A presença frequente de agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) junto a paróquias católicas nos EUA onde são celebradas missas em espanhol está a deixar os fiéis com medo e a fazer cair para metade a frequência às mesmas. É o caso da igreja de São Gabriel Arcanjo em Hopkins (Minnesota), a 13 quilómetros do local onde um agente do ICE matou a cidadã americana Renee Good, no passado dia 7 de janeiro. A denúncia é feita pelo pároco, que diz ser o primeiro a sentir-se “intimidado” com a vigilância e considera que esta é “uma violação dos direitos constitucionais”.
A reportagem é publicada por 7Margens, 13-01-2026.
“Parece que não estamos a viver nos Estados Unidos da América, mas em algum lugar violento do terceiro mundo, em algum lugar distante”, lamenta o padre Paul Haverstock, em declarações à Catholic News Agency. “Sim, parece que estamos numa zona de guerra aqui.”
O presbítero recorda o dia 4 de janeiro, domingo, em que estava a paramentar-se para a missa em espanhol das 13h00, quando um paroquiano foi à sacristia dizer-lhe que homens envergando balaclavas estavam dentro de um carro junto à igreja. Perturbado com tal facto, o padre foi buscar o telemóvel e levou-o consigo para o altar. “Se os agentes decidirem entrar, quero ter a certeza de que tudo fica gravado, e quero ter um registo claro de mim a informar os agentes de que estamos no meio de um culto religioso”, justifica.
Não chegou a esse ponto, mas a presença do ICE do lado de fora da igreja impediu o livre exercício da religião pelos fiéis, afirma Haverstock. “Quem não se sentiria intimidado por isso?”, questiona o padre. “Os agentes do ICE estão a aterrorizar qualquer pessoa de boa vontade apenas com a sua presença, usando máscaras e ficando parados do lado de fora da igreja. É assustador. Fiquei com medo quando soube que eles estavam lá. Fiquei com medo pela segurança das pessoas na igreja, inclusive pela minha, e fiquei especialmente com medo pelos imigrantes”, confessa o pároco.
De acordo com o padre Haverstock, mais de 400 pessoas costumavam frequentar a missa em espanhol, mas neste momento apenas metade o faz. O presbítero está até a considerar oferecer uma dispensa temporária da missa dominical para aqueles que estão com medo.
Em declaração à Catholic News Agency, um porta-voz do Departamento de Segurança Interna dos EUA afirmou que o ICE “não faz rusgas em igrejas”, classificando tais alegações como “difamações”. “O facto é que os criminosos não podem mais esconder-se em locais de culto para evitar a prisão. O governo Trump não vai amarrar as mãos de nossos bravos agentes da lei e, em vez disso, confia que eles usarão o bom senso”, acrescentou. “Se um criminoso estrangeiro ilegal perigoso se refugiasse numa igreja, ou se um abusador sexual de crianças estivesse a trabalhar como funcionário, poderia haver uma situação em que uma prisão fosse efetuada para proteger a segurança pública.”
Funcionário da igreja detido e maltratado
A verdade é que um dos funcionários desta paróquia em Hopkins foi já detido há pouco mais de um mês, não na igreja, mas no estacionamento adjacente à mesma. Francisco Paredes, de 46 anos, residente nos EUA há 25 anos, com uma condenação por ter dirigido sob influência de álcool, foi detido pelo ICE a 4 de dezembro de 2025 e levado para um centro de detenção.
Paredes, que trabalhava na manutenção do edifício e pertencia ao coro da igreja, disse que passou cerca de um mês detido no sistema de imigração do ICE antes de ser enviado para o México. Na sequência da detenção, pediu para fazer uma chamada telefónica, mas teve o seu pedido negado por vários dias, pelo que a sua filha, cidadã americana, desconhecia o seu paradeiro. O colaborador da paróquia passou o Natal preso e disse que não teve acesso a nenhum serviço religioso.
No escritório de imigração de Bloomington, Minnesota, para onde foi inicialmente levado, partilhou cela com 40 pessoas. Havia apenas uma casa de banho para os homens, e “qualquer um podia ver quando lá íamos”, relatou.
Cerca de sete horas depois, Paredes foi transferido para a Cadeia do Condado de Crow Wing em Brainerd, Minnesota, e em seguida para Laredo, Texas, onde foi preso no Centro de Detenção do Condado de Webb.
“Eles tratam as pessoas como animais”, denunciou em declarações à Catholic News Agency, detalhando que não eram fornecidas refeições quentes, apenas uma sandes, uma laranja, biscoitos e água, e que todos os detidos dormiam no chão, sem nada com que se cobrir.
Quando o presidente Donald Trump fala em deportar “os piores dos piores”, disse ainda Paredes, “ele não faz a menor ideia. Todas as pessoas que conheci na prisão são pessoas trabalhadoras”.
O padre Haverstock diz que sente falta de Paredes, que era um “funcionário maravilhoso e uma daquelas raras pessoas totalmente bilíngues, pelo que tê-lo por perto foi uma grande ajuda”.
“Devemos estar firmemente determinados a fazer a nossa parte para obter justiça, não apenas para nós mesmos, mas para os nossos irmãos e irmãs, e não apenas para os da Igreja, mas para qualquer pessoa que esteja a ser perseguida, que por acaso seja nosso vizinho”, apela o presbítero. “As famílias não devem ser separadas, exceto por razões extremamente graves. E posso dizer, por experiência própria, pelo que vi e ouvi, que essas deportações e essa pressão massiva do ICE não visam apenas cartéis de drogas, criminosos violentos e reincidentes de crimes graves, mas também mães, pais e famílias que, em alguns casos, não cometeram nenhum crime além de entrar ilegalmente em nosso país, e separar uma família por causa disso é injusto.”
E termina o seu testemunho partilhando aquela que tem sido uma das preces na Oração dos Fiéis já há várias semanas: “Pelos imigrantes que vivem com medo, pelas famílias que foram separadas e por uma reforma imigratória sábia na nossa terra, oremos ao Senhor”.
Fonte: IHU
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