22 maio, 2026

Direita rachadinha

Direita rachadinha


Olá, Flávio Bolsonaro passa vergonha, o centrão titubeia, a terceira via sonha em existir e a Faria Lima busca um candidato para chamar de seu.

.Róliudi. Antes mesmo de estrear, “Dark Horse” já rende sequências piores do que nas telas. Depois do aúdio de Flávio Bolsonaro, foi a vez do deputado Mario Frias (PL-SP), ex-secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro, chamar o banqueiro de irmão e agradecer pelo financiamento. O dinheiro de Vorcaro navegava por uma estrutura tripla: a Entre Investimentos e Participações no Brasil, o fundo Havengate Development LP no Texas (cujo agente legal é o advogado Paulo Calixto, responsável pelo processo imigratório da família Bolsonaro nos EUA), e a GoUp Entertainment LLC, sediada na Flórida. Para atrair grandes fortunas, a produção vendia cotas de US$500 mil, com um pacote especial de US$1,1 milhão que prometia "oportunidade de imigração". Com o mandato cassado, Eduardo Bolsonaro arranjou um emprego como produtor-executivo e responsável pela engenharia financeira internacional. Em diálogo interceptado de março de 2025, ele explica ao intermediário Thiago Miranda, sócio do Portal Leo Dias, que "o ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo", num indício que estamos falando de lavagem de dinheiro. O escândalo desemboca ainda na gestão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB). Karina Ferreira da Gama, presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB) e sócia da GoUp Entertainment LLC, é o elo entre os R$108 milhões pagos pela Prefeitura de São Paulo num contrato emergencial de Wi-Fi gratuito e o filme bolsonarista. O Tribunal de Contas do Município havia identificado pelo menos 20 irregularidades graves no edital — ausência de ampla concorrência, ICB sem qualquer histórico técnico em telecomunicações — e a Secretaria de Inovação seguiu adiante. Resultado: dos 5 mil pontos de Wi-Fi prometidos, foram instalados pouco mais de 3.200; três aditivos elevaram o repasse de R$ 43 milhões previstos para R$ 69 milhões efetivamente pagos. O ICB compartilha endereço, sócios e procuradores com a GoUp na Avenida Paulista e recebeu ainda emendas federais carimbadas por Mario Frias, que é procurado há mais de um mês pelo ministro Flávio Dino para prestar esclarecimentos.

.Vida real. Se as conversas entre Flávio e Vorcaro sobre o filme já eram escandalosas, o encontro presencial entre os dois depois da prisão do banqueiro caiu como uma bomba no QG dos Bolsonaros. Em primeiro lugar, o efeito se fez sentir no eleitorado: em poucos dias, as intenções de voto em Flávio recuaram 6% no segundo turno contra Lula, segundo o Instituto AtlasIntel. Mas a base aliada também foi atingida. Dentro do PL, o sentimento de traição e de que algo mais grave possa vir à tona gerou incertezas sobre o futuro da campanha do candidato bolsonarista. E, em outro pedaço importante da direita e do centrão, PP, União e Republicanos, o compasso é de espera. Até porque essa ala precisa gerir sua própria crise depois que veio à tona o envolvimento do cacique do PP, Ciro Nogueira, com Vorcaro, que a cada dia ganha novos capítulos. O mesmo compasso de espera tem marcado as reações dos principais concorrentes do espólio da direita: Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). Ambos criticaram vagamente os casos de corrupção, mas sem bater de frente com Flávio. Enquanto isso, Merval Pereira e outros viúvos da terceira via entraram em alvoroço acreditando que a finada tenha reencarnado em um corpo inesperado, como Joaquim Barbosa (DC), ou talvez até em Aécio Neves (PSDB). O saldo do desgaste de Flávio Bolsonaro também passa pelo setor evangélico e pela Faria Lima. No primeiro caso, por questões morais evidentes; no segundo, não tanto pela moral mas por falta de confiança. E é justamente o setor financeiro que Flávio deve buscar reconquistar com o anúncio de propostas e compromissos mais claros para a economia. Até porque, quando o assunto é a rede de amizades de Vorcaro, o candidato do PL não estava sozinho. Pairam dúvidas sobre as autoridades financeiras e seu envolvimento na crise do Master, especialmente o capítulo que envolve o BRB. O tema voltou à pauta pelas mãos de Renan Calheiros (MDB-AL), que comanda a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, e que solicita esclarecimentos e maior transparência sobre o papel que o Banco Central desempenhou no desenrolar da crise. Mas estas são cenas do próximo capítulo.

.Passando a boiada outra vez. Enquanto Flávio Bolsonaro busca reduzir danos, Lula dá um suspiro de alívio. É que a má-fama de Flávio respingou positivamente no presidente, que recuperou levemente a popularidade de seu governo, segundo a pesquisa AtlasIntel. Os números são singelos - a aprovação passou de 42% para 42,9% e a desaprovação caiu de 51% para 48,4% - mas em tempos de aperto cada pequena vitória conta. Animado pelas dificuldades do adversário, pelos tropeços do centrão e pela recente conversa amigável com Trump, Lula se sentiu confiante para destravar algumas pautas emperradas. No espírito de mostrar todas as cartas que têm até as eleições, o governo acenou com uma linha especial de crédito para motoristas de app e taxistas na compra de carro zero. Já no tema sensível da regulação das big techs, o governo seguiu o entendimento do STF sobre a necessidade de aumentar as responsabilidades das plataformas sobre os conteúdos veiculados nas redes. Assim, por meio de decreto, o Planalto ampliou os poderes da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) no âmbito do Marco Civil da Internet. Na prática, as empresas devem facilitar os canais de denúncias, tornam-se responsáveis por tirar do ar perfis que pratiquem crimes mesmo antes de decisão judicial, e a ANPD passa a ter maiores poderes de fiscalização. Mas as boas notícias para o Planalto tiveram vida curta. Logo em seguida, o Congresso derrubou o veto de Lula em quatro dispositivos da LDO e autorizou doações públicas para estados e municípios em ano eleitoral, o que, na prática, significa liberar a distribuição de emendas de deputados e senadores para suas bases, vitaminando seus projetos eleitorais. Assanhada, a bancada ruralista também quer passar mais uma parte da boiada de flexibilização das leis ambientais. E a direita, sem-vergonha, fez até um abaixo-assinado para incluir uma transição de 10 anos para o fim da escala 6x1, incluindo uma pegadinha na PEC que permitiria aumentar a jornada de trabalho das atuais 44 para 52 horas semanais! Com tudo isso, talvez Lula seja obrigado a recuar da ideia de indicar novamente Jorge Messias para a vaga no STF, para não bater de frente com Davi Alcolumbre e aumentar os atritos com o Congresso.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Cinco fatos que mostram risco iminente de agressão dos EUA à Cuba. Depois do fracasso na guerra contra o Irã, Trump retoma ofensiva contra a ilha caribenha. Por André Freire, no Esquerda OnLine.

.Por que a Bolívia está em chamas. Entenda como seis meses após o fracasso da esquerda nas eleições, uma nova onda de protestos varre o país andino. Por Arián Quiroga, no Outras Palavras.

.Quem salvará o Digimais? Depois do Master, a nova dor de cabeça do setor financeiro é o banco do pastor Edir Macedo. Na Piauí.

.Seleção das bets: um a cada três convocados veste camisa com bet no patrocínio principal. Dos 26 convocados para a seleção brasileira, nove atuam em times com casas de apostas no centro da camisa. Na Pública.

.Os judeus que dizem não ao sionismo. No Outras Palavras, conheça a dolorosa jornada pessoal de Bruno Hendler para dissociar o judaísmo do sionismo.

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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.


Crimes de Maio: o massacre que o Brasil ignora

O que segue a baixo, é newsletter, recebido em meu e-mail, do "Brasil de Fato" (22/05/20266)


Crimes de Maio: o massacre que o Brasil

Um célebre escritor e jornalista brasileiro chamado Eric Nepomuceno definiu o nosso país como o da amnésia, em uma entrevista ao Brasil de Fato. Ele citava o massacre de Eldorado do Carajás, quando 21 sem-terra foram brutalmente assassinados pela PM do Pará por realizarem uma passeata pacífica pela reforma agrária, em 17 de abril de 1996.

Da zona rural à urbana, do campo à cidade, o Brasil repete a tal da amnésia citada por Nepomuceno. O que aconteceu há 20 anos, em maio de 2006, em São Paulo (SP), foi esquecido pelo país. Centenas de jovens negros foram assassinados sem sequer saberem o motivo pelo qual eram baleados pelas costas ou rendidos no chão.

Aqui digo centenas porque, de fato, ninguém sabe ao certo quantos foram mortos. Foram mais de 500, mas até isso o Estado brasileiro se esforça em ignorar: a dimensão do crime que cometeu e o mínimo respeito com as vítimas.

Como remédio para esse esquecimento, o Brasil de Fato e a Ponte Jornalismo lançaram, neste mês, o podcast Crimes de Maio. O trabalho está dividido em cinco episódios, lançados semanalmente (já foram dois, temos mais três), disponíveis nas plataformas de podcast, no YouTube e nos sites dos veículos.

O ponto de partida do podcast é discutir a memória que a população, no geral, tem do que foi essa semana trágica para a história do país. O lugar comum é que uma série de rebeliões e motins do Primeiro Comando da Capital (PCC) causaram a morte de dezenas de policiais, que apenas responderam aos ataques, o que levou à morte de bandidos.

Contestar a versão oficial é um desafio, afinal muitos assassinatos foram ocultados, tiveram a cena alterada ou corpos levados antes da perícia. Mas que a verdade seja dita: sabemos que não eram bandidos, a grande maioria eram inocentes, apenas mais jovens negros de periferias do país. Como Edson Rogério Silva dos Santos, filho da revolucionária Débora Maria da Silva, uma das fundadoras do movimento Mães de Maio.

Inclusive, essa é a principal chama de esperança que resiste em meio a mais uma tragédia brasileira. O que surgiu deste massacre é único e persevera até hoje.

Na semana passada, quando se completaram os 20 anos, em Santos (SP), uma das cidades-palco dos crimes, em meio à chuva, centenas de pessoas se reuniram para lembrar do que aconteceu naquela semana de maio de 2006.

O podcast faz a ponte do legado da ditadura com os crimes, relembra a chacina do Parque Bristol, na zona sul da capital paulista, o assassinato de Ana Paula Gonzaga dos Santos, grávida de nove meses, e de tantas mães que já morreram e não viram um pingo de justiça cair sob o colo de luto e ausência diária.

Convidamos toda nossa audiência a relembrar o que foram os Crimes de Maio ou ressignificar a lembrança do que aconteceu há 20 anos, em mais uma semana de tragédia na periferia brasileira.

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Lucas Salum
Supervisor da Rádio Brasil de Fato