08 maio, 2026

Guerra e paz




Olá, Lula aposta na diplomacia para enfrentar o clima beligerante do Congresso e de Trump.

.Golpe impresso II. Para quem esperava que o Lula do Antigo Testamento derramaria sua ira sobre o Congresso depois da derrota da semana anterior, prevaleceu, no dia seguinte, a bancada paz e amor. Por mais que se falasse em mapear e derrubar indicados políticos de Davi Alcolumbre no governo, na prática, o próprio governo tratou de enviar mensagens de que não vai haver revanche, escalando o líder do governo Pedro Uczai e o ministro José Guimarães, com trânsito no centrão, para estender a bandeira branca. Contudo, enquanto os bolsonaristas ainda comemoravam o “dia histórico” da derrota da indicação de Jorge Messias para o STF, os ventos da política mudaram mais uma vez. Todos foram surpreendidos pela nova fase da investigação da PF, que desvendou uma suposta rede de corrupção entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e Daniel Vorcaro. Um dos favores prestados por Nogueira ao banqueiro seria a aprovação no Congresso da ampliação do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$250 mil para R$1 milhão por depositante, justamente o fundo que foi alvo do golpe que o Master deu no sistema financeiro. E a certeza da impunidade era tão grande, que o texto proposto por Ciro Nogueira no Congresso foi elaborado pela assessoria do Banco Master, impresso e autorizado pelo próprio Vorcaro e entregue na residência do senador. Além do uso de jatinhos, hoteis e restaurantes caros, o acordo de cavalheiros incluiria ainda uma singela mesadinha de R$500 mil mensais paga por Vorcaro. De brinde, Ciro é um dos articuladores da campanha de Flávio Bolsonaro e o PP supostamente ficaria com a vaga de vice na chapa. Isso sem contar que a delação do banqueiro já está nas mãos da PF. Não se sabe ainda o seu alcance, nem se a delação tem fatos suficientes para ser aceita por André Mendonça, mas pelo menos um ministro do TCU, o ex-deputado do Republicanos Jonathan de Jesus, aliado de Arthur Lira, já estaria na lista. Com tudo isso, a ameaça da bancada do PT de abraçar a CPI do Master como retaliação à rejeição de Jorge Messias, que até ontem parecia fanfarronice, agora virou arma da base governista no Senado para conter os arroubos da direita e do centrão.

.Morde e assopra. A verdade é que a denúncia contra Ciro Nogueira salvou o governo de uma situação difícil. Afinal, como conciliar o mote de campanha que o PT está testando de que Lula enfrenta o “sistema” para fazer as mudanças que os ricos não querem, se nos bastidores a política é de apaziguamento com o Congresso? Ou, ainda, como fazer mudanças populares com um congresso contrário e sequestrando o orçamento com as emendas? E, afinal de contas, como um governo faz frente ao “autoritarismo parlamentar”, na definição de Mônica de Bolle, sem quebrar os pratos com o centrão às vésperas das eleições? Por hora, o jogo virou mais uma vez a favor do governo porque todo mundo sabe que Alcolumbre se apoia num “grande apoio nacional” para engavetar o escândalo do Master. E, para quem espera o pior em outubro, a traição de Alcolumbre no caso de Jorge Messias foi apenas uma amostra daquilo que está por vir se a extrema-direita conseguir ampliar suas cadeiras no Senado. Ironicamente, na dialética do Congresso, agora é Hugo Motta quem se tornou o principal aliado do governo para avançar nas pautas consideradas prioritárias. O presidente da Câmara trabalhou para aprovar a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos antes do encontro de Lula com Trump e tem se mostrado disposto a avançar no fim da escala 6x1. O governo acredita que isso, mais a redução do imposto da gasolina, será suficiente para virar a página na relação com o Congresso e melhorar a popularidade. No caso da 6x1, os sinais são auspiciosos, já que o relator Leo Prates (Republicanos-BA) confirmou que o fim da escala sem redução de salário é inegociável. Por outro lado, o lobby de empresas e federações continua pesado. Entre os lobistas, por coincidência, vários empresários com dívidas trabalhistas e com a União. A oposição também pode frear a pressa do Planalto e de Hugo Motta em votar o projeto ainda em maio e jogar a votação para junho. O que o governo parece disposto a negociar é a redução da jornada de trabalho para 40 horas e não as 36 previstas pelas duas PECs em tramitação.

.Acalmando os ânimos. Não é só nas relações com o Congresso que a estratégia do governo envolve tensões e acordos. O mesmo vale para o clima do Planalto com a Casa Branca, que azedou desde o tarifaço de Trump em julho do ano passado. Na ocasião, a aposta do governo brasileiro em defender a soberania se demonstrou acertada, ajudando inclusive a aumentar a popularidade de Lula. Mas, a lista de desavenças só cresceu de lá pra cá e, depois da agressividade dos gringos contra a Venezuela, Cuba e o Irã, foi necessário ao Planalto medir as palavras e os atos. Daí a importância da reunião desta semana para distensionar o clima. Houve alguns avanços pontuais. No tema das tarifas, os dois governos se comprometeram a elaborar um acordo conjunto. Já na área da segurança e combate ao crime organizado, que elevou os ânimos há alguns meses atrás pela tentativa da Casa Branca de classificar grupos criminosos brasileiros como terroristas, houve poucos avanços práticos, mas há o indicativo de soluções multilaterais. Quanto às terras raras, Lula apresentou o novo marco legal brasileiro sobre o assunto e mostrou-se aberto à parceria com os Estados Unidos. Já o tema das big techs, outro foco de tensão entre os dois governos, não chegou a ser abordado. Mais do que os encaminhamentos práticos e longe da certeza de que Trump cumprirá qualquer acordo, o principal saldo da reunião foi político. Até porque, como observou o ex-embaixador Rubens Ricupero, só pelo fato de Trump ter mostrado respeito por Lula, em contraste com o tratamento dispensado aos presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e ao sul-africano Cyril Ramaphosa, já é digno de nota. Mas a vitória política de Lula também é doméstica. Flávio Bolsonaro chegou a mobilizar seus contatos em Washington, sob o comando de Eduardo, para fazer a reunião entre os presidentes naufragar. E, mesmo sem sucesso, a estratégia dos bolsonaristas vai ser continuar afirmando que Lula fala em soberania mas “é entreguista”. Do outro lado, Lula aposta que a aproximação com a Casa Branca contribuirá para fortalecer sua imagem de estadista, além de neutralizar a influência da família Bolsonaro em Washington.


.Ponto Final: nossas recomendações.

.Manual reacionário. Jamil Chade detalha o Plano 2025 que move o governo Trump.

.O choque de Ormuz e o horizonte eleitoral de 2026. Veja os possíveis impactos econômicos e políticos da crise no Oriente Médio. No Terapia Política.

.Golpe do impeachment. Em A Terra é Redonda, Andréia Galvão apresenta o novo livro de Danilo Martuscelli sobre o impeachment de Dilma Rousseff.

.Ação por tortura no Carandiru não prescreve, decide Justiça de SP. Na Ponte, o sobrevivente do Massacre do Carandiru que conseguiu um marco histórico na justiça.

.Oxfam: Trabalhador levaria 490 anos para igualar salário de CEO bilionário. Segundo a Oxfam, enquanto os bilionários ganham U$2.500 por segundo, os salários dos trabalhadores caíram 12% de 2019 pra cá. No Vocativo.

.'Especialistas’ políticos criados com IA espalham desinformação no YouTube a cinco meses das eleições. Como funcionam e como ganham dinheiro os perfis falsos criados por IA para tumultuar as eleições no Brasil. Na Lupa.

.A reconstrução no Vale do Taquari. Sob ameaça de novas enchentes, como está o Vale do Taquari (RS), dois anos depois da tragédia. No Colabora.

.Vitória Régia. Curta-metragem de ficção, estrelado por Alice Braga, imagina como seria o Brasil se o golpe de 8 de janeiro fosse bem sucedido.

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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.