15 maio, 2026

Agora o Hexa vem!

Agora o Hexa vem!

Olá, Lula se prepara para um campeonato longo e acirrado, mas Flávio Bolsonaro corre o risco de cair nas eliminatórias.

.Irmãos. O centrão e o bolsonarismo nem tinham se recuperado do choque de ter visto Ciro Nogueira atingido em cheio pelo escândalo do Banco Master, quando os áudios revelados pela Intercept podem ter sepultado a candidatura de Flávio Bolsonaro. Nas gravações, Bolsonarinho pede a módica quantia de R$134 milhões ao banqueiro para pagar as gravações de “Dark Horse” (azarão em inglês), o “filme” com “roteiro” de Mario Frias sobre Bolsonaro pai. Longe de ser apenas um pedido de patrocínio, a conversa compromete a candidatura não só pelas declarações de fidelidade, do tipo “Irmão, estou e estarei contigo sempre”, mas por puxar um novelo ainda mais complexo. Afinal, os valores são volumosos demais para o padrão do cinema nacional, a produtora não recebeu o dinheiro, que foi depositado em um fundo nos EUA administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, o que pode ligar o caso Master às investigações sobre os ataques de Eduardo contra o Brasil. Além disso, os valores eram dez vezes maiores do que o Master declarava possuir em caixa quando sofreu intervenção do Banco Central. É muito difícil que Flávio justifique suas relações com Vorcaro apenas pelo amor ao cinema, principalmente quando a comunicação da campanha dos Bolsonaros é dirigida por Marcelo Lopes, publicitário envolvido no esquema de ataques do Master ao Banco Central nas redes sociais. O problema fica maior quando as últimas apurações da PF revelam as ligações do Master também com o jogo do bicho e as milícias e que, cada vez mais, a proposta de delação de Daniel Vorcaro tem sido considerada seletiva, fraca e insuficiente, além da chacota de propor a devolução do dinheiro em dez anos. Aliás, o filme bolsonarista sequer é mencionado na delação.

.Pangaré. A questão agora é se ainda existe uma candidatura de Flávio Bolsonaro. O clima de desorganização e silêncio político no quartel-general da campanha é um indicativo da confusão que se instalou na própria direita, incluindo a Faria Lima, comprovando que o mercado financeiro já estava fechado com Bolsonarinho. Romeu Zema tentou surfar na crise vizinha, até lembrarem que o mineiro também recebeu seus milhões da turma do Master, assim como o nanico Renan Santos do MBL. E até Caiado, que se limitava a repetir as pautas do bolsonarismo, resolveu se descolar e criticar os Bolsonaros. Mas, a verdade é que ninguém acredita que Zema ou Caiado possam crescer e atingir um patamar que ameace a reeleição de Lula. Contando que Tarcísio de Freitas, Eduardo Leite e Ratinho Jr. já são cartas fora do baralho, sem tempo de se descompatibilizarem dos cargos, a opção óbvia seria Michelle Bolsonaro. Isso se ela vencer as desconfianças dos enteados, do marido e do PL. E ainda assim, Michelle ainda teria que explicar um sobrenome e uma coligação enlameados até o pescoço com o Master. Por hora, o Planalto acredita que Flávio será o adversário até o fim e, neste caso, o negócio é aproveitar para despejar a munição, desde pedidos de cassação e de investigação, até ressuscitar a CPI do Master. O estrago vai além da corrida eleitoral. A defesa de Flávio depende de uma bancada com repertório limitado que, quando não está bebendo detergente, só sabe falar da PEC da Anistia e até propondo a abolição dos crimes de golpe de Estado, depois que Alexandre de Moraes suspendeu a aplicação imediata da dosimetria aprovada no Senado. A vida também não será fácil para outro amigão do Master, Davi Alcolumbre. O presidente do Senado jurava ter encerrado o assunto quando derrubou Jorge Messias junto com uma CPI, ao custo de uma guerra com o governo cujo apoio pode lhe fazer falta agora. Por fim, o STF também terá que mitigar a crise. Afinal, estarão à frente do TSE Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli, ambos com um histórico de relações com os Vorcaro, e André Mendonça, relator do caso. A dúvida é como os três se comportarão quando o tema entrar de fato na campanha oficial.

.De volta ao jogo. Antes mesmo de Flávio Bolsonaro perder o sono com as novas revelações sobre o Master, Lula já tinha colhido boas notícias. A última pesquisa Quaest apontou uma ligeira recuperação na imagem do presidente entre o eleitorado, reduzindo de 9% para 3% a diferença entre desaprovação e aprovação do governo, o melhor resultado desde fevereiro. Apesar do empate técnico com Flávio Bolsonaro, Lula apareceu novamente à frente de seu adversário nas intenções de votos. O resultado reforça a convicção do Planalto de que a estratégia de acelerar o motor e mostrar serviço nessa reta final começou a dar resultados. Ao que parece, dois movimentos agradaram os eleitores independentes: a reunião bem sucedida com Trump, que distensionou as relações e desmanchou a cara feia do gringo em relação a Lula; e o impacto do Desenrola 2 anunciado estrategicamente no dia 1º de maio. Mesmo assim, o cenário exige cautela. Um dos pontos fracos é a persistente inflação dos alimentos. Isso junto à crise no abastecimento global de combustíveis pode ser uma mistura incendiária no projeto de reeleição. Por isso, a Petrobras anunciou o aumento da produção de gasolina e diesel com o objetivo de manter a alta oferta e evitar a escalada dos preços, e o governo baixou uma Medida Provisória que prevê o desconto de alguns tributos federais embutidos na gasolina. Mas de nada adianta a inflação controlada se a blusinha chinesa comprada pela internet continuar sendo taxada. Assim, o governo suspendeu também a tributação das mercadorias importadas no varejo, revertendo a taxa criada por Haddad em 2023 que acabou se mostrando muito impopular. Outros três temas merecem atenção. O primeiro é a segurança pública, uma velha pedra no sapato dos governos petistas. O pacote “Brasil Contra o Crime Organizado” busca justamente acalmar o eleitorado de centro e apaziguar os governadores com um orçamento de R$11 bilhões para financiar projetos via BNDES. E, enquanto tenta avançar no fim da escala 6X1, fechando questão com as lideranças da Câmara em torno da escala 5x2 e 40 horas semanais, o governo também obteve uma vitória importante com a aprovação do Marco do Transporte Público, que além de unificar o sistema, inclui a participação da União no financiamento e promete ampliar a gratuidade do transporte nos municípios do país.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Fomos ao Líbano e vimos de perto a realidade brutal da vida sob ocupação de Israel. Mais de 2.700 mortos em pouco mais de dois meses. O Intercept revela os rastros da destruição promovida por Netanyahu.

.Fascismos ontem e hoje. Na nova temporada do Democracia sob cerco, Luís Brasilino conversa com o historiador Lincoln Secco.

.Indígenas sul-americanos são diversos e descendem de terceira onda migratória. Pesquisa genético faz novas descobertas sobre a dinâmica do continente americano pré-colonial. Na Revista Pesquisa Fapesp.

.138 anos após ‘abolição’, PEC da Reparação busca enfrentar ‘legado perverso’ da escravidão no Brasil. PEC proposta pelo movimento negro prevê reparação econômica e promoção da igualdade racial. No Brasil de Fato.

.Sorria! A vida não presta. A Piauí analisa a onda de livros de auto-ajuda que ensinam os leitores a se conformar e a esperar menos do mundo.

.Brasil de Fato estreia série documental sobre o protagonismo feminino nos terreiros de São Paulo. Em cinco episódios, “Terreiros Urbanos em São Paulo” mostra a importância das mulheres nas religiões de matriz africana.

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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.