03 fevereiro, 2026

Mais um janeiro sem paz

Olá, este ano não teve tentativa de golpe, só escândalo financeiro, ameaça de guerra e crise internacional.

.Nada de novo. O Planalto imaginou que teria um começo de ano tranquilo, porque até o centrão tira férias, mas descobriu que a oligarquia viciada em emendas do parlamento é fichinha comparada ao imperialismo norte-americano. Se, por um lado, o governo Trump é movido pela hostilidade - com o sequestro de Nicolás Maduro, a ofensiva sobre a Groenlândia e as ameaças ao Irã e Cuba- por outro, o Brasil olha em volta e não vê nenhuma articulação internacional ou bloco de integração capaz de fazer frente às ameaças. A começar pela ONU. Mais do que isso, apesar do discurso da química com Trump, o governo já entendeu que os EUA podem sim intervir nas eleições brasileiras. Até o convite para que Lula esteja no Conselho de Paz de Gaza pode ser uma armadilha para dar legitimidade aos planos dos Estados Unidos, com uma mini-ONU particular de Trump. Para piorar, o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, uma prioridade do Itamaraty, foi enviado para revisão jurídica pelo parlamento europeu, o que significa pelo menos dois anos parado. Apesar de todo o peso dado pelo Planalto, o acordo tem ares melancólicos de comércio entre dois blocos desindustrializados e submetidos à periferia do hemisfério ocidental, como Trump gosta muito de lembrar. No ano de sua última disputa presidencial, Lula preferiria priorizar as questões internas e não ter que se preocupar com o cenário internacional. Mas nada no horizonte aponta para alguma estabilidade na vida política do planeta. Nesta perspectiva, movimentações para formar palanques nos estados, a liberação de cerca de 20 ministros para disputarem as eleições e a prioridade nas eleições para o Senado, parecem até café pequeno. Só que não. Deixarão o governo nos próximos meses nomes de peso como Gleisi Hoffmann e Fernando Haddad. E, no Congresso, espera-se que avancem os projetos de segurança pública, a nomeação de Jorge Messias e uma CPI do INSS que ninguém sabe onde vai, mas que tem potencial para desgastar o governo.

.Presos na Papudinha. O que facilita a vida de Lula é que a extrema-direita continua refém do clã Bolsonaro. Se a candidatura Flávio antes parecia apenas moeda de troca pela anistia, ela começa a dar sinais de que pode ir até o fim, com o filho ungido buscando contatos no centrão e na Faria Lima. Para desespero do próprio centrão, que vê o tempo diminuir para trocar Flávio por Tarcísio de Freitas. Para Hélio Schwartsman, faz todo sentido que os Bolsonaros mantenham o nome de Flávio, contando que a eleição já está ganha por Lula e preparando um cenário em que, em 2030, o sobrenome da família estaria nas urnas pela quarta eleição seguida. E Vera Magalhães lembra que, se o cenário de polarização entre Lula e um Bolsonaro se repetir agora, é porque a direita não teve capacidade de produzir nada novo. Na prática, qualquer candidato de direita só tem chances se os outros desistirem. Além disso, cada um tem seus próprios problemas. Flávio carrega toda a rejeição do sobrenome. Tarcísio vive paralisado no seu constante dilema entre a lealdade ao clã, uma reeleição tranquila em São Paulo e a preferência do centrão e de Faria Lima. Mesmo assim, misteriosamente, influencers e perfis de fofoca nas redes sociais estão sendo pagos para falar bem do governador de São Paulo. Por fora da disputa, sem se preocupar com a corrida presidencial, convém observar Nikolas Ferreira que, com sua caminhada por Bolsonaro afagando a base social mais radical deste setor, pode estar construindo para o futuro o que nenhum outro representante da extrema-direita conseguiu até agora: o bolsonarismo sem Bolsonaros.

.Big Bomba em Brasília. A crise do Banco Master sobreviveu ao natal, ao réveillon, talvez passe ilesa pelo Carnaval e ainda chegue viva às eleições de outubro. Não só porque o rombo de R$ 41 bilhões será socializado pelo sistema financeiro e, indiretamente, por toda a sociedade. Mas também porque trata-se de uma daquelas crises de desdobramentos imprevisíveis, com muitos peixes-grandes envolvidos, tanto na Faria Lima quanto em Brasília. Ou seja, um prato cheio para falar de corrupção, um dos temas preferidos da direita. É exatamente essa a aposta da oposição para desgastar o governo e seus aliados. No Senado, foi encaminhado um pedido de CPI sobre o caso Master, mesmo sabendo que o centrão e a direita estão envolvidos até os ossos no escândalo. Mas, enquanto o Congresso está de férias, o jogo pesado é jogado na mídia e nas redes. Um dos principais alvos é o Banco Central, que trava uma disputa institucional com o TCU sobre a responsabilidade na liquidação do Master. Curiosamente, neste cenário, a autoridade monetária sofreu um ataque orquestrado nas redes por meio de influenciadores pagos. Outra instituição que sai chamuscada é o STF. Ao centralizar a investigação, retirando a autonomia da Polícia Federal, o Supremo virou alvo das desconfianças de que o forno institucional está sendo aquecido para preparar uma pizza. O que é agravado pelas denúncias que pululam sobre as conexões pessoais de alguns ministros do STF e seus familiares com o banco falido. O escândalo respinga também nas relações do governo com o Congresso. É que o novo indicado por Lula ao STF, Jorge Messias, ainda não foi sabatinado pelo Senado, e a CPI do Master, agora nas mãos de Davi Alcolumbre - outro envolvido no escândalo - só faz aumentar o preço de sua aprovação. Mas tudo isso são cenas do próximo capítulo que vai começar com o fim do recesso parlamentar. Isso se uma possível delação premiada vinda de Daniel Vorcaro, dono do Master, não abalar os pilares da República.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Nobel, Groenlândia e Gaza: a diplomacia do império em crise. Na TVT, o historiador Anderson Barreto analisa as consequências da ofensiva de Trump no cenário internacional.

.Em dez dias, super-ricos consomem toda cota de carbono prevista para 2026. Os 1% mais ricos do planeta já esgotaram sua cota de emissões. Na Cenarium.

.Pinochet é o grande vitorioso da eleição de Kast no Chile, diz professor de Cambridge. O economista e cientista político chileno José Gabriel Palma prevê dias piores para o Chile.

.Esquerda precisa unir utopia e vida real no duelo eleitoral contra a extrema direita. A Intercept entrevista o intelectual italiano Paolo Demuru sobre como enfrentar a extrema-direita.

.As universidades públicas reféns do clientelismo parlamentar. Rubia Wegner analisa os efeitos da dependência de emendas na produção científica. No Le Monde.

.Além do Globo de Ouro: a ditadura e o poder civil exibidos ao mundo por "O Agente Secreto". Como o filme de Kleber Mendonça demonstra que a ditadura foi civil, empresarial e militar.

.“Manas”: documento de barbárie da normalidade patriarcal. No Blog da Boitempo, Diogo Dias analisa o longa brasileiro ambientado na Ilha de Marajó.

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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

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