Olá, Lula corre contra o tempo, contra a morosidade do Congresso e contra a rejeição do eleitorado.
.O custo da vitória. Estamos em abril e as pesquisas apontam a consolidação de um cenário eleitoral polarizado, competitivo e indefinido entre Lula e Flávio Bolsonaro. O desafio do petista é duplo. Por um lado, superar a rejeição de 44% dos eleitores, um índice consideravelmente maior do que os 37% que rejeitam Flávio. Por outro, Lula precisa enfraquecer seu rival, o que passa por iniciar uma campanha de desgaste prolongado. A avaliação de parte dos aliados do presidente é a de que martelar no tema da rachadinha ajudaria mais a direita do que a esquerda porque arrastaria a campanha para a vala comum do tema da corrupção. O melhor caminho seria taxar Flávio de entreguista e lambe-botas de Trump, aproveitando a má fase do presidente norte-americano e apelando para o espírito nacionalista dos brasileiros. Mas nada disso vai funcionar se a população não perceber que o Planalto governa a seu favor. E aí está o principal gargalo. O desempenho econômico do país não é uma maravilha, mas também não vai tão mal quanto a impressão dos eleitores. Ao longo da segunda metade do mandato, Lula tem investido bilhões em políticas sociais abrangentes, como o Gás do Povo, Luz do Povo e a isenção do Imposto de Renda. Mas, com o elevado endividamento familiar e os juros nas alturas, é como enxugar gelo. E, depois que o ex-aliado do governo, Gabriel Galípolo, deu continuidade a política de austeridade de seu antecessor na presidência do Banco Central, só resta ao Planalto dar um jeito no endividamento. O sinal de que algo vai mal é que, mesmo com a desocupação em baixa e a renda em alta, o consumo no varejo não aumenta e uma das causas é o escoamento da renda para as Bets. Por isso, o governo planeja lançar uma segunda edição do projeto Desenrola de renegociação de dívidas baseado na experiência pioneira lançada por Haddad em 2023. A proposta é refinanciar dívidas com descontos que podem variar de 30% a 80%. A novidade, além da possibilidade de usar parte do FGTS que pode chegar a R$ 7 bilhões, é que o governo pretende proibir o uso de BETs para quem aderir ao programa, buscando cortar o mal pela raiz. Resta saber se, ao ponto que o problema chegou, uma medida desse tipo não seria vista como impopular.
.Férias sem fim. O carnaval já terminou, a páscoa ficou para trás, mas se depender dos presidentes da Câmara e do Senado, o ano no parlamento será um feriadão sem fim. Seja para não dar palco ao escândalo do Master, em que Hugo Motta e Davi Alcolumbre têm relações no mínimo pouco republicanas, seja porque a prioridade são os palanques eleitorais. Pior para o governo que vê seus projetos sendo cozinhados em banho-maria. No caso do fim da escala 6x1, Motta chegou a anunciar que o governo não enviaria um novo projeto e que a discussão giraria em torno da PEC que tramita no Congresso. O governo negou justamente porque duvida que o Congresso aprove antes de junho. Além disso, o Planalto quer aplicação imediata da nova regra do 5 x 2 sem período de transição. Um projeto de urgência do Executivo também obrigaria o Congresso a votar em 45 dias, com um quorum menor de aprovação do que de uma PEC. Para responder à pressão do Planalto, a CCJ marcou a votação do seu parecer para a próxima semana. Outra proposta em disputa é a da regulação dos trabalhadores de aplicativos. Esta sim deve ir à votação na próxima semana, mas neste caso, há discordâncias dentro do próprio governo, considerado como o projeto “que foi possível” pelo Ministério do Trabalho e insuficiente pela Secretaria Geral. Em quaisquer das hipóteses, o governo não conseguiu emplacar o pedido de um pagamento mínimo de R$10 aos trabalhadores por corrida. Por fim, a Câmara deve desengavetar a votação de uma vaga para o TCU, tradicional prêmio de aposentadoria vitalícia para ex-deputados, que mexe com os bastidores e acordos na casa. Em comparação com o Senado, a Câmara até está proativa. Nos domínios de Davi Alcolumbre, depois de finalmente ter marcado a sabatina de Jorge Messias, a única prioridade é encerrar CPIs. Depois do fim melancólico da CPI do INSS, chegou a vez da Comissão que investiga o Crime Organizado ter o mesmo destino. A tentativa de colar no Banco Master também não funcionou e o pedido de prorrogação não foi aceito por Alcolumbre. Sem conseguir ouvir Roberto Campos Neto, que faltou pela terceira vez à Comissão, nem a ida de Gabriel Galípolo deu alguma relevância ao fim dos trabalhos. Para surpresa só do Planalto, o presidente do BC defendeu seu antecessor na comissão. A CPI chega ao fim justo na semana em que a Receita Federal confirmou que Daniel Vorcaro pagou R$80 milhões em dois anos para o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre, além de pagamentos para o portal Metrópoles, escritórios de advocacia e empresas ligados a Michel Temer (MDB), Antônio Rueda (União Brasil), Ratinho Júnior (PSD), ACM Neto (União Brasil), o ex-ministro do governo Bolsonaro, Fabio Wajngarten, e os ex-ministros Guido Mantega, Henrique Meirelles e Ricardo Lewandowski.
.Todos juntos e separados. A família Bolsonaro deveria estar vivendo o seu melhor momento dos últimos três anos. Afinal, preso e caminhando para o ostracismo, Jair conseguiu impor o nome de Flávio como candidato, mantendo a direita refém da família por mais algum tempo, eliminando os concorrentes do mesmo campo, consolidando o filho como o adversário de fato de Lula e ainda viu seu partido - o PL - crescer na janela partidária. Mas a família e os bolsonaristas gostam mesmo é de uma boa briga em público. Além das disputas entre Michelle e os enteados, que envolvem a estratégia do PL em Santa Catarina e no Ceará, Eduardo resolveu atacar Nikolas, que tem um projeto político próprio e está em contagem regressiva para se descolar dos Bolsonaros. Aliás, Nikolas sabe bem como é impedir que alguém do mesmo campo cresça, afinal ele também está tentando barrar a entrada do senador Cleitinho no PL. Além das brigas, Flávio tem que lidar com a verborragia do irmão Eduardo e com a possibilidade de uma deserção do agronegócio para a candidatura Caiado, que afinal de contas representa muito melhor a turma do latifúndio e do veneno. Neste caso, Flávio poderia escolher a senadora Teresa Cristina (PP) como vice para manter a lealdade deste setor ou buscar uma alternativa entre empresários. Apesar de todo burburinho e das disputas internas, o que é realmente relevante é que o bolsonarismo conseguiu manter a unidade político-ideológica da extrema-direita, como se vê nas plataformas e ações das supostas candidaturas alternativas. Como Flávio, a única bandeira que Ronaldo Caiado apresentou até agora foi… a anistia a Jair Bolsonaro. Já o Novo de Romeu Zema determinou que todos os candidatos a qualquer cargo devem obrigatoriamente defender o impeachment de ministros do STF, outra bandeira própria do bolsonarismo.
.Ponto Final: nossas recomendações.
.O culto ao apocalipse por trás da guerra de Trump contra o Irã. No Intercept, Alain Stephens explica porque o fundamentalismo evangélico apoia a guerra.
.Por uma nova estratégia para terras raras e IA. Frente ao entreguismo da direita, o desafio é uma resposta baseada em soberania e desenvolvimento. No Outras Palavras.
.Parasita digital (IA): a pirataria dos saberes que destrói recursos naturais alimentada por grandes data centers. Em entrevista ao IHU, Miguel Nicolelis analisa a farsa do conceito de Inteligência Artificial.
.SOS Orçamento: o escândalo dos R$ 61 bilhões para emendas. No Poder360, Roberto Livianu denuncia a perda de controle do orçamento público e propõe a restrição às emendas.
.ATL 2026 começa com Indígenas cercados pela mineração e foco em bancada inédita no Congresso. Povos originários lutam nas ruas e no parlamento pelo direito de existir. Na Samaúma.
.Não vou deixar de ser quem eu sou só porque é difícil. Marcia Barbosa, reitora da UFRGS, relata os desafios de uma mulher que ocupa espaços de poder. No Sul 21.
.Quem consome livros no Brasil? Os dados são surpreendentes. Mulheres pretas e pardas ganham destaque, segundo pesquisa. Veja o resultado no Farofafá.
.Se o povo não chega ao cinema, o cinema chega ao povo. Projeto do MTST leva produção audiovisual gratuita a ocupações urbanas. No Emerge Mag.
-----------------------
Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

Nenhum comentário:
Postar um comentário