24 março, 2023

Santo Oscar Romero, um convite à reflexão.

Nesta sexta-feira, 24 de março, memória de Santo Oscar Romero

Para um pastor, nada conta mais do que o "povo" e os "pobres", as últimas homilias de Oscar Romero ele as proferiu na catedral junto com o seu povo e no pequeno hospital junto com as e os doentes incuráveis.


No dia 24 de março de 1980, Dom Romero proferiu a sua última homilia na capela do Hospital da Divina Providência para doentes de câncer.

Perto de seu quarto, as pessoas mais próximas eram mulheres doentes de câncer incurável, pobres todas elas que além do sofrimento pela doença havia nelas angustias, tristezas e preocupações com suas filhas e filhos de como seria após sua morte. Essas mulheres eram retrato de tantas mães de filhas e filhos desaparecidos, torturados, mortos e de todo um povo sofredor.

No dia 24 de março, às 17 horas, ele celebrou uma missa de aniversário pela Dona Sarita. A imprensa havia anunciado a missa, o que podia ser um aviso para aqueles que queriam assassiná-lo, más Dom Oscar Romero celebrou e a sua homilia terminou com estas palavras:

"Que este corpo imolado e está carne sacrificada pelos homens nos alimente também para dar o nosso corpo e o nosso sangue ao sofrimento e à dor, como Cristo, não para si, mas para dar conceitos de justiça e de paz ao nosso povo. Unamo-nos, pois, intimamente, na fé e na esperança a este momento de oração pela Dona Sarita e por nós."

Nesse momento, ecoou o tiro que se deu pelas mãos de um atirador de elite. Sua identificação com Cristo, sua entrega ao seu Deus e sua entrega ao seu povo tinham se consumado.

Dom Oscar Romero, Fez uso do magistério da Igreja e fez um uso ainda maior do evangelho de Jesus, em suas homilias na catedral trouxe os clamores do povo que subiam até o céu e suas homilias expressava a denúncia e o anúncio, a exigência de conversão e a necessidade de não perder à esperança.

Oscar Romero, em sua última homilia contou como ele as preparava. "Peço ao Senhor, durante toda a semana, enquanto vou recolhendo o clamor do povo e a dor de tantos crimes, a ignomínia de tanta violência, que me dê a palavra oportuna para consolar, para denunciar, para chamar ao arrependimento, e, embora eu continue sendo uma voz que clama no deserto, sei que a Igreja está fazendo o esforço para cumprir a sua missão."

Em relação a acusação de envolvimento na política, na homilia de 23 de março, disse: "Eu já sei que há muitos que se escandalizam com esta palavra e querem acusá-la de ter deixado a pregação do evangelho para se meter na política. Mas eu não aceito essa acusação e faço um esforço para que tudo o que o Concílio Vaticano II, a reunião de Medellín e de Puebla quiseram nos impulsionar, não só o tenhamos nas páginas e o estudemos teoricamente, mas também que o vivamos e o traduzamos nesta conflitiva realidade de pregar o evangelho para o nosso povo como se deve."

A verdade sempre dita por Oscar Romero ressoou expressivamente na denúncia e no abrir-se para acolher a denúncia. Em sua homilia no dia 17 de fevereiro de 1980 disse: "Todo aquele que denuncia deve estar disposto a ser denunciado, e se a Igreja denuncia as injustiças ela está disposta também a escutar que é denunciada e é obrigada a se converter... Os pobres são o grito constante que denuncia não só a injustiça social, mas também a pouca generosidade da nossa própria Igreja"

Trazemos presentes algumas de suas denúncias.

"Faço um chamado à oligarquia: não idolatrem as suas riquezas, não as salvem deixando morrer de fome os demais" (Homilia de 6 de janeiro de 1980 ).

"A Junta de Governo deve ordenar, de forma eficaz, o cessar imediato de tanta repressão indiscriminada, porque a Junta também é responsável pelo sangue, pela dor de tantas pessoas. As Forças Armadas, sobretudo os corpos de segurança, devem depor essa fúria e ódio quando perseguem o povo, devem demonstrar, com fatos, que estão a favor das maiorias e que o processo que se iniciou é de caráter popular. Vocês, ou muitos de vocês, são de extração popular, razão pela qual a instituição do Exército deveria estar a serviço do povo. Não destruam o povo. Não sejam vocês os promotores de maiores e mais dolorosas explosões de violência com que um povo reprimido poderia reagir, e com justiça" (Homilia de 20 de janeiro de 1980).

"A essas organizações populares e, sobretudo, as de caráter militar e guerrilheiro, do sinal que forem, digo-lhes também que cessem já esses atos de violência e terrorismo" (Homilia de 20 de janeiro de 1980).

"Queridos irmãos, as reivindicações do povo são muito justas e é preciso continuar defendendo a justiça social e o amor aos pobres. Mas, para isso, se de verdade amamos o povo e tentamos defendê-lo, não lhe tiremos o mais valioso: sua fé em Deus, seu amor a Jesus Cristo, seus sentimentos cristãos" (Homilia de 10 de fevereiro de 1980).

"Urge que as organizações populares vão amadurecendo para que cumpram a sua missão de chegar a ser intérpretes da vontade do povo" (Homilia de 24 de fevereiro de 1980).

"Não calemos os pecados, mesmo os da esquerda, mas estes são desproporcionalmente menores diante da violência repressiva" (Homilia de 9 de março de 1980).

Uma nova Igreja de pobres e perseguidos

"Alegro-me, irmãos, pelo fato de a nossa Igreja ser perseguida, precisamente pela sua opção preferencial pelos pobres" (Homilia de 15 de julho de 1979).

"Seria triste que, em uma pátria onde se está assassinando tão horrorosamente, não contássemos os sacerdotes também entre as vítimas. Eles são o testemunho de uma Igreja encarnada nos problemas do povo" (Homilia de 24 de junho de 1979).

Santo Oscar Romero, rogai por nós!

12 março, 2023

4ª Celebração dos Mártires em honra a São Oscar Romero

 



As Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs promovem Celebração dos Mártires em Paiçandu

Um convite profético “não tenham medo” assim que o nosso Deus se manifesta a nós. A vida do arcebispo Dom Oscar Romero era pautada pelo Evangelho de Jesus Cristo, comprometida com o Reino de Deus. Por amar o seu povo, preocupou-se com a exclusão social, a discriminação e a violência. Era um homem de profunda oração e santidade, vivendo sua espiritualidade a partir da justiça, da liberdade e da paz.

Na mensagem pessoal do Papa Francisco enviada para a cerimônia de beatificação de Dom Oscar Romero, ele diz: “Em tempos de coexistência difícil, Romero soube como guiar, defender e proteger o seu rebanho. [...] Damos graças a Deus porque concedeu ao bispo mártir a capacidade de ver e ouvir o sofrimento de seu povo. [...] Quando se entende bem e se assume até as últimas consequências, a fé em Jesus Cristo cria comunidades artífices de paz e solidariedade”.

As CEBs da Arquidiocese de Maringá têm a cada ano, celebrado a recordação do martírio do Santo Oscar Romero, que deu a vida para defender os pobres de El Salvador e foi assassinado por milícias da ditadura militar. Romero foi canonizado pelo Papa Francisco em 14 de outubro de 2018.

Idealizada pelas Comunidades Eclesiais de Base no ano de 2017 e em calendário para iniciar em 2018 a Celebração dos Mártires passou a fazer parte da programação anual da Arquidiocese de Maringá, via as CEBs. Celebrada no mês de março de cada ano, mês do martírio de Dom Oscar Romero. O local itinerante, conforme manifestação em acolher pelas regiões Pastoral e/ou paróquia.


Celebração do Mártires
Dia Sábado, 25/03/2023.
Chegada às 19h.
Início às 19h30.
Local: Paróquia Jesus Bom Pastor.
Cidade de Paiçandu.
Região Pastoral Santa Cruz.

03 março, 2023

Viver as Bem-aventuranças em nossas CEBs!

Viver as Bem-aventuranças em nossas CEBs!

As nossas Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs, precisam ser provocadas a viverem as Bem-aventuranças e nós precisamos ser quem faça essa provocação.

E nós o que estamos fazendo?

Nossas arqui/Didioceses tem a opção da organização (divisão) das paróquias em comunidades?

Precisamos reafirmar essa opção.

Onde no dia a dia estão os pobres, humilhados, aflitos, que têm fome e sede?

Estão pelas ruas de nossas comunidades, em frente as nossas casas sendo invisíveis aos olhos de muitas e muitos.

Queremos ser Igreja Missionaria em saída para acolher e resgatar a vida das e dos moradores de ruas; das e dos pobres; das e dos humilhados; das e dos aflitos, das e dos que têm fome e sede?

- Então provoquemos nossas CEBs;

- Que nossas pastorais sociais e não sociais que tem sua organização paroquial, que sejam formadas por pessoas indicadas por todas as CEBs de uma paróquia e assumamos que somos “Base” que é um compromisso com as pessoas e com o local que as envolvem, em aspecto religioso, social, econômico, político, cultural. O chão que envolve a pessoa humana.

- ...

“As Bem-Aventuranças são o canto apaixonado de Jesus: memória original de Deus que se desloca movido pelo clamor do povo oprimido e, ao mesmo tempo, convocação para comunidade escutar a voz dos pobres, humilhados, aflitos, que têm fome e sede. Escuta e se coloca a caminho para restabelecer a justiça. Justiça é o caminho traçado para que o Reino aconteça. Caminho que ao mesmo tempo indica o ritmo do passo: misericórdia, pureza de coração, paz – shalom. Ser Bem-aventurado, honrado se torna o ethos da comunidade: espiritualidade que é proposta não para pessoas individuais, mas sequela comunitária com consequências econômicas, políticas e religiosas. Tornar-se ‘casa’, comunidades das bem-aventuranças, aprender com as ‘ekklesias mateanas’ a ser comunidade, igreja aberta, universal, em saída.” (Tea Frigerio, missionária de Maria – Xaveriana)

17 fevereiro, 2023

Bom carnaval a todas e a todos! - "Carnaval é a Alegria Popular"

'Carnaval é a Alegria Popular'

“Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Estive recordando sambas e frevos, do disco do Baile da Saudade: ô jardineira por que estas tão triste? Mas o que foi que aconteceu… Tu és muito mais bonita que a camélia que morreu. Brinque, meu povo povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!”


(Dom Hélder Câmara)


08 fevereiro, 2023

Parabéns irmão companheiro Celso Pinto Carias

Live de Lançamento do Livro "Por uma Paróquia Sinodal"


Ao rezar pelas vítimas do terremoto, o encorajamento do Papa à solidariedade

O número de mortos no terremoto ultrapassou 8.700, de acordo com dados oficiais divulgados na manhã desta quarta-feira. Na Turquia, 6.234 corpos foram retirados dos escombros, segundo a agência de socorro turca AFAD, enquanto 2.470 mortos foram contabilizados na Síria, segundo autoridades e médicos. Os feridos são dezenas de milhares e centenas ainda estão sob os escombros à espera de ajuda que, em muitos casos, demora a chegar.

“Neste momento, o meu pensamento dirige-se às populações da Turquia e da Síria, duramente atingidas pelo terramoto que provocou milhares de mortos e feridos. Rezo com comoção por eles e exprimo a minha proximidade a estes povos, aos familiares das vítimas e a todos os que sofrem devido a esta devastadora calamidade. Agradeço àqueles que estão se empenhando em levar socorro e encorajo todos à solidariedade com esses territórios, em parte já martirizados por uma longa guerra. Rezemos juntos para que estes nossos irmãos e irmãs possam seguir em frente diante desta tragédia, e peçamos a Nossa Senhora que os proteja: Ave Maria...”

Leia a matéria publicada site da Vatican News. Clique AQUI


01 fevereiro, 2023

31 janeiro, 2023

Pelo Papa Francisco que vai em missão de paz.

Rezemos juntos,

Pelo Papa Francisco que vai em missão de paz.

"Uma peregrinação ecumênica de paz”: definiu o papa no Angelus do último domingo sua 40ª Viagem Apostólica, que o leva à República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul.

Sua primeira viagem internacional em 2023.

Depois de 37 anos retorna um papa à República Democrática do Congo. Pela primeira vez, Sudão do Sul, o país mais jovem do mundo desde a declaração de independência em 2011, receberá a visita de um Papa.

30 janeiro, 2023

Estudo Bíblico: Exílio Babilônico e Dominação Persa

Inscrição “online” AQUI

Horário do evento: 03 de fevereiro a 08 de agosto de 2023
Endereço do evento: On Line
Informações ligue para (44) 98860 4459 ou envie um e-mail para marinaandreo@hotmail.com



DESCRIÇÃO

Esse estudo dará continuidade ao aprofundamento bíblico, anteriormente iniciado pelo CEBI - Centro de Estudos Bíblicos, Sub Região de Maringá-Pr.

Seguimos orientados pela coleção UMA INTRODUÇÃO À BÍBLIA, elaborada por Ildo Bohn Gass, publicada pelas editoras do CEBI e PAULUS. Para essa etapa utilizaremos o vol.5, seguiremos com a metodologia de leitura popular, com adaptações para o modelo on line.

Dinâmica proposta:

- Fazer uma leitura prévia, durante a semana, das páginas previstas no cronograma e assinalar os textos bíblicos que achar importante para o diálogo;

- Às sextas-feiras no horário das 19:30 as 20:30, na sala do Zoom, nos reuniremos para estudar em grupo;

- A mística inicial e final ficarão a cargo dos integrantes do grupo, conforme disponibilidade.

- Os livros podem ser adquiridos posteriormente. Inicialmente ele será projetado para leitura on line no horário dos estudos.

26 janeiro, 2023

Por uma paróquia sinodal: Projeto pastoral - Celso Pinto Carias

 

Parabéns

Obrigada pelo carinho

❤️

Solidariedade a vida do Povo Yanomami!

Desumanidade!
Os cenários desumanos das ações do governo federal anterior vão tornando-se visível.
O Brasil há de vencer as consequências da política genocida do governo Bolsonaro.
Solidariedade a vida do Povo Yanomami.




 

24 janeiro, 2023

Deixemo-nos provocar pelo Capítulo II da Fratelli tutti.

"Será que vamos nos debruçar para tocar e curar das feridas dos outros? Será que vamos nos abaixar para levar às costas o outro? Este é o desafio atual, de que não devemos ter medo"

Deixemo-nos provocar pelo Capítulo II da Fratelli tutti.


UM ESTRANHO NO CAMINHO

56. Tudo o que mencionei no capítulo anterior é mais do que uma asséptica descrição da realidade, pois «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração».[53] Com a intenção de procurar uma luz no meio do que estamos a viver e antes de propor algumas linhas de ação, quero dedicar um capítulo a uma parábola narrada por Jesus Cristo há dois mil anos. Com efeito, apesar desta encíclica se dirigir a todas as pessoas de boa vontade, independentemente das suas convicções religiosas, a parábola em questão é expressa de tal maneira que qualquer um de nós pode deixar-se interpelar por ela:

«Levantou-se, então, um doutor da Lei e perguntou [a Jesus], para O experimentar: “Mestre, que hei de fazer para possuir a vida eterna?” Disse-lhe Jesus: “Que está escrito na Lei? Como lês?” O outro respondeu: “Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo”. Disse-lhe Jesus: “Respondeste bem; faz isso e viverás”. Mas ele, querendo justificar a pergunta feita, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?” Tomando a palavra, Jesus respondeu: “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar’. Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?” Respondeu: “O que usou de misericórdia para com ele”. Jesus retorquiu: “Vai e faz tu também o mesmo”» (Lc 10, 25-37).

A perspetiva de fundo

57. Esta parábola recolhe uma perspetiva de séculos. Pouco depois da narração da criação do mundo e do ser humano, a Bíblia propõe o desafio das relações entre nós. Caim elimina o seu irmão Abel, e ressoa a pergunta de Deus: «Onde está Abel, teu irmão?» A resposta é a mesma que damos nós muitas vezes: «Sou, porventura, guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9). Com a sua pergunta, Deus coloca em questão todo o tipo de determinismo ou fatalismo que pretenda justificar como única resposta possível a indiferença. E, ao invés, habilita-nos a criar uma cultura diferente, que nos conduza a superar as inimizades e cuidar uns dos outros.

58. O livro de Job invoca o facto de ter um mesmo Criador como base para sustentar alguns direitos em comum: «Pois Aquele que me criou no ventre, também o criou a ele; um só nos formou a ambos no seio materno» (31, 15). Muitos séculos depois, Santo Ireneu de Lião expressará o mesmo conceito recorrendo à imagem da melodia: «Assim, quem ama a verdade não deve deixar-se enganar pela diferença entre cada um dos sons, nem imaginar que um músico seja o artífice e o criador deste som, e outro o artífice e o criador do outro (…), mas há de pensar que um único músico os produziu a ambos».[54]

59. Nas tradições judaicas, o dever de amar o outro e cuidar dele parecia limitar-se às relações entre os membros duma mesma nação. O antigo preceito «amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Lv 19, 18) geralmente entendia-se como referido aos compatriotas. Todavia, especialmente no judaísmo que se desenvolveu fora da terra de Israel, as fronteiras foram-se ampliando. Aparece o convite a não fazer aos outros o que não queres que te façam a ti (cf. Tob 4, 15). E a propósito dizia, no século I (a.C.), o sábio Hillel: «Isto é a Lei e os Profetas. Todo o resto é comentário».[55] O desejo de imitar o comportamento divino levou a superar aquela tendência de limitar o amor aos mais próximos: «A compaixão do homem tem por objeto o próximo, mas a misericórdia divina estende-se a todo o ser vivo» (Sir 18, 13).

60. O preceito de Hillel recebeu uma formulação positiva no Novo Testamento: «O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas» (Mt 7, 12). Este apelo é universal, tende a abraçar a todos, apenas pela sua condição humana, porque o Altíssimo, o Pai do Céu, «faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus» (Mt 5, 45). Em consequência, exige-se: «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» (Lc 6, 36).

61. Como motivo para alargar o coração a fim de não excluir o estrangeiro, invoca-se a memória que o povo judeu conserva de ter vivido como estrangeiro no Egito. E tal motivo aparece já nos textos mais antigos da Bíblia: «Não usarás de violência contra o estrangeiro residente nem o oprimirás, porque foste estrangeiro residente na terra do Egito» (Ex 22, 20). «Não oprimirás um estrangeiro residente; vós conheceis a vida do estrangeiro residente, porque fostes estrangeiros residentes na terra do Egito» (Ex 23, 9). «Se um estrangeiro vier residir contigo na tua terra, não o oprimirás. O estrangeiro que reside convosco será tratado como um dos vossos compatriotas e amá-lo-ás como a ti mesmo, porque fostes estrangeiros na terra do Egito» (Lv 19, 33-34). «Quando vindimares a tua vinha, não rebusques o que ficou; deixa-o para o estrangeiro, o órfão e a viúva. Lembra-te que foste escravo na terra do Egito» (Dt 24, 21-22).

No Novo Testamento, ressoa intensamente o apelo ao amor fraterno: «Toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: ama o teu próximo como a ti mesmo» (Gl 5, 14). «Quem ama o seu irmão permanece na luz e não corre perigo de tropeçar. Mas quem tem ódio ao seu irmão está nas trevas» (1 Jo 2, 10-11). «Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte» (1 Jo 3, 14). «Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1 Jo 4, 20).

62. Mesmo esta proposta de amor podia ser mal compreendida. Foi por alguma razão que, perante a tentação das primeiras comunidades cristãs criarem grupos fechados e isolados, São Paulo exortava os seus discípulos a ter caridade uns para com os outros «e para com todos» (1 Ts 3, 12) e, na comunidade de João, pedia-se que fossem bem recebidos os irmãos, «mesmo sendo estrangeiros» (3 Jo 5). Esse contexto ajuda a entender o valor da parábola do bom samaritano: ao amor não lhe interessa se o irmão ferido vem daqui ou dacolá. Com efeito, é o «amor que rompe as cadeias que nos isolam e separam, lançando pontes; amor que nos permite construir uma grande família onde todos nos podemos sentir em casa (…). Amor que sabe de compaixão e dignidade».[56]

O abandonado

63. Conta Jesus que havia um homem ferido, estendido por terra no caminho, que fora assaltado. Passaram vários ao seu lado, mas… foram-se, não pararam. Eram pessoas com funções importantes na sociedade, que não tinham no coração o amor pelo bem comum. Não foram capazes de perder uns minutos para cuidar do ferido ou, pelo menos, procurar ajuda. Um parou, ofereceu-lhe proximidade, curou-o com as próprias mãos, pôs também dinheiro do seu bolso e ocupou-se dele. Sobretudo deu-lhe algo que, neste mundo apressado, regateamos tanto: deu-lhe o seu tempo. Tinha certamente os seus planos para aproveitar aquele dia a bem das suas necessidades, compromissos ou desejos. Mas conseguiu deixar tudo de lado à vista do ferido e, sem o conhecer, considerou-o digno de lhe dedicar o seu tempo.

64. Com quem te identificas? É uma pergunta sem rodeios, direta e determinante: a qual deles te assemelhas? Precisamos de reconhecer a tentação que nos cerca de se desinteressar dos outros, especialmente dos mais frágeis. Digamos que crescemos em muitos aspetos, mas somos analfabetos no acompanhar, cuidar e sustentar os mais frágeis e vulneráveis das nossas sociedades desenvolvidas. Habituamo-nos a olhar para o outro lado, passar à margem, ignorar as situações até elas nos caírem diretamente em cima.

65. Assaltam uma pessoa na rua, e muitos fogem como se não tivessem visto nada. Sucede muitas vezes que pessoas atropelam alguém com o seu carro e fogem. Pensam só em evitar problemas; não importa se um ser humano morre por sua culpa. Mas estes são sinais dum estilo de vida generalizado, que se manifesta de várias maneiras, porventura mais subtis. Além disso, como estamos todos muito concentrados nas nossas necessidades, ver alguém que está mal incomoda-nos, perturba-nos, porque não queremos perder tempo por culpa dos problemas alheios. São sintomas duma sociedade enferma, pois procura construir-se de costas para o sofrimento.

66. É melhor não cair nesta miséria. Fixemos o modelo do bom samaritano. É um texto que nos convida a fazer ressurgir a nossa vocação de cidadãos do próprio país e do mundo inteiro, construtores dum novo vínculo social. Embora esteja inscrito como lei fundamental do nosso ser, é um apelo sempre novo: que a sociedade se oriente para a prossecução do bem comum e, a partir deste objetivo, reconstrua incessantemente a sua ordem política e social, o tecido das suas relações, o seu projeto humano. Com os seus gestos, o bom samaritano fez ver que «a existência de cada um de nós está ligada à dos outros: a vida não é tempo que passa, mas tempo de encontro».[57]

67. Esta parábola é um ícone iluminador, capaz de manifestar a opção fundamental que precisamos de tomar para reconstruir este mundo que nos está a peito. Diante de tanta dor, à vista de tantas feridas, a única via de saída é ser como o bom samaritano. Qualquer outra opção deixa-nos ou com os salteadores ou com os que passam ao largo, sem se compadecer com o sofrimento do ferido na estrada. A parábola mostra-nos as iniciativas com que se pode refazer uma comunidade a partir de homens e mulheres que assumem como própria a fragilidade dos outros, não deixam constituir-se uma sociedade de exclusão, mas fazem-se próximos, levantam e reabilitam o caído, para que o bem seja comum. Ao mesmo tempo, a parábola adverte-nos sobre certas atitudes de pessoas que só olham para si mesmas e não atendem às exigências ineludíveis da realidade humana.

68. A narração – digamo-lo claramente – não desenvolve uma doutrina feita de ideais abstratos, nem se limita à funcionalidade duma moral ético-social. Mas revela-nos uma caraterística essencial do ser humano, frequentemente esquecida: fomos criados para a plenitude, que só se alcança no amor. Viver indiferentes à dor não é uma opção possível; não podemos deixar ninguém caído «nas margens da vida». Isto deve indignar-nos de tal maneira que nos faça descer da nossa serenidade alterando-nos com o sofrimento humano. Isto é dignidade.

Uma história que se repete

69. A narração é simples e linear, mas contém toda a dinâmica da luta interior que se verifica na elaboração da nossa identidade, que se verifica em toda a existência projetada na realização da fraternidade humana. Enquanto caminhamos, inevitavelmente embatemos no homem ferido. Hoje, há cada vez mais feridos. A inclusão ou exclusão da pessoa que sofre na margem da estrada define todos os projetos económicos, políticos, sociais e religiosos. Dia a dia enfrentamos a opção de ser bons samaritanos ou viandantes indiferentes que passam ao largo. E se estendermos o olhar à totalidade da nossa história e ao mundo no seu conjunto, reconheceremos que todos somos, ou fomos, como estas personagens: todos temos algo do ferido, do salteador, daqueles que passam ao largo e do bom samaritano.

70. Digno de nota é o facto de as diferenças entre as personagens na parábola ficarem completamente transformadas ao confrontar-se com a dolorosa aparição do caído, do humilhado. Já não há distinção entre habitante da Judeia e habitante da Samaria, não há sacerdote nem comerciante; existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo; aquelas que se debruçam sobre o caído e o reconhecem necessitado de ajuda e aquelas que olham distraídas e aceleram o passo. De facto, caem as nossas múltiplas máscaras, os nossos rótulos e os nossos disfarces: é a hora da verdade. Debruçar-nos-emos para tocar e cuidar das feridas dos outros? Abaixar-nos-emos para levar às costas o outro? Este é o desafio atual, de que não devemos ter medo. Nos momentos de crise, a opção torna-se premente: poderíamos dizer que, neste momento, quem não é salteador e quem não passa ao largo, ou está ferido ou carrega aos ombros algum ferido.

71. A história do bom samaritano repete-se: torna-se cada vez mais evidente que a incúria social e política faz de muitos lugares do mundo estradas desoladas, onde as disputas internas e internacionais e o saque de oportunidades deixam tantos marginalizados, atirados para a margem da estrada. Na sua parábola, Jesus não propõe vias alternativas, como, por exemplo, no caso daquele homem ferido ou de quem o ajudou terem dado espaço nos seus corações ao ódio ou à sede de vingança, que sucederia? Jesus não Se detém nisso. Confia na parte melhor do espírito humano e, com a parábola, anima-o a aderir ao amor, reintegrar o ferido e construir uma sociedade digna de tal nome.

As personagens

72. A parábola começa com os salteadores. O ponto de partida escolhido por Jesus é um assalto já consumado. Não nos faz deter na lamentação do facto, nem dirige o nosso olhar para os salteadores. São coisas do nosso conhecimento. Vimos avançar no mundo as sombras densas do abandono, da violência usada para mesquinhos interesses de poder, acúmulo e repartição. A questão poderia ser: deixaremos ali estirado por terra o homem maltratado para correr cada qual a esconder-se da violência ou a perseguir os ladrões? Será o ferido a justificação das nossas divisões irreconciliáveis, das nossas cruéis indiferenças, dos nossos confrontos internos?

73. De imediato a parábola faz-nos pousar o olhar claramente naqueles que passam ao largo. Esta perigosa indiferença que leva a não parar, inocente ou não, fruto do desprezo ou duma triste distração, faz das duas personagens – o sacerdote e o levita – um reflexo não menos triste daquela distância menosprezadora que te isola da realidade. Há muitas maneiras de passar ao largo, que são complementares: uma é ensimesmar-se, desinteressar-se dos outros, ficar indiferente; outra seria olhar só para fora. Relativamente a esta última maneira de passar ao largo, nalguns países ou em certos setores deles, verifica-se um desprezo dos pobres e da sua cultura, bem como um viver com o olhar voltado para fora, como se um projeto de país importado procurasse ocupar o seu lugar. Assim se pode justificar a indiferença de alguns, pois aqueles que poderiam tocar os seus corações com as suas reivindicações simplesmente não existem; estão fora do seu horizonte de interesses.

74. Nas pessoas que passam ao largo, há um detalhe que não podemos ignorar: eram pessoas religiosas. Mais ainda, dedicavam-se a dar culto a Deus: um sacerdote e um levita. Isto é uma forte chamada de atenção: indica que o facto de crer em Deus e O adorar não é garantia de viver como agrada a Deus. Uma pessoa de fé pode não ser fiel a tudo o que essa mesma fé exige dela e, no entanto, sentir-se perto de Deus e julgar-se com mais dignidade do que os outros. Mas há maneiras de viver a fé que facilitam a abertura do coração aos irmãos, e esta será a garantia duma autêntica abertura a Deus. São João Crisóstomo expressou, com muita clareza, este desafio que se apresenta aos cristãos: «Queres honrar o Corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no templo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez».[58] O paradoxo é que, às vezes, quantos dizem que não acreditam podem viver melhor a vontade de Deus do que os crentes.

75. Habitualmente os «salteadores do caminho» têm, como aliados secretos, aqueles que «passam pelo caminho olhando para o outro lado». O círculo encerra-se entre aqueles que usam e enganam a sociedade para chupá-la, e aqueles que julgam manter a pureza na sua função crítica, mas ao mesmo tempo vivem desse sistema e seus recursos. Verifica-se uma triste hipocrisia, quando a impunidade do delito, o uso das instituições para interesses pessoais ou corporativos e outros males que não conseguimos banir, se associam a uma desqualificação permanente de tudo, à constante sementeira de suspeitas que gera desconfiança e perplexidade. Ao engano de que «tudo está mal» corresponde o dito «ninguém o pode consertar. Sendo assim, que posso fazer eu?» Deste modo, alimenta-se o desencanto e a falta de esperança; e isto não estimula um espírito de solidariedade e generosidade. Fazer um povo precipitar no desânimo é o epílogo dum perfeito círculo vicioso: assim procede a ditadura invisível dos verdadeiros interesses ocultos, que se apoderaram dos recursos e da capacidade de ter opinião e pensamento próprios.

76. Olhemos enfim o ferido. Às vezes sentimo-nos como ele, gravemente feridos e atirados para a margem da estrada. Sentimo-nos também abandonados pelas nossas instituições desguarnecidas e carentes, ou voltadas para servir os interesses de poucos, fora e dentro. Com efeito, «na sociedade globalizada, existe um estilo elegante de olhar para o outro lado, que se pratica de maneira recorrente: sob as aparências do politicamente correto ou das modas ideológicas, olhamos para aquele que sofre mas não o tocamos, transmitimo-lo ao vivo e até proferimos um discurso aparentemente tolerante e cheio de eufemismos».[59]

Recomeçar

77. Cada dia é-nos oferecida uma nova oportunidade, uma etapa nova. Não devemos esperar tudo daqueles que nos governam; seria infantil. Gozamos dum espaço de corresponsabilidade capaz de iniciar e gerar novos processos e transformações. Sejamos parte ativa na reabilitação e apoio das sociedades feridas. Hoje temos à nossa frente a grande ocasião de expressar o nosso ser irmãos, de ser outros bons samaritanos que tomam sobre si a dor dos fracassos, em vez de fomentar ódios e ressentimentos. Como o viandante ocasional da nossa história, é preciso apenas o desejo gratuito, puro e simples de ser povo, de ser constantes e incansáveis no compromisso de incluir, integrar, levantar quem está caído; embora muitas vezes nos vejamos imersos e condenados a repetir a lógica dos violentos, de quantos nutrem ambições só para si mesmos, espalhando confusão e mentira. Deixemos que outros continuem a pensar na política ou na economia para os seus jogos de poder. Alimentemos o que é bom, e coloquemo-nos ao serviço do bem.

78. É possível começar por baixo e caso a caso, lutar pelo mais concreto e local, até ao último ângulo da pátria e do mundo, com o mesmo cuidado que o viandante da Samaria teve por cada chaga do ferido. Procuremos os outros e ocupemo-nos da realidade que nos compete, sem temer a dor nem a impotência, porque naquela está todo o bem que Deus semeou no coração do ser humano. As dificuldades que parecem enormes são a oportunidade para crescer, e não a desculpa para a tristeza inerte que favorece a sujeição. Mas não o façamos sozinhos, individualmente. O samaritano procurou um estalajadeiro que pudesse cuidar daquele homem, como nós estamos chamados a convidar outros e a encontrar-nos num «nós» mais forte do que a soma de pequenas individualidades; lembremo-nos de que «o todo é mais do que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas».[60] Renunciemos à mesquinhez e ao ressentimento de particularismos estéreis, de contraposições sem fim. Deixemos de ocultar a dor das perdas e assumamos os nossos delitos, desmazelos e mentiras. A reconciliação reparadora ressuscitar-nos-á, fazendo perder o medo a nós mesmos e aos outros.

79. O samaritano do caminho partiu sem esperar reconhecimentos nem obrigados. A dedicação ao serviço era a grande satisfação diante do seu Deus e na própria vida e, consequentemente, um dever. Todos temos uma responsabilidade pelo ferido que é o nosso povo e todos os povos da terra. Cuidemos da fragilidade de cada homem, cada mulher, cada criança e cada idoso, com a mesma atitude solidária e solícita, a mesma atitude de proximidade do bom samaritano.

O próximo sem fronteiras

80. Jesus propôs esta parábola para responder a uma pergunta: «Quem é o meu próximo?» (Lc 10, 29). A palavra «próximo» na sociedade do tempo de Jesus costumava indicar a pessoa que está mais vizinha, mais próxima. Pensava-se que a ajuda devia encaminhar-se em primeiro lugar para aqueles que pertencem ao próprio grupo, à própria raça. Para alguns judeus de então, um samaritano era considerado um ser desprezível, impuro, e, por conseguinte, não estava incluído entre o próximo a quem se deveria ajudar. O judeu Jesus transforma completamente esta impostação: não nos convida a interrogar-nos quem é vizinho a nós, mas a tornar-nos nós mesmos vizinhos, próximos.

81. A proposta é fazer-se presente a quem precisa de ajuda, independentemente de fazer parte ou não do próprio círculo de pertença. Neste caso, o samaritano foi quem se fez próximo do judeu ferido. Para se tornar próximo e presente, ultrapassou todas as barreiras culturais e históricas. A conclusão de Jesus é um pedido: «Vai e faz tu também o mesmo» (Lc 10, 37). Por outras palavras, desafia-nos a deixar de lado toda a diferença e, em presença do sofrimento, fazer-nos vizinhos a quem quer que seja. Assim, já não digo que tenho «próximos» a quem devo ajudar, mas que me sinto chamado a tornar-me eu um próximo dos outros.

82. O problema é que Jesus destaca explicitamente que o homem ferido era um judeu – habitante da Judeia –, enquanto aquele que se deteve e o ajudou era um samaritano – habitante da Samaria –. Este detalhe reveste-se duma importância excecional ao refletirmos sobre um amor que se abre a todos. Os samaritanos habitavam numa região que fora contagiada por ritos pagãos, o que – aos olhos dos judeus – os tornava impuros, detestáveis, perigosos. De facto, um antigo texto hebraico, que menciona as nações odiadas, refere-se à Samaria afirmando até que «nem sequer é um povo», e acrescenta que é «o povo insensato que habita em Siquém» (Sir 50, 25.26).

83. Isto explica por que uma mulher samaritana, quando Jesus lhe pediu de beber, tenha observado: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou samaritana?» (Jo 4, 9). E noutra ocasião, ao procurar acusações que pudessem desacreditar Jesus, a coisa mais ofensiva que encontraram foi dizer-Lhe: «tens um demónio» e «és um samaritano» (Jo 8, 48). Portanto, este encontro misericordioso entre um samaritano e um judeu é uma forte provocação, que desmente toda a manipulação ideológica, desafiando-nos a ampliar o nosso círculo, a dar à nossa capacidade de amar uma dimensão universal capaz de ultrapassar todos os preconceitos, todas as barreiras históricas ou culturais, todos os interesses mesquinhos.

A provocação do forasteiro

84. Por fim, lembro que Jesus diz noutra parte do Evangelho: «Era forasteiro e recolheste-me» (Mt 25, 35). Jesus podia dizer estas palavras, porque tinha um coração aberto que assumia os dramas dos outros. São Paulo exortava: «Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram» (Rm 12, 15). Quando o coração assume esta atitude, é capaz de se identificar com o outro sem se importar com o lugar onde nasceu nem donde vem. Entrando nesta dinâmica, em última análise, experimenta que os outros são «a sua carne» (Is 58, 7).

85. Para os cristãos, as palavras de Jesus têm ainda outra dimensão, transcendente. Implicam reconhecer o próprio Cristo em cada irmão abandonado ou excluído (cf. Mt 25, 40.45). Na realidade, a fé cumula de motivações inauditas o reconhecimento do outro, pois quem acredita pode chegar a reconhecer que Deus ama cada ser humano com um amor infinito e que «assim lhe confere uma dignidade infinita».[61] Além disso, acreditamos que Cristo derramou o seu sangue por todos e cada um, pelo que ninguém fica fora do seu amor universal. E, se formos à fonte suprema que é a vida íntima de Deus, encontramo-nos com uma comunidade de três Pessoas, origem e modelo perfeito de toda a vida em comum. A teologia continua a enriquecer-se graças à reflexão sobre esta grande verdade.

86. Às vezes deixa-me triste o facto de, apesar de estar dotada de tais motivações, a Igreja ter demorado tanto tempo a condenar energicamente a escravatura e várias formas de violência. Hoje, com o desenvolvimento da espiritualidade e da teologia, não temos desculpas. Todavia, ainda há aqueles que parecem sentir-se encorajados ou pelo menos autorizados pela sua fé a defender várias formas de nacionalismo fechado e violento, atitudes xenófobas, desprezo e até maus-tratos àqueles que são diferentes. A fé, com o humanismo que inspira, deve manter vivo um sentido crítico perante estas tendências e ajudar a reagir rapidamente quando começam a insinuar-se. Para isso, é importante que a catequese e a pregação incluam, de forma mais direta e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade, a convicção sobre a dignidade inalienável de cada pessoa e as motivações para amar e acolher a todos.

21 janeiro, 2023

Um chamego de minha sobrinha e afilhada Paula

Um chamego dela nesse dia especial, do dom da vida.

Obrigada.

21/01/2023.


20 janeiro, 2023

Para refletir

"Peçamos a Deus que nos dê um coração pastoral, que sofra e se arrisque para dar testemunho. " (Papa Francisco)


18 janeiro, 2023

Deixemo-nos o texto do evangelista Marcos nos provocar!

Marcos 3,1-6.

Esse texto do evangelista Marcos, dispensa até uma explicação.

Deixemo-nos o texto nos provocar.


Naquele tempo,
Jesus entrou de novo na sinagoga. Havia ali um homem com a mão seca. Alguns o observavam para ver se haveria de curar em dia de sábado, para poderem acusá-lo. Jesus disse ao homem da mão seca: "Levanta-te e fica aqui no meio!"
E perguntou-lhes: "É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?" Mas eles nada disseram. Jesus, então, olhou ao seu redor, cheio de ira e tristeza, porque eram duros de coração; e disse ao homem: "Estende a mão." Ele a estendeu e a mão ficou curada. Ao saírem, os fariseus com os partidários de Herodes,imediatamente tramaram, contra Jesus, a maneira como haveriam de matá-lo.
Palavra da Salvação.

16 janeiro, 2023

O 1% mais rico do mundo embolsou quase duas vezes a riqueza obtida pelo resto do mundo nos últimos dois anos.

Cada bilionário ganhou durante a pandemia (2020-2022) cerca de US$ 1,7 milhão para cada US$ 1 obtido por uma pessoa que está entre os 90% mais pobres.

Na última década, os super-ricos concentraram cerca de metade de toda riqueza gerada no mundo;

A fortuna conjunta dos bilionários do mundo vem aumentando a uma taxa de US$ 2,7 bilhões por dia;

Um imposto de até 5% sobre os super-ricos poderia arrecadar US$ 1,7 trilhão por ano, o suficiente para tirar 2 bilhões de pessoas da pobreza.

No Brasil

O Brasil chegou em 2022, segundo a lista da revista Forbes, a 284 bilionários.

O 1% mais rico do Brasil tem quase metade da riqueza do país (48,7%), segundo dados do Credit Suisse.

Os 3.390 indivíduos mais ricos do Brasil (0,0016%) detêm 16% de toda a riqueza do país, mais do que 182 milhões de brasileiros (85% da população), segundo dados do Credit Suisse.

O 1% mais rico do mundo ficou com quase 2/3 de toda riqueza gerada desde 2020 – cerca de US$ 42 trilhões -, seis vezes mais dinheiro que 90% da população global (7 bilhões de pessoas) conseguiu no mesmo período. E na última década, esse mesmo 1% ficou com cerca de metade de toda riqueza criada. Pela primeira vez em 30 anos, a riqueza extrema e a pobreza extrema cresceram simultaneamente.

Confira a matéria publicada no site do IHU clicando AQUI

Grupos bolsonaristas e as teorias da conspiração

Entrevista com Leonardo Nascimento

Grupos bolsonaristas e as teorias da conspiração. A falta da autopatognose, isto é, a consciência de que se está doente. Entrevista especial com Leonardo Nascimento.

Segundo o pesquisador, um “caldo cultural” marcado por teorias conspiratórias sobre economia, política, sexualidade, religiosidade e “elementos atávicos da personalidade, como violência e medo, estão todos juntos e se corporificam nesse conservadorismo que estamos vendo”

Confira a entrevista publicada no site do IHU clicando AQUI

12 janeiro, 2023

Restaurar a Democracia e Reconstruir o Brasil.

É hora de perseverarmos juntos, para restaurar a democracia e reconstruir o Brasil.


Até que ponto a “Festa da Selma” era a “Festa da Selva!”?

A arquitetura do golpe foi estrategicamente pensada por pessoas que tinham noção de logística para a produção do caos, escreve Rudolfo Lago, jornalista, em artigo publicado por Congresso em Foco, 11-01-2023.
Eis o artigo.

Não parece haver muita dúvida que o código criado pelos baderneiros golpistas para organizar a tentativa de golpe de Estado que aconteceu no domingo (8) trazia uma conotação militar. Nas mensagens enviadas nos grupos de extrema-direita, especialmente no Telegram, a senha para o golpe era “Festa da Selma”. Há uma clara similitude entre o nome feminino adotado e o grito de guerra que os militares adoram: “Selva!”. Mas até que ponto os militares estão envolvidos na arquitetura desse golpe é coisa que ainda precisa ser apurada.

E precisa ser apurada logo. Bem mais importante que as 1.500 prisões em flagrante é a identificação e prisão de quem talvez não tenha estado na Praça dos Três Poderes no domingo. Quem arquitetou o golpe? Quem financiou o golpe? Quem pagou por mais de dois meses de acampamento na frente dos quartéis do país? Quem pagou pelos diversos ônibus vindos de vários pontos? Há financiamento internacional? Vindo de quem e de onde? Há autoridades envolvidas? Quem são (uma delas já parece identificada, o ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança do DF Anderson Torres, mas bem provavelmente não é somente ele)? E os militares? São militares isolados ou a instituição Forças Armadas está de alguma forma envolvida?

A primeira coisa que fica clara é que a arquitetura do golpe foi estrategicamente pensada por pessoas que tinham noção de logística para a produção do caos. Felizmente, talvez não com toda a competência que imaginavam ter, uma vez que, além dos três principais prédios da República o caos não se produziu. E as instituições prosseguem funcionando normalmente, porque a carência de inteligência dos arquitetos do caos não percebeu que elas não precisam de mesas e cadeiras para funcionar. No domingo mesmo, o presidente Lula reunia-se com a ministra Rosa Weber, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) debaixo da marquise do prédio.

De qualquer modo, os baderneiros sabiam como fazer ligar o sistema de extintores de incêndio dos palácios para jogar água e dissipar os efeitos de gás lacrimogênio. Orientaram os manifestantes a trazer máscaras e capas de chuva para se protegerem de gás de pimenta. Pensaram no fechamento de refinarias para evitar a produção de combustíveis. Em derrubar torres de energia para cortar o fornecimento de luz. Em bloquear estradas. Há um bocado de estratégia militar em tudo isso.

Por outro lado, o ministro da Justiça, Flávio Dino, tem razão quando destaca que até agora o papel das Forças Armadas como instituição não extrapolou os limites democráticos. E, de fato, se tivesse havido uma adesão institucional das Forças Armadas o cenário hoje poderia ser bem outro.

Certamente, não basta apoio das Forças Armadas para que um golpe seja bem-sucedido. Em 1964, o golpe aconteceu porque, além das Forças Armadas, havia apoio de parte expressiva da sociedade e apoio internacional. O governo dos Estados Unidos, por exemplo, estacionou parte da sua frota na costa brasileira para dar um eventual suporte caso fosse necessário. Agora, todos os principais países do planeta manifestam apoio a Lula e à democracia brasileira.

Mas não há dúvida que um apoio militar teria tornado mais penoso dissipar a tentativa de golpe do domingo. O que parece bem claro hoje é o forte apoio das polícias, especialmente da Polícia Militar, que nada fez e somente assistiu às invasões. E certamente há apoio isolado de oficiais das Forças Armadas, generais, inclusive.

Um temor admitido por fontes do governo é de que, em um caso de caos maior, caso o governo viesse a decretar Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e pedisse auxílio militar, pudesse haver uma rebelião de oficiais de baixa patente. Decretar a GLO poderia ser a senha para uma interpretação errada do famoso artigo 142 da Constituição, a tal “intervenção”.

É por isso que há no governo quem defenda a atuação do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro. Ele pisava e pisa num terreno delicado. Buscava obter um clima de entendimento com as Forças Armadas. Talvez tenha de fato errado em algumas declarações públicas. Por isso, neste momento, está sendo orientado a submergir, atuar nos bastidores e deixar Flávio Dino como o porta-voz mais destacado. É uma sintonia delicada entre não atiçar e não mostrar subserviência. Uma sintonia que não é simples.

O fato é que, de forma institucional, a “Festa da Selma” não foi “Festa da Selva!”. O trabalho é garantir que ela siga não sendo.


Fonte:IHU

10 janeiro, 2023

Golpe abortado. Artigo de Frei Betto

"As Forças Armadas se omitiram, em evidente postura de apoio tácito ao terrorismo. Aliás, as 'incubadoras de terroristas', como bem qualificou o ministro da Justiça, Flávio Dino ao se referir aos acampamentos bolsonaristas diante de quartéis, afinal chocaram o ovo da serpente", afirma Frei Betto, escritor, autor de Tom vermelho do verde (Rocco), entre outros livros.



Eis o artigo.

Ao destruir os palácios dos três poderes no domingo, 8 de janeiro, em Brasília, os terroristas bolsonaristas mostraram as caras e as garras. Trumpistas miméticos, reproduziram aqui em dimensões mais amplas o vandalismo ocorrido no Capitólio, em Washington, há dois anos, numa demonstração cabal de que seu lema é “ditadura sim, democracia não!”

A segurança falhou por cumplicidade do governador de Brasília, Ibaneis Rocha, e seu secretário de Segurança, o ex-ministro da Justiça Anderson Torres. A Polícia Militar da capital federal, responsável pela defesa do patrimônio nacional, facilitou a ação dos criminosos e só prendeu alguns vândalos após Lula decretar intervenção federal na segurança pública de Brasília.

As Forças Armadas se omitiram, em evidente postura de apoio tácito ao terrorismo. Aliás, as “incubadoras de terroristas”, como bem qualificou o ministro da Justiça, Flávio Dino ao se referir aos acampamentos bolsonaristas diante de quartéis, afinal chocaram o ovo da serpente. A Justiça brasileira cometeu o grave erro de, nos primórdios da redemocratização do país, em meados de 1980, não punir com rigor os assassinos e torturadores a serviço da ditadura militar que se apossou do país durante 21 anos (1964-1985). Tivesse seguido o exemplo da Argentina, do Uruguai e do Chile, o Brasil teria separado o joio do trigo.

Porém, um recurso esdrúxulo, a “anistia recíproca”, impede que haja punição a quem, em nome e a soldo do Estado, torturou, matou, sequestrou e fez desaparecer opositores do regime militar. Bolsonaro, cuja trajetória familiar é comprovadamente vinculada às milícias, como o demonstra o livro “O negócio do Jair – a história proibida do clã Bolsonaro”, de Juliana Dal Piva (Zahar), a tudo assistiu de seu camarote em Miami. Na mesma cidade se encontrava de férias Anderson Torres, agora demitido do governo do Distrito Federal.

Felizmente se abortou o golpe pela ação enérgica de Lula, do ministro da Justiça Flávio Dino e do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. A turba ensandecida foi expulsa dos palácios da República e presos três centenas de vândalos. Resta agora descobrir e punir quem financiou as caravanas terroristas a Brasília e por que as Forças Armadas se mantiveram em gritante silêncio.

Frente ao autoritarismo só há um antídoto: mais democracia. E isso significa reforçar a participação popular no governo Lula. A governabilidade não pode depender apenas das tratativas parlamentares e da anuência das Forças Armadas. É imprescindível que a sua principal sustentação seja o povo politizado e organizado.

Não é com o teto de gastos que o governo Lula deve se preocupar. É com o chão firme da mobilização popular.

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Fonte: IHU

08 janeiro, 2023

As CEBs clamam pela Democracia, pela paz e a justiça!

“Os justos gritam, Javé escuta, e os liberta de todos os apertos.” (salmo 34:18)

No dia de ontem, oito de janeiro de dois mil e vinte e três, sofremos com o ato contra a democracia, repudiamos a invasão, depredação e atos terroristas e golpistas das sedes do Congresso Nacional, Palácio do Planalto e Supremo Tribunal Federal (STF) por parte de grupos de extrema direita. Atos esses frutos do governo do anterior presidente da República; da indústria de armas entre outros; de grupos econômicos que tem nos últimos anos obtendo grandes lucros em detrimento do sofrimento de grande parte da população de baixa renda e degradação ao meio ambiente.

Nossa fé nos ensina “Eu creio em um só Deus todo poderoso” a mulher e o homem não é Deus. Nos últimos quatro anos emerge toda uma ideologia política de extrema-direita; famílias tiveram suas relações abaladas; divisão na igreja; consciências sendo manipuladas; um estado ferido; a radicalização de uma extrema direita que defende a ditadura, a violência e o racismo.

É preciso a união, é preciso empenhar a própria vida na luta pela verdade e justiça, na luta pela democracia para que todas e todos possam viver dignamente. Essa é a luta que constrói a paz. “Os justos gritam, Javé escuta, e os liberta de todos os apertos. ”, o nosso Deus sempre toma o partido dos justos, amando-os, ouvindo os sues clamores, liberando, cuidando e protegendo.

Que o nosso Deus libertador, que ouve o clamor de seu povo, que ama a todas e a todos com o amor de mãe ilumine, proteja e guia o povo brasileiro, os povos do mundo, os governantes do Brasil e de todas as nações.

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Lucimar Moreira Bueno (Lúcia)
Assessora das CEBs

Um dia triste para a história do Brasil – invasão terrorista nos palácios Três Poderes em Brasília!

Ato contra a democracia.

Neste domingo, dia oito de janeiro de dois mil e vinte e três, uma minoria bolsonarista radical invadiu e vandalizou os prédios do Palácio do Planalto, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF), destruíram tudo.

Uma minoria que não aceita o resultado das eleições, uma minoria antidemocrática golpista que quer impor os que eles querem por meio de atos criminosos. Querem acabar com a democracia brasileira, são criminosos, precisam ser presos e responsabilizados.

Hoje um dia muito triste para a história de todos nós brasileiras e brasileiros. Não iremos esquecer, iremos superar, defenderemos sempre a democracia.

“Os justos gritam, Javé escuta, e os liberta de todos os apertos.” (salmo 34:18)

Parque do Japão decoração e iluminação especial de Natal

Um passeio com a família curtindo o que nos é oferecido.

Dia -07/01/2023
Às 18h30 e às 20 horas




Nas CEBs o Pobre não é prioridade, é sujeito. Isso incomoda.


Segue texto que escrevi para reflexão.


Nas CEBs o Pobre não é prioridade, é sujeito. Isso incomoda.

O pobre quando deixa de ser prioridade e passa a ser sujeito, seja na dimensão social ou religiosa, incomoda e gera até raiva em muitos — revela uma tensão profunda presente na história das sociedades e também na caminhada das igrejas.

Durante muito tempo, o pobre foi visto sobretudo como objeto de assistência. Era alguém a quem se devia ajudar, socorrer ou proteger. Essa atitude, embora possa conter gestos de solidariedade, muitas vezes mantém uma relação vertical: alguém ajuda e outro apenas recebe. Nessa lógica, o pobre continua sem voz, sem participação e sem poder de decisão sobre sua própria vida.

Quando, porém, o pobre deixa de ser apenas “prioridade” — no sentido de destinatário da caridade — e passa a ser sujeito de sua própria história, a realidade muda profundamente. O pobre começa a falar, organizar-se, reivindicar direitos, interpretar a realidade a partir de sua experiência e participar das decisões que dizem respeito à sua vida. Nesse momento, ele deixa de ser apenas alguém a ser ajudado e passa a ser protagonista.

É justamente esse protagonismo que muitas vezes incomoda.
Incomoda porque questiona estruturas injustas, privilégios históricos e modos estabelecidos de exercer poder. Quando o pobre toma a palavra, ele revela as contradições do sistema econômico, social e até religioso. Sua voz pode desvelar desigualdades que antes eram naturalizadas ou escondidas.

Na dimensão social, isso aparece quando populações empobrecidas se organizam em movimentos, associações, ocupações ou lutas por direitos. Não pedem apenas ajuda; pedem justiça. E justiça exige mudanças estruturais, o que provoca resistências daqueles que se beneficiam da ordem existente.

Na dimensão religiosa, o mesmo fenômeno ocorre quando os pobres assumem seu lugar na vida da Igreja, interpretam a Palavra de Deus a partir de sua realidade e participam ativamente da missão.

Nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) os pobres não são prioridades - não são apenas destinatários da evangelização, mas sujeitos eclesiais. Isso pode gerar tensões, porque desloca a compreensão de Igreja de uma estrutura centrada apenas na autoridade para uma comunidade de irmãs e irmãos que caminham juntos.

A própria Bíblia testemunha esse movimento. Deus não apenas socorre o pobre, mas o levanta, o faz sujeito da libertação. No Êxodo, o povo escravizado se torna protagonista de sua saída. Nos Evangelhos, Jesus não trata os pobres como objetos de piedade, mas os coloca no centro do Reino e os reconhece como bem-aventurados (Mt 5,3; Lc 6,20).

Por isso, quando o pobre se torna sujeito, ele não ameaça a verdadeira fraternidade; ao contrário, revela o caminho do Evangelho. O incômodo e até a raiva que surgem em alguns contextos mostram o quanto ainda estamos presos a estruturas que preferem o pobre silencioso ao pobre consciente.

Reconhecer o pobre como sujeito é dar um passo decisivo rumo a uma sociedade e a uma Igreja mais justas, onde se constrói juntos a história, não há dúvida, as CEBs são, por excelência, um espaço de sinodalidade onde o pobre não é prioridade e sim sujeito – a Igreja tem a obrigação de reconhecer o papel fundamental das Comunidades Eclesiais de Base, desde sua origem até os dias atuais.

06 janeiro, 2023

Papa na Epifania: encontrar a grandeza na pequenez que Deus tanto ama

"Todos somos chamados por Jesus, todos podemos discernir a sua presença, todos podemos experimentar as suas surpresas". São palavras do Papa Francisco no Angelus desta sexta-feira, dia 6 de janeiro, Dia dos Reis Magos

Jane Nogara - Vatican News

No Angelus da Solenidade da Epifania, (06/12) o Papa Francisco fala-nos dos Reis Magos que chegando a Belém, oferecem a Jesus ouro, incenso e mirra. Porém continua o Papa, poderíamos dizer que eles, antes de tudo, recebem três dons: três dons preciosos que dizem respeito também a nós.

Chamado
O primeiro é “o dom do chamado”. “Os Magos”, continua, “deixaram-se maravilhar e disturbar pela novidade da estrela e partiram rumo ao que não conheciam”. Recordando que sendo cultos e sábios, fascinaram-se mais pelo que não sabiam do que pelo que sabiam. “Eles se sentiram chamados a ir além”. E Francisco nos esclarece: “somos chamados a não nos contentarmos, a buscar o Senhor saindo da nossa zona de conforto, caminhando em direção a Ele com os outros, mergulhando-nos na realidade”.

Discernimento
O segundo dom que os Magos nos falam, continua o Papa, é o do discernimento. E explica que foram ao encontro do rei Herodes, e percebendo que este queria usá-los, não se deixaram enganar. “Sabem fazer a distinção entre a meta do percurso e as tentações que encontram pelo caminho”, reiterando em seguida: “Como é importante saber distinguir a meta da vida das tentações do caminho!".

“O discernimento é um grande dom, e nunca se deve cansar de pedi-lo na oração. Peçamos esta graça!”

Surpresa
Por fim, os Magos falam-nos de um terceiro dom: a surpresa. “Depois de uma longa viagem, o que esses homens de alto nível social encontram? Uma criança com sua mãe, certamente uma cena terna, mas não surpreendente!”. E sugere que talvez esperassem um Messias poderoso e prodigioso, e encontram uma criança. “No entanto”, continua, “não pensam ter se enganado, sabem reconhecê-lo. Acolhem a surpresa de Deus e vivem com encanto o encontro com Ele, adorando-o: na pequenez reconhecem o rosto de Deus”.

O dom de saber encontrar a grandeza na pequenez
Por fim Francisco afirma “Humanamente todos somos inclinados a buscar a grandeza, mas é um dom saber encontrá-la verdadeiramente: saber encontrar a grandeza na pequenez que Deus tanto ama. Porque o Senhor se encontra assim: na humildade, no silêncio, na adoração, nos pequenos e nos pobres”.

“Todos somos chamados por Jesus, todos podemos discernir a sua presença, todos podemos experimentar as suas surpresas.”

Hoje seria belo recordar estes dons, que já recebemos: recordar quando percebemos na vida um chamado de Deus; ou quando, talvez depois de tanto esforço, conseguimos discernir sua voz; ou ainda, a uma surpresa inesquecível que Ele nos fez, deixando-nos maravilhados.

CV2023 (1ºdia): Por uma educação antirracista, numa conjuntura de pobrez...

Curso de Verão 2023 On-Line: Educar para um Mundo Social e Racialmente Justo. 

CV2023 (1ºdia): Por uma educação antirracista, numa conjuntura de pobreza, discriminação e violência.