10 fevereiro, 2021

Vacinação contra Coronavírus - Prefeitura de Maringá


Nesta quarta, 10 de fevereiro de 2021

- idosos com mais de 90 anos
- trabalhadores da saúde com mais de 50 anos que atuam em atividades hospitalares, extra-hospitalares

Não é real a informação que circula pela internet

A Secretaria de Saúde informa que não é real a informação que circula pela internet com datas de vacinação no mês de março. Não é possível estabelecer programação a médio e longo prazo para a vacinação contra a Covid-19, porque depende da chegada das doses, que são compradas e distribuídas no Brasil pelo Ministério da Saúde.

Você mantém sua webcam desligada nas reuniões online?

Você mantém sua webcam desligada nas reuniões online? Muito bem: você polui 96% menos (o mesmo se aplica se você reduzir a qualidade do streaming na Netflix e similares)

Muitas das atividades sociais pré-pandêmicas, das reuniões de negócios aos encontros com os amigos, tornaram-se virtuais e acontecem por meio de uma tela de computador. Aproveitando aplicativos como Zoom, Google Meet e similares, os encontros online agora são um hábito. Assim como os retângulos pretos na tela para distinguir os participantes da reunião que não ativaram a webcam.

A reportagem é de Andrea Indiano, publicada por Business Insider, 02-09-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Agora quem não gosta de aparecer na câmera em eventos virtuais pode justificar sua escolha por um motivo virtuoso: manter a webcam desligada ajuda o meio ambiente.

Quem explica isso e a universidade estadunidense de Purdue, que analisou o consumo de energia produzido por um PC durante uma conexão de vídeo. No texto original, os pesquisadores explicam que uma hora de videoconferência ou streaming faz com que o computador emita entre 150 e 1.000 gramas de dióxido de carbono e consuma entre 2 e 12 litros de água. Números prejudiciais à saúde da Terra. Mas deixar a câmera desligada pode reduzir esses números em 96%, de acordo com a pesquisa.

Uma redução semelhante nas emissões prejudiciais ocorre durante o streaming em definição padrão, em vez de em alta definição em sites como a Netflix.

De fato, os computadores e demais aparelhos eletrônicos que utilizamos para navegar na internet contribuem para a poluição, pois seus sistemas de refrigeração emitem gases nocivos ao meio ambiente. Quanto maior a demanda de energia, como é o caso da exibição de vídeos, maior é a poluição produzida.

O estudo de Purdue, conduzido em conjunto com a igualmente prestigiosa Yale University e o MIT (Massachusetts Institute of Technology), empenhou-se em analisar os danos ao meio ambiente causados pelas infraestruturas da Internet.

A poluição pela Internet já havia aumentado antes da pandemia, respondendo por cerca de 3,7% das emissões globais de gases de efeito estufa. O aumento no uso da Internet durante os períodos de lockdown e o aumento resultante de encontros com webcam pioraram a situação. Algumas nações relataram um aumento de pelo menos 20% no tráfego da web desde março de 2020. A equipe da Purdue analisou as emissões de gases de efeito estufa associadas a cada gigabyte de dados usados no YouTube, Zoom, Facebook, Instagram, Twitter, TikTok e outras 12 plataformas, bem como em videogames online e navegação na web em geral. Como previsto, quando os aplicativos usam o vídeo, aumentam os gases nocivos produzidos.

“Sabemos do impacto ambiental positivo trazido pelo abandono do papel, mas ninguém conhece a vantagem de desligar a câmera ou reduzir a qualidade do streaming. Portanto, sem o consentimento dos usuários, essas plataformas estão aumentando o impacto ambiental dos usuários individuais", disse Kaveh Madani, que liderou o estudo. Sua equipe coletou dados do Brasil, China, França, Alemanha, Índia, Irã, Japão, México, Paquistão, Rússia, África do Sul, Reino Unido e Estados Unidos. As estimativas são aproximadas, afirmam os pesquisadores, porque só puderam analisar os dados disponibilizados pelos prestadores de serviços e terceiros. Mas a equipe acredita que as estimativas ajudam a documentar a tendência e trazer mais atenção sobre os danos ambientais causados pelo uso da internet. As pessoas por trás dos retângulos pretos durante as videochamadas não serão mais vistas como tímidas ou esquivas, mas podem ser consideradas comprometidas com o bem-estar da Terra.

Fonte: IHU

08 fevereiro, 2021

Uber e a superexploração do trabalho

Crescimento da corporação estadunidense baseou-se na dissolução de vínculos e em distorções do capital-trabalho. Uniu-se à indústria de automóveis e reordenou cidades. Qual seu papel na destruição de direitos e exploração da América Latina?

O artigo[1] é de Roberta Traspadini, Professora Adjunto da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), e Marisa Amaral, Professora Associada do Instituto de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (IERI/UFU), publicado por Outras Palavras, 02-02-2021.


Eis o artigo.

“En esta parte de la tierra la historia se cayó
como se caen las piedras aun las que tocan el cielo
o están cerca del sol o están cerca del sol.

Desamor desencuentro, perdón y olvido
cuerpo con mineral, pueblos trabajadores
infancias pobres, cinco siglos igual”

(Cinco siglos igual, de León Gieco)

No presente texto, pretendemos pensar em voz alta sobre algumas questões que nos parecem importantes para, mais à frente, retomarmos o tratamento sobre as novas formas que vem assumindo a superexploração da força de trabalho. Objetivamos, assim, duas coisas: i) responder a parte das perguntas que surgem como fruto da problematização sobre a atualidade da superexploração na América Latina atual, a partir da compreensão de como opera a empresa Uber, cuja atuação trouxe o mote para o que vem sendo chamado de uberização do trabalho; ii) explicitar as diferenças que estabelecemos com as interpretações teóricas e políticas que entendem a superexploração como um fenômeno único, generalizado na economia mundial no século XXI – sem especificar a tônica de sua particularidade na dinâmica da América Latina e desta no mundo regido pelo capital –, e também com a vertente sociológica da precarização, dos sentidos e do mundo do trabalho, que, ao ler o momento atual, passa ao largo de relações e mediações necessárias com os processos históricos dos séculos anteriores.

Em tempos de primazia do setor serviços, da extração de mais-valia em formas ainda mais violentas que as anteriores, tanto qualitativa quanto quantitativamente, e sob a lógica neoliberal de flexibilização das leis trabalhistas e de aniquilamento de parte da autonomia – já débil e relativa – que os Estados periféricos tendem a reger no plano da governabilidade dentro do metabolismo geral do capital, amplia-se a violência sobre e contra a classe trabalhadora. A mais nova delas envolve a ilusão de propriedade que o grande capital projeta sobre os trabalhadores, convertendo-os em “empreendedores” de um negócio que, de fato, nunca banca sua sobrevivência e de seus familiares. Com base nisso, entender o impacto da tecnologia (sobretudo das novas tecnologias de informação e comunicação) na produção e apropriação de valor torna-se fundamental.

As perguntas que conduzirão nossa reflexão são: a Uber é apenas uma plataforma de serviços tecnológicos ou é mais que isso? Quais as diferenças substantivas entre a Uber EUA (sede) e a Uber Brasil? O que a marca não revela para além do marketing generalizado da esperança de emprego e renda na era de reiterada crise do capital?[2]
Algo sobre o capital financeiro e o “capital Uber”

Desde sempre as multinacionais possuem estratégias globais; o plano mundial é a esfera própria de atuação do capital e a fase do chamado capital financeiro e da exportação de capitais alavanca essa máxima. Um corolário disso é o fato de que as multinacionais hoje não precisam mais necessariamente produzir na periferia capitalista, menos ainda na latino-americana, não precisam mais manter aqui plantas produtivas. Com a emergência das mal denominadas “cadeias globais de valor” e com um deslocamento explícito do eixo da acumulação de capital, em que joga papel fundamental o próprio capital fictício, a forma de estabelecimento e manutenção das relações imperialistas sofre modificações.

Façamos aqui uma breve pausa para aclarar algumas categorias teóricas importantes. O capital financeiro é definido por Rudolf Hilferding, em 1910,[3] como resultado de uma união heteroesférica entre capitais, ou seja, a união entre capitais que atuam em diferentes esferas sociais. Trata-se, neste caso, da união entre capital industrial/produtivo e capital bancário/monetário, sob o predomínio do segundo. Diz ele:

Uma porção cada vez maior do capital da indústria não pertence aos industriais que o aplicam. Dispõem do capital somente mediante o banco, que perante eles representa o proprietário. Por outro lado, o banco deve imobilizar uma parte cada vez maior de seus capitais. Torna-se, assim, em proporções cada vez maiores, um capitalista industrial. Chamo de capital financeiro o capital bancário, portanto o capital em forma de dinheiro que, desse modo, é na realidade transformado em capital industrial. Mantém sempre a forma de dinheiro ante os proprietários, é aplicado por eles em forma de capital monetário – de capital rendoso – e sempre pode ser retirado por eles em forma de dinheiro. Mas, na verdade, a maior parte do capital investido dessa forma nos bancos é transformado em capital industrial, produtivo (meios de produção e força de trabalho) e imobilizado no processo de produção. Uma parte cada vez maior do capital empregado na indústria é capital financeiro, capital à disposição dos bancos e, pelos industriais. (Hilferding, 1985, p. 219, grifos nossos)

O capital fictício, em linhas muito gerais (e, certamente, muito imprecisas, pois não teríamos espaço para, nesse texto, tratar o capital fictício com o devido aprofundamento), é um desdobramento do capital portador de juros – este pode ser entendido como um capital dinheiro que é emprestado a um capitalista produtivo e que garante a seu detentor um direito de recebimento de parte da mais-valia extraída sob a forma de juros. O capital fictício envolve papéis, títulos que representam direitos de apropriação sobre produção futura, o que significa que o valor monetário presente desses títulos não representa valor algum, uma vez que o valor no qual os papeis se baseiam ainda sequer existe (e pode jamais ser produzido). Sendo assim, o valor de mercado dos títulos tem um forte componente especulativo, pois se baseia em receita esperada cuja concretização depende de uma série de outros fatores.

Essa constatação nos traz inúmeros problemas, não só do ponto de vista teórico-analítico, mas também político-estratégico. Neste texto pretendemos buscar alguns elementos para tentarmos avançar alguns passos na interpretação de certos fenômenos e no significado disso para a América Latina. Pelo peso da proposta, fica explícito que seremos incapazes de esgotar a discussão neste ensaio (e, assim, vamos ampliando nossa série).

Nos interessa agora tratar de uma multinacional específica, em particular porque dela derivará uma forma de trabalho absolutamente nova no cenário mundial (ou, talvez, uma forma de trabalho absolutamente velha, mas com uma roupagem absolutamente nova; precisamos pensar), com efeitos avassaladores sobre a classe trabalhadora, não apenas do ponto de vista físico e das suas condições materiais de reprodução, mas também em sua condição de existência, de reconhecimento, de identificação, de consciência e, logo, de organização.

A Uber Technologies Inc. é uma empresa multinacional com sede na cidade de São Francisco, estado da Califórnia, nos EUA. A empresa foi fundada em março de 2009 por Garrett Camp e Travis Kalanick e, em maio de 2019, converte-se numa empresa de capital aberto (uma Sociedade Anônima) ao iniciar a venda de suas ações na Bolsa de Valores de Nova Iorque (a NYSE, do inglês New York Stock Exchange). Apesar de atuar no transporte urbano privado, tanto por meio do transporte de pessoas quanto de alimentos (a Uber Eats), a Uber é, na realidade, uma prestadora de serviços eletrônicos, uma vez que seu produto é um software desenvolvido para ser instalado em dispositivos eletrônicos móveis como um smartphone, por exemplo; em outras palavras, seu produto é um aplicativo móvel, ou um app.

Na realidade, depois de muito refletirmos, talvez o mais preciso a afirmar seja que a Uber começa como uma empresa de tecnologia para a área de transporte e se converte numa empresa da área de transporte, mudando paradigmas, inclusive. É o que nos indica o acordo de parceria firmado com a Volvo em 2016 para a produção de carros 100% autônomos, a parceria com a Nasa para produção de “carros voadores” e mesmo sua atuação no serviço de táxi aéreo. Voltemos, no entanto, ao app.

Qualquer pessoa com pré-requisito mínimo[4] pode “vincular-se” à empresa como ofertante do serviço de transporte. As aspas que utilizamos são propositais. A rigor, não há vínculo algum entre o ofertante do serviço de transporte e a ofertante do app, a Uber. O motorista ou entregador de alimentos não é um funcionário contratado pela empresa. É alguém que, autonomamente, se utiliza do aplicativo para oferecer seus serviços a terceiros, o que coloca a Uber como nada além da tecnologia (ou uma parte dela, porque, claro, seu funcionamento exige, pelo menos, um aparelho eletrônico móvel, um plano de internet móvel e um meio de transporte) que media a relação entre o prestador de serviço (o trabalhador) e aquele que o contrata (o comprador).

Só isso nos permite levantar uma série de questões-chave para as preocupações que nos ocupam. A primeira – e talvez mais evidente – é uma espécie de deturpação, distorção e falsificação da relação capital-trabalho. O comprador da força de trabalho deixa de ser o capital e passa a ser o comprador da mercadoria que a força de trabalho produz, o serviço que ela presta. No entanto, o pagamento da força de trabalho é feito pela empresa, que recebe o pagamento integral que o consumidor final faz pelo serviço, retém parte dele e, então, repassa ao trabalhador aquilo que a empresa define que lhe compete. E essa definição passa, inclusive, pelo preço imposto ao serviço prestado, à corrida. Fiquemos apenas nessa primeira problematização e pensemos o Brasil nesse contexto.
Uber Brasil: filial de destaque na dinâmica geral de reprodução ampliada do “capital uberizado”

A Uber Brasil é uma filial da Uber EUA que recebe tecnologia como forma e conteúdo de propagação de seu poder e faz remessas líquidas de lucros sobretudo via apropriação direta de parte dos rendimentos dos trabalhadores que atuam pelo aplicativo, algo que se viabiliza, inclusive, por meio de um jogo político que leva a cabo mudanças nas legislações trabalhistas em diversas partes do mundo.

Como filial, a Uber Brasil reproduz internamente a lógica de dominação desta multinacional com as características próprias da sociedade da tecnologia informacional, dimensionando o trabalho por aplicativo como a forma de ser típica de uma sociedade supostamente “avançada”. Nesse sentido, a partir do Brasil, a Uber reproduz na América do Sul as estratégias direcionadas de dominação do capital sobre e contra o trabalho, a partir de seus tentáculos irradiados do Norte para controle econômico, territorial, simbólico e político da região. A Uber Brasil é, portanto, parte integrante, forma combinada, particular, de um conteúdo geral chamado capital financeiro hegemônico líder na atual era das tecnologias da informação.

É uma máquina de produzir lucro e fetiches. E, à sombra dos dois, reproduzir a histórica relação de dominação contra os povos a partir da superexploração da força de trabalho em sua forma substantiva, na América Latina, e superlativa na economia mundial.

As parcerias da indústria da plataforma com a indústria automotiva explicitam, no âmbito mundial e latino-americano, a forma como, no plano político, estes capitais ordenarão as cidades, a partir do que chamam de uma nova matriz de mobilidade urbana. Nesse sentido, a empresa, que nasce pequena, agiganta-se no final da primeira década do século XXI e, na associação com várias formas de capital, mantém o jogo histórico do capital de intensificar as formas de exploração da força de trabalho, com vistas ao contínuo processo de valorização do capital.

A exaustão, as intensas e prolongadas jornadas de trabalho e a redução dos pagamentos por unidades de entrega (aos moldes do salário por tempo e do salário por peça discutidos por Marx)[5] dão a dimensão do que significará nos próximos anos a flexibilização das leis trabalhistas, com afã de seu extermínio e da extensão da superexploração. Como demonstrado no documentário “GIG – A Uberização do Trabalho”, se em um primeiro momento um trabalhador conseguia, segundo seu próprio relato, após 45 entregas no mês, tirar mais de R$5.300,00 em setembro de 2015, no mesmo período do ano seguinte não alcançava a cifra de R$2.300,00 pelo dobro de produtos entregues: 93.
Considerações nada finais

A Uber é um capital monopolista (na acepção leniniana do termo) que lucra, cada vez mais, com a associação entre capitais produtivos e improdutivos no âmbito internacional; incide diretamente no plano da política neoliberal e de redução de direitos em cada uma das economias em que atua; investe de forma potente no marketing político de disseminação da era sustentável e da diversidade e, acima de tudo, vende e propagandeia que o trabalho no século XXI é sinônimo de negócio próprio; atua diretamente na incidência de mecanismos de transferência de valor das economias periféricas às economias centrais, em particular, neste caso, os EUA.

Nas articulações que tem feito com Toyota, Boing, Volvo, Nasa, a Uber explicita que, nos próximos anos, o que começou como plataforma na primeira década do século XXI, transformou-se em um movimento gigantesco de marca consolidada em diferentes âmbitos da mobilidade urbana terrestre (carros, bicicletas, carros autônomos e semiautônomos), aérea e espacial – por meio de sua atuação no setor de táxi aéreo e nas pesquisas para o desenvolvimento de carros voadores.

A Uber é, portanto, um exemplo notório de capital financeiro monopolista, que expõe o quanto a hegemonia dos EUA está longe de deixar de ser referência no mundo e na América Latina. De forma que, junto com a marca, outra reflexão que se apresenta à luz de sua atuação no continente é a incidência direta da hegemonia dos EUA no território latino-americano, reiterando, como possibilidade, o subimperialismo brasileiro.

A Uber Brasil é a conexão entre os EUA e a América Latina a partir da estratégia lançada em 2018 de conformação de seu polo tecnológico de desenvolvimento de carros autônomos. Parece haver uma estratégia concreta de atuar no continente a partir do Brasil, disseminando a histórica relação de réplica no Sul da lógica de ser do capital operado e acumulado no Norte.

A venda da imagem e dos diferentes produtos Uber reforça, na dinâmica da relação de trabalho específica do século XXI (era informacional), a ideia de que já não se combinam mais trabalho e direitos mínimos, Estado regulador e luta social. Mais do que a venda de produtos, o que a Uber dissemina é a manutenção de uma histórica ordem violenta, dinamizadora, hoje, de um sentido de vida, ecoado como sentido único: o empreendedorismo. Basta de Estado! Basta de política! Basta de greve! Apenas trabalhemos mais tempo em busca de uma remuneração que nos permita consumir. Estas parecem ser as consignas concretas de reiteração da “nova ordem mundial”.

Como propagandeia a empresa em seu marketing social – em clara exaltação a um suposto êxito do empreendedorismo individual –, ao longo dos últimos cinco anos de atuação no Brasil, 22 milhões de usuários acessaram os serviços da plataforma que abriga mais de 600 mil trabalhadores. Diz a empresa que, pelo sucesso nos negócios, nas relações interpessoais entre consumidores e operadores da plataforma, os sujeitos responsáveis por 2,6 bilhões de viagens receberam R$35 milhões em gorjetas. Estas substituem o direito trabalhista ao assalariamento, à aposentadoria e demais processos trabalhistas; a moto e a bicicleta viram a nova ideia projetada de liberdade no trabalho e acesso ao emprego/dinheiro, conformando um fetichismo que somente desaparece quando ocorre um acidente e os/as trabalhadores/as ficam desprotegidos/as. Rita Von Hunty, em seu canal no YouTube, Tempero Drag, faz uma ótima e didática síntese deste processo.[6] Diz ela:

Esse rapaz que trabalha como entregador de uma rede de aplicativo, com a qual ele não tem vínculo empregatício, aluga uma bicicleta que não é dele, mas é uma ferramenta de trabalho que ele precisa para trabalhar, e entrega uma comida de um restaurante no qual ele não trabalha para uma pessoa que não o contratou. […] essa pessoa – que está em condições de subemprego e precisa se submeter a uma dinâmica na qual ela não tem direito trabalhista, carteira de trabalho ou vínculo empregatício com ninguém – é uma vítima do nosso tempo. […] O que acontece se essa pessoa sofrer um acidente enquanto trabalha? Será que o Itaú se responsabiliza por ela? Será que o aplicativo se responsabiliza por ela? Será que a pessoa que pediu a comida se responsabiliza por ela? Ou o restaurante? […] o que a gente tem é a destituição das esferas privadas e profissionais e uma mescla, uma união nociva dessas duas entidades que nunca deveriam se unir. […] não existe mais emprego das 9h às 18h ou das 8h às 17h. O que a gente tem é um regime de trabalho semi-intermitente. Todos nós “trabalhadores liberais” não somos nem liberais e nem libertos.

A Uber nasceu pequena e tornou-se uma gigante na era das tecnologias vinculadas à mobilidade social. É mais do que uma plataforma. É capital portador de juros, é capital produtivo, é capital fictício, é capital financeiro produtor e apropriador de mais valia, é máquina de incidência política e cultural na América Latina e no mundo no século XXI. Um capital potente na consolidação da alienação em sua nova e potente fase de violação da vida, do extermínio dos povos projetado a partir das plataformas e da criminalização de todo tipo de luta social no âmbito nacional. A Uber é uma nova empresa associada a velhos hábitos de dominação no continente. Nos termos de Gieco:

“soledad sobre ruinas, sangre en el trigo
rojo y amarillo, manantial del veneno
escudo heridas, cinco siglos igual”
(Cinco siglos igual, de León Gieco)
Notas

[1] Título original: O capital Uber e a Uber-alienação do trabalho. Faremos uma breve pausa na sequência de textos que vínhamos publicando sobre a superexploração da força de trabalho. A parada é proposital. Esse projeto, que começou com a ideia de uma intervenção em quatro textos, parece ter se tornado mais amplo, exigindo de nós, possivelmente, uma série de textos que, diga-se de passagem, não sabemos quando nem onde deve acabar. Fato é que essa exigência autoimposta nos veio em razão da percepção de certa carência de fundamentação para vários fenômenos concretos, cujas vinculações com a dependência latino-americana nos parecem claras, mas apenas nas nossas cabeças. O aprofundamento em análises de mediação se impôs e tem o propósito de nos permitir, com maior contundência, amarrar aspectos essenciais para a compreensão da superexploração da força de trabalho tal como vimos defendendo. Tudo isso passa por nossa crítica antecipada às interpretações que apontam para uma generalização da superexploração da força de trabalho a uma escala global, assumindo status de regra do jogo da acumulação de capital nos cantos todos do mundo. Como já deve estar claro aos que acompanham esta coluna, não concordamos com essa leitura. Mas é preciso dissecarmos as razões.

[2] Para respondermos a essas e outras questões, que passam pelo caráter substantivo e próprio da superexploração da força de trabalho na América Latina, utilizamos as informações presentes no próprio portal da Uber Technologies Inc., além de diversos textos de Ludmila Abílio, uma das principais referências no tema, e outros elementos interessantes contidos no documentário “GIG – A Uberização do Trabalho”, lançado em 2019 e dirigido por Carlos Juliano Barros, Caue Angeli e Maurício Monteiro Filho.

[3] HILFERDING, Rudolf. O Capital Financeiro. São Paulo: Nova Cultural, 1985. (Coleção Os Economistas).

[4] Para um motorista de Uber, o pré-requisito é ter carteira de habilitação válida, ter disponível um carro com licenciamento em dia e apresentar certidão negativa de antecedentes criminais; para um entregador de alimentos é preciso apresentar documentos do motorista e do veículo caso as entregas sejam feitas de carro ou moto, e documentos pessoais caso as entregas sejam feitas de bicicleta ou a pé.

[5] Ver capítulos 18 e 19 do Livro I de O Capital.

[6] O título do vídeo é Home Office e está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ytpEq9eCol4&feature=emb_logo

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Fonte: IHU


04 fevereiro, 2021

A morte não é nada!

A morte não é nada!


"A morte não é nada
Eu somente passei
Para o outro lado do caminho
Eu sou eu, vocês são vocês
O que eu era para vocês,
Eu continuarei sendo.

Me dêem o nome
Que vocês sempre me deram
Falem comigo
Como vocês sempre fizeram
Vocês continuam vivendo
No mundo das criaturas.

Eu estou vivendo
No mundo do criador.
Não utilizem um tom
Solene ou triste
Continuem a rir
Daquilo que nos fazia rir.

Rezem, sorriam
Pensem em mim.
Rezem por mim
Que meu nome seja pronunciado
Como sempre foi...
Sem nenhum traço de sombra ou tristeza.

A vida significa
Tudo o que ela sempre significou
O fio nao foi cortado.
Porque eu estaria
Fora de seus pensamentos
Agora que estou apenas fora de suas vistas?

Eu nao estou longe,
Apenas estou
Do outro lado do caminho...
Você que aí ficou,
Siga em frente,
A vida continua, linda e bela"...

A morte é uma passagem
Para a vida definitiva com Deus
Uma Vitória
Com aparência de derrota.
Não compreendemos de imediato
Os desígnios do Senhor.

Mas a fé e a confiança
Em sua infinita misericórdia
Nos dão o consolo
Para enfrentarmos com coragem
As surpresas do caminho.
Deus é o autor da vida.

Ele nos reserva um bem maior
Mesmo nos momentos de sofrimento.
A morte é uma irmã
Que nos conduz ao céu
É uma passagem
Ao mistério da vida, a ressurreição.

A esperança nos conforta
Nos faz seguir em frente
Sabemos em quem
Colocamos a nossa confiança
No Deus vida, que dá a vida
E não no deus da morte.

Ele transforma
A nossa morte
Em vida eterna
Ele é a esperança
Que move a nossa ação
Ele é, o valoroso alento da fé.

Ele é a certeza da ressurreição
Que nos impulsiona na missão.
"Aqui somos todos migrantes,
A nossa pátria é o céu ".
Da mortalidade para a imortalidade

Para um novo céu, uma nova terra (A casa do Pai). Meus sentimentos e minha oração pela feliz eternidade deste nosso irmão de caminhada...

+ Fontenele

Faleceu Padre Nelito Dornellas. Fez sua páscoa, com o nosso Deus esta.

Triste. Mais uma vida tirada pelo Covid-19
Faleceu Padre Nelito Dornellas. Fez sua páscoa, com o nosso Deus esta.
Falecimento ocorrido no dia 03/02/2021, às 22h05.
A explicação do “trem das CEBs” que conheço é dele, segue abaixo.
Companheiro da CEBs, membro da assessoria da CNBB.
Padre Nelito Dornellas, da Diocese de Governador Valadares, Minas Gerais.



O Trem - Símbolo dos Intereclesiais das CEBs se deve ao Frei Betto

Segundo Pe. Nelito Dornelas, Frei Betto é mineiro, ele morava em Vitória, em uma favela, quando acontecem os intereclesiais, o primeiro em Vitória, do Espírito Santo em 1975.

Vitória e Belo Horizonte tem o maior trem de passageiros do Brasil, que liga as duas capitais, mais ou menos 600 km de distância, essas duas capitais são simbolizadas pelo trem de passageiros. Então Frei Betto foi quem idealizou essa imagem para CEBs, a partir dessa experiência do maior trem de passageiros que liga essas capitais, explica Nelito.

Recorda Nelito, assim foi consolidado e foi também no encontro que aconteceu no Espírito Santo, em que frei Carlos Mesters estava assessorando as comunidades de São Mateus, lá também foi confirmado à ideia do trem de passageiro como símbolo das CEBs.

Então essa ideia explica Nelito, vai nascer do Frei Betto, que é mineiro morando em Vitória, onde acontece o primeiro intereclesial das CEBs e São Mateus, Espírito Santo, ali que vai nascer marcado pela experiência do trem de passageiros que o povo tinha como único meio de transporte barato, simples e popular.

A imagem tem a ver também com essa ideia de coisa do povo, coisa simples, coisa dos pobres, onde todo mundo pode entrar, levando sua carga, levando sua bagagem, levando seus mantimentos, porque o trem sempre foi isso, um meio de transporte barato do povo, assim conclui Nelito a explicação do trem como símbolo.

E a CEBs diz Nelito, simbolizam isso, lugar dos pobres que podem entrar com sua bagagem, sua cultura, sua história, com tudo aquilo que é, quer ser e precisa ser e pode ser para de fato ser Igreja dos Pobres.

Muito linda a história do nosso Trem das CEBs.

Dia da Fraternidade Humana.

Hoje "celebraremos o primeiro Dia da Fraternidade Humana. Vamos rezar e trabalhar todos os dias do ano para que possamos viver juntos no nosso mundo fraternalmente e em paz." (Papa Francisco)

Em 21 de dezembro do ano de 2020, em decisão unânime, a assembleia geral das Nações Unidos instituiu o dia 4 de fevereiro como o Dia Internacional da Fraternidade Humana.

A data coincide com a assinatura em Abu Dhabi, em 2019, do "Documento sobre a Fraternidade Humana", um compromisso para a construção de uma cultura de paz, tolerância, inclusão, compreensão recíproca e solidariedade.

02 fevereiro, 2021

Primeira Catequese Permanente – Tema ”Campanha da Fraternidade Ecumênica...

Power Point - Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021

Power Point
Campanha da Fraternidade Ecumênica
Fraternidade e diálogo: compromisso de amor
Do professor teólogo leigo Edward Guimarães, de Belo Horizonte

Leia ou faça Download AQUI



Rezemos juntos, pelas mulheres que são vítimas de violência

“Hoje, ainda existem mulheres que sofrem violência. Violência psicológica, violência verbal, violência física, violência sexual. O número de mulheres espancadas, ofendidas e violadas é impressionante. As diversas formas de maus-tratos que muitas mulheres sofrem são uma covardia e uma degradação para toda a humanidade. Para os homens e para toda humanidade. Os testemunhos das vítimas que se atrevem a quebrar o silêncio são um grito de socorro que não podemos ignorar. Não podemos olhar para o outro lado. Rezemos pelas mulheres que são vítimas de violência, para que sejam protegidas pela sociedade e o seu sofrimento seja considerado e escutado por todos.” (Papa Francisco)

Papa pede oração e proteção às mulheres, vítimas de violência:grito de s...

01 fevereiro, 2021

Dia Mundial dos Avós e dos Idosos

Papa Francisco institui o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, a ser celebrado a cada ano no quarto domingo de julho.

Foto: minha mãe e meu pai com a minha sobrinha Paula, neta deles.

“O Espírito Santo ainda hoje suscita pensamentos e palavras de sabedoria nos idosos: a sua voz é preciosa porque canta os louvores de Deus e conserva as raízes dos povos. Eles recordam-nos que a velhice é um dom e que os avós são a ligação entre as gerações, para transmitir aos jovens a experiência da vida e da fé. Os avós são muitas vezes esquecidos e nós esquecemos esta riqueza de preservar as raízes e de as transmitir. Por esta razão, decidi instituir o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, que terá lugar na Igreja inteira todos os anos no quarto domingo de julho, na proximidade da festa dos Santos Joaquim e Ana, os “avós” de Jesus. É importante que os avós se encontrem com os netos e que os netos se encontrem com os avós, porque - como diz o profeta Joel - os avós diante dos netos sonharão, terão ilusões [grandes desejos], e os jovens, haurindo força dos avós, seguirão em frente, profetizarão.” (Papa Francisco)

29 janeiro, 2021

O Reino aqui e agora Por Chico Machado

O Reino aqui e agora
(Chico Machado)

Mais uma sexta-feira (29) chega e nós vamos dando sequência às nossas vidas. O mês de janeiro caminha para o seu ocaso. O ano é novo, mas a conjuntura é velha. Vivemos agora um grande dilema. Cadê esta vacina que nunca chega? Criou-se uma expectativa que não está se cumprindo. Ao invés de organizar um calendário vacinal, tem pessoas que preferem mandar os repórteres para aquele lugar. Que situação! Jamais imaginaríamos que chegássemos a um momento como este, de estarmos diante de um enorme abismo de incertezas.

Estou aqui ainda repercutindo em mim a fala de Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde, afirmando que "Daqui a 60 dias, a gente pode ter uma mega epidemia". Segundo este médico, a transferência de pacientes de Manaus para outros estados vai ajudar a "plantar" uma nova cepa do coronavírus em todo o Brasil. Tal preocupação faz sentido, uma vez que uma grande maioria de infectados no Amazonas já apresentam a nova cepa brasileira do coronavírus. Mandetta ainda alerta que a nova mutação pode ser mais difícil de lidar, já que é mais infecciosa e possui características diferentes das que já foram estudadas pela comunidade cientifica internacional.

E agora, o que fazer? Já não bastava o que vínhamos passando ainda temos conviver com mais esta? Resta-nos rezar e pedir a Deus que tenha misericórdia, já que não dá para contar com um governo sério, responsável e comprometido com a vida das pessoas. Estamos a mercê da própria sorte. Enquanto isso, segue os pedidos de impeachment do mandrião. As igrejas, inclusive algumas evangélicas, engrossaram este pedido. Diferentemente do pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, afirmando que os evangélicos que pediram o impeachment, não representam a maioria dos fiéis desse segmento no País. Alguém precisa dizer a este senhor que as igrejas de aluguel, dos mercadores da fé, de fato, não estão inclusos no documento em questão.

De saber que Jesus veio anunciar o Reino de Deus e não a religião. Neste sentido, ELE não amou a religião em si, mas as pessoas. Desta forma, a nossa opção não deve ser por esta ou aquela religião, mas antes, pelo Reino de Deus. Está sobrando religião na vida das pessoas e faltando Deus. E, como nos dizia Mahatma Gandhi: “As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguimos por caminhos diferentes, desde que alcancemos os mesmos objetivos”? Mesmo que fora das religiões?

Mas que Reino é este afinal que Jesus veio anunciar? Nunca é demais lembrar que as esperanças messiânicas equivocadas do povo de Israel estavam centradas na vinda de um Messias conquistador militar que iria resgatá-los de seus inimigos geopolíticos. Não é atoa que eles tentam fazer de Jesus um rei/messias (João 6, 15). Ou seja, a proposta de Jesus não é entendida nem mesmo pelos seus discípulos. Entretanto, o mestre os reorienta e afirma com todas as letras: “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18,36). Diríamos que Jesus mostra-lhes que o reino anunciado por si, é algo holístico em sua natureza e em sua missão libertadora para os pobres.

“O Reino de Deus não consiste em palavras, mas em atos” (I Cor 4,20). Reino que não se confunde com a Igreja. A Igreja pode vir a ser a projeção do Reino, desde que ela abrace as causas de Jesus. Causas estas que no dizer de nosso bispo Pedro são muito claras: "Denunciar a iniquidade do mercado total, do consumismo desenfreado, do lucro excluidor das maiorias. Fazer da Fé cristã luz e força para combater esse sistema de iniquidade que mata de fome milhões de pessoas da grande família de Deus deve ser o papel da Igreja"

No texto do evangelho de hoje Jesus nos dá uma boa dica de como será este Reino, comparando-o como quando alguém espalha a semente na terra. (Mc 4,26). Jesus é o portador do Reino de Deus e da transformação que ele provoca. Sua missão de libertação não é para ser abafada ou ficar escondida, mas para se tornar conhecida e contagiar a todas as pessoas. Quem acolhe esta Boa Notícia, aprende a ver e agir de acordo com a visão e a ação de Jesus. E a compreensão vai aumentando à medida que vai agindo no mundo. Como seguidores e seguidoras d’ELE, temos que estar imbuídos naquilo que Pedro nos dizia: “A construção de uma nova sociedade, alternativa à que é imposta hoje ao mundo, é um processo complexo, uma caminhada histórica, não tem uma cartilha pronta em detalhes dentro da plural humanidade. De todo jeito eu só posso imaginar esse processo como socializador: socializar a terra de lavoura e de moradia, socializar a saúde, a educação, a comunicação, as oportunidades para viver ‘o bem viver’ que proclamam os nossos povos ‘primigênios’.” (Pedro Casaldáliga)

Para Refletir

“Neste tempo de pandemia, perante a tentação de mascarar e justificar a indiferença e a apatia em nome de um sadio distanciamento social, é urgente a missão da compaixão, capaz de fazer da distância necessária um lugar de encontro, cuidado e promoção.” (Papa Francisco)

Mensagem de Sua Santidade o Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões de 2021


 Mensagem de Sua Santidade
O Papa Francisco
Para o Dia Mundial das Missões de 2021
[17 de outubro de 2021]

«Não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos» (At 4, 20)

Queridos irmãos e irmãs!

Quando experimentamos a força do amor de Deus, quando reconhecemos a sua presença de Pai na nossa vida pessoal e comunitária, não podemos deixar de anunciar e partilhar o que vimos e ouvimos. A relação de Jesus com os seus discípulos, a sua humanidade que nos é revelada no mistério da Encarnação, no seu Evangelho e na sua Páscoa mostram-nos até que ponto Deus ama a nossa humanidade e assume as nossas alegrias e sofrimentos, os nossos anseios e angústias (cf. Conc. Ecum. Vat II, Const. past. Gaudium et spes, 22). Tudo, em Cristo, nos lembra que o mundo em que vivemos e a sua necessidade de redenção não Lhe são estranhos e também nos chama a sentirmo-nos parte ativa desta missão: «Ide às saídas dos caminhos e convidai todos quantos encontrardes» (cf. Mt 22, 9). Ninguém é estranho, ninguém pode sentir-se estranho ou afastado deste amor de compaixão.

A experiência dos Apóstolos

A história da evangelização tem início com uma busca apaixonada do Senhor, que chama e quer estabelecer com cada pessoa, onde quer que esteja, um diálogo de amizade (cf. Jo 15, 12-17). Os Apóstolos são os primeiros que nos referem isso, lembrando inclusive a hora do dia em que O encontraram: «Eram as quatro da tarde» (Jo 1, 39). A amizade com o Senhor, vê-Lo curar os doentes, comer com os pecadores, alimentar os famintos, aproximar-Se dos excluídos, tocar os impuros, identificar-Se com os necessitados, fazer apelo às bem-aventuranças, ensinar de maneira nova e cheia de autoridade, deixa uma marca indelével, capaz de suscitar admiração e uma alegria expansiva e gratuita que não se pode conter. Como dizia o profeta Jeremias, esta experiência é o fogo ardente da sua presença ativa no nosso coração que nos impele à missão, mesmo que às vezes implique sacrifícios e incompreensões (cf. 20, 7-9). O amor está sempre em movimento e põe-nos em movimento, para partilhar o anúncio mais belo e promissor: «Encontramos o Messias» (Jo 1, 41).

Com Jesus, vimos, ouvimos e constatamos que as coisas podem mudar. Ele inaugurou – já para os dias de hoje – os tempos futuros, recordando-nos uma caraterística essencial do nosso ser humano, tantas vezes esquecida: «fomos criados para a plenitude, que só se alcança no amor» (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 68). Tempos novos, que suscitam uma fé capaz de estimular iniciativas e plasmar comunidades a partir de homens e mulheres que aprendem a ocupar-se da fragilidade própria e dos outros (cf. ibid., 67), promovendo a fraternidade e a amizade social. A comunidade eclesial mostra a sua beleza, sempre que se lembra, com gratidão, que o Senhor nos amou primeiro (cf. 1 Jo 4, 19). Esta «predileção amorosa do Senhor surpreende-nos e gera maravilha; esta, por sua natureza, não pode ser possuída nem imposta por nós. (…) Só assim pode florir o milagre da gratuidade, do dom gratuito de si mesmo. O próprio ardor missionário nunca se pode obter em consequência dum raciocínio ou dum cálculo. Colocar-se “em estado de missão” é um reflexo da gratidão» (Francisco, Mensagem às Pontifícias Obras Missionárias, 21 de maio de 2020).

E, no entanto, os tempos não eram fáceis; os primeiros cristãos começaram a sua vida de fé num ambiente hostil e árduo. Histórias de marginalização e prisão entrelaçavam-se com resistências internas e externas, que pareciam contradizer e até negar o que tinham visto e ouvido; mas isso, em vez de ser uma dificuldade ou um obstáculo que poderia levá-los a retrair-se ou fechar-se em si mesmos, impeliu-os a transformar cada incómodo, contrariedade e dificuldade em oportunidade para a missão. Os próprios limites e impedimentos tornaram-se um lugar privilegiado para ungir, tudo e todos, com o Espírito do Senhor. Nada e ninguém podia permanecer alheio ao anúncio libertador.

Possuímos o testemunho vivo de tudo isto nos Atos dos Apóstolos, livro que os discípulos missionários sempre têm à mão. É o livro que mostra como o perfume do Evangelho se difundiu à passagem deles, suscitando aquela alegria que só o Espírito nos pode dar. O livro dos Atos dos Apóstolos ensina-nos a viver as provações unindo-nos a Cristo, para maturar a «convicção de que Deus pode atuar em qualquer circunstância, mesmo no meio de aparentes fracassos», e a certeza de que «a pessoa que se oferece e entrega a Deus por amor, seguramente será fecunda (cf. Jo 15, 5)» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 279).

O mesmo se passa connosco: o momento histórico atual também não é fácil. A situação da pandemia evidenciou e aumentou o sofrimento, a solidão, a pobreza e as injustiças de que já tantos padeciam, e desmascarou as nossas falsas seguranças e as fragmentações e polarizações que nos dilaceram silenciosamente. Os mais frágeis e vulneráveis sentiram ainda mais a sua vulnerabilidade e fragilidade. Experimentamos o desânimo, a deceção, o cansaço; e até a amargura conformista, que tira a esperança, se apoderou do nosso olhar. Nós, porém, «não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor, e nos consideramos vossos servos por amor de Jesus» (2 Cor 4, 5). Por isso ouvimos ressoar nas nossas comunidades e famílias a Palavra de vida que ecoa nos nossos corações dizendo: «Não está aqui; ressuscitou» (Lc 24, 6); uma Palavra de esperança, que desfaz qualquer determinismo e, a quantos se deixam tocar por ela, dá a liberdade e a audácia necessárias para se levantar e procurar, criativamente, todas as formas possíveis de viver a compaixão, «sacramental» da proximidade de Deus para connosco que não abandona ninguém na beira da estrada. Neste tempo de pandemia, perante a tentação de mascarar e justificar a indiferença e a apatia em nome dum sadio distanciamento social, é urgente a missão da compaixão, capaz de fazer da distância necessária um lugar de encontro, cuidado e promoção. «O que vimos e ouvimos» (At 4, 20), a misericórdia com que fomos tratados, transforma-se no ponto de referimento e credibilidade que nos permite recuperar e partilhar a paixão por criar «uma comunidade de pertença e solidariedade, à qual saibamos destinar tempo, esforço e bens» (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 36). É a sua Palavra que diariamente nos redime e salva das desculpas que levam a fechar-nos no mais vil dos ceticismos: «Tanto faz; nada mudará!» Pois, à pergunta «para que hei de privar-me das minhas seguranças, comodidades e prazeres, se não vou ver qualquer resultado importante», a resposta é sempre a mesma: «Jesus Cristo triunfou sobre o pecado e a morte e possui todo o poder. Jesus Cristo vive verdadeiramente» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 275) e, também a nós, nos quer vivos, fraternos e capazes de acolher e partilhar esta esperança. No contexto atual, há urgente necessidade de missionários de esperança que, ungidos pelo Senhor, sejam capazes de lembrar profeticamente que ninguém se salva sozinho.

Como os apóstolos e os primeiros cristãos, também nós exclamamos com todas as nossas forças: «não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos» (At 4, 20). Tudo o que recebemos, tudo aquilo que o Senhor nos tem concedido, ofereceu-no-lo para o pormos a render doando-o gratuitamente aos outros. Como os apóstolos que viram, ouviram e tocaram a salvação de Jesus (cf. 1 Jo 1, 1-4), também nós, hoje, podemos tocar a carne sofredora e gloriosa de Cristo na história de cada dia e encontrar coragem para partilhar com todos um destino de esperança, esse traço indubitável que provém de saber que estamos acompanhados pelo Senhor. Como cristãos, não podemos reservar o Senhor para nós mesmos: a missão evangelizadora da Igreja exprime a sua valência integral e pública na transformação do mundo e na salvaguarda da criação.

Um convite a cada um de nós

O tema do Dia Mundial das Missões deste ano – «não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos» (At 4, 20) – é um convite dirigido a cada um de nós para cuidar e dar a conhecer aquilo que tem no coração. Esta missão é, e sempre foi, a identidade da Igreja: «ela existe para evangelizar» (São Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 14). No isolamento pessoal ou fechando-se em pequenos grupos, a nossa vida de fé esmorece, perde profecia e capacidade de encanto e gratidão; por sua própria dinâmica, exige uma abertura crescente, capaz de alcançar e abraçar a todos. Atraídos pelo Senhor e a vida nova que oferecia, os primeiros cristãos, em vez de cederem à tentação de se fechar numa elite, foram ao encontro dos povos para testemunhar o que viram e ouviram: o Reino de Deus está próximo. Fizeram-no com a generosidade, gratidão e nobreza próprias das pessoas que semeiam, sabendo que outros comerão o fruto da sua dedicação e sacrifício. Por isso apraz-me pensar que «mesmo os mais frágeis, limitados e feridos podem [ser missionários] à sua maneira, porque sempre devemos permitir que o bem seja comunicado, embora coexista com muitas fragilidades» (Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 239).

No Dia Mundial das Missões que se celebra anualmente no terceiro domingo de outubro, recordamos com gratidão todas as pessoas, cujo testemunho de vida nos ajuda a renovar o nosso compromisso batismal de ser apóstolos generosos e jubilosos do Evangelho. Lembramos especialmente aqueles que foram capazes de partir, deixar terra e família para que o Evangelho pudesse atingir sem demora e sem medo aqueles ângulos de aldeias e cidades onde tantas vidas estão sedentas de bênção.

Contemplar o seu testemunho missionário impele-nos a ser corajosos e a pedir, com insistência, «ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe» (Lc 10, 2), cientes de que a vocação para a missão não é algo do passado nem uma recordação romântica de outrora. Hoje, Jesus precisa de corações que sejam capazes de viver a vocação como uma verdadeira história de amor, que os faça sair para as periferias do mundo e tornar-se mensageiros e instrumentos de compaixão. E esta chamada, fá-la a todos nós, embora não da mesma forma. Lembremo-nos que existem periferias que estão perto de nós, no centro duma cidade ou na própria família. Há também um aspeto da abertura universal do amor que não é geográfico, mas existencial. Sempre, mas especialmente nestes tempos de pandemia, é importante aumentar a capacidade diária de alargar os nossos círculos, chegar àqueles que, espontaneamente, não sentiria como parte do «meu mundo de interesses», embora estejam perto de nós (cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 97). Viver a missão é aventurar-se no cultivo dos mesmos sentimentos de Cristo Jesus e, com Ele, acreditar que a pessoa ao meu lado é também meu irmão, minha irmã. Que o seu amor de compaixão desperte também o nosso e, a todos, nos torne discípulos missionários.

Maria, a primeira discípula missionária, faça crescer em todos os batizados o desejo de ser sal e luz nas nossas terras (cf. Mt 5, 13-14).

Roma, em São João de Latrão, na Solenidade da Epifania do Senhor, 6 de janeiro de 2021.

Francisco

28 janeiro, 2021

Luto contra três gigantes - de Dom Quixote para Sancho:

Muito profundo! De Dom Quixote para Sancho:

“Luto contra três gigantes, querido Sancho; estes são: o medo, que tem forte raigambre e que toma conta dos seres e os sujeita para que não ultrapassem o muro do socialmente permitido ou admitido; o outro é a injustiça, que subjaz no mundo disfarçada de justiça geral, mas que é uma justiça instaurada por alguns para defender mesquinhos e egoístas interesses; e o outro é a ignorância, que anda também vestida ou disfarçada de conhecimento e que lamenta os seres para que acreditem Saber quando não sabem na verdade e que acreditem estar certos quando não estão. Essa ignorância, disfarçada de conhecimento, machuca muito, e impede os seres de ir além na linha de conhecer realmente e se conhecer ".
Miguel de Cervantes (1547-1616), o genial autor de "Dom Quixote". Muito atual quatro séculos depois...


CONVOCAÇÃO DE MUTIRÃO PELA VIDA da 6ª SSB

 CONVOCAÇÃO DE MUTIRÃO PELA VIDA da 6ª SSB 

Pelo impeachment 
Por vacina 
Pela renovação do auxílio emergencial 

A conjuntura social, política e econômica do mundo e do Brasil, assim como a pandemia do COVID 19, tem revelado uma série de negligencias que intensificam de maneira abrupta as desigualdades sociais. No Brasil, chegamos a triste realidade de mais de 218 mil mortos, além do colapso no sistema de saúde no norte do país, especialmente nos estados do Amazonas e Rondônia. No conjunto das reflexões e realidades em que somos chamados/as a atuar, o impeachment, a vacina para todos/as e o auxílio emergencial, são emergências para as lutas populares, missão da atuação junto às transformações sociais e políticas na garantia da justiça e dignidade da vida. 

Com o objetivo de refletir e organizar melhor as ações de mobilizações, de forma conjunta e fortalecendo a incidência política, a 6ª Semana Social Brasileira, através da Comissão Episcopal Pastoral para Ação Sociotransformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, realizará uma reunião emergencial e virtual. Pastora Romi Márcia Bencke, do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (CONIC); João Pedro Stedile: dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) Frente Brasil Popular e José Antônio Moroni: Instituto de Estudos Socioeconômicos irão colaborar nas reflexões e atualizações de informações sobre as pautas emergenciais deste cenário. 

Quando 

03/02/2021 das 9h-12h (horário de Brasília). 

Devem participar 

Membros da coordenação ampliada da 6ªSSB; referenciais da 6ªSSB dos regionais da CNBB; bispos da Comissão Episcopal Pastoral para Ação Sociotransformadora; bispos do Grupo de Trabalho Pacto pela Vida e pelo Brasil; secretários/as ou coordenadores/as das pastorais sociais e organismos; Comissões Episcopais: Ecologia integral e mineração; Laicato; Enfrentamento ao Tráfico Humano, Juventude, Ação Missionária e Amazônia; Assessor Político da CNBB; organizações católicas de cooperação: Adveniat, Caritas Alemã e Misereor. 

Inscrição AQUI

27 janeiro, 2021

Pelo menos 10 milhões de pessoas passam fome no Brasil. Pandemia piorou quadro já desolador. Entrevista especial com Francisco Menezes

A conjuntura não era boa e o ano de 2019 encerrou com o fantasma da volta do Brasil para o Mapa da Fome. Em 2020, na eclosão da pandemia, a falta de comida na mesa virou uma realidade não somente para aqueles que estão em vulnerabilidade social, mas também para quem ‘se virava’ e tinha um trabalhado mesmo que informal. “As pessoas ficam desprovidas de renda, de início se endividam, depois já não tem mais condições de garantir compras de alimentos, mesmo os de mais baixo valor e pior qualidade”, aponta o economista Francisco Menezes, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Confira a entrevista AQUI