04 setembro, 2026

Chutando o tabuleiro

Olá, quando um pombo decide jogar xadrez, ninguém controla o movimento das peças.

.O kamikaze de toga. Todo mundo só fala da bomba que o ministro André Mendonça explodiu dentro dos aposentos do STF. A dificuldade é calcular todos os seus efeitos políticos. Isso dependerá da combinação de fatores difíceis de controlar, que passam pelo conteúdo e forma como a investigação foi conduzida, as reações do STF, do governo e do Congresso, e o uso eleitoral das mesmas. É evidente que André Mendonça cometeu uma ilegalidade ao mandar investigar um membro do próprio Supremo sem autorização do plenário e retirar o sigilo das mensagens, ameaçando a validade jurídica dos conteúdos revelados. E, como o próprio Mendonça aparece nos diálogos, como observa o jurista Pedro Serrano, ele deveria ser afastado do caso. Depois do Procurador-Geral Paulo Gonet solicitar a anulação da investigação, foi a vez de Alexandre de Moraes retrucar seu colega de Corte e pedir uma investigação contra Mendonça por abuso de autoridade, numa luta intestina que não tem prazo para acabar. Mas, mesmo que as evidências sejam invalidadas no plano jurídico, observa Thiago Domenici, é impossível “desler” o conteúdo das mensagens já divulgadas e as relações profundamente clientelistas e antirrepublicanas que elas revelam. Além disso, a rede de Vorcaro envolveu tantos membros do Supremo e da alta política que é difícil acreditar que o final dessa história não venha a ser um grande acordo nacional, com STF com tudo. Afinal, pelo menos 4 dos atuais 10 ministros da Corte - Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Nunes Marques e André Mendonça - tiveram algum tipo de relação com o banqueiro. E no mundo da política, multiplicam-se as personalidades que tiveram interlocução com Vorcaro e sob as quais pairam suspeitas de trocas de favores. Não à toa, Alcolumbre deu o recado para a base bolsonarista ao lembrar que Flávio Bolsonaro está tão enrolado com Vorcaro quanto Alexandre de Moraes. Mas, por enquanto, a palavra “acordo” virou acusação contra os adversários, pois todos tentam se preservar ou tirar alguma casquinha política desse escândalo até que ele esfrie. No final da história, ou haverá algum tipo de punição seletiva, ou não haverá punição. Seja como for, ninguém sabe o tamanho do descrédito das instituições que restarão de pé depois da explosão.

.E o Flávio, hein? O terremoto causado por André Mendonça era tudo o que Flávio Bolsonaro precisava para dar um novo rumo às eleições e criar um fato político que sua própria campanha não era capaz de fazer sozinha. Para começar, as revelações contra Alexandre de Moraes foram providenciais para desviar o foco de outro escândalo: a descoberta de um repasse de R$1,6 bilhões feito por Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, totalizando até agora R$ 12,3 milhões oriundo do banqueiro com destino à família Bolsonaro. Uma delação fechada recentemente entre a PGR e Carlos Freixo Júnior, proprietário da empresa utilizada por Vorcaro para doar os valores ao filme, pode lançar luz à questão. Ademais, em sua própria proposta de delação premiada, Daniel Vorcaro teria confessado que os R$5 milhões doados para as campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022 eram, na verdade, um pagamento de propina combinado entre o banqueiro e Gilberto Kassab. Mas, enquanto esses fatos não ganham a opinião pública, Flávio vai aproveitar a ajudinha de Mendonça para requentar os atos bolsonaristas de 7 de setembro, já que a frio o candidato do PL não tem juntado meia dúzia de gatos pingados. Além disso, mesmo que Flávio não vença as eleições, Mendonça deu um belo impulso para a campanha da extrema-direita contra o STF, seja como mote para futuros senadores e deputados bolsonaristas, seja estrategicamente, como faz Trump, para eliminar instituições que sejam contrapesos do sistema. Mas não é só Mendonça quem ajuda a campanha da direita. No TSE, a barbeiragem de Dias Toffoli ao cancelar a campanha de Renan Santos por uso de perfis não informados e depois voltar atrás de sua própria decisão só ajudou a gerar mais um pedido de impeachment contra um ministro do Supremo e a aumentar a desconfiança quanto à isenção das instituições de controle. Apesar disso, contrastando com a direita raivosa, o discurso de paz, amor, inteligência artificial e empreendedorismo de Augusto Cury é quem mais cresce, com o candidato chegando isolado ao terceiro lugar em intenções de votos. Mas engana-se quem acredita que Augusto Cury seja uma terceira via que conquistou o eleitorado de centro, já que a maioria de seus eleitores são justamente aqueles que votariam em Flávio Bolsonaro num eventual segundo turno contra Lula.

.A alta do dólar. Mesmo que Lula não tenha qualquer envolvimento direto com Vorcaro, o saldo político para o governo e a campanha petista é negativo. Primeiro, porque, assim como não é possível “desler” as mensagens, não é possível defender Moraes no episódio. O Planalto sabe que o ministro foi fundamental nos julgamentos do 8 de janeiro e sua desmoralização e possível queda impulsionariam o questionamento da condenação aos golpistas. Por mais que a linha pública seja a de deixar o trabalho para a PGR e o STF, defender as investigações e preservar as instituições, Lula também tem recebido cobranças nos bastidores, por exemplo de Gilmar Mendes, para não abandonar Moraes aos leões. Segundo, um escândalo dessa proporção tanto tirou o tema “lulinha” da pauta, como ofuscou as entregas do governo, que eram o foco da campanha, além de ter dado um argumento para a oposição obstruir a votação do fim da escala 6x1, a grande aposta de Lula para este período. Mais grave, é evidente que Mendonça não pretende apenas atingir Moraes e mira também no governo, levando para outro nível as tensões que já tinha com a Polícia Federal, usando Vorcaro para bater também no Diretor Andrei Rodrigues. E como se tudo isso não fosse suficiente, o maior cabo eleitoral de Jorge Messias para o STF era o próprio André Mendonça. E uma nova indicação do Advogado Geral da União não só pode soar como provocação ao outro grupo do STF, como também o comportamento de Messias no episódio tem sido alvo de críticas. Por fim, o caso interrompe o movimento que a campanha fazia em direção ao seu mais tradicional oponente, o sistema financeiro. O único interesse da turma da Faria Lima é que o Estado gaste menos, atinja os superávits primários e com isso sobre mais dinheiro para o pagando juros extorsivos da Selic via títulos públicos. Quanto menos eficiente e mais endividado o país, mais feliz. Por isso, a alegria do sistema financeiro com Gabriel Galípolo, na mesma proporção da decepção de Lula com o seu indicado. Lula tentou contornar a relação sempre difícil com o mercado financeiro jantando com 16 altos nomes do PIB, entre eles os donos do BTG, da JBS e da Gerdau, tendo como carta de apresentação o orçamento de 2027 que se compromete com o superávit às custas de cortes na educação e na saúde. Porém, nada como um escândalo na política para a turma da Faria Lima aumentar o preço e colocar a faca no pescoço, surfando com uma alta da bolsa e com outro tradicional mecanismo de ataque ao petista, a alta do dólar. Neste cenário, a resposta de Lula vai ser insistir na votação da 6x1, com sessões extraordinárias, e pôr o pé na estrada, intensificando a campanha.


.Ponto Final: nossas recomendações.

.Vietnã completa 81 anos: o que o país socialista conquistou após triunfar na resistência contra os EUA. O Brasil de Fato relembra os feitos da pátria socialista de Ho Chi Minh.

.O escândalo que pode destruir a extrema direita latino-americana. Quem é Fernando Cerimedo, preso na Bolívia, e o que sua atuação pode revelar sobre as conexões da extrema direita no continente. Na Jacobina.

.Direita global transforma modernismo em alvo político. No Brasil e no exterior, movimentos conservadores rechaçam a arquitetura moderna e idealizam a beleza clássica. No DW.

.Os fios expostos do sistema elétrico brasileiro. Roberto Pereira D’Araújo analisa os efeitos da privatização da energia em todo o país. No Outras Palavras.

.Augusto Cury e a fabricação da sensação de maioria. Na Carta Capital, Marcelo Senise analisa o que está por trás do crescimento meteórico do candidato do Avante nas redes.

.A geração que o Missão quer recrutar. O Projeto Brief foi ao 1º Congresso do partido criado pelo MBL e descreve o que encontrou lá.

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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

02 setembro, 2026

Gaudium et Spes: uma Igreja próxima da vida do povo

Depois de aprofundar a Sacrosanctum Concilium, o Papa Leão XIV volta sua atenção para a Gaudium et Spes, um dos documentos fundamentais do Concílio Vaticano II. A Constituição Pastoral apresenta a missão da Igreja diante das realidades e dos desafios do mundo contemporâneo.


Com esse ciclo de catequeses, o Papa nos conduz novamente a uma das grandes intuições do Concílio Vaticano II: a Igreja é chamada a estar próxima da vida concreta das pessoas e das realidades do mundo.

A Gaudium et Spes convida a Igreja a olhar para as alegrias, esperanças, sofrimentos e desafios da humanidade, reconhecendo que nada do que diz respeito à vida das pessoas lhe é indiferente. Por isso, evangelizar também significa escutar, dialogar, discernir a realidade e buscar, à luz do Evangelho, caminhos de justiça, paz, fraternidade e cuidado com a vida.

Essa perspectiva dialoga profundamente com a experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Na comunidade, a fé nasce e se fortalece no encontro com a vida do povo: suas lutas, seus sonhos, suas necessidades e suas esperanças. É uma Igreja que não apenas fala ao povo, mas caminha com ele, escuta sua realidade e se compromete com a transformação do mundo.

Retomar a Gaudium et Spes é, portanto, renovar o chamado para sermos uma Igreja presente nas realidades do nosso tempo, capaz de reconhecer nelas os sinais de Deus e de responder, com o Evangelho, às grandes perguntas e desafios que a vida nos apresenta.

Clique aqui, e leia a íntegra Catequese. Os Documentos do Concílio Vaticano II IV. Constituição pastoral Gaudium et spes.

21 agosto, 2026

Um grande passado pela frente


Olá, em mais uma eleição polarizada, a bola de cristal da esquerda e da direita continua sendo o espelho retrovisor.

.Naftalina. Se depender dos lançamentos oficiais das candidaturas presidenciais, ninguém deve esperar grandes novidades na terceira eleição disputada entre petistas e bolsonaristas. Ao invés de propostas para o futuro, tanto Lula quanto Flávio apostam no passado. De volta ao berço do PT e de sua própria trajetória, Lula conseguiu emular o famoso comício da Vila Euclides, relembrou sua história política e marcos de seus governos, apostando na nostalgia como valor, como se viu também no seu primeiro vídeo de campanha. A estratégia parte da ideia de que a juventude não conheceu ou não reconhece as políticas dos governos petistas como conquistas, mas também aposta num setor do eleitorado que nunca foi tão numeroso, os 60 +, onde Lula tem superado os adversários. Tanto que eles foram citados no discurso, assim como as mulheres - outro fiel da balança - e devem ganhar destaque nos programas de governo. Por sua parte, Flávio repete o passado para tentar convencer o eleitor de que ele é o pai. Os bolsonaristas partiram do seu berço eleitoral, Copacabana, e Flávio pretendia ir no dia seguinte para Juiz de Fora, palco da facada de 2018. O discurso de lançamento repetiu o mote Deus, Pátria e Família, e o discurso antipetista, que no fim das contas é o que dá liga à extrema-direita. Além disso, não se pode esperar novidades nos programas de governo. Lula deixou de fora a possibilidade de Tarifa Zero e reforçou políticas que não conseguiu implementar neste mandato, como a criação do Ministério da Segurança Pública. Já Flávio, repetiu as promessas do bolsonarismo de limitar a ação do STF e requentou os símbolos de Milei, como a motosserra, para propor um Estado mínimo. Mas os contrastes dos programas não estão só nas propostas. A palavra “educação” é citada 42 vezes no programa de Lula e apenas 9 no de Bolsonaro. A palavra mais repetida no programa petista é “cultura”, 86 vezes, e no programa bolsonarista são “facções criminosas” e “segurança”, 9 vezes, seguida por “agronegócio”, com 7 menções. Porém, talvez não sejam só os candidatos que estão presos ao passado, mas também os eleitores. A pesquisa Quaest continua demonstrando a polarização do eleitorado: Lula vence no nordeste, entre as mulheres, católicos, pretos e pardos e até 2 salários mínimos; Flávio vence no sul e sudeste, brancos, evangélicos e acima de 2 salários. Para Alon Feuerwerker, a polarização é ainda mais simples: é basicamente entre quem acha que o Estado deve aumentar impostos sobre os ricos para garantir o bem-estar social da maioria e quem acha que o Estado não funciona e não deve se meter na economia e na sociedade.

.Heranças malditas. O tom consevador das eleições também é reflexo do perfil dos candidatos: será a eleição menos concorrida desde 2010, com candidatos em média mais velhos e mais ricos que nas anteriores, enquanto o PT sai enfraquecido, com o menor número de candidaturas desde as eleições de 1994. O sentimento de volta ao passado é fruto, ainda, das dificuldades de superar velhos problemas. Por mais que Lula sonhe em elevar o debate, o tiroteio em torno da corrupção deve prevalecer tanto porque a direita achou o escândalo de Lulinha para explorar - turbinado pela mídia - quanto porque o envolvimento de Flávio com Vorcaro não pode ser ignorado. Outro problema antigo é a questão ambiental. Há 20 anos, a descoberta do pré-sal embalou o sonho de um Brasil próspero, autônomo e ambientalmente sustentável regado a royalties de petróleo. Agora, a descoberta de reservas na margem equatorial deve ser explorada pela campanha petista como um novo “passaporte para o futuro”, com poucas preocupações sérias com o meio ambiente. Mas, a verdade é que o fim da “taxa das blusinhas” hoje dá mais votos que a preservação de florestas e rios. O principal avanço em relação ao passado nessas eleições parece ser mesmo a retomada do discurso da soberania, mas, nesse caso, a pauta não tem a ver com o petróleo e sim com a agressividade de Washington na área comercial. Por isso, Lula - o presidente e o candidato - seguirá buscando o diálogo como solução, mas também denunciando nos fóruns internacionais a conduta imperialista de Trump e a tentativa de ingerência nas eleições brasileiras. Mas a pior contradição da esquerda está dentro de casa e é a relação de amor e ódio com o centrão. O silêncio da campanha petista sobre o clientelismo e o fisiologismo regado a emendas parlamentares se explica pelo pragmatismo da própria eleição, já que todos dependem dos “currais” eleitorais controlados pelos caciques do centrão. Além disso, o Planalto conta com a boa vontade dos presidentes da Câmara e do Senado para manter acesa a esperança de fazer andar o fim da jornada 6X1.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.A reprimarização do Brasil e a possível virada. Marcio Pochmann reflete sobre as quatro décadas de financeirização e as oportunidades da conjuntura atual. No Outras Palavras.

.Mineradoras estrangeiras detêm 4 a cada 10 projetos de terras raras no país. O Repórter Brasil mapeia os investimentos em terras raras no Brasil.

.Super-ricos do Brasil pagaram só 4,6% de Imposto de Renda em 2023, contra 27,5% da classe média. Relatório da Oxfam mostra a realidade regressiva do sistema tributário brasileiro. No Brasil de Fato.

.A promessa de ‘legado da COP30’ em Belém começa com um data center sem licença ambiental. O BEL1 avança sem respostas sobre licenciamento, consumo de energia e impacto ambiental e social. No Intercept.

.Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil. A Pública mapeia quem são e o que propõem os candidatos policiais e militares.

.A poesia encarnada de Pedro Casaldáliga. Maria Salete Magnoni analisa a poesia do bispo que enfrentou a ditadura e os ruralistas do Araguaia. No Outras Palavras.

.O que significa ser socialista nos EUA hoje? Na Pública, James Green analisa o avanço e os limites do socialismo democrático no centro do imperialismo global.

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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

Mensagem para o XI Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação

Na mensagem para o XI Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, celebrado em 1º/09, Leão XIV alerta para as feridas provocadas pelas guerras e pela degradação ambiental e recorda que a construção da paz exige uma conversão pessoal e coletiva. “As verdadeiras ferramentas para construir a paz não são as armas de destruição, mas sim a verdade, o diálogo, a paciência, a bondade, a justiça, a misericórdia, a compreensão, o cuidado e o amor.”




MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIV

PARA O XI DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO
PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO 2026

1º de setembro de 2026

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“Transformarão as suas espadas em relhas de arados e as suas lanças em foices” (Isaías 2, 4)


Queridos irmãos e irmãs,

Nosso Senhor Jesus Cristo veio para que tenhamos vida e a tenhamos em abundância (cf. Jo 10, 10). Este dom da vida está no cerne da nossa missão como discípulos e do chamamento comum para construir uma civilização do amor. Ao celebrarmos este Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, somos mais uma vez convidados a contemplar o dom da vida e a valorizar a terra que a sustenta, pois estas são formas concretas de louvar o nosso Criador.

Hoje, testemunhamos muitas crises e muito sofrimento humano. Parece, ao mesmo tempo, que a perturbação do equilíbrio harmonioso da criação está a acelerar. Estes fenómenos não deixam de estar relacionados: constituem um único apelo à cura e à paz, proveniente dum mundo ferido.

O Deus da vida, revelado em Jesus Cristo, oferece uma paz que o mundo não pode dar: «Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz» (Jo 14, 27). Esta paz não é superficial nem efémera, mas brota do amor perene de Cristo e do seu cuidado por cada pessoa humana.

No entanto, esta promessa de paz contrasta fortemente com as realidades que observamos em muitas partes do mundo. O profeta Isaías falou de um tempo em que as nações «transformarão as suas espadas em relhas de arados» (Is 2, 4), mudando aquilo que destrói a vida naquilo que a sustenta. Hoje, porém, testemunhamos com demasiada frequência exatamente o contrário, já que os esforços continuam a ser direcionados para a violência e a guerra.

A guerra deixa feridas que vão muito além do campo de batalha. Ela ceifa vidas, separa famílias e obriga milhões de pessoas a fugir para longe dos seus lares, aumentando assim o medo, a injustiça e a divisão (cf. Gaudium et Spes, 77-82). A guerra deixa também para trás uma destruição social e ecológica que perdura por gerações. Além disso, a interação entre os conflitos armados e a degradação ambiental cria frequentemente um ciclo vicioso, que destrói ecossistemas, contamina recursos essenciais, como o ar e a água, e compromete a segurança alimentar. Isto faz crescer a pobreza, a desigualdade e novas tensões sociais que podem contribuir para o surgimento de mais conflitos.

Mais ainda, a guerra cria feridas que danificam todo o tecido da vida, prejudicando não só as pessoas e as comunidades, mas também a sua rede mais ampla de relações com a inteira família humana e a sua harmonia com a criação. Isso revela uma incapacidade ainda maior de viver à imagem e semelhança de Deus, de respeitar a vida e de cuidar da terra que nos foi confiada. Não se trata apenas dum fracasso político, mas também moral e espiritual. Enraizada em desejos distorcidos e no uso indevido da liberdade e do poder humanos, a guerra apresenta-se como um contratestemunho do Evangelho da paz.

As crises mencionadas acima exigem não só responsabilidade, mas também uma conversão do coração que dê fruto numa maior fidelidade a Deus, no amor mútuo e no respeito pelo dom da criação. Realmente, as discórdias que vemos no mundo, como a violência, a injustiça e a degradação ecológica, não são simplesmente o resultado de sistemas ou estruturas insuficientes, mas estão ligadas «com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem» (Gaudium et Spes, 10). Na verdade, o coração humano é o lugar onde acontecem as lutas fundamentais e onde a nossa condição decaída se revela. Não é meramente a sede das emoções, mas o centro da pessoa: o lugar onde convergem razão, desejo, vontade e consciência. É aqui que lutamos com desejos contraditórios que existem dentro de nós entre amor e indiferença, verdade e ilusão, justiça e injustiça (cf. Tg 1, 14–15). As feridas da guerra e a degradação da terra estão, portanto, intimamente ligadas à condição do coração humano. Os conflitos que atormentam a humanidade são, em muitos aspectos, a expressão exterior da discórdia e da divisão interiores. Quando o coração está deformado, as relações sofrem e as estruturas que construímos começam a refletir essa desordem.

O Papa Bento XVI recordou-nos que «os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque os desertos interiores tornaram-se tão amplos» (Homilia na Santa Missa para o início do ministério petrino do Bispo de Roma, 24 de abril de 2005). Isto convida-nos a reconhecer que, de certa forma, o que está quebrado à nossa volta também está quebrado dentro de nós. Portanto, para construir uma sociedade pacífica não devemos apenas reformar as estruturas, mas também renovar os nossos corações. As causas profundas dos conflitos e da exploração da criação têm origem numa crise ética e cultural, que inclui a perda do sentido dos limites, a vontade de domínio, a busca do lucro imediato e a incapacidade de reconhecer a dignidade, concedida por Deus a cada pessoa humana.

O apelo profético a «transformar as espadas em relhas de arados» (Is 2, 4) não é simplesmente um ideal para as nações, mas um chamamento individual, que nos convida a transformar o mal em vida. Esta transformação, todavia, não pode ser alcançada por meio de mudanças apenas exteriores. Ela exige, em colaboração com a graça de Deus, uma conversão pessoal e coletiva mais radical: um regresso a Deus, que reordenará os nossos desejos, curará as nossas feridas e nos ajudará a crescer na virtude.

Sem esta transformação interior, a paz continuará a ser frágil e de curta duração. Mas, onde os corações se renovam, começam a abrir-se novas possibilidades. O que tem sido utilizado para a destruição pode ser redirecionado para a vida, para o cuidado dos pobres, para a alimentação dos famintos e para a salvaguarda da criação. Este é o caminho da autêntica conversão ecológica, onde os efeitos do nosso encontro com Jesus Cristo se tornam evidentes na nossa relação com o mundo que nos rodeia (cf. Francisco, Laudato Si’, 217). A paz, então, começa no coração e flui para as nossas relações, comunidades e para o mundo inteiro.

Embora os desafios que temos pela frente sejam enormes, Deus não nos deixa sem os meios para a cura e a transformação. Em vez das armas de guerra, o Deus da paz concede-nos a força para curar, reconciliar e construir uma civilização do amor. Desta forma, somos chamados a salvaguardar os muitos “ecossistemas” que nos foram confiados: os ecossistemas da criação, das relações humanas e do próprio coração humano.

Imaginemos um mundo em que as energias atualmente investidas na guerra fossem canalizadas para o desenvolvimento humano integral, a superação da pobreza, a proteção da dignidade humana e a reconciliação entre os povos. Tal visão reflete a fé na vinda do Reino de Deus.

As verdadeiras ferramentas para construir a paz não são as armas de destruição, mas sim a verdade, o diálogo, a paciência, a bondade, a justiça, a misericórdia, a compreensão, o cuidado e o amor. Estas qualidades brotam de corações moldados pelo Evangelho e sustentados pela graça de Deus. Só estas qualidades possuem o poder de transformar os indivíduos, renovar as comunidades e curar as feridas do nosso mundo.

Queridos irmãos e irmãs, o caminho que temos pela frente é claro, embora não seja fácil. Somos chamados a deixar que os nossos corações sejam renovados, para que possamos procurar a paz e cuidar da criação. A Escritura diz-nos para guardarmos os nossos corações, pois tudo o que fazemos brota deles (cf. Pr 4, 23).

Se assumirmos esta tarefa com humildade e fé, tornar-nos-emos colaboradores na obra divina de renovação. Lenta, mas certamente, passaremos do deserto ao jardim, da divisão à comunhão e da violência à paz.

Que o Senhor nos conceda a coragem de percorrer este caminho, para que, no nosso tempo, as espadas sejam verdadeiramente transformadas em relhas de arados, a promessa do Evangelho se enraíze mais profundamente no nosso mundo e a paz de Cristo reine sobre toda a criação.

Vaticano, 15 de agosto de 2026, Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria.


LEÃO PP. XIV

14 agosto, 2026

Eleições em tempos de El Niño

 


Olá, apesar da calmaria, os tempos não prometem tranquilidade.

.Sem céu de brigadeiro. Lula é o favorito nas eleições, mas a campanha mal começou. A vantagem do petista é a retomada das boas relações com o centrão depois de diversas crises. Hugo Motta, por exemplo, abriu o voto em Lula, e Alcolumbre reaproximou-se de olho em sua futura reeleição à presidência do Senado e, talvez, em troca da indicação de Rodrigo Pacheco ao TCU. O resultado é que Lula é o único candidato a presidente com partidos aliados, um feito inédito na história da República, o que significa mais recursos, palanques estaduais e tempo de campanha na TV e nas rádios. Por outro lado, como já se esperava, Trump e a direita latino-americana estão aí para tentar atrapalhar o projeto de reeleição. Mas o resultado vai depender muito da habilidade do governo e da campanha petista de fazer desse limão uma limonada. A exemplo da sequência de críticas de quinta série que Milei tem feito a Lula, que pode mais ajudar do que atrapalhar o presidente brasileiro. Já o tarifaço dos Estados Unidos é um assunto mais delicado porque tem impactos econômicos relevantes. Por hora, o Itamaraty levou a questão para a OMC, onde recebeu o apoio da China, o que pode atenuar o tom eleitoral da medida imposta por Trump. A ideia é explorar as contradições internas do governo norte-americano, apoiando-se nos setores econômicos afetados pelas tarifas e enfraquecer a ala ideológica de Marco Rúbio, que sonha com uma nova versão da Doutrina Monroe. Para completar o quadro, o Planalto receia que a eleição de Abelardo de la Espriella na Colômbia dê fôlego para a campanha da direita brasileira nas redes. Além dos problemas externos, Lula tem que gerir as pressões vindas do mercado, cujas controvérsias atingem sua própria equipe de campanha. O novo mantra da Faria Lima é o fantasma do descontrole da dívida pública. Neste debate encontra-se, de um lado, o atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, que reconhece o problema e contemporiza com as preocupações do mercado e, de outro, a ala dos economistas desenvolvimentistas, como Sérgio Gabrielli e Luiz Gonzaga Belluzzo, que criticam a austeridade, culpam as altas taxas de juros praticadas pelo Banco Central e defendem a ampliação dos investimentos públicos.

.02 e o comando maluco. Se Donald Trump é o verdadeiro adversário, os problemas de Lula só não são maiores porque seus concorrentes eleitorais são fracos. Por mais espaço e repercussão que Caiado e Zema tenham na mídia, o desempenho dos dois ex-governadores até aqui é microscópico. Já Renan Santos, aplicando a fórmula de polêmicas e redes sociais do MBL em nível nacional, pode não crescer para chegar ao segundo turno, mas já ganhou a simpatia da Faria Lima. O que não é nenhuma surpresa, pois tanto o candidato, quanto esses eleitores são gente branca e rica de São Paulo e provavelmente estudaram juntos na infância. Quanto ao líder da direita nas pesquisas, Flávio Bolsonaro, ainda não conseguiu criar um fato novo positivo em sua campanha. Ao contrário, além de dever explicações sobre o caso Dark Horse, Flávio apareceu nas manchetes por mentir no currículo sobre um curso de pós-graduação que nunca fez e por não conseguir registrar a candidatura, porque alguém o filiou no Missão, no endereço “Rua dos Bandidos, nº 666, Bairro Miliciano”. Curiosamente, a maior ajuda a Flávio tem vindo do principal alvo da sua campanha, o STF. Enquanto a base bolsonarista defende o impeachment de ministros e o próprio Flávio anuncia outras propostas para reduzir os poderes da Corte, os dois indicados por seu pai tem dado uma forcinha na campanha: Kassio Nunes Marques relativizando sempre que o candidato do PL descumpre as normas eleitorais, e André Mendonça, que quando não está trocando farpas com a PF, também passa um pano para as ações de Flávio no TSE.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Doutrina Donroe: a próxima etapa. Reunião de Trump com 60 governos do mundo aponta caminho para o retorno da supremacia norte-americana. No Outras Palavras.

.Infográfico mostra como o tarifaço mudou o mapa das exportações brasileiras aos EUA. Levantamento do G1 revela quais estados perderam e quais ganharam espaço no mercado estadunidense.

.Uma voz de luta e esperança: as visitas de Fidel ao Brasil. Pesquisa do Instituto Tricontinental mapeia o contexto e a repercussão das 6 visitas do líder cubano ao Brasil.

.Desigualdade de renda persiste no Brasil, aponta relatório. O Observatório Brasileiro das Desigualdades revela o abismo econômico e social do país. No Correio Braziliense.

.O Rio nunca prendeu tanta gente de terno. No Intercept, Cecília Oliveira detalha as operações da PF que revelaram uma rede do crime organizado no Rio.

.Dez documentários brasileiros premiados para assistir no streaming. A Gama indica documentários dos últimos dez anos que estão disponíveis em plataformas.

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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.