22 outubro, 2020

Vacinas contra a Covid-19: Posicionamento da Abrasco


 "Qual população deve ser vacinada e em que ordem? Se considerarmos a persistência de ondas sucessivas da COVID-19, é necessário pensar em vacinar toda a população. Mas, independentemente disso, há que definir prioridades", escreve Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco, sobre a vacina contra a Covid-19, em nota publicada em seu portal, 20-10-2020.

Eis a nota.

Tudo indica que em algum momento do ano que vem teremos uma vacina contra o SARS-CoV-2. Isso posto, um novo e robusto conjunto de decisões está na mesa. Qual vacina, qual população e qual estratégia da campanha são as principais novas perguntas.

Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco – considera que devem ser adotadas todas as vacinas que forem registradas pela ANVISA e incorporadas pelo SUS mediante análise da CONITEC. Haverá vacinas registradas (seguras e eficazes) cujo preço não recomendará a sua incorporação. Algumas vacinas em desenvolvimento antecipam preços de US$ 50 ou US$ 60 por dose. Duas doses em 50 milhões de pessoas custariam 2,5 bilhões de dólares. Impagáveis pelo SUS.

Em decorrência da atuação humanitária da OMS, tudo indica que haverá mais de uma vacina a quatro ou cinco dólares por dose, pelo menos enquanto durar a pandemia. Entendemos que serão essas as que o SUS fornecerá. Sobre o fim da pandemia, aparece outra pergunta: quem decide o momento do fim da pandemia? A resposta mais lógica sugere que isso deve caber a quem declarou o momento de seu início – a OMS. Não fará sentido que o fim da pandemia seja definido por uma empresa desenvolvedora de vacina. Neste caso, o que foi estabelecido em bases humanitárias seria substituído pelo realismo necrófilo do mercado.

O que o Ministério da Saúde está pensando sobre a questão de “quais vacinas”? Até este momento, o compromisso é comprar a vacina produzida pela empresa AstraZeneca, ora em fase avançada de ensaio clínico. Decisão correta, haja vista o fornecimento dessa vacina estar vinculado a um contrato com Biomanguinhos/Fiocruz que, além do fornecimento, inclui cláusulas de transferência de tecnologia. Mas o fato é que há outra vacina, de procedência chinesa, cujo desenvolvimento está em passo similar ao da já citada e cujo fornecimento é contratualizado com o Instituto Butantã e que inclui também mecanismo de transferência de tecnologia. E, curiosamente, o Ministério da Saúde reluta em decidir compra-la também, o que é incompreensível nos marcos de uma decisão calcada em razões sanitárias. Duas ou mais vacinas podem ser estrategicamente necessárias, não só porque poderão apresentar eficácias variadas em geral e em grupos etários específicos, como porque podem implicar em diferentes desafios operacionais (doses e rede de frio). Além disso, a demanda de vacinação na população brasileira pode exigir múltiplas frentes de produção e distribuição de vacinas.

Qual população deve ser vacinada e em que ordem? Se considerarmos a persistência de ondas sucessivas da COVID-19, é necessário pensar em vacinar toda a população. Mas, independentemente disso, há que definir prioridades. De preferência baseadas em critérios sanitários (riscos diferenciais de transmitir, adoecer e morrer). Nesse ponto, parece haver uma convergência mundial acerca dos segmentos prioritários, ao que parece seguida pelo Ministério da SaúdePessoal de saúde na linha de frente no combate à doença, pessoal de serviços de emergência, tais como defesa civil e corpo de bombeiros, idosos, pessoas com algumas comorbidades nas quais há impacto comprovado de piora de prognóstico clínico (diabéticos, hipertensos, obesos, entre outras). O número de doses a ser comprada deve ser tributária dessa contabilidade, e não da contabilidade do Ministério da Economia.

A estratégia da campanha apresenta problemas não-triviais que merecem ser enfrentados com serenidade. Em primeiro lugar, deve haver uma campanha nacional, coordenada pelo Programa Nacional de Imunizações, sempre em associação com as unidades da federação e os municípios. A esse respeito, consideramos indispensável a participação do Câmara Técnica que está assessorando o PNI na organização, acompanhamento e avaliação da campanha. A demora do MS em decidir adotar a vacina CORONAVAX/Butantã, pode fazer com que o Estado de São Paulo decida moto próprio fazer a sua campanha, vacinando seus cidadãos e os de outas unidades federadas que resolverem comprar essa vacina. Isso será uma tragédia, em primeiro lugar porque fará naufragar um necessário planejamento nacional, provocando perda de eficiência. E, em segundo lugar, porque ferirá profundamente o Programa Nacional de Imunizações, o mais bem sucedido programa de prevenção de doenças do país, que coordena as campanhas nacionais de vacinação há mais de 45 anos.

A existência de várias vacinas concomitantes em uma mesma campanha, em particular de vacinas com duas ou mais doses, coloca problemas logísticos de alguma complexidade, muito embora plenamente solucionáveis. O desafio é fazer com que o máximo de pessoas nos grupos populacionais definidos seja vacinada em tempo adequado com as duas doses e também que não tenha acesso a doses de outra vacina.

Outro aspecto sobre a estratégia da campanha vem à luz após a declaração do diretor do DATAPREV, órgão responsável pela coordenação e organização das bases de dados do SUS em nível federal. Ele declarou que está sendo cogitada a necessidade de apresentação do CPF de cada pessoa para ser vacinada. A razão dessa decisão seria a de evitar desperdício, realmente existente, otimizando a distribuição de vacinas. Isso também facilitaria o controle do número de doses recebidas por cada pessoa e da utilização da mesma vacina na aplicação da segunda dose.

A apresentação de CPF atende a critérios de eficiência interna da campanha, mas deixa de lado algo que deveria ser a dimensão mais valorizada da mesma, que é a sua eficiência em termos de cobertura. Essa decisão não leva em conta os “invisíveis” da população brasileira, cuja existência e dimensionamento foram tornados muito mais nítidos no curso da pandemia. Não possuir um CPF válido não se distribui homogeneamente no território nacional e um dos indicadores dessa “invisibilidade” é a ausência de documentação civil, na qual o CPF talvez seja o mais prevalente. Os números são imprecisos e há estimativas de milhões de pessoas nessa condição. Finalmente, essa exigência tende a fazer com que as pessoas fiquem um tempo muito maior na fila de vacinação, o que não é correto do ponto de vista sanitário. Um bom indicador desse fato foram as filas na porta das agências da Caixa Econômica Federal nos tempos iniciais do auxílio emergencial.

Finalmente, entendemos que, além do anúncio da obrigatoriedade de ser vacinado(a), será necessário que a campanha seja objeto de intensas e bem elaboradas medidas de divulgação e propaganda.

Fonte: IHU


22 É missão de todos nós Marta Pedroni

Projeto "Caminhos de Santidade": São João Paulo II

21 outubro, 2020

Carta Encíclica FRATELLI TUTTI sobre a Fraternidade e Amizade Social Capítulo III (3)


Carta Encíclica FRATELLI TUTTI sobre a Fraternidade e Amizade Social 

Leitura da Carta Encíclica FRATELLI TUTTI do Santo Padre FRANCISCO sobre a Fraternidade e Amizade Social. 

Capítulo III: Pensar e gerar um mundo aberto. 

nn.106-111 Título 8: Amor universal que promove as pessoas. 
nn.112-113. Título 9: Promover o bem moral. Quarta, dia 21. 


CARTA ENCÍCLICA FRATELLI TUTTI DO SANTO PADRE FRANCISCO SOBRE A FRATERNIDADE E A AMIZADE SOCIAL 


Capítulo III 
PENSAR E GERAR UM MUNDO ABERTO 

Amor universal que promove as pessoas 

106. Para se caminhar rumo à amizade social e à fraternidade universal, há que fazer um reconhecimento basilar e essencial: dar-se conta de quanto vale um ser humano, de quanto vale uma pessoa, sempre e em qualquer circunstância. Se cada um vale assim tanto, temos de dizer clara e firmemente que «o simples facto de ter nascido num lugar com menores recursos ou menor desenvolvimento não justifica que algumas pessoas vivam menos dignamente».[81] Trata-se de um princípio elementar da vida social que é, habitualmente e de várias maneiras, ignorado por quantos sentem que não convém à sua visão do mundo ou não serve os seus objetivos. 

107. Todo o ser humano tem direito de viver com dignidade e desenvolver-se integralmente, e nenhum país lhe pode negar este direito fundamental. Todos o possuem, mesmo quem é pouco eficiente porque nasceu ou cresceu com limitações. De facto, isto não diminui a sua dignidade imensa de pessoa humana, que se baseia, não nas circunstâncias, mas no valor do seu ser. Quando não se salvaguarda este princípio elementar, não há futuro para a fraternidade nem para a sobrevivência da humanidade. 

108. Há sociedades que acolhem apenas parcialmente este princípio. Aceitam que haja possibilidades para todos, mas, suposto isto, defendem que tudo depende de cada um. Segundo esta perspectiva parcial, não teria sentido «investir para que os lentos, fracos ou menos dotados possam também singrar na vida».[82] Investir a favor das pessoas frágeis pode não ser rentável, pode implicar menor eficiência; requer um Estado presente e ativo e instituições da sociedade civil que ultrapassem a liberdade dos mecanismos eficientistas de certos sistemas económicos, políticos ou ideológicos, porque estão verdadeiramente orientados em primeiro lugar para as pessoas e o bem comum. 

109. Alguns nascem em famílias com boas condições económicas, recebem boa educação, crescem bem alimentados, ou possuem por natureza notáveis capacidades. Seguramente não precisarão dum Estado ativo, e apenas pedirão liberdade. Mas, obviamente, não se aplica a mesma regra a uma pessoa com deficiência, a alguém que nasceu num lar extremamente pobre, a alguém que cresceu com uma educação de baixa qualidade e com reduzidas possibilidades para cuidar adequadamente das suas enfermidades. Se a sociedade se reger primariamente pelos critérios da liberdade de mercado e da eficiência, não há lugar para tais pessoas, e a fraternidade não passará duma palavra romântica. 

110. A verdade é que «a simples proclamação da liberdade económica, enquanto as condições reais impedem que muitos possam efetivamente ter acesso a ela (...), torna-se um discurso contraditório».[83] Palavras como liberdade, democracia ou fraternidade esvaziam-se de sentido. Na realidade, «enquanto o nosso sistema económico-social ainda produzir uma só vítima que seja e enquanto houver uma pessoa descartada, não poderá haver a festa da fraternidade universal».[84] Uma sociedade humana e fraterna é capaz de preocupar-se por garantir, de modo eficiente e estável, que todos sejam acompanhados no percurso da sua vida, não apenas para assegurar as suas necessidades básicas, mas para que possam dar o melhor de si mesmos, ainda que o seu rendimento não seja o melhor, mesmo que sejam lentos, embora a sua eficiência não seja relevante. 

111. A pessoa humana, com os seus direitos inalienáveis, está naturalmente aberta a criar vínculos. Habita nela, radicalmente, o apelo a transcender-se a si mesma no encontro com os outros. «É preciso, porém, ter cuidado para não cair em alguns equívocos que podem surgir de um errado conceito de direitos humanos e de um abuso paradoxal dos mesmos. De facto, há hoje a tendência para uma reivindicação crescente de direitos individuais – sinto-me tentado a dizer individualistas –, que esconde uma conceção de pessoa humana separada de todo o contexto social e antropológico, quase como uma «mónada» (monás) cada vez mais insensível (…). Na realidade, se o direito de cada um não está harmoniosamente ordenado para o bem maior, acaba por conceber-se sem limitações e, por conseguinte, tornar-se fonte de conflito e violência».[85] 

Promover o bem moral 

112. Não podemos deixar de afirmar que o desejo e a busca do bem dos outros e da humanidade inteira implicam também procurar um desenvolvimento das pessoas e das sociedades nos distintos valores morais que concorrem para um amadurecimento integral. No Novo Testamento, menciona-se um fruto do Espírito Santo (cf. Gal 5, 22), expresso em grego pela palavra agathosyne. Indica o apego ao bem, a busca do bem; mais ainda, é buscar aquilo que vale mais, o melhor para os outros: o seu amadurecimento, o seu crescimento numa vida saudável, o cultivo dos valores e não só o bem-estar material. No latim, há um termo semelhante: bene-volentia, isto é, a atitude de querer o bem do outro. É um forte desejo do bem, uma inclinação para tudo o que seja bom e exímio, que impele a encher a vida dos outros com coisas belas, sublimes, edificantes. 

113. Nesta linha, com tristeza, volto a destacar que «vivemos já muito tempo na degradação moral, baldando-nos à ética, à bondade, à fé, à honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu. Uma tal destruição de todo o fundamento da vida social acaba por colocar-nos uns contra os outros na defesa dos próprios interesses».[86] Voltemos a promover o bem, para nós mesmos e para toda a humanidade, e assim caminharemos juntos para um crescimento genuíno e integral. Cada sociedade precisa de garantir a transmissão dos valores; caso contrário, transmitem-se o egoísmo, a violência, a corrupção nas suas diversas formas, a indiferença e, em última análise, uma vida fechada a toda a transcendência e entrincheirada nos interesses individuais. 

______________ 

[81] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 190: AAS 105 (2013), 1100. 
[82] Ibid., 209: o. c., 1107. 
[83] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24 de maio de 2015), 129: AAS 107 (2015), 899. 
[84] Idem, Mensagem para o evento «Economy of Francesco» (1 de maio de 2019): Insegnamenti II,2 (2014), 625-626; L’Osservatore Romano (ed. semanal portuguesa de 21/V/2019), 7. 
[85] Idem, Discurso no Parlamento Europeu (Estrasburgo 25 de novembro de 2014): AAS 106 (2014), 997. 
[86] Carta enc. Laudato si’ (24 de maio de 2015), 229: AAS 107 (2015), 937.

21 É missão de todos nós Pe Francisco Gecivam

20 outubro, 2020

live Musical com Zé Vicente


 

Segunda onda da covid-19 no Brasil é ‘risco iminente’, alerta Nicolelis

Brasil se aproxima de 155 mil mortos por covid-19. Mesmo sem ter chegado ao fim da primeira onda, um novo golpe da pandemia pode elevar o morticínio no país.

A reportagem é de Gabriel Valery, publicada por Rede Brasil Atual - RBA, 19-10-2020.

O médico e neurocientista Miguel Nicolelis emitiu ontem (18) um alerta para o risco iminente de retomada da curva de contágio pelo novo coronavírus. “O Brasil precisa se preparar já para a segunda onda da covid-19“, disse. Nicolelis é um dos principais nomes da pesquisa científica do país e atualmente é coordenador do Comitê Científico do Consórcio Nordeste, criado para combater a pandemia na região.

“É preciso se organizar em nível nacional: formar, treinar e equipar brigadas de emergência de saúde em todo o país, aumentar a testagem, estocar medicamentos, equipamentos de proteção e aumentar a adesão ao aplicativo Monitora Covid-19”, alerta o cientista.

Nicolelis observa que o aumento de casos da doença que vem ocorrendo na Europa e nos Estados Unidos pode também chegar ao Brasil, onde a média de casos tem baixado nas últimas semanas. O país registra oficialmente 154.176 mortos e 5.250.727 casos de covid-19, de acordo com balanço de hoje do Conselho Nacional de Secretários de Saúde, o Conass.

No entanto, o Brasil é a segunda nação em número de mortos por covid-19 e terceiro com mais casos. Isso, sem considerar que autoridades sanitária e instituições de saúde afirmam que os números reais de casos e mortes são ainda maiores, em razão da falta de testagem em larga escala e da ampla subnotificação. De acordo com levantamento do mês passado do IBGE, menos de 9% da população já havia passado por algum tipo de testagem de sorotipo.
Perigo à vista

Questionado se o Brasil de fato se preparará para a segunda onda da doença, Nicolelis respondeu: “Acredito em cumprir meu dever e dar o sinal de alerta quando eu tiver informações que me convençam que o perigo é iminente. É exatamente isso que estou fazendo. Estou convencido que o risco é concreto e que se não nos prepararmos devidamente, as consequências serão terríveis”.

O Brasil vive um cenário ímpar em relação à covid-19 e são muitos os pesquisadores que não falam em “segunda onda” da infecção, visto que o país sequer superou a primeira.

Contudo, após a redução da mortalidade no último mês, ainda que em patamares altos, aumenta o receio de que o contágio volte a se acelerar, o que levaria a um novo cenário dramático de adoecimento e morte. “Não é possível dizer que o Brasil superou a primeira onda, mas nada impede de um segundo influxo de casos vindo de fora do país nos projetar para um outro patamar ainda mais alto, como está acontecendo nos EUA”, disse Nicolelis.

Nos EUA, a transmissão da covid-19 está fora de controle em todo o meio oeste e sul do país. O estado é de alerta em quase todo o país, com poucas exceções, como o estado da Califórnia. Enquanto isso, a Europa já vive amplo impacto da chamada segunda onda. Países como Espanha, Inglaterra, Alemanha, França, Itália, Portugal, Suécia e Holanda voltaram a fechar escolas e comércio não essencial e estudam novas medidas de “lockdown”.

Fonte: IHU

20 É missão de todos nós Izabela Pereira Projeto Desperta Jovem

Projeto "Caminhos de Santidade": Santa Maria Bertilla Boscardin

17 outubro, 2020

"Invisíveis em vida e em morte": país não sabe quantos imigrantes morreram por covid


 Brasil de Fato 

São dois os documentos que compõem os dados sobre a mortalidade pela covid-19 no Brasil: as declarações de óbito e a Autorização de Internação Hospitalar (AIH). A nacionalidade não é um item obrigatório para preenchimento em nenhum deles. 

O Brasil, portanto, desconhece quantos imigrantes morreram pela doença, onde foram atendidos e em quais regiões do país. A situação tem sido denunciada. Especialistas alertam que a população – uma das vulneráveis em meio à pandemia - não está sendo incluída nos Planos Nacionais de resposta a emergências da covid-19 no Brasil.

Leia a matéria AQUI


17 É missão de todos nós Adriana Andrade Projeto Florir

16 outubro, 2020

Carta Encíclica FRATELLI TUTTI sobre a Fraternidade e Amizade Social Capítulo III (2)


 
Carta Encíclica FRATELLI TUTTI sobre a Fraternidade e Amizade Social 


Leitura da Carta Encíclica FRATELLI TUTTI do Santo Padre FRANCISCO sobre a Fraternidade e Amizade Social. 

Capítulo III: Pensar e gerar um mundo aberto. 

nn.97-98 Título 4: Sociedades abertas que integram a todos. 
nn.99-100. Título 5: Noções inadequadas de amor universal. 
nn. 101-102. Título 6: Superar um mundo de sócios. 
nn. 103-105. Título 7: Liberdade, igualdade e fraternidade. 


CARTA ENCÍCLICA FRATELLI TUTTI DO SANTO PADRE FRANCISCO SOBRE A FRATERNIDADE E A AMIZADE SOCIAL 


Capítulo III 

PENSAR E GERAR UM MUNDO ABERTO 

Sociedades abertas que integram a todos 

97. Existem periferias que estão próximas de nós, no centro duma cidade ou na própria família. Também há um aspeto da abertura universal do amor que não é geográfico, mas existencial: a capacidade diária de alargar o meu círculo, chegar àqueles que espontaneamente não sinto como parte do meu mundo de interesses, embora se encontrem perto de mim. Por outro lado, cada irmã ou cada irmão que sofre, abandonado ou ignorado pela minha sociedade, é um forasteiro existencial, embora tenha nascido no mesmo país. Pode ser um cidadão com todos os documentos em ordem, mas fazem-no sentir como um estrangeiro na sua própria terra. O racismo é um vírus que muda facilmente e, em vez de desaparecer, dissimula-se mas está sempre à espreita. 

98. Quero lembrar estes «exilados ocultos», que são tratados como corpos estranhos à sociedade.[76] Muitas pessoas com deficiência «sentem que vivem sem pertença nem participação». Ainda há tanto «que as impede de beneficiar da plena cidadania». O objetivo não é apenas cuidar delas, mas «acompanhá-las e “ungi-las” de dignidade para uma participação ativa na comunidade civil e eclesial. Trata-se de um caminho exigente e também cansativo, que contribuirá cada vez mais para a formação de consciências capazes de reconhecer cada um como pessoa única e irrepetível». Penso igualmente nos «idosos, que, inclusive por causa da sua deficiência, são por vezes sentidos como um peso». Mas todos podem dar «uma contribuição singular para o bem comum através de sua biografia original». Permiti que insista: «Tende a coragem de dar voz àqueles que são discriminados por causa de sua condição de deficiência, porque infelizmente, em certas nações, ainda hoje é difícil reconhecê-los como pessoas de igual dignidade».[77] 

Noções inadequadas dum amor universal 

99. O amor que se estende para além das fronteiras está na base daquilo que chamamos «amizade social» em cada cidade ou em cada país. Se for genuína, esta amizade social dentro duma sociedade é condição para possibilitar uma verdadeira abertura universal. Não se trata daquele falso universalismo de quem precisa de viajar constantemente, porque não suporta nem ama o próprio povo. Quem olha para a sua gente com desprezo, estabelece na própria sociedade categorias de primeira e segunda classe, de pessoas com mais ou menos dignidade e direitos. Deste modo, nega que haja espaço para todos. 

100. Também não estou a propor um universalismo autoritário e abstrato, ditado ou planificado por alguns e apresentado como um presumível ideal para homogeneizar, dominar e saquear. Há um modelo de globalização que «visa conscientemente uma uniformidade unidimensional e procura eliminar todas as diferenças e as tradições numa busca superficial de unidade. (...) Se uma globalização pretende fazer a todos iguais, como se fosse uma esfera, tal globalização destrói a riqueza e a singularidade de cada pessoa e de cada povo».[78] Este falso sonho universalista acaba por privar o mundo da variedade das suas cores, da sua beleza e, em última análise, da sua humanidade. Com efeito, «o futuro não é “monocromático”, mas – se tivermos coragem para isso – podemos contemplá-lo na variedade e na diversidade das contribuições que cada um pode dar. Como precisa a nossa família humana de aprender a viver conjuntamente em harmonia e paz, sem necessidade de sermos todos iguais!»[79] 

Superar um mundo de sócios

101. Retomemos agora a parábola do bom samaritano que ainda tem muito a propor-nos. Havia um homem ferido no caminho. As personagens que passavam ao lado dele não se concentravam na chamada íntima a fazer-se próximos, mas na sua função, na posição social que ocupavam, numa profissão prestigiosa na sociedade. Sentiam-se importantes para a sociedade de então, e o que mais as preocupava era o papel que deviam desempenhar. O homem ferido e abandonado no caminho era um incómodo para este projeto, uma interrupção; e tratava-se de alguém que, por sua vez, não ocupava função alguma. Era um «ninguém», não pertencia a um grupo considerado notável, não tinha papel algum na construção da história. Entretanto o generoso samaritano opunha-se a estas classificações fechadas, embora ele mesmo estivesse fora de qualquer uma destas categorias, sendo simplesmente um estranho sem um lugar próprio na sociedade. Assim, livre de todas as etiquetas e estruturas, foi capaz de interromper a sua viagem, mudar os seus programas, estar disponível para se abrir à surpresa do homem ferido que precisava dele. 



102. Que reação poderia provocar hoje essa narração, num mundo onde constantemente aparecem e crescem grupos sociais, que se agarram a uma identidade que os separa dos outros? Como pode aquela impressionar pessoas que tendem a organizar-se de maneira a impedir qualquer presença estranha que possa turbar tal identidade e esta organização autodefensiva e autorreferencial? Neste esquema, fica excluída a possibilidade de fazer-se próximo, sendo possível apenas ser próximo de quem me permite consolidar os benefícios pessoais. Assim o termo «próximo» perde todo o significado, fazendo sentido apenas a palavra «sócio», aquele que é associado para determinados interesses.[80] 

Liberdade, igualdade e fraternidade

103. A fraternidade não é resultado apenas de situações onde se respeitam as liberdades individuais, nem mesmo da prática duma certa equidade. Embora sejam condições que a tornam possível, não bastam para que surja como resultado necessário a fraternidade. Esta tem algo de positivo a oferecer à liberdade e à igualdade. Que sucede quando não há a fraternidade conscientemente cultivada, quando não há uma vontade política de fraternidade, traduzida numa educação para a fraternidade, o diálogo, a descoberta da reciprocidade e enriquecimento mútuo como valores? Sucede que a liberdade se atenua, predominando assim uma condição de solidão, de pura autonomia para pertencer a alguém ou a alguma coisa, ou apenas para possuir e desfrutar. Isso não esgota de maneira alguma a riqueza da liberdade, que se orienta sobretudo para o amor. 

104. Tampouco se alcança a igualdade definindo, abstratamente, que «todos os seres humanos são iguais», mas resulta do cultivo consciente e pedagógico da fraternidade. Aqueles que são capazes apenas de ser sócios, criam mundos fechados. Em semelhante esquema, que sentido pode ter a pessoa que não pertence ao círculo dos sócios e chega sonhando com uma vida melhor para si e sua família? 

105. O individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade. Nem pode sequer preservar-nos de tantos males, que se tornam cada vez mais globais. Mas o individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer. Ilude. Faz-nos crer que tudo se reduz a deixar à rédea solta as próprias ambições, como se, acumulando ambições e seguranças individuais, pudéssemos construir o bem comum. 

______________ 

[76] Cf.  Idem, Alocução do Angelus (29 de dezembro de 2013): L’Osservatore Romano (ed. semanal portuguesa de 02/I/2014), 12; Discurso ao corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé (12 de janeiro de 2015): AAS 107 (2015), 165. 

[77] Francisco, Mensagem para o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência (3 de dezembro de 2019): L’Osservatore Romano (ed. semanal portuguesa de 10/XII/2019), 4. 

[78] Idem, Discurso no Encontro em prol da liberdade religiosa (Filadélfia – Estados Unidos d’América 26 de setembro de 2015): AAS 107 (2015), 1050-1051. 

[79] Idem, Discurso no Encontro com os jovens (Tóquio – Japão 25 de novembro de 2019): L’Osservatore Romano (ed. semanal portuguesa de 03/XII/2019), 14. 

[80] Nestas considerações, deixo-me inspirar pelo pensamento de Paul Ricoeur, «Le socius et le prochain», in: Idem, Histoire et vérité (Paris 1967), 113-127.


Questão masculina

“Jesus viveu plenamente como homem, mas sabendo acolher em sua masculinidade também aqueles traços como ternura, compaixão e cuidado, tradicionalmente considerados femininos e, portanto, inferiores, e nunca usou sua masculinidade como instrumento de poder, considerando-a, aliás, como serviço aos últimos e aos 'pequenos'”, escreve Giorgia Salatiello, professora de Filosofia na Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma, em artigo publicado por Settimana News, 15-10-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.


Eis o artigo.

 Fala-se muito, e com razão, da chamada “questão feminina”, porque, apesar dos grandes avanços alcançados, ainda há muito por fazer e as mulheres bem sabem disso. Porém, apesar da menor visibilidade e, muitas vezes, de uma remoção mais ou menos acentuada de parte dos homens, existe também, e torna-se cada vez mais urgente, uma especular “questão masculina”, desencadeada pela mudança nas mulheres.

De fato, tanto no âmbito sociocultural mais amplo quanto também naquele eclesial, está emergindo aquela que se pode definir como uma crise da masculinidade, pois muitas vezes os homens não conseguem mais se identificar com os modelos patriarcais e androcêntricos que lhes foram transmitidos e não encontram outros novos e diferentes, vivendo assim um profundo mal-estar identitário. Nesse contexto de transição e mudança, a situação das mulheres se revela paradoxalmente mais simples, pois, ao lado daquelas que ainda vivem de acordo com os estereótipos e papéis tradicionais, há quem se empenha em construir novos paradigmas de identidade e o faz com consciência e em primeira pessoa. Em tal situação, as pessoas de fé deveriam estar em uma posição de vantagem, pois a palavra de Deus que eles acolhem possui uma enorme carga de libertação e transformação positiva.

Esse potencial extraordinário, entretanto, passou por séculos de leituras e interpretações que diminuíram seu caráter explosivo e transformador, adequando-se, em parte, à mentalidade sexista do contexto histórico e social.

Um ensaio muito recente de Simona Segoloni RutaGesù, maschile singolare  (Jesus masculino singular, em tradução livre, Editora EDB, Bologna, 2020) parte de considerações desse tipo, sobre as quais não pretendemos nos deter para uma resenha, mas sim destacar alguns pontos para uma reflexão que, de qualquer forma, deve permanecer aberta.

Em primeiro lugar, é plenamente compartilhável a exigência de uma nova abordagem antropológica que saiba colocar a relacionalidade na própria essência do humano, não a vendo como um acréscimo secundário a uma natureza já constituída independentemente dela. Dizer masculino e feminino, de fato, significa relação intrínseca, essencial, ou indica disparidade e prevaricação de um dos dois sujeitos sobre o outro (quase sempre a outra), como a história amplamente testemunha.

O segundo ponto é aquele que nos leva a uma maior profundidade, ou seja, para a leitura crente da vivência masculina de Jesus. Tal vivência, de fato, muitas vezes é usada para confirmar o sistema patriarcal e machista, enquanto, pelo contrário, marca a sua desconstrução mais radical, inaugurando um seguimento de iguais em que conta a  e não a identificação sexual, apesar da diversidade dos ministérios de uns e das outras.

Jesus viveu plenamente como homem, mas sabendo acolher em sua masculinidade também aqueles traços como ternura, compaixão e cuidado, tradicionalmente considerados femininos e, portanto, inferiores, e nunca usou sua masculinidade como instrumento de poder, considerando-a, aliás, como serviço aos últimos e aos "pequenos". Os homens de fé podem encontrar nessa vivência um protótipo e um estímulo para assumir plenamente e de modo novo a sua própria identidade masculina, sem ceder a tentações patriarcais de dominação e de subordinação das mulheres.

O terceiro e último ponto a ser ressaltado diz respeito ao conceito, hoje central na reflexão e na prática eclesial, de sinodalidade, pois, no que se refere às relações entre as mulheres e os homens, ele poderia ser capaz de produzir mudanças radicais. A sinodalidade, de fato, como modalidade concreta de relacionamentos, exclui qualquer forma de dominação e de assimetria, mas indica um caminho que todos os membros do povo de Deus devem percorrer juntos, em mútua escuta. Os pastores são chamados a viver o seu ministério como serviço e não como poder e os leigos e os consagradosmulheres e homens, oferecem a sua contribuição como iguais, que é vista como respeitada e dignas de uma escuta atenta.

Por fim, querendo resumir essas breves notas sobre a masculinidade, é necessário reiterar que seu repensamento é particularmente urgente para os cristãos que têm em seu Senhor um modelo absolutamente único que pode orientar o surgimento de uma nova mentalidade e o estabelecimento de relações verdadeiramente paritárias entre mulheres e homens, respeitando a sua diferença.

Fonte: IHU

16 É missão de todos nós Odaril Rosa

Coleta do Dia Mundial das Missões 2020 - Mensagem de Dom Frei Severino C...

15 outubro, 2020

Carta Encíclica FRATELLI TUTTI sobre a Fraternidade e Amizade Social Capítulo III


 



Carta Encíclica FRATELLI TUTTI sobre a Fraternidade e Amizade Social 


Capítulo III 
PENSAR E GERAR UM MUNDO ABERTO 
[nn.87-127] 

Visão geral do capítulo 

1. Mais além [88-90] 
2. O valor único do amor [91-94] 
3. A progressiva abertura ao amor [95-96] 
4. Sociedades abertas que integram a todos [97-98] 
5. Noções inadequadas de amor universal [99-100] 
6. Superar um mundo de sócios [101-102] 
7. Liberdade, igualdade e fraternidade [103-105] 
8. Amor universal que promove as pessoas [106-111] 
9. Promover o bem moral [112-113] 
10. O valor da solidariedade [114-117] 
11. Repropor a função social da propriedade [118-121] 
12. Direitos sem fronteiras [121-123] 
13. Direitos dos povos [124-127] 

Leitura da Carta Encíclica FRATELLI TUTTI do Santo Padre FRANCISCO sobre a Fraternidade e Amizade Social. 

Capítulo III: Pensar e gerar um mundo aberto. 

nn.87-99. Título 1: Mais além. 
nn.91-94. Título 2: O valor únicodo amor. 
nn. 95-96. Título 3: A progressiva abertura ao amor. 


CARTA ENCÍCLICA FRATELLI TUTTI DO SANTO PADRE FRANCISCO SOBRE A FRATERNIDADE E A AMIZADE SOCIAL 

Capítulo III 

PENSAR E GERAR UM MUNDO ABERTO 


87. O ser humano está feito de tal maneira que não se realiza, não se desenvolve, nem pode encontrar a sua plenitude «a não ser no sincero dom de si mesmo»[62] aos outros. E não chega a reconhecer completamente a sua própria verdade, senão no encontro com os outros: «Só comunico realmente comigo mesmo, na medida em que comunico com o outro».[63] Isso explica por que ninguém pode experimentar o valor de viver, sem rostos concretos a quem amar. Aqui está um segredo da existência humana autêntica, já que «a vida subsiste onde há vínculo, comunhão, fraternidade; e é uma vida mais forte do que a morte, quando se constrói sobre verdadeiras relações e vínculos de fidelidade. Pelo contrário, não há vida quando se tem a pretensão de pertencer apenas a si mesmo e de viver como ilhas: nestas atitudes prevalece a morte».[64] 

Mais além 

88. A partir da intimidade de cada coração, o amor cria vínculos e amplia a existência, quando arranca a pessoa de si mesma para o outro.[65] Feitos para o amor, existe em cada um de nós «uma espécie de lei de “êxtase”: sair de si mesmo para encontrar nos outros um acrescentamento de ser».[66] Por isso, «o homem deve conseguir um dia partir de si mesmo, deixar de procurar apoio em si mesmo, deixar-se levar».[67] 

89. Mas não posso reduzir a minha vida à relação com um pequeno grupo, nem mesmo à minha própria família, porque é impossível compreender-me a mim mesmo sem uma teia mais ampla de relações: e não só as do momento atual, mas também as relações dos anos anteriores que me foram configurando ao longo da minha vida. A minha relação com uma pessoa, que estimo, não pode ignorar que esta pessoa não vive só para a sua relação comigo, nem eu vivo apenas relacionando-me com ela. A nossa relação, se é sadia e autêntica, abre-nos aos outros que nos fazem crescer e enriquecem. O mais nobre sentido social hoje facilmente fica anulado sob intimismos egoístas com aparência de relações intensas. Pelo contrário, o amor autêntico, que ajuda a crescer, e as formas mais nobres de amizade habitam em corações que se deixam completar. O vínculo de casal e de amizade está orientado para abrir o coração em redor, para nos tornar capazes de sair de nós mesmos até acolher a todos. Os grupos fechados e os casais autorreferenciais, que se constituem como um «nós» contraposto ao mundo inteiro, habitualmente são formas idealizadas de egoísmo e mera autoproteção. 

90. Não é sem razão que muitas populações pequenas e sobrevivendo em áreas desérticas conseguiram desenvolver uma generosa capacidade de acolhimento dos peregrinos que passavam, dando assim um sinal exemplar do dever sagrado da hospitalidade. Viveram-no também as comunidades monásticas medievais, como se verifica na Regra de São Bento. Embora pudessem perturbar a ordem e o silêncio dos mosteiros, Bento exigia que se tratasse os pobres e os peregrinos «com toda a consideração e carinho possíveis».[68] A hospitalidade é uma maneira concreta de não se privar deste desafio e deste dom que é o encontro com a humanidade mais além do próprio grupo. Aquelas pessoas reconheciam que todos os valores por elas cultivados deviam ser acompanhados por esta capacidade de se transcender a si mesmas numa abertura aos outros. 

O valor único do amor 

91. As pessoas podem desenvolver algumas atitudes que apresentam como valores morais: fortaleza, sobriedade, laboriosidade e outras virtudes. Mas, para orientar adequadamente os atos das várias virtudes morais, é necessário considerar também a medida em que eles realizam um dinamismo de abertura e união para com outras pessoas. Este dinamismo é a caridade, que Deus infunde. Caso contrário, talvez tenhamos só uma aparência de virtudes, que serão incapazes de construir a vida em comum. Por isso, dizia São Tomás de Aquino – citando Santo Agostinho – que a temperança duma pessoa avarenta nem sequer era virtuosa.[69] Com outras palavras, explicava São Boaventura que as restantes virtudes, sem a caridade, não cumprem estritamente os mandamentos «como Deus os compreende».[70] 

92. A estatura espiritual duma vida humana é medida pelo amor, que constitui «o critério para a decisão definitiva sobre o valor ou a inutilidade duma vida humana».[71] Todavia há crentes que pensam que a sua grandeza está na imposição das suas ideologias aos outros, ou na defesa violenta da verdade, ou em grandes demonstrações de força. Todos nós, crentes, devemos reconhecer isto: em primeiro lugar está o amor, o amor nunca deve ser colocado em risco, o maior perigo é não amar (cf. 1 Cor 13, 1-13). 

93. Procurando especificar em que consiste a experiência de amar, que Deus torna possível com a sua graça, São Tomás de Aquino explicava-a como um movimento que centra a atenção no outro «considerando-o como um só comigo mesmo».[72] A atenção afetiva prestada ao outro provoca uma orientação que leva a procurar o seu bem gratuitamente. Tudo isto parte duma estima, duma apreciação que, em última análise, é o que está por detrás da palavra «caridade»: o ser amado é «caro» para mim, ou seja, é estimado como de grande valor.[73] E «do amor, pelo qual uma pessoa me agrada, depende que lhe dê algo grátis».[74] 

94. Sendo assim o amor implica algo mais do que uma série de ações benéficas. As ações derivam duma união que propende cada vez mais para o outro, considerando-o precioso, digno, aprazível e bom, independentemente das aparências físicas ou morais. O amor ao outro por ser quem é, impele-nos a procurar o melhor para a sua vida. Só cultivando esta forma de nos relacionarmos é que tornaremos possível aquela amizade social que não exclui ninguém e a fraternidade aberta a todos. 

A progressiva abertura do amor 

95. Enfim, o amor coloca-nos em tensão para a comunhão universal. Ninguém amadurece nem alcança a sua plenitude, isolando-se. Pela sua própria dinâmica, o amor exige uma progressiva abertura, maior capacidade de acolher os outros, numa aventura sem fim, que faz convergir todas as periferias rumo a um sentido pleno de mútua pertença. Disse-nos Jesus: «Vós sois todos irmãos» (Mt 23, 8). 

96. Esta necessidade de ir além dos próprios limites vale também para as diferentes regiões e países. De facto, «o número sempre crescente de ligações e comunicações que envolvem o nosso planeta torna mais palpável a consciência da unidade e partilha dum destino comum entre as nações da terra. Assim, nos dinamismos da história – independentemente da diversidade das etnias, das sociedades e das culturas –, vemos semeada a vocação a formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros».[75] 

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[62] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 24. 

[63] Gabriel Marcel, Du refus à l’invocation (Paris 1940), 50. 

[64] Francisco, Alocução do Angelus (10 de novembro de 2019): L’Osservatore Romano (ed. semanal portuguesa de 12/XI/2019), 3. 

[65] Cf. São Tomás de Aquino, Scriptum super Sententiis, lib. III, dist. 27, q. 1, a. 1, ad 4: «Dicitur amor extasim facere, et fervere, quia quod fervet extra se bullit et exhalat – diz-se que o amor produz êxtase e efervescência, contanto que o efervescente ferva fora de si e expire» 

[66] Karol Wojtila, Amore e responsabilità (Casale Monferrato 1983), 90. 

[67] Karl Rahner, Kleines Kirchenjahr. Ein Gang durch den Festkreis (Friburgo 1981), 30. 

[68] Regula, 53, 15: «Pauperum et peregrinorum maxime susceptioni cura sollicite exhibeatur». 

[69] Cf. Summa theologiae II-II, q. 23, art. 7; Santo Agostinho, Contra Julianum, 4, 18: PL 44, 748: «De quantos prazeres se privam os avarentos, para aumentar os seus tesouros ou com medo de os ver diminuir!» 

[70] «Secundum acceptionem divinam»: São Boaventura, Scriptum super Sententiis, lib. III, dist. 27, a. 1, q. 1, concl. 4. 

[71] Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 de dezembro de 2005), 15: AAS 98 (2006), 230. 

[72] Summa theologiae II-II, q. 27, art. 2, resp. 

[73] Cf. ibid. I-II, q. 26, art. 3, resp. 

[74] Ibid., q. 110, art. 1, resp. 

[75] Francisco, Mensagem para o 47º Dia Mundial da Paz de 2014 (8 de dezembro de 2013), 1: AAS 106 (2014), 22.

Pandemia expõe as desigualdades socioeconômicas e raciais no Brasil

 A desigualdade no acesso a direitos básicos como saúde, saneamento e trabalho tornou a população negra e periférica mais vulnerável à pandemia de covid-19.

A reportagem é de Vinícius Lisboa, publicada por Agência Brasil, 14-10-2020.

Análise publicada em forma de ensaio científico nos Cadernos de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e assinado por pesquisadoras de unidades da fundação e do Núcleo de Pesquisas Urbanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) diz que a desigualdade no acesso a direitos básicos como saúdesaneamento e trabalho tornou a população negra e periférica mais vulnerável à pandemia de covid-19, desmentindo ideia inicial de que as consequências da doença seriam igualmente sentidas na sociedade.

O ensaio tem como principal autora a pesquisadora Roberta Gondim, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) da Fiocruz, e é creditado também às pesquisadoras Ana Paula da CunhaAna Giselle dos Santos GadelhaChristiane Goulart CarpioRachel Barros de Oliveira e Roseane Maria Corrêa.

Com a análise de dados de abril e maio, o texto cita o mito da democracia racial para comparar que uma ideia semelhante circulou quando foi repetido nos primeiros meses que a pandemia seria “democrática”, representando o mesmo risco a todos os que não fizessem parte dos grupos em que a doença tem mais chances de apresentar suas formas mais graves, como idosos e doentes crônicos.

“Ocorre que a realidade da classe trabalhadora de baixa renda, majoritariamente negra e moradora de territórios vulnerabilizados, é outra. São predominantemente trabalhadores precarizados, que não têm o privilégio de ficar em casa, em regime de trabalho remoto; que utilizam os transportes públicos superlotados; têm acesso precário ao saneamento básico; e estão na linha de frente do atendimento ao público no setor de serviços, incluindo os de saúde”, descreve o ensaio.

Como resultado desse quadro, a análise mostra que, depois de chegar ao país com viajantes das classes média e alta, o vírus se disseminou de modo a afetar mais a população negra. Na Semana Epidemiológica 15 (4 a 10 de abril), a população branca representava 73% das internações e 62,9% dos óbitos. Cerca de um mês e meio depois, na Semana Epidemiológica 21, os dados mostram proporções semelhantes de brancos e negros em relação às hospitalizações. Nos óbitos, entretanto, a população negra passa a representar 57%, enquanto a branca representa 41%.

O ensaio alerta que o fato de a proporção de negros ser mais expressiva entre os óbitos que entre as hospitalizações “reforça a análise sobre a dificuldade de acesso dessa população aos serviços de saúde, principalmente os de maior complexidade, como os leitos de cuidados intensivos”. Além disso, a pesquisa também aponta que há um alto percentual de ausência de registro de raça e cor nos casos confirmados e óbitos por covid-19, apesar de a Portaria n° 344 de 2017 do Ministério da Saúde determinar que essa informação deve ser preenchida obrigatoriamente nos atendimentos em serviços de saúde. “A ausência do registro dessa variável também revela o racismo, nos moldes institucionais, pois impede que vejamos a verdadeira magnitude da exclusão da população negra”.

O texto acrescenta que “a pandemia apresenta sua face mais cruel” nas periferias e favelas, e cita como um dos exemplos o bairro de Brasilândia, em São Paulo, onde taxas de contaminação e óbitos superaram as regiões centrais da cidade no fim de maio.

Já em Fortaleza, no Ceará, a dinâmica de contágio se intensificou em bairros pobres como Grande Pirambu e Barra do Ceará, depois da disseminação em bairros ricos turísticos.

Cenário

As pesquisadoras relacionam esse cenário com o enfrentado pela população negra nos Estados Unidos, país que também teve uma história marcada pela escravização de povos africanos. O estudo cita a cidade de Chicago, onde os negros representavam 29% da população e 70% das mortes por covid-19 até a primeira semana de abril.

“A população negra norte-americana, em comparação à branca, tem os piores indicadores de saúde: menor expectativa de vida ao nascer, maior proporção de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, maiores taxas de mortalidade infantil, maior taxa de mortalidade relacionada à diabetes, dentre outros”, cita o ensaio, que aponta uma diferença: “O Brasil conta com um sistema universal de saúde, com o pressuposto de cobrir as necessidades de saúde de toda a população. Entretanto, também apresenta grandes disparidades nos indicadores sociais, em face das desigualdades sociorraciais”.

O ensaio também traz dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que mostram a desigualdade socioeconômica entre negros e brancos no país, como o acesso ao saneamento básico, fundamental para os cuidados de higiene necessários para prevenir a covid-19: 12,5% dos negros e 6% dos brancos vivem em locais sem coleta de lixo no país; 17,9% dos negros e e 11,5% dos brancos não tem abastecimento de água por rede geral; e 42,8% dos negros e 26,5% dos brancos não possuem esgotamento sanitário por rede coletora ou pluvial em casa.

Governo

Em setembro, uma portaria do governo federal instituiu um incentivo financeiro para o fortalecimento das equipes e serviços da atenção primária no cuidado à saúde de populações específicas, no valor total de R$ 319,4 milhões. A verba é do Fundo Nacional de Saúde (FNS) se destina à distribuição para municípios e Distrito Federal, em parcela única.

O incentivo financeiro tem a finalidade de apoiar a gestão local na qualificação da identificação precoce, do acompanhamento e monitoramento de populações específicas com síndrome gripal, suspeita ou confirmação da covid-19.

Em nota, o Ministério da Saúde explica que a portaria nº 344, de 1º de fevereiro de 2017, prevê o preenchimento obrigatório do quesito raça/cor nos formulários dos sistemas de informação em saúde. “Como se trata de uma variável autodeclarada, caso não seja possível a categorização deste campo para preenchimento, o notificador não pode deixar em branco. Para esses casos, existe a opção de inserir a informação ‘ignorado’. Ressaltamos que essa opção é apenas para as exceções, e não deve ser utilizado como regra. Os resultados de testes diagnóstico para detecção da Covid-19, realizados por laboratórios da rede pública, rede privada, universitários e quaisquer outros, em todo território nacional devem ser, obrigatoriamente, notificados ao ministério conforme a portaria 1.792/20 do Ministério da Saúde”.

* Matéria atualizada às 20h10 para acréscimo de informações do Ministério da Saúde

Fonte: IHU

15 É missão de todos nós Lúcia Piza

14 outubro, 2020

Carta Encíclica FRATELLI TUTTI sobre a Fraternidade e Amizade Social Capítulo II – continuação (2)


Carta Encíclica FRATELLI TUTTI sobre a Fraternidade e Amizade Social 

Capítulo II - continuação (2) 

Leitura da Carta Encíclica FRATELLI TUTTI do Santo Padre FRANCISCO sobre a Fraternidade e Amizade Social. 

Capítulo II: Um estranho no caminho. 

nn.77-79. Título 5: Recomeçar. 
nn.80-83. Título 6: O próximo sem fronteiras. 
nn. 84-86. Título 7: A provocação do forasteiro. 


CARTA ENCÍCLICA FRATELLI TUTTI DO SANTO PADRE FRANCISCO SOBRE A FRATERNIDADE E A AMIZADE SOCIAL 

Capítulo II 

UM ESTRANHO NO CAMINHO 

Recomeçar 

77. Cada dia é-nos oferecida uma nova oportunidade, uma etapa nova. Não devemos esperar tudo daqueles que nos governam; seria infantil. Gozamos dum espaço de corresponsabilidade capaz de iniciar e gerar novos processos e transformações. Sejamos parte ativa na reabilitação e apoio das sociedades feridas. Hoje temos à nossa frente a grande ocasião de expressar o nosso ser irmãos, de ser outros bons samaritanos que tomam sobre si a dor dos fracassos, em vez de fomentar ódios e ressentimentos. Como o viandante ocasional da nossa história, é preciso apenas o desejo gratuito, puro e simples de ser povo, de ser constantes e incansáveis no compromisso de incluir, integrar, levantar quem está caído; embora muitas vezes nos vejamos imersos e condenados a repetir a lógica dos violentos, de quantos nutrem ambições só para si mesmos, espalhando confusão e mentira. Deixemos que outros continuem a pensar na política ou na economia para os seus jogos de poder. Alimentemos o que é bom, e coloquemo-nos ao serviço do bem. 

78. É possível começar por baixo e caso a caso, lutar pelo mais concreto e local, até ao último ângulo da pátria e do mundo, com o mesmo cuidado que o viandante da Samaria teve por cada chaga do ferido. Procuremos os outros e ocupemo-nos da realidade que nos compete, sem temer a dor nem a impotência, porque naquela está todo o bem que Deus semeou no coração do ser humano. As dificuldades que parecem enormes são a oportunidade para crescer, e não a desculpa para a tristeza inerte que favorece a sujeição. Mas não o façamos sozinhos, individualmente. O samaritano procurou um estalajadeiro que pudesse cuidar daquele homem, como nós estamos chamados a convidar outros e a encontrar-nos num «nós» mais forte do que a soma de pequenas individualidades; lembremo-nos de que «o todo é mais do que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas».[60] Renunciemos à mesquinhez e ao ressentimento de particularismos estéreis, de contraposições sem fim. Deixemos de ocultar a dor das perdas e assumamos os nossos delitos, desmazelos e mentiras. A reconciliação reparadora ressuscitar-nos-á, fazendo perder o medo a nós mesmos e aos outros. 

79. O samaritano do caminho partiu sem esperar reconhecimentos nem obrigados. A dedicação ao serviço era a grande satisfação diante do seu Deus e na própria vida e, consequentemente, um dever. Todos temos uma responsabilidade pelo ferido que é o nosso povo e todos os povos da terra. Cuidemos da fragilidade de cada homem, cada mulher, cada criança e cada idoso, com a mesma atitude solidária e solícita, a mesma atitude de proximidade do bom samaritano. 

O próximo sem fronteiras 

80. Jesus propôs esta parábola para responder a uma pergunta: «Quem é o meu próximo?» (Lc 10, 29). A palavra «próximo» na sociedade do tempo de Jesus costumava indicar a pessoa que está mais vizinha, mais próxima. Pensava-se que a ajuda devia encaminhar-se em primeiro lugar para aqueles que pertencem ao próprio grupo, à própria raça. Para alguns judeus de então, um samaritano era considerado um ser desprezível, impuro, e, por conseguinte, não estava incluído entre o próximo a quem se deveria ajudar. O judeu Jesus transforma completamente esta impostação: não nos convida a interrogar-nos quem é vizinho a nós, mas a tornar-nos nós mesmos vizinhos, próximos. 

81. A proposta é fazer-se presente a quem precisa de ajuda, independentemente de fazer parte ou não do próprio círculo de pertença. Neste caso, o samaritano foi quem se fez próximo do judeu ferido. Para se tornar próximo e presente, ultrapassou todas as barreiras culturais e históricas. A conclusão de Jesus é um pedido: «Vai e faz tu também o mesmo» (Lc 10, 37). Por outras palavras, desafia-nos a deixar de lado toda a diferença e, em presença do sofrimento, fazer-nos vizinhos a quem quer que seja. Assim, já não digo que tenho «próximos» a quem devo ajudar, mas que me sinto chamado a tornar-me eu um próximo dos outros. 

82. O problema é que Jesus destaca explicitamente que o homem ferido era um judeu – habitante da Judeia –, enquanto aquele que se deteve e o ajudou era um samaritano – habitante da Samaria –. Este detalhe reveste-se duma importância excecional ao refletirmos sobre um amor que se abre a todos. Os samaritanos habitavam numa região que fora contagiada por ritos pagãos, o que – aos olhos dos judeus – os tornava impuros, detestáveis, perigosos. De facto, um antigo texto hebraico, que menciona as nações odiadas, refere-se à Samaria afirmando até que «nem sequer é um povo», e acrescenta que é «o povo insensato que habita em Siquém» (Sir 50, 25.26). 

83. Isto explica por que uma mulher samaritana, quando Jesus lhe pediu de beber, tenha observado: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou samaritana?» (Jo 4, 9). E noutra ocasião, ao procurar acusações que pudessem desacreditar Jesus, a coisa mais ofensiva que encontraram foi dizer-Lhe: «tens um demónio» e «és um samaritano» (Jo 8, 48). Portanto, este encontro misericordioso entre um samaritano e um judeu é uma forte provocação, que desmente toda a manipulação ideológica, desafiando-nos a ampliar o nosso círculo, a dar à nossa capacidade de amar uma dimensão universal capaz de ultrapassar todos os preconceitos, todas as barreiras históricas ou culturais, todos os interesses mesquinhos. 

A provocação do forasteir

84. Por fim, lembro que Jesus diz noutra parte do Evangelho: «Era forasteiro e recolheste-me» (Mt 25, 35). Jesus podia dizer estas palavras, porque tinha um coração aberto que assumia os dramas dos outros. São Paulo exortava: «Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram» (Rm 12, 15). Quando o coração assume esta atitude, é capaz de se identificar com o outro sem se importar com o lugar onde nasceu nem donde vem. Entrando nesta dinâmica, em última análise, experimenta que os outros são «a sua carne» (Is 58, 7). 



85. Para os cristãos, as palavras de Jesus têm ainda outra dimensão, transcendente. Implicam reconhecer o próprio Cristo em cada irmão abandonado ou excluído (cf. Mt 25, 40.45). Na realidade, a fé cumula de motivações inauditas o reconhecimento do outro, pois quem acredita pode chegar a reconhecer que Deus ama cada ser humano com um amor infinito e que «assim lhe confere uma dignidade infinita».[61] Além disso, acreditamos que Cristo derramou o seu sangue por todos e cada um, pelo que ninguém fica fora do seu amor universal. E, se formos à fonte suprema que é a vida íntima de Deus, encontramo-nos com uma comunidade de três Pessoas, origem e modelo perfeito de toda a vida em comum. A teologia continua a enriquecer-se graças à reflexão sobre esta grande verdade. 

86. Às vezes deixa-me triste o facto de, apesar de estar dotada de tais motivações, a Igreja ter demorado tanto tempo a condenar energicamente a escravatura e várias formas de violência. Hoje, com o desenvolvimento da espiritualidade e da teologia, não temos desculpas. Todavia, ainda há aqueles que parecem sentir-se encorajados ou pelo menos autorizados pela sua fé a defender várias formas de nacionalismo fechado e violento, atitudes xenófobas, desprezo e até maus-tratos àqueles que são diferentes. A fé, com o humanismo que inspira, deve manter vivo um sentido crítico perante estas tendências e ajudar a reagir rapidamente quando começam a insinuar-se. Para isso, é importante que a catequese e a pregação incluam, de forma mais direta e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade, a convicção sobre a dignidade inalienável de cada pessoa e as motivações para amar e acolher a todos. 

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[60] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 235: AAS 105 (2013), 1115. 

[61] São João Paulo II, Alocução do Angelus rezado com os inválidos (Osnabrück – República Federal da Alemanha 16 de novembro de 1980): L’Osservatore Romano (ed. semanal portuguesa de 23/XI/1980), 20.

Para refletir

"A ternura é o amor, que se torna próximo e concreto. É um movimento que brota do coração e chega aos olhos, aos ouvidos e às mãos. A ternura é o caminho que percorreram os homens e as mulheres mais corajosos e fortes." (Papa Francisco)

14 É missão de todos nós Pedro Lucas