10 julho, 2022
09 julho, 2022
CEBs – Roda de Conversa com a Região Pastoral Catedral
Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras? (Lc 24, 32)
CEBs realiza Roda de Conversa nas Regiões Pastoral.
Neste sábado, dia 09 de julho estivemos com a Região Pastoral Catedral
Essa é a dinâmica da roda de conversa:
A CEBs (comunidades, setores, capelas,...) deve ser uma pequena família, de “tamanho humano”, onde todas e todos conheçam o rosto e os dramas de todas e de todos e conhecendo acolhe, cuida e integra.
Qual a sua compreensão dessa definição?
Concorda com essa definição?
Quais os desafios e os sonhos?
Uma equipe capacitada de formadores oferecido pela CEBs arquidiocesana, para ir a base, lá nas CEBs, para uma formação aberta ao povo, com uma pedagogia e didática popular ajudaria? Gostariam que isso acontecesse?
08 julho, 2022
Mensagem do Santo Padre Francisco para o VI Dia Mundial dos Pobres
Mensagem do Santo Padre Francisco para o VI Dia Mundial dos Pobres
(XXXIII Domingo do Tempo Comum – 13 de novembro de 2022)
Jesus Cristo fez-Se pobre por vós (cf. 2 Cor 8, 9)
1. «Jesus Cristo (…) fez-Se pobre por vós» (2 Cor 8, 9). Com estas palavras, o apóstolo Paulo dirige-se aos cristãos de Corinto para fundamentar o seu compromisso de solidariedade para com os irmãos necessitados. O Dia Mundial dos Pobres torna este ano como uma sadia provocação para nos ajudar a refletir sobre o nosso estilo de vida e as inúmeras pobrezas da hora atual.
Há alguns meses, o mundo estava a sair da tempestade da pandemia, mostrando sinais de recuperação económica que se esperava voltasse a trazer alívio a milhões de pessoas empobrecidas pela perda do emprego. Abria-se uma nesga de céu sereno que, sem esquecer a tristeza pela perda dos próprios entes queridos, prometia ser possível tornar finalmente às relações interpessoais diretas, encontrar-se sem embargos nem restrições. Mas eis que uma nova catástrofe assomou ao horizonte, destinada a impor ao mundo um cenário diferente.
A guerra na Ucrânia veio juntar-se às guerras regionais que, nestes anos, têm produzido morte e destruição. Aqui, porém, o quadro apresenta-se mais complexo devido à intervenção direta duma «superpotência», que pretende impor a sua vontade contra o princípio da autodeterminação dos povos. Vemos repetir-se cenas de trágica memória e, mais uma vez, as ameaças recíprocas de alguns poderosos abafam a voz da humanidade que implora paz.
2. Quantos pobres gera a insensatez da guerra! Para onde quer que voltemos o olhar, constata-se como os mais atingidos pela violência sejam as pessoas indefesas e frágeis. Deportação de milhares de pessoas, sobretudo meninos e meninas, para os desenraizar e impor-lhes outra identidade. Voltam a ser atuais as palavras do Salmista perante a destruição de Jerusalém e o exílio dos judeus: «Junto aos rios da Babilónia nos sentamos a chorar, / recordando-nos de Sião. / Nos salgueiros das suas margens / penduramos as nossas harpas. / Os que nos levaram para ali cativos / pediam-nos um cântico; / e os nossos opressores, uma canção de alegria / (...). Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor, / estando numa terra estranha?» (Sal 137, 1-4).
Milhões de mulheres, crianças e idosos veem-se constrangidos a desafiar o perigo das bombas para pôr a vida a salvo, procurando abrigo como refugiados em países vizinhos. Entretanto, aqueles que permanecem nas zonas de conflito têm de conviver diariamente com o medo e a carência de comida, água, cuidados médicos e sobretudo com a falta de afeto familiar. Nestes momentos, a razão fica obscurecida e quem sofre as consequências é uma multidão de gente simples, que vem juntar-se ao número já elevado de pobres. Como dar uma resposta adequada que leve alívio e paz a tantas pessoas, deixadas à mercê da incerteza e da precariedade?
3. Neste contexto tão desfavorável, situa-se o VI Dia Mundial dos Pobres, com o convite – tomado do apóstolo Paulo – a manter o olhar fixo em Jesus, que, «sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8, 9). Na sua visita a Jerusalém, Paulo encontrara Pedro, Tiago e João, que lhe tinham pedido para não esquecer os pobres. De facto, a comunidade de Jerusalém debatia-se com sérias dificuldades devido à carestia que assolara o país. O Apóstolo preocupou-se imediatamente em organizar uma grande coleta a favor daqueles pobres. Os cristãos de Corinto mostraram-se muito sensíveis e disponíveis. Por indicação de Paulo, em cada primeiro dia da semana recolhiam quanto haviam conseguido poupar e todos foram muito generosos.
Como se o tempo tivesse parado naquele momento, também nós, cada domingo, durante a celebração da Santa Missa, cumprimos o mesmo gesto, colocando em comum as nossas ofertas para que a comunidade possa prover às necessidades dos mais pobres. É um sinal que os cristãos sempre cumpriram com alegria e sentido de responsabilidade, para que a nenhum irmão e irmã faltasse o necessário. Já o testemunhava no século II São Justino que, ao descrever ao imperador Antonino Pio a celebração dominical dos cristãos, escrevia: «No dia do Sol, como é chamado, reúnem-se num mesmo lugar os habitantes, quer das cidades quer dos campos, e leem-se, na medida em que o tempo o permite, ora os comentários dos Apóstolos ora os escritos dos Profetas. (…) Seguidamente, a cada um dos presentes se distribui e faz participante dos dons sobre os quais foi pronunciada a ação de graças, e dos mesmos se envia aos ausentes por meio dos diáconos. Os que possuem bens em abundância dão livremente o que lhes parece bem, e o que se recolhe põe-se à disposição daquele que preside. Este socorre os órfãos e viúvas e os que, por motivo de doença ou qualquer outra razão, se encontram em necessidade, assim como os encarcerados e hóspedes que chegam de viagem; numa palavra, ele toma sobre si o encargo de todos os necessitados» (Primeira Apologia, LXVII, 1-6).
4. Voltando à comunidade de Corinto, sucedeu que, depois do entusiasmo inicial, começou a esmorecer o empenho, e a iniciativa proposta pelo Apóstolo perdeu impulso. Este é o motivo que leva Paulo a escrever com grande paixão, relançando a coleta, «para que, como fostes prontos no querer, também o sejais no executar, conforme as vossas possibilidades» (2 Cor 8, 11).
Neste momento, penso na disponibilidade que, nos últimos anos, moveu populações inteiras para abrir as portas a fim de acolher milhões de refugiados das guerras no Médio Oriente, na África Central e, agora, na Ucrânia. As famílias abriram as suas casas para deixar entrar outras famílias, e as comunidades acolheram generosamente muitas mulheres e crianças para lhes proporcionar a devida dignidade. Mas quanto mais se alonga o conflito, tanto mais se agravam as suas consequências. Os povos que acolhem têm cada vez mais dificuldade em dar continuidade à ajuda; as famílias e as comunidades começam a sentir o peso duma situação que vai além da emergência. Este é o momento de não ceder, mas de renovar a motivação inicial. O que começamos precisa de ser levado a cabo com a mesma responsabilidade.
5. Com efeito, a solidariedade é precisamente partilhar o pouco que temos com quantos nada têm, para que ninguém sofra. Quanto mais cresce o sentido de comunidade e comunhão como estilo de vida, tanto mais se desenvolve a solidariedade. Aliás, deve-se considerar que há países onde, nas últimas décadas, se verificou um significativo crescimento do bem-estar de muitas famílias, que alcançaram um estado de vida seguro. Trata-se dum resultado positivo da iniciativa privada e de leis que sustentaram o crescimento económico, aliado a um incentivo concreto às políticas familiares e à responsabilidade social. Possa este património de segurança e estabilidade alcançado ser agora partilhado com quantos foram obrigados a deixar as suas casas e o seu país para se salvarem e sobreviverem. Como membros da sociedade civil, mantenhamos vivo o apelo aos valores da liberdade, responsabilidade, fraternidade e solidariedade; e, como cristãos, encontremos sempre na caridade, na fé e na esperança o fundamento do nosso ser e da nossa atividade.
6. É interessante notar que o Apóstolo não quer obrigar os cristãos, forçando-os a uma obra de caridade; de facto, escreve: «Não o digo como quem manda». O que ele pretende é «pôr à prova a sinceridade do amor» demonstrado pelos Coríntios na atenção e solicitude pelos pobres (cf. 2 Cor 8, 8). Na base do pedido de Paulo, está certamente a necessidade de ajuda concreta, mas a sua intenção vai mais longe. Convida a realizar a coleta, para que seja sinal do amor testemunhado pelo próprio Jesus. Enfim, a generosidade para com os pobres encontra a sua motivação mais forte na opção do Filho de Deus que quis fazer-Se pobre.
Na realidade, o Apóstolo não hesita em afirmar que esta opção de Cristo, este seu «despojamento», é uma «graça» – aliás, é «a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo» (2 Cor 8, 9) – e só acolhendo-a é que podemos dar expressão concreta e coerente à nossa fé. O ensinamento de todo o Novo Testamento revela a propósito uma especial unanimidade, como se verifica nesta passagem da Carta do apóstolo Tiago sobre a Palavra que foi semeada nos crentes: «Tendes de a pôr em prática e não apena ouvi-la, enganando-vos a vós mesmos. Porque, quem se contenta com ouvir a palavra, sem a pôr em prática, assemelha-se a alguém que contempla a sua fisionomia num espelho; mal acaba de se contemplar, sai dali e esquece-se de como era. Aquele, porém, que medita com atenção a lei perfeita, a lei da liberdade, e nela persevera – não com quem a ouve e logo se esquece, mas como quem a cumpre – esse encontrará a felicidade ao pô-la em prática» (1, 22-25).
7. No caso dos pobres, não servem retóricas, mas arregaçar as mangas e pôr em prática a fé através dum envolvimento direto, que não pode ser delegado a ninguém. Às vezes, porém, pode sobrevir uma forma de relaxamento que leva a assumir comportamentos incoerentes, como no caso da indiferença em relação aos pobres. Além disso acontece que alguns cristãos, devido a um apego excessivo ao dinheiro, fiquem empantanados num mau uso dos bens e do património. São situações que manifestam uma fé frágil e uma esperança fraca e míope.
Sabemos que o problema não está no dinheiro em si, pois faz parte da vida diária das pessoas e das relações sociais. Devemos refletir, sim, sobre o valor que o dinheiro tem para nós: não pode tornar-se um absoluto, como se fosse o objetivo principal. Um tal apego impede de ver, com realismo, a vida de todos os dias e ofusca o olhar, impedindo de reconhecer as necessidades dos outros. Nada de mais nocivo poderia acontecer a um cristão e a uma comunidade do que ser ofuscados pelo ídolo da riqueza, que acaba por acorrentar a uma visão efémera e falhada da vida.
Entretanto não se trata de ter um comportamento assistencialista com os pobres, como muitas vezes acontece; naturalmente é necessário empenhar-se para que a ninguém falte o necessário. Não é o ativismo que salva, mas a atenção sincera e generosa que me permite aproximar dum pobre como de um irmão que me estende a mão para que acorde do torpor em que caí. Por isso, «ninguém deveria dizer que se mantém longe dos pobres, porque as suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outras incumbências. Esta é uma desculpa frequente nos ambientes académicos, empresariais ou profissionais, e até mesmo eclesiais. (…) Ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 201). Urge encontrar estradas novas que possam ir além da configuração daquelas políticas sociais «concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres e muito menos inserida num projeto que reúna os povos» (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 169). Em vez disso, é preciso tender para assumir a atitude do Apóstolo, que podia escrever aos Coríntios: «Não se trata de, ao aliviar os outros, vos fazer entrar em apuros, mas sim de que haja igualdade» (2 Cor 8, 13).
8. Estamos diante dum paradoxo, que, hoje como no passado, é difícil de aceitar, porque embate na lógica humana: há uma pobreza que nos torna ricos. Recordando a «graça» de Jesus Cristo, Paulo quer confirmar o que o próprio Senhor pregou, ou seja, que a verdadeira riqueza não consiste em acumular «tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar» (Mt 6, 19), mas, antes, no amor recíproco que nos faz carregar os fardos uns dos outros, para que ninguém seja abandonado ou excluído. A experiência de fragilidade e limitação, que vivemos nestes últimos anos e, agora, a tragédia duma guerra com repercussões globais, devem ensinar-nos decididamente uma coisa: não estamos no mundo para sobreviver, mas para que, a todos, seja consentida uma vida digna e feliz. A mensagem de Jesus mostra-nos o caminho e faz-nos descobrir a existência duma pobreza que humilha e mata, e há outra pobreza – a d’Ele – que liberta e nos dá serenidade.
A pobreza que mata é a miséria, filha da injustiça, da exploração, da violência e da iníqua distribuição dos recursos. É a pobreza desesperada, sem futuro, porque é imposta pela cultura do descarte que não oferece perspetivas nem vias de saída. É a miséria que, enquanto constringe à condição de extrema indigência, afeta também a dimensão espiritual, que, apesar de muitas vezes ser transcurada, não é por isso que deixa de existir ou de contar. Quando a única lei passa a ser o cálculo do lucro no fim do dia, então deixa de haver qualquer freio na adoção da lógica da exploração das pessoas: os outros não passam de meios. Deixa de haver salário justo, horário justo de trabalho e criam-se novas formas de escravidão, suportada por pessoas que, sem alternativa, devem aceitar este veneno de injustiça a fim de ganhar o mínimo para comer.
Ao contrário, pobreza libertadora é aquela que se nos apresenta como uma opção responsável para alijar da estiva quanto há de supérfluo e apostar no essencial. De facto, pode-se individuar facilmente o sentido de insatisfação que muitos experimentam, porque sentem que lhes falta algo de importante e andam à sua procura como extraviados sem rumo. Desejosos de encontrar o que os possa saciar, precisam de ser encaminhados para os humildes, os frágeis, os pobres para compreenderem finalmente aquilo de que tinham verdadeiramente necessidade. Encontrar os pobres permite acabar com tantas ansiedades e medos inconsistentes, para atracar àquilo que verdadeiramente importa na vida e que ninguém nos pode roubar: o amor verdadeiro e gratuito. Na realidade, os pobres, antes de ser objeto da nossa esmola, são sujeitos que ajudam a libertar-nos das armadilhas da inquietação e da superficialidade.
Um padre e doutor da Igreja, São João Crisóstomo, em cujos escritos se encontram fortes denúncias contra o comportamento dos cristãos para com os mais pobres, escrevia: «Se não consegues acreditar que a pobreza te faça tornar rico, pensa no teu Senhor e deixa de duvidar quanto a isso. Se Ele não tivesse sido pobre, tu não serias rico; trata-se de algo extraordinário: que da pobreza tenha derivado riqueza abundante. Aqui Paulo entende por “riquezas” o conhecimento da piedade, a purificação dos pecados, a justiça, a santificação e milhares doutras coisas boas que nos foram dadas agora e para sempre. Tudo isto, o temos graças à pobreza» (Homilias sobre a II Carta aos Coríntios, 17, 1).
9. O texto do Apóstolo a que se refere este VI Dia Mundial dos Pobres apresenta o grande paradoxo da vida de fé: a pobreza de Cristo torna-nos ricos. Se Paulo pôde comunicar este ensinamento – e a Igreja difundi-lo e testemunhá-lo ao longo dos séculos – é porque Deus, em seu Filho Jesus, escolheu e seguiu esta estrada. Se Ele Se fez pobre por nós, então a nossa própria vida ilumina-se e transforma-se, adquirindo um valor que o mundo não conhece nem pode dar. A riqueza de Jesus é o seu amor, que não se fecha a ninguém mas vai ao encontro de todos, sobretudo de quantos estão marginalizados e desprovidos do necessário. Por amor, despojou-Se a Si mesmo e assumiu a condição humana. Por amor, fez-Se servo obediente, até à morte e morte de cruz (cf. Flp 2, 6-8). Por amor, fez-Se «pão de vida» (Jo 6, 35), para que a ninguém falte o necessário, e possa encontrar o alimento que nutre para a vida eterna.Também em nossos dias parece difícil, como foi então para os discípulos do Senhor, aceitar este ensinamento (cf. Jo 6, 60); mas a palavra de Jesus é clara. Se quisermos que a vida vença a morte e que a dignidade seja resgatada da injustiça, o caminho a seguir é o d’Ele: é seguir a pobreza de Jesus Cristo, partilhando a vida por amor, repartindo o pão da própria existência com os irmãos e irmãs, a começar pelos últimos, por aqueles que carecem do necessário, para que se crie a igualdade, os pobres sejam libertos da miséria e os ricos da vaidade, ambos sem esperança.
10. No passado dia 15 de maio, canonizei o Irmão Carlos de Foucauld, um homem que, tendo nascido rico, renunciou a tudo para seguir Jesus e com Ele tornar-se pobre e irmão de todos. A sua vida eremita, primeiro em Nazaré e depois no deserto do Saara, feita de silêncio, oração e partilha, é um testemunho exemplar da pobreza cristã. Ajudar-nos-á a meditação destas suas palavras: «Não desprezemos os pobres, os humildes, os operários; são não só nossos irmãos em Deus, mas também os que mais perfeitamente imitam a Jesus na sua vida exterior. Eles apresentam-nos perfeitamente Jesus, o Operário de Nazaré. São primogénitos entre os eleitos, os primeiros chamados ao berço do Salvador. Foram a companhia habitual de Jesus, desde o seu nascimento até à sua morte (…). Honremo-los, honremos neles as imagens de Jesus e dos seus santos progenitores (…). Tomemos para nós [a condição] que Ele tomou para Si (…). Nunca deixemos de ser, em tudo, pobres, irmãos dos pobres, companheiros dos pobres; sejamos os mais pobres dos pobres, como Jesus, e como Ele amemos os pobres e rodeemo-nos deles» ( Comentário ao Evangelho de Lucas, Meditação 263) [1]. Para o Irmão Carlos, estas não eram apenas palavras, mas estilo concreto de vida, que o levou a partilhar com Jesus o dom da própria existência.
Oxalá este VI Dia Mundial dos Pobres se torne uma oportunidade de graça, para fazermos um exame de consciência pessoal e comunitário, interrogando-nos se a pobreza de Jesus Cristo é a nossa fiel companheira de vida.
Roma, São João de Latrão, na Memória de Santo António, 13 de junho de 2022.
FRANCISCO
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[1] Meditação n. 263, sobre Lc 2, 8-20: C.De Foucauld, A Bondade de Deus. Meditações sobre os santos Evangelhos, I, Nouvelle Cité – Montrouge 1996, 214-216.
A fome explode e o “agro” planta combustíveis
Lavouras de biodiesel espalham-se e já ocupam área que poderia alimentar 2 bilhões de pessoas. Produção engorda civilização do automóvel enquanto devasta biomas, inflaciona alimentos e expulsa lavradores e indígenas de suas terras.
Não é nada complicado entender os efeitos de se transformar lavouras em biocombustível. Se a comida é usada para abastecer os carros, gerar eletricidade ou aquecer as casas, ou essa comida é arrancada das bocas humanas ou os ecossistemas serão arrancados da superfície do planeta, à medida que as terras aráveis se expandem para acomodar a demanda extra. Mas os governos e as indústrias que eles favorecem tratam de obscurecer essa verdade óbvia. Eles nos distraem e nos confundem a respeito de uma solução evidentemente falsa para o colapso climático.
Leia aqui a matéria na íntegra.
28 junho, 2022
Nosso amado Pe. João Caruana fez sua Páscoa.
Obrigada por cuidar de mim!
Nosso amado Pe. João Caruana fez sua Páscoa.
Que sempre meu deu força. Que em tantos momentos se arriscou por mim, por acreditar em mim e na caminhada.
As CEBs sempre foram fortalecidas por esse querido profeta Caruana.
Padre João Caruana nasceu em 03 de junho de 1941, na cidade de Mosta, em Malta. Foi ordenado padre, em sua terra natal, no dia 11 de março de 1967. Sempre sentiu muito forte a vocação missionária, mas precisou esperar dezessete anos para realizar o seu sonho.
O presbítero chegou ao Brasil em 1984 e serviu à Arquidiocese de Maringá nas paróquias Santa Terezinha do Menino Jesus e Nossa Senhora das Graças, em Sarandi, São Silvestre em Maringá e por dois anos foi missionário na Diocese Guajará-Mirim em Rondônia – “Igreja Irmã” da Arquidiocese de Maringá, dentro do projeto “Igrejas Irmãs”, da CNBB.
27 junho, 2022
Escola de Formadores e Articuladores para as CEBs 7ª etapa
Escola de Formadores e Articuladores para as CEBs
7ª etapa
Conteúdo da 7ª etapa:
“Metodologia e Didática - Educação Popular”
Assessores:
Educadores popular Maria Izabel Grein e Nilciney Toná, do Setor Educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Coordenadores da Escola
Pe. Genivaldo Ubinge e Lucimar Moreira Bueno (Lúcia)
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A 7ª Etapa da Escola realizada nos dias 25 e 26 de junho.
24 junho, 2022
Papa Francisco recebe seis mulheres transgênero “Nós nos sentimos acolhidas sem preconceitos”
“Nós nos sentimos acolhidas sem preconceitos”
O Papa Francisco recebeu seis mulheres transgênero entre as quais Alessia Nobile, que relatou à Fanpage.it como o Papa recomendou não se deixar envolver pelo preconceito em relação à Igreja.
A reportagem é de Alessia Rabbai, publicada por Fanpage, 23-06-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.
"Foi emocionante, nos sentimos acolhidas". Alessia Nobile contou à Fanpage.it como foi ficar cara a cara com o Papa Francisco. Ontem, o Santo Padre recebeu seis mulheres transgênero, uma italiana e cinco estrangeiras, de diferentes idades e histórias e a mãe de um jovem transgênero. Um encontro inesperado com forte valor simbólico, se considerarmos que aconteceu justamente durante o mês do Orgulho Gay, das manifestações e das cores do arco-íris.
Alessia, formada em Ciências Sociais, é autora do livro ‘La bambina invisibile' publicado pela Castelvecchi em fevereiro passado. Ela não foi sozinha a São Pedro, mas levou consigo aquele livro de que fala nas escolas e nas prisões onde leva informação. Um livro que conta sobre sua vida e seu caminho para a formação da pessoa que é hoje, da realidade das pessoas transgênero e o colocou nas mãos do Pontífice.
Um dia organizado pela Irmã Genevier, uma freira que vive em um parque de diversões perto de Roma, que reúne e cuida dos últimos. Ela propôs o encontro ao Papa, explicando, no entanto, que não era apenas uma pessoa e ele respondeu: "Traga todas". "Nos reunimos no Vaticano junto com a irmã e um sacerdote, que faz parte do grupo Cristiani lgbt + Nazionale TRANSizioni - projeto de La Tenda di Gionata. O Papa nos recebeu individualmente e eu fui a primeira - explica Alessia com emoção - Entregar meu livro para ele foi um sonho que se tornou realidade".
Alessia explicou como foi o encontro com o Papa: "Ele não queria que eu me ajoelhasse, apertou minha mão e quando me apresentei como uma mulher trans, ele me respondeu que não importava o que eu era, que temos um único Pai, como se quisesse me dizer: você é uma irmã".
Alessia presenteou seu livro ao Papa: "Ele o pegou e me disse, ótimo, você fez muito bem em escrever sua história. Depois ele me recomendou ser sempre eu mesma, mas não me deixar envolver pelo preconceito contra a Igreja. Muitas vezes nós, pessoas trans, vítimas de preconceito, também nutrimos preconceitos em relação aos outros e pensamos, partindo de preconceitos, que a Igreja não nos aceita de qualquer forma e nem procuramos um encontro. Eu, ao contrário, me senti acolhida, tomada pela mão e abraçada. No mês do Orgulho Gay acredito que esta é uma mensagem importante. A melhor coisa de ter falado com o Papa Francisco é que foi simplesmente um confronto entre pessoas e não sobre nossa diversidade".
Fonte: IHU
16 junho, 2022
Seminário de assessores e articuladores de CEBs dos Estados do Sulão (SP, PR, SC, RS) - Sinodalidade.
Em Curitiba-Pr de hoje a domingo
Seminário de Articuladores e Assessores de CEBs
Promovido pelo Iser Assessoria em parceria com o Setor CEBs da Comissão para o Laicato/CNBB
Dia 16
Acolhida a seguir apresentação das pessoas e dos objetivos do seminário;
Dia 17
- Pela manhã análise de conjuntura sócio-política e eclesial na perspectiva dos grupos que resistem à sinodalidade.
- Na parte da tarde trabalho de grupo para identificar a situação específica das CEBs neste contexto, com respectiva plenária.
- À noite uma provocação sobre o caminho sinodal.
Dia 18
- Pela manhã oficinas:
1. CEBs e a economia de Francisco e Clara
2. CEBs e os movimentos populares.
3. CEBs e o poder na Igreja (ministérios e mecanismos de participação).
4. CEBs e a questão de gênero
5.CEBs e a questão ecológica
- Na parte da tarde apresentação dos relatórios das oficinas – buscar encontrar sugestões para a caminhada das CEBs mediante cada relatório específico.
- À noite, “noite cultural”.
Dia 19
- Pela manhã desafios da articulação, encaminhamentos e informes.
- Encerramento com almoço.
Seminário de Articuladores e Assessores de CEBs
Promovido pelo Iser Assessoria em parceria com o Setor CEBs da Comissão para o Laicato/CNBB
Dia 16
Acolhida a seguir apresentação das pessoas e dos objetivos do seminário;
Dia 17
- Pela manhã análise de conjuntura sócio-política e eclesial na perspectiva dos grupos que resistem à sinodalidade.
- Na parte da tarde trabalho de grupo para identificar a situação específica das CEBs neste contexto, com respectiva plenária.
- À noite uma provocação sobre o caminho sinodal.
Dia 18
- Pela manhã oficinas:
1. CEBs e a economia de Francisco e Clara
2. CEBs e os movimentos populares.
3. CEBs e o poder na Igreja (ministérios e mecanismos de participação).
4. CEBs e a questão de gênero
5.CEBs e a questão ecológica
- Na parte da tarde apresentação dos relatórios das oficinas – buscar encontrar sugestões para a caminhada das CEBs mediante cada relatório específico.
- À noite, “noite cultural”.
Dia 19
- Pela manhã desafios da articulação, encaminhamentos e informes.
- Encerramento com almoço.
14 junho, 2022
Maringá terá Semana de Combate ás Drogas promovido pela Igreja Católica
"Vida SIM, Drogas NÃO!"
Igreja Católica promove atividades na semana de combate às drogas em Maringá com o tema: "Vida SIM, Drogas NÃO!" de 19 a 26 de junho.
A Dimensão Sociotransformadora da Evangelização da Arquidiocese de Maringá, as quatro Comunidades Terapêuticas católicas - Casa de Nazaré, MAREV, Recanto Mundo Jovem e Fazenda da Esperança –, a Pastoral da Sobriedade e os Movimentos Amor Exigente e CRISTMA, promovem a semana de mobilização para Prevenção e Combate ao Uso de substâncias de álcool e outras drogas, de 19 a 26 de junho.
Com o tema: “Vida sim, drogas não!”, a proposta da Semana é dar visibilidade aos trabalhos das Comunidades Terapêuticas e dos grupos de Auto e Mútua Ajuda, além de fortalecer as redes de cuidado, como medida prática de apoio às famílias que necessitam de apoio nesta área.
Confira a programação na imagens abaixo:
Mensagem do Santo Padre Francisco para o VI Dia Mundial dos Pobres
"Vemos repetir-se cenas de trágica memória e, mais uma vez, as ameaças recíprocas de alguns poderosos abafam a voz da humanidade que implora paz.
Quantos pobres gera a insensatez da guerra! Para onde quer que voltemos o olhar, constata-se como os mais atingidos pela violência sejam as pessoas indefesas e frágeis. Deportação de milhares de pessoas, sobretudo meninos e meninas, para os desenraizar e impor-lhes outra identidade.
Milhões de mulheres, crianças e idosos veem-se constrangidos a desafiar o perigo das bombas para pôr a vida a salvo, procurando abrigo como refugiados em países vizinhos. Entretanto, aqueles que permanecem nas zonas de conflito têm de conviver diariamente com o medo e a carência de comida, água, cuidados médicos e sobretudo com a falta de afeto familiar. Nestes momentos, a razão fica obscurecida e quem sofre as consequências é uma multidão de gente simples, que vem juntar-se ao número já elevado de pobres. Como dar uma resposta adequada que leve alívio e paz a tantas pessoas, deixadas à mercê da incerteza e da precariedade?"
Leia na íntegra
Mensagem do Santo Padre Francisco para o VI Dia Mundial dos Pobres
(XXXIII Domingo do Tempo Comum – 13 de novembro de 2022)
Jesus Cristo fez-Se pobre por vós (cf. 2 Cor 8, 9)
1. «Jesus Cristo (…) fez-Se pobre por vós» (2 Cor 8, 9). Com estas palavras, o apóstolo Paulo dirige-se aos cristãos de Corinto para fundamentar o seu compromisso de solidariedade para com os irmãos necessitados. O Dia Mundial dos Pobres torna este ano como uma sadia provocação para nos ajudar a refletir sobre o nosso estilo de vida e as inúmeras pobrezas da hora atual.
Há alguns meses, o mundo estava a sair da tempestade da pandemia, mostrando sinais de recuperação económica que se esperava voltasse a trazer alívio a milhões de pessoas empobrecidas pela perda do emprego. Abria-se uma nesga de céu sereno que, sem esquecer a tristeza pela perda dos próprios entes queridos, prometia ser possível tornar finalmente às relações interpessoais diretas, encontrar-se sem embargos nem restrições. Mas eis que uma nova catástrofe assomou ao horizonte, destinada a impor ao mundo um cenário diferente.
A guerra na Ucrânia veio juntar-se às guerras regionais que, nestes anos, têm produzido morte e destruição. Aqui, porém, o quadro apresenta-se mais complexo devido à intervenção direta duma «superpotência», que pretende impor a sua vontade contra o princípio da autodeterminação dos povos. Vemos repetir-se cenas de trágica memória e, mais uma vez, as ameaças recíprocas de alguns poderosos abafam a voz da humanidade que implora paz.
2. Quantos pobres gera a insensatez da guerra! Para onde quer que voltemos o olhar, constata-se como os mais atingidos pela violência sejam as pessoas indefesas e frágeis. Deportação de milhares de pessoas, sobretudo meninos e meninas, para os desenraizar e impor-lhes outra identidade. Voltam a ser atuais as palavras do Salmista perante a destruição de Jerusalém e o exílio dos judeus: «Junto aos rios da Babilónia nos sentamos a chorar, / recordando-nos de Sião. / Nos salgueiros das suas margens / penduramos as nossas harpas. / Os que nos levaram para ali cativos / pediam-nos um cântico; / e os nossos opressores, uma canção de alegria / (...). Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor, / estando numa terra estranha?» (Sal 137, 1-4).
Milhões de mulheres, crianças e idosos veem-se constrangidos a desafiar o perigo das bombas para pôr a vida a salvo, procurando abrigo como refugiados em países vizinhos. Entretanto, aqueles que permanecem nas zonas de conflito têm de conviver diariamente com o medo e a carência de comida, água, cuidados médicos e sobretudo com a falta de afeto familiar. Nestes momentos, a razão fica obscurecida e quem sofre as consequências é uma multidão de gente simples, que vem juntar-se ao número já elevado de pobres. Como dar uma resposta adequada que leve alívio e paz a tantas pessoas, deixadas à mercê da incerteza e da precariedade?
3. Neste contexto tão desfavorável, situa-se o VI Dia Mundial dos Pobres, com o convite – tomado do apóstolo Paulo – a manter o olhar fixo em Jesus, que, «sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8, 9). Na sua visita a Jerusalém, Paulo encontrara Pedro, Tiago e João, que lhe tinham pedido para não esquecer os pobres. De facto, a comunidade de Jerusalém debatia-se com sérias dificuldades devido à carestia que assolara o país. O Apóstolo preocupou-se imediatamente em organizar uma grande coleta a favor daqueles pobres. Os cristãos de Corinto mostraram-se muito sensíveis e disponíveis. Por indicação de Paulo, em cada primeiro dia da semana recolhiam quanto haviam conseguido poupar e todos foram muito generosos.
Como se o tempo tivesse parado naquele momento, também nós, cada domingo, durante a celebração da Santa Missa, cumprimos o mesmo gesto, colocando em comum as nossas ofertas para que a comunidade possa prover às necessidades dos mais pobres. É um sinal que os cristãos sempre cumpriram com alegria e sentido de responsabilidade, para que a nenhum irmão e irmã faltasse o necessário. Já o testemunhava no século II São Justino que, ao descrever ao imperador Antonino Pio a celebração dominical dos cristãos, escrevia: «No dia do Sol, como é chamado, reúnem-se num mesmo lugar os habitantes, quer das cidades quer dos campos, e leem-se, na medida em que o tempo o permite, ora os comentários dos Apóstolos ora os escritos dos Profetas. (…) Seguidamente, a cada um dos presentes se distribui e faz participante dos dons sobre os quais foi pronunciada a ação de graças, e dos mesmos se envia aos ausentes por meio dos diáconos. Os que possuem bens em abundância dão livremente o que lhes parece bem, e o que se recolhe põe-se à disposição daquele que preside. Este socorre os órfãos e viúvas e os que, por motivo de doença ou qualquer outra razão, se encontram em necessidade, assim como os encarcerados e hóspedes que chegam de viagem; numa palavra, ele toma sobre si o encargo de todos os necessitados» (Primeira Apologia, LXVII, 1-6).
4. Voltando à comunidade de Corinto, sucedeu que, depois do entusiasmo inicial, começou a esmorecer o empenho, e a iniciativa proposta pelo Apóstolo perdeu impulso. Este é o motivo que leva Paulo a escrever com grande paixão, relançando a coleta, «para que, como fostes prontos no querer, também o sejais no executar, conforme as vossas possibilidades» (2 Cor 8, 11).
Neste momento, penso na disponibilidade que, nos últimos anos, moveu populações inteiras para abrir as portas a fim de acolher milhões de refugiados das guerras no Médio Oriente, na África Central e, agora, na Ucrânia. As famílias abriram as suas casas para deixar entrar outras famílias, e as comunidades acolheram generosamente muitas mulheres e crianças para lhes proporcionar a devida dignidade. Mas quanto mais se alonga o conflito, tanto mais se agravam as suas consequências. Os povos que acolhem têm cada vez mais dificuldade em dar continuidade à ajuda; as famílias e as comunidades começam a sentir o peso duma situação que vai além da emergência. Este é o momento de não ceder, mas de renovar a motivação inicial. O que começamos precisa de ser levado a cabo com a mesma responsabilidade.
5. Com efeito, a solidariedade é precisamente partilhar o pouco que temos com quantos nada têm, para que ninguém sofra. Quanto mais cresce o sentido de comunidade e comunhão como estilo de vida, tanto mais se desenvolve a solidariedade. Aliás, deve-se considerar que há países onde, nas últimas décadas, se verificou um significativo crescimento do bem-estar de muitas famílias, que alcançaram um estado de vida seguro. Trata-se dum resultado positivo da iniciativa privada e de leis que sustentaram o crescimento económico, aliado a um incentivo concreto às políticas familiares e à responsabilidade social. Possa este património de segurança e estabilidade alcançado ser agora partilhado com quantos foram obrigados a deixar as suas casas e o seu país para se salvarem e sobreviverem. Como membros da sociedade civil, mantenhamos vivo o apelo aos valores da liberdade, responsabilidade, fraternidade e solidariedade; e, como cristãos, encontremos sempre na caridade, na fé e na esperança o fundamento do nosso ser e da nossa atividade.
6. É interessante notar que o Apóstolo não quer obrigar os cristãos, forçando-os a uma obra de caridade; de facto, escreve: «Não o digo como quem manda». O que ele pretende é «pôr à prova a sinceridade do amor» demonstrado pelos Coríntios na atenção e solicitude pelos pobres (cf. 2 Cor 8, 8). Na base do pedido de Paulo, está certamente a necessidade de ajuda concreta, mas a sua intenção vai mais longe. Convida a realizar a coleta, para que seja sinal do amor testemunhado pelo próprio Jesus. Enfim, a generosidade para com os pobres encontra a sua motivação mais forte na opção do Filho de Deus que quis fazer-Se pobre.
Na realidade, o Apóstolo não hesita em afirmar que esta opção de Cristo, este seu «despojamento», é uma «graça» – aliás, é «a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo» (2 Cor 8, 9) – e só acolhendo-a é que podemos dar expressão concreta e coerente à nossa fé. O ensinamento de todo o Novo Testamento revela a propósito uma especial unanimidade, como se verifica nesta passagem da Carta do apóstolo Tiago sobre a Palavra que foi semeada nos crentes: «Tendes de a pôr em prática e não apena ouvi-la, enganando-vos a vós mesmos. Porque, quem se contenta com ouvir a palavra, sem a pôr em prática, assemelha-se a alguém que contempla a sua fisionomia num espelho; mal acaba de se contemplar, sai dali e esquece-se de como era. Aquele, porém, que medita com atenção a lei perfeita, a lei da liberdade, e nela persevera – não com quem a ouve e logo se esquece, mas como quem a cumpre – esse encontrará a felicidade ao pô-la em prática» (1, 22-25).
7. No caso dos pobres, não servem retóricas, mas arregaçar as mangas e pôr em prática a fé através dum envolvimento direto, que não pode ser delegado a ninguém. Às vezes, porém, pode sobrevir uma forma de relaxamento que leva a assumir comportamentos incoerentes, como no caso da indiferença em relação aos pobres. Além disso acontece que alguns cristãos, devido a um apego excessivo ao dinheiro, fiquem empantanados num mau uso dos bens e do património. São situações que manifestam uma fé frágil e uma esperança fraca e míope.
Sabemos que o problema não está no dinheiro em si, pois faz parte da vida diária das pessoas e das relações sociais. Devemos refletir, sim, sobre o valor que o dinheiro tem para nós: não pode tornar-se um absoluto, como se fosse o objetivo principal. Um tal apego impede de ver, com realismo, a vida de todos os dias e ofusca o olhar, impedindo de reconhecer as necessidades dos outros. Nada de mais nocivo poderia acontecer a um cristão e a uma comunidade do que ser ofuscados pelo ídolo da riqueza, que acaba por acorrentar a uma visão efémera e falhada da vida.
Entretanto não se trata de ter um comportamento assistencialista com os pobres, como muitas vezes acontece; naturalmente é necessário empenhar-se para que a ninguém falte o necessário. Não é o ativismo que salva, mas a atenção sincera e generosa que me permite aproximar dum pobre como de um irmão que me estende a mão para que acorde do torpor em que caí. Por isso, «ninguém deveria dizer que se mantém longe dos pobres, porque as suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outras incumbências. Esta é uma desculpa frequente nos ambientes académicos, empresariais ou profissionais, e até mesmo eclesiais. (…) Ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 201). Urge encontrar estradas novas que possam ir além da configuração daquelas políticas sociais «concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres e muito menos inserida num projeto que reúna os povos» (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 169). Em vez disso, é preciso tender para assumir a atitude do Apóstolo, que podia escrever aos Coríntios: «Não se trata de, ao aliviar os outros, vos fazer entrar em apuros, mas sim de que haja igualdade» (2 Cor 8, 13).
8. Estamos diante dum paradoxo, que, hoje como no passado, é difícil de aceitar, porque embate na lógica humana: há uma pobreza que nos torna ricos. Recordando a «graça» de Jesus Cristo, Paulo quer confirmar o que o próprio Senhor pregou, ou seja, que a verdadeira riqueza não consiste em acumular «tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os corroem e os ladrões arrombam os muros, a fim de os roubar» (Mt 6, 19), mas, antes, no amor recíproco que nos faz carregar os fardos uns dos outros, para que ninguém seja abandonado ou excluído. A experiência de fragilidade e limitação, que vivemos nestes últimos anos e, agora, a tragédia duma guerra com repercussões globais, devem ensinar-nos decididamente uma coisa: não estamos no mundo para sobreviver, mas para que, a todos, seja consentida uma vida digna e feliz. A mensagem de Jesus mostra-nos o caminho e faz-nos descobrir a existência duma pobreza que humilha e mata, e há outra pobreza – a d’Ele – que liberta e nos dá serenidade.
A pobreza que mata é a miséria, filha da injustiça, da exploração, da violência e da iníqua distribuição dos recursos. É a pobreza desesperada, sem futuro, porque é imposta pela cultura do descarte que não oferece perspetivas nem vias de saída. É a miséria que, enquanto constringe à condição de extrema indigência, afeta também a dimensão espiritual, que, apesar de muitas vezes ser transcurada, não é por isso que deixa de existir ou de contar. Quando a única lei passa a ser o cálculo do lucro no fim do dia, então deixa de haver qualquer freio na adoção da lógica da exploração das pessoas: os outros não passam de meios. Deixa de haver salário justo, horário justo de trabalho e criam-se novas formas de escravidão, suportada por pessoas que, sem alternativa, devem aceitar este veneno de injustiça a fim de ganhar o mínimo para comer.
Ao contrário, pobreza libertadora é aquela que se nos apresenta como uma opção responsável para alijar da estiva quanto há de supérfluo e apostar no essencial. De facto, pode-se individuar facilmente o sentido de insatisfação que muitos experimentam, porque sentem que lhes falta algo de importante e andam à sua procura como extraviados sem rumo. Desejosos de encontrar o que os possa saciar, precisam de ser encaminhados para os humildes, os frágeis, os pobres para compreenderem finalmente aquilo de que tinham verdadeiramente necessidade. Encontrar os pobres permite acabar com tantas ansiedades e medos inconsistentes, para atracar àquilo que verdadeiramente importa na vida e que ninguém nos pode roubar: o amor verdadeiro e gratuito. Na realidade, os pobres, antes de ser objeto da nossa esmola, são sujeitos que ajudam a libertar-nos das armadilhas da inquietação e da superficialidade.
Um padre e doutor da Igreja, São João Crisóstomo, em cujos escritos se encontram fortes denúncias contra o comportamento dos cristãos para com os mais pobres, escrevia: «Se não consegues acreditar que a pobreza te faça tornar rico, pensa no teu Senhor e deixa de duvidar quanto a isso. Se Ele não tivesse sido pobre, tu não serias rico; trata-se de algo extraordinário: que da pobreza tenha derivado riqueza abundante. Aqui Paulo entende por “riquezas” o conhecimento da piedade, a purificação dos pecados, a justiça, a santificação e milhares doutras coisas boas que nos foram dadas agora e para sempre. Tudo isto, o temos graças à pobreza» (Homilias sobre a II Carta aos Coríntios, 17, 1).
9. O texto do Apóstolo a que se refere este VI Dia Mundial dos Pobres apresenta o grande paradoxo da vida de fé: a pobreza de Cristo torna-nos ricos. Se Paulo pôde comunicar este ensinamento – e a Igreja difundi-lo e testemunhá-lo ao longo dos séculos – é porque Deus, em seu Filho Jesus, escolheu e seguiu esta estrada. Se Ele Se fez pobre por nós, então a nossa própria vida ilumina-se e transforma-se, adquirindo um valor que o mundo não conhece nem pode dar. A riqueza de Jesus é o seu amor, que não se fecha a ninguém mas vai ao encontro de todos, sobretudo de quantos estão marginalizados e desprovidos do necessário. Por amor, despojou-Se a Si mesmo e assumiu a condição humana. Por amor, fez-Se servo obediente, até à morte e morte de cruz (cf. Flp 2, 6-8). Por amor, fez-Se «pão de vida» (Jo 6, 35), para que a ninguém falte o necessário, e possa encontrar o alimento que nutre para a vida eterna.Também em nossos dias parece difícil, como foi então para os discípulos do Senhor, aceitar este ensinamento (cf. Jo 6, 60); mas a palavra de Jesus é clara. Se quisermos que a vida vença a morte e que a dignidade seja resgatada da injustiça, o caminho a seguir é o d’Ele: é seguir a pobreza de Jesus Cristo, partilhando a vida por amor, repartindo o pão da própria existência com os irmãos e irmãs, a começar pelos últimos, por aqueles que carecem do necessário, para que se crie a igualdade, os pobres sejam libertos da miséria e os ricos da vaidade, ambos sem esperança.
10. No passado dia 15 de maio, canonizei o Irmão Carlos de Foucauld, um homem que, tendo nascido rico, renunciou a tudo para seguir Jesus e com Ele tornar-se pobre e irmão de todos. A sua vida eremita, primeiro em Nazaré e depois no deserto do Saara, feita de silêncio, oração e partilha, é um testemunho exemplar da pobreza cristã. Ajudar-nos-á a meditação destas suas palavras: «Não desprezemos os pobres, os humildes, os operários; são não só nossos irmãos em Deus, mas também os que mais perfeitamente imitam a Jesus na sua vida exterior. Eles apresentam-nos perfeitamente Jesus, o Operário de Nazaré. São primogénitos entre os eleitos, os primeiros chamados ao berço do Salvador. Foram a companhia habitual de Jesus, desde o seu nascimento até à sua morte (…). Honremo-los, honremos neles as imagens de Jesus e dos seus santos progenitores (…). Tomemos para nós [a condição] que Ele tomou para Si (…). Nunca deixemos de ser, em tudo, pobres, irmãos dos pobres, companheiros dos pobres; sejamos os mais pobres dos pobres, como Jesus, e como Ele amemos os pobres e rodeemo-nos deles» ( Comentário ao Evangelho de Lucas, Meditação 263) [1]. Para o Irmão Carlos, estas não eram apenas palavras, mas estilo concreto de vida, que o levou a partilhar com Jesus o dom da própria existência.
Oxalá este VI Dia Mundial dos Pobres se torne uma oportunidade de graça, para fazermos um exame de consciência pessoal e comunitário, interrogando-nos se a pobreza de Jesus Cristo é a nossa fiel companheira de vida.
Roma, São João de Latrão, na Memória de Santo António, 13 de junho de 2022.
FRANCISCO
[1] Meditação n. 263, sobre Lc 2, 8-20: C.De Foucauld, A Bondade de Deus. Meditações sobre os santos Evangelhos, I, Nouvelle Cité – Montrouge 1996, 214-216.
Fonte: Site A Santa Sé
03 junho, 2022
Acolher a vida
Bem isso mesmo:
“Para muitos, a experiência fundamental é o amor de Deus, e dizem-no com uma frase simples: «Deus ama-me». Essa experiência restaura a sua dignidade indestrutível, dá-lhes força para se erguerem da humilhação ou do desânimo, ajuda-os a encontrar o melhor de si mesmos.”
Deixemo-nos provocar pelo texto que segue:
Acolher a vida
Falar do «Espírito Santo» é falar do que podemos experimentar de Deus em nós. O «Espírito» é Deus atuando nas nossas vidas: a força, a luz, o alento, a paz, o consolo, o fogo que podemos experimentar em nós mesmos e cuja origem final está em Deus, fonte de toda a vida.
Esta ação de Deus em nós produz-se quase sempre de forma discreta, silenciosa e tranquila; o próprio crente só intui uma presença quase impercetível. Por vezes, porém, invade-nos a certeza, a alegria transbordante e a confiança total: Deus existe, ama-nos, tudo é possível, até mesmo a vida eterna.
O sinal mais claro da ação do Espírito é a vida. Deus está ali onde a vida desperta e cresce, onde se comunica e expande. O Espírito Santo é sempre «dador de vida»: dilata o coração, ressuscita o que está morto em nós, desperta o adormecido, põe em movimento o que tinha ficado bloqueado. De Deus estamos sempre a receber «nova energia para a vida» (Jürgen Moltmann).
Esta ação recreadora de Deus não se reduz apenas a «experiências íntimas da alma». Penetra em todos os estratos da pessoa. Desperta os nossos sentidos, vivifica o corpo e reaviva a nossa capacidade de amar. Para dizer brevemente, o Espírito conduz a pessoa a viver tudo de forma diferente: desde uma verdade mais funda, desde uma maior confiança, de um amor mais desinteressado.
Para muitos, a experiência fundamental é o amor de Deus, e dizem-no com uma frase simples: «Deus ama-me». Essa experiência restaura a sua dignidade indestrutível, dá-lhes força para se erguerem da humilhação ou do desânimo, ajuda-os a encontrar o melhor de si mesmos.
Outros não pronunciam a palavra «Deus», mas experimentam uma «confiança fundamental» que os faz amar a vida apesar de tudo, enfrentar os problemas com ânimo, procurar sempre o bem para todos. Ninguém vive privado do Espírito de Deus. Está em todos eles atraindo o nosso ser para a vida. Acolhemos o «Espírito Santo» quando acolhemos a vida. Esta é uma das mensagens mais básicas da festa cristã do Pentecostes.
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez
31 maio, 2022
Jornada de Oração pela Paz em Burkina Faso
Jornada de Oração e Missão pela Paz de 2022
A Jornada de Oração e Missão pela Paz da CNBB é dedicada aos refugiados de guerra
No dia 1º de junho, quarta-feira, a Comissão para a Ação Missionária e Cooperação Intereclesial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que sofre (ACN) convidam todos a rezarem pela paz no Burkina Faso, na África.
O Burkina Faso, um pequeno país no centro do continente africano, sofreu há um ano, em junho de 2021, um dos piores atentados em sua história recente. Na ocasião, mais de 160 pessoas, dentre elas 20 crianças, perderam suas vidas. Casas, mercados, escolas e instituições públicas foram queimadas em uma pequena vila ao norte do país. O atentado foi reivindicado por um grupo terrorista.
Desde 2015 mais de 1.500 pessoas foram mortas por causa de repetidos episódios de violência”, diz o vídeo de divulgação da Jornada.
“Muitas vezes nós pensamos que nossa vida cristã se resume aos nossos afazeres, as nossas necessidades particulares e muitas vezes por causa dessa situação bem próxima de nós rezamos pelas nossas intenções, rezamos pelas nossas dificuldades, pelos problemas das nossas famílias, pelos nossos problemas. E é justo que seja assim, é correto que seja. No entanto, descobrimos com a vida dos santos, de forma especial, a de Santa Teresinha do Menino Jesus, que temos condições de fazer com que a nossa oração nos leve aonde nossos passos, nossos pés não podem ir. Rezando nos tornamos missionários.
Quando a gente reza por intenções, por situações que estão distantes de nós, nós intercedemos por aquelas pessoas, por aquelas situações e nos tornamos também missionários, pois a oração é uma forma de missão”, afirma padre Daniel Rocchetti, assessor da Comissão para a Ação Missionária e Cooperação Intereclesial da CNBB.
Assista ao vídeo.
29 maio, 2022
27 maio, 2022
A força transformadora da escuta hospitaleira e convivial
A escuta é uma ação que permite “hospedar” o interlocutor no próprio universo de sentidos. Esse gesto, por sua vez, é capaz de transformar a realidade, principalmente da própria pessoa “escutante”: escutar é se deixar transformar pelo forasteiro, pelo desconhecido. Com isso, é possível aprender a conviver como iguais, sem precisar abrir mão de nossas respectivas diferenças.
A opinião é de Moisés Sbardelotto, jornalista, doutor em Ciências da Comunicação e autor de "Comunicar a fé: por quê? Para quê? Com quem?" (Ed. Vozes, 2020).
Publicada por IHU, 27/05/2022.
Eis o texto.
Neste domingo, 29 de maio, festa da Ascensão do Senhor, a Igreja celebra o 56º Dia Mundial das Comunicações Sociais. Em sua mensagem por ocasião dessa data, o Papa Francisco nos convida a “escutar com o ouvido do coração”, entendendo a escuta como um elemento “decisivo na gramática da comunicação e condição para um autêntico diálogo”.
A partir das páginas bíblicas, Francisco lembra que “a escuta corresponde ao estilo humilde de Deus”, que reconhece o ser humano como seu interlocutor e lhe dá ouvidos. “Deus ama o ser humano: por isso ‘inclina o ouvido’ para o escutar”, afirma o papa.
Disso decorrem duas necessidades, segundo Francisco. A primeira, de nível pessoal, é a “arte do discernimento, que se apresenta sempre como a capacidade de se orientar numa sinfonia de vozes”. A segunda, de nível eclesial, é o “apostolado do ouvido”, considerado pelo papa como “a obra mais importante” da ação pastoral. “Devemos escutar, antes de falar, como exorta o apóstolo Tiago: ‘Cada um seja pronto para ouvir, lento para falar’ (1,19).”
Hoje, em meio a divisões, intolerâncias e violências dos mais diversos gêneros, números e graus, a “escuta com o ouvido do coração” possibilita ir além dos ditos, dos não ditos e dos silêncios, para encontrar a verdade mais profunda e mais comum a todos nós: somos todos humanos, provindos todos do mesmo húmus. Somos todos “filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos” (Fratelli tutti, n. 8). Por isso, particularmente neste tempo histórico, é preciso dar ouvidos principalmente ao “desejo de estar em relação com os outros e com o Outro. Não fomos feitos para viver como átomos, mas juntos”, afirma Francisco em sua mensagem. É o reconhecimento de base dessa nossa comum humanidade que torna “boa e plenamente humana a comunicação”, segundo ele.
Como um convite à leitura na íntegra de todo a reflexão do papa, quero aqui articular a mensagem de Francisco com três ações que se revelam cada vez mais essenciais nos tempos atuais: hospedar, transformar(-se) e conviver. A escuta é uma ação que permite “hospedar” o interlocutor - seja ele quem for, venha de onde vier, fale a linguagem que seja - no próprio universo de sentidos. Esse gesto, por sua vez, é capaz de transformar a realidade, principalmente da própria pessoa “escutante”: escutar é se deixar transformar pelo forasteiro, pelo desconhecido. Com isso, é possível aprender a conviver como iguais, sem precisar abrir mão de nossas respectivas diferenças.
Escutar para hospedar
Francisco apresenta a escuta como um gesto de “acolher como dom a voz dos outros”. Trata-se, segundo ele, de prestar atenção “a quem ouvimos, àquilo que ouvimos e ao modo como ouvimos”, o que permite “crescer na arte de comunicar, cujo cerne não é uma teoria nem uma técnica, mas a capacidade do coração que torna possível a proximidade”.
Não por acaso, como exemplo disso, o papa cita os migrantes e a necessidade de ouvir as suas histórias, para que seja possível superar os preconceitos em relação a eles. Francisco afirma que é preciso reconhecer que eles não são apenas “números nem invasores perigosos”, mas “rostos e histórias de pessoas concretas, olhares, expectativas, sofrimentos de homens e mulheres para ouvir”.
É significativo que o papa traga à tona os migrantes para abordar o tema da escuta. Escutar é estabelecer uma relação acolhedora em relação ao hospes, do latim estrangeiro, forasteiro, peregrino. É romper a reação automática baseada no imaginário milenar de que “hospes, hostis”, ou seja, de que todo estrangeiro é inimigo.
Pelo contrário, é a recusa a escutar que acaba se transformando muitas vezes em agressividade contra o outro, reconhece Francisco. Escutar, por sua vez, é um enriquecimento, pois “sempre haverá alguma coisa, por mínima que seja, que posso aprender com o outro e fazer frutificar na minha vida”, continua o papa.
Acolher o dom do outro, de quem é diferente, de quem “vem de fora” é praticar uma comunicação hospitaleira, nem sempre fácil, muito menos simples. É transformar a hostilidade dos “ouvidos moucos” em hospitalidade escutante, dialogante, humanizante.
Reescrevendo e dando novos sentidos ao que Christian Dunker e Cláudio Thebas apresentam no livro “O palhaço e o psicanalista: como escutar os outros pode transformar vidas” (Planeta, 2019), podemos dizer que a relação com o hospes pode ocorrer por meio da constituição de três “lugares” metafóricos de escuta: a hospedaria, o hospital e o hospício.
A escuta como hospedaria envolve o acolhimento e a receptividade à outra pessoa do modo como ela é, seja quem for e de onde vier, independentemente do momento em que chegar e da linguagem que utilizar, com suas riquezas e pobrezas, sem exigências nem imposições. Trata-se de uma escuta não apenas simpática, mas radicalmente empática, disponível, aberta, heterorreferencial, não narcísica. Muitas vezes, significa entrar em contato com o desconhecido, com o ab-surdo, com aquilo que “soa mal” e “fora do tom” aos nossos ouvidos, apresentando-se, à primeira audição, como sem sentido. Com essa escuta sem receios, nem medos ou ameaças, pode-se aprender coisas novas, pois ela envolve “a capacidade de se deixar surpreender pela verdade – mesmo que seja apenas um fragmento de verdade – da pessoa que estamos escutando”, como diz Francisco.
A escuta como hospital diz respeito ao cuidado pela outra pessoa e pela relação com ela, especialmente nos momentos de dor, de sofrimento, de dissonância existencial. Trata-se do gesto de escutar o outro em suas necessidades, para ajudá-lo a se refazer, a se restabelecer, a restaurar suas forças. É acolher a vulnerabilidade, partilhando-a. O escutar hospitaleiro envolve aproximar-se da pessoa machucada interiormente e cuidar de suas feridas, de modo totalmente gratuito e desinteressado, como fez o bom samaritano (cf. Lc. 10,34). Por isso, Francisco também reconhece que “a capacidade de escutar a sociedade é ainda mais preciosa neste tempo ferido pela longa pandemia. (...) É preciso inclinar o ouvido e escutar em profundidade, sobretudo o mal-estar social” agravado pelo período de distanciamento e, hoje, por tantas formas de violência e desprezo pela vida no Brasil e no mundo.
Já a escuta como hospício é a postura contrária à da hospedaria e do hospital. O hospício traz as marcas de um passado histórico de silenciamento, isolamento, aprisionamento e reclusão daquilo que fugia aos padrões sociais, de quem era considerado “alienado”, “anormal”, “louco”. É o local em que se reconhecem apenas as alienações, anormalidades e loucuras alheias - nunca próprias. É, portanto, um lugar da não escuta, de uma surdez metódica ou, no máximo, de uma escuta ofensiva. É a tendência a “fugir da relação, a virar as costas e 'fechar os ouvidos' para não ter de escutar”, como afirma Francisco. Não se busca o cuidado ou mesmo a cura, mas apenas a exclusão do outro, considerado “estranho”, totalmente diferente, incompreensível, incoerente e até inaceitável. Ouve-se o que o outro diz, mas sem lhe dar voz, reconhecendo-lhe apenas insensatez e desrazão, até mesmo e principalmente quando se apresenta como porta-voz de verdades insuportáveis. Não há qualquer esforço para ir além das palavras pronunciadas, em busca dos sentidos mais profundos em jogo. Ouve-se o outro, mas apenas para confirmar os próprios pressupostos e preconceitos em relação a ele ou ela.
Em suma, escutar acolhendo o dom do outro e hospedando-o com hospitalidade é o primeiro passo para a construção de uma sociedade capaz de irmandade, capaz de reconhecer que somos todos “irmãos e irmãs”, com a mesma dignidade e o mesmo valor.
Para o papa, também na Igreja há uma grande necessidade de escuta recíproca, particularmente no atual processo de reflexão sobre a sinodalidade, ao qual Francisco também faz referência na mensagem, rezando para que o processo sinodal “seja uma grande ocasião de escuta recíproca” entre irmãos e irmãs. Citando o teólogo alemão Dietrich Bonhöffer, Francisco lembra que “devemos escutar através do ouvido de Deus, se queremos poder falar através da sua Palavra”. Pois, continua o pontífice, “quem não sabe escutar o irmão bem depressa deixará de ser capaz de escutar o próprio Deus”.
Nesse processo de escuta sinodal, podemos questionar: qual daqueles três “lugares” de escuta tem sido mais praticado e frequentado pela prática eclesial nos últimos tempos? Em que aspectos a escuta colabora com a “conversão pastoral” pedida por Francisco?
Escutar para transformar(-se)
Segundo Dunker e Thebas, a escuta é um “ato político”, porque suspende e subverte os lugares estabelecidos e constituídos, colocando todo centro e poder naquilo que está efetivamente sendo dito, independentemente de quem esteja falando.
Esse ato político, porém, não é automático, muito menos na Igreja, e demanda um grande esforço - às vezes até o “martírio da paciência”, nas palavras de um cardeal diplomata citado pelo papa.
Afinal, para que se escuta? O objetivo principal não é concordar com o outro nem discordar dele. Muito menos ser apenas condescendente com o interlocutor, “emprestando-lhe o ouvido” como um favor. No fundo, escuta-se porque se reconhece a importância da voz alheia e que, com ela, pode-se aprender algo, rever as próprias premissas, corrigir o rumo, transformar a si mesmo, em primeiro lugar.
Pelo contrário, quem busca se manter no centro e deter todo o poder pode até fingir ouvir, mas assume aprioristicamente que o outro não tem nada a lhe acrescentar. Já se sente satisfeito com as próprias suposições e pressuposições. Fecha-se à mudança, não reconhece a necessidade de mudar. Na cultura em geral, é justamente isso que as mulheres criticam em relação à escuta masculina, quando os homens interrompem ou até silenciam a fala feminina (o chamado manterrupting), pressupondo que sabem mais ou podem explicar às próprias mulheres aquilo que elas já sabem ou mesmo acabaram de afirmar (mansplaining).
Alguns membros da Igreja e da hierarquia muitas vezes têm agido dessa forma. O papa lamenta o surgimento de “partidos ideológicos” inclusive na Igreja, que deixam de escutar para dar lugar a “estéreis contraposições”. Em tais casos, “estamos simplesmente à espera que o outro acabe de falar para impor o nosso ponto de vista”, sintetiza Francisco. Escuta-se, mas como um gesto de tolerância e transigência, que, no fundo, busca apenas reafirmar o próprio poder de fala e a “função magisterial” de poucos. Em tempos de processo sinodal, seria um testemunho de coerência reconhecer, evitar e denunciar também os inúmeros casos, globais e locais, de “churchterrupting” e “churchsplaining” (ou seria melhor dizer “clericterrupting” e “clericsplaing”?), não apenas em relação às vozes femininas, mas também às de outras minorias eclesiais e “periferias existenciais” da cultura em geral.
O documento preparatório para o Sínodo sobre a Sinodalidade afirma explicitamente que “a capacidade de imaginar um futuro diferente para a Igreja e para as suas instituições, à altura da missão recebida, depende em grande medida da escolha de encetar processos de escuta, diálogo e discernimento comunitário, em que todos e cada um possam participar e contribuir” (n. 9).
Por isso, o documento - embora com um foco ainda um pouco excessivo no papel dos Pastores e na estrutura hierárquica (cf. n. 14) - afirma a importância de que, do papa aos fiéis em geral, cada um esteja à escuta dos outros, e todos à escuta do Espírito Santo, o “Espírito da verdade” (n. 15), com a mente e o coração abertos, “sem preconceitos” (n. 30).
Disso decorrem algumas perguntas fundamentais para uma autoavaliação eclesial: “Conseguimos identificar preconceitos e estereótipos que impedem a nossa escuta? Como ouvimos o contexto social e cultural em que vivemos?” (n. 30).
Esse é o grande desafio: praticar uma escuta que não seja apenas cosmética, mas verdadeiramente ética, em que o interlocutor - seja ele ou ela quem for - seja levado em consideração pela Igreja e possa, assim, contribuir para uma “renovação eclesial inadiável” (EG 27, afirmação de quase uma década atrás, ainda no primeiro ano de pontificado de Francisco). Como uma “boa mãe”, a Igreja deve não apenas saber escutar as preocupações dos seus filhos, mas também aprender com eles (EG 139). É essencial saber escutar, desde que estejamos “dispostos também a mudar de ideia, a modificar as próprias hipóteses iniciais”, reconhece o papa na mensagem.
A escuta é transformadora quando permitimos que uma diferença positiva e produtiva se introduza no nosso universo de sentidos pelo poder de fala do outro. Escutar é deixar-se transformar pelo outro, nem que seja pelo fato de momentaneamente sair do centro e perder poder - mas esse “momento”, quando acolhido, pode ser semente e impulso de uma duradoura (auto)transformação.
Para que a Igreja não seja “monótona”, ela precisa reconhecer e escutar a “polifonia” da cultura contemporânea, com sua pluralidade e variedade das vozes, afirma Francisco. Só assim, continua o papa, é possível construir uma “Igreja sinfônica”, em que cada um canta com a própria voz, acolhe como dom as vozes dos outros e manifesta a harmonia cujo compositor é o próprio Espírito Santo. É o dom e o desafio da convivência.
Escutar para conviver
Em uma conferência proferida há 15 anos, o teólogo italiano Rosino Gibellini retomava o pensamento do teólogo alemão Theo Sundermeier, analisando particularmente os seus quatro modelos para compreender o estrangeiro. Podemos desdobrar esses modelos pensando-os como “modelos de escuta do outro” em geral.
O primeiro modelo de escuta se fundamenta em uma igualdade extrema: “O outro é igual a mim em tudo”. Com isso, exacerba-se uma similaridade absoluta. Não se reconhecem, assim, as diferenças culturais e de linguagem, correndo o risco de favorecer a mera assimilação.
O segundo é um modelo de escuta baseado em uma alteridade extrema: “O outro é totalmente diferente de mim”. Com isso, ele é percebido como uma ameaça, como inimigo. Enfatizam-se as diferenças, sem levar em conta a igualdade em humanidade.
O terceiro é um modelo de escuta complementar: “O outro me complementa”. Reconhece-se a diferença, mas ela é subordinada à própria identidade e aos próprios interesses, não reconhecendo a dignidade do outro, que serve apenas para nos enriquecer culturalmente. É uma escuta que instrumentaliza os outros para os próprios interesses, como diz o papa na mensagem.
O quarto modelo é o da escuta convivial. Nesse modelo, mantêm-se unidas a igualdade e a diferença. A convivialidade reconhece as diferenças, respeita-as, mas sem isolá-las: pelo contrário, busca o seu encontro pacífico e mutuamente construtivo. Para Francisco, “na verdadeira comunicação, o eu e o tu encontram-se ambos ‘em saída’, tendendo um para o outro” - em uma “tensão convivial”, poderíamos dizer.
Segundo Gibellini, “a convivência não assimila, como no primeiro modelo; não exclui, como no segundo modelo; não subordina a si, como no terceiro modelo; mas cria espaços de compreensão (...) e de comunicação”. É a escuta pensada como ajuda recíproca e, ao mesmo tempo, como aprendizagem recíproca: “A convivência visa à reciprocidade”, continua o autor.
Essa experiência de convivialidade se torna cada vez mais rara hoje em dia, particularmente no Brasil. Opta-se ou pela total indiferença ou pela violência direta. Na Fratelli tutti, Francisco reitera a necessidade de escuta e diálogo para construir a “amizade social”, ou seja, a experiência de “uma sociedade onde as diferenças convivem integrando-se, enriquecendo-se e iluminando-se reciprocamente, embora isso envolva discussões e desconfianças. Na realidade, de todos se pode aprender alguma coisa, ninguém é inútil, ninguém é supérfluo” (n. 215).
Gibellini também já afirmava que “a fraternidade cristã é amor ao irmão, como ser humano”, permitindo não apenas viver juntos, mas viver bem juntos. E Francisco relaciona a fraternidade justamente com o “milagre de uma pessoa amável”, que “deixa de lado as suas preocupações e urgências para (...) possibilitar um espaço de escuta no meio de tanta indiferença” (n. 224). Essa escuta amável ou amabilidade escutante, continua o papa, quando se torna cultura, transforma profundamente o estilo de vida pessoal e as relações sociais, porque cria uma convivência sadia que supera as incompreensões e evita os conflitos.
A convivialidade possibilitada pela escuta aponta para relações interpessoais e sociais em que as diferenças não são negadas, mas sim reconhecidas e respeitadas. Reconhecem-se e respeitam-se as diferenças entre os iguais e a igualdade entre os diferentes, sem fazer da igualdade uma homogeneidade, nem da diferença uma desigualdade.
Isso favorece a construção do comum - experiências de comunidade e de comunhão por meio de gestos de comunicação. Abandona-se uma perspectiva relacional dicotômica (“nós” versus “eles”) para uma perspectiva relacional complexa (“nós neles” e “eles em nós”). Trata-se de uma ação comunicacional que valoriza a diversidade e a multiplicidade, evitando a dispersão e a divisão. Por meio dessa comunicação convivial, é possível construir uma “sociedade boa que permite uma vida boa” (Alain Caillé), para todas e todos.
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