17 julho, 2018

Oração a São Francisco, em forma de desabafo (D. Pedro Casaldáliga)



Oração a São Francisco, em forma de desabafo (D. Pedro Casaldáliga)

Compadre Francisco, 
como vais de glória?


E a comadre Clara
e a irmandade toda?

Nós, aqui na Terra,
vamos mal vivendo, 
que a cobiça é grande
e o amor pequeno. 

O amor divino
é mui pouco amado
e é flor de uma noite
o amor humano.

Metade do mundo 
definha de fome
e a outra metade
de medo da morte.

A sábia loucura
do santo Evangelho
tem poucos alunos
que a levem a sério.

Senhora Pobreza,
perfeita alegria,
andam mais nos livros
que nas nossas vidas.

Há muitos caminhos
que levam a Roma;
Belém e o Calvário
saíram da rota.

Nossa Madre Igreja
melhorou de modo
mas tem muita cúria
e carisma pouco. 

Frades e conventos 
criaram vergonha,
mas é mais no jeito
que por vida nova.

Muitos tecnocratas
e poucos poetas.

Muitos doutrinários
e menos poetas.

Dom Pedro Casaldáliga (1928- ), poeta e bispo espanhol da Prelazia de São Felix do Araguaia, In: Orações da Caminhada. Campinas: Verus,(2005:64-65).

Imagem: Pintura de Sérgio Simonetti: São Francisco.

O Brasil e as eleições. Ivo Lesbaupin

O momento eleitoral é uma oportunidade para discutirmos a sociedade que queremos. Temos hoje uma política econômica que  prejudica os mais pobres e atende somente aos ricos. É preciso mudar isto.



Desde 2016, com o impeachment da presidente Dilma, as regras democráticas estão sendo frequentemente atropeladas: foi um golpe contra a democracia. O governo Temer, em menos de um ano, fez aprovar no Congresso leis que retiram direitos e jogam no lixo a Constituição Cidadã: a PEC do Teto dos Gastos, que reduz recursos da saúde e da educação para os próximos 20 anos, a reforma do Ensino Médio, a Lei da Terceirização, a Reforma Trabalhista e outras. E ainda tenta aprovar uma reforma da Previdência que acabaria com o direito à aposentadoria para a maioria. Do ponto de vista da legislação trabalhista, o Brasil voltou setenta anos para trás.

Neste meio tempo, parte do Judiciário brasileiro, sob pretexto de combate à corrupção no país, desencadeou, com apoio da grande mídia, uma perseguição a um partido político, o PT, e suas lideranças, o PT. Nunca se viu com tanta clareza a utilização de “dois pesos e duas medidas” para pessoas de partidos diferentes. Uns, denunciados com provas, são protegidos e vivem tranquilamente, enquanto outros são presos e humilhados publicamente. Para coibir práticas ilegais (corrupção), se utilizam medidas ilegais (conduções coercitivas, vazamentos seletivos de depoimentos, ampla veiculação mediática de conversas particulares, prisões para obter delações, direcionamento de depoimentos, prisão sem provas, etc.).

Temos hoje em dia um verdadeiro monopólio dos meios de comunicação, liderado pela Globo, onde só se expressam os interesses dos grandes, dos banqueiros, do agronegócio. No entanto, a grande maioria da população brasileira não se dobrou à propaganda da grande mídia. Rejeita a situação atual: Temer é apoiado por apenas 3% da população, a mais baixa popularidade do mundo. A maioria se opõe às privatizações (70%), é contra a reforma da Previdência (69%), é contra a reforma trabalhista (81%).

O primeiro compromisso de qualquer candidato que queira se apresentar como nosso representante nas eleições deve ser o de revogar estas leis anticidadãs propostas por um governo corrupto e aprovadas à custa da compra de votos, sem qualquer debate com a sociedade. É a condição para voltarmos à democracia, ao respeito à vontade popular, à vontade da maioria.

Do mesmo modo, é preciso que as eleições sejam livres. Neste momento, o candidato Lula, que está à frente em todas as pesquisas de opinião, está sendo impedido de se apresentar: foi condenado e preso sem provas. Para respeitar o Estado de Direito, esta prisão teria de ser suspensa. É condição para termos eleições democráticas, onde o povo pode escolher aquele que melhor o representa.

Devemos investir na eleição de deputados federais, estaduais e senadores que sejam capazes de defender os nossos interesses. E, ao mesmo tempo, impedir que aqueles parlamentares que aprovaram a retirada de direitos retornem ao Congresso: eles não nos representam. Não basta ter um bom governante, é necessário que haja bons parlamentares.

O momento eleitoral é uma oportunidade para discutirmos a sociedade que queremos. Temos hoje uma política econômica que atende apenas aos interesses dos mais ricos: o chamado “ajuste fiscal” prejudica os mais pobres e atende somente aos ricos. É preciso mudar isto. Temos um sistema político que favorece a corrupção e os negócios escusos, precisamos mudar este sistema. Temos de lutar pela democratização dos meios de comunicação. E, ao mesmo tempo, precisamos saber discernir as informações que nos chegam, manter a capacidade crítica, discutir em grupo, trocar ideias, pensar propostas.

Finalmente, sempre é bom lembrar que eleição não é o único modo de fazer democracia. As mobilizações, a pressão nas ruas, os protestos, são fundamentais, inclusive através das redes sociais (sem jamais ceder ao ódio ou às falsas notícias, que só favorecem os grandes).

Esse artigo é parte da 6ª Edição do Jornal A Caminho. Confira:

Fonte: Site das CEBs do Brasil


13 julho, 2018

Poema “Pobre Menino Preto”



Poema “Pobre Menino Preto” 

Pobre menino preto
brincando com a turma

Se imagina mocinho
não cola

Os mocinhos são brancos
como os outros

Se imagina tarzã
se pendura no galho
não cola

Porque eles o imaginam
chita
macaco
chimpanzé
orangotango

Não pode brincar de Zumbi
ou Toussaint Louverture
porque são heróis de verdade
que ninguém conhece
nem ele mesmo nunca ouviu falar.

Poema do escritor e ativista Oliveira Silveira, um dos idealizadores do dia 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra.

12 julho, 2018

O que é ''aporofobia''? Uma reflexão útil e atual

“Ninguém tem antipatia pelos turistas estrangeiros que invadem as nossas cidades artísticas, muito menos pelos empresários ou pelos financiadores estrangeiros que abrem ou adquirem empresas entre nós. O problema não é o estrangeiro, mas sim o pobre como tal e aquilo que ele representa.”


A opinião é do padre italiano Luciano Cantini, em artigo publicado em Il Sismografo, 10-07-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Adela Cortina é professora de Ética e Filosofia Política na Universidade de Valência (Espanha), diretora da Fundação Étnor para a Ética dos Negócios e das Organizações, membro da Academia das Ciências Morais e Políticas, tem oito doutorados “honoris causa” conferidos por diversas universidades no mundo. Ela é a autora da “palavra do ano de 2017”, de acordo com a Fundação Espanhola Urgente(a de 2014 foi “selfie”), que está entrando na reflexão de quem está atento à evolução do pensamento e dos comportamentos sociais no mundo ocidental.

A palavra é “aporofobia”, que Adela cunhou e usou em diversos artigos, livros, entrevistas; é uma palavra emprestada da língua grega e tenta identificar uma fobia, um medo, uma patologia social que se manifesta na aversão a alguém que é percebido como diferente, como a homofobia, a islamofobia, a xenofobia.

Em grego, a palavra á-poros significa “sem recursos”, portanto, o termo aporofobia significa “rejeição ou aversão aos pobres”.

De acordo com a filósofa espanhola, é importante chamar as coisas pelo seu verdadeiro nome. De fato, é por uma mera questão política ou pela falta de uma percepção plena, talvez por limites de linguagem, que a nossa sociedade, muitas vezes, define como “xenofobia” ou “racismo” a rejeição aos imigrantes ou aos refugiados, termo que, na maioria dos casos, é indesejado, mas também inadequado para expressar a realidade. De fato, essa percepção dos nossos dias não se deve ao status de estrangeiros, mas sim ao fato de que são pobres.

Dos políticos às pessoas comuns, existe a preocupação de rejeitar o fato de serem tachados de racistas xenófobos, enquanto se esforçam para encontrar as justificativasmais diversas para uma atitude de antipatia e de rejeição não claramente identificada.

A professora espanhola defende que o que assusta a nossa sociedade do bem-estar é a pobreza, mas não se tem a coragem de reconhecer isso, mesmo que seja recorrente se apresentarem situações de crise econômica. Identificando a pobreza com os estrangeiros imigrantes e refugiados e com os Rom, é menos constrangedor e mais fácil apresentar essas pessoas como uma ameaça à identidade nacional. Desse modo, construiu-se um discurso social repleto de ódio que não é totalmente identificável com a xenofobia.

Nos últimos anos, mudaram rapidamente as formas em que a pobreza se manifesta, assim como a sua percepção. O certo é que, na Itália, a pobreza avança – cada vez menos ricos são mais ricos, e aumenta o número dos pobres mais pobres –, além disso, a pobreza e o desconforto geram e incentivam formas de microcriminalidade. Isso torna as pessoas incertas e preocupadas, assustadas a ponto de se perderem no escuro em busca do “leproso”, em vez de buscarem as causas para remediar isso seriamente. É mais fácil deixar os pobres do lado de fora da porta de casa (ou no meio do mar).

Ninguém tem antipatia pelos turistas estrangeiros que invadem as nossas cidades artísticas, muito menos pelos empresários ou pelos financiadores estrangeiros que abrem ou adquirem empresas entre nós. O problema não é o estrangeiro, mas sim o pobrecomo tal e aquilo que ele representa.

A pobreza e a degradação que ela envolve nunca desapareceram, mas são diferentes a percepção e o modo de enfrentá-la na história recente: passou-se de uma situação de pobreza generalizada desde a Grande Guerra aos anos do boom econômico, em que também eram generalizados a solidariedade e os modos de convivialidade (vivia-se com a chave na fechadura de casa), em que assistimos ao fenômeno da emigração; entre os anos 1960 e 1980, produzimos sistemas de assistencialismo, mas também de marginalização, surgiram bairros e estruturas inteiros para se relegar a pobreza – exemplo disso são o “serpentone” de Roma ou as “vele” de Nápoles; em Livorno, foram os bairros a norte que tiveram essa prerrogativa, mas os “campos nômades” também surgiram por toda a parte –, áreas onde a pobreza e uma espécie de separação se reproduziram, aumentando o empobrecimento e a guetização social. A pobreza foi mantida longe dos olhos.

Com o bem-estar, pensou-se em uma requalificação das periferias, mas não dos centros históricos, cujas estruturas de moradia, não mais adequadas a um estilo de vida rico, foram pouco a pouco ocupadas pelos menos ricos, como os estrangeiros imigrantes. A urbanização da pobreza é um fenômeno tão novo que criou o alerta de invasão.

Saber que existe a aporofobia não muda a situação, e talvez não seremos capazes de eliminar a rejeição aos pobres dos nossos medos, mas pelo menos poderemos nos tornar conscientes do problema real e identificar algum caminho de correção, talvez até tirando algumas máscaras, libertando-nos de formas de “libertação das consciências” do assistencialismo, trabalhando sobre o próprio coração e sobre o próprio sentimento, antes ainda de fazer escolhas operativas.

“É urgente redescobrir a ideia de bem comum, para a felicidade da convivência; é urgente se exercer na ‘con-vivialidade’, na partilha do alimento, para redescobrir os laços sociais, a possibilidade de instaurar uma confiança recíproca, que se traduz em responsabilidade um pelo outro” (Enzo BianchiJesus, julho de 2018).

Fonte: IHU

10 julho, 2018

Juvenicídio: Brasil mata seu futuro a bala

Juvencídio (jovemcídio) é uma categoria criado por José Manuel Valenzuela e que representa o assassinato amplo e impune de jovens portadores de identidades desacreditadas. O conceito busca ir além de uma simples comprovação do maior índice de mortes violentas neste segmento da sociedade, explorando a fundo as dinâmicas de estigmatização, criminalização e aniquilação construídas em torno do sujeito jovem.


Na Constituição brasileira (Art. 227) está expresso que “é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.

No Estatuto da Juventude, Lei nº 12.852/2013, no capítulo “Dos Direitos dos Jovens” estão assegurados os direitos à Cidadania, à Participação Social e Política e à Representação Juvenil; à Educação; à Profissionalização, ao Trabalho e à Renda; à Diversidade e à Igualdade; à Saúde; à Cultura; Direito à Comunicação e à Liberdade de Expressão; ao Desporto e ao Lazer; ao Território e à Mobilidade; à Sustentabilidade e ao Meio Ambiente e direito à Segurança Pública e ao Acesso à Justiça.

No momento em que o Brasil passa pela oportunidade da “Onda Jovem” – 50 milhões de jovens entre 2003 e 2022 –, com estabilidade da população jovem ao longo de 20 anos, mais que demonstrar, queremos denunciar a negação de direitos elencados acima e negados à juventude brasileira, especialmente os direitos à educação, à segurança pública e ao acesso à justiça e à vida.

No ensino médio (EM), com 7.930.384 matrículas, apenas 68% da população jovem frequentam a escola e 82% dos jovens que concluem o ensino médio não acessam a universidade (Censo Inep 2017). O abandono e a evasão escolar, especialmente no primeiro ano, são muito elevados. O Brasil tem 1,7 milhão de pessoas entre 15 a 17 anos fora do ensino médio e, somente 64% dos jovens entre 25 a 29 anos completaram esta etapa. Na média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), esta proporção chega a 85% e em Portugal são 97%.

Considerando apenas estes dados oficiais fica evidenciado que o art. 205 da Constituição Federal, bem como art. 2º da Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBen), que definem que “a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”, estão sendo negligenciados e negados aos jovens brasileiros. O congelamento de investimentos em educação pelos próximos 20 anos (PEC 95), a redução dos investimentos em programas de financiamento estudantil e a estagnação do PNE 2014-2024 condenam a maioria da “onda jovem” brasileira à ignorância, a alienação e a manipulação fácil.

Por falta de segurança e justiça o Brasil mata seu futuro a bala. Desde 2014 ultrapassamos os 60 mil homicídios por ano, sendo a grande maioria crianças, adolescentes e jovens. A cada 24 horas, 29 crianças e adolescentes entre 1 e 19 anos de idade são assassinadas no Brasil, uma sala de aula inteira morta por dia. A grande maioria das vítimas é negra. E o mais assustador é que no período de 1980 a 2013 este número cresceu 475%, e segue em tendência de alta. Comparado com outros 85 países, o Brasil fica em 3º lugar no ranking de homicídios de crianças e adolescentes, atrás apenas de México e El Salvador, nações que enfrentam sérios problemas de disputa de gangues e cartéis de drogas (El País, 30/06/2016).

O Atlas da Violência de 2018 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) evidencia que o direito à vida e a segurança pública no Brasil estão, como a educação, negligenciados e negados, causando um verdadeiro genocídio da juventude brasileira. Em 2016, o Brasil alcançou a marca histórica de 62.517 homicídios. Isso equivale a uma taxa de 30,3 mortes para cada 100 mil habitantes, que corresponde a 30 vezes a taxa da Europa. Apenas  nos últimos dez anos, 553 mil pessoas perderam suas vidas devido à violência intencional no Brasil.


Segundo o próprio Ipea, quando analisamos a violência letal contra jovens, verificamos, sem surpresa, uma situação ainda mais grave e que se acentuou no último ano: os homicídios respondem por 56,5% da causa de óbito de homens entre 15 a 19 anos. Entre os jovens, há uma desigualdade das mortes violentas por raça/cor, que veio se acentuando nos últimos dez anos, quando a taxa de homicídios de indivíduos não negros diminuiu 6,8%, a taxa de vitimização da população negra aumentou 23,1%.
Assim, em 2016, enquanto se observou uma taxa de homicídio para a população negra de 40,2, o mesmo indicador para o resto da população foi de 16, o que implica dizer que 71,5% das pessoas que são assassinadas a cada ano no país são pretas ou pardas.

O Brasil mata e mata muito. Entre 2001 e 2015 houve 786.870 homicídios, sendo a enorme maioria (70%) causados por arma de fogo contra jovens negros. Estes dados comparados com conflitos internacionais são mais graves. No conflito sírio, morreram 330.000 pessoas desde 2011. Na guerra do Iraque, desde 2003, foram 268.000 mortes. Portanto, o Brasil, com 210 milhões de habitantes, é o país que mais mata no século XXI.

Se agregarmos as mortes por suicídio – quarta causa de mortes de jovens no Brasil -, e os acidentes de trânsito, que representam a principal causa de morte entre os jovens de 15 e 29 anos no mundo, o juvenicídio está evidenciado.

Para Valenzuela (2015), estudioso mexicano do tema, o juvenicídio se constitui de diversos fatores que incluem a precarização, pobreza, desigualdade, estigmatização, tendo como eixo central a estratificação social baseada em relações de subalternização. Nesse sentido, o juvenicídio inicia com a precarização da vida dos jovens, a ampliação da sua vulnerabilidade e a diminuição das opções disponíveis para que possam desenvolver seus projetos de vida. O Brasil pratica o juvenicídio porque, além de estar matando os jovens, assassina seus projetos de vida e seus sonhos, reduzindo, por opção política, os investimentos em cultura, educação, ciência, esporte e geração trabalho e renda. A triste consequência, mais de 62% dos jovens desejam deixar o país que se fecha para eles!

Texto de Gabriel Grabowski para Jornal Extra Classe.

Fonte: CEBI

06 julho, 2018

Profetas desconcertantes!

O profeta incomoda:  "Um profeta leva sempre uma mensagem de esperança. Por outro lado, a sua palavra deve necessariamente incomodar. O profeta é aquele que anuncia as situações de injustiça, que questiona, que interpela e que convida à mudança, à novidade."


Profetas desconcertantes!


Referências bíblicas:
1ª leitura: Ex 2,2-5
2ª leitura: 2 Co 12,7-10
Evangelho: Mc 6,1-6

A reflexão a seguir é de Raymond Gravel (1952-2014), padre da arquidiocese de Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras do 14º Domingo do Tempo Ordinário – Ciclo B (8 de julho de 2018). A tradução é de Susana Rocca.

No Prólogo de São João podemos ler que, em relação a Cristo, o Verbo de Deus, “Ele veio para a sua casa, mas os seus não o receberam” (Jo 1,11). Com efeito, eis aqui o drama da Aliança de Deus e os homens; essa aliança é encontro, aceitação, abertura ao outro, transformação, novidade, e essa aliança só pode se expressar através dos profetas, e eles não caem nunca do céu; eles nascem sempre de baixo, na espessura da história humana. É por isso que é difícil reconhecê-los, apreciá-los e escutá-los. As três leituras de hoje nos apresentam profetas: Ezequiel, Paulo e Jesus de Nazaré. Que tipo de profetas eles são eles?

O profeta

Um ser humano ordinário. Nas três leituras de hoje, nos damos conta rapidamente que os profetas são, antes de tudo, seres humanos bem comuns, com seus limites e fragilidades. Ezequiel, um sacerdote que viveu no tempo de Nabucodonosor e do Exílio de Babilônia (598-587 a.C), é um profeta desconcertante, de genialidade diversa e complexa. Ele é como os israelitas do seu tempo, esmagados pela derrota, desesperados e deportados para a Babilônia. É de joelhos que ele toma consciência de que Deus acompanha seu povo na angústia e que tem necessidade dele para exprimir a sua presença: “Entrou em mim um espírito que me fez ficar de pé. Então eu pude ouvir aquele que falava comigo” (Ez 2,2).

É o mesmo Paulo que escreve a sua segunda carta aos Coríntios: “Eu estava tão preocupado e aflito que até chorava” (2 Co 2,4). Paulo toma consciência de sua pequenez humana perante a grandeza da missão à qual ele se sente chamado: “Para que eu não me inchasse de soberba por causa dessas revelações extraordinárias, foi me dado um espinho na carne (em grego: skolops), um anjo de Satanás para me espancar, a fim de que eu não me encha de soberba” (2 Co 12,7). Será que é um handicap físico, uma doença crônica ou seus adversários missionários eloquentes e autoritários que, com antecedência, ele havia chamado de “servidores de Satanás” (2 Co 11,13-15)? Não sabemos nada sobre isso! Uma coisa é certa: Paulo é muito humano e ele o experimenta na sua carne, (em grego: sarkos), que designa a fragilidade da existência humana.

Jesus de Nazaré não é também um homem comum? De maneira que mesmo a sua família achava que ele era perturbado: “Os parentes de Jesus foram segurá-lo, porque eles mesmos estavam dizendo que Jesus tinha ficado louco” (Mc 3,21). E no trecho que nós temos hoje o evangelista Marcos, retomando o que as pessoas da sua cidade diziam dele, escreve: “Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E suas irmãs não moram aqui conosco?” (Mc 6,3). Dizer que Jesus é o carpinteiro, o filho de Maria, pode querer dizer duas coisas: 1) que seu pai, José, faleceu; se não Marcos haveria escrito que Jesus era o filho do carpinteiro ou, 2) que se trata de uma família de reputação duvidosa, pois, na época, não se dizia nunca que alguém era filho da sua mãe. Uma coisa é certa: Jesus de Nazaré foi um homem completamente comum, de um meio bem comum, de uma cidadezinha escura que fez que o evangelista João dissesse: “Natanael disse: ‘De Nazaré pode sair coisa boa?’” (Jo 1,46).

O profeta incomoda

Um profeta leva sempre uma mensagem de esperança. Por outro lado, a sua palavra deve necessariamente incomodar. O profeta é aquele que anuncia as situações de injustiça, que questiona, que interpela e que convida à mudança, à novidade. Frequentemente nós somos reticentes às mudanças; atolamo-nos em velhos hábitos e desculpamos a nossa passividade apoiando-nos em doutrinas e regras que determinamos serem a Verdade. Porém, não há verdades totalmente acabadas, absolutas, imutáveis, inalteráveis, e para que lembremos Deus deve necessariamente passar por mulheres e por homens como nós. Daí a rejeição, a negação e a condenação dos profetas. O teólogo Michel Hubaut escreve: “Se Deus tivesse desejado que o homem pegasse o caminho errado como se diz, ele não teria conseguido fugir disso…”. Pois se há uma constatação na história da revelação judeu-cristã, ela é exatamente essa propensão do homem a querer encontrar Deus nas manifestações extraordinárias, milagrosas e grandiosas. E, ainda, na linha da história, percebemos que Deus prefere as teofanias do quotidiano mais do que as teofanias do grande espetáculo”. E, como prova, seu Filho nasceu como todo mundo: uma criança; ele se tornou carpinteiro como seu pai e ele foi crucificado como um vulgar bandido. Hubaut acrescenta: “Não podemos dizer que esse Messias veio lisonjear a espera das multidões”.

Contudo, todos os profetas sabem: a Palavra, a Boa nova que eles têm a anunciar será automaticamente mal recebida. A novidade perturba, incomoda. Ela impede de ficar na monotonia. A novidade suscita perplexidade, rejeição. O profeta Ezequiel experimentou-a: “Criatura humana, vou mandar você a Israel, a esse povo rebelde, que se rebelou contra mim. Eles e seus antepassados se revoltaram contra mim até o dia de hoje. Os filhos são arrogantes e têm coração de pedra” (Ez 2,3-4). São Paulo o expressa também desta maneira: “E é por isso que eu me alegro nas fraquezas, humilhações, necessidades, perseguições e angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Co 12,10). E o evangelho de Marcos faz dizer a Jesus este célebre ditado: “Um profeta só não é estimado em sua própria pátria, entre seus parentes e em sua família” (Mc 6,4), pois é preciso reconhecê-lo, alguns dias a humanidade de Deus nos choca. Preferiríamos um Deus autoritário, todo-poderoso, que impõe as suas recompensas e os seus castigos… Felizmente, esse Deus não existe!

Um verdadeiro profeta

Como discernir o verdadeiro do falso profeta? Temos de ser prudentes e atentos aos sinais dos tempos. Infelizmente, na Igreja atual, alguns acham que são verdadeiros profetas pela sua intransigência, pela sua severidade e pelo que eles falam. Mas, atenção! O fato de ser criticado, rejeitado ou ainda de deixar indiferentes às pessoas que me rodeiam, não fazem de mim automaticamente um profeta. A Palavra que eu levo deve ser uma Boa Nova, uma Palavra que liberta, que salva e que dá esperança. E é por isso que os verdadeiros profetas não são sempre aqueles que nós pensamos. Eles são dificilmente apoiados pelas instituições, mesmo pela Igreja… Pois a Igreja, ela também não gosta do que incomoda, não gosta de mudança, de novidade, e os profetas são frequentemente suspeitos. O teólogo francês Hyacinthe Vulliez escreve: “Quando queremos nos desfazer de um profeta é habitual tratá-lo de anormal, de atípico e mesmo de estrangeiro, o que permite distanciá-lo e mesmo fazê-lo desaparecer. Não gostamos da pessoa que tem um discurso diferente do convencional. Ele incomoda, ele faz sair da monotonia de sempre, e isso o pessoal não gosta!”

O verdadeiro profeta de hoje deve necessariamente ter a linguagem das mulheres e dos homens de hoje, caso contrário ele deixará indiferentes as pessoas mais vulneráveis da sociedade: os pobres, os pequenos, os desprezados, os feridos da vida. A sua palavra deve denunciar as injustiças que sofrem e lhes permitir de ter esperança. Pode ser que o verdadeiro profeta não seja católico, nem mesmo cristão. A sua pertença a uma confissão particular não tem nenhuma importância. O profeta é aquele que restaura a justiça, que devolve a dignidade aos excluídos e aos feridos da vida e que traz esperança num mundo melhor.

Concluindo, o versículo evangélico que diz: “E Jesus não pôde fazer milagres em Nazaré…” (Mc 6,5) corre o risco de nos surpreender. Nós temos lá a prova de que um milagre não é um passe de mágica ou um prodígio que vira as leis da natureza; o milagre é um sinal que fala da proximidade daquele que faz com quem vê. O que significa que para que o milagre, o sinal possa se realizar, é preciso uma inter-relação, uma fé, uma confiança entre quem a dá e quem a recebe, se não nem a Palavra nem o sinal poderão produzir seus frutos. Se isso foi verdadeiro no tempo de Jesus, assim também é ainda hoje.

Fonte: IHU 

Migração - a Solidariedade é a resposta - Papa Francisco



Migração - a Solidariedade é a resposta - Papa Francisco

Onde está seu irmão? O grito do seu sangue chega até a mim. Esta pergunta de Deus é dirigida a mim,  a você e a todos nós... E, ainda hoje, choramos pela perda de milhares de irmãos.

O Senhor precisa de nós para denunciar as injustiças cometidas no silêncio por tantas pessoas!

O Senhor promete restabelecimento e libertação a todos os oprimidos do mundo. Mas, ele precisa de nós para tornar eficaz a sua promessa; precisa dos nossos olhos para ver as necessidades dos irmãos e irmãs; precisa das nossas mãos para socorrer; precisa da nossa voz para denunciar as injustiças cometidas no silêncio, às vezes, cúmplice, por tantas pessoas.

o Senhor precisa do nosso coração para manifestar o amor misericordioso de Deus com os últimos, os excluídos, os abandonados, os marginalizados. “Quero misericórdia e não sacrifícios”, uma acusação da hipocrisia estéril dos que não querem sujar as mãos.

Trata-se de uma tentação, bem presente também em nossos dias, que se traduz em um fechamento em relação aos que têm direito, como nós, de segurança e de vida digna; uma tentação que leva a construir muros, concretos ou imaginários, ao invés de pontes. Diante dos desafios migratórios de hoje a única resposta sensata é a da solidariedade e da misericórdia.

Exige uma équa divisão de responsabilidades; exige uma avaliação, honesta e sincera, das alternativas e uma gestão transparente; exige uma política justa que se coloque a serviço das pessoas, que garanta soluções e segurança, respeito dos direitos e da dignidade de todos.

Para que ilumine a nossa mente e inflame os nossos corações, a fim de superarmos os medos e as inquietações, e nos transforme em instrumentos dóceis do amor misericordioso do Pai, prontos a dar a nossa vida aos irmãos e irmãs, como Jesus o fez.

04 julho, 2018

Síntese da primeira etapa da "Escola de Formação de Formadores e Articuladores para as CEBs


Primeira etapa da "Escola de Formação de Formadores e Articuladores para as CEBs"
Realizada no dia trinta de junho e primeiro de julho deste ano de 2018

Assessor o Teólogo Celso Pinto Carias, assessor das CEBs Nacional.

Projeto Pastoral Papa Francisco


Síntese da primeira etapa da "Escola de Formação de Formadores e Articuladores para as CEBs


Projeto Pastoral Papa Francisco

Com relação ao contexto atual, Carias afirmou: “O mundo mudou e está em crise, é fato, é um grande equívoco propor caminhos sem a verificação do chão em que se está pisando. Este erro tem sido frequente nas indicações dos caminhos pastorais. Costumo dizer que muitos têm dado respostas velhas para perguntas novas.”

A reação que configura a crise atual pode ser sintetizada em três atitudes básicas fundamentais: o fundamentalismo, a indiferença, e o diálogo. Carias colocou que é interessante lembrar que a fé cristã deu passos significativos de fidelidade ao Caminho de Jesus Cristo, ao longo da história, quando foi capaz de ir ao encontro dos desafios com uma postural dialogal.
Precisamos identificar a cidade a partir de um olhar contemplativo, isto é, um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças. A presença de Deus acompanha a busca sincera que indivíduos e grupos efetuam para encontrar apoio e sentido para a sua vida. (EG 71)

Com relação a Igreja, vimos que a ela custou assimilar a cultura moderna. Para Carias, “é porque se trata de um modelo cultural muito diferente daquele que se vivia até então. Sabemos bem que o caráter teocêntrico, isto é, Deus no centro de tudo como explicação da realidade de todas as coisas, foi sendo substituído pela capacidade humana de entender os acontecimentos sem que houvesse uma ação direta de Deus.

O Concílio Vaticano II (1962-65) foi a porta definitiva do diálogo na Igreja Católica, más não tem sido um diálogo fácil, um desafio superar quase dois mil anos de um modelo em pouco mais de cinquenta. Não há outra alternativa para a Igreja ser fiel a Jesus Cristo, é necessário ser sempre uma “Igreja em Saída” como diz o Papa Francisco.

A Paróquia - logo após o Concílio Vaticano começaram os questionamentos ao modelo paroquial tradicional. O Código Canônico privilegiou o caráter territorial. Mas recentemente a CNBB aprovou o Documento 100 (Comunidade de comunidades: uma nova paróquia, 2014), que por si só demonstra que a situação não é tão tranquila assim.
José Comblin, que foi um dos teólogos mais profundos na crítica a realidade da paróquia depois do Concílio, fez em 1989 um balanço, bastante provocativo, de como a realidade urbana influencia a paróquia. Nele podemos identificar algumas questões chaves que permanecem extremamente atuais: burocracia, competição clerical, não percepção de mobilidade urbana, diversificação na identidade dos indivíduos, fraqueza no caminho espiritual diante de ofertas consistentes no mundo moderno, pouca capacidade de lidar da com dimensão da liberdade tão inerente a nossa época, e por fim, entre outras questões o que ele chama de cativeiro paroquial, isto é, o enredamento da paróquia em si mesma. É o que Papa Francisco tem afirmado, repetidas vezes, com o conceito de autorreferencialidade. Carias acrescentou que se Comblin estivesse vivo talvez ele acrescentaria um outro: invencionismo litúrgico.

A Constituição dogmática sobre a Igreja do Concílio ecumênico Vaticano II, mais conhecida por Lumen Gentium, apresenta a Igreja como o novo Povo de Deus.
A carta do Papa Francisco enviada ao Cardeal Marc Ouellet, Presidente da Pontíficia Comissão para a América Latina, em 16 de março de 2016, é uma bela síntese de como  ele retoma a centralidade eclesiológica da Igreja como Povo de Deus, embora ele faça isso em vários outros textos, sobretudo na Evangelli Gaudium. Segue alguns pontos:
O pastor não se compreende sem um rebanho, que está chamado a servir. O pastor é pastor de um povo, e o povo deve ser servido a partir de dentro. (p.12)
Ninguém foi batizado sacerdote nem bispo. Batizaram-nos leigos e é o sinal indelével que jamais poderá ser cancelado. (p.12)
Confiemos no nosso Povo, na sua memória e no seu “olfato”, confiemos que o Espírito Santo aja em e com ele, e que este Espírito não é só “propriedade” da hierarquia eclesial. (p.14).
Não é o pastor que deve dizer ao leigo o que fazer e dizer, ele sabe tanto e melhor que nós. (p.15)
É óbvio e até impossível, pensar que como pastores deveríamos ter um monopólio das soluções para os múltiplos desafios que a vida contemporânea nos apresenta. (p.16)

Com Papa Francisco a imagem de uma Igreja como POLIEDRO. Sei que entre vós há pessoas de diversas religiões, profissões, ideais, culturas, países e continentes. Hoje estais a praticar aqui a cultura do encontro, tão diversa da xenofobia, da discriminação e da intolerância que vemos com muita frequência. Produz-se entre os excluídos este encontro de culturas no qual o todo não anula a particularidade, o todo não anula o particular. Por isso me agrada a imagem do poliedro, uma figura geométrica com muitos lados diversos. O poliedro reflete a confluência de todas as parcialidades que nele conservam a originalidade. Nada se dissolve, nada se destrói, nada se domina, tudo se integra, tudo se integra. Hoje estais a procurar a síntese entre o local e o global. Sei que estais comprometidos todos os dias em coisas próximas, concretas, no vosso território, no vosso bairro, no vosso lugar de trabalho: convido-vos também a continuar a procurar esta perspectiva mais ampla; que os vossos sonhos voem alto e abracem o todo! (28 de outubro de 2014, primeiro encontro com os movimentos populares).

Sobre a imagem do poliedro, Carias acrescentou, mas quais poderiam ser as consequências práticas desta imagem? De novo, aqui está a questão. Pode-se até aceitar a imagem, mas não agir conforme a imagem. As palavras chaves que o Papa Bergoglio usa frequentemente, misericórdia, diálogo e discernimento, são fundamentais para um agir pastoral poliédrico. Cada face tem sua riqueza própria. Parece, nos dias de hoje, que não aprendemos com os Padres da Igreja, como São Justino, com a sua teologia das sementes do Verbo. O Verbo de Deus se encontra em todo lugar, até mesmo onde imaginamos que ele não se encontra. Como é grande a tentação de nos colocarmos no lugar de Deus no trabalho pastoral.
(“Padres da Igreja” é uma expressão que denota grandes pensadores cristãos, e ao mesmo tempo sensíveis pastoralistas, que foram responsáveis pela base dogmática e doutrinária dos primeiros seis séculos de existência do cristianismo, como Santo Inácio de Antioquia, São Justino, São João Crisóstomo, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, entre outros. )

A organização fundamental das paróquias, compreendida na Sinodalidade, Administração, Planejamento Pastoral e Acolhimento.

Sinodalidade - a palavra sínodo é de origem grega e etimologicamente significa fazer juntos, caminhar juntos. Na Igreja Católica existe uma longa tradição sinodal que foi retomada pelo Concílio Vaticano II.
Pode-se opor, equivocamente, à dimensão sinodal da Igreja a sua estrutura hierárquica. Fala-se de caráter consultivo, recorrendo ao Código Canônico, mudando a intenção fundamental do Concílio, pois consultivo não é igual a informativo. O caráter consultivo supõe abertura ao diálogo, disposição para mudança de opinião, discernimento a fim de encontrar o melhor caminho.
Levando em consideração a realidade histórica, o espírito do Vaticano II, e em conformidade com o que o Papa Francisco tem orientado, o caminho para a Igreja é se organizar de forma SINODAL, nas dioceses, paróquias e comunidades.
A sinodalidade deve estar refletida também na própria estrutura territorial das paróquias. Como a norma canônica ainda amarra a paróquia a um determinado território é necessária uma criatividade pastoral para não deixar que a lei abafe o espírito. Neste sentido, o documento 100 da CNBB tenta superar os limites. Mas ainda há espaço, sem um confronto direto com a lei, para buscar saídas mais participativas. Para funcionar como comunidade de comunidades a figura da MATRIZ precisar sair de cena.
Todas as igrejas de um determinado território precisam estar articuladas em uma rede de comunidades. Se houver apenas uma igreja, esta deve procurar setorizar  para atender a relações humanas mais próximas. E se a paróquia é muito grande, pode-se setorizar a própria paróquia como o documento 100 prevê. É preciso crescer na compreensão que a paróquia não é uma sede e sim um espaço de atuação pastoral. Não cabe alguém de uma comunidade afirmar: “vou lá na paróquia”. A paróquia é a rede de comunidades. Bem como a diocese não é uma sede. Alguém de uma paróquia não deveria dizer: “vou lá na diocese”, pois ele está na diocese.

Administração - cremos não ser tão complicado realizar uma boa administração se há uma estrutura participativa e transparente. Se existe um compartilhamento das necessidades no espírito que encontramos nos Atos dos Apóstolos: os cristãos tinham tudo em comum. É extremamente contraditório, por mais que cada diocese tenha autonomia, que não exista uma maneira de repartir os bens de forma mais paritária. Dioceses ricas do lado de dioceses pobres, paróquias ricas do lado de paróquias pobres. Isto não é evangélico.

Planejamento pastoral - As indicações anteriores não podem ser colocadas em praticada sem planejamento, mas nem sempre realizado. Existe um público cativo, e em um cenário de milhões de habitantes, onde apesar das baixas, o catolicismo ainda é maioria. E evidentemente muitas igrejas estão cheias. Mas não é assim que funciona. Muitas vezes, se tem um comportamento no qual se acredita que a população católica disposta a frequentar as paróquias irá, nos dias de hoje, facilmente atender a uma programação estabelecida rotineiramente todos os anos. Com os católicos eventuais ainda é mais difícil, e com os não católicos nem se fala.
E “As tentações dos agentes pastorais” (EG 76-109) é grande. O Papa Francisco usa imagens fortes: acedia egoísta, roubar a esperança, psicologia do túmulo, múmias de museu, pessimismo estéril, roubar a comunidade, mundanismo espiritual, neopelagianismo autorreferencial, roubar o Evangelho, caça às bruxas, e muitas outras. Não é demais citar inteiramente o número 96:
Neste contexto, alimenta-se a vanglória de quanto se contentam com ter algum poder e preferem ser generais de exércitos derrotados antes que simples soldados de um batalhão que continua a lutar. Quantas vezes sonhamos planos apostólicos expansionistas, meticulosos e bem traçados, típicos de generais derrotados! Assim, negamos nossa história de Igreja, que é gloriosa por ser história de sacrifícios, de esperança, de luta diária, de vida gasta no serviço, de constância no trabalho fadigoso, porque todo trabalho é “suor do nosso rosto”. Em vez disso, entretemo-nos vaidosos a falar sobre “o que se deveria fazer” – o pecado do “deveriaqueismo” – como mestres espirituais e peritos de pastoral que dão instruções ficando de fora. Cultivamos nossa imaginação sem limites e perdemos o contato com a dolorosa realidade do nosso povo fiel.

Acolhimento - Diz o Papa Francisco na EG 127: Ser discípulo significa ter a disposição permanente de levar aos outros o amor de Jesus; e isso sucede espontaneamente em qualquer lugar: na rua, na praça, no trabalho, num caminho.
A forma como as lideranças e os presbíteros tratam as pessoas pode alterar profundamente a recepção de algum valor positivo. Sim, somos humanos, podemos não ser capazes de estar sempre atentas/os aos mecanismos psíquicos que norteiam a nossa vida, mas podemos sim, pedir perdão, reconhecer que erramos, e abraçar as irmãs e os irmãos. Que coisa tremendamente humana, e por isso, tremendamente divina, as atitudes do Papa Francisco no que diz respeito ao reconhecimento dos limites humano, como pedir perdão às vítimas dos casos de abuso no Chile. Isto não o diminui, ao contrário, só faz com o admirem cada vez mais.

A primeira etapa da "Escola de Formação de Formadores e Articuladores para as CEBs", foi realizada no dia trinta de junho e primeiro de julho deste ano de 2018, em outubro teremos a segunda etapa e as demais no ano de 2019. O assessor o Teólogo Celso Pinto Carias, assessor das CEBs Nacional.

A "Escola de Formação de Formadores e Articuladores para as CEBs" foi projeto apresentado pelas CEBs e aprovado em Assembleia arquidiocesana dentro da prioridade “missão” do 24° Plano de Ação Evangelizadora (2017-2021) da Arquidiocese de Maringá.

No 7° Intereclesial das CEBs do Paraná, realizado em abril de 2016, a Província Eclesiástica de Maringá, quando no momento por província, sentiu também essa necessidade, a Arquidiocese de Maringá, abriu a escola á província, que é composta além da Arquidiocese de Maringá pelas dioceses de Campo Mourão, Paranavaí e Umuarama.

Lucimar Moreira Bueno (Lúcia)
Assessora Leiga das CEBs na Arquidiocese de Maringá

03 julho, 2018

01 julho, 2018

Escola de Formação de Formadores e Articuladores para as CEBs

Sonhamos...
Acreditamos...
E aconteceu.

Sendo nós, "Pe. Genivaldo Ubinge" e "Eu" assessores das CEBs na Arquidiocese de Maringá por muitas vezes conversamos, percebemos os desafios, não deixamos de sonhar e acreditar e aconteceu.

Nesse final de semana, trinta de junho e primeiro de julho deste ano de 2018, realizamos a primeira etapa da "Escola de Formação de Formadores e Articuladores para as CEBs".

Assessor o amado e querido Teólogo e Assessor das CEBs Nacional, Celso Pinto Carias.

A "Escola de Formação de Formadores e Articuladores para as CEBs" foi projeto apresentado pelas CEBs e aprovado em Assembleia arquidiocesana dentro da prioridade “missão” do 24° Plano de Ação Evangelizadora (2017-2021) da Arquidiocese de Maringá.

No 7° Intereclesial das CEBs do Paraná, realizado em abril de 2016, a Província Eclesiástica de Maringá, quando no momento por província, sentiu também essa necessidade, a Arquidiocese de Maringá, abriu a escola á província, que é composta além da Arquidiocese de Maringá pelas dioceses de Campo Mourão, Paranavaí e Umuarama.