17 março, 2026

9º Intereclesial das CEBs do Paraná

Segue material que escrevi para uma preparação para o Intereclesial


9º Intereclesial das CEBs do Paraná
30 de abril a 03 de maio de 2026 em Curitiba.

Tema: CEBs, fortalecendo a caminhada Sinodal no Cuidado da Casa Comum.
Lema: “Caminhavam juntos, partilhavam o Pão e perseveravam nas orações e no Bem Viver (cf. At 2,42)


CAMINHADA SINDODAL


Ao acompanhar e ler alguns trechos nas redes sociais do Papa Leão XIV, a respeito da sinodalidade, para ele é uma atitude, uma abertura, uma disposição para entender e que cada membro da Igreja tem uma voz e um papel a desempenhar por meio da oração, da reflexão… por meio de um processo. Existem muitas maneiras de que isso possa acontecer, mas por meio do diálogo e do respeito mútuo. A sinodalidade é uma forma de descrever como podemos nos unir e ser uma comunidade, buscar a comunhão como Igreja, de maneira que seja uma Igreja cujo foco principal não está em uma hierarquia institucional, mas sim em um senso de ‘nós juntos’, ‘nossa Igreja’.

A sinodalidade é um dos eixos centrais do pontificado do Papa Francisco e expressa um modo de ser Igreja profundamente enraizado no Evangelho e na tradição dos primeiros cristãos. Mais do que um conceito teórico, trata-se de um caminho espiritual, pastoral e missionário que convida todo o povo de Deus a caminhar junto. Não é uma moda passageira, segundo o Papa Francisco, mas uma exigência do Evangelho para o nosso tempo. Ela aponta para uma Igreja mais humana, fraterna e comprometida com a transformação do mundo, onde todas e todos caminham juntos, escutando-se mutuamente e discernindo a vontade de Deus na história.

A sinodalidade encontra seu fundamento na experiência das primeiras comunidades cristãs, especialmente em textos como Atos 2,42-47, onde os fiéis viviam a comunhão, a partilha e a escuta da Palavra. Também se inspira no Concílio Vaticano II, que recuperou a imagem da Igreja como “Povo de Deus”, valorizando a corresponsabilidade de todas e todos os batizados.

Segundo o Papa Francisco, a sinodalidade se sustenta em três dimensões fundamentais:

- Comunhão: reconhecer que todos pertencem ao mesmo Corpo de Cristo, superando divisões e exclusões.

- Participação: garantir que todos tenham voz, especialmente os pobres, as mulheres e aqueles que historicamente foram silenciados.

- Missão: caminhar juntos não por si mesmos, mas para anunciar o Evangelho e transformar a realidade.

Um elemento essencial da sinodalidade é a escuta. Não apenas ouvir opiniões, mas acolher o que o Espírito Santo diz por meio do povo. O discernimento comunitário torna-se, então, um exercício espiritual profundo, onde a Igreja busca a vontade de Deus na realidade concreta.

A sinodalidade exige uma verdadeira conversão: sair de estruturas autorreferenciais e clericalistas para uma Igreja mais simples, próxima e servidora. O Papa Francisco insiste que o clericalismo é um dos maiores obstáculos à sinodalidade, pois impede a valorização dos dons do povo de Deus.

A sinodalidade está intimamente ligada à ideia de “Igreja em saída”, outro conceito-chave do Papa. Caminhar juntos significa também ir ao encontro dos que estão nas periferias existenciais e sociais, promovendo justiça, dignidade e cuidado com a vida.

São muitos os desafio autuais, viver a sinodalidade não é simples, implica aprender a dialogar em meio às diferenças; superar resistências internas; formar comunidades mais abertas e participativas; cultivar espiritualidade de comunhão.


CUIDADO DA CASA COMUM


Essa perspectiva dialoga fortemente com o caminho sinodal da Igreja: caminhar juntos, escutar, discernir e agir em favor da vida.

“Cuidar da Casa Comum” é reconhecer que a Terra é dom, responsabilidade e missão. É assumir que a vida humana está profundamente ligada à vida do planeta e que não há futuro possível sem justiça social e equilíbrio ambiental. É um chamado a amar — de forma concreta e comprometida — tudo aquilo que Deus criou e confiou às nossas mãos.

O conceito de “Cuidado da Casa Comum” tornou-se uma expressão central especialmente a partir da encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco. Seu significado vai muito além de uma preocupação ecológica: trata-se de uma visão integral da vida, da fé e da responsabilidade humana no mundo.

A “Casa Comum” é o planeta Terra entendido não apenas como espaço físico, mas como lar compartilhado por toda a criação: seres humanos, animais, plantas e todos os ecossistemas. Essa expressão rompe com a ideia de domínio absoluto do ser humano sobre a natureza e reforça a noção de interdependência. No livro do Gênesis, o ser humano é chamado a “cultivar e guardar” o jardim (Gn 2,15), indicando uma missão de cuidado, e não de exploração.

Não se pode separar o cuidado com a natureza do cuidado com as pessoas — especialmente as mais vulneráveis, por isso o Cuidado da Casa Comum” propõe uma ecologia integral, ou seja, uma visão que une:

- Ecologia ambiental: preservação da natureza, combate à poluição, cuidado com a água, o ar e a biodiversidade.

- Ecologia social: atenção às desigualdades, pois os pobres são os mais afetados pela degradação ambiental.

- Ecologia econômica: crítica a modelos de produção e consumo que geram exclusão e destruição.

- Ecologia cultural: respeito aos saberes dos povos originários e às culturas locais.

- Ecologia espiritual: reconhecimento de que toda a criação é dom de Deus e possui um valor sagrado.

Nesse sentido, há uma dimensão profundamente profética, pois questiona estruturas econômicas e políticas que colocam o lucro acima da vida, sendo assim, necessário a dimensão ética e profética. Cuidar da Casa Comum é também um imperativo ético que denuncia o consumismo desenfreado; a exploração irresponsável dos recursos naturais e a cultura do descarte. E anuncia um novo modo de viver baseado na sobriedade, solidariedade e justiça.

Essa perspectiva dialoga fortemente com o caminho sinodal da Igreja: caminhar juntos, escutar, discernir e agir em favor da vida. O cuidado não é tarefa individual isolada, mas missão coletiva, exige a dimensão comunitária e sinodal e se realiza nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), nas outras formas de comunidades, nos movimentos sociais, nas políticas públicas e nas práticas cotidianas de cada pessoa.

Como recorda a Laudato Si’, “tudo está interligado”. Portanto, ferir a natureza é, de certo modo, ferir a própria humanidade. Cuidar da Casa Comum é também um ato espiritual, a dimensão espiritual implica: contemplar a criação como obra de Deus - cultivar gratidão - rever hábitos de vida - viver uma espiritualidade encarnada, que une fé e compromisso com a realidade.

Um chamado à conversão ecológica, não se trata apenas de ideias, mas de uma transformação concreta da forma de viver, produzir e se relacionar. O “Cuidado da Casa Comum” é um convite à conversão ecológica, que envolve: mudança de mentalidade - revisão de estilos de vida - compromisso com práticas sustentáveis - engajamento social e político.


“CAMINHAVAM JUNTOS, PARTILHAVAM O PÃO E PERSEVERAVAM NAS ORAÇÕES E NO BEM VIVER” (CF. AT 2,42)


O texto de Atos dos Apóstolos evidencia elementos fundamentais da vida da primeira comunidade cristã, que se tornaram referência inspiradora para a caminhada das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). A passagem descreve não apenas práticas religiosas, mas um modo de viver a fé de forma comunitária, solidária e missionária.

A não era vivida de forma individual, mas partilhada e aprofundada na comunidade. A mesa partilhada era sinal da presença de Cristo e fortalecia a unidade da comunidade. Nas CEBs, essa dimensão aparece nas celebrações da Palavra, nas liturgias simples e na espiritualidade comunitária. A espiritualidade era parte essencial da vida cotidiana, sustentando a missão e a comunhão entre os membros. Isso evidencia uma dimensão social da fé, em que a comunidade busca superar desigualdades e cuidar dos mais necessitados. Esse aspecto inspira fortemente a prática das CEBs, que unem fé e compromisso com a justiça. Por causa desse modo de viver, a comunidade era estimada pelo povo e crescia continuamente. O crescimento da Igreja aparece como fruto do testemunho de vida, e não apenas da pregação.

Atos dos Apóstolos evidencia um modelo de Igreja comunitária, fraterna, orante, solidária e missionária, centrada na Palavra, na partilha e na celebração. Por isso, essa passagem é frequentemente considerada um paradigma bíblico inspirador das Comunidades Eclesiais de Base, que buscam viver a fé de forma participativa, comprometida e encarnada na realidade do povo.


BEM VIVER


O conceito de Bem Viver nasce das cosmovisões dos povos originários da América Latina. Ele propõe uma forma de vida centrada na harmonia entre as pessoas, a comunidade e a natureza, em contraposição ao modelo dominante baseado no crescimento econômico ilimitado e no individualismo.

Essa visão rompe com a lógica moderna de progresso, que frequentemente coloca o lucro acima da vida. No Bem Viver, a centralidade está na vida plena, na dignidade, na reciprocidade e no cuidado. A natureza é entendida como sujeito de direitos, e não como objeto de exploração. A terra, a água e todos os seres possuem valor próprio. A comunidade é o espaço central da vida. O bem individual está ligado ao bem coletivo. Práticas como solidariedade, partilha e cooperação são essenciais.

Bem Viver propõe uma vida baseada no necessário, evitando o consumismo. A felicidade não está no acúmulo, mas na qualidade das relações. Valoriza-se a pluralidade de culturas, saberes e modos de viver, reconhecendo que não existe um único caminho para o desenvolvimento. A espiritualidade não é separada do cotidiano, mas está presente nas relações com a natureza, com os outros e com o sagrado.

O Bem Viver também se apresenta como crítica ao sistema econômico global, que gera desigualdades sociais, degradação ambiental e exclusão. Ele questiona a ideia de desenvolvimento baseada apenas no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e propõe novos indicadores de qualidade de vida, centrados no bem-estar integral. Nesse sentido, ele dialoga profundamente com propostas contemporâneas como a ecologia integral e a construção de sociedades mais justas e sustentáveis.


INTERECLESIAIS DAS CEBs


Os Intereclesiais das CEBs são fonte de animação, espaço de grande troca de experiências, reflexões e orações da Igreja simples, alegre, criativa, ecumênica e profética. Uma grande partilha da acolhida fraterna e sorrisos contagiantes, das comidas gostosas, da cantoria e alegria, do saber falar e do saber ouvir, das muitas lutas e festas, da profecia e das muitas sementes lançadas.

Os intereclesiais são iluminações para a esperança de algo novo que acontecerá como uma semente se deixa romper sob a terra, deixar morrer do velho para nascer o novo, do como fazer nascer da Igreja clerical uma Igreja popular, afirmação da Igreja como Povo de Deus apresentada no Concílio Ecumênico Vaticano II.

Os intereclesiais são essa fonte de animação, no Regional Sul II, o Paraná, envolvidos pelo símbolo do estado a “Gralha Azul” e a “Araucária”. Da Gralha Azul a mística que envolve vem de sua inteligência e seus diversos termos vocais para se comunicar e sua habilidade de esconder a sua comida, o pinhão, para comê-lo depois, sem saber que isso vai dar continuidade nas plantas. Da Araucária, a mística em torno de serem dioicas, expressão de gênero, existe uma árvore feminina e outra masculina. Na árvore feminina, em uma estrutura denominada estróbilo, ou pinha, se desenvolvem os pinhões.

Uma espécie dioica é aquela em que os gâmetas femininos (ex.: óvulos, oosferas que são célula sexual feminina das plantas) e os gâmetas masculinos (ex.: espermatozoides e anterozóides que são célula sexual masculina das plantas) são produzidos por indivíduos distintos, femininos e masculinos, respectivamente.

Aos participantes do intereclesial a quem as paróquias das Arq/Diocese enviam para vivenciar a expressiva experiência dos intereclesiais é fundamental o conhecer, acolher, envolver e comprometer-se com as CEBs - a Igreja onde os pobres deixam de ser prioridades, e passam ser sujeitos da missão evangelizadora e sujeitos de sua própria história.

Os intereclesiais das Comunidades Eclesiais de base, as CEBs, acontecem em nível nacional e nos intervalos desses acontecem nos Intereclesiais Regionais. Em cada tema escolhido as reflexões e a partilha de como as CEBs se inserem na realidade do povo, para ser sinal de esperança e vida.


O TREM - SÍMBOLO DOS ENCONTROS INTERECLESIAL DE CEBS NO BRASIL


Segundo Pe. Nelito Dornelas (em memória), Frei Betto é mineiro, ele morava em Vitória, em uma favela, quando acontecem os intereclesiais, o primeiro em Vitória, do Espírito Santo em 1975.

Vitória e Belo Horizonte tem o maior trem de passageiros do Brasil, que liga as duas capitais, mais ou menos 600 km de distância, essas duas capitais são simbolizadas pelo trem de passageiros. Então Frei Betto foi quem idealizou essa imagem para CEBs, a partir dessa experiência do maior trem de passageiros que liga essas capitais, explica Nelito.

Recorda Nelito, assim foi consolidado e foi também no encontro que aconteceu no Espírito Santo, em que frei Carlos Mesters estava assessorando as comunidades de São Mateus, lá também foi confirmado à ideia do trem de passageiro como símbolo das CEBs.

Então essa ideia explica Nelito, vai nascer do Frei Betto, que é mineiro morando em Vitória, onde acontece o primeiro intereclesial das CEBs e São Mateus, Espírito Santo, ali que vai nascer marcado pela experiência do trem de passageiros que o povo tinha como único meio de transporte barato, simples e popular.

A imagem tem a ver também com essa ideia de coisa do povo, coisa simples, coisa dos pobres, onde todo mundo pode entrar, levando sua carga, levando sua bagagem, levando seus mantimentos, porque o trem sempre foi isso, um meio de transporte barato do povo, assim conclui Nelito a explicação do trem como símbolo.

E a CEBs diz Nelito, simbolizam isso, lugar dos pobres que podem entrar com sua bagagem, sua cultura, sua história, com tudo aquilo que é, quer ser e precisa ser e pode ser para de fato ser Igreja dos Pobres.