31 dezembro, 2025

Taxa de desemprego chega a 5,2%, a menor desde 2012

Número de pessoas ocupadas também é recorde: 103,2 milhões

A taxa de desemprego no trimestre encerrado em novembro ficou em 5,2%, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Trata-se da menor taxa de desocupação desde 2012, medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) Contínua.

Segundo o IBGE, de setembro a novembro, 5,6 milhões de pessoas estavam desempregadas, o menor número de desocupados já registrado pela pesquisa.

Ao longo da série histórica, o maior contingente de desocupados ocorreu no trimestre encerrado em março de 2021, auge da pandemia de covid-19, quando esse o indicador registrou 14,9 milhões de pessoas sem emprego formal.

Ocupação

A menor desocupação da série histórica foi também, de acordo com o IBGE, acompanhada por um novo recorde no número de pessoas ocupadas no país: 103,2 milhões.

O nível de ocupação, isto é, a proporção de pessoas com 14 anos ou mais de idade que estavam trabalhando, chegou ao maior percentual da série histórica da PNAD Contínua: 59,0%.

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Publicado pela Agência Brasil em 30/12/2025 - 14:52

Brasil cria 85,8 mil vagas de trabalho em novembro

O Brasil gerou 85.864 postos de trabalho no mês de novembro, resultado de um total de 1.979.902 admissões e 1.894.038 desligamentos.

Os dados fazem parte do novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgado nesta terça-feira (30) pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

Acumulado

Os números mostram que, no acumulado de janeiro a novembro de 2025, foi verificado um saldo positivo de 1.895.130 postos de trabalho, decorrentes de 25.055.514 admissões e 24.160.384 desligamentos.

Desse total de 1,895 milhão, 1,462 milhão eram postos de trabalho típicos e 434 mil eram não típicos.

São considerados não típicos os trabalhadores aprendizes, intermitentes, temporários, contratados por CAEPF e com carga horária até 30 horas.

Ainda de acordo com o novo Caged, no acumulado dos últimos 12 meses (dezembro de 2024 a novembro de 2025), o saldo positivo é de 1.339.878 postos de trabalho, montante menor que o saldo observado no período de dezembro de 2023 a novembro de 2024 (1.781.293 postos).

Setores

De acordo com o balanço apresentado pelo titular da pasta, Luiz Marinho, apenas dois dos cinco grandes grupamentos de atividades econômicas registraram saldos positivos: o comércio (+78.249 ou +0,7%) e o setor de serviços (+75.131 ou +0,3%). Registraram saldos negativos a agropecuária (-16.566 ou -0,8%), a construção (-23.804 ou -0,7%) e a indústria (-27.135, ou -0,2%).

Em novembro, foram registrados saldos positivos em 20 unidades federativas, com maiores saldos absolutos em São Paulo (+31.104), Rio de Janeiro (+19.961) e Pernambuco (+8.996).

Os estados com menores saldos absolutos de geração de empregos no mês passado foram Minas Gerais: (-8.740 postos ou -0,1%), Goiás (-8.413 ou -0,5%) e Mato Grosso: (-5.802 postos ou -0,5%).

Salário médio

O salário médio real de admissão em novembro de 2025 foi de R$ 2.310,78, praticamente estável em relação ao mês anterior (R$ 2.305,00). Houve variação positiva de R$ 5,78 (+0,3%). Já em comparação com o mesmo mês do ano anterior, o que desconta mudanças decorrentes da sazonalidade do mês, o aumento foi de R$ 67,95 (+3,03%).

Para os trabalhadores considerados típicos o salário real de admissão foi de R$ 2.355,56 (1,9% mais elevado que o valor médio), enquanto para os trabalhadores não típicos foi de R$ 1.991,42 (13,8% menor que o valor médio).


*Matéria ampliada às 15h59
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Publicado pela Agência Brasil em 30/12/2025 - 14:52
Reporte Paula Laboissière

TST diz que greve nos Correios não é abusiva, mas autoriza desconto

Com o fim do julgamento, os trabalhadores devem retomar o trabalho

O Tribunal Superior do Trabalho (TST) julgou como não abusiva a greve dos trabalhadores dos Correios, que completou duas semanas, nesta terça-feira (30), e manteve a validade das cláusulas pré-existentes no Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) da categoria do ano anterior (2024/2025), incluindo a determinação de reajuste de 5,10% sobre os salários, com base na inflação do período de um ano até a data-base. Os termos foram definidos pela ministra relatora do processo, Kátia Magalhães Arruda, que foi acompanhada pela maioria dos demais ministros da Seção Especializada de Dissídios Coletivos (SDC) da Corte trabalhista.

Apesar da declaração de legalidade do movimento paredista, trabalhadores que paralisaram as atividades terão as faltas descontadas nos salários, em valores que serão divididos em três parcelas mensais, sucessivas e iguais, apurados de forma individualizada em relação à cada empregado. A greve foi deflagrada o dia 16 de dezembro.

A decisão encerrou o julgamento do dissídio coletivo da categoria, pondo fim a uma campanha salarial cuja data-base (referência para os reajustes) estava fixada no 1º de agosto. Com o fim do julgamento, os trabalhadores devem retomar o trabalho normalmente nesta quarta-feira (31). Na semana passada, a relatora já havia determinado que 80% do efetivo dos Correios fosse mantido, dado o caráter essencial do serviço postal. A greve estava concentrada em nove estados: Ceará, Paraíba, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

A mobilização dos trabalhadores dos Correios ocorre em meio a um momento delicado nas finanças da estatal, que acumula déficits bilionários. Ontem, a empresa anunciou um plano para fechar até 6 mil agências e demitir cerca de 15 mil empregados. A companhia, cujo capital é 100% público, estuda ainda um aporte de R$ 12 bilhões por meio de linhas de crédito abertas nos maiores bancos do país.

"O resultado reflete aquilo que nós vínhamos trabalhando, cobrando da empresa, e retratamos tudo isso aqui dentro do TST, que é a garantia dos nossos direitos, com a garantia da reposição salarial. Claro que não tivemos, na plenitude, tudo que esperávamos, mas foi um julgamento que retrata a expectativa da categoria. Passamos os últimos 16 dias dizendo que a categoria não é responsável por essa crise", afirmou Emerson Marinho, secretário-geral da Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telégrafos e Similares (Fentect), uma das lideranças à frente da negociação com a direção dos Correios.

Procurada pela Agência Brasil, a empresa não se manifestou sobre o julgamento do TST até o fechamento da reportagem.

A manutenção das cláusulas pré-existentes no acordo coletivo de trabalho anterior vai vigorar por um ano, na forma de uma sentença normativa do TST, até a data-base de 1º de agosto. Depois disso, no entanto, elas deixarão de valer e entidades sindicais e empresa deverão negociar do zero, a partir de 2026. Esse cenário pode favorecer a intenção da direção da empresa de flexibilizar contratos de trabalho, com redução de benefícios como forma de cortar ainda mais despesas.

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Publicado pela Agência Brasil em 30/12/2025
Reporte Pedro Rafael Vilela

30 dezembro, 2025

Que façamos acontecer um feliz ano novo!

A você e os seus, que acompanha, que visita meu Blog, que façamos acontecer um feliz ano novo.


Que 2026, mesmo em meio aos desafios, seja um tempo de fraternidade que une, justiça que restaura e paz que nasce do cuidado com a vida.

Que não falte coragem para defender a dignidade dos pequenos, esperança para recomeçar onde houve dor, e fé para seguir construindo, passo a passo, um mundo mais humano e solidário. Como nos lembram as comunidades e a caminhada do povo de Deus, ninguém se salva sozinho: é na partilha, na escuta e no compromisso que a paz aconteça.

Que cada gesto simples se transforme em sinal do Reino.

Feliz 2026, com fé, compromisso e esperança!

Mensagem do Santo Padre Leão XIV - Para o LIX Dia Mundial da Paz


Mensagem do Santo Padre Leão XIV - Para o LIX Dia Mundial da Paz
1 de Janeiro De 2026

A paz esteja com todos vós.
Rumo a uma paz desarmada e desarmante


“A paz esteja contigo!”.

Esta antiga saudação, presente ainda hoje em muitas culturas, ganhou novo vigor nos lábios de Jesus ressuscitado na noite de Páscoa. «A paz esteja convosco!» ( Jo 20, 19.21) é a sua Palavra que não só deseja, mas realiza uma mudança definitiva naqueles que a acolhem e, consequentemente, em toda a realidade. Por isso, os sucessores dos Apóstolos exprimem todos os dias e em todo o mundo a revolução mais silenciosa: “A paz esteja convosco!”. Desde a noite da minha eleição como Bispo de Roma, quis inserir a minha saudação neste anúncio coral. E desejo reiterá-lo: esta é a paz do Cristo ressuscitado, uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante. Ela provém de Deus, o Deus que nos ama a todos incondicionalmente. [1]

A paz de Cristo ressuscitado

Quem venceu a morte e derrubou as barreiras que separavam os seres humanos (cf. Ef 2, 14) foi o Bom Pastor que dá a vida pelo rebanho e tem muitas ovelhas que estão fora do seu redil (cf. Jo 10, 11.16): Cristo, nossa paz. A sua presença, o seu dom e a sua vitória reverberam na perseverança de muitas testemunhas, por meio das quais a obra de Deus continua no mundo, tornando-se ainda mais perceptível e luminosa na escuridão dos tempos.
Na verdade, o contraste entre as trevas e a luz não é apenas uma imagem bíblica para descrever o sofrimento do qual está a nascer um mundo novo: é uma experiência que nos atravessa e nos surpreende diante das provações que encontramos nas circunstâncias históricas em que vivemos. Ora, para não afundarmos na escuridão, é necessário ver a luz e acreditar nela. Trata-se de uma exigência que os discípulos de Jesus são chamados a viver de maneira única e privilegiada, mas que, de muitas maneiras, sabe abrir caminho no coração de cada ser humano. A paz existe, deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e a vence. A paz tem o sopro da eternidade: enquanto ao mal se ordena “basta!”, à paz se suplica “para sempre”. O Ressuscitado introduziu-nos neste horizonte. É neste sentir que vivem os promotores da paz que, no drama daquilo que o Papa Francisco definiu como “terceira guerra mundial em pedaços”, ainda resistem à contaminação das trevas, como sentinelas na noite.

Infelizmente, o contrário é possível, ou seja, esquecer a luz: assim, perde-se o realismo e se cede a uma representação parcial e distorcida do mundo, sob o sinal das trevas e do medo. Atualmente, não são poucos aqueles que chamam de realistas as narrativas privas de esperança, cegas à beleza dos outros e esquecidas da graça de Deus que sempre age nos corações humanos, por mais feridos que estejam pelo pecado. Santo Agostinho exortava os cristãos a estabelecerem uma amizade indissolúvel com a paz, para que, guardando-a no íntimo do próprio espírito, pudessem irradiar o calor luminoso ao seu redor. Dirigindo-se à sua comunidade, ele escreveu: «Se quereis atrair os outros para a paz, tende-a vós primeiro; sede vós, antes de tudo, firmes na paz. Para inflamar os outros, deveis ter dentro de vós a luz acesa». [2]

Queridos irmãos e irmãs, quer tenhamos o dom da fé, quer pareça que não o temos, abramo-nos à paz! Acolhamo-la e reconheçamo-la, em vez de a considerarmos distante e impossível. Antes de ser um objetivo, a paz é uma presença e um caminho. Mesmo que seja contestada dentro e fora de nós, como uma pequena chama ameaçada pela tempestade, guardemo-la sem esquecer os nomes e as histórias daqueles que a testemunharam. É um princípio que orienta e determina as nossas escolhas. Também nos lugares onde só restam escombros e onde o desespero parece inevitável, ainda hoje encontramos quem não esqueceu a paz. Do mesmo modo que, na noite de Páscoa, Jesus entrou no lugar onde se encontravam os discípulos assustados e desanimados, assim a paz de Cristo ressuscitado continua a atravessar portas e barreiras com as vozes e os rostos das suas testemunhas. É o dom que permite não esquecer o bem, reconhecê-lo como vencedor, escolhê-lo novamente e juntos.

Uma paz desarmada

Pouco antes de ser capturado, num momento de intensa confidência, Jesus disse aos que estavam com Ele: «Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou». E imediatamente acrescentou: «Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde» (Jo 14, 27). A perturbação e o medo podiam, certamente, referir-se à violência que em breve se abateria sobre Ele. De modo ainda mais profundo, os Evangelhos não escondem que o que desconcertou os discípulos foi a sua resposta não violenta: um caminho que todos, Pedro em primeiro lugar, contestaram, mas que o Mestre pediu que seguissem até ao fim. O caminho de Jesus continua a ser motivo de perturbação e medo. E Ele repete com firmeza àqueles que gostariam de defendê-lo: «Mete a espada na bainha» (Jo 18, 11; cf. Mt 26, 52). A paz de Jesus ressuscitado é desarmada, porque desarmada foi a sua luta, dentro de precisas circunstâncias históricas, políticas e sociais. Os cristãos devem tornar-se, juntos, testemunhas proféticas desta novidade, conscientes das tragédias das quais muitas vezes foram cúmplices. A grande parábola do juízo universal convida todos os cristãos a, conscientemente, agir com misericórdia (cf. Mt 25, 31-46). E, ao fazê-lo, encontrarão ao seu lado irmãos e irmãs que, por caminhos diferentes, souberam ouvir a dor dos outros e se libertaram interiormente do engano da violência.

Embora hoje não sejam poucas as pessoas com o coração pronto para a paz, um grande sentimento de impotência as invade diante do curso cada vez mais incerto dos acontecimentos. Já Santo Agostinho, com efeito, assinalava um paradoxo particular: «Não é difícil possuir a paz. É mais difícil, quando muito, louvá-la. Se quisermos louvá-la, precisamos de ter capacidades que talvez nos faltem; devemos procurar as ideias certas, ponderar as frases. Se, em vez disso, quisermos tê-la, ela está lá, ao nosso alcance, e podemos possuí-la sem qualquer esforço». [3]

Quando tratamos a paz como um ideal distante, acabamos por não considerar escandaloso que ela possa ser negada e que até mesmo se faça guerra para alcançá-la. Parecem faltar as ideias certas, as frases ponderadas, a capacidade de dizer que a paz está ao nosso alcance. Se a paz não for uma realidade experimentada, guardada e cultivada, a agressividade espalha-se, tanto na vida doméstica, quanto na vida pública. Na relação entre cidadãos e governantes, chega-se a considerar uma culpa o não estar suficientemente preparado para a guerra, para reagir aos ataques e para responder à violência. No plano político, essa lógica de oposição, muito além do princípio da legítima defesa, é o dado mais atual numa desestabilização planetária que a cada dia se torna mais dramática e imprevisível. Não por acaso, os repetidos apelos para aumentar as despesas militares – e as escolhas que disso decorrem – são apresentados por muitos governantes com a justificativa da periculosidade alheia. Na verdade, a força dissuasiva do poder e, em particular, a dissuasão nuclear, encarnam a irracionalidade de uma relação entre os povos baseada não no direito, na justiça e na confiança, mas no medo e no domínio da força. Como já escrevia São João XXIII na sua época: «O resultado é que os povos vivem em terror permanente, como sob a ameaça de uma tempestade que pode rebentar a cada momento em avassaladora destruição. Já que as armas existem e, se parece difícil que haja pessoas capazes de assumir a responsabilidade das mortes e incomensuráveis destruições que a guerra provocaria, não é impossível que um fato imprevisível e incontrolável possa inesperadamente atear esse incêndio». [4]

Pois bem, ao longo de 2024, as despesas militares a nível mundial aumentaram 9,4% em relação ao ano anterior, confirmando a tendência ininterrupta dos últimos dez anos e atingindo o valor de 2,72 biliões de dólares, ou seja, 2,5% do PIB mundial. [5] Mais ainda, parece que os novos desafios devem ser enfrentados atualmente não só com um enorme esforço económico para o rearmamento, mas também com um realinhamento das políticas educativas: em vez de uma cultura da memória, que preserve a consciência adquirida no século XX e não esqueça os milhões de vítimas, promovem-se campanhas de comunicação e programas educativos em escolas e universidades, bem como nos meios de comunicação social, que difundem a percepção de que se vive continuamente sob ameaça e transmitem uma noção de defesa e segurança meramente armada.

Todavia, «quem ama verdadeiramente a paz ama também os inimigos da paz». [6] Assim, Santo Agostinho recomendava não destruir pontes e não insistir com repreensões, preferindo a via da escuta e, na medida do possível, do encontro com as razões dos outros. Sessenta anos atrás, o Concílio Vaticano II chegava à sua conclusão com a consciência da urgência de um diálogo entre a Igreja e o mundo contemporâneo. Em particular, a Constituição Gaudium et spes chamava a atenção para a evolução da prática bélica: «O perigo peculiar da guerra hodierna está em que ela fornece, por assim dizer, a oportunidade de cometer tais crimes àqueles que estão de posse das modernas armas científicas; e, por uma consequência quase fatal, pode impelir as vontades dos homens às mais atrozes decisões. Para que tal nunca venha a suceder, os Bispos de todo o mundo, reunidos, imploram a todos, sobretudo aos governantes e chefes militares, que ponderem sem cessar a sua tão grande responsabilidade perante Deus e a humanidade». [7]

Ao reiterar o apelo dos Padres conciliares e considerando o diálogo como a via mais eficaz em todos os níveis, constatamos que os recentes avanços tecnológicos e a aplicação das inteligências artificiais no âmbito militar radicalizaram a tragédia dos conflitos armados. Está-se a delinear até mesmo um processo de desresponsabilização dos líderes políticos e militares devido ao crescente “delegar” às máquinas as decisões relativas à vida e à morte das pessoas. É uma espiral de destruição sem precedentes, que compromete o humanismo jurídico e filosófico do qual qualquer civilização depende e pelo qual é protegida. É preciso denunciar as enormes concentrações de interesses económicos e financeiros privados que estão a empurrar os Estados nessa direção; mas isso não é suficiente, se ao mesmo tempo não for promovido o despertar das consciências e do pensamento crítico. A Encíclica Fratelli tutti apresenta São Francisco de Assis como exemplo desse despertar: «Naquele mundo cheio de torreões de vigia e muralhas defensivas, as cidades viviam guerras sangrentas entre famílias poderosas, ao mesmo tempo que cresciam as áreas miseráveis das periferias excluídas. Lá, Francisco recebeu no seu íntimo a verdadeira paz, libertou-se de todo o desejo de domínio sobre os outros, fez-se um dos últimos e procurou viver em harmonia com todos». [8] É uma história que quer continuar em nós e que exige unir esforços para contribuir mutuamente para uma paz desarmante, uma paz que nasce da abertura e da humildade evangélica.

Uma paz desarmante

A bondade é desarmante. Talvez por isso Deus se tenha feito criança. O mistério da Encarnação, que tem o seu ponto mais extremo de esvaziamento na descida aos infernos, começa no ventre de uma jovem mãe e manifesta-se na manjedoura de Belém. «Paz na terra», cantam os anjos, anunciando a presença de um Deus indefeso, pelo qual a humanidade só pode descobrir-se amada cuidando d’Ele (cf. Lc 2, 13-14). Nada tem a capacidade de mudar-nos mais do que um filho. E talvez seja justamente o pensamento nos nossos filhos, nas crianças e também naqueles que são frágeis como elas, que nos traspassa o coração (cf. Act 2, 37). A este respeito, o meu venerado Predecessor escrevia que «a fragilidade humana tem o poder de tornar-nos mais lúcidos em relação ao que dura e ao que passa, ao que faz viver e ao que mata. Talvez por isso tendamos tão frequentemente a negar os limites e a fugir das pessoas frágeis e feridas: elas têm o poder de questionar a direção que escolhemos, como indivíduos e como comunidade». [9]

São João XXIII foi o primeiro a introduzir a perspectiva de um desarmamento integral, alcançado somente através da renovação do coração e da inteligência. Assim escreveu ele na Carta encíclica Pacem in terris: «Todos devem estar convencidos de que nem a renúncia à competição militar, nem a redução dos armamentos, nem a sua completa eliminação, que seria o principal, de modo nenhum se pode levar a efeito tudo isto, se não se proceder a um desarmamento integral, que atinja o próprio espírito, isto é, se não trabalharem todos em concórdia e sinceridade, para afastar o medo e a psicose de uma possível guerra. Mas isto requer que, em vez do critério de equilíbrio em armamentos que hoje mantém a paz, se abrace o princípio segundo o qual a verdadeira paz entre os povos não se baseia em tal equilíbrio, mas sim e exclusivamente na confiança mútua. Nós pensamos que se trata de objetivo possível, por tratar-se de causa que não só se impõe pelos princípios da reta razão, mas que é sumamente desejável e fecunda de preciosos resultados». [10]

Este é um serviço fundamental que as religiões devem prestar à humanidade sofredora, vigiando sobre a crescente tentativa de transformar em armas até mesmo pensamentos e palavras. As grandes tradições espirituais, assim como o reto uso da razão, fazem-nos ir além dos laços de sangue e étnicos, ou daquelas fraternidades que reconhecem apenas quem é semelhante e rejeitam quem é diferente. Hoje vemos como isso não é óbvio. Infelizmente, faz parte do panorama contemporâneo, cada vez mais, arrastar as palavras da fé para o embate político, abençoar o nacionalismo e justificar religiosamente a violência e a luta armada. Os fiéis devem refutar ativamente, antes de tudo com a sua vida, estas formas de blasfémia que obscurecem o Santo Nome de Deus. Por isso, juntamente com a ação, é mais do que nunca necessário cultivar a oração, a espiritualidade, o diálogo ecuménico e inter-religioso como caminhos de paz e linguagens de encontro entre tradições e culturas. Em todo o mundo, é desejável que «cada comunidade se torne uma “casa de paz”, onde se aprende a neutralizar a hostilidade através do diálogo, onde se pratica a justiça e se conserva o perdão». [11] Hoje, mais do que nunca, é preciso mostrar que a paz não é uma utopia, através de uma criatividade pastoral atenta e generativa.

Por outro lado, isso não deve desviar a atenção de todos da importância da dimensão política. Aqueles que são chamados a assumir responsabilidades públicas, nos mais altos e qualificados cargos, investiguem «a fundo qual a melhor maneira de se chegar à maior harmonia das comunidades políticas no plano mundial; harmonia, repetimos, que se baseia na confiança mútua, na sinceridade dos tratados e na fidelidade aos compromissos assumidos. Examinem de tal maneira todos os aspectos do problema para encontrarem no nó da questão, a partir do qual possam abrir caminho a um entendimento leal, duradouro e fecundo». [12] É o caminho desarmante da diplomacia, da mediação, do direito internacional, infelizmente contrariado por violações cada vez mais frequentes de acordos alcançados com grande esforço, num contexto que exigiria não a deslegitimação, mas sim o fortalecimento das instituições supranacionais.

Hoje, a justiça e a dignidade humana estão, mais do que nunca, expostas aos desequilíbrios de poder entre os mais fortes. Então, como viver num tempo de desestabilização e conflitos, libertando-se do mal? É necessário motivar e apoiar todas as iniciativas espirituais, culturais e políticas que mantenham viva a esperança, combatendo a difusão de «atitudes fatalistas a respeito da globalização, como se as dinâmicas em ato fossem produzidas por forças impessoais anónimas e por estruturas independentes da vontade humana». [13] Se, efetivamente, «a melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores», [14] deve se contrapor a tal estratégia o desenvolvimento de sociedades civis conscientes, de formas de associativismo responsável, de experiências de participação não violenta, de práticas de justiça restaurativa em pequena e grande escala. Leão XIII já o salientava claramente na Encíclica Rerum novarum: «A experiência que o homem adquire todos os dias da exiguidade das suas forças, obriga-o e impele-o a agregar-se a uma cooperação estranha. É nas Sagradas Letras que se lê esta máxima: “Mais valem dois juntos que um só, pois tiram vantagem da sua associação. Se um cai, o outro sustenta-o. Desgraçado do homem só, pois; quando cair, não terá ninguém que o levante” ( Ecl 4, 9-10). E esta outra: “O irmão que é ajudado por seu irmão, é como uma cidade forte”» ( Pr 18, 19). [15]

Que isso seja um fruto do Jubileu da Esperança, que levou milhões de seres humanos a redescobrirem-se peregrinos e a iniciarem em si mesmos aquele desarmamento do coração, da mente e da vida, ao qual Deus não tardará em responder, cumprindo as suas promessas: «Ele julgará as nações, e dará as suas leis a muitos povos, os quais transformarão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças, em foices. Uma nação não levantará a espada contra outra, e não se adestrarão mais para a guerra. Vinde, Casa de Jacob! Caminhemos à luz do Senhor» (Is 2, 4-5).


Vaticano, 8 de dezembro de 2025

LEÃO PP. XIV
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[1] Cf. Bênção “Urbi et Orbi”, Loggia central da Basílica de São Pedro (8 de maio de 2025).

[2] Agostinho de Hipona, Sermo 357, 3.

[3] Ibid., 1.

[4] João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), 111.

[5] Cf. SIPRI Yearbook: Armaments, Disarmament and International Security (2025).

[6] Agostinho de Hipona, Sermo 357, 1.

[7] Conc. Ecum. Vat. II, Cost. past. Gaudium et spes, 80.

[8] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 4.

[9] Id., Carta ao Diretor do jornal italiano “Corriere della Sera” (14 de março de 2025).

[10] João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), 113.

[11] Discurso aos Bispos da Conferência Episcopal Italiana (17 de junho de 2025).

[12] João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), 118.

[13] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 42.

[14] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 15.

[15] Leão XIII, Carta enc. Rerum novarum (15 de maio de 1891), 37.

29 dezembro, 2025

Governo torna obrigatória exibição de filmes brasileiros nos cinemas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou decreto nesta quarta-feira (24) para tornar obrigatória, a partir de 2026, a exibição de filmes brasileiros nas salas de cinema de todo o país.

A medida regulamenta a Cota de Tela para o ano que vem e estabelece um número mínimo de sessões em salas comerciais. A Agência Nacional do Cinema (Ancine) fará a fiscalização.

Através deste decreto, também assinado pela ministra da Cultura, Margareth Menezes, é assegurado espaço contínuo e diversificado para o cinema brasileiro no circuito comercial. Com a Cota de Tela há a obrigatoriedade de exibição de filmes nacionais por um número mínimo de dias ao longo do ano.

A medida do governo é uma busca por diversidade e uma garantia de que vários títulos brasileiros cheguem às telas em vez de um número restrito de produções.

O decreto governamental também é uma maneira de estimular o setor audiovisual, incrementando sua produção, circulação, geração de empregos e renda.

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Publicado em 24/12/2025

23 dezembro, 2025

Feliz Natal!


Celebrar o Natal em um mundo marcado pela ausência de paz e de empatia!

Celebrar o Natal em um mundo marcado pela ausência de paz e de empatia é, ao mesmo tempo, um desafio e um ato profundamente profético.

O Natal não nasceu em tempos tranquilos. Jesus veio ao mundo em meio à violência do Império, à pobreza, ao medo e à exclusão. Não encontrou palácios nem aplausos, mas uma manjedoura, o frio da noite e o coração simples de quem soube acolher. Por isso, celebrar o Natal hoje, em meio às guerras, às injustiças, às tragédias, à indiferença e ao sofrimento de tantos, não é contradição: é fidelidade à sua origem.

Quando falta paz no mundo, o Natal nos recorda que a paz começa pequena, como um menino frágil, e cresce onde há gestos concretos de cuidado. Quando falta empatia, o Natal nos provoca a sair de nós mesmos, a “ir a Belém”, a enxergar o outro, sobretudo o pobre, o ferido, o esquecido, como lugar onde Deus continua a nascer.

Celebrar o Natal não é fugir da realidade dura, nem maquiar a dor com luzes e enfeites. É afirmar, com esperança teimosa, que a violência não tem a última palavra, que o ódio não vence o amor e que a indiferença pode ser quebrada pela proximidade. Cada gesto de partilha, cada escuta sincera, cada atitude de solidariedade é uma forma de fazer o Natal acontecer de novo.

Neste mundo ferido, celebrar o Natal é escolher ser sinal de paz onde há conflito, de empatia onde há indiferença, de vida onde a esperança parece apagada. É acreditar que Deus continua apostando na humanidade — e nos chamando a ser, hoje, a manjedoura onde Ele pode nascer.

Feliz Natal!

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Eu, Lucimar Moreira Bueno

19 dezembro, 2025

Direita raiz, esquerda nutella

Direita raiz, esquerda nutella

Olá, a direita segue a ofensiva no Congresso de olho nas urnas, enquanto o governo negocia.

.A banca sempre vence. A aprovação do PL da Anistia no Senado encerra o ano ilustrando bem o que foi o Congresso em 2025. Com exceção da PEC da Blindagem, o centrão levou tudo o que quis, principalmente emendas. Para aprovar a taxação de bets e fintechs, o governo ressuscitou o pagamento de emendas parlamentares de 2023, que já estavam canceladas, num valor estimado de R$3 bilhões. Mas o episódio também ilustra as dificuldades internas do próprio governo. Jaques Wagner causou um mal estar generalizado ao negociar o PL com os senadores, supostamente por iniciativa própria, sendo repreendido publicamente por Gleisi Hoffmann e, na prática, pelo PT e por Lula. Na melhor das hipóteses, a atitude confirma a crítica interna do próprio PT de que o partido tem o seu “centrãozinho”. E, mais uma vez, se comprovou que não é possível confiar na base governista. O PSB do vice-presidente Geraldo Alckmin deu quatro dos seus cinco votos para a anistia dos golpistas. Há poucos indícios de que o próximo ano possa ser diferente. É verdade que o ano eleitoral pode favorecer o governo, já que até aqui as pesquisas de opinião são francamente favoráveis à reeleição de Lula e esse é um fator poderoso de atração, além da sensação de que a inflação diminuiu. Como já se percebe pelo União Brasil, que derrubou um ministro porque tinha permanecido fiel a Lula, mas definiu o substituto, ficando com o Ministério do mesmo jeito. No mínimo, o Planalto espera neutralidade dos partidos do centrão na disputa eleitoral, em especial do MDB e do PSD. Além disso, o governo, queira ou não, vai ter que continuar convivendo com a fragilidade que é ter um Hugo Motta à frente da Câmara. A incapacidade e a inabilidade do presidente da Câmara tem sido tanto um problema para os governistas, quanto uma oportunidade para o centrão. Mas sem ter o que fazer até que seu mandato termine, o jeito é achar uma coexistência com o playboy trapalhão. O que poderia mudar radicalmente a relação desfavorável com o Congresso é uma ofensiva bem sucedida do STF - e por que não da PF - sobre as emendas. O fato de que as investigações já tenham chegado ao gabinete de Arthur Lira é um bom sinal.

.Hora de aventura. Ninguém gostou da indicação de Flávio Bolsonaro como candidato da oposição, nem o centrão, nem o mercado, nem Silas Malafaia. A bolsa despencou e o dólar subiu. Além da Faria Lima não estar disposta a embarcar de novo nas aventuras da família Bolsonaro, o mercado considera que a candidatura de Flávio facilitaria uma vitória folgada de Lula, considerado por eles o pior dos mundos. Mesmo assim, segundo alguns analistas, Lula teria preferência por uma disputa contra Tarcísio porque isso abriria a corrida eleitoral ao governo de São Paulo e daria maior consistência ideológica às eleições presidenciais, já que Tarcísio é mais identificado como um candidato do mercado e dos bancos. Outros, porém, avaliam que o petista estaria satisfeito em enfrentar um opositor fraco como Flávio. Seja como for, o eleitorado tem sua própria maneira de ver as coisas. A última pesquisa Genial/Quaest indica que a população absorveu rapidamente a candidatura de Flávio Bolsonaro. Apesar de perder por uma diferença de 10% dos votos num hipotético segundo turno contra Lula, ele se sairia melhor do que o governador de São Paulo. Isso só mostra que, mesmo depois da prisão, Bolsonaro continua sendo um elemento simbólico decisivo para 2026, confirmando que o bolsonarismo deve ter mesmo vida longa. Para variar, a direita e o centrão foram incapazes de produzir uma “terceira via” e já começam a desmobilizar a candidatura de Tarcísio, assim como faz o mercado, mais por pragmatismo que por convicção. Mesmo com dúvidas, o PL sente-se confortável em levar adiante a aventura porque ela deve impulsionar as candidaturas do partido à Câmara e ao Senado. Mas o dilema deve adentrar 2026 e tudo dependerá das próximas pesquisas de opinião para saber o ânimo do eleitorado e a capacidade do filho do ex-capitão reduzir sua taxa de rejeição, que chega a 60%. Além disso, se Flávio quiser realmente seguir adiante, terá que conquistar o coração da Faria Lima e, assim como fez seu pai em 2018, encontrar seu próprio Paulo Guedes. Sem chances de vencer Lula e vendo suas oportunidades minguarem fora do bolsonarismo, o centrão já sonha com um milagre ou um outsider, ao estilo Pablo Marçal, que possa bagunçar o cenário eleitoral do ano que vem.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.A América Latina diante da ameaça Trump. A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos coloca o controle do continente como prioridade. Por Jeffrey Sachs, no Outras Palavras.

.Fim da escala 6x1: o que muda e quem ganha se PEC for aprovada no Congresso. A Pública mapeia a proposta legislativa e seus impactos.

.Netflix compra Warner: o que vai mudar no Brasil? Maura Martins analisa os riscos trazidos pelo monopólio no setor audiovisual. Na Escotilha.

.Conexões de milhões. O Intercept revela que a produtora de filme sobre Bolsonaro é financiada com dinheiro público da prefeitura de São Paulo.

.Ken Loach: o cinema como espelho da devastação neoliberal. Ricardo Antunes analisa a obra de um dos maiores cineastas de nosso tempo. Na Terra é Redonda.

.Terceiro Reich and Roll. A Jacobina explora a obsessão das bandas de Rock pela estética nazi, revelada no recente livro do historiador Daniel Rachel.

.As melhores leituras de 2025. Quinze jornalistas da Piauí sugerem os melhores livros do ano.

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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

Quem merece ficar preso no Brasil?


O que segue a baixo, é newsletter, recebido em meu e-mail, do "Brasil de Fato (19/12/2025)

Quem merece ficar preso no Brasil?

A questão da Justiça brasileira é curiosa e, com frequência, um pouco confusa. Nos últimos meses, a palavra dosimetria passou a fazer parte do cotidiano da população, mesmo que pessoas sejam presas há décadas. Aparentemente, o tema da redução da pena de alguém condenado por cometer um crime só é interessante dependendo da pessoa.

Este ano, o ex-presidente Jair Bolsonaro foi preso por ter participado — ou até organizado — de uma tentativa de golpe de Estado. Não foi pela ineficiência e deboche enquanto milhares de brasileiros morriam na pandemia de covid-19. Tampouco por sua associação com milícias, rachadinha ou roubo de joias. Foi porque ele produziu provas de que planejava matar o presidente Lula, o vice Alckmin e até ministros do Supremo Tribunal Federal.

O que, para muitos, significa que a justiça finalmente foi feita, para outros, é motivo de escândalo e drama. Tudo para reduzir os 27 anos e três meses que Bolsonaro deve ficar preso. E ele até poderia reduzir este tempo lendo alguns livros específicos, mas não, o meio encontrado por seus aliados é o de um projeto de lei.

Para o cientista político Paulo Niccoli Ramirez, o PL da dosimetria é “uma forma de anistia” e “um convite aos cidadãos brasileiros que queiram fazer um golpe de Estado”. Para ele, “uma redução da pena do Bolsonaro significa dizer que a porta do inferno está aberta” e deixa uma brecha para “outras possibilidades de golpe”, já que futuros golpistas poderiam ficar “no máximo, presos dois, três anos, não mais que isso”.

Já juristas ouvidos pelo Brasil de Fato analisam que essa aprovação pode ter um efeito massivo, beneficiando outros criminosos. Eles apontam que, ao mexer em normas gerais de aplicação e progressão de pena, o texto criou um efeito colateral inesperado: a possível libertação e o benefício de milhares de condenados por crimes comuns.

A população também não concorda: no último domingo (14), milhares foram às ruas de todo o país, unindo-se a políticos e artistas contra os “inimigos do povo”, ou seja, o Congresso Nacional que aprovou o projeto de lei na madrugada do dia 10. Votaram a favor da matéria 291 deputados federais. Contra, 148.

Em seguida, Davi Alcolumbre enviou o PL à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado para apreciação, cujo relator foi o senador Espiridião Amim. Na CCJ, o texto também foi aprovado, com 17 votos favoráveis e 7 contrários.

Foi neste momento, inclusive, que o relator incluiu uma emenda proposta pelo senador Sergio Moro que limita o alcance do projeto aos golpistas do 8 de janeiro e retira crimes comuns dessa redução das penas. Ou seja: realmente existe uma agenda nesta pauta, não é um assunto de interesse geral dos brasileiros.

Chegando ao Senado, o texto foi aprovado por 48 a favor a 25 contrários e o próximo passo é a sanção presidencial. O presidente Lula, por sua vez, após evitar o assunto diretamente, finalmente afirmou que vai vetar o PL quando o projeto chegar até ele, e que não houve acordo com o governo para aprovação.

Não houve acordo, mas houve “falha de comunicação”. Essa foi a justificativa para o atrito entre o senador Jaques Wagner (BA) e a cúpula do PT, em uma situação que também envolveu a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann. Então, mesmo o momento da votação foi, novamente, confuso.

Ainda assim, além da perspectiva de veto do presidente, quatro bancadas partidárias da Câmara ingressaram com mandado de segurança junto ao STF pedindo a suspensão da tramitação do PL da Dosimetria, que contestado diretamente no STF caso seja sancionado.

O cientista político Pedro Arruda acredita que a aprovação por parte do Senado se enquadra em uma “tentativa de demonstração de força do campo conservador no Brasil”, para “enfraquecer e fustigar” o governo Lula, como uma maneira de se preparar para as eleições presidenciais de 2026.

As forças que governam o país se digladiam de forma institucional, e a população só observa. Na verdade, não. A população observa, sim, mas sai às ruas, grita, se expressa, e faz acontecer para impedir o que é considerado abuso, manipulação, injustiça.

Enquanto Brasil de Fato, cabe a nós seguirmos informando essa população sobre os desdobramentos de projetos de lei como o da dosimetria, para que cada um possa formar sua opinião e lutar pelo que realmente importa, que é a pauta do povo. Se você está conosco, apoie o nosso trabalho doando pelo pix: doe@brasildefato.com.br (Centro Popular de Mídias Cpmidias).

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Rafaella Coury
Coordenadora de redes sociais