escolar, desigualdade e falta de oportunidades.
Estudos e especialistas dizem que a segregação aumenta, em correlação às crescentes desigualdades provocadas pelo modelo econômico vigente, o que pode provocar problemas nas megacidades para as quais nos dirigimos. As Nações Unidas preveem que 68% da população morará em cidades em 2050, na Espanha 80% já estão nelas. As cidades são e serão os cenários dos conflitos sociais presentes e futuros.
“Os ricos e pobres estão morando em distâncias crescentes uns dos outros, e isso pode ser desastroso à estabilidade social e ao poder competitivo das cidades”, diz um estudo realizado durante a primeira década deste século por várias universidades europeias (Socio-Economic Segregation in European Capital Cities). Entre as causas estão a globalização, a reestruturação do mercado de trabalho, a diferença de renda, a decadência do Estado de bem-estar social e a mercantilização da moradia. A gentrificação e a turistificação são, além disso, processos que contribuem a essa separação entra as pessoas que, de acordo com suas condições vitais, deixam de conviver com outros grupos diferentes. Se o interessante das cidades era sua condição de caldo de pessoas e culturas, essa característica pode estar chegando ao seu fim.

A centrífuga urbana

As coisas nem sempre foram assim. Na segunda metade do século XIX, como lembra o sociólogo Richard Sennett em seu recente ensaio Construir e Habitar, os edifícios, por mais imponentes que fossem, podiam abrigar oficinas no térreo, depois andares nos quais morava a burguesia e os andares mais altos, que eram piores e menores, em que moravam trabalhadores humildes. Havia contato entre as classes sociais, a segregação ocorria no próprio edifício, nem tanto em escala urbana. Mas com a chegada dos transportes, como o bonde, já não era preciso que as classes populares morassem junto com as mais abastadas. A produção industrial as levou à periferia: “A cidade operava como uma centrífuga que separava especialmente as classes”, escreve Sennett. O elevador (físico, não social) permitiu que os ricos morassem em andares altos sem a necessidade de subir escadas. E agora estão na moda as coberturas de luxo, coisa à época impensável.
Por que a segregação urbana não é desejável? Além das razões relacionadas com a justiça social, existem outras: “A segregação é prejudicial do ponto de vista da inovação, as cidades muito segregadas expulsam os trabalhadores que não podem viver nelas e têm dificuldades para crescer no futuro”, diz Esteban Moro, pesquisador da Universidade Carlos III de Madri e do MIT (Instituto Tecnológico de Massachusetts). A aglomeração da diversidade humana nas primeiras cidades, há 7.500 anos, afirma o ensaísta científico Steven Johnson em seu livro De Onde Vêm as Boas Ideias, foi o que acelerou o processo de inovação com invenções simultâneas como o alfabeto, a moeda, a pavimentação, a roda e a navegação. “Além disso, a segregação impede que algumas pessoas vejam os problemas das outras, e assim é difícil que se peça uma redistribuição da riqueza. As pessoas de rendas mais altas podem chegar a se opor às políticas sociais”, acrescenta Moro.
De fato, o contato traz o carinho e a segregação o anula. De acordo com as pesquisas em neurociência social de Lasana Harris, da Universidade de Duke, e Susan Fiske, de Princeton, (citadas pela jornalista Marta Peirano em seu recente livro O Inimigo Conhece o Sistema), quando não temos contato com outros grupos perdemos a capacidade de empatizar com eles, e até se desativam as áreas cerebrais que se ocupam da compreensão e da identificação. Desumanizamos os diferentes e os preconceitos aparecem.
É verdade que o bairro em que moramos é importante, mas também é verdade que passamos até 80% de nosso tempo fora de casa, de modo que, como Moro descobriu analisando dados obtidos de celulares através de técnicas de big data, os lugares que frequentamos durante o dia também são importantes. É o que demonstra o projeto Atlas da Desigualdade que o pesquisador desenvolve no MIT MediaLab, em que analisa outros fatores da segregação além do local de residência em algumas cidades dos Estados Unidos. Por exemplo, a segregação também ocorre em lojas e restaurantes, em bares, em cabeleireiros, em shoppings, os “terceiros lugares” (cada vez mais relacionados com o consumo, e em decadência em relação às relações digitais) que não são o domicílio e o trabalho. Os ricos e os pobres não frequentam os mesmos.

Distopias segregadas

Os ricos partiram e agora vivem em um satélite artificial, longe da superfície terrestre em que os menos felizardos enfrentam condições pós-apocalípticas de poluição e superpopulação. No satélite dos abastados, por outro lado, a água é abundante, o ar está limpo e se vive com todas as comodidades. Isso ainda não passou à realidade, mas é o enredo do filme de ficção científica Elysium (Neill Blomkamp, 2013) que se passa no ano de 2154. Um retrato da segregação levado ao extremo.
Mas, ainda que pareça extremo, um fenômeno não muito diferente está acontecendo sobre a superfície do planeta. As chamadas gated communities aumentam, principalmente nos países mais desiguais: bairros fechados em que os privilegiados moram cercados de muros, câmeras de vigilância e aproveitando seus próprios serviços. Outro filme retrata uma dessa comunidades, Zona do Crime (Rodrigo Plá, 2007). E indo ainda mais além, onde a realidade iguala a ficção: o movimento seasteading, apoiado por papas do Vale do Silício como Peter Thiel, cofundador do PayPal, pretende criar utopias anarcocapitalistas para ricos em ilhas artificiais (e paraísos fiscais) nas águas do Taiti, não sem escândalo, como denuncia o documentário The Seasteaders, de Jacob Hurwitz-Goodman e Daniel Keller.
Na EspanhaMadri e Barcelona também são amostras de segregação. Em Madri a segregação ocorre notoriamente no eixo norte-sul: na parte noroeste, salvo exceções, estão as rendas mais altas; os tradicionais bairros operários (Vallecas, Usera, Carabanchel etc.) estão abaixo do rio Manzanares, no sudeste. “Na parte norte está o privilégio, no sul a vulnerabilidade”, diz o sociólogo Daniel Sorando, da Universidade Complutense de Madri, participante do estudo pan-europeu citado. De acordo com a pesquisa, Madri é a capital mais segregada da Europa e a segunda em desigualdade social. Em Barcelona, segundo aponta o urbanista Oriol Nel·lo, do departamento de Geografia da Universidade Autônoma de Barcelona, a segregação ultrapassa as divisas da capital catalã e ocorre entre diferentes municípios: Sant Cugat del Vallès não é a mesma coisa do que que Sant Adrià de Besòs.
Nesse tipo de capitais a força que separa as classes sociais é maior, pela constante chegada de visitantes e trabalhadores, muitos deles altamente qualificados, à procura de oportunidades em grandes empresas. A socióloga Saskia Sassen (prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais 2013) batizou esses nodos mundiais de capital e informação de “cidades globais” e, ainda que muitos lugares queiram se transformar em globais, isso não necessariamente beneficiará a maioria de seus habitantes.

O direito à cidade

Nova Agenda Urbana das Nações Unidas, nascida de sua reunião sobre a Moradia e o Desenvolvimento Sustentável Hábitat III, de 2016 (realizada a cada 20 anos), aponta a segregação como um dos grandes desafios das cidades. E pela primeira vez coloca o direito à cidade, um conceito criado pelo filósofo Henri Lefebvre e reivindicado posteriormente pelo geógrafo David Harvey e diferentes movimentos sociais do século XXI.
“As injustiças sociais se refletem em questões espaciais: a segregação, a gentrificação, a especulação se manifestam no modo em que as pessoas vivem”, diz Antonio Campillo, professor da Universidade de Murcia e autor do recente ensaio Um Lugar no Mundo, Justiça Espacial e Direito à Cidade. A precarização tem um componente fundamental, de acordo com o professor, na falta de posse dos meios de vida mais básicos, como a moradia. “O direito à cidade fala de todas as dimensões que permitem levar uma vida digna”, diz o autor; “uma das coisas reivindicadas é a ordenação urbana com critérios de justiça social e ambiental, e a promoção de políticas participativas para que a população seja atora na vida da cidade: a cidade é de todos e é preciso fazê-la entre todos”.
O que mais pode ser feito para aliviar a segregação? “São necessárias políticas que não podem ser só locais, e sim supralocais e de caráter transversal”, diz Nel·lo, “não somente melhorar o espaço público e a acessibilidade, e sim todos os âmbitos da vida da população”. Entre as soluções apresentadas está o investimento em educação, transporte público, mobilidade social e urbanismo, regulamentar o mercado da moradia em áreas tensionadas com preços de aluguel desorbitados, aumentar a moradia social e, principalmente, misturá-la na cidade sem criar guetos. Nesse sentido, a Prefeitura de Barcelona aprovou em 2018 um plano em que qualquer nova promoção imobiliária é obrigada a incluir 30% de moradias acessíveis (as políticas de moradia da Prefeitura receberam em junho o prêmio European Responsible Housing Award). Desse modo, pessoas de diferentes estratos compartilharão escadas e empatizarão.
Fonte: IHU