11 setembro, 2018

A consagração da tática do PT e o desespero da direita



Por Mauro Lopes publcado em Brasil 247 em 10/09/2018.

A consagração da tática do PT e o desespero da direita

Primeira impressões do Datafolha.
 
Importante: o campo foi feito nesta segunda, já absorvendo boa parte do impacto da facada e antes da oficialização de Haddad.
 
Por isso, a pesquisa é:

1. Péssima para Bolsonaro, que depois da facada não cresceu nada -oscilou de 22% para 24%. Pra piorar, nem mesmo sua condição de vítima diminuiu a
rejeição, ao contrário, pulou de 39% para 43%
 
2. Excelente para o Haddad, que mais que dobrou na pesquisa mesmo sem ter sido oficializado como candidato, saltando de 4% para 9%. Sua rejeição é baixa, 22%. Só amanhã saberemos se a pesquisa teve a questão que importa, apresentando ao eleitor Haddad com apoio de Lula, que é seu real potencial eleitoral (ele deve estar empatado com Bolsonaro ou mesmo um pouco acima, se a tendência observada nas últimas pesquisas se confirmar). ATUALIZAÇÃO IMPORTANTE: Apenas às 22h desta segunda a Folha de S.Paulo liberou a informação, no meio de duas reportagens que é talvez a mais importante da pesquisa: 49% do eleitorado admite votar no candidato de Lula (33% "com certeza" votam no nome indicado por Lula e mais 16% que dizem "poder votar"). 
 
Outras constatações:
 
3. Ciro saltou de 10% para 13%. Uma pesquisa que é um sonho pra o campo progressista. Subida de Ciro desenha uma aliança progressista imbatível no segundo turno.
 
4. Marina despencou de 16% para 11% e começa a sair do jogo.
 
5. A aposta de muitos no crescimento de Alckmin depois do horário eleitoral gratuito foi um fiasco. Ele oscilou de 9% para 10%
 
Um registro importante: Lula, que previu consequência zero na facada sobre a eleição, afirma-se como o mais sensível dos líderes políticos do país.
 
Consequências da pesquisa:
 
1. Bolsonaristas devem ligar o modo pânico e irão embarcar cada dia mais na lógica do golpe, montando a história de que a facada teria sido uma "trama política" para prejudicá-lo, no roteiro desenhado pelo comandante do Exército no fim de semana. Setores militares irão apoiar essa linha.
 
2. O Estado de S.Paulo já embarcou nessa lógica do golpe há alguns dias. O restante da mídia deve observar o cenário, mas pode aderir se considerar a vitória do PT inevitável. Alckmin e o PSDB devem... mas eles tem alguma relevância agora?
 
3. A candidatura de Haddad (Lula) e Manoela deve deslanchar, assumindo rapidamente não apenas a liderança como o protagonismo nas eleições.
 
4. Está aberto o terreno para uma conversa entre o PT e Ciro para o segundo turno.
 
5. A tensão vai aumentar ainda mais.
 
6. Conclusão final: a tática do PT está se consagrando vitoriosa. Lula e a direção do partido acertaram em cheio e mantiveram o leme mesmo debaixo do fogo cerrado da direita, de Ciro e de outros setores da esquerda.

Bolsonaro e a autoverdade

https://brasil.elpais.com

Como a valorização do ato de dizer, mais do que o conteúdo do que se diz, vai impactar a eleição no Brasil


A pós-verdade se tornou nos últimos anos um conceito importante para compreender o mundo atual. Mas talvez seja necessário pensar também no que podemos chamar de “autoverdade”. Algo que pode ser entendido como a valorização de uma verdade pessoal e autoproclamada, uma verdade do indivíduo, uma verdade determinada pelo “dizer tudo” da internet. E que é expressa nas redes sociais pela palavra “lacrou”.
O valor dessa verdade não está na sua ligação com os fatos. Nem seu apagamento está na produção de mentiras ou notícias falsas (“fake news”). Essa é uma relação que já não opera no mundo da autoverdade. O valor da autoverdade está em outro lugar e obedece a uma lógica distinta. O valor não está na verdade em si, como não estaria na mentira em si. Não está no que é dito. Ou está muito menos no que é dito.
Assim, a questão da autoverdade também não está na substituição de verdades ancoradas nos fatos por mentiras produzidas para falsificar a realidade. No fenômeno da pós-verdade, as mentiras que falsificam a realidade passam elas mesmas a produzir realidades, como a eleição de Donald Trump ou a aprovação do Brexit. A autoverdade se articula com esse fenômeno, mas segue uma outra lógica.
O valor da autoverdade está muito menos no que é dito e muito mais no ato de dizer
O valor da autoverdade está muito menos no que é dito e muito mais no fato de dizer. “Dizer tudo” é o único fato que importa. Ou, pelo menos, é o fato que mais importa. É esse deslocamento de onde está o valor, do conteúdo do que é dito para o ato de dizer, que também pode nos ajudar a compreender a ressonância de personagens como Jair Bolsonaro e, claro, (sempre), Donald Trump. E como não são eles e outros assemelhados o problema, mas sim o fenômeno que vai muito além deles e do qual são apenas os exemplos mais mal acabados.
Uma pesquisa de junho do Datafolha mostrou, mais uma vez, que a maioria das pessoas que declaram voto em Jair Bolsonaro (PSL) são jovens: seu eleitorado se concentra principalmente na faixa dos 16 aos 34 anos. O capitão do exército também lidera as intenções de voto entre os mais ricos e os mais escolarizados do país. O candidato de extrema-direita está em primeiro lugar na disputa presidencial de outubro. Isso num cenário sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com Lula, Bolsonaro cai para o segundo lugar. Mas Lula, como sabemos, está preso e impedido de se manifestar num dos mais controversos episódios da história recente do Brasil, um país hoje assinalado pela politização da justiça.
Em pesquisa recém divulgada, a professora Esther Solano entrevistou pessoas na cidade de São Paulo para compreender o crescimento das novas direitas e especialmente da extrema-direita mais antidemocrática, representada por Jair Bolsonaro. Os selecionados cobrem um amplo espectro de posição econômica, de emprego, de idade e de gênero. Solano é professora da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Mestrado Interuniversitário Internacional de Estudos Contemporâneos de América Latina da Universidad Complutense de Madrid. Ela tem se destacado como uma das principais estudiosas do perfil dos participantes dos protestos no Brasil desde 2013, quando foi uma das poucas a escutar os adeptos da tática black bloc em profundidade.
A pesquisa, financiada pela Fundação Friedrich Ebert, é ótima, importante e deve ser lida na íntegra. Aqui, me limito a reproduzir um trecho que ajuda a iluminar a questão que apresento nessa coluna:
“Ele (Bolsonaro) é um mito porque fala o que pensa e não está nem aí”, diz estudante de 15 anos
“No começo da roda de conversa com os alunos de São Miguel Paulista, assistimos a um vídeo com as frases mais polêmicas de Bolsonaro. No final do vídeo, muitos alunos estavam rindo e aplaudindo. Por quê? Porque ele é legal, porque ele é um mito, porque ele é engraçado, porque ele fala o que pensa e não está nem aí. Com mais de cinco milhões de seguidores no Facebook, o fato é que Bolsonaro representa uma direita que se comunica com os jovens, uma direita que alguns jovens identificam como rebelde, como contraponto ao sistema, como uma proposta diferente e que tem coragem de peitar os caras de Brasília e dizer o que tem de ser dito. Ele é foda.
Na roda de conversa na escola de São Miguel Paulista, na Zona Leste, a mais precarizada de São Paulo, os alunos negam que Bolsonaro faça a difusão de um discurso de ódio. Mas valorizam a sua coragem de dizer coisas fortes. Um garoto de 16 anos resumiu: “Ele não tem discurso de ódio. Tá só expondo a opinião dele, falando a verdade”.O uso das redes sociais, a utilização de vídeos curtos e apelativos, o meme como ferramenta de comunicação, a figura heroica e juvenil do ‘mito ’Bolsonaro, falas irreverentes e até ridículas, falas fortes, destrutivas, contra todos, são aspectos que atraem os jovens. Se, nos anos 70, ser rebelde era ser de esquerda, agora, para muitos destes jovens, é votar nesta nova direita que se apresenta de uma forma cool, disfarçando seu discurso de ódio em formas de memes e de vídeos divertidos: O Bolsomito é divertido, o resto dos políticos não.
A opinião de Bolsonaro, ou a “verdade” de Bolsonaro, que circula em vídeos de “lacração” do “Bolsomito”, é chamar uma deputada de “vagabunda” e dizer que não a estupraria porque ela não merece, por considerá-la “muito feia”; a afirmação de que sua filha, caçula de cinco homens, é resultado de uma “fraquejada”; a declaração de que seus filhos não namorariam uma negra ou virariam gays porque foram “muito bem educados”. E, claro, sua performance na votação do impeachment de Dilma Rousseff (PT).
Ao declarar seu voto pelo afastamento da presidente eleita, Bolsonaro homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. O herói de Bolsonaro, hoje estampado em camisetas de seus apoiadores, é um dos mais notórios torturadores e assassinos da ditadura civil-militar, um sádico que chegou a levar crianças pequenas para ver as mães torturadas, cobertas de hematomas, urinadas, vomitadas e nuas, como forma de pressioná-las. Sobram ainda declarações racistas de Bolsonaro contra índios e quilombolas.
“Ele (Bolsonaro) não está nem aí com o politicamente correto, diz o que pensa e ponto, mas não é homofóbico. Ele gosta dos gays. É o jeitão dele”, diz uma mulher
Uma das entrevistadas por Esther Solano assim justifica as falas de seu escolhido: “É que ele tem esse jeito tosco, bruto de falar, militar mesmo. Mas ele não quis dizer essas coisas. Às vezes exagera, não pensa porque vai no impulso, porque é muito honesto, muito sincero e não mede as palavras como outros políticos, sempre pensando no politicamente correto, no que a imprensa vai falar. Ele não está nem aí com o politicamente correto, diz o que pensa e ponto, mas não é homofóbico. Ele gosta dos gays. É o jeitão dele”.
Na minha própria escuta de pessoas nas periferias de São Paulo e na região do Xingu, no Pará, em diferentes classes sociais e faixas etárias, escuto seguidamente uma variação destas frases: “Ele é honesto porque ele diz o que pensa” ou “Ele não tem medo de dizer a verdade”. Quando questiono o conteúdo do que Bolsonaro pensa, a “verdade” de Bolsonaro, em geral aparece um sorriso divertido, meio carinhoso, meio cúmplice: “Ele é meio exagerado, mas porque é um sincerão”.
Assim, Bolsonaro não seria homofóbico ou misógino ou mesmo racista para aqueles que aderem a ele, mas um “homem de bem” exercendo a “liberdade de expressão”. Estes são os adjetivos que aparecem com frequência colados ao candidato de extrema-direita por seus eleitores: “sincero”, “verdadeiro”, “autêntico”, “honesto” e “politicamente incorreto” (este último também como um elogio).
Embora o conteúdo do que Bolsonaro diz obviamente influencia no apoio do seu eleitorado, me parece que ele é mais beneficiado pelo fenômeno que aqui estou chamando de autoverdade. O ato de dizer “tudo” e o como diz o que diz parece ser mais importante do que o conteúdo. A estética é decodificada como ética. Ou colocada no mesmo lugar. E este não é um dado qualquer.
Por isso também é possível se desconectar do conteúdo real de suas falas, como fazem tantos de seus eleitores. E por isso é tão difícil que a sua desconstrução, por meio do conteúdo, tenha efeito sobre os seus eleitores. Quando a imprensa mostra que Bolsonaro se revelou um deputado medíocre, que ganhou seu salário e benefícios fazendo quase nada no Congresso, quando mostra que ele nada tem de novo, mas sim é um político tão tradicional como outros ou até mais tradicional do que muitos, quando mostra que falta consistência no seu discurso, assim como projeto que justifique seu pleito à presidência, há pouco ou nenhum efeito sobre os seus eleitores. Porque o conteúdo pouco importa. As agências de checagem são um bom instrumento para combater as notícias e as declarações falsas de candidatos, mas têm pouca eficácia para combater a autoverdade.
A lógica em que a imprensa opera, que é a do conteúdo, não atinge Bolsonaro porque seu eleitorado opera em lógica diversa
Simples assim. Complexo demais. A lógica em que a imprensa opera, quando faz jornalismo sério, que é a do conteúdo, não atinge Bolsonaro porque seu eleitorado opera em lógica diversa. Esse é um dado bastante trágico, na medida em que os instrumentos disponíveis para expor verdades que mereçam esse nome, para iluminar fatos que de fato existem, passam a girar em falso.
Se Bolsonaro participar dos debates ao vivo durante a campanha eleitoral, para uma parcela significativa do eleitorado brasileiro o que vai prevalecer é a estética marcada pelo “dizer tudo” e dizer tudo lacrando. Também por isso Ciro Gomes (PDT), por sua própria personalidade mais agressiva e sua falta de freio na língua, é visto por uma parcela preocupada com a ascensão de Bolsonaro como o mais capaz de enfrentá-lo.
Se esse quadro permanecer, a disputa entre testosteronas infláveis – e inflamáveis – será mais importante do que o conteúdo na eleição brasileira, porque mesmo quem tem conteúdo terá que deixá-lo em segundo plano para ganhar a disputa da dramaturgia. Mais um degrau escada abaixo na apoteótica descida do país rumo à irrelevância.
Se este não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, no Brasil há uma particularidade que parece impactar de forma decisiva a autoverdade. Essa particularidade é o crescimento das igrejas evangélicas fundamentalistas e sua narrativa do mundo a partir de uma leitura propositalmente tosca da Bíblia. A retórica do bem contra o mal atravessa fenômenos como a “bolsonarização do país”.
A autoverdade atravessa o discurso religioso fundamentalista como conceito e como estética
Embora os pastores fundamentalistas exaltem a perseguição do “povo de Deus”, a prática mostra exatamente o contrário, ao perseguirem os LGBTQs, as mulheres e, em alguns casos de racismo, os negros. Mas a prática são os fatos, e os fatos não importam. O que importa é a retórica e a forma. A autoverdade atravessa o discurso fundamentalista como conceito e como estética. O milagre da transmutação aqui é justamente fazer com que a estética seja convertida em ética.
Formados nessa narrativa, uma geração de brasileiros é capaz de ler ou assistir a uma reportagem da imprensa mostrando verdades que Bolsonaro gostaria que não subissem à superfície não pelo seu conteúdo, mas pela ótica da perseguição. O conteúdo não importa quando quem questiona o inquestionável é automaticamente um inimigo, capaz de usar qualquer “mentira” para atacar um “homem de bem”. Afinal, as imagens de malas de dinheiro (de dízimo, no caso) foram inauguradas por alguns pastores neopentecostais, muito antes do que pela investigação da Lava Jato, e mesmo assim suas igrejas não pararam de crescer. Bolsonaro torna-se o “perseguido” na luta do bem contra o mal, o que faz todo o sentido para quem é bombardeado por uma visão maniqueísta do mundo.
Produtos de entretenimento como as novelas e os filmes supostamente bíblicos de uma rede de TV como a Record, por exemplo, colaboram para formatar um determinado olhar sobre a dinâmica da vida. Se alguém só vê o mundo de um mesmo modo, não consegue mais ver de outro. Não há mais interpretação, a decodificação passa a ser por reflexo.
Este é o mecanismo que tem se alastrado no Brasil. E que é imensamente beneficiado pela tragédia educacional brasileira. Não é por acaso que a escola pública, já tão desvalorizada e desprestigiada, esteja sofrendo o brutal ataque representado pelo movimento político e ideológico nomeado como “Escola Sem Partido”. O pensamento múltiplo e o debate das ideias são os principais instrumentos para devolver importância aos fatos e ao conteúdo, assim como recolocar a questão da verdade.
Não é um risco que os protagonistas das novas direitas queiram correr. No jogo das aparências, seu truque é sempre o mesmo: fazer um movimento ideológico afirmando que é para combater a ideologia, agir politicamente mas afirmar-se antipolítico, apoiar partidos de direita dizendo-se apartidários. Esse mascaramento só funciona se aquele a quem a mensagem se destina abdicar do pensamento em favor da fé.
A adesão à política pela fé é a grande sacada dos protagonistas da articulação religiosa-militarista que disputa o Brasil deste momento
A retórica supostamente bíblica está educando aqueles que não estão sendo educados. Como produto de entretenimento, as novelas e filmes se articulam com os programas policialescos sensacionalistas da TV, muitas vezes na mesma rede de TV, e os ampliam. Já existe uma geração formada tanto na desumanização dos mais pobres e dos negros, tratados como coisas que podem levar bala nas imagens desse tipo de programa, quanto na adesão à política pela fé, a grande sacada dos atuais protagonistas da articulação religiosa-militarista que figuras como Bolsonaro representam.
A personificação, a valorização do indivíduo, do “Um” que é só ele, jamais um+um, garante que personagens como Bolsonaro e até mesmo Sergio Moro possam encarnar como “O Um”. “O Um” contra o mal, ungido pelas “pessoas de bem”, dispostas a linchar quem estiver no caminho. Afinal, se a luta é do bem contra o mal, tudo não só é permitido como abençoado.
Não testemunhamos apenas a politização da justiça, mas algo possivelmente ainda mais perigoso: a “religiosização” da política
Não há nada mais perigoso numa eleição do que o eleitor que acredita ser “um instrumento de Deus”, absolvido previamente por todos os seus atos, mesmo que eles sejam sórdidos ou até criminosos. Como a lei que vale não é a terrena, laica, mas ditada diretamente do alto e, com frequência, diretamente ao indivíduo, tudo é permitido quando supostamente “Deus estaria agindo”. Não testemunhamos apenas a politização da justiça, mas algo possivelmente ainda mais destruidor: a “religiosização” da política. E ela tem como primeiro efeito a política da antipolítica.
Figuras como Bolsonaro se beneficiam da crise econômica, do crescimento da violência e da produção de medo, sim. Mas sua força vem de uma população treinada para aderir pela fé ao que não diz respeito à fé. Por isso é possível até mesmo fazer política e se dizer apolítico. Se o imperativo é crer, a adesão já está garantida não importa o conteúdo do discurso, desde que a dramaturgia garanta entretenimento, espetáculo. Embora pareçam desacreditar de quase tudo em suas manifestações na internet, ninguém se iluda. Uma parte significativa do eleitorado brasileiro é formada por crentes. E ser crente hoje no Brasil tem um sentido e um alcance muito mais amplo do que em qualquer momento da história do país.
A autoverdade desloca o poder para a verdade do um, destruindo a essência da política como mediadora do desejo de muitos. Se o valor está no ato de dizer e não no conteúdo do que é dito, não há como perceber que não há nenhuma verdade no que é dito. Bolsonaro não está dizendo a verdade quando estimula o ódio aos gays, mas sendo homofóbico. Não está dizendo a verdade quando agride negros, mas sendo racista. Não está dizendo a verdade quando diz que não vai estuprar uma mulher porque ela é feia, mas incitando a violência contra as mulheres e sendo misógino. Há nome na língua para tudo isso e também artigos no Código Penal.
Os jovens da periferia que aplaudem Bolsonaro precisam perceber que o discurso da meritocracia é a sacanagem que os cimenta no lugar do qual gostariam de sair
Muitos daqueles que o aplaudem, especialmente os jovens nas periferias, não percebem que o discurso da meritocracia proclamado pela extrema-direita que Bolsonaro representa é justamente a sacanagem que os mantêm no lugar cimentado do qual gostariam de sair. Não existe meritocracia, ascensão apenas por méritos próprios, sem partir de bases minimamente igualitárias.
Jair Bolsonaro é a encarnação de um fenômeno muito maior do que ele, do qual ele se aproveita. Tanto quanto Donald Trump, em nível global. A tragédia é que eles possivelmente sejam só os primeiros.
O desafio imposto tanto pela pós-verdade como pela autoverdade é como devolver a verdade à verdade
O desafio imposto tanto pela pós-verdade quanto pela autoverdade é como devolver a verdade à verdade. Não faremos isso sem tomar partido por escola de qualidade para todos, apoiando aqueles que lutam por isso de maneira muito mais contundente do que fazemos hoje, assim como pressionando por políticas públicas e investimento, e questionando fortemente os candidatos para além da retórica fácil. Nem faremos isso sem a recuperação do sentido de comunidade, o que implica a reapropriação do espaço público para a convivência entre os diferentes, assim como a retomada da cidade. Temos que voltar a conviver com o corpo presente, compartilhando os espaços mesmo e – principalmente – quando as opiniões divergem. Temos que resgatar o hábito tão humano de conversar. E conversar em todas as oportunidades possíveis.
E isso não amanhã. Ontem. A verdade do momento é que estamos ferrados. Outra verdade é que, ainda assim, precisamos nos mover. Juntos. Não por esperança, um luxo que já não temos. Mas por imperativo ético.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum

10 setembro, 2018

"Quando o judiciário e parte da sociedade brasileira fazem de conta que está tudo bem ameaçar de morte publicamente a oposição política e que as instituições estão funcionando mesmo com a violência e o ódio de ocasião mobilizados pela campanha da extrema direita no Brasil, todos nós perdemos, e não é pouco, com a naturalização da barbárie.''


O artigo é de Patrícia Valim, publicado pelo site Brasil de Fato

A faca entrou na democracia e deflagrou a disputa entre a civilização e a barbárie

Todos nós perdemos, e não é pouco, com a naturalização da barbárie / Arte/Dreamstime

“A faca entrou” é o nome do novo livro publicado no Brasil de Theodore Dalrymple, pseudônimo do médico psiquiatra britânico Anthony Daniels, com larga experiência clínica em países como Zimbábue e Tanzânia, além de atuar em presídios ingleses.

Tal experiência é mobilizada pelo autor para criticar no livro os “excessos do comunismo” e aquilo que ele chama de “vitimização fomentada pelo assistencialismo governamental”, transformando-o em referência de nomes como Olavo de Carvalho e Luiz Felipe Pondé, e livro de cabeceira de onze entre dez liberais.

Não à toa, Daniels esteve em São Paulo em abril desse ano a convite do Instituto Liberal, quando proferiu palestra para um auditório lotado com 600 pessoas, entre as quais eleitores de João Dória Jr., Geraldo Alckmin, Paulo Skaf e Jair Bolsonaro. No final do evento, alguns presentes gritaram as palavras de ordem: “Fora, Petralhas” e “Fora Lula, Fora PT”.

“Petralha” é o termo usado para designar criminalmente pejorativamente membros do Partido dos Trabalhadores e para criminalizar as políticas dos governos petistas durante o período de 2003 a 2013, no qual o Estado de Bem Estar Social se consolidou por meio de planos, projetos e políticas de integração nacional, reparação social e de transferência de renda com contrapartida, tirando 40 milhões de pessoas da miséria absoluta e diminuindo as históricas desigualdades brasileiras do chamado “Brasil profundo”.

Esse mesmo Estado durante os governos petistas, no entanto, também foi responsável pelo “capitalismo de conciliação”: a melhoria substancial de todas as classes sociais, incluindo a classe dominante nas figuras de banqueiros, empresários e os responsáveis pelos chamados “campeões” nacional. Isso explica o fato de que a maioria dos políticos que vociferam o termo “petralha” tenha sido base aliada dos governos petistas desde 2003, entre eles o Deputado Federal e presidenciável, Jair Bolsonaro.

Há duas semanas, durante um comício no Acre, o mesmo presidenciável simulou descarregar um fuzil ao tempo em que gritava que “vamos fuzilar a petralhada toda aqui do Acre”. Não foi a primeira manifestação de ódio contra os membros do Partido dos Trabalhadores de Jair Bolsonaro. Também não foi a primeira vez que a imprensa e a justiça brasileiras foram lenientes com a apologia à violência escancarada pela campa nha da extrema direita e mobilizada pela grande imprensa desde 2013.

Na semana que passou, por exemplo, o PT entrou com processo contra o Deputado Federal por injúria eleitoral, incitação ao crime e ameaça, mas a Procuradora Geral da República, Rachel Dodge, não só descartou o crime de injúria eleitoral por “tratar-se de ofender alguém na campanha” (o presidenciável estava fazendo comício!), como afirmou que “o termo petralhada não personifica ninguém”.

Quando o judiciário e parte da sociedade brasileira fazem de conta que está tudo bem ameaçar de morte publicamente a oposição política e que as instituições estão funcionando mesmo com a violência e o ódio de ocasião mobilizados pela campanha da extrema direita no Brasil, todos nós perdemos, e não é pouco, com a naturalização da barbárie.

A começar pelo próprio presidenciável Jair Bolsonaro que, infelizmente, na semana que passou, foi esfaqueado durante a campanha nas ruas de Juiz de Fora em um ato violento e inadmissível, amplamente repudiado e prontamente investigado. Como o agressor foi preso em flagrante, parte da imprensa descobriu que ele foi filiado ao PSOL e tratou de buscar os vínculos entre a violência do agressor e sua militância, criminalizando mais uma vez o exercício político da esquerda brasileira. 

Marina da Silva, novamente presidenciável em 2018, não demorou a declarar que o atentado a Jair Bolsonaro foi um ataque à democracia e por meio de um feminismo de ocasião conclamou as mulheres a defendê-la, mas a ex-senadora nunca repudiou publicamente as declarações de Jair Bolsonaro elogiando os feitos findos do torturador Brilhante Ustra e desejando que a ex-presidenta Dilma Rousseff morresse de câncer durante o impeachment/golpe de 2016.

O presidenciável do PSL, por sua vez, após sair da zona de risco de morte, na primeira oportunidade deixou-se fotografar simulando fuzilar outrem, respondendo com a violência que lhe é usual, e recendo o colega pastor Silas Malafaia que rapidamente atribuiu a autoria do atento aos petistas mineiros.

Após o condenável atentado, grupos de extrema direita se manifestaram pelo país: usaram verde e amarelo, cantaram o hino nacional, rezaram pela saúde de Jair Bolsonaro, pediram “direitos humanos para humanos direitos” e ameaçaram de morte “petralhas” e opositores políticos que repetem “Eu sou Lula” cuja frase foi proibida pelo ministro Luís Felipe Salomão, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por considerá-la uma “afronta” à decisão do colegiado pela impugnação da candidatura de Lula.

No mesmo final de semana, no jornal Valor, o cientista político estadunidense Steven Levitsky, da Universidade de Harvard, afirmou que participou de um encontro fechado com 15 empresários brasileiros que juntos concentram boa parte do nosso PIB e todos eles declararam apoiar Jair Bolsonaro (PSL) contra Fernando Haddad (PT) no segundo turno.

 No domingo, dia 9, o Comandante do Exército Brasileiro, general Villas Boas, afirmou em entrevista exclusiva ao jornal O Estado de São Paulo que o atentado a Jair Bolsonaro pode questionar a legitimidade do novo governo eleito no Brasil e que as forças armadas serão mobilizadas para a manutenção da “estabilidade democrática” no país em eventual deflagração de conflito em razão do resultado das eleições de 2018.

No início dessa segunda-feira, o sítio da InfoMoney publicou o resultado de uma nova pesquisa FSB/BTG após o atentado: Jair Bolsonaro sobe de 26% para 30% das intenções de voto, conquistando consolidada posição no segundo turno enquanto os demais candidatos a segunda vaga aparecem “tecnicamente empatados” nessa nova categoria heurística criada pelos institutos de pesquisa nessas eleições de 2018.  

Seja como for, “a faca entrou” no corpo de um presidenciável e na essência de nosso Estado Democrático, e explicitou aquilo que não poderá ser negado daqui a algumas décadas por desconhecimento ou distração pelos apoiadores da política da violência e do ódio: as eleições de 2018 representam a disputa entre a civilização e a barbárie. Entre o Estado Democrático de Direito e o Estado de Exceção. Entre a Democracia e o Fascismo, enfim. 


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*Patrícia Valim é professora de história do Brasil colonial da Universidade Federal da Bahia, conselheira do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Perseu Abramo. Mãe de Ana, Bento e Maria, e avó de Maria Antônia. email: patricia.valim@ufba.br

1ª Romaria das Juventudes - Regional Sul II - Paraná


Dia Internacional de luta contra a OMC e os Tratados de Livre Comércio Dez de Setembro!

A jornada de luta denuncia a OMC a série de Acordos de Livre Comércio, bilaterais e multilaterais, que tem criado níveis de desigualdades críticos no mundo.


Da Via Campesina Internacional

Organismos internacionais como a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), que promovem, direta e indiretamente, uma série de acordos comerciais bilaterais e multilaterais,  tem criado níveis criminais de desigualdades no mundo, onde de acordo os dados da OXFAM, 82% da riqueza mundial é controlada atualmente por 1% da população.

A fome mundial está aumentando novamente e a Soberana Alimentar dos povos está sob grande ameaça. Este é o resultado de uma pressão persistente, durante sete décadas, para adotar políticas neoliberais, que promovem regime de “livre comércio” em todo o mundo. Como consequência a privatização e o desmonte enriquecem aos ricos, enquanto a pobreza e a fome no mundo continuam em níveis criticamente altos.

É um crime imperdoável que coloca em questão a existência dessas instituições e os acordos de livre comércio que eles promovem. Tudo o que esses acordos garantiram é a liberdade das multinacionais de despejar alimentos baratos em países economicamente mais fracos, depois de receberem grandes subsídios de seus governos ricos.

Isso, juntamente com um impulso para um sistema agrícola industrial, é a razão pela qual os grãos de alimentos são vistos como produtos com os quais especular e comercializar, com camponeses e agricultores familiares que não podem sequer cobrir o custo do cultivo. Tudo isso destruiu as comunidades camponesas e devastou os mercados de pescadores e camponeses. O aumento na privatização dos serviços aumentou o custo de vida, enquanto os níveis de renda das famílias camponesas despencaram. A dívida resultante levou milhões de famílias camponesas a um endividamento profundo.

Este sistema de agricultura industrial promovido pelo trio criminoso da OMC, do Banco Mundial e do FMI, levou à consolidação e controle da cadeia alimentar global nas mãos de algumas empresas do agronegócio, criando um impacto devastador no planeta, suas pessoas e todas as espécies vivas.

Organizar, formar e mobilizar! 

Foi para destacar essa extrema violação na vida no campo que, em 10 de setembro de 2003, Lee Kyung Hae - um produtor de arroz da Coréia do Sul e líder de nosso movimento camponês - tirou a própria vida do lado de fora da reunião ministerial do OMC em Cancun, México. Enquanto sacrificava sua vida para expor os crimes da OMC e os acordos de livre comércio, Lee segurava uma faixa que dizia: "A OMC mata os camponeses".

Desde aquele dia, tomamos a data de 10 de setembro para comemorar o Dia Internacional de Luta contra a OMC e os Acordos de Livre Comércio, mobilizando nossos membros contra o ataque do capitalismo global e regimes de livre mercado. Denunciamos a OMC em todas as reuniões ministeriais realizadas desde então por meio de ações diretas.

Este ano vamos também intensificar a resistência. Vários acordos bilaterais e multilaterais, como RCEP, CPTPP, UE-Mercosul, CETA e outros, estão sendo negociados freneticamente por países e organizações globais a portas fechadas, sem respeitar a democracia e a soberania nacional.

No período que antecedeu 10 de setembro, convocamos todas as nossas organizações membros, aliadas, aliadas nas cidades e campos e todos os amigos para organizar passeatas, reuniões públicas e ações que continuarão a denunciar a existência da OMC, do Banco Mundial. e o FMI, além de expor os detalhes desses acordos que ameaçam tirar a Soberania Alimentar das pessoas e permitir a expansão dos mercados para o agronegócio multinacional.

Devemos ecoar, em nossas próprias e diferentes formas de luta descentralizada, o apelo de Lee Kyung Hae: "A OMC e os acordos de livre comércio matam os camponeses".

No dia 10 de setembro, a Via Campesina também anunciará um massivo esforço de mobilização contra o trio criminoso do Banco Mundial, do FMI e da OMC. Pedimos a todas as nossas organizações membros que se unam e mostrem o poder da resistência das pessoas.

Em marcha, agora!
A OMC mata camponeses!
Agricultura de todas as negociações de livre comércio!
Queremos a soberania alimentar, não o livre comércio!



Fonte:  Site do MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

A violência destrói!


"A violência destrói o que ela pretende defender:
 a dignidade da vida, a liberdade do ser humano."

(São João Paulo II)

Jovem, negro, candidato do PT é baleado à queima-roupa pela polícia no Paraná

www.brasil247.com - 09 de setembro


Jovem, negro, candidato do PT é baleado à queima-roupa pela polícia no Paraná

Renato Almeida Freitas Jr., candidato do PT a deputado estadual no Paraná, jovem, 
negro, foi baleado por duas vezes no começo da noite deste domingo pela pela Guarda Municipal de Curitiba durante panfletagem na Praça do Gaúcho -ele levou tiros de bala de borracha à queima-roupa em uma das mãos e nas costas. Mesmo ferido, foi preso. Assista o vídeo que ele fez no camburão em que era transportado pelos policiais e postou, ao vivo, em sua página no Facebook, às 19h51. 

Renato é advogado criminalista e já foi candidato a vereador pelo PSOL. "Eu não estava fazendo nada, só estava panfletando", relata ele no vídeo.

Ele foi internado no Hospital do Cajuru e depois seria encaminhado para o 1° Distrito, no centro da cidade. Dr. Rosinha, presidente do PT Paraná e candidato a governador pelo partido. 

Leia a nota do PT do Paraná e, a seguir, assista o vídeo:

"Nesta noite de domingo, 09, o candidato a deputado pelo PT Paraná, Renato Almeida Freitas, fazia panfletagem no centro de Curitiba e foi agredido pela Guarda Municipal, que o atacou com balas de borracha e o levou preso. Nenhum motivo para a prisão e nem para a violência policial.

Da mesma forma, no dia 07, durante o desfile cívico, Edna Dantas, candidata a deputada estadual pelo PT-PR, realizava manifestação em prol da libertação do presidente Lula junto a outros militantes do partido e foram agredidos e detidos pela Polícia.

Nos dois casos, a única explicação para a perseguição é que ambos são negros, do PT e dos movimentos sociais. O que estamos vendo é uma assustadora onda crescente de violência e perseguição a quem se manifesta e luta a favor dos oprimidos.

Não houve nenhuma preocupação com os ônibus da Caravana do Presidente Lula que giram alvejados, estamos há seis meses sem saber quem matou Marielle e ainda o judiciário determina que não podemos nos manifestar em apoio a Lula.

Estive hoje acompanhando, logo que soube, o desenrolar da prisão arbitrária do Renato. Como estarei solicitando desde já apuração sobre desvio de função policial em ambos os casos.

Estou ao lado da Democracia e, portanto, lutando contra o estado de exceção que vivemos. Basta de perseguição! Basta de violência!

Dr. Rosinha
Presidente do PT Paraná"

Para Refletir

“Guarda-te de jamais fazer a outrem o que não 
quererias que te fosse feito” 
(Tb 4,16).