27 abril, 2020

Cuidando até o fim com o “coração nas mãos”. Pacientes terminais e COVID-19. Artigo de Alexandre A. Martins

"o cuidado é uma arte na qual regras e protocolos não são suficientes para determiná-lo. O cuidado é uma arte exercida 'com o coração nas mãos'. 


"Se, por um lado, temos o desafio de parar a proliferação do coronavírus, cuidar dos infectados e dos doentes com Covid-19, por outro, precisamos entender que pessoas estão morrendo devido à Covid-19. Contudo, nunca podemos aceitar que elas morram como objetos largados em um leito hospitalar ou no chão de um corredor de algum pronto-socorro. O valor da vida humana não permite isso, nem mesmo em meio a um contexto excepcional de urgência e escassez", escreve Alexandre A. Martins, professor de bioética e ética social na Marquette University em Wisconsin, nos EUA.
Segundo ele, "o cuidado é uma arte na qual regras e protocolos não são suficientes para determiná-lo. O cuidado é uma arte exercida 'com o coração nas mãos'. Nos momentos mais desafiadores, a arte do 'coração nas mãos' encontra caminhos criativos para promover o cuidado e ajudar as pessoas a morrer com dignidade. A arte do 'coração nas mãos' encontra caminhos para confortar famílias sofrendo porque não podem se despedir dos que amam, enterrados em uma vala comum sem direito a um funeral".

Eis o artigo.

existência de um ser racional como nós inclui saber que a vida tem um limite. Somos seres finitos para os quais a existência acaba, isto é, nós morreremos. A consciência dessa realidade ainda impacta a maioria dos membros da nossa espécie. É difícil aceitar que muitas pessoas que amamos vão morrer; e que nós também morreremos. Há aqueles que olham para a morte como o fim de um processo biológico experienciado por qualquer organismo vivo. Isso é verdade. Dessa forma, a morte não deveria ser algo dramático; é apenas o fim do processo de um organismo vivo que levará ao início de outro processo na natureza, tal como a decomposição. Lembro aqui as palavras de Antoine Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Como parte da natureza, estamos no mesmo processo de transformação bioquímica. Contudo, esse processo de transformação não é visto de modo tão simples quando somos confrontados com a morte de pessoas que amamos ou mesmo com a nossa própria morte.
Acabamos de celebrar a Páscoa, a festa da vitória da vida sobre a morte. Os cristãos professam a fé na esperança da ressurreição: a morte não é a última palavra, mas, sim, a vida eterna no amor misericordioso de Deus. Páscoa é a fé no Mistério Pascal da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Contemplando a sua cruz, raios de esperança resplandecem a partir do amor crucificado que derrotou a morte. Iluminados pelo Mistério Pascal, a morte torna-se apenas uma passagem da existência histórica à salvação escatológica. Particularmente para os cristãos, o fim de uma existência histórica não deveria ser o pior dos males, mas apenas parte de um processo que unifica o imanente com o transcendente no seio da existência de Deus. Porém, o drama da morte ainda está presente nos sentimentos, até mesmo dos fiéis mais piedosos.
morte não é um acontecimento fácil. Claro que algumas pessoas lidam melhor com a morte do que outras. Acompanhado pacientes terminais e estando com eles e seus familiares nos últimos minutos de vida em várias ocasiões, testemunhei que a morte é um momento forte da vida, uma mistura de sofrimento e esperança, de dor e amor. Considerando essa realidade paradoxal, prefiro transferir meu olhar para o processo de morte e me pergunto como podemos tornar a morte menos dolorosa, já que, como animais racionais, desenvolvemos tecnologia suficiente para melhorar e prolongar nossas vidas. Em outras palavras: o problema não é a morte em si mesma, mas evitar que a vida acabe sem dignidade.
São Camilo de Lellis (1550-1614), fundador da Ordem dos Ministros do Enfermos, conhecida como Camilianos, iniciou sua obra com doentes abandonados no Hospital São Tiago do Incuráveis em Roma. Num tempo em que cuidar dos enfermos não era algo nobre e muitas vezes era uma forma de punição, Camilo de Lellis reuniu um grupo de pessoas que desejavam cuidar dos doentes com compaixão e ternura. “Mais coração nas mãos” era uma das frases favoritas de Camilo para encorajar seus companheiros no modo como eles deveriam cuidar dos enfermos.
No século XVI, a medicina não era tão desenvolvida como hoje. As pessoas doentes não tinham bons prognósticos e, em muitas situações, a doença se tornava praticamente uma sentença de morte. A Europa também enfrentou muitas pragas, epidemias de doenças contagiosas que mataram muitas pessoas. Durante as pragas, uma das principais medidas era pôr as pessoas infectadas em quarentena e deixá-las morrer isoladas em vista de conter a proliferação da praga. São Camilo e seus companheiros acreditavam que essas pessoas desafortunadas mereciam mais do que morrer sozinhas. Elas eram seres humanos que mereciam cuidado especial para morrer bem. Assim, muitos camilianos arriscaram suas vidas para cuidar das vítimas das pragas com “o coração em suas mãos”. Vários camilianos até morreram servindo esses enfermos e foram, mais tarde, reconhecidos como mártires da caridade pela Igreja Católica. Contudo, uma das coisas mais interessantes ocorridas durante períodos de pragas foi que os camilianos ficaram conhecidos como padres da boa morte.
pandemia do coronavírus e da Covid-19 impõe desafios à vida e à morte. Atualmente, medidas como pôr em quarentena os infectados para que morram isolados, visando conter o avanço das contaminações pelo vírus são impensáveis. Uma das medidas mais encorajadas é o distanciamento social entre as pessoas saudáveis, em quarentena em suas próprias casas. Ademais, agirmos para identificar os infectados e disponibilizar assistência médica aos doentes com Covid-19. Muitas pessoas com a mesma doença, necessitando do mesmo tratamento ao mesmo tempo, criam um gigantesco drama para qualquer sistema de saúde no mundo; mesmo os países mais ricos sofrem com escassez de recursos médicos e muitas questões éticas surgem na busca de melhor responder à pandemia e ao seu impacto no sistema de saúde. Decisões dramáticas precisam ser tomadas. O objetivo é parar o avanço do vírus e cuidar dos enfermos com a ajuda da medicina moderna. Todavia, muitas pessoas continuam morrendo, mais do que em qualquer situação normal.
Se, por um lado, temos o desafio de parar a proliferação do coronavírus, cuidar dos infectados e dos doentes com Covid-19, por outro, precisamos entender que pessoas estão morrendo devido à Covid-19. Contudo, nunca podemos aceitar que elas morram como objetos largados em um leito hospitalar ou no chão de um corredor de algum pronto-socorro. O valor da vida humana não permite isso, nem mesmo em meio a um contexto excepcional de urgência e escassez. A morte é, sim, o fim de um processo biológico; mas a dignidade da vida humana – algo intrínseco dado por Deus antes mesmo da existência individual, como afirma a tradição cristã, ou um valor inerente, como é reconhecida pela Declaração dos Direitos Humanos – não nos dá a opção de deixar que esse processo chegue ao seu fim sem o cuidado necessário para uma boa morte.
Por mais conscientes que sejamos sobre o fim da existência, ainda temos dificuldade para aceitar a morte. Mesmo acreditando na esperança da ressurreição, sofremos diante da passagem da vida histórica à escatológica. Independentemente da dramaticidade da situação e do tamanho do sofrimento, o cuidado é uma virtude moral que ajuda as pessoas a morrer com dignidade.
cuidado na vida da pessoa, esteja ela saudável ou doente, é uma arte de atençãosensibilidade e compaixão. Há quem afirme que cuidado é uma parte essencial da existência humana. Outros são ainda mais radicais e dizem que a essência do ser humano é cuidado. As pessoas gostam de ser cuidadas, e parece que há um impulso na maioria das pessoas que as leva a gostar de cuidar dos outros. Se é verdade que cuidado é parte da existência humana tanto quanto a morte, o cuidado também deve se realizar no fim da vida, para que a dignidade seja promovida na passagem final da vida à morte.
cuidado é uma arte na qual regras e protocolos não são suficientes para determiná-lo. O cuidado é uma arte exercida “com o coração nas mãos”. Nos momentos mais desafiadores, a arte do “coração nas mãos” encontra caminhos criativos para promover o cuidado e ajudar as pessoas a morrer com dignidade. A arte do “coração nas mãos” encontra caminhos para confortar famílias sofrendo porque não podem se despedir dos que amam, enterrados em uma vala comum sem direito a um funeral.
A existência tem um fim. Uma existência com sentido parece ser aquela que experienciou o cuidado entre a alegria e a dor, a felicidade e o sofrimento. O cuidado é uma virtude que dá sentido para a alegria e a esperança capaz de superar o sofrimento. Sendo uma virtude durante a vida, o cuidado mostra a beleza humana da criatividade na busca de meios para ajudar a morrer, cuidando “com o coração nas mãos”.
Fonte: IHU

26 abril, 2020

COVID-19: A ENFERMIDADE DA SOLIDÃO



Celso Pinto Carias / “mendigo” de Deus

A morte é uma realidade da qual não podemos fugir. É a única verdade absolutamente consensual. Ninguém diz: nunca morreremos. Pode-se acreditar, naturalmente, na continuidade eterna da vida, mas na história humana que conhecemos diretamente não há possibilidade de não passar pela morte. E ela provoca reações das mais diversas na existência de homens e mulheres. Pode ser um medo contido ou um completo desespero.

E no mundo de hoje, a morte ganhou uma característica que a torna uma experiência ainda mais difícil. Ela foi privatizada. Deixou de ser um acontecimento que envolve toda a comunidade onde a pessoa que morre vive. Quando se morre em casa é um problema. O morrer é também um produto com o qual se ganha dinheiro. E nas regiões de muita violência ela pode ser banalizada.

A medicina evoluiu muito, mas também, em certo sentido se desumanizou. Morre-se, muitas vezes, isolado em uma UTI sem que parentes ou amigos possam acompanhar. É verdade que a Medicina Paliativa tem mostrado o quanto é fundamental estar próximo de quem vai morrer, mas esta área médica caminha ainda de forma lenta. Médicos tem dificuldade de lidar com a morte, de transmitir de forma humanizada a notícia de que alguém morreu.

Neste contexto estamos diante da COVID-19. O novo coranavirus, que tem virado o mundo de cabeça para baixo, está aí revelando uma série de coisas que já sabíamos, mas que não dávamos importância. Precisamos resgatar valores fundamentais da convivência humana que nos ajude a passar pela morte com mais tranquilidade. Mas nesta situação imediata de pandemia não temos tanto tempo para rever o nosso itinerário. Assim, surgem perguntas: o que podemos fazer para diminuir o impacto desta enfermidade que isola o doente de tudo e todos? Até no sepultamento há o impedimento de proximidade.

Neste momento podemos aproveitar o isolamento para repensar a sociedade de consumo. O nosso consumo tem sido produtor de morte. Sim. Se não somos capazes de viver com o suficiente. Se achamos que tudo que compramos é para a nossa “felicidade” e, portanto, não tem consequência alguma para o resto do mundo, estamos criando condições para o surgimento de muitos outros vírus.

Se acreditamos em Deus, podemos repensar a nossa relação com Ele. Deus não é um “negociador de salvação” que fica em seu escritório verificando se nossas orações, nosso louvor, nossa adoração, tem fé suficiente para mudar a história. Deus, na perspectiva cristã, é Aquele que se envolve conosco em todas as situações: na saúde e na doença, na tristeza e na alegria. Ele é a razão pela qual vivemos e não uma “bolsa de investimentos” da qual poderemos obter toda a riqueza necessária para a “felicidade”.

Neste momento podemos fazer aquilo que nossa inteligência, para quem crê dada pelo próprio Deus, através da ciência, diminua a proporção de dor e sofrimento que a COVID-19 produzirá. O vírus pode passar por nós sem produzir sintoma algum. Mas pode passar pela vida de pessoas que serão isoladas e seus parentes ou amigos não terão como estar junto para diminuir o sofrimento da passagem definitiva. Muitas vezes temos uma fé tremendamente egoísta: “Deus não permitirá que aconteça isso comigo”. Mas será que Ele permite que aconteça com tanta gente boa que conhecemos?

Assim, se você tem um pouco de compaixão, um pouco de amor ao próximo, seguirá as recomendações para evitar que a propagação da doença seja acelerada e o sistema de saúde tenha condições de salvar mais vidas do que deixar morrer. Não se trata de salvar apenas a própria pele. De fato, a grande maioria não terá complicações com a COVID-19. Mas se coloque no lugar de alguém que pode adoecer por conta da irresponsabilidade de governos e respectivamente sua, se banaliza as medidas de  prevenção.

Não deixemos que mais pessoas morram solitárias e que
familiares e amigos não possam se quer viver o luto de forma humana.

Estas linhas foram terminadas no terceiro domingo de Páscoa de 2020. Muitas Igrejas cristãs leem o Evangelho conhecido como “Os discípulos de Emaus”.  A morte do mestre entristece este casal que caminha quase sem esperança. Sim, a morte pode paralisar. Mas eles caminham juntos, eles acolhem o peregrino, eles partilham o pão, e aí descobrem que existe uma presença muito maior que toda a nossa limitação. Podemos chamar tal presença de Deus revelado em Jesus Cristo ressuscitado. Mas podemos chamar também de uma profunda experiência de AMOR que pode ser sentida por qualquer pessoa, desde que ela se coloque no CAMINHO do AMOR. Um forte e caloroso abraço virtual.

Fonte: CEBs do Brasil

25 abril, 2020

Pandemia do coronavíru - importante que não nos descuidemos e fiquemos todos atentos.


É importante que não nos descuidemos e fiquemos todos atentos.

Pandemia do coronavírus

O que é certo, um vírus de alta transmissibilidade, desigualdade socioeconômica. Incertezas em relação às políticas públicas implantadas, portanto como saber qual será a reação da sociedade em relação a elas. A saúde pública, o SUS antes da pandemia já vinha sofrendo com redução de verbas e investimentos. Como será a solidariedade dos hospitais privados para ceder UTIs as pessoas com o Covid-19, não sei. Não vejo interesse em atitudes preventivas baseadas em orientação científicas. Irresponsabilidade... Irresponsabilidade. O sabor amargo da indiferença, indiferença por parte de quem não poderia, indiferença diante da dor do outro. Minimizar o perigo grave erro. Não é uma gripezinha.

Rezemos pelo papa

“Queridos irmãos e irmãs, contemplar juntos a face de Cristo com o coração de Maria, nossa Mãe, nos tornará ainda mais unidos como família espiritual e nos ajudará a superar esta provação. Eu rezarei por vocês, especialmente pelos mais sofredores, e vocês, por favor, rezem por mim. Eu lhes agradeço e os abençoo de coração. ” (Papa Francisco)

24 abril, 2020

Não percamos a esperança e o profetismo


De um nunca vi sinceridade...
Do outro, hipocrisia e desonestidade...

Não percamos a esperança e o profetismo.

Ser o que se é!

Ser o que se é, falar o que se crê, crer no que se prega, viver o que se proclama até as ultimas consequências.

 (Dom Pedro Casaldáliga )

«Primeirear», envolver-se, acompanhar, frutificar e festejar!


“ A Igreja «em saída» é a comunidade de discípulos missionários que «primeireiam», que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam. Primeireiam – desculpai o neologismo –, tomam a iniciativa! A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor (cf. 1 Jo 4, 10), e, por isso, ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos. Vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva. Ousemos um pouco mais no tomar a iniciativa! Como consequência, a Igreja sabe «envolver-se». Jesus lavou os pés aos seus discípulos. O Senhor envolve-Se e envolve os seus, pondo-Se de joelhos diante dos outros para os lavar; mas, logo a seguir, diz aos discípulos: «Sereis felizes se o puserdes em prática» (Jo 13, 17). Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Os evangelizadores contraem assim o «cheiro das ovelhas», e estas escutam a sua voz. Em seguida, a comunidade evangelizadora dispõe-se a «acompanhar». Acompanha a humanidade em todos os seus processos, por mais duros e demorados que sejam. Conhece as longas esperas e a suportação apostólica. A evangelização patenteia muita paciência, e evita deter-se a considerar as limitações. Fiel ao dom do Senhor, sabe também «frutificar». A comunidade evangelizadora mantém-se atenta aos frutos, porque o Senhor a quer fecunda. Cuida do trigo e não perde a paz por causa do joio. O semeador, quando vê surgir o joio no meio do trigo, não tem reacções lastimosas ou alarmistas. Encontra o modo para fazer com que a Palavra se encarne numa situação concreta e dê frutos de vida nova, apesar de serem aparentemente imperfeitos ou defeituosos. O discípulo sabe oferecer a vida inteira e jogá-la até ao martírio como testemunho de Jesus Cristo, mas o seu sonho não é estar cheio de inimigos, mas antes que a Palavra seja acolhida e manifeste a sua força libertadora e renovadora. Por fim, a comunidade evangelizadora jubilosa sabe sempre «festejar»: celebra e festeja cada pequena vitória, cada passo em frente na evangelização. No meio desta exigência diária de fazer avançar o bem, a evangelização jubilosa torna-se beleza na liturgia. A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia, que é também celebração da actividade evangelizadora e fonte dum renovado impulso para se dar.

(no. 24 - Exortação Apostólica Evangelii Gaudium do Santo Padre Francisco - O Anúncio do Evangelho no Mundo Actual)

Em discurso, Moro destaca autonomia da PF na gestão do PT: 'Fundamental'



Ao anunciar sua saída do cargo de ministro da Justiça, Sergio Moro reconheceu a autonomia que a PF (Polícia Federal) teve em governos anteriores.

Os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) —2003 a 2010— e Dilma Rousseff (PT) —2011 a 2016— foram os principais alvos da Operação Lava Jato, cujos processos eram comandados por Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba.

Leia a matéria na íntegra aqui


23 abril, 2020

A singeleza e simplicidade - Que linda Senhorazinha


A singeleza e simplicidade.  
Que linda Senhorazinha.

(Vídeo recebido no WhatsApp)




A minha teimosia é crônica. Sim!...


A minha teimosia é crônica. Sim!...


A minha teimosia é crônica. Sim!...

Aminha teimosia é crônica.
Sim! Absolutamente crônica.
...ou você acha que foi com uma mente volátil e um caráter dobre que eu cheguei até aqui?
Sou a teimosia em pessoa.

Sou a teimosia enraizada.
Sou aquela mão que agarra um galho em meio a correnteza.
Sou aquela flor que nasce apesar do asfalto.
Sou onda do mar contra rochedos.
Sou a palmeira suportando os ventos.

Quem me olha e não me vê quer podar minhas raízes.
Quem me vê apesar da superfície sabe que há vantagens em tudo isso.

A minha teimosia é a raiz de uma personalidade forte, que sobrevive apesar da superficialidade que o mundo exibe.

(Elizabeth Ruth Auer)

21 abril, 2020

Jó 12,7-9

"Pergunta, pois, aos animais e eles te ensinarão; às aves do céu e elas te instruirão. Fala (aos répteis) da terra, e eles te responderão, e aos peixes do mar, e eles te darão lições. Entre todos esses seres quem não sabe que a mão de Deus fez tudo isso?” (Jó 12:7-9)

O coronavírus e a economia - quais as nossas opções?

20 abril, 2020

O Conto do Sábio Chines - Raul Seixas


"Era uma vez
Um sábio chinês
Que um dia sonhou
Que era uma borboleta
Voando nos campos
Pousando nas flores
Vivendo assim
Um lindo sonho
Até que um dia acordou
E pro resto da vida
Uma dúvida lhe acompanhou:
Se ele era um sábio chinês
Que sonhou que era uma borboleta,
Ou se era uma borboleta sonhando
Que era um  sábio chinês."


13º Encontro Nacional da PJ já possui tema, lema e iluminação bíblica


“Já se vê alguma luz no fim do túnel, mas por 12 a 18 meses será necessário um distanciamento social gradual”, afirma imunologista de Harvard

"o distanciamento social terá que ser mantido de 25% a 70% do tempo por pelo menos mais 12 a 18 meses, dependendo de vários fatores, como contatos interpessoais, influência do período quente sobre os contágios e disponibilidade dos sistemas de saúde. "


Entrevista com o imunologista Stephen Kissler da Escola de Saúde Pública TH Chan de Harvard, coordenador do estudo na Science que propõe uma estratégia de reabertura. "O relaxamento das medidas terá que ser lento e gradual, caso contrário, é certo que os contágios começarão a crescer novamente". Na ausência de uma vacina – prevista presumivelmente para o começo do próximo ano - o distanciamento social deverá ser mantido de 25% a 70% até por um ano e meio.
Já se vê alguma luz no fim do túnel da emergência mundial por coronavírus. Mas, na ausência de uma vacina, o distanciamento social terá que ser mantido de 25% a 70% do tempo por pelo menos mais 12 a 18 meses, dependendo de vários fatores, como contatos interpessoais, influência do período quente sobre os contágios e disponibilidade dos sistemas de saúde. Não tem dúvidas o professor Stephen Kissler, pesquisador do Departamento de Imunologia e Doenças Infecciosas da Universidade de Harvard, Boston (EUA), autor principal do primeiro grande estudo peer-rewiewed que propõe previsões para futuros desenvolvimentos da pandemia. O artigo publicado recentemente na Science é baseado no comportamento conhecido de outros dois coronavírus (OC43 e HKU1), estreitamente relacionados ao SARS-CoV-2. A partir da análise de trabalhos como o de Kissler e seus colegas, estão sendo planejadas reaberturas parciais no mundo, bem como todas as outras medidas necessárias para enfrentar a crise.
A entrevista é de Matteo Grittani, publicada por La Repubblica, 19-04-2020. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis a entrevista.

Deve ser um período difícil para o seu departamento. Como está a moral?
Eu não escondo que são semanas de trabalho sem descanso. O que vemos lá fora todos os dias nos causa tristeza. No entanto, no laboratório, o sentimento dominante é um otimismo cauteloso. Vamos ser claros, vai ser difícil até o final do ano, mas estamos vendo uma colaboração entre cientistas. e formuladores de políticas de origens e países diferentes que não tem precedentes. E isso nos dá esperança.
Em seu trabalho na Science, vocês destacam a possível necessidade de "distanciamento social, de alguma forma, até mesmo em 2021 e 2022". Isso também se aplica se tiver a vacina ou uma cura disponível?
No momento, podemos dizer que, com a vacina, seremos capazes de relaxar consideravelmente as medidas de contenção. No entanto, acredito que é necessário esclarecer aos cidadãos que o distanciamento social é hoje o antivírus mais eficaz possível em larga escala. Será crucial continuará a implementá-lo com seriedade e rigor, e não excluímos que possa ser útil em regime reduzido, mesmo nos meses imediatamente após a difusão da vacina.
Vamos falar da vacina. Quantos meses serão necessários para desenvolvê-la? E, acima de tudo, quanto tempo levará para que esteja disponível para todos?
Sob as condições atuais, restringindo os tempos ao máximo - e acredite, seria algo impensável até alguns meses atrás - o desenvolvimento de uma vacina poderia ser concluído no segundo semestre. A distribuição em larga escala ocorreria o mais tardar no primeiro semestre de 2021. Uma vez desenvolvida, é claro que haverá uma ordem a ser cumprida, assim como aconteceu com a vacina contra a gripe H1N1 de 2009, os primeiros estoques seriam destinados a profissionais de saúde, idosos e imunodeprimidos. Quando essas categorias estiverem protegidas começará a distribuição ao restante da população. Não vamos esquecer também a corrida pela cura.
Bem, a cura. O presidente Trump havia chamado a hidroxicloroquina de "solução" no tratamento do vírus. Depois, existem os antivirais usados para o Ebola, como o Remdesivir. O que você acha?
Temos evidências de benefícios realmente bastante limitados no tratamento dos pacientes mais graves com cloroquina. Certamente não é a solução, sem mencionar os efeitos colaterais. O Remdesivir agora está passando pelos ensaios clínicos e temos sobre esse medicamento um otimismo moderado. No momento, existem outras moléculas em desenvolvimento e para todas elas a mesma regra se aplica: leva tempo para garantir sua segurança e eficácia antes de administrá-las à população.
Quanto tempo leva para esses tratamentos estarem disponíveis no mercado?
Se os testes passarem, é uma questão de poucos meses.
Depois, há a termolabilidade do vírus. Existe a possibilidade de que contágios e severidade dos sintomas diminuam com o aumento da temperatura?
Existe a possibilidade. A transmissibilidade dos coronavírus que causam o resfriado comum é certamente condicionada pela estação (embora não esteja claro o quanto incidam o clima, a mudança no estilo de vida ou outros). No entanto, excluo que o calor do verão causará um colapso drástico dos contágios. É mais provável que o curso da doença prossiga de maneira pouco mais leve do que aquele no início da pandemia.
Vamos falar da Itália. Por que você acha que no país o vírus tinha se mostrado tão agressivo, especialmente no norte? É possível que a chave seja o nível de poluição da região?
fenômeno italiano é um estudo de caso em nível global. A realidade é que, neste momento, não temos certeza, mas acreditamos que a poluição só pode desempenhar um papel no agravamento dos sintomas agudos do vírus. Quanto à transmissão, em vez disso, é um processo incrivelmente complexo, vinculado a fatores como clima, usos, hábitos da população e uma série de outras variáveis. Para entender o que aconteceu no seu país, será necessária uma análise mais aprofundada.
A Itália vem discutindo a "fase 2" há dias. Algumas regiões (aliás, as mais afetadas) planejam reaberturas parciais isoladas. Você acha que é uma abordagem razoável?
Este é sem dúvida o momento de planejar a Fase 2, discutindo-a com as várias partes envolvidas. No entanto, a sala de controle deve continuar a ser científica e tecnicamente orientada. O método que estamos propondo, como outros, é bastante simples: as áreas que apresentam uma desaceleração considerável nos casos por pelo menos 2-3 semanas, podem começar a relaxar as medidas de isolamento. Porém é preciso cuidado, nessa fase, para não cometer erros e não baixar a guarda. Em outras palavras, relaxar o distanciamento social deve ocorrer de maneira lenta e progressiva, caso contrário, é certo que os casos começarão a crescer novamente em breve. O desafio para todos será "adaptar a cada caso" as estratégias de relaxamento das contenções em áreas específicas, de acordo com as condições locais (tendência de contágios, número de leitos de terapia intensiva, disponibilidade de pessoal de saúde, etc).
Outro aspecto fundamental para uma futura reabertura é a duração da imunidade para aqueles que já adoeceram. O que se sabe até o momento?
Pois bem, esse ainda é um tópico de estudo. Uma coisa precisa ser esclarecida: cada pessoa que resiste ao vírus desenvolve uma resposta imune diferente; por esse motivo, é provável que também o tempo em que uma pessoa possa ser considerada imune possa variar bastante.
Em termos concretos?
Pode-se ver o que acontece com outros coronavírus. Por exemplo, as imunidades daqueles que sofrem um resfriado comum duram, em média, apenas um ano. A imunidade para os coronavírus da SARS pode durar alguns anos. É razoável pensar que o a imunidade para SARS-CoV-2 esteja nessa faixa, mas ainda não temos evidências científicas para ter certeza.
Então, qual é o caminho agora?
O maior desafio começa agora. Por um lado, continuará a corrida por vacinas e tratamento eficaz e seguro. Pelo outro, será vital realizar testes sorológicos em massa para entender quantas pessoas já contraíram o vírus e, portanto, desenvolveram uma certa imunidade". A tecnologia nos ajudará muito no rastreamento dos contatos. E não vamos esquecer o fortalecimento das unidades de terapia intensiva e, acima de tudo, o aumento de recursos para os serviços nacionais de saúde, que estão fazendo esforços inacreditáveis.
Como se diz "luz no fim do túnel" nos Estados Unidos?
(Risos, ndr) Veja bem, estamos atravessando talvez pelo período mais difícil dos nossos tempos, mas temos certeza de que o progresso científico e o bom senso das pessoas serão os verdadeiros fatores de mudança para enfrentá-lo. Então, sim, nos esperam meses de grande trabalho e sacrifício, mas existe esperança, existe luz.
Fonte: IHU

16 abril, 2020

PEC 10/2020. Uma derrota para o povo e uma vitória para os bancos? Nota da Comissão Brasileira Justiça e Paz


Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP), através desta nota, manifesta sua solidariedade com mais de cem organizações da sociedade civil que, na tramitação da PEC do “Orçamento de Guerra”, denunciam a priorização do mercado financeiro no contexto da pandemia.
Lembrando que o artigo 7º do substitutivo do Senado à PEC 10/2020 consiste em facilitar e aumentar a drenagem de recursos públicos para o mercado financeiro, autorizando o Banco Central a repassar recursos, da ordem de trilhões de Reais, aos bancos sem controle social e estatal, sem contrapartida que garanta a implementação de políticas de saúde e de interesse social e nacional. Esses recursos liberados aos bancos sairão do Tesouro Nacional e impactarão o orçamento público e a dívida pública, recaindo assim sobre os ombros de toda a população.

 

Eis a nota.


Nota Pública “Uma derrota para o povo e uma vitória para os bancos?”

(Art. 7º da PEC 10/2020 – Substitutivo do Senado)
Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP) manifesta sua solidariedade com mais de cem organizações da sociedade civil que, na tramitação da PEC do “Orçamento de Guerra”, denunciam a priorização do mercado financeiro no contexto da pandemia. O artigo 7º do substitutivo do Senado à PEC 10/2020 consiste em facilitar e aumentar a drenagem de recursos públicos para o mercado financeiro, autorizando o Banco Central a repassar recursos, da ordem de trilhões de Reais, aos bancos sem controle social e estatal, sem contrapartida que garanta a implementação de políticas de saúde e de interesse social e nacional. Esses recursos liberados aos bancos sairão do Tesouro Nacional e impactarão o orçamento público e a dívida pública, recaindo assim sobre os ombros de toda a população.
De fato, grande parte do recurso de R$1,2 trilhão já liberado pelo Banco Central tem sido pouco utilizada para salvar empresas do setor produtivo e, menos ainda, aplicado à saúde, à assistência social, à segurança alimentar e à agricultura familiar para afrontar a pandemia do COVID-19.
Na realidade, esta parte da PEC 10/2020 ou do substitutivo apresentado no Senado autoriza, em nome de enfrentar a crise sanitária do novo Coronavírus, o Banco Central a entrar nos chamados mercados secundários, local e internacional. Ele poderá, se aprovada a proposta, negociar sem regulação e fiscalização títulos da dívida pública, utilizando-se até das reservas internacionais que protegem e garantem a moeda nacional. Como também poderá comprar títulos privados sem se referir aos preços desses ativos, transformando títulos de emissão privada, derivativos, que o presidente do Banco Central declarou publicamente que podem alcançar quase R$1 trilhão, em dívida pública onerosa para os cofres públicos, beneficiando, assim, apenas os bancos privados.
A atuação do Banco Central no desregulado mercado secundário, negociando derivativos, desvirtua as funções do Banco e representa graves riscos de danos ao erário, inclusive sem a responsabilização de seus diretores e operadores que estarão imunes à Lei de Improbidade Administrativa, conforme a Medida Provisória 930/2020 em vigência.
A priorização do mercado financeiro e de propostas como estas “negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum” (Evangelii Gaudium, 56) que a sociedade nacional tem como aspecto primordial de soberania.
Por isso, a CBJP concorda com as razões contidas na Nota Técnica da Auditoria Cidadã da Dívida “ACD 3 - Substitutivo do Senado à PEC do Orçamento de Guerra mantém escandalosa transformação de papéis podres dos bancos em Dívida Pública”, do dia 14 de abril último e apela aos Senadores para que não aprovem o artigo 7º do substituto do Senado.
Brasília (DF), 15 de abril de 2020
Comissão Brasileira Justiça e Paz

Fonte: IHU

As minhas respostas, em forma epistolar. Artigo de Andrea Grillo


Monsenhor Markus Graulich, subsecretário do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, escreveu uma série de objeções, bastante rudes e apressadas, contra a Carta sobre o estado de exceção litúrgica. Trata-se de um texto eminentemente jurídico, que mostra, no entanto, não atender nem seu significado nem o escopo da Carta Aberta e das questões que a justificam. O texto pode ser lido aqui.
O artigo é de Andrea Grillo, teólogo italiano e professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, publicado por Come Se Non, 13-04-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

Prezado P. Graulich

Permita-me abordá-lo de forma quase confidencial, como a um religioso salesiano, mesmo que seja raro no mundo da autoridade eclesial. Será ainda mais estranho se alguém teve a paciência de ler a Carta Aberta e sua réplica muito superficial. Por esse motivo, não quero fugir do gênero da "refutação", que V.Sa. me impôs, mas desejo tentar entender o ponto de vista que o senhor expressou, como meu e nosso interlocutor. O senhor escreveu como advogado. Com as melhores armas de um bom advogado. Infelizmente, porém, essas são "armas formais", que permanecem na superfície dos problemas. O senhor nunca entra em nenhuma questão substancial e resolve tudo - ou pelo menos, como veremos, quase tudo - no plano do direito. Parece-me que dessa maneira algo importante não funcione.
Vamos em ordem. Explicarei apenas os pontos que considero mais problemáticos e me permitirei fazê-lo pelo menos com a mesma franqueza que o senhor considerou usar em suas objeções.
a) Antes de tudo, o senhor tenta desqualificar e liquidar a carta no contexto de "polêmicas" sucessivas à Summorum Pontificum. Digamos, entre os atos de insubordinação. Isso, no entanto, não desqualifica, mas qualifica a carta. É exatamente assim. Aquela lex, que o senhor parece tornar absoluta, é apenas um Motu Proprio que, não em sua origem, mas já depois de poucos meses após sua entrada em vigor, produziu frutos que conflitam com o Concílio Vaticano II e com a Reforma Litúrgica realizada depois dele. Como pode um jurista com responsabilidades de governo não levar em conta que as leis, todas as leis, podem ter problemas e causar outros? Que a lex condita não é o "último horizonte que o olhar exclui", mas também deve ser considerada em relação aos fatos e às "lex condenda", de que todo bom jurista deve sempre considerar? Não acredito revelar nada de novo a um canonista experiente. No entanto, o senhor parece trabalhar apenas dentro do horizonte estreito de um "direito positivo", marcado por uma excepcionalidade da qual o senhor não parece estar ciente.
b) Em segundo lugar, o senhor se permite dizer que a carta contém ideias falsas (até erros) e, de qualquer forma, expressa falta de conhecimento e uma leitura ideológica do conteúdo da SP. Acredito que um jurista deveria estar acostumado a medir palavras. Porque se o senhor diz que os 180 signatários - entre os quais estão os principais especialistas alemães, franceses, estadunidenses, espanhóis, etc. - dizem coisas falsas, mas depois não consegue explicar adequadamente o conteúdo do documento que pretende defender, a situação vai mal. Eu digo isso justamente falando a um canonista. Porque o jurista, que lê SP, deve fazer, como todos, um ato de grande humildade e entender que não é repetindo uma formulinha normativa que pode resolver um grande problema. Se o senhor quiser se safar com as formulinhas, misturando-as com insultos contra 180 teólogos, deve saber que não é assim que se enfrentam os problemas institucionais. Lembre-se de que por profissão, já há anos, aprendi a não ter medo dessas técnicas de prepotentes desprovidos de argumentos. Então, se quiser, vamos enfrentar a coisa séria e verdadeira. O que nós não teríamos entendido? Que se deveria falar de "duas formas do mesmo rito romano", e não de "dois ritos"? Esse seria o problema? Mas o senhor, mons. Graulich, pode dizer que tem certeza de que realmente sabe do que está falando? Alguma vez já se fez a pergunta - sistemática, não jurídica - se é suficiente repetir um artigo de SP para estar em paz com a própria consciência? Já se perguntou o que significa a frase "duas formas do mesmo rito"? Vou tentar explicar, com as poucas ferramentas que tenho à minha disposição.
c) A questão é séria, mas também é simples. Havia um rito de 1962, que João XXIII considerava provisório até o Concílio e, depois veio efetivamente o próprio Concílio e a reforma que ele auspiciou daquele rito romano de 1962, que assim se tornou o rito romano de 1970, aprovado por Paulo VI. É claro que se trata do mesmo rito romano, em uma forma anterior e em uma forma posterior. Há plena continuidade do rito, mas é evidente que não há continuidade nas formas. O Concílio solicitou que as formas mudassem para a continuidade do rito. Até agora tudo está claro? Eu quero ser ainda mais claro. Andrea Grillo e Markus Graulich, em 1970, quando o rito reformado entrou em vigor, tinham uma forma, mas hoje, em 2020, eles têm outra. Há plena continuidade nas pessoas: o senhor é sempre Markus e eu sempre sou Andrea. Mas outro era o senhor e era eu em 1970, e outro sou eu e é o senhor hoje. Seria muito estranho que nos pedissem hoje para ser como éramos em 1970, correr e pular como sabíamos fazer tão bem na época ou ler pouco ou nada como estávamos acostumados. Porque a continuidade da pessoa comporta a descontinuidade das formas. É assim que acontece com tudo que vive, mesmo para o rito romano, que tem duas formas diferentes "em tempos diferentes" de sua história. Mas se duas formas diferentes do mesmo rito são tornadas contemporâneas, elas não são mais duas formas do mesmo rito, mas se tornam "dois ritos diferentes". Que não podem estar de acordo. Como se pedissem ao senhor que fosse, contemporaneamente, justamente hoje, uma criança de 1970 e um adulto de 2020. Aquelas duas formas, na continuidade histórica da mesma pessoa, nunca se dão de forma contemporânea. Nunca se pode viver assim. E nenhuma lei, nenhuma afirmação, nenhuma invocação e nenhuma decisão jamais poderão impor que as coisas sejam assim. O que é branco não é preto, mesmo que um papa o decida. O branco permanece branco: um bom jurista nunca deveria esquecer essa verdade elementar.
d) Então, como vê, no coração de SP existe um problema sistemático do tamanho de uma casa. Esse problema é a chave para interpretar a Carta Aberta. Mas o senhor não consegue ver isso. Se um advogado não reconhece essa evidência, se pensa em se agarrar nos espelhos de um enunciado normativo, perde o objeto da discussão e entra no túnel das ficções. Veja bem, Padre, isso não significa, de maneira alguma, negar que SP seja uma lei ainda vigente, que com as modificações normativas desses anos as competências no âmbito litúrgico, limitadas ao rito extraordinário, tenham passado primeiro a Ecclesia Dei e agora à CdF. Se o senhor ler atentamente a carta, sem pular as linhas, verá que isso não é absolutamente negado, como o senhor afirma que nós estejamos dizendo. Mas aqui está o ponto. O senhor, como muitos canonistas costumam fazer, identifica uma lei com o bem. Mas nem sempre é o caso. Existem leis que não é oportuno serem aplicadas. Por quê? Aqui está outro aspecto que falta em sua leitura. Logo no início, o senhor diz que na carta se pede a transferência das competências da CdF para a CdC. Mas se ler atentamente, verá que o ponto decisivo não é o que o senhor diz. Em primeiro lugar é preciso restituir a autoridade sobre a liturgia a quem a possui primeiro, ou seja, ao bispo diocesano de sua diocese. Nem as Congregações nem o Papa estão imediatamente em jogo aqui. Os bispos não podem ser ignorados. E fico surpreso que um jurista não tenha clara essa nativa autoridade episcopal sobre a liturgia. Nessas coisas, o canonista deveria sempre repetir, como um dever inevitável: ai de quem chama de mal o bem e o bem de mal. Chamar de “enriquecimento” a ruptura da comunhão eclesial permanece um jogo de palavras que manifesta uma grave subestimação da autoridade episcopal e da verdade da liturgia. E tente se perguntar: se o canonista não falar essas coisas, quem as deveria falar na Igreja? Por que os liturgistas devem fazer o trabalho que o senhor deveria fazer?
e) Veja bem, no final, o senhor dá dois saltos mortais muito perigosas, com os quais poderia quebrar o pescoço. O primeiro é: do direito, o senhor passa repentinamente para o fato. Todo o seu castelo de normas excepcionais, no momento em que quer defendê-lo na substância, o reduz a um fato. Nós, digo nós os liturgistas, negaríamos o fato e, como tais, seríamos altamente censuráveis. Mas qual seria o fato? O senhor alude ao dado de fato da possibilidade de "assistir em todo lugar" a uma missa em rito extraordinário. Uau! Que fato incrível! O senhor, no entanto, no momento em que alega o único fato em sua opinião decisivo, comete uma imprudência, uma imprudência grave, porque acelera demais na argumentação e, assim, alega mal o seu fato. O senhor diz "assistir ao rito extraordinário". Muito mal. Escolheu justamente o termo mais infeliz. Então eu vou lhe dizer uma coisa. Sabia que eu "tal fato" o considero impossível? O senhor ficará assombrado, talvez até incomodado, mas "assistir a uma missa em rito extraordinário" é justamente o que a SC 48 proíbe a todos os católicos, ao senhor e a mim. Também o proíbe aos juristas. E o faz desde 1963. Sei que o senhor não tem o hábito de levar a sério os textos constitucionais e dá mais valor aos minúsculos decretos das Congregações. E sei muito bem que é justamente o seu trabalho - uma pequena deformação profissional, como todos nós temos - que lhe faz ler as coisas de maneira imprecisa. Mas justamente o "fato" que o senhor pretende alegar lhe digo que, proceduralmente, não é admissível. Sim, é inadmissível. Sinto muito, no plano do procedimento não posso conceder-lhe isso. Mas, veja bem, não sou eu quem sou tão severo. É o Concílio Vaticano II, que não quer "espectadores mudos" das liturgias eucarísticas. E que precisamente por essa razão decisiva, pediu e exigiu que a Igreja fizesse a reforma do rito de 1962. Aquele rito que agora o senhor se afoba em considerar intocável "in aeternum", o Concílio pede que seja alterado profundamente e irreversivelmente. E talvez justamente esse bendito texto conciliar, de sua parte, e digo isso a sério sem nenhuma ironia, precisaria de uma atenta revisão.
f) Por fim, e em conclusão, o senhor não resiste a opor ao seu suposto "fato" aos "pretensos liturgistas " que não gostariam de reconhecê-lo. Com seus fatos inadmissíveis, o senhor gostaria de silenciar os liturgistas. Que, ao contrário, falam e não se assustam com formalismos vazios. Entre esses liturgistas, digo-lhe: com base no Concílio Vaticano II, o estado de exceção introduzido por SP, com as mais nobres intenções de pacificação há 13 anos, gerou e continua gerando laceração e confusão. Um número considerável de liturgistas, com um senso de responsabilidade, pede formalmente: que se coloque um fim nessa condição distorcida. Que se restitua autoridade litúrgica nas dioceses individuais aos Bispos diocesanos, conforme prescrito pelo Concílio e pela grande tradição eclesial, juntamente com a Congregação para o Culto Divino. Que se saia do "estado de exceção litúrgica" que infelizmente altera de modo grave a normal vida litúrgica da Igreja.
Prezado padre Graulich, tente considerar a questão por esse ponto de vista. É diferente do seu, mas não é nem falso nem errôneo. Simplesmente olhe as coisas por uma perspectiva diferente daquela de um gabinete da cúria. Se o senhor também tentar fazer isso, toda a res lhe parecerá muito diferente: como dizia um grande jurista romano: rem tene, verba sequentur (Conheça o assunto, as palavras virão depois).

Fonte: IHU