Tá liberado acreditar!
Olá, Flávio acredita que será salvo pela Copa, enquanto Lula acredita que ganhará o tetra.
.Faz o L outra vez. Nem mesmo a decisão do ministro Nunes Marques de proibir a divulgação de uma pesquisa eleitoral supostamente enviesada foi capaz de esconder o óbvio: Flávio Bolsonaro segue em queda enquanto Lula amplia a vantagem, como demonstrou a última rodada da Quaest. Apesar da cristalização da polarização, o que explica a resiliência do candidato do PL, Lula tem conseguido conquistar os eleitores independentes. Três fatores explicariam o movimento: o envolvimento de Flávio no caso Master, o rechaço do eleitorado brasileiro à interferência de Trump em assuntos de segurança pública e o novo tarifaço. Trocando em miúdos, o melhor cabo eleitoral de Lula tem sido o próprio Trump. Não passa batido também a melhora na avaliação do governo. Os setores mais favoráveis à gestão petista são as mulheres, os católicos, a população de baixa escolaridade, de renda inferior a dois salários mínimos, e da região nordeste. Já os mais críticos são homens, moradores da região sul, com ensino superior, evangélicos e com renda acima de cinco salários mínimos. É visando reduzir os danos nestes territórios do bolsonarismo que a campanha de Lula tem se esforçado para dialogar com a base evangélica, conseguindo inclusive reduzir a rejeição deste público ao presidente. Melhorar a coordenação da campanha nas redes sociais também é visto como prioridade, centrando fogo no desgaste de Flávio, como foi feito no caso Dark House e na relação com Trump. Porém, apesar da melhora na percepção geral, a economia continua sendo o ponto fraco: 44% dos eleitores considera que a situação piorou nos últimos 12 meses e apenas 20% acham que melhorou. A nova versão do Desenrola até ajudou mas não resolveu o problema do endividamento, e as pressões do mercado pela elevação dos juros, num cenário de restrições externas, podem comprometer os ganhos obtidos até agora. Isso sem contar notícias ruins em diferentes áreas, como o veto da União Europeia à carne brasileira e a suspensão temporária da vacina contra a dengue devido a efeitos colaterais não previstos, o que reforça a sensação de insegurança e podem ser usadas pela extrema-direita para desgastar o governo e alimentar o negacionismo.
.Prioridades. Depois de garantir a aprovação da PEC do fim da escala 6x1 na Câmara, o plano de Hugo Motta é acelerar a tramitação do Projeto de Lei do Executivo que trata do mesmo tema, mantendo o mesmo relator, e passar a bola para o Senado. O problema é que, desde que quebrou os pratos com o Planalto por Lula não ter aceitado um acordo - com STF, com tudo - para conter o escândalo do Master, Davi Alcolumbre tem feito de tudo para emperrar as pautas de interesse do governo. Sob a pressão das eleições, senadores de direita começaram a desembarcar da projeto de Rogério Marinho (PL-RN) que pretende rivalizar com a proposta governista e que propõe a flexibilização da jornada de trabalho, pagamento por hora e acordos individuais entre patrões e empregados. Mas o recuou não significa que o fim da 6x1 vai avançar mais rápido no Senado. O problema é que Alcolumbre está fazendo corpo mole para atrasar o andamento dos trabalhos, adiando o encontro de líderes e a reunião com o presidente da CCJ. A Copa chegou, a PEC segue parada no Senado e o PL de autoria do governo pode ter o mesmo destino. A resistência de Alcolumbre contribui para que outros setores coloquem um pé no freio. O ministro do TCU, Augusto Nardes, repete a ladainha de que a redução da jornada irá prejudicar a Previdência e ampliar a informalidade. Mas todo mundo sabe que as resistências têm outro motivo: a pauta favorece os trabalhadores e não os empresários. Casualmente, o recado foi dado pelo próprio Alcolumbre quando afirmou que não poderia colocar em pauta a aprovação de pisos salariais para diferentes categorias de trabalhadores em ano eleitoral para não pressionar os cofres públicos. Em contrapartida, o agronegócio não teve dificuldades em aprovar a toque de caixa no Senado o refinanciamento de suas dívidas, que custará R$140 bilhões. E, enquanto os brasileiros se vestiam de verde e amarelo e pegavam a vuvuzela, a CCJ aprovava a autonomia financeira e orçamentária do Banco Central e a proposta de redução da maioridade penal.
.Retranqueiro. Ninguém torcerá mais na Copa do que Flávio Bolsonaro. Com a bola rolando, Bolsonarinho ganhou 50 dias para que um bom desempenho da seleção brasileira jogue para baixo do tapete o caso Dark Horse e o tiro pela culatra da visita a Trump. Quando a Copa terminar, a campanha eleitoral começa de verdade. Até lá, se tiver sorte, Flávio vai desaparecer e torce para que os problemas façam o mesmo. Felizmente, isso não depende apenas da seleção ou do próprio Flávio. Primeiro, a nova delação de Daniel Vorcaro incluiu as negociações sobre as relações entre os Bolsonaros e os banqueiros. E mesmo assim não despertou confiança da Polícia Federal. Entre outras coisas, porque Vorcaro continua não confessando o que a PF já sabe, enquanto novas reportagens da Intercept demonstram que as relações eram mais profundas do que os dois reconhecem, com direito a planilha de pagamento e cronograma. Assim, ou Vorcaro abre mais a caixa preta ou as revelações podem passar por cima do banqueiro e de Flávio do mesmo jeito. Segundo, os Bolsonaros impuseram o candidato mas não conseguiram ainda unificar a direita. Ciro Nogueira, outro envolvido até o pescoço com o Master, continua magoado com a falta de solidariedade e não se sabe se ele vai manter a aliança do PP com o PL. A falta de carisma de Flávio também ajuda e os sinais estão no comportamento dos aliados nas redes sociais, como Tarcísio de Freitas, que evitou aparecer muito com o filho do chefe na Marcha de Jesus. Outra prova é a falta de um palanque robusto no Rio e em Minas, colégios eleitorais determinantes. Bolsonaros representam a política de Trump no Brasil, seja no modelo de segurança pública da extrema-direita, seja na economia. E é óbvio também que Trump não deixará de interferir nas eleições brasileiras, como já fez na Argentina e, mais recentemente, na Colômbia. Quem acha que basta a “química” entre Lula e Trump para sair dessa está subestimando os interesses e o alcance dos EUA. Por outro lado, além da pecha de traidor da pátria, sempre alimentada pelo irmão Eduardo, a estratégia de colar em Trump tem outros riscos, incluindo a associação com um presidente que tem promovido um fiasco atrás do outro na Copa do Mundo.
.Ponto Final: nossas recomendações.
.Um continente sequestrado do futuro: a América Latina entre o caos neoliberal e o declínio dos Estados Unidos. No Terapia Política, Márcio Pochmann analisa os impasses da atual conjuntura latino-americana.
.O que muda em Cuba após as propostas de reforma do Estado? A professora Amanda Álvarez Martínez (Universidade de Havana) analisa os impactos das novas leis de trabalho, habitação e terras. No Brasil de Fato.
.Para entender a indústria do Holocausto. No Outras Palavras, a visita ao Brasil de Norman Finkelstein, o autor judeu que denuncia a “indústria do holocausto”.
.A conta do vento. O Le Monde explica porque o centrão abraçou a energia eólica enquanto o governo passou a defender as termelétricas.
.Por que professores estão adoecendo em São Paulo? Pressão, violência e sobrecarga no cotidiano escolar. Na Agência Pública.
.CEU Cidade Dutra monta álbum da Copa coletivo para a comunidade. O álbum de figurinhas coletivo da Copa de uma escola pública da periferia de São Paulo. Na Agência Mural.
.O que foi a Batalha de Vertières, símbolo da camisa do Haiti censurada pela FIFA. Entenda o impacto do símbolo que retrata a vitória da revolução haitiana sobre a França. No Alma Preta.
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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.





