24 janeiro, 2024

Poema - Para os que virão –Thiago de Mello

Para os que virão

Como sei pouco, e sou pouco, faço o pouco que me cabe me dando inteiro. Sabendo que não vou ver [a mulher] o homem que quero ser.

Já́ sofri o suficiente para não enganar a ninguém: principalmente aos que sofrem na própria vida, a garra da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido no meu bolso de palavras. Sou simplesmente [uma mulher] um homem para quem já́ a primeira e desolada pessoa do singular - foi deixando, devagar, sofridamente de ser, para transformar-se - muito mais sofridamente - na primeira e profunda pessoa do plural.

Não importa que doa: é tempo de avançar de mão dada com quem vai no mesmo rumo, mesmo que longe ainda esteja de aprender a conjugar o verbo amar.

E tempo sobretudo de deixar de ser apenas a solitária vanguarda de nós mesmos.

Se trata de ir ao encontro. Se trata de abrir o rumo. Os que virão, serão povo, e saber serão, lutando.

Uma pessoa LGBTQIA+ foi assassinada a cada 34 horas em 2023

Apuração feita pelo Grupo Gay da Bahia contabiliza 257 mortes violentas de pessoas LGBT. Brasil é o país mais homotransfóbico do mundo.

Entre as 257 pessoas LGBTQIA+ assassinadas no ano passado é alarmante a violência contra gays, que representam 10% da população do Brasil e totalizam quase 22 milhões de pessoas.

A maior parte das mortes ocorreu na Região Sudeste.




Publicada por Extra Classe, 22-01-2024.


Em todo o ano passado, 257 pessoas LGBTQIA+ tiveram morte violenta no Brasil. Isso significa que, a cada 34 horas, uma pessoa LGBTQIA+ perdeu a vida de forma violenta no país, que se manteve no posto de mais homotransfóbico do mundo em 2023. O levantamento é do Grupo Gay da Bahia (GGB), a mais antiga organização não governamental (ONG) LGBT da América Latina.

Há 44 anos, a ONG coleta dados sobre mortes por homicídio e suicídio dessa população LGBTQIA+ por meio de notícias, pesquisas na internet e informações obtidas com parentes das vítimas.

O número, no entanto, pode ser ainda maior. Segundo a ONG, 20 mortes ainda estão sob apuração, o que poderia elevar esse número para até 277 casos.

“O governo continua ignorando esse verdadeiro holocausto que, a cada 34 horas, mata violentamente um LGBT”, disse o antropólogo Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia.

Do total de mortes registradas pelo Grupo Gay da Bahia, 127 se referiam a pessoas travestis e transgêneros, 118 eram gays, nove foram identificadas como lésbicas e três, como bissexuais.

Pela segunda vez em quatro décadas, as mortes de travestis ultrapassaram em número absoluto a dos gays, observa Mott.

“Isso é preocupante, porque travestis e transexuais representam por volta de 1 milhão de pessoas e os gays representam 10% da população do Brasil, cerca de 20 ou 22 milhões de pessoas. Então, a chance ou o risco de uma trans ou travesti ser assassinada é 19 vezes maior do que para um gay ou uma lésbica”, ressaltou Mott.

O relatório da ONG revela ainda que a maioria das vítimas (67%) era de jovens que tinham entre 19 e 45 anos quando sofreram a morte violenta.

O mais jovem deles tinha apenas 13 anos e foi morto em Sinop, Mato Grosso, após uma tentativa de estupro.

Dentre essas mortes, 204 casos se referiam a homicídios e 17 a latrocínios. O Grupo Gay da Bahia também contabilizou 20 suicídios, seis a mais do que foram registrados em 2022.

Quanto ao local da violência, 29,5% das vítimas morreram em sua residência, mas uma em cada quatro pessoas (40%) LGBT morreram nas ruas ou espaços externos.

“Persiste o padrão de travestis serem assassinadas a tiros na pista, terrenos baldios, estradas, motéis e pousadas, enquanto gays e lésbicas são mortas a facadas ou com ferramentas e utensílios domésticos, sobretudo dentro de suas casas”, diz o relatório.

Homotransfobia por região

Outro dado que o Grupo Gay da Bahia considera alarmante é que a maior parte das mortes ocorreu na Região Sudeste.

Foi a primeira vez, em 44 anos, que o Sudeste assumiu a posição de região mais impactada, com registro de 100 casos.

A Região Nordeste apareceu na segunda posição, com 94 mortes. Na sequência, vieram as regiões Sul, com 24 óbitos, Centro-Oeste, com 22, e Norte, com 17.

“Chama a atenção o aumento inexplicado da mortalidade violenta dos LGBT+ no Sudeste, que saltou de 63 casos, em 2022, para 100 em 2023, ocupando o primeiro lugar nacional, fenômeno jamais observado desde 1980: aumento de 59%. Infelizmente, tais dados evidenciam que, diferentemente do que se propala e que todos aspiramos, maior escolaridade e melhor qualidade material de vida regional (IDH) não têm funcionado como antídotos à violência letal homotransfóbica”, constata Alberto Schmitz, coordenador do Centro de Documentação do Grupo Dignidade de Curitiba.

São Paulo, com 34 mortes; Minas Gerais, com 30; Rio de Janeiro, com 28; Bahia, com 22; e Ceará, com 21, são os estados que mais concentraram mortes violentas da população LGBT no ano passado.

Políticas públicas

Para a ONG, esses números alarmantes reforçam a urgência de ações e políticas públicas efetivas para combater a violência direcionada à comunidade LGBTQIA+.

A começar pela contabilização oficial dessas mortes.

“O Grupo Gay da Bahia sempre solicitou ou reivindicou que o poder público se encarregasse das estatísticas de ódio em relação a LGBT, negros e indígenas. Mas, infelizmente, nem o IBGE incluiu os LGBTs no seu censo de forma sistemática e universal, e muito menos as delegacias e secretarias de Segurança Pública deram conta de registrar, em nível nacional, todas as violências de assédio, bullying, espancamento e mortes de LGBT”, denuncia Mott.

“Consideramos que essa ausência do poder público em garantir a segurança da população LGBT é um dado grave, reflexo da homofobia e homotransfobia institucional e estrutural. E a inexistência de dados oficiais, que permitiriam políticas públicas mais eficientes, também é um dado que reflete homofobia e transfobia estrutural, institucional e governamental”, acrescentou.

O Grupo Gay da Bahia enfatiza que é importante esclarecer essas mortes. “Infelizmente, as autoridades policiais conseguiram elucidar os autores de apenas 77 casos de mortes violentas”, informou o relatório.

“Esse quadro reflete a falta de monitoramento efetivo da violência homotransfóbica pelo Estado brasileiro, resultando inevitavelmente na subnotificação, representando apenas a ponta visível de um iceberg de ódio e derramamento de sangue”, conclui.

18 janeiro, 2024

Catequeses do Papa Francisco sobre os Atos dos Apóstolo

Papa Francisco fez uma série de catequeses sobre os Atos dos Apóstolo, com o tema "esperar o cumprimento da Promessa do Pai"
Iniciou a catequese em 29 de maio de 2019 e concluiu em 15 de janeiro de 2020.

Segue o link de cada catequese:


- Ano de 2019

29 de maio - Esperar o cumprimento da Promessa do Pai: https://is.gd/30Gbf7

12 de junho – Matias, testemunha do ressuscitado, no lugar de Judas: https://is.gd/XE6cWh

19 de junho – Pentecostes e a dinâmica do Espírito que inflama a palavra humana e a torna Evangelho: https://is.gd/JkgLPZ

26 de junho – As primeiras comunidades cristãs: https://is.gd/REcsNV

07 de agosto - A comunhão integral na comunidade dos cristãos: https://is.gd/UtH6LD

21 de agosto - koinonia, o novo modo de relacionamento entre os discípulos do Senhor: https://is.gd/mDMy9A

28 de agosto - Entre os apóstolos, sobressai Pedro: https://is.gd/MYAlcm

18 de setembro - Os critérios de discernimentos propostos pelo sábio Gamaliel: https://is.gd/wBa6DQ

25 de setembro - Estêvão "cheio de Espírito Santo", entre diakonia e martyria: https://is.gd/uGPLzm

2 de outubro - Filipe anuncia o Evangelho: https://is.gd/Csp98p

9 de outubro - “É um instrumento escolhido por mim”: https://is.gd/uY3gDk

16 de outubro - “Em verdade reconheço que Deus não faz distinção de pessoas”: https://is.gd/0qQrol

30 de outubro - A fé cristã chega à Europa: https://is.gd/lJFn9e

6 de novembro - Paulo no Aerópago, exemplo de enculturação da fé em Atenas: https://is.gd/qCOApc

13 de novembro - Priscila e Áquila, um casal a serviço do Evangelho: https://is.gd/pnqCVE

4 de dezembro - O ministério de Paulo e a despedida dos anciãos: https://is.gd/t1GpuP

11 dezembro - Paulo prisioneiro diante do Rei Agripas: https://is.gd/b9eH3k

- Ano de 2020

08 janeiro - A provação do naufrágio: https://is.gd/7qNHxp

15 de janeiro - A prisão de Paulo em Roma e a fecundidade do anúncio: https://is.gd/G2Bzab - https://is.gd/3YMRPk

17 janeiro, 2024

#Pe. Genivaldo Ubinge e #Lucimar Moreira Bueno

#Pe. Genivaldo Ubinge e #Lucimar Moreira Bueno

#15º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) do Brasil
Diocese de Rondonópolis-Guiratinga
Cidade de Rondonópolis/MT
De 18 a 23 de julho de 2023
Tema CEBs: Igreja em saída na busca da vida plena para todos e todas;
Lema: “Vejam! Eu vou criar novo céu e uma nova terra” (Is 65,17ss).





 

#Dom Frei Severino Clasen e #Lucimar Moreira Bueno

#Dom Frei Severino Clasen e #Lucimar Moreira Bueno

#15º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) do Brasil
Diocese de Rondonópolis-Guiratinga
Cidade de Rondonópolis/MT
De 18 a 23 de julho de 2023
Tema CEBs: Igreja em saída na busca da vida plena para todos e todas;
Lema: “Vejam! Eu vou criar novo céu e uma nova terra” (Is 65,17ss).



16 janeiro, 2024

12º Encontro Nacional de Fé e Política

Faça sua inscrição AQUI

O Encontro Nacional é uma continuidade das atividades realizadas pelo Movimento Nacional de Fé e Política que teve sua primeira edição realizada em 2000 na cidade de Santo André, estado de São Paulo.O ultimo encontro, antes da pandemia do COVID-19, foi realizado em Natal, no estado do Rio Grande do Norte, no ano de 2019.

O Movimento Nacional Fé e Política foi criado em junho de 1989, no Rio de Janeiro, durante um encontro de um grupo de pessoas unidas pela fé cristã e engajadas em movimentos sociais, partidos políticos e mandatos populares, com o objetivo de alimentar a dimensão ética e espiritual que deve animar a atividade política. Ao longo dos anos, naturalmente, o movimento trouxe para as reflexões o ecumenismo ampliando o diálogo inter-religioso. O intuito é propiciar às pessoas que professam diferentes religiões e são engajadas na política um espaço de reflexão das atividades à luz da fé, dos valores do bem viver e dos desafios dessa realidade marcada ainda pela pobreza e exclusão.

08 janeiro, 2024

Para refletir!

Ao ser batizado Jesus foi ungido por Deus com a força do Espírito, depois, “Ele andou por toda a parte, fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio” (At 10,38), por onde passava tinha gesto concretos, misericórdia, perdão, solidariedade, amor...Acolhia a quantos o procuraram, não fazia distinção de pessoas, viveu uma trajetória de dedicação e cuidado com os mais pobres, excluídos, necessitados...Agiu denunciando a injustiça, a exploração e a desigualdade, não comungou com a politicagem dos chefes políticos e religiosos. Tanto fez e tudo fez revelando a ternura de Deus.

E nós?


04 janeiro, 2024

Curos de Verão 2024 (1º dia) Transformações no campo do trabalho humano: diagnóstico ...

O QUE É O CURSO DE VERÃO? 

O Curso de Verão é Popular, ecumênico e realizado em mutirão é organizado para um grande número de pessoas e, ao mesmo tempo, garante trabalho em pequenos grupos. Dentro da proposta metodológica da Educação Popular, combina reflexão e criatividade, arte e celebração, além da convivência fraterna e o compromisso transformador no retorno à prática nas pastorais e movimentos sociais. Tem caráter nacional, mas é aberto à participação de pessoas de outros países que falem/entendam a língua portuguesa. Dedica especial atenção às juventudes, que iniciam a sua militância pastoral e social.

 

03 janeiro, 2024

Poema para louvar as mulheres

Poema para louvar as mulheres

Minha mãe foi uma mulher da tribo arameia errante.
Padeceu na escravidão no Egito; 
então dirigiu-se ao Deus de nossas mães Sara, Agar, Rebeca, Raquel e Lia.

Louvado seja Deus que sempre escuta os pobres.

Minha mãe foi guerreira, juíza e rameira.
Deus a chamava de vez em quando para salvar e libertar a sua gente; 
Miriam, Yael, Débora, Judite, Tamar.

Louvado seja Deus que salva sempre.

Minha mãe foi uma judia galileia.
Teve um filho maravilhoso
que foi odiado e perseguido; inocente, foi executado.
Maria, mãe de todas as dores, mãe de todas nós.

Louvado seja Deus que dá força sempre...

Minha mãe foi uma testemunha da ressurreição de Cristo,
Apóstola dos apóstolos.
Rejeitada, esquecida, injustamente proclamada prostituta.
Maria de Magdala, vanguarda da Igreja das mulheres.

Louvado seja Deus que vive, para sempre.

Minha mãe foi apóstola, profeta, fundadora e mestra, 
chamada ao discipulado dos iguais; 
dotada de poder pelo Deus, Sabedoria de Jesus.
Marta, Febe, Júnia, Priscila, Mirta, Ninfa, Tecla.

Louvado seja Deus que chama sempre...

Minha mãe foi uma mulher cristã cheia de fé.
Uma mística empobrecida,  uma fragilizada mártir, 
uma santa,  uma mulher compassiva.
Uma nativa americana, uma escrava negra,
 uma imigrante pobre, uma velha analfabeta, uma mulher sábia.

Digamos com ela, em cada geração:
Louvado seja Deus que representa a todas ...


(Elisabeth Schüssler FIORENZA. Pero ella dijo: Prácticas feministas de interpretación bíblica. Madri: Trotta, 1996, p. 109. In: CANO/VARELA. Mujeres e Diaconado, p. 246)

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Fonte do poema IHU

Pelo dom da diversidade na Igreja – O Vídeo do Papa 1 – Janeiro 2024

29 dezembro, 2023

O Girassol desabrochou e nos encantou!

Instrumental: “Canção de Esperança” - Flávia Wenceslau


 

Feliz Ano Novo!

Que nesse Ano de Dois Mil e Vinte e Quatro, o Deus Libertador, o Deus da Paz, nos conceda a Paz Inquieta.



A Paz Inquieta – Dom Pedro Casaldaliga


Dá-nos, Senhor, aquela PAZ inquieta
Que denuncia a PAZ dos cemitérios
E a PAZ dos lucros fartos.

Dá-nos a PAZ que luta pela PAZ!
A PAZ que nos sacode
Com a urgência do Reino.

A PAZ que nos invade,
Com o vento do Espírito,
A rotina e o medo,
O sossego das praias
E a oração de refúgio.
A PAZ das armas rotas
Na derrota das armas.

A PAZ do pão da fome de justiça,
A PAZ da liberdade conquistada,
A PAZ que se faz “nossa”
Sem cercas nem fronteiras,
Que é tanto “Shalom” como “Salam”,
Perdão, retorno, abraço…

Dá-nos a tua PAZ,
Essa PAZ marginal que soletra em Belém
E agoniza na Cruz
E triunfa na Páscoa.

Dá-nos, Senhor, aquela PAZ inquieta,
Que não nos deixa em PAZ!

Senhor lhe conceda a paz!

“Senhor o abençoe e guarde! Senhor lhe mostre seu rosto brilhante e tenha piedade de você! Senhor lhe mostre seu rosto e lhe conceda a paz!’ (Número, 6,24-26)


27 dezembro, 2023

Os povos querem a paz!

"À intercessão do primeiro mártir confio a súplica pela paz dos povos devastados pela guerra: vimos a Síria, vemos Gaza. Recordamos da martirizada Ucrânia. Um deserto de morte. Os povos querem a paz. Rezemos pela paz. Lutemos pela paz." (Papa Francisco)


23 dezembro, 2023

Feliz Natal!

Feliz Natal!
Hoje nasceu para nós o Salvador, que é Cristo, o Senhor.


Natal!

“Trata-se de uma alegria mais autêntica, da qual somos chamados a redescobrir o sabor. É uma alegria que toca o íntimo de nosso ser, enquanto esperamos Aquele que já veio trazer a salvação ao mundo, o Messias prometido, nascido em Belém da Virgem Maria”. (Papa Francisco)

Maria, humilde jovem de Nazaré!

Maria, humilde jovem de Nazaré!

"Maria, humilde jovem de Nazaré, fervorosa crente judia, esperava a realização da promessa de Deus. Ela entra em diálogo com Deus, é a sua Anunciação. Deus, como sempre, toma a iniciativa: Ele vem, de improviso, ao encontro daquela que encheu de graças e com a qual Ele já está. Maria está perturbada porque Deus surpreende sempre. Deus tranquiliza-a, lembrando-lhe que é Ele que toma a iniciativa. Ele quer associar uma das suas criaturas ao seu projeto de salvação: o filho chamar-se-á “Jesus”, “Deus salva”. Maria interroga antes de dar a sua resposta: “Como será isso?” Ela procura esclarecer a sua fé. Deus responde-lhe, assegurando-lhe a sua presença pelo seu Espírito, e Ele dá-lhe um sinal, porque sabe que as suas criaturas precisam de sinais para crer: a sua prima conceberá na sua velhice. E Ele recorda-lhe que nada Lhe é impossível. Maria dá a sua resposta: a Palavra de Deus é segura, ela pode ter confiança. E esta Palavra torna-se carne na sua carne."

Fonte: Dehonianos

21 dezembro, 2023

Três verbos: Escutar, Discernir, Caminhar!

“Escutar 'de joelhos' é o melhor modo para escutar de verdade, pois significa que estamos diante do outro, não na posição de quem pensa que sabe tudo, mas ao contrário abrindo-nos ao mistério do outro”.

Discernimento é importante para todas e todos, para não cair na pretensão de já saber tudo, “repetindo simplesmente esquemas, sem considerar que o Mistério de Deus sempre nos supera e que a vida das pessoas e a realidade que nos rodeia são e sempre permanecerão superiores às ideias e teorias. A vida é superior às ideias, sempre”.

Caminhar, “É preciso coragem para caminhar, para ir mais longe. É uma questão de amor”


Vatican News

Hoje é dia de felicitações natalinas no Vaticano. A primeira audiência do Papa foi com os membros da Cúria Romana, reunidos na Sala das Bênçãos. Aos cardeais, dirigiu um discurso inspirado em alguns dos principais personagens do Natal para ressaltar três verbos: escutar, discernir, caminhar.

Num tempo ainda marcado tristemente pelas violências da guerra, pelas alterações climáticas, pela pobreza e pela fome, disse o Papa, sempre precisamos ouvir e receber o anúncio de que “Deus vem”.

Escutar "de joelhos"

Maria, portanto, inspira o escutar. A jovem de Nazaré deu ouvidos ao anúncio do Anjo e abriu o coração ao projeto de Deus. Escutar é um verbo bíblico que não diz respeito apenas ao ouvido, mas requer o envolvimento do coração e consequentemente da própria vida. E não só: Maria compreende que é destinatária de um dom inestimável e, “de joelhos”, isto é, com humildade e maravilha, coloca-se à escuta.

“Escutar 'de joelhos' é o melhor modo para escutar de verdade, pois significa que estamos diante do outro, não na posição de quem pensa que sabe tudo, mas ao contrário abrindo-nos ao mistério do outro.”

Às vezes, se corre o risco de ser como lobos vorazes: procura-se de imediato devorar as palavras do outro, sem verdadeiramente as escutar. Por isso, a exortação do Papa é para aprender a contemplação na oração, permanecendo de joelhos diante do Senhor, mas com o coração e não apenas com as pernas.

“Escutemo-nos mais, sem preconceitos, com abertura e sinceridade; com o coração de joelhos.”

A coragem do discernimento

A escuta mútua leva ao segundo verbo: discernir, que Francisco desenvolve a partir de João Batista. Jesus não era como ele O esperava e por isso o próprio Precursor deve converter-se à novidade do Reino, deve ter a humildade e a coragem de fazer discernimento.

De igual modo, disse o Papa, o discernimento é importante para todos, para não cair na pretensão de já saber tudo, “repetindo simplesmente esquemas, sem considerar que o Mistério de Deus sempre nos supera e que a vida das pessoas e a realidade que nos rodeia são e sempre permanecerão superiores às ideias e teorias. A vida é superior às ideias, sempre”.

O discernimento deve ajudar no trabalho da Cúria a ser dóceis ao Espírito Santo, para poder escolher as orientações e tomar as decisões, não com base em critérios mundanos nem simplesmente aplicando regulamentos, mas segundo o Evangelho.

Só caminha quem ama

Por fim, a terceira palavra: caminhar, inspirado pelo movimento dos Magos.

A alegria do Evangelho, explicou o Pontífice, desencadeia em nós o impulso do seguimento, provocando um verdadeiro êxodo de nós mesmos e encaminhando-nos para o encontro com o Senhor. A fé cristã, recordou, não pretende confirmar as nossas seguranças. Pelo contrário, coloca-nos em viagem.

“Também aqui, no serviço da Cúria é importante permanecer a caminho, não cessar de procurar e aprofundar a verdade, vencendo a tentação de ficar parado e «labirintar» dentro dos nossos recintos e dos nossos medos.”

Os medos, a rigidez, a repetição dos esquemas, prosseguiu o Papa, geram uma situação estática, que tem a vantagem aparente de não criar problemas – quieta non movere –, mas levam a girar sem resultado nos nossos labirintos, penalizando o serviço que são chamados a oferecer à Igreja e ao mundo inteiro.

“Permaneçamos vigilantes contra a fixidez da ideologia”, pediu Francisco. Quando o serviço que se realiza corre o risco de se tornar morno, rígido ou medíocre, preso nas redes da burocracia e da insignificância, é preciso olhar para o alto, recomeçar a partir de Deus.

Para Francisco, hoje a dificuldade é transmitir paixão a quem já há muito tempo a perdeu: “À distância de sessenta anos do Concílio, ainda se debate sobre a divisão entre 'progressistas' e 'conservadores', e esta não é a diferença. A verdadeira diferença central está entre 'apaixonados' e 'habituados'. Esta é a diferença. Só quem ama pode caminhar”.

"Não percamos o humorismo"

O Papa concluiu agradecendo aos cardeais pelo trabalho e dedicação, sobretudo aquele realizado no silêncio.

“Que o Senhor Jesus, Verbo Encarnado, nos dê a graça da alegria no serviço humilde e generoso. E, por favor, não percamos o humorismo. E, diante do presépio, façam uma oração por mim.”

Como é tradição, o Santo Padre presenteou os cardeais com três livros de sua autoria: "Santos, não mundanos. A graça de Deus nos salva da corrupção interior" e "Natal. Homilias e discursos selecionados" e "Papa Francisco. Dez anos juntos. As felicitações da Cúria Romana 2013-2023".

19 dezembro, 2023

Declaração doutrinária abre para bênçãos para casais "irregulares"

Dichiarazione “Fiducia supplicans” sul senso pastorale delle benedizioni del Dicastero per la Dottrina della Fede, 18.12.2023.



Declaração doutrinária abre para bênçãos para casais "irregulares"

Com a "Fiducia supplicans" do Dicastério para a Doutrina da Fé, aprovada pelo Papa, será possível abençoar casais formados por pessoas do mesmo sexo, mas fora de qualquer ritualização e imitação do matrimônio. A doutrina sobre o matrimônio não muda, a bênção não significa aprovação da união

Vatican News

Diante do pedido de duas pessoas para serem abençoadas, mesmo que sua condição de casal seja "irregular", será possível para o ministro ordenado consentir. Mas sem que esse gesto de proximidade pastoral contenha elementos minimamente semelhantes a um rito matrimonial. Isso é o que diz a declaração "Fiducia supplicans" sobre o significado pastoral das bênçãos, publicada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé e aprovada pelo Papa. Um documento que aprofunda o tema das bênçãos, distinguindo entre as bênçãos rituais e litúrgicas e as bênçãos espontâneas, que se assemelham mais a gestos de devoção popular: é precisamente nessa segunda categoria que agora contemplamos a possibilidade de acolher também aqueles que não vivem de acordo com as normas da doutrina moral cristã, mas pedem humildemente para serem abençoados. Desde agosto, de 23 anos atrás, o antigo Santo Ofício não publicava uma declaração (a última foi em 2000, "Dominus Jesus"), um documento de alto valor doutrinário.

"Fiducia supplicans" começa com uma introdução do prefeito, cardeal Victor Fernandez, que explica que a declaração aprofunda o "significado pastoral das bênçãos", permitindo que "sua compreensão clássica seja ampliada e enriquecida" por meio de uma reflexão teológica "baseada na visão pastoral do Papa Francisco". Uma reflexão que "implica um verdadeiro desenvolvimento em relação ao que foi dito sobre as bênçãos" até agora, chegando a incluir a possibilidade "de abençoar casais em situação irregular e casais do mesmo sexo, sem validar oficialmente seu status ou modificar de qualquer forma o ensino perene da Igreja sobre o casamento".

Após os primeiros parágrafos (1-3), em que o pronunciamento anterior de 2021 é lembrado e agora ampliado, a declaração apresenta a bênção no sacramento do matrimônio (parágrafos 4-6), declarando "inadmissíveis ritos e orações que possam criar confusão entre o que é constitutivo do matrimônio" e "o que o contradiz", a fim de evitar reconhecer de alguma forma "como matrimônio algo que não é". Reitera-se que, de acordo com a "doutrina católica perene", somente as relações sexuais dentro do casamento entre um homem e uma mulher são consideradas lícitas.

Um segundo grande capítulo do documento (parágrafos 7-30) analisa o significado das várias bênçãos, que têm como destino pessoas, objetos de devoção, lugares de vida. O documento lembra que, "de um ponto de vista estritamente litúrgico", a bênção exige que o que é abençoado "esteja em conformidade com a vontade de Deus expressa nos ensinamentos da Igreja". Quando, com um rito litúrgico específico, "se invoca uma bênção sobre certas relações humanas", é necessário que "o que é abençoado possa corresponder aos desígnios de Deus inscritos na Criação" (11). Portanto, a Igreja não tem o poder de conferir uma bênção litúrgica a casais irregulares ou do mesmo sexo. Mas é preciso evitar o risco de reduzir o significado das bênçãos apenas a esse ponto de vista, exigindo para uma simples bênção "as mesmas condições morais que são exigidas para a recepção dos sacramentos" (12).

Depois de analisar as bênçãos nas Escrituras, a declaração oferece um entendimento teológico-pastoral. Quem pede uma bênção "se mostra necessitado da presença salvadora de Deus em sua história", porque expressa "um pedido de ajuda de Deus, uma súplica por uma vida melhor" (21). Esse pedido deve ser acolhido e valorizado "fora de uma estrutura litúrgica", quando se encontra "em uma esfera de maior espontaneidade e liberdade" (23). Olhando para elas da perspectiva da piedade popular, "as bênçãos devem ser valorizadas como atos de devoção". Para conferi-las, portanto, não há necessidade de exigir "perfeição moral prévia" como pré-condição.

Aprofundando essa distinção, com base na resposta do Papa Francisco às dubia dos cardeais publicada em outubro passado, que pedia um discernimento sobre a possibilidade de "formas de bênção, solicitadas por uma ou mais pessoas, que não transmitam uma concepção errônea do matrimônio" (26), o documento afirma que esse tipo de bênção "é oferecido a todos, sem pedir nada, fazendo com que as pessoas sintam que continuam abençoadas apesar de seus erros e que "o Pai celeste continua a querer o seu bem e a esperar que elas finalmente se abram ao bem" (27).

Existem "várias ocasiões em que as pessoas vêm espontaneamente pedir uma bênção, seja em peregrinações, em santuários, ou mesmo na rua quando encontram um sacerdote", e tais bênçãos "são dirigidas a todos, ninguém pode ser excluído" (28). Portanto, permanecendo proibido de ativar "procedimentos ou ritos" para esses casos, o ministro ordenado pode unir-se à oração daquelas pessoas que "embora em uma união que de modo algum pode ser comparada ao matrimônio, desejam confiar-se ao Senhor e à sua misericórdia, invocar a sua ajuda, ser guiados a uma maior compreensão do seu plano de amor e de verdade" (30).

O terceiro capítulo da declaração (parágrafos 31-41), portanto, abre a possibilidade dessas bênçãos, que representam um gesto para aqueles que "reconhecendo-se indigentes e necessitados de sua ajuda, não reivindicam a legitimidade de seu próprio status, mas imploram que tudo o que é verdadeiro, bom e humanamente válido em suas vidas e relacionamentos seja investido, curado e elevado pela presença do Espírito Santo" (31). Essas bênçãos não devem ser normalizadas, mas confiadas ao "discernimento prático em uma situação particular" (37). Embora o casal seja abençoado, mas não a união, a declaração inclui entre o que é abençoado o relacionamento legítimo entre as duas pessoas: na "breve oração que pode preceder essa bênção espontânea, o ministro ordenado pode pedir paz, saúde, espírito de paciência, diálogo e ajuda mútua, bem como a luz e a força de Deus para poder cumprir plenamente a sua vontade" (38). Também é esclarecido que, para evitar "qualquer forma de confusão e escândalo", quando um casal irregular ou do mesmo sexo pede uma bênção, "ela nunca será realizada ao mesmo tempo que os ritos civis de união ou mesmo em conexão com eles. Nem mesmo com as roupas, os gestos ou as palavras próprias de um casamento" (39). Esse tipo de bênção "pode encontrar seu lugar em outros contextos, como uma visita a um santuário, um encontro com um sacerdote, uma oração recitada em um grupo ou durante uma peregrinação" (40).

Por fim, o quarto capítulo (parágrafos 42-45) nos lembra que "mesmo quando o relacionamento com Deus está obscurecido pelo pecado, sempre é possível pedir uma bênção, estendendo a mão a Ele" e desejá-la "pode ser o melhor possível em algumas situações" (43).