27 setembro, 2021
“Não há vagas” - Poema de Ferreira Gullar
25 setembro, 2021
Seminário “CEBs: Igreja Sinodal”
24 setembro, 2021
Seminário “CEBs: Igreja Sinodal” - Iser Assessoria e Setor CEBs da CNBB
Para refletir
23 setembro, 2021
“A liberdade nos assusta”. Íntegra da conversa do Papa Francisco com os jesuítas eslovacos
Bratislava, domingo, 12 de setembro de 2021, 17h30. O Papa Francisco acaba de concluir seu encontro com os representantes do Conselho Ecumênico das Igrejas na Nunciatura. O tempo de arrumar as cadeiras depois do encontro anterior terminar, e eis que 53 jesuítas eslovacos tomam seus lugares no salão. Francisco entra e cumprimenta: “Boa noite e sejam bem-vindos! Obrigado por esta visita. Não sabia que havia tantos jesuítas aqui na Eslováquia. Dá para ver que ‘a peste’ se espalha por toda parte”. O grupo cai na gargalhada. Francisco pede perguntas porque, afirma ele, novamente provocando uma risada: "Realmente não me sinto com vontade de fazer um discurso aos jesuítas".
O Provincial da Província eslovaca dirigiu algumas palavras de saudação ao Papa: “Padre, quero agradecer-lhe de todo o coração por este convite que foi uma surpresa para nós. É um incentivo para a nossa vida comunitária e pastoral. Existem muitos jesuítas na Eslováquia. Queria confirmar que a Companhia quer estar à sua disposição e para as necessidades da Igreja”.
O Papa responde com uma brincadeira: “Obrigado. A ideia de convidar os jesuítas nas minhas viagens apostólicas é do pe. Spadaro porque assim ele tem material para fazer um artigo para ‘La Civiltà Cattolica’ que publica sempre essas conversas!" E continua: “Vamos lá, espero as perguntas. Joguem a bola para o goleiro. Vamos!".
A reportagem é de Antonio Spadaro, jesuíta, diretor da revista Civiltà Cattolica, publicada na mesma, no dia 21-09-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a conversa.
Um jesuíta pergunta: "Como está?"
Ainda vivo. Embora alguns me quisessem morto. Sei que houve até encontros entre prelados que achavam que o Papa estava pior do que era divulgado. Eles estavam preparando o conclave. Paciência! Graças a Deus, estou bem. Fazer aquela cirurgia foi uma decisão que eu não queria tomar: foi um enfermeiro que me convenceu. Os enfermeiros às vezes entendem a situação mais do que os médicos, porque estão em contato direto com os pacientes.
Um jesuíta que trabalhou por quase 15 anos na Rádio Vaticano pergunta com o que os jesuítas devem se preocupar para o trabalho pastoral na Eslováquia.
Uma palavra sempre me vem à mente: "proximidade".
"Onde há encruzilhada de caminhos, de ideias, ali estão os jesuítas" – Paulo VI citado pelo Papa Francisco
Proximidade de Deus, em primeiro lugar: não deixar a oração! A oração verdadeira, do coração, não aquela formal que não toca o coração. A oração que luta com Deus, e que conhece o deserto onde nada se ouve. Proximidade de Deus: ele está sempre esperando por nós. Poderíamos ter a tentação de dizer: não posso orar porque estou ocupado. Mas ele também está ocupado. Está ocupado ficando ao seu lado, esperando por você.
Segundo: a proximidade entre vocês, o amor entre os irmãos, o amor austero dos jesuítas que é muito fino, caritativo, mas também austero: amor de homens. Dói-me quando vocês ou outros sacerdotes se ‘descascam’ entre si. E isso bloqueia, não permite avançar. Mas esses problemas existiam desde o início da Companhia. Vamos pensar, por exemplo, na paciência que Ignácio teve com Simon Rodriguez. É difícil ser uma comunidade, mas a proximidade entre vocês é muito importante.
Terceiro: a proximidade com o bispo. É verdade que há bispos que não nos querem, é uma verdade, sim. Mas não deve existir um jesuíta que fale mal do bispo! Se um jesuíta pensa diferente do bispo e tem coragem, deve ir até o bispo e dizer a ele o que pensa. E, quando digo bispo, também me refiro ao Papa.
Quarto: proximidade com o povo de Deus. Vocês devem ser como nos disse Paulo VI em 3 de dezembro de 1974: onde há encruzilhada de caminhos, de ideias, ali estão os jesuítas. Leiam bem e meditem sobre aquele discurso de Paulo VI à Congregação Geral XXXII: é a coisa mais bela que um Papa já disse aos jesuítas. É verdade que se nós formos realmente homens que vão às encruzilhadas e aos limites, criaremos problemas. Mas o que nos salvará de cair em ideologias estúpidas é a proximidade com o povo de Deus, e assim poderemos seguir em frente e com o coração aberto.
Claro, pode ser que alguns de vocês fiquem entusiasmados e depois o Provincial chegue para segurá-los dizendo: "Não, isso não está certo." E então devemos continuar em frente com a disposição de ser obedientes. A proximidade com o povo de Deus é tão importante porque nos "enquadra". Nunca se esqueçam de onde fomos tirados, de onde viemos: o nosso povo. Mas se nos separarmos e formos em direção a uma ... universalidade etérea, então perderemos as raízes. As nossas raízes estão na Igreja, que é o povo de Deus.
É verdade que se nós formos realmente homens que vão às encruzilhadas e aos limites, criaremos problemas. Mas o que nos salvará de cair em ideologias estúpidas é a proximidade com o povo de Deus, e assim poderemos seguir em frente e com o coração aberto – Papa Francisco
Por isso, aqui vos peço quatro proximidades: com Deus, entre vocês, com os bispos e o Papa, e com o povo de Deus, que é a mais importante.
Um jesuíta toma a palavra e lembra que ali há cerca de vinte religiosos ordenados padres clandestinamente, como ele mesmo. Afirma que foi uma experiência maravilhosa para eles terem crescido no mundo do trabalho ...
O trabalho para ganhar o pão ... o trabalho manual ou intelectual é trabalho, é saúde. E o povo de Deus, se não trabalha, não come ...
Um dos presentes começa dizendo: “Sou dois anos mais novo que o senhor” e o Papa responde: “... mas não parece! Você usa maquiagem!”. E os outros riem. Ele continua: “Em 1968 entrei na Companhia de Jesus como refugiado. Fui membro da Província Suíça por 48 anos e estou aqui há 5 anos. Tenho vivido em Igrejas muito diferentes. Hoje vejo que muitos querem voltar ou buscar certezas no passado. Sob o comunismo, experimentei a criatividade pastoral. Alguns até diziam que não se poderia formar um jesuíta durante o comunismo, mas outros o fizeram e nós estamos aqui. Que visão de Igreja podemos seguir?”.
Você disse uma palavra muito importante, que identifica o sofrimento da Igreja neste momento: a tentação de voltar atrás. Sofremos isso hoje na Igreja: a ideologia do voltar atrás. É uma ideologia que coloniza as mentes. É uma forma de colonização ideológica. Não é um problema realmente universal, mas bastante específico das Igrejas de alguns países. A vida nos assusta. Repito algo que já disse ao grupo ecumênico que encontrei aqui antes de vocês: a liberdade nos assusta. Em um mundo que está assim condicionado pelas dependências e pela virtualidade, nos causa medo ser livres.
No encontro anterior, usei como exemplo O Grande Inquisidor de Dostoiévski: ele encontra Jesus e lhe diz: “Por que você deu a liberdade? É perigosa!". O inquisidor censura Jesus por nos ter dado a liberdade: teria bastado um pouco de pão e nada mais. É por isso que hoje voltamos ao passado: para buscar seguranças. Assusta-nos celebrar perante o povo de Deus que nos olha na cara e nos diz a verdade. Assusta-nos ir em frente nas experiências pastorais.
Um problema que identifica o sofrimento da Igreja neste momento: a tentação de voltar atrás. Sofremos isso hoje na Igreja: a ideologia do voltar atrás. É uma ideologia que coloniza as mentes. É uma forma de colonização ideológica – Papa Francisco
Penso no trabalho que foi feito - o Padre Spadaro estava presente - no Sínodo sobre a família para entender que os casais em segunda união ainda não estão condenados ao inferno. Assusta-nos acompanhar pessoas com diversidade sexual. Assusta-nos as encruzilhadas dos caminhos de que falava Paulo VI. Este é o mal deste momento. Buscar o caminho na rigidez e no clericalismo, que são duas perversões. Hoje acredito que o Senhor está pedindo à Companhia para ser livre, com oração e discernimento. É uma época fascinante, de um encanto belo, mesmo que fosse o da cruz: belo para levar adiante a liberdade do Evangelho. A liberdade! Esse voltar atrás, vocês o podem viver em sua comunidade, em sua Província, na Companhia. É preciso estar atentos e vigilantes. O meu não é um elogio à imprudência, mas quero sinalizar que voltar atrás não é o caminho certo. Certo é ir em frente no discernimento e na obediência.
Um jesuíta pergunta como ele vê a Companha hoje. Fala de uma certa falta de fervor, de uma vontade de buscar seguranças em vez de ir às encruzilhadas, como pedia Paulo VI, porque não é fácil.
Não, certamente não é fácil. Mas quando se sente que falta fervor, deve-se fazer discernimento para entender o porquê. Você tem que falar sobre isso com seus irmãos. A oração ajuda a entender se e quando há falta de fervor. É preciso falar disso com os irmãos, os superiores e depois fazer um discernimento para verificar se é uma desolação só sua ou uma desolação mais comunitária. Os Exercícios nos dão a oportunidade de encontrar respostas para perguntas como esta. Estou convencido de que nós não conhecemos bem os Exercícios. As anotações e as regras do discernimento são um verdadeiro tesouro. Precisamos conhecê-las melhor.
Um dos presentes recordou que o Papa fala muitas vezes das colonizações ideológicas que são diabólicas. Faz referência, entre outras, àquela do "gênero".
A ideologia sempre tem o fascínio diabólico, como você diz, porque não é encarnada. Neste momento vivemos uma civilização de ideologias, isso é verdade. Temos que desmascará-las na raiz. A ideologia do "gênero" de que você fala é perigosa, sim. Pelo que entendi, é perigosa porque é abstrata no que diz respeito à vida concreta de uma pessoa, como se uma pessoa pudesse decidir abstratamente ao seu gosto se e quando ser homem ou mulher. A abstração, para mim, é sempre um problema. Isso não tem nada a ver com a questão homossexual, veja bem. Se existe um casal homossexual, podemos fazer pastoral com eles, avançar no encontro com Cristo. Quando falo da ideologia, falo da ideia, da abstração para a qual tudo é possível, não da vida concreta das pessoas e da sua situação real.
Um jesuíta agradece ao Papa por suas palavras dedicadas ao diálogo judaico-cristão.
O diálogo continua. Devemos absolutamente evitar que haja interrupções, que o diálogo seja rompido, seja interrompido por mal-entendidos, como às vezes acontece.
Um dos participantes fala ao Papa sobre a situação da Igreja eslovaca e as tensões internas. Alguns até veem o senhor como heterodoxo, outros o idealizam. Nós jesuítas - afirma ele - tentamos superar essa divisão. E pergunta: "Como o senhor lida com pessoas que o veem com suspeita?"
Por exemplo, há uma grande rede de televisão católica que constantemente fala mal do Papa sem ter problemas. Eu, pessoalmente, posso merecer ataques e insultos porque sou um pecador, mas a Igreja não merece isso: é obra do diabo. Eu também o disse a alguns deles.
Sim, também existem clérigos que fazem comentários maldosos sobre mim. Às vezes, falta-me paciência, especialmente quando proferem juízos sem entrar em um verdadeiro diálogo. Ali eu não posso fazer nada. No entanto, sigo em frente sem entrar em seu mundo de ideias e fantasias. Não quero entrar nisso e é por isso que prefiro pregar, pregar ... Alguns me acusaram de não falar da santidade. Dizem que sempre falo do social e que sou um comunista. Mesmo assim, escrevi uma Exortação Apostólica inteira sobre a santidade, a Gaudete et Exsultate.
Em um mundo que está assim condicionado pelas dependências e pela virtualidade, nos causa medo ser livres – Papa Francisco
Agora espero que, com a decisão de interromper o automatismo do rito antigo, possamos voltar às verdadeiras intenções de Bento XVI e de João Paulo II. Minha decisão é fruto de uma consulta a todos os bispos do mundo feita no ano passado. A partir de agora, quem quiser celebrar com o vetus ordo deve pedir permissão a Roma, como é feito com o biritualismo. Mas há jovens que depois de um mês de ordenação vão ao bispo para pedi-lo. Este é um fenômeno que indica que se vai para trás.
Um cardeal me disse que dois padres recém-ordenados o procuraram pedindo para estudar latim para celebrar bem. Ele, que tem senso de humor, respondeu: “Mas há tantos hispânicos na diocese! Estudem espanhol para poder pregar. Então, quando vocês tiverem estudado espanhol, voltem a mim e eu lhes direi quantos vietnamitas há na diocese, e lhes pedirei para estudar vietnamita. Depois, quando vocês tiverem aprendido vietnamita, vou dar-lhes a permissão para estudar também o latim”. Assim ele os fez "aterrissar", os fez voltar para a terra. Eu vou em frente, não porque quero fazer uma revolução. Eu faço o que sinto que devo fazer. É preciso muita paciência, oração e muita caridade.
Um jesuíta fala do medo generalizado dos refugiados.
Acredito que os migrantes devem ser acolhidos, mas não só: é preciso acolher, proteger, promover e integrar. São necessários todos esses quatro passos para realmente acolher. Cada país deve saber até onde pode fazer isso. Deixar os migrantes sem integração é deixá-los na miséria, equivale a não os acolher. Mas precisamos estudar bem o fenômeno e entender suas causas, especialmente as geopolíticas. É preciso entender o que acontece no Mediterrâneo e quais são os jogos das potências que circundam aquele mar para o controle e o domínio. E entender o porquê e quais são as consequências.
Mons Datonou, o responsável da organização da viagem, vem dizer ao Papa que é hora de ir embora. Francisco olha para o relógio e está se levantando para se despedir quando um jesuíta lhe diz: “Santo Padre, uma última coisa: Santo Inácio diz que devemos sentir e saborear as coisas internamente. O jantar o aguarda. Saboreie algo da cozinha eslovaca!”. O Papa ri e diz que verá o que prepararam para o jantar.
Fotos são tiradas. O grupo é grande e por isso os jesuítas são divididos por comunidade e cada uma tira uma foto com Francisco. O encontro termina com um "Ave Maria" e a bênção final.
Buscar o caminho na rigidez e no clericalismo, que são duas perversões. Hoje acredito que o Senhor está pedindo à Companhia para ser livre, com oração e discernimento – Papa Francisco
Em 14 de setembro, houve um segundo, breve encontro com os jesuítas em Prešov, logo após a celebração da Divina Liturgia. De fato, Francisco, a convite de um jesuíta que encontrou na Nunciatura de Bratislava, visitou o pessoal da casa de Exercícios espirituais que não podia participar da celebração porque estava ocupado na preparação da hospedagem para os bispos presentes. No final, Francisco cumprimentou de pé, no pórtico, também os jesuítas que compõem a comunidade local.
Fonte. IHU
22 setembro, 2021
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21 setembro, 2021
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20 setembro, 2021
Para refletir
Paulo Freire, o educador dos esfarrapados do mundo
17 setembro, 2021
Livro apresenta e interpreta a categoria trabalho nos clássicos da sociologia: Marx, Durkheim e Weber
O capitalismo, o maior evento da modernidade, tem no trabalho o seu centro disruptivo e normativo. O que pode parece ser um paradoxo, disruptividade versus normatividade, caracteriza na verdade a potência do trabalho e o seu caráter (des)organizador e transformador da vida individual e coletiva. Há uma tríade de autores que se tornaram uma referência na decifração e interpretação do lugar da função social do trabalho no capitalismo. São eles: Marx, Durkheim e Weber.
Esse é o tema central do livro O trabalho nos clássicos da sociologia: Marx, Durkheim e Weber de autoria de Cesar Sanson, professor do departamento de Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN e colaborador do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Obra recém lançada pela editora Expressão Popular em co-edição com a editora da UFRN
Na obra, o autor destaca que Marx, Durkheim e Weber viveram a explosão e o amadurecimento da Revolução Industrial. O chamejar noturno das chaminés, o trepidar incessante das máquinas, a urbanização acelerada e a agitação das multidões operárias vergaram o feudalismo. Foi nessa sociedade, em acelerada mudança, carregada de contradições, que Marx, Durkheim e Weber viveram e por ela foram interpelados. Há uma inquietação vibrante nesses autores em decifrar a essência desse novo período histórico que se inaugura e abole, de forma devastadora, o que se conhecia anteriormente.
O livro tem como objetivo central introduzir a compreensão que cada um dos autores tem sobre o trabalho nessa nova sociedade que se inaugura de forma avassaladora. Destacamos aqui alguns insights da obra.
Marx anuncia mais de uma vez que “a moderna produção burguesa é, de fato, o nosso verdadeiro tema” (MARX, 2011, p. 41) [1]. Weber afirma que o capitalismo é “a mais fatídica potência da nova vida moderna” (WEBER, 2020, p. 10) [2] e dedica-se intensamente à compreensão desse acontecimento histórico. Durkheim, por sua vez, também se interessa pelo enigma proposto pela modernidade expandida pelo capitalismo: “Como é que, ao mesmo passo que se torna mais autônomo, o indivíduo depende mais intimamente da sociedade? Como pode ser, ao mesmo tempo, mais pessoal e mais solidário? (...) É este o problema que nos colocamos” (DURKHEIM, 2019, p. L) [3].
Marx se dá conta que, nessa nova sociedade, o trabalho foi elevado à condição de centro organizador da vida individual e coletiva. Percebe que a Revolução Industrial empurrou todos – homens, mulheres, jovens e crianças – ao trabalho sem tréguas e transformou aquela em uma sociedade do trabalho. Doravante, o sentido da vida se faz dentro dessa sociedade do trabalho. Não existe mais exterioridade, tudo concerne e converge ao trabalho. As relações sociais que se constroem, as expectativas que se adquirem, as contradições que emergem, a emancipação que se busca, o olhar de mundo que se tem fazem-se no e a partir do trabalho. Ainda mais: o trabalho, na obra marxiana, ocupa um lugar central para desvendar as entranhas do funcionamento do capitalismo. Em sua obra maior, O Capital, Marx descreve como o modo produtivo capitalista, organizado heteronomamente, esconde os seus dois grandes segredos: a produção do mais-valor e a fetichização da vida social.
A importância que o trabalho assume nessa nova sociedade também não é despercebida por Durkheim. Embora o trabalho não assuma, na obra durkheimiana, a centralidade com que se apresenta em Marx, e tenha outra significação, também nele desempenha papel chave no construto de sua teoria social. Em Da Divisão do Trabalho Social, uma das suas mais referenciadas obras, ao interpretar a modernidade, naquilo por ele denominado de sociedade da “solidariedade orgânica”, apresenta uma sociedade em que a divisão do trabalho social serve não apenas para a fruição da vida material, mas, sobretudo, é a base moral que possibilita a convivência humana. Em Durkheim, é o trabalho numa sociedade industrializada, urbana e eivada de tensões sociais que cria as condições para uma mínima coesão social.
Em Weber, por sua vez, o trabalho assume relevância na medida em que o autor percebe que este contribui para a resposta da questão maior de sua inquietação intelectual: a compreensão da racionalidade que conforma o capitalismo em sua experiência única no Ocidente. Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Weber desenvolve uma tese bastante original: a de que o capitalismo é marcado por um “espírito”, um “ethos” originário da Reforma Protestante que exorta as pessoas ao trabalho acerbo, devotado e infatigável como única forma de alcançar a Salvação. É essa concepção espiritual do trabalho que constitui determinada ética profissional que favorecerá o desenvolvimento do capitalismo ocidental e sua singular racionalidade.
Nos autores, em comum, cada um ao seu modo, o trabalho apresenta-se como categoria relevante para a compreensão da vida social. Em uma aproximação aligeirada, vis-à-vis ao capital, em Marx o trabalho é o substrato de sua economia; em Durkheim, é a essência de normatização social e, em Weber, a sua legitimação racional-cultural.
O texto da obra, recém lançada, se orienta pela descrição e interpretação da categoria trabalho nos clássicos e utiliza-se do recurso de transcrição das obras dos próprios autores seguido do argumento interpretativo como auxílio à contextualização e compreensão da escrita dos autores.
No livro, ao final das chaves de leitura da categoria trabalho em cada autor, há dois tópicos comuns a todos eles, a saber: o lugar que a categoria trabalho ocupa em seu método e a sua contribuição, a partir do método, para a compreensão do trabalho hoje. O autor do livro pretende uma hermenêutica que procura responder à seguinte questão: o que pensariam esses autores da sociedade do trabalho hoje? Como conclusão da obra, o autor empreende um esforço em articular um possível diálogo entre os clássicos tendo a categoria trabalho como referência.
A obra tem como público-alvo todos que se interessam pelo tema do trabalho, porém, os professores que lecionam Sociologia e os estudantes de graduação da área de humanas são os destinatários principais.
Notas
1 – MARX, Karl. Grundrisse. Manuscritos econômicos de 1857-1858. Esboços da crítica da economia política. São Paulo: Editora Boitempo, 2011.
2 – WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Petrópolis-RJ: Editora Vozes, 2020.
3 – DURKHEIM. Émile. Da Divisão do Trabalho Social. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2019.
16 setembro, 2021
Papa Francisco: “Vacinas, há negacionistas até entre os cardeais. Matrimônio só homem-mulher, mas uniões civis homoafetivas possíveis”
A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada por Il Messaggero, 15-09-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.
Matrimônio homoafetivo
“O matrimônio é só entre um homem e uma mulher: é um sacramento e a Igreja não tem o poder de mudar os sacramentos como os Senhor os instituiu. Mas existem leis civis que tentam ajudar a situação de muitas pessoas de diferentes orientações sexuais. É importante ajudar as pessoas, mas sem impor coisas que, por sua natureza, não cabem na Igreja”. O Papa também deu o exemplo da lei francesa sobre os Pacs, em sua opinião aceitável com uma condição: “sem que isso tenha a ver com o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo: podem usá-los, mas o matrimônio como sacramento é homem-mulher”. Mais ainda. “Eu falei claramente: o matrimônio é um sacramento e a Igreja não tem o poder de mudar os sacramentos como o Senhor os instituiu. Existem leis civis que tentam ajudar a situação de muitas pessoas de diferentes orientações sexuais. É importante que sejam ajudados, mas sem impor coisas que na igreja por sua natureza não cabem. Se duas pessoas homossexuais querem viver juntas, os Estados têm a possibilidade civil de apoiá-la, para lhes dar segurança de herança e saúde. Mas o matrimônio é matrimônio e não significa condená-los, por favor, são irmãos e irmãs e devemos acompanhá-los, mas é claro, o matrimônio é homem e mulher, devemos respeitar a todos, mas a igreja não pode renegar a sua verdade. Muitos se aproximam para pedir conselhos aos sacerdotes que os ajudem a seguir em frente com sua vida”.
Biden
Papa Francisco reiterou que nada mudou para a Igreja: o aborto continua sendo "um homicídio". E acrescentou que é como "contratar um assassino para resolver um problema". No entanto, na tempestade que foi levantada por tantos bispos estadunidenses que se recusam a dar a comunhão aos políticos que defendem a possibilidade de escolha das mulheres, o Papa especifica: “os bispos devem agir como pastores: na história da Igreja, sempre que o os bispos lidaram com um problema não como pastores, tomaram partido no lado político”. Para o Papa, a comunhão “não é um prêmio para os perfeitos, a comunhão é um dom, um presente, a presença de Jesus na Igreja e na comunidade. Além disso, quem não está na comunidade não pode comungar porque está fora da comunidade, não foi batizado ou se afastou”.
Vacinas
O Papa Francisco lastimou que também existem antivax no Vaticano. “Até no colégio cardinalício há negacionistas e um destes, coitado, está hospitalizado com o vírus... ironia da vida”, referindo-se ao cardeal Raymond Burke, internado na UTI. Em seguida, repetiu que "vacinar-se é um ato de amor" e os cristãos devem levar isso em consideração.
Antissemitismo
No voo, o Papa recebeu uma mensagem da escritora judia que sobreviveu ao Holocausto, Edith Bruck (“Amado Papa Francisco, as Suas palavras sobre o antissemitismo nunca erradicado hoje são mais atuais que nunca, não só nos países que está visitando, mas em toda a Europa. Espero que a Sua visita tenha algum efeito positivo”). Francisco balançava a cabeça concordando: “É verdade, o antissemitismo está na moda, está ressurgindo. É algo ruim".
Orbán
No encontro em Budapeste com o primeiro-ministro húngaro, ele disse que falou sobre muitas coisas, mas que nunca abordou o tema dos migrantes. “O primeiro tema foi a ecologia, palmas para os húngaros, que tem realmente uma consciência ecológica muito grande. Depois perguntei sobre a idade média, estou preocupado com o inverno demográfico. Na Itália a média é de 47 anos e acredito que na Espanha seja ainda pior, tantos vilarejos estão vazios, é uma preocupação séria. O presidente explicou-me a lei para ajudar os jovens casais com os filhos. Nada se falou sobre a imigração. Falamos de família, no sentido de se vê que há muitos jovens, muitas crianças, mesmo na Eslováquia. Agora o desafio é procurar emprego para que não saiam à procura de trabalho. Foi um clima bom, durou uns 50 minutos”.
Fonte: IHU
14 setembro, 2021
De Mauro Morelli a Francisco: por uma igreja sinodal
"Esperemos que, ao final do Sínodo, o laicato, homens e mulheres, possam ser incluídos em muitos processos decisórios. Que não se venha com a afirmação verdadeira, mas não completa, de que cabe ao leigo e a leiga o 'mundo' e que eles e elas devem deixar todo o resto para os ministros ordenados. Ninguém tem duvida que desde a Constituição Pastoral Gaudium et Spes que o campo principal de atuação do laicato é a sociedade civil", escreve Celso Pinto Carias, doutor em Teologia pela PUC-Rio, assessor das CEBs do Brasil e do Setor CEBs da Comissão Pastoral Episcopal para o Laicato da CNBB e, nas palavras do autor, "um mendigo de Deus".
Eis o artigo.
Introdução
Desde o início do pontificado de Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, a dinâmica de uma Igreja Sinodal foi reaparecendo. Então, quando ele convoca o Sínodo Geral sobre a sinodalidade que terá o seu cume em outubro de 2023, ficou evidente a sua pretensão em retomar com vigor a eclesiologia do Concílio Vaticano II.
Um pontificado que já vinha me animando muito no serviço eclesial me deixou ainda mais entusiasmado, pois tive a graça de viver a dinâmica de uma Igreja Sinodal por 23 anos, em Duque de Caxias, RJ, quando outro bispo, Dom Mauro Morelli, tomou posse em 1981 de uma nova diocese que surgia na Baixada Fluminense.
O que é surpresa para muitos católicos do mundo, não é surpresa para quem viveu, por muito tempo, a graça de uma Igreja com comunhão e participação de todo Povo de Deus. E sabemos que outras dioceses do Brasil e da América Latina também viveram experiências semelhantes.
A intenção desta narrativa é fazer uma memória reflexiva do caminho realizado na Diocese de Caxias em sintonia, na medida do possível, com outras perspectivas que confirmam a necessidade de uma Igreja Sinodal. Neste sentido, é fundamental nos colocarmos em comunhão com Francisco para aprofundar a sinodalidade como uma perspectiva estrutural da Igreja. Mas sem ilusões. Sabemos que não será fácil, pois há interesses contrários em jogo. Como diz um sábio padre argentino meu amigo, Juan Angel, vamos tentar colocar o pé na porta para ela não mais se fechar.
Primeiramente vamos recordar brevemente como foi em Caxias. Depois traremos alguns elementos que possibilitam afirmar tradicional, teológica, e evangelicamente, que Caminhar Juntos (Sínodo) não é um mero complemento a eclesiologia do Concílio Vaticano II. Porém, faremos isso de modo sintético e narrativo, pois do pós-concílio até hoje existe ampla bibliografia e experiência que demonstram o fundamento de tal perspectiva. Certamente, nos próximos meses, muita gente competente vai escrever sobre o assunto. Já têm surgido bons trabalhos. Mas esta reflexão tem também um caráter de clamor. Não dá mais para ser tratado como súdito na Igreja.
1. Diocese de Duque de Caxias e São João de Meriti: uma experiência sinodal
Em 12 de julho de 1981, com a instalação da Diocese, inicia-se também o ministério pastoral do 1º Bispo: Dom Mauro Morelli. Depois de um ano de escuta ele propõe o Sínodo Diocesano: “Desde o começo percebemos que somos chamados a viver unidos. Para isso precisamos nos conhecer, estudar juntos, conversar, trocar experiências e, principalmente rezar. A Unidade é um dom, mas também um conquista” (Caderno sobre Sínodo publicado em 15 de agosto de 1982). Este Caderno é uma relíquia que mereceria ser publicado integralmente. Faremos somente alguns destaques.
A caminhada sinodal foi iniciada com a eleição de uma equipe de coordenação formada por padres, religiosas e leigos/as. Na celebração de Pentecostes, 30 de maio de 1982, com representação de todas as comunidades diocesanas o Sínodo foi iniciado oficialmente.
Duas razões de fundo foram apresentadas para justificar a convocação sinodal:
a) Descobrir o rosto, a voz e o jeito de nossa Igreja em sintonia com três acontecimentos eclesiais de enorme importância: O Concílio Vaticano II, Conferência de Medellin e a Conferência de Puebla.
b) Estudar a realidade (Problemas e sofrimentos de nossa vida, de nossa gente e de nossas cidades) e iluminados pelo Evangelho, definir o que faremos juntos com outras religiões e pessoas amantes da justiça – para contribuir com uma sociedade mais humana e justa.
A partir de então o Sínodo foi se realizando através de um amplo processo de participação de todas as forças vivas da diocese. Foram produzidos materiais que pudessem chegar às mãos dos/as servidores/as mais simples das comunidades. Sem telefone celular e muito menos internet, foi garantida uma estrutura que possibilitou a escuta de muita gente e não apenas de representantes. Reuniões e encontros que passavam por Assembleias Comunitárias até Assembleias Diocesanas. Em palestra proferida em 27 de julho de 1982, no encontro de preparação ao Sínodo, Dom Mauro destaca: “A comunidade é o lugar mais importante para realizar e viver o Sínodo. Nas comunidades é que se forma testemunhas de Cristo. De comunidades vivas e fortes, partem missionários e evangelizadores. Será na procura sincera de todos os membros das comunidades que descobriremos a vontade de Deus a nosso respeito” (Caderno Sínodo, p. 12).
Depois de muita reflexão, idas e vindas em busca do melhor caminho, Dom Mauro promulga o primeiro documento sinodal: “Batismo na vida e na missão da Igreja – Diretrizes pastorais para o batismo de crianças”, em 25 de dezembro de 1986. Entre os pontos de apresentação do documento destacamos o número 3: “Pelo batismo temos a mesma dignidade. De acordo com os dons recebidos e realizando tarefas diferentes, devemos viver a responsabilidade própria de cada um e de todos os batizados”. E 30 anos depois, em carta apostólica dirigida ao Cardeal Marc Oullet, o Papa Francisco diz absolutamente a mesma coisa: “O primeiro sacramento, que sela para sempre a nossa identidade, e do qual deveríamos ser sempre orgulhosos, é o Batismo... Ninguém foi batizado sacerdote nem bispo. Batizaram-nos leigos e é o sinal indelével que jamais poderá ser apagado”. (Documentos da Igreja – 31 – CNBB, p.12)
Em 1988, outro documento vai orientar o caminho eclesial na diocese: “Em Assembleia Sinodal, com a participação de 500 delegados das Comunidades, religiosas e pastores, aprovamos o documento: Comunhão, Co-responsabilidade e Coordenação Pastoral da Igreja em Duque de Caxias e São João de Meriti”. E vejam como fui intitulado o Sínodo que começará em outubro de 2021: «Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão». Interessante, não?
Na apresentação do documento Dom Mauro insiste: “Queremos ser uma Igreja de Comunidades. Uma Igreja clerical ou laicizada não corresponde aos nossos anseios e aos apelos do Espírito, menos ainda poderá testemunhar a Ressurreição do Senhor e contribuir para a libertação do Povo” (Caderno publicado pelas Edições Loyola, p. 9). Este documento sofreu uma pequena revisão feita pelo segundo bispo: Dom José Francisco Resende Dias, em 2009, mas sem nenhuma mudança substancial.
A síntese aqui apresentada não permite discorrer quanto à imensa riqueza destes anos. Outros processos foram estabelecidos, como a questão da catequese, chegando também à produção de um documento. Porém, não foi possível, antes de terminar o pastoreio de Dom Mauro, enraizar o que seria, possivelmente, o ápice do processo sinodal, isto é, o “Plano Diocesano de Comunhão e Administração de Bens”. A questão dos bens é um nó, sem dúvida, para a Igreja como um todo. E somente em uma Igreja Sinodal será possível viver o que está nos Atos dos Apóstolos: “Os cristãos tinham tudo em comum” (At 2, 42-47).
A memória do que foi vivido em Duque de Caxias e São João de Meriti nos permite agora acolher a convocação do Papa Francisco com grande esperança. Porém, será necessário participar ativamente do processo, trazendo uma fundamentação que nos permita concluir que a sinodalidade não é apenas uma metodologia, mas elemento fundamental da própria estrutura eclesial. Vamos então, recordar alguns traços que será exigido de nós neste período sinodal até 2023.
2. “Queremos ser uma Igreja de irmãos”
Este título é uma frase contida na “Oração pelo Sínodo Diocesano” composta por Dom Mauro: “Queremos ser uma Igreja de irmãos, presença nova do Cristo –pastor na Baixada Fluminense”. Rezamos muitas vezes essa oração em nossas reuniões e encontros.
Será que desejamos ser, de fato, uma Igreja de irmãos e irmãs como um todo, ou vamos procurar subterfúgios para justificar apenas posições de poder autoritário e de privilégios materiais? Será que seremos capazes de não apenas ampliar mecanismos de consulta, mas de real compromisso com a participação de todo Povo de Deus?
O Concílio Vaticano II foi chamado por muitos de volta às fontes. E de fato é. Precisaremos, com persistência, lembrar que não se trata de algo absolutamente novo, mas de fidelidade ao Caminho. Seguidores do Caminho, assim os/as primeiros/as que tiveram a graça de encontrar o Senhor se chamavam. Sempre gosto de lembrar isso. E agora o Documento Preparatório para o Sínodo evidencia esta realidade com força.
O Documento Preparatório (DP), lançado dia 07 de setembro do corrente ano, “Para uma Igreja Sinodal: comunhão, participação e missão”, será um guia imprescindível para esta jornada. Ele é uma síntese que consegue, em poucas páginas, resgatar o essencial. Indica também para a leitura o Discurso na Comemoração do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos, pronunciado pelo Papa Francisco no dia 17 de outubro de 2015, e o documento A sinodalidade na vida e na missão da Igreja, elaborado pela Comissão Teológica Internacional e publicado em 2018.
O processo sinodal instalado por Dom Mauro foi, muitas vezes, acusado de prestigiar o laicato em detrimento do clero. Uma crítica absolutamente injusta. O que o irmão Morelli desejava era uma Igreja toda ela ministerial. Em uma Igreja assim há espaço e importância para todos, e todas também, que desejam seguir, sinceramente, o Caminho de Jesus Cristo. O “e todas também” é apenas para lembrar que no interior do laicato são as mulheres ainda mais marginalizadas no exercício da ministerialidade, e por razões antropológicas e não teológicas. Chega a ser cômico negar ministérios as mulheres lembrando o fato de que Jesus de Nazaré foi um homem e não uma mulher.
Há ainda algo que também começa a ser ressaltado nas primeiras reflexões do processo sinodal. Trata-se de acentuar a dimensão da colegialidade episcopal como o principal conteúdo do processo. Sim, de novo, inegavelmente sínodos são instrumentos de aperfeiçoamento da colegialidade. Contudo, tal realidade deve ser exercida como Povo de Deus. Muitos insistem em afirmar que a Igreja não é uma democracia. No entanto, mesmo não sendo uma democracia, nada impede que exista um método democrático de governar. Este método na Igreja se chama sinodalidade. O DP faz uma observação muito interessante quando começa a explicar o processo prático do Sínodo: “o seu objeto – a sinodalidade – é também o seu método”. A colegialidade precisa ser reflexo deste método. O episcopado não pode se tornar uma espécie de câmara dos senadores romanos que decidem por sua conta e risco. Lembrando o episódio entre Pedro e Cornélio (At 10) o documento narra como Pedro tenta refutar o próprio Deus: “De modo algum, Senhor” (At 10,14). A lógica de Pedro não era inclusiva. Muito interessante, nunca tinha me dado conta de tal interpretação. Há muito disso ainda na vida eclesial: pessoas que querem se colocar no lugar de Deus. Como tem dito frequentemente o Papa Francisco, podem fazer da Igreja uma alfandega, sempre prontos pra fiscalizar erros, e não a Casa do Acolhimento.
Por último, mas não finalmente, pode-se argumentar que a Tradição Eclesial, ao longo da história, foi aperfeiçoando a doutrina, e, portanto, é preciso ter atenção para isso. E, nesta direção, as normas devem ser seguidas para evitar que a unidade seja maculada por ideologias ou mesmo por interesses escusos. O que também tem todo o fundamento. Mas qual o critério de fundo para elaborar e interpretar leis? Vamos pontuar alguns elementos.
3. O que salva é o AMOR e não a lei
Não há dúvida alguma que Jesus Cristo colocou o AMOR como norteador da interpretação da Lei. Isto não significa dizer que o Nazareno foi um anarquista. Não, Ele era um bom judeu. No entanto, quis revelar o principio fundamental que regula todo comportamento, isto é, a inclusão e a defesa da vida. O “era dia de sábado” é repetido muitas vezes nos Evangelhos justamente para afirmar que o ato de amor, feito por Jesus, ou por qualquer pessoa, não pode ser bloqueado pela Lei. Em Mc 3,1-6, narrativa onde o Cristo cura no dia de sábado, o último versículo termina com o desejo que os inimigos dele passaram a ter de um dia mata-lo, o que acabou acontecendo. O DP lembra que não assumir a perspectiva inquietadora da cruz é um sinal evidente daquele que divide os caminhantes. Não querer caminhar juntos é demoníaco.
Neste sentido, o risco de instrumentalizar o Código de Direito Canônico (CIC) para a manutenção dos interesses que buscam a autorreferencialidade é grande. O meu professor de direito, o Pe. Antônio da Silva Pereira, já falecido, dizia que só se pode interpretar as normas do Código com a eclesiologia do Vaticano II na mente e no coração. Um pouco antes de morrer conseguiu publicar um livro que todos os batizados deveriam ler: “Participação dos leigos nas decisões da Igreja Católica”, Edições Loyola, PUC-Rio, 2014.
Muitos empunharão o CIC nas mãos e tentarão dizer que isso ou aquilo não é possível porque está na lei. A lei é necessária, pois somos pecadores. Mas ela não pode ser instrumento de opressão. Um conhecido de uma determinada diocese do Brasil me contou que um padre jovem, recém-empossado como pároco, na primeira reunião do Conselho Paroquial, trouxe o livro do CIC, colocou sobre a mesa e disse: “Quem manda aqui sou eu, este livro me autoriza”.
Pe. Pereira, depois de uma exaustiva análise de textos canônicos, conclui: “Ressalto que essa participação nas decisões com voto deliberativo nem teológica nem juridicamente põe em risco a autoridade da Igreja e de seus pastores, como ficou demonstrado em vários lugares deste volume e na minha tese de doutorado devidamente aprovada pela banca de professores da Gregoriana e que cito na bibliografia geral.” (p. 176).
Esperemos que, ao final do Sínodo, o laicato, homens e mulheres, possam ser incluídos em muitos processos decisórios. Que não se venha com a afirmação verdadeira, mas não completa, de que cabe ao leigo e a leiga o “mundo” e que eles e elas devem deixar todo o resto para os ministros ordenados. Ninguém tem duvida que desde a Constituição Pastoral Gaudium et Spes que o campo principal de atuação do laicato é a sociedade civil. Mas também não é possível retirar de leigos e leigas a missão de cooperar com o caminho evangelizador por dentro da Igreja, pois pelo batismo todos temos parte na missão, na Igreja e no mundo (Lumen Gentium, 76).
Conclusão
É lamentável que bispos eméritos não possam ter uma participação mais efetiva na vida da Igreja. Dom Mauro este mês completa 86 anos. Se não fosse pela distância e pela pandemia, teria encontrado com ele mais vezes, pois toda vez que isso acontece recebo uma injeção de esperança. Ele poderia muito bem contribuir com este Sínodo.
Do mesmo modo o Papa Francisco, que fará 85 anos em dezembro, é um grande sinal de esperança. Quando terminei de ler a Evangelli Gaudium – A alegria do Evangelho, escrevi abaixo de sua assinatura: obrigado. Gostaria muito de poder dar um abraço nele, mas sou um modesto teólogo periférico. Quem sabe algum amigo não faz chegar a ele esta narrativa (rs).
Há um longo caminho a ser trilhado que não terminara em 2023 com as conclusões do Sínodo sobre a sinodalidade. Contudo, citando o Papa Francisco, por favor, “Não deixemos que nos roubem a esperança” (EG, 86). Repito: não nos trate como súditos ou como bebês que não podem comer alimento sólido.
Poucos são os bispos com os quais converso hoje em dia sem medo, pois é preciso medir as palavras para não ser mal interpretado. Não há problema em ser corrigido. Tem uma situação acontecida entre mim e Dom Luciano Bergamin, bispo emérito da Diocese de Nova Iguaçu, que guardo com muito carinho. Ele é um bispo que não tenho medo de conversar. Em palestra ao Conselho de Leigos de sua diocese, fiz uma observação crítica, e isso faz tempo, aos canais de TV de inspiração católica e mencionei a reza do terço no mesmo horário em todos os canais, dizendo que parecia haver uma concorrência entre eles. Então, depois ele me chamou num canto e pediu esclarecimento, pois entendeu que eu estava falando mal da reza do terço. Mas fez o questionamento com muito carinho e sem tom ameaçador. Esclareci. Muitas vezes voltei à diocese para prestar assessoria sem nenhum problema. Um verdadeiro irmão. É isso.
Não tratamos aqui da Assembleia Eclesial Latino Americana e do Caribe que está em processo. Fomos convidados, enquanto Povo de Deus, para participar da escuta, por sinal, com pouca participação do Brasil. A Assembleia será de 21 a 28 de novembro de 2021. Devemos estar atentos e atentas, pois é parte integrante do caminho sinodal pensado por Francisco.
Nesta caminhada seria muito importante que outras dioceses no Brasil e na América Latina, quiçá no mundo, também narrassem processos sinodais feitos depois do Concílio Vaticano II. Além de Caxias, tenho ciência de algumas. Cito apenas as que pude ter algum tipo de contato, com maior ou menor intensidade: as dioceses de Nova Iguaçu, Volta Redonda e Barra do Piraí, por certo tempo Itaguaí e Friburgo, no regional Leste 1, RJ. Tive a graça de conhecer um pouco a diocese de Chapecó em SC, Crateús no CE, e a Prelazia de São Feliz do Araguaia no MT. Mas muitas outras realizaram algum tipo de caminhada sinodal.
Pessoas como eu e tantas outras, talvez não sejam consideradas testemunhos legítimos na constatação da riqueza eclesial destes processos. Mas olhando com esperança para o futuro, sem lamentações ou saudosismo, precisamos abrir novos caminhos. Não por um modismo do tempo, mas porque se faz necessário responder aos novos desafios de um mundo em crise civilizatória. Meu mantra nas últimas duas décadas tem sido: “chega de dar respostas velhas a perguntas novas”.
Repitamos, com insistência, a Oração do Sínodo Diocesano de Caxias, quem sabe Dom Mauro possa fazer uma adaptação para o Sínodo de agora, com a qual termino citando uma parte:
“Senhor, queremos viver no Teu amor e na fraternidade;
queremos viver, na liberdade, nossa própria vida e caminhada;
queremos ser uma terra de esperança e não de violência;
queremos caminhar rumo ao céu, construindo uma terra nova.
Abençoa nosso povo, Senhor!
Derrama sobre nossas comunidades a luz e força do Santo Espírito.
Ajuda nossa Igreja a viver o Sínodo
como tempo de descoberta e de crescimento na Fé,
tempo de participação e de compromisso,
tempo de comunhão e de missão.
Queremos ser uma Igreja de irmãos,








