08 maio, 2020

Que nosso Deus abençoe todas as Mães e a minha Santa Mãezinha e as demais Mães que voltaram para Ele a graça da Ressurreição

A escolha de vida de uma mãe é a escolha de dar a vida. E isto é grande, é bonito.

"As mães são o antídoto mais forte contra o propagar-se do individualismo egoísta. «Indivíduo» quer dizer «que não se pode dividir». As mães, ao contrário, «dividem-se», a partir do momento que hospedam um filho para o dar à luz e fazer crescer. São elas, as mães, que mais odeiam a guerra, que mata os seus filhos.

Muitas vezes pensei naquelas mães quando receberam uma carta:

 «Digo-lhe que o seu filho morreu em defesa da pátria…». Pobres mulheres! Como sofre uma mãe! São elas que testemunham a beleza da vida. O arcebispo Oscar Arnulfo Romero dizia que as mães vivem um «martírio materno». Na homilia para o funeral de um sacerdote assassinado pelos esquadrões da morte, ele disse, fazendo eco ao  Concílio Vaticano II: «Todos devemos estar dispostos a morrer pela nossa fé, ainda que o Senhor não nos conceda esta honra… Dar a vida não significa somente ser assassinado; dar a vida, ter espírito de martírio, é dar no dever, no silêncio, na oração, no cumprimento honesto do dever; naquele silêncio da vida quotidiana; dar a vida pouco a pouco? Sim, como a dá uma mãe que, sem temor, com a simplicidade do martírio materno, concebe no seu seio um filho, dando-o à luz, amamentando-o, fazendo-o crescer e cuidando dele com carinho. É dar a vida. É martírio». Termino aqui a citação. Sim, ser mãe não significa somente colocar um filho no mundo, mas é também uma escolha de vida. O que escolhe uma mãe, qual é a escolha de vida de uma mãe? A escolha de vida de uma mãe é a escolha de dar a vida. E isto é grande, é bonito.

Uma sociedade sem mães seria uma sociedade desumana, porque as mães sabem testemunhar sempre, mesmo nos piores momentos, a ternura, a dedicação, a força moral. 

As mães transmitem, muitas vezes, também o sentido mais profundo da prática religiosa: 

nas primeiras orações, nos primeiros gestos de devoção que uma criança aprende, está inscrito o valor da fé na vida de um ser humano. É uma mensagem que as mães que acreditam sabem transmitir sem tantas explicações: estas chegarão depois, mas a semente da fé está naqueles primeiros, preciosíssimos momentos. Sem as mães, não somente não haveria novos fiéis, mas a fé perderia boa parte do seu calor simples e profundo. E a Igreja é mãe, com tudo isso, é nossa mãe! Nós não somos órfãos, temos uma mãe! Nossa Senhora, a mãe Igreja e a nossa mãe. Não somos órfãos, somos filhos da Igreja, somos filhos de Nossa Senhora e somos filhos das nossas mães.

Queridas mães, obrigado, obrigado por aquilo que sois na família e por que o dais à Igreja e ao mundo. E a ti, amada Igreja, obrigado por ser mãe. E a ti, Maria, mãe de Deus, obrigado por nos fazer ver Jesus. E obrigado a todas as mães aqui presentes: saudemo-las com um aplauso!"


Papa Francisco

Carta do Papa Francisco a todos os Fiéis para o Mês de Maio de 2020



Queridos irmãos e irmãs!

Já está próximo o Mês de Maio, no qual o povo de Deus manifesta de forma particularmente intensa o seu amor e devoção à Virgem Maria. Neste mês, é tradição rezar o Terço em casa, com a família; dimensão esta – a doméstica –, que as restrições da pandemia nos «forçaram» a valorizar, inclusive do ponto de vista espiritual.

Por isso, pensei propor-vos a todos que volteis a descobrir a beleza de rezar o Terço em casa, no mês de maio. Podeis fazê-lo juntos ou individualmente: decidi vós de acordo com as situações, valorizando ambas as possibilidades. Seja como for, há um segredo para bem o fazer: a simplicidade; e é fácil encontrar, mesmo na internet, bons esquemas para seguir na sua recitação.

Além disso, ofereço-vos os textos de duas orações a Nossa Senhora, que podereis rezar no fim do Terço; eu mesmo as rezarei no Mês de Maio, unido espiritualmente convosco. Junto-as a esta Carta, para que assim fiquem à disposição de todos.

Queridos irmãos e irmãs, a contemplação do rosto de Cristo, juntamente com o coração de Maria, nossa Mãe, tornar-nos-á ainda mais unidos como família espiritual e ajudar-nos-á a superar esta prova. Eu rezarei por vós, especialmente pelos que mais sofrem, e vós, por favor, rezai por mim. Agradeço-vos e de coração vos abençoo.

Roma, São João de Latrão, na Festa de São Marcos Evangelista, 25 de abril de 2020.

Francisco


 Oração a Maria

Ó Maria,
Vós sempre resplandeceis sobre o nosso caminho
como um sinal de salvação e de esperança.
Confiamo-nos a Vós, Saúde dos Enfermos,
que permanecestes, junto da cruz, associada ao sofrimento de Jesus,
mantendo firme a vossa fé.

Vós, Salvação do Povo Romano,
sabeis do que precisamos
e temos a certeza de que no-lo providenciareis
para que, como em Caná da Galileia,
possa voltar a alegria e a festa
depois desta provação.

Ajudai-nos, Mãe do Divino Amor,
a conformar-nos com a vontade do Pai
e a fazer aquilo que nos disser Jesus,
que assumiu sobre Si as nossas enfermidades
e carregou as nossas dores
para nos levar, através da cruz,
à alegria da ressurreição. Amém.

À vossa proteção, recorremos, Santa Mãe de Deus;
não desprezeis as nossas súplicas na hora da prova
mas livrai-nos de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita.


Oração a Maria

«À vossa proteção, recorremos, Santa Mãe de Deus».

Na dramática situação atual, carregada de sofrimentos e angústias que oprimem o mundo inteiro, recorremos a Vós, Mãe de Deus e nossa Mãe, refugiando-nos sob a vossa proteção.

Ó Virgem Maria, volvei para nós os vossos olhos misericordiosos nesta pandemia do coronavírus e confortai a quantos se sentem perdidos e choram pelos seus familiares mortos e, por vezes, sepultados duma maneira que fere a alma. Sustentai aqueles que estão angustiados por pessoas enfermas de quem não se podem aproximar, para impedir o contágio. Infundi confiança em quem vive ansioso com o futuro incerto e as consequências sobre a economia e o trabalho.

Mãe de Deus e nossa Mãe, alcançai-nos de Deus, Pai de misericórdia, que esta dura prova termine e volte um horizonte de esperança e paz. Como em Caná, intervinde junto do vosso Divino Filho, pedindo-Lhe que conforte as famílias dos doentes e das vítimas e abra o seu coração à confiança.

Protegei os médicos, os enfermeiros, os agentes de saúde, os voluntários que, neste período de emergência, estão na vanguarda arriscando a própria vida para salvar outras vidas. Acompanhai a sua fadiga heroica e dai-lhes força, bondade e saúde.

Permanecei junto daqueles que assistem noite e dia os doentes, e dos sacerdotes que procuram ajudar e apoiar a todos, com solicitude pastoral e dedicação evangélica.

Virgem Santa, iluminai as mentes dos homens e mulheres de ciência, a fim de encontrarem as soluções justas para vencer este vírus.

Assisti os Responsáveis das nações, para que atuem com sabedoria, solicitude e generosidade, socorrendo aqueles que não têm o necessário para viver, programando soluções sociais e econômicas com clarividência e espírito de solidariedade.

Maria Santíssima tocai as consciências para que as somas enormes usadas para aumentar e aperfeiçoar os armamentos sejam, antes, destinadas a promover estudos adequados para prevenir catástrofes do gênero no futuro.

Mãe amadíssima, fazei crescer no mundo o sentido de pertença a uma única grande família, na certeza do vínculo que une a todos, para acudirmos, com espírito fraterno e solidário, a tanta pobreza e inúmeras situações de miséria. Encorajai a firmeza na fé, a perseverança no serviço, a constância na oração.

Ó Maria, Consoladora dos aflitos, abraçai todos os vossos filhos atribulados e alcançai-nos a graça que Deus intervenha com a sua mão onipotente para nos libertar desta terrível epidemia, de modo que a vida possa retomar com serenidade o seu curso normal.

Confiamo-nos a Vós, que resplandeceis sobre o nosso caminho como sinal de salvação e de esperança, ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria. Amém.

07 maio, 2020

E se as mulheres estiverem administrando a crise do coronavírus muito melhor que os homens?

De Donald Trump a Boris Johnson, passando por Jair Bolsonaro, a liderança populista masculina demonstrou que seu estilo personalista não é do que precisamos neste momento.

A reportagem é de Miquel Echarri, publicada por El País, 06-05-2020.



Os primeiros meses de 2020 entrarão para a história como um período em que as lideranças políticas foram realmente postas à prova. Até então, muitas sociedades democráticas estavam instaladas no que Michaela Kerrissey, especialista em gestão de saúde pública da Universidade Harvard, descreve como “uma fase de pensamento mágico”, uma espécie de miragem coletiva: “Nos últimos cinco anos, assistimos a uma proliferação de líderes de competência muito duvidosa que foram escolhidos pelos radicalismo de suas pautas ideológicas e de seus estilos de comunicação”.

Kerrissey se refere a dirigentes “sem capacidade de gestão nem estatura de estadistas”, como o indiano Narendra Modi, o filipino Rodrigo Duterte, o nicaraguense Daniel Ortega e o brasileiro Jair Bolsonaro, mas também “com matizes” ao norte-americano Donald Trump, ao britânico Boris Johnson e ao mexicano Andrés Manuel López Obrador. Para ela, são os representantes de um retorno a “modelos de liderança caduca” como o do “homem providencial”.

Para o jornalista David Robson, autor do tratado de gestão estratégica The Mind Trap (“a armadilha mental”), a crise da covid-19, na hora da verdade, fez “milhões de cidadãos de todo o mundo constatarem com horror que tinham entregado aos loucos a chave do manicômio”. Robson ressalta que é difícil resistir ao feitiço das lideranças providenciais, “porque alguns deles funcionaram ou pareceram funcionar bem no passado”.

É o caso de Winston Churchill, o homem que liderou a Grã-Bretanha na Segunda Guerra Mundial. “Mas Churchill não era um ignorante nem um demagogo e, sobretudo, não era um louco”, argumenta o jornalista, “Não desprezava a evidência racional, não pretendia resolver os problemas com ideias inusitadas”. Kerrissey concorda com Robson, mas alerta que não é o momento de procurar um novo Churchill. Não é sensato nem eficaz tentar reproduzir modelos de liderança que caducaram no final do século XX. Se é para procurar um modelo histórico de liderança em circunstâncias extremas, especialistas como Dennis Perkins propõem o explorador irlandês Ernest Shackleton.


Em sua expedição à Antártida em 1914, ele e sua tripulação de 27 exploradores ficaram presos no gelo e sobreviveram a 634 dias de fome, temperaturas extremas e absoluto isolamento. Um feito formidável que se explica, segundo Perkins, “pelas excepcionais qualidades de liderança sobre um grupo humano exibidas por Shackleton”, um líder “ético e moral”, que se esforçou sobretudo para “combater o medo e a ansiedade, nunca renunciar ao pensamento racional, conservar o otimismo, construir uma cultura da tenacidade, da criatividade e da iniciativa e tratar seus colegas com respeito, afeto e empatia”.

Arjen Boin, cientista político da Universidade de Leiden (Países Baixos), tinha muito presente o exemplo de Shackleton quando escreveu The Politics of Crisis Management (“as políticas da gestão de crise”). Publicado em 2005 e centrado em grande parte na resposta política a situações como o furacão Katrina, o tratado de Boin parte de uma tese que ultimamente soa mais atual do que nunca: “Uma liderança eficaz em condições extremas consiste tanto em agir corretamente no terreno como em desenvolver uma narrativa convincente que seja assumida pelo conjunto da população e permita, portanto, tomar decisões difíceis e adotar medidas traumáticas sem que gerem uma resistência excessiva”.

Boin insiste em que esse relato deve ser, além de coerente, “honesto”. Não se pode “edulcorar a verdade” nem optar por uma linha de comunicação ambígua, que gere dúvidas entre a população e dificulte a criação de consensos. Na opinião de Robson, foi justamente isso que o Governo britânico fez quando declarou sua intenção de permitir contágios maciços entre a população não vulnerável, para desenvolver assim a chamada imunidade de rebanho: “Boris Johnson chegou a afirmar que essa estratégia causaria milhares de mortes, mas que era a que os especialistas recomendavam e a que convinha adotar”, recorda Robson, “mas a reação fez que retificasse muito pouco depois, adotando um modelo de confinamento maciço similar ao italiano, espanhol e francês”.


A outra receita de Boin reivindicada por Robson consiste em “envolver a população dizendo o que se espera dela e como ela pode contribuir de maneira eficaz para a superação da crise”. Neste aspecto, segundo Robson, poucos líderes são tão modelares como a primeira-ministra neozelandesa, Jacinda Ardern: “Já havia demonstrado isso com seu discurso sobre os atentados de Christchurch [que causaram 50 mortos em março de 2019] e acaba de confirmar agora, com um estilo de comunicação simples, empático e direto, sem ambiguidades nem falsas certezas”.

Para Michaela Kerrissey, o discurso de oito minutos que Ardern apresentou pela televisão em 21 de março “é uma obra-prima da comunicação política em situações de emergência. Fez uso dos níveis de alarme ativados na Nova Zelândia em caso de incêndio, um código com o qual seus cidadãos estão muito familiarizados: quando disse que a crise da covid-19 é um nível de alerta quatro, os neozelandeses entenderam perfeitamente a que estava se referindo e souberam avaliar a nova situação quando esse nível de alarme passou de quatro para dois”.

Para Kerrissey, Ardern construiu uma narrativa sólida sem cair em nenhum dos dois relatos extremos que esta crise gerou, “nem no excesso de otimismo dos que afirmavam sem nenhum fundamento que a epidemia não chegaria aos seus países, nem no discurso de um belicismo desfocado dos que insistem em que esta pandemia é uma guerra e precisa ser encarada como tal”.

Em geral, os dirigentes e estadistas que nesta crise deram exemplos de boa gestão e de liderança moderna e eficaz (mais participativa que providencial, mais Shackleton que Churchill) são mulheres, caso da já mencionada Jacinda Ardern, da norueguesa Erna Solberg, da taiwanesa Tsai Ing-wen, da islandesa Katrín Jakobsdóttir, da dinamarquesa Helle Thorning-Schmidt e da alemã Angela Merkel, uma veterana que parece estar dando o melhor de si mesmo nas piores circunstâncias, e a quem seus compatriotas já se referem como “a chanceler cientista”.

A imprensa internacional também tem destacado positivamente exemplos de liderança masculina como a do português António Costa, o grego Kyriakos Mitsotakis e o sul-coreano Moon Jae-in. Mas, como sugere David Robson, que sejam sobretudo mulheres as que estão se destacando por sua eficácia e capacidade de gerar amplos consensos “não pode ser uma simples casualidade”, num mundo esmagadoramente regido por homens. Kerrissey observa que “embora seja apressado tirar conclusões, talvez exista um patrão feminino de gestão e comunicação que é particularmente eficaz em casos de emergência”. É preciso estudá-lo.

06 maio, 2020

O caminho!



O caminho!

Qual é o caminho? Como conhecer o caminho? Para onde nos leva o caminho? Quais as consequências ao assumir o caminho?

Vejam “No princípio já existia a Palavra e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus…… a Palavra se fez homem e armou sua tenda entre nós” (João 1,1.14). É lindo, faz queimar o coração. Para realizar o Projeto de Deus Jesus monta sua tenda no meio das mulheres e dos homens, se faz próximo e mostra o caminho.

Para conhecer e assumir o caminho é preciso confiança “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também.” (Jo 14,1). Confiança e por-se a caminho, mesmo sem saber para onde nos leva “E para onde eu vou, vós conheceis o caminho” (Jo 14,4). É por isso que, à pergunta de Tomé: “Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” (Jo 14,5)

O caminho não está traçado antecipadamente, Deus nos fez livre e nos quer livres. É caminhando que se descobre o caminho. Todas e todos estão a caminho.  Cada qual no seu tempo, com seu passo, com sua história, suas dúvidas, com seus medos e questionamentos.

Qual o caminho a final, “Jesus responde: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,5). O caminho nos leva ao Pai, mas como ir ao Pai, essa a pergunta de Filipe “Disse Felipe: 'Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!' Jesus respondeu:
'Ha tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Felipe? Quem me viu, viu o Pai. Como é que tu dizes: `Mostra-nos o Pai'? Não acreditas que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo, mas é o Pai, que, permanecendo em mim, realiza as suas obras.” (Jo 14,8-10).

Jesus é o caminho “...'Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida....” (Jo 14,6), seu testemunho, seu jeito amoroso de aproximar, caminhar, acolher, mostrar o caminho, comprometer e amar. Sua vida é o itinerário que devemos percorrer. O caminho de Jesus é um estar a serviço da vida numa total doação a toda humanidade, em defesa da criação.

As consequências ao assumir o “caminho”, a vida de Jesus é a resposta, tudo que fez e o que sofreu por ter assumido o Projeto do Pai. Como Ele, somos chamados a transformar o mundo sendo a presença do Ressuscitado. “Aquele que acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai” (Jo 14,12).

A Igreja, eu, você, todas e todos devem propor esse caminho com nossas histórias, nossas dificuldades, medos e realidade.  Ninguém pode levantar muros que dificultam ou impedem alguém a fazer o caminho, é preciso construir pontes para facilitar o acesso ao caminho, se preciso for, fazer o caminho junto para que quem tiver dificuldade consiga avançar. Não tenhamos medo, Jesus é o caminho, a segurança, a luz e o amor.

(Eu, Lucimar Moreira Bueno)

Pandemia e Pós Pandemia: Dez Pontos para Reflexão


CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

PANDEMIA E PÓS PANDEMIA: DEZ PONTOS PARA REFLEXÃO

“Eis que eu estou convosco todos os dias” (Mt 28,20)

Equipe de Análise de Conjuntura Eclesial Dom Paulo Cezar Costa, Coordenador

“Eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28, 20). Estas palavras de Jesus, dirigidas aos discípulos, dão-nos a certeza de que não estamos sozinhos diante dos problemas, desilusões, sofrimentos, crises, pandemias etc. Ele caminha conosco. Estamos vivendo um tempo difícil da Pandemia do Novo Coronavírus (COVID-19), em que parece custoso ver a presença do Senhor junto a nós. Papa Francisco, na Praça de São Pedro vazia, expressou bem: “Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos”. Mas, a narrativa dos discípulos de Emaús, nos dá a certeza de que nas noites escuras da vida e da história, o Senhor permanece conosco, Ele caminha conosco (Lc 24, 13-35).

Este tempo grave de Pandemia fechou as portas de nossas igrejas, mas a Igreja não está fechada, ela continua alimentando seus filhos e filhas através da oração, da Palavra, das celebrações transmitidas pelas TVs Católicas, rádios e mídias sociais, continua assistindo aos pobres e mais necessitados pela caridade e criando redes de solidariedade. Não sabemos até quando esta crise durará, talvez, em muitas regiões, ainda que não tenha chegado o pico, porém, já se começa a ver sinais de possíveis superações. É preciso, vivermos com responsabilidade este momento, incentivando o nosso povo ao cuidado com a própria vida e com a vida do próximo, como nos exortou a Campanha da Fraternidade: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33-34). É importante, também, começarmos a refletir sobre este processo de volta e do pós-pandemia. Propomos, no desejo de ajudar, alguns elementos para a nossa reflexão:

1. Este tempo de Pandemia nos fez estar presentes nas casas e na vida das pessoas de uma forma nova: por meio das mídias sociais. Já as usávamos como meio de comunicação, de evangelização, de missão e de solidariedade. Este tempo acelerou o processo de uso das mídias sociais para reuniões, trabalhos, aulas, missas etc., tudo on-line. Descobrimos uma nova forma de nos fazermos presentes nas casas, nas famílias e na vida das pessoas. E as pessoas descobriram este novo modo de presença, de participação na vida da comunidade. Este caminho deve continuar a ser trilhado: quantas lives, inclusive com transmissão de celebrações, terços, orações etc. A PASCOM (Pastoral da Comunicação) tornou-se uma pastoral fundamental na vida das Dioceses, Paróquias e Comunidades. É um passo que foi dado e que não poderá retroceder. Porém, nossas celebrações, voltarão a ser presenciais. Jesus, com seus gestos e palavras, com sua morte e ressurreição, convocou a assembleia do Novo Israel, a Igreja. A Igreja, desde o Novo Testamento, reúne-se em assembleia litúrgica, a cada domingo, para celebrara memória da morte e ressurreição do Senhor, a Eucaristia. A própria assembleia reunida é sinal da presença do ressuscitado (Mt 18,20).É encontrando-se com o irmão de fé, cantando, rezando, celebrando, ouvindo a Palavra de Deus e se alimentando da Eucaristia que se mantém o coração aquecido, no amor do Senhor, e que se renova a disposição de ser dom na vida da sociedade. Não há oposição entre a assembleia litúrgica presencial e a transmissão virtual, pois existe uma absoluta primazia do presencial. Trata-se de uma forma de continuar atingindo tantas pessoas que ainda não se despertaram para a importância de viver e partilhar a fé em comunidade, e que, vendo a vivacidade da comunidade cristã, poderão ser atraídas para esta. Por isso, o uso das mídias sociais deverá continuar a ser um grande elemento da presença da Igreja, de evangelização, demissão, de oração com o nosso povo, de promoção da caridade e solidariedade. Este caminho exigirá maior investimento nas PASCOM, na aquisição de materiais e de formação de pessoas especializadas.

2. A vida moderna é marcada por uma grande agitação que envolve toda a pessoa: preocupações, corre-corre para o trabalho, tantos afazeres que o ser humano não tem tempo para parar. A sociedade tornou-se sociedade do operar, do transformar, do consumir etc. A pós-modernidade conjuga dois aspectos muito fortes da vida: a racionalidade e o sentimental. A influência da razão faz com que tudo pareça bem previsível, tudo deve estar sobre o acirrado controle racional. De um momento para outro, deparamo-nos confinados e isolados em nossas casas. Esta Pandemia nos colocou diante do imprevisível e impensável. De um momento para o outro, sentimos que tudo fugiu do nosso controle: desde a realidade econômica, até o emprego, a saúde, a liberdade etc. A vida humana se manifestou em sua fragilidade e contingência. Sentimo-nos ameaçados naquilo que nos é mais precioso: a vida humana. Neste tempo e campo, podem aflorar doenças psicológicas, distúrbios, desequilíbrios afetivos e emocionais. Neste cenário, a Igreja deve estar preparada para se manifestar como uma mãe que cura feridas, que apresenta o remédio da consolação e da esperança. A oferta de tantas propostas, que fazem parte do rico patrimônio espiritual da Igreja, como aconselhamento, espiritualidade, métodos de oração, podem ajudar na saúde física e no equilíbrio espiritual das pessoas. É preciso, neste tempo, conduzir as pessoas a um sentido mais profundo da existência, a um retorno às raízes, que se encontram no mistério eterno do amor de Deus (1Jo 4,8.16). Neste caminho, pode-se incentivar o ministério da escuta, também, a ajuda de profissionais como psicólogos (as), que em nossas comunidades, por meio do trabalho voluntário, possam ajudar e atender, principalmente os mais pobres. Tenhamos sempre presente o que nos pede o Papa Francisco: “Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos”1.

3. Depois de um tempo de crise, em que se experimenta a contingência da vida, emerge a questão do sentido da vida. Nesta busca de sentido aflora a procura pelo elemento religioso. É possível que haja um despertar da busca religiosa. A Pandemia pode assim, ser um elemento despertador da dimensão religiosa, da busca de Deus e precisamos estar atentos a isso. A imagem dos gregos que querem ver Jesus (Jo 12, 21) nos ajuda nesta reflexão: O coração de todo ser humano traz este desejo profundo de “ver” Jesus. Nesta passagem, o verbo “ver” expressa todo o desejo e abertura que há no ser humano para a face de Deus, toda inquietação que o coração humano traz na busca de sentido. Nas situações de doença, no falimento diante da morte, nas situações limites da vida, coloca-se sempre o problema do sentido da existência, da totalidade de sentido da vida em si, mas sobretudo da vida humana. Em cada ser humano há uma busca de sentido, há um projeto de sentido da vida2. O conceito de sentido expressa o projeto de totalidade da nossa vida, que não pode encontrar o “seu ser-total” sem o mundo no qual está situada. Somente na experiência de sentido, e por meio desta, o ser humano chega ao “ser-total” e à salvação da própria existência. O sentido experimentado e realizado seria então a salvação do ser humano3. A religião deve ser portadora de sentido e de esperança à existência humana. É preciso que “a luz da fé”4 ilumine os caminhos a serem trilhados no pós-pandemia. A Igreja deve estar preparada para acolher as pessoas fragilizadas não como uma alfândega cheia de exigências e fardos pesados5, mas como uma mãe misericordiosa conduzindo as pessoas ao encontro com a pessoa de Jesus Cristo e integrando-as na comunidade de fé. Deve-se perceber que a experiência de finitude e impotência poderá auxiliar a revermos nossa condição humana dependente de Deus. Como cristãos, precisamos destacar o sentido de seguir o Crucificado que ressuscitou. Rever o lugar da Cruz em nossa experiência eclesial poderá purificar toda tentação de reduzir a fé cristã aos interesses de segurança e sucesso. Os santos místicos nos recordam que “tudo passa e só Deus basta”, mas é preciso aceitar as noites escuras sem perder a esperança.

 4. Em meio a esta pandemia, houve a redescoberta da “Igreja doméstica”6, este belo conceito de São Paulo VI. A família reaprendeu a estar junta, a rezar unida, a compartilhar a vida, a existência etc. Papa Francisco propôs para o mês de maio de 2020 a oração do terço. Que bonito seria, se a família, unida e reunida, pudesse rezar o terço. Aqui sim, teríamos o exercício genuíno da função sacerdotal batismal do pai e da mãe de família, que, com este simples e lindo gesto, estariam animando e alimentando a oração e a vida espiritual de sua família, de sua “Igreja doméstica”. Nesta valorização da Igreja doméstica, As Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2019-2023 podem impulsionar o valor das Comunidades Eclesiais Missionárias e da Igreja Doméstica em tempos de revisão de ação pastoral pós-pandemia. Contemporaneamente, este é um período e momento em que dramas humanos afloraram e se explodiram, inclusive levando a um crescimento do número de separações de matrimônios, aumento da violência familiar que vitima as mulheres, crianças e idosos. Também esta realidade exigirá a presença da Igreja, como uma mãe misericordiosa, para ajudar a sarar feridas e corações machucados (Is 61,1). O Ano da misericórdia, pedagogicamente, nos fez encontrar com o amor misericordioso de Deus e impeliu a Igreja a ser mãe misericordiosa. “A arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia. Toda a sua ação pastoral deveria estar envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes; no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. [...] É o tempo de regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos. O perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança”7.

 5. Todos estamos sofrendo com esta Pandemia, mas os que mais sofrem são os pobres: aumento do número das pessoas em situação de miséria, perda de emprego, vagas de emprego diminuindo com a quebra de empresas, ausência de condições para precaver-se contra o contágio etc. A Igreja, mãe que sempre busca atender os pobres, necessitados e vulneráveis continuará a ser interpelada no seu cuidado pelos últimos da nossa sociedade. A solidariedade é fundamental neste contexto. São João Paulo II dizia que a solidariedade “Não é um sentimento de vaga compaixão ou de ternura superficial pelos males de tantas pessoas próximas ou distantes; pelo contrário, é a firme e perseverante determinação de trabalhar para o bem comum, isto é, para o bem de todos e de cada um, a fim de que todos sejam verdadeiramente responsáveis por todos”8.Neste caminho, é preciso envolver todos os atores da vida de uma sociedade: poderes públicos, mundo empresarial, meios de comunicação, instituições educacionais, ONGs, cada cidadão. É preciso, de imediato, assistir aos pobres, pois quem tem fome não pode esperar. Porém, parece-nos que neste momento é preciso algo mais, é necessário colocar nossas estruturas a serviço e criar parcerias que possam ajudar as pessoas a serem sujeitas da própria história. Junto com o SEBRAE, ou outras instituições, é preciso apoiar pequenos cursos que ajudem as pessoas a criarem seu negócio, a serem um pouco mais profissionais naquilo que já estão fazendo ou que poderão vir a construir. É preciso apontar caminhos e dar meios para que as pessoas possam ser sujeitos da própria história. Nesta grande crise que abateu a todos, é preciso ir além dos discursos, além do assistencialismo, pois “o pensamento social da Igreja é primariamente positivo e construtivo, orienta uma ação transformadora e, nesse sentido, não deixa de ser sinal de esperança que brota do coração amoroso de Jesus Cristo”9.

 6. Em realidades onde tantas pessoas perderam a vida e não tiveram sequer as justas cerimônias de despedida, onde os familiares foram impedidos de chorar junto a seus entes queridos, a Igreja não pode perder de vista que é direito das pessoas chorarem e fazerem a última despedida antes de sepultar seus corpos. Sabemos o quão importante e significativo é o Ritual das Exéquias. Primeiro, pela própria concretude da morte: aquela pessoa querida terminou sua jornada, e a família, quando realiza seu funeral, encerra concretamente este capítulo de uma dolorosa história. Segundo, o pertencimento social: quando os amigos e outros membros da família expressam as suas condolências, as pessoas enlutadas se sentem confortadas e pertencentes a um grupo social no qual construíram sua história ao longo de gerações. Acrescenta-se que no momento do velório conta-se as histórias do falecido(a), resgata-se seu legado, reconstrói-se a memória da pessoa e o quanto ela foi amada e importante. A partir disso, os familiares vão elaborando o luto e confortando a dor da perda, que será sempre irreparável. Desta forma, os ritos fazem com que a morte seja um processo no percurso da vida, ainda que doloroso. A ausência destes rituais tem um impacto muito negativo e sofrido, emocional e afetivamente falando. A falta deste momento de despedida, como estamos vendo durante a Pandemia do Novo Coronavírus, causa uma lacuna na vida de pessoas e famílias inteiras, com sentimento de vazio e impotência. A pessoa tem o direito da Cerimônia de Exéquias, que ajuda no processo de superação do luto. Aqui, o caminho da justa criatividade acompanhada pela responsabilidade, deve ajudar.

7. É importante que, neste processo de abertura, mantenhamos o cuidado e o respeito pela vida humana, que caracteriza a doutrina da Igreja e que norteiam nossos pronunciamentos e atitudes neste tempo da Pandemia do Novo Coronavírus. Devemos dar atenção às orientações emanadas pela Organização Mundial da Saúde, às normas dos Estados e dos Municípios. A Igreja deve sentir-se sujeito das normas justas emanadas pela autoridade civil, principalmente se visam preservar e promover a vida humana. Ocorreram intervenções indevidas de agentes do Estado em celebrações. Deve-se afirmar a liberdade da Igreja de exercer livremente a sua missão e como bem afirmou o Concílio Vaticano II: “o direito a esse exercício não pode ser impedido, desde que guarde a justa ordem pública”10.Se em algum momento, por imprudência ou excesso de zelo de representantes de alguma das partes, acontecerem conflitos ou exorbitância na competência, o caminho de solução passa sempre pelo diálogo. Em última instância, a justiça existe para garantir as liberdades individuais e a justiça nas relações. Não podemos nos esquecer que a vida humana é um imperativo para os discípulos e discípulas de Jesus Cristo, que veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

8. O amor fraterno deve, neste momento histórico, fazer a diferença na nossa vida e caminhada de nossas comunidades. Também a Igreja, na sua caminhada, já sente as consequências da crise na vida de cada um e na vida econômica que está se abatendo sobre o mundo. É tempo de manifestarmos concretamente o nosso amor através da ajuda entre paróquias que têm melhores condições econômicas e aquelas menos favorecidas, entre irmãos que têm condições melhores e irmãos que têm condições piores. O livro dos Atos dos Apóstolos, que estamos lendo neste Tempo Pascal, indica-nos o caminho: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum” (At 4,32.2,42).

9. Não podemos nos esquecer da saúde física e psicológica dos nossos amados presbíteros. O estarmos celebrando sem a presença física do nosso povo, igualmente reclusos em suas casas, os problemas financeiros que começam a afetar a vida das paróquias, podem afetar também a saúde física e psicológica dos nossos presbíteros. É importante, neste momento, que ofereçamos suporte humano e psíquico aos nossos presbíteros e que, se preciso for, indiquemos psicólogos (as) que possam ajudá-los no equilíbrio emocional.

10. Nós, cristãos católicos, não devemos entrar no falso dilema entre escolha da preservação da vida ou da economia. As oposições podem manifestar visões parciais da realidade. Papa Francisco nos relembra que “a unidade prevalece sobre o conflito”11.A preservação da vida e o cuidado da economia não estão em contraposição. O cuidado da vida sempre levará em consideração o cuidado da economia, pois a centralidade deve ser da pessoa humana, não do lucro.

Enfim, a Igreja deve ser portadora da grande Esperança que nasce da fé, tanto para o nosso amado povo como para a vida da sociedade inteira. Cristo Morto e Ressuscitado é a grande razão da nossa esperança, e “devemos estar sempre prontos a dar razão dela a todo aquele que no-la pedir” (1Pd 3,15). Como nos pede o Papa Francisco: “não deixemos que nos roubem a esperança!”12. O anúncio de Jesus Cristo tem que ser portador de Esperança. A Esperança Cristã se fundamenta na memória de Cristo. A ressurreição de Cristo nos diz que Ele não se encontra mais entre os mortos, e que, portanto, a força deste mundo mortal foi rompida13. O cristianismo primitivo fundava sua fé não sobre uma reconstrução científica do Jesus histórico, mas na escuta da viva proclamação do Senhor morto e ressuscitado. Este foi o grande anúncio daquele primeiro dia da semana: Ressuscitou, não está mais aqui! A ressurreição de Cristo nos dá a certeza de que a história é história de vida e de ressurreição. Ele está conosco (Mt 28,20), não estamos sozinhos na história e na batalha cotidiana da vida.

 Estas indicações querem, simplesmente, ajudar a nossa reflexão neste momento difícil da história.

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11Papa Francisco, EvangeliiGaudium, 226-230.
12 Papa Francisco, EvangeliiGaudium, 86.
13 J. MOLTMANN, “Ressurreição - fundamento, força e meta de nossa Esperança”, 112.

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Fim da quarentena do coronavírus: o que são as 'bolhas sociais', estratégia para o fim do isolamento adotada pela Nova Zelândia e outros países


A expansão da bolha social permite que mais pessoas sejam incorporadas ao núcleo familiar, que devem manter esse relacionamento de forma exclusiva.

Com a extensão da quarentena em muitos países que estão em isolamento há semanas, e com a falta de clareza sobre como sair dela sem aumentar drasticamente os casos de covid-19, o ânimo das pessoas está se desgastando.

Publicada por BBC News, a reportagem é de Laura Plitt em 05-05-2020.

Além do golpe econômico que representa para aqueles que dependem do trabalho diário fora de casa para sua subsistência ou do caos para mães e pais que precisam fazer malabarismos para trabalhar em casa e cuidar de seus filhos, muitos sofrem o impacto da solidão e da falta de contato físico.

Por esse motivo, uma das estratégias que alguns governos estão avaliando para sair desse impasse é criar ou expandir as chamadas "bolhas sociais".

O termo começou a ganhar destaque depois que a Nova Zelândia, um dos países de maior sucesso na luta contra a pandemia, anunciou a diminuição de seu nível de alarme de 4 para 3.

Embora continue a valer a recomendação de ficar em casa e evitar interações sociais o máximo possível, as novas regras que entraram em vigor na semana passada autorizam a população a expandir seu círculo de contatos.

"As pessoas devem continuar dentro da bolha de sua casa, mas podem expandi-la para se reconectar com sua família ou para trazer cuidadores ou ajudar pessoas isoladas", diz o governo em seu site, "desde que todos vivam na mesma cidade".

O contato entre esse grupo de pessoas deve ser exclusivo: ou seja, as pessoas que fazem parte dessa bolha não podem fazer parte de outra.

"Essa abordagem é uma maneira de aumentar o contato social e minimizar o risco de transmissão da doença, pois, se ocorrer uma infecção, ela permanece na bolha e não será transmitida a outras pessoas", explica Stefan Flasche, professor associado da London School of Hygiene and Tropical Medicine.

"É uma maneira eficiente de relaxar as restrições que, em princípio, são viáveis em quase todas as situações em que o número de infecções não está mais aumentando", diz ele.

Na opinião dele, é uma ferramenta importante para lidar com a situação, enquanto a busca por uma vacina continua, "embora cada país deva priorizar quais medidas precisam ser flexibilizadas com mais urgência".

Não mais que 10
Embora a proposta implementada na Nova Zelândia não defina um número de indivíduos por unidade (embora obviamente a ideia de uma bolha é exatamente que seja pequena), outros governos que avaliam a possibilidade de incorporar essa estratégia estabelecem um limite de 10 pessoas.

O governo britânico disse estar considerando relaxar as medidas de isolamento social permitindo as "bolhas sociais"; a ideia seria permitir a combinação de um grupo familiar com dois ou três outros grupos, também exclusivamente.

A ideia também está sendo considerada, entre outros, por Escócia, Canadá e Bélgica.

Para Per Block, co-autor de um estudo liderado pela Universidade de Oxford sobre estratégias baseadas na reestruturação de nossas relações sociais para achatar a curva da covid-19 após a quarentena, as vantagens desse modelo são evidentes.

"Quanto mais rigorosa a quarentena, maior o custo para a vida social e o bem-estar psicológico das pessoas", disse o pesquisador à BBC Mundo. "Há uma enorme diferença entre encontrar algumas pessoas ou ficar sozinho em casa, especialmente para pessoas que são psicologicamente vulneráveis, ou que estão em uma situação insegura, ou que precisam de contato físico para o seu bem-estar mental".

Brian Dow, vice-diretor executivo da Rethink Mental Illnes, ONG britânica comprometida com a promoção dos direitos das pessoas afetadas por problemas de saúde mental, acredita que essa política será benéfica desde que seja bem administrada.

"Isso permitiria que as pessoas diminuíssem a ansiedade que estavam sentindo por ficarem presas em suas casas", disse ela à BBC. "As pessoas têm sido muito criativas (em termos de socialização), mas francamente o que precisam agora é apena um abraço."

Como montar sua bolha
Mas como uma família ou um grupo que compartilha uma casa monta sua bolha sem muita complicação e dor de cabeça — aceitando alguns, rejeitando outros e deixando todos na casa satisfeitos?

"É uma tarefa delicada, porque você precisa fazer um contrato social com outras pessoas que estão na sua bolha e garantir que todos fiquem dentro dela — e isso se baseie na confiança", diz Block.

Também há muitos outros fatores a serem considerados, como as diferentes gerações que vivem juntas sob o mesmo teto.

"Se dependesse de mim e de minha parceira, certamente estaríamos OK nos comunicando digitalmente com nossos amigos, mas temos uma filha de quatro anos e a situação dela é pior, porque ela sente falta da interação física com seus amigos porque não consegue se comunicar digitalmente", diz Flasche.

"Portanto, você precisa considerar com cuidado quem na casa precisa mais expandir sua bolha pessoal e criar uma unidade de acordo com quem realmente precisa."

Outra coisa importante, diz Block, é criar uma bolha com um grupo geograficamente próximo (como vizinhos que são amigos e com uma estrutura familiar semelhante), para que "em caso de contágio, você possa limitar a distância de propagação da doença".

Do que dependerá o sucesso dessa estratégia?
A resposta é simples, segundo os entrevistados: que as pessoas cumpram as regras.

Não é para sempre, mas se trata de "uma solução intermediária entre agora e talvez daqui a um ano em que voltaremos a interagir normalmente", diz Block.

"Eu vejo isso como uma oportunidade para a sociedade", diz Lasche.

Se as pessoas seguem as regras e limitam seus contatos o máximo possível, essa pode ser uma estratégia viável e sustentável que torna a quarentena mais tolerável a longo prazo", afirma ele.

"Se não cumprirmos os regulamentos e estabelecermos mais contatos, a doença se espalhará e teremos que voltar a um isolamento mais severo. É por isso que é do interesse de todos que esse não seja o caso", acrescenta.

A Nova Zelândia, onde a estratégia da bolha social já está em andamento, reavaliará em 11 de maio sobre como avançar.

05 maio, 2020

Abertura do Comércio – Dia das Mães - Cidade de Maringá - Paraná


A Prefeitura de Maringá comunica que o comércio funcionará, excepcionalmente, das 10 às 20 horas a partir desta terça, 5, até sexta, 8. No sábado permanece fechado, retornando ao expediente normal na segunda, 11 (das 10 às 16 horas).

A decisão é em caráter especial, adotada em função do Dia das Mães. Também fica autorizado, em caráter excepcional, o funcionamento de floriculturas sábado e domingo (somente neste final de semana).

Prevalece as recomendações quanto aos protocolos de prevenção, que incluem o uso obrigatório de máscara, higienização frequente das mãos, distanciamento entre as pessoas e controle de fluxo nos estabelecimentos.

Prece


"Rezemos hoje pelos defuntos que morreram por causa da pandemia. Morreram sozinhos, morreram sem a carícia de seus entes queridos, muitos deles, nem mesmo com o funeral. Que o Senhor os receba na glória." (Papa Francisco)

Os “3 T” – Trabalho,Teto, Terra!


Os “3 T” – Trabalho,Teto, Terra!

Os “3 T” do Primeiro Encontro Mundial dos Movimentos Populares com o papa Francisco, em outubro de 2014, em Roma.

"Vós sois poetas sociais: criadores de trabalho, construtores de casas, produtores de alimentos, sobretudo para os descartados pelo mercado global", disse Francisco.

Com tema três Ts: “terra, teto e trabalho”, papa reconheceu “que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem teto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas na sua dignidade”.

Para Francisco, o atual sistema global “que impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza (…) é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos.... E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco”.

 “Quando o capital se converte em ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez pelo dinheiro tutela todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, coloca povo contra povo e, como vemos, até põe em risco esta nossa casa comum”, disse o papa.

O atual sistema é uma “ditadura sutil”, disse o papa e chamou os mais pobres e excluídos à ação: “vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos ‘3 T’ (trabalho, teto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem!”.

Assim, o papa propôs aos movimentos sociais três tarefas:

• Colocar a economia a serviço dos povos: “Esta economia é não apenas desejável e necessária, mas também possível. Não é uma utopia, nem uma fantasia. É uma perspectiva extremamente realista. Podemos consegui-la”;

• Unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça: nenhum poder efetivamente constituído tem direito de privar os países pobres do pleno exercício da sua soberania e, quando o fazem, vemos novas formas de colonialismo que afetam seriamente as possibilidades de paz e justiça;

• Defender a Mãe Terra: “a casa comum de todos nós está sendo saqueada, devastada, vexada impunemente. A covardia em defendê-la é um pecado grave. Vemos, com crescente decepção, sucederem-se uma após outra cúpulas internacionais sem qualquer resultado importante.


A seguir a íntegra oferecida em português pela Rádio Vaticano.

Versão integral do discurso do Papa Francisco aos Movimentos Populares reunidos na Bolívia:

(Bolívia, Santa Cruz – Expo Feira, 9 de Julho de 2015)

Boa tarde a todos!

Há alguns meses, reunimo-nos em Roma e não esqueço aquele nosso primeiro encontro. Durante este tempo, trouxe-vos no meu coração e nas minhas orações. Alegra-me vê-vos de novo aqui, debatendo os melhores caminhos para superar as graves situações de injustiça que padecem os excluídos em todo o mundo. Obrigado Senhor Presidente Evo Morales, por sustentar tão decididamente este Encontro.

Então, em Roma, senti algo muito belo: fraternidade, paixão, entrega, sede de justiça. Hoje, em Santa Cruz de la Sierra, volto a sentir o mesmo. Obrigado! Soube também, pelo Pontifício Conselho «Justiça e Paz» presidido pelo Cardeal Turkson, que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos movimentos populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vós, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada diocese, em cada comissão «Justiça e Paz», uma colaboração real, permanente e comprometida com os movimentos populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais a aprofundar este encontro.

Deus permitiu que nos voltássemos a ver hoje. A Bíblia lembra-nos que Deus escuta o clamor do seu povo e também eu quero voltar a unir a minha voz à vossa: terra, tecto e trabalho para todos os nossos irmãos e irmãs. Disse-o e repito: são direitos sagrados. Vale a pena, vale a pena lutar por eles. Que o clamor dos excluídos seja escutado na América Latina e em toda a terra.

1.            Comecemos por reconhecer que precisamos duma mudança. Quero esclarecer, para que não haja mal-entendidos, que falo dos problemas comuns de todos os latino-americanos e, em geral, de toda a humanidade. Problemas, que têm uma matriz global e que actualmente nenhum Estado pode resolver por si mesmo. Feito este esclarecimento, proponho que nos coloquemos estas perguntas:

- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem tecto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas na sua dignidade?

- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando explodem tantas guerras sem sentido e a violência fratricida se apodera até dos nossos bairros? Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando o solo, a água, o ar e todos os seres da criação estão sob ameaça constante?

Então digamo-lo sem medo: Precisamos e queremos uma mudança.

Nas vossas cartas e nos nossos encontros, relataram-me as múltiplas exclusões e injustiças que sofrem em cada actividade laboral, em cada bairro, em cada território. São tantas e tão variadas como muitas e diferentes são as formas próprias de as enfrentar. Mas há um elo invisível que une cada uma destas exclusões: conseguimos nós reconhecê-lo? É que não se trata de questões isoladas. Pergunto-me se somos capazes de reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a um sistema que se tornou global. Reconhecemos nós que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza?

Se é assim – insisto – digamo-lo sem medo: Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos.... E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco.

Queremos uma mudança nas nossas vidas, nos nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais próxima; mas uma mudança que toque também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais. A globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da exclusão e da indiferença.

Hoje quero reflectir convosco sobre a mudança que queremos e precisamos. Como sabem, recentemente escrevi sobre os problemas da mudança climática. Mas, desta vez, quero falar duma mudança noutro sentido. Uma mudança positiva, uma mudança que nos faça bem, uma mudança – poderíamos dizer – redentora. Porque é dela que precisamos. Sei que buscais uma mudança e não apenas vós: nos diferentes encontros, nas várias viagens, verifiquei que há uma expectativa, uma busca forte, um anseio de mudança em todos os povos do mundo. Mesmo dentro da minoria cada vez mais reduzida que pensa sair beneficiada deste sistema, reina a insatisfação e sobretudo a tristeza. Muitos esperam uma mudança que os liberte desta tristeza individualista que escraviza.


O tempo, irmãos e irmãs, o tempo parece exaurir-se; já não nos contentamos com lutar entre nós, mas chegamos até a assanhar-nos contra a nossa casa. Hoje, a comunidade científica aceita aquilo que os pobres já há muito denunciam: estão a produzir-se danos talvez irreversíveis no ecossistema. Está-se a castigar a terra, os povos e as pessoas de forma quase selvagem. E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia chamava «o esterco do diabo»: reina a ambição desenfreada de dinheiro. O serviço ao bem comum fica em segundo plano. Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioecónomico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa casa comum.

Não quero alongar-me na descrição dos efeitos malignos desta ditadura subtil: vós conhecei-los! Mas também não basta assinalar as causas estruturais do drama social e ambiental contemporâneo. Sofremos de um certo excesso de diagnóstico, que às vezes nos leva a um pessimismo charlatão ou a rejubilar com o negativo. Ao ver a crónica negra de cada dia, pensamos que não haja nada que se possa fazer para além de cuidar de nós mesmos e do pequeno círculo da família e dos amigos.

Que posso fazer eu, recolhedor de papelão, catador de lixo, limpador, reciclador, frente a tantos problemas, se mal ganho para comer? Que posso fazer eu, artesão, vendedor ambulante, carregador, trabalhador irregular, se não tenho sequer direitos laborais? Que posso fazer eu, camponesa, indígena, pescador que dificilmente consigo resistir à propagação das grandes corporações? Que posso fazer eu, a partir da minha comunidade, do meu barraco, da minha povoação, da minha favela, quando sou diariamente discriminado e marginalizado? Que pode fazer aquele estudante, aquele jovem, aquele militante, aquele missionário que atravessa as favelas e os paradeiros com o coração cheio de sonhos, mas quase sem nenhuma solução para os meus problemas? Muito! Podem fazer muito. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 T” (trabalho, tecto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem!

2.            Vós sois semeadores de mudança. Aqui, na Bolívia, ouvi uma frase de que gosto muito: «processo de mudança». A mudança concebida, não como algo que um dia chegará porque se impôs esta ou aquela opção política ou porque se estabeleceu esta ou aquela estrutura social. Sabemos, amargamente, que uma mudança de estruturas, que não seja acompanhada por uma conversão sincera das atitudes e do coração, acaba a longo ou curto prazo por burocratizar-se, corromper-se e sucumbir. Por isso gosto tanto da imagem do processo, onde a paixão por semear, por regar serenamente o que outros verão florescer, substitui a ansiedade de ocupar todos os espaços de poder disponíveis e de ver resultados imediatos. Cada um de nós é apenas uma parte de um todo complexo e diversificado interagindo no tempo: povos que lutam por uma afirmação, por um destino, por viver com dignidade, por «viver bem».

Vós, a partir dos movimentos populares, assumis as tarefas comuns motivados pelo amor fraterno, que se rebela contra a injustiça social. Quando olhamos o rosto dos que sofrem, o rosto do camponês ameaçado, do trabalhador excluído, do indígena oprimido, da família sem tecto, do imigrante perseguido, do jovem desempregado, da criança explorada, da mãe que perdeu o seu filho num tiroteio porque o bairro foi tomado pelo narcotráfico, do pai que perdeu a sua filha porque foi sujeita à escravidão; quando recordamos estes «rostos e nomes» estremecem-nos as entranhas diante de tanto sofrimento e comovemo-nos…. Porque «vimos e ouvimos», não a fria estatística, mas as feridas da humanidade dolorida, as nossas feridas, a nossa carne. Isto é muito diferente da teorização abstracta ou da indignação elegante. Isto comove-nos, move-nos e procuramos o outro para nos movermos juntos. Esta emoção feita acção comunitária é incompreensível apenas com a razão: tem um plus de sentido que só os povos entendem e que confere a sua mística particular aos verdadeiros movimentos populares.

Vós viveis, cada dia, imersos na crueza da tormenta humana. Falastes-me das vossas causas, partilhastes comigo as vossas lutas. E agradeço-vos. Queridos irmãos, muitas vezes trabalhais no insignificante, no que aparece ao vosso alcance, na realidade injusta que vos foi imposta e a que não vos resignais opondo uma resistência activa ao sistema idólatra que exclui, degrada e mata. Vi-vos trabalhar incansavelmente pela terra e a agricultura camponesa, pelos vossos territórios e comunidades, pela dignificação da economia popular, pela integração urbana das vossas favelas e agrupamentos, pela auto-construção de moradias e o desenvolvimento das infra-estruturas do bairro e em muitas actividades comunitárias que tendem à reafirmação de algo tão elementar e inegavelmente necessário como o direito aos “3 T”: terra, tecto e trabalho.

Este apego ao bairro, à terra, ao território, à profissão, à corporação, este reconhecer-se no rosto do outro, esta proximidade no dia-a-dia, com as suas misérias e os seus heroísmos quotidianos, é o que permite realizar o mandamento do amor, não a partir de ideias ou conceitos, mas a partir do genuíno encontro entre pessoas, porque não se amam os conceitos nem as ideias; amam-se as pessoas. A entrega, a verdadeira entrega nasce do amor pelos homens e mulheres, crianças e idosos, vilarejos e comunidades... Rostos e nomes que enchem o coração. A partir destas sementes de esperança semeadas pacientemente nas periferias esquecidas do planeta, destes rebentos de ternura que lutam por subsistir na escuridão da exclusão, crescerão grandes árvores, surgirão bosques densos de esperança para oxigenar este mundo.

Vejo, com alegria, que trabalhais no que aparece ao vosso alcance, cuidando dos rebentos; mas, ao mesmo tempo, com uma perspectiva mais ampla, protegendo o arvoredo. Trabalhais numa perspectiva que não só aborda a realidade sectorial que cada um de vós representa e na qual felizmente está enraizada, mas procurais também resolver, na sua raiz, os problemas gerais de pobreza, desigualdade e exclusão.

Felicito-vos por isso. É imprescindível que, a par da reivindicação dos seus legítimos direitos, os povos e as suas organizações sociais construam uma alternativa humana à globalização exclusiva. Vós sois semeadores de mudança. Que Deus vos dê coragem, alegria, perseverança e paixão para continuar a semear. Podeis ter a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, vamos ver os frutos. Peço aos dirigentes: sede criativos e nunca percais o apego às coisas próximas, porque o pai da mentira sabe usurpar palavras nobres, promover modas intelectuais e adoptar posições ideológicas, mas se construirdes sobre bases sólidas, sobre as necessidades reais e a experiência viva dos vossos irmãos, dos camponeses e indígenas, dos trabalhadores excluídos e famílias marginalizadas, de certeza não vos equivocareis.

A Igreja não pode nem deve ser alheia a este processo no anúncio do Evangelho. Muitos sacerdotes e agentes pastorais realizam uma tarefa imensa acompanhando e promovendo os excluídos em todo o mundo, ao lado de cooperativas, dando impulso a empreendimentos, construindo casas, trabalhando abnegadamente nas áreas da saúde, desporto e educação. Estou convencido de que a cooperação amistosa com os movimentos populares pode robustecer estes esforços e fortalecer os processos de mudança.

No coração, tenhamos sempre a Virgem Maria, uma jovem humilde duma pequena aldeia perdida na periferia dum grande império, uma mãe sem tecto que soube transformar um curral de animais na casa de Jesus com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Maria é sinal de esperança para os povos que sofrem dores de parto até que brote a justiça. Rezo à Virgem do Carmo, padroeira da Bolívia, para fazer com que este nosso Encontro seja fermento de mudança.

3.            Por último, gostaria que reflectíssemos, juntos, sobre algumas tarefas importantes neste momento histórico, pois queremos uma mudança positiva em benefício de todos os nossos irmãos e irmãs. Disto estamos certos! Queremos uma mudança que se enriqueça com o trabalho conjunto de governos, movimentos populares e outras forças sociais. Sabemos isto também! Mas não é tão fácil definir o conteúdo da mudança, ou seja, o programa social que reflicta este projecto de fraternidade e justiça que esperamos. Neste sentido, não esperem uma receita deste Papa. Nem o Papa nem a Igreja têm o monopólio da interpretação da realidade social e da proposta de soluções para os problemas contemporâneos. Atrever-me-ia a dizer que não existe uma receita. A história é construída pelas gerações que se vão sucedendo no horizonte de povos que avançam individuando o próprio caminho e respeitando os valores que Deus colocou no coração.

Gostaria, no entanto, de vos propor três grandes tarefas que requerem a decisiva contribuição do conjunto dos movimentos populares:

3.1          A primeira tarefa é pôr a economia ao serviço dos povos.

Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra.

A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas a condigna administração da casa comum. Isto implica cuidar zelosamente da casa e distribuir adequadamente os bens entre todos. A sua finalidade não é unicamente garantir o alimento ou um «decoroso sustento». Não é sequer, embora fosse já um grande passo, garantir o acesso aos “3 T” pelos quais combateis. Uma economia verdadeiramente comunitária – poder-se-ia dizer, uma economia de inspiração cristã – deve garantir aos povos dignidade, «prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos».[1] Isto envolve os “3 T” mas também acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao desporto e à recreação. Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gozar duma infância sem privações, desenvolver os seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de actividade e ter acesso a uma digna aposentação na velhice. É uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social. Vós – e outros povos também – resumis este anseio duma maneira simples e bela: «viver bem».

Esta economia é não apenas desejável e necessária, mas também possível. Não é uma utopia, nem uma fantasia. É uma perspectiva extremamente realista. Podemos consegui-la. Os recursos disponíveis no mundo, fruto do trabalho intergeneracional dos povos e dos dons da criação, são mais que suficientes para o desenvolvimento integral de «todos os homens e do homem todo».[2] Mas o problema é outro. Existe um sistema com outros objectivos. Um sistema que, apesar de acelerar irresponsavelmente os ritmos da produção, apesar de implementar métodos na indústria e na agricultura que sacrificam a Mãe Terra na ara da «produtividade», continua a negar a milhares de milhões de irmãos os mais elementares direitos económicos, sociais e culturais. Este sistema atenta contra o projecto de Jesus.

A justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, o encargo é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e às pessoas o que lhes pertence. O destino universal dos bens não é um adorno retórico da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade privada. A propriedade, sobretudo quando afecta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades das pessoas. E estas necessidades não se limitam ao consumo. Não basta deixar cair algumas gotas, quando os pobres agitam este copo que, por si só, nunca derrama. Os planos de assistência que acodem a certas emergências deveriam ser pensados apenas como respostas transitórias. Nunca poderão substituir a verdadeira inclusão: a inclusão que dá o trabalho digno, livre, criativo, participativo e solidário.

Neste caminho, os movimentos populares têm um papel essencial, não apenas exigindo e reclamando, mas fundamentalmente criando. Vós sois poetas sociais: criadores de trabalho, construtores de casas, produtores de alimentos, sobretudo para os descartados pelo mercado global.

Conheci de perto várias experiências, onde os trabalhadores, unidos em cooperativas e outras formas de organização comunitária, conseguiram criar trabalho onde só havia sobras da economia idólatra. As empresas recuperadas, as feiras francas e as cooperativas de catadores de papelão são exemplos desta economia popular que surge da exclusão e que pouco a pouco, com esforço e paciência, adopta formas solidárias que a dignificam. Quão diferente é isto do facto de os descartados pelo mercado formal serem explorados como escravos!

Os governos que assumem como própria a tarefa de colocar a economia ao serviço das pessoas devem promover o fortalecimento, melhoria, coordenação e expansão destas formas de economia popular e produção comunitária. Isto implica melhorar os processos de trabalho, prover de adequadas infra-estruturas e garantir plenos direitos aos trabalhadores deste sector alternativo. Quando Estado e organizações sociais assumem, juntos, a missão dos “3 T”, activam-se os princípios de solidariedade e subsidiariedade que permitem construir o bem comum numa democracia plena e participativa.

3.2          A segunda tarefa é unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça.

Os povos do mundo querem ser artífices do seu próprio destino. Querem caminhar em paz para a justiça. Não querem tutelas nem interferências, onde o mais forte subordina o mais fraco. Querem que a sua cultura, o seu idioma, os seus processos sociais e tradições religiosas sejam respeitados. Nenhum poder efectivamente constituído tem direito de privar os países pobres do pleno exercício da sua soberania e, quando o fazem, vemos novas formas de colonialismo que afectam seriamente as possibilidades de paz e justiça, porque «a paz funda-se não só no respeito pelos direitos do homem, mas também no respeito pelo direito dos povos, sobretudo o direito à independência».[3]

Os povos da América Latina alcançaram, com um parto doloroso, a sua independência política e, desde então, viveram já quase dois séculos duma história dramática e cheia de contradições procurando conquistar uma independência plena.

Nos últimos anos, depois de tantos mal-entendidos, muitos países latino-americanos viram crescer a fraternidade entre os seus povos. Os governos da região juntaram seus esforços para fazer respeitar a sua soberania, a de cada país e a da região como um todo que, de forma muito bela como faziam os nossos antepassados, chamam a «Pátria Grande». Peço-vos, irmãos e irmãs dos movimentos populares, que cuidem e façam crescer esta unidade. É necessário manter a unidade contra toda a tentativa de divisão, para que a região cresça em paz e justiça.

Apesar destes avanços, ainda subsistem factores que atentam contra este desenvolvimento humano equitativo e coarctam a soberania dos países da «Pátria Grande» e doutras latitudes do Planeta. O novo colonialismo assume variadas fisionomias. Às vezes, é o poder anónimo do ídolo dinheiro: corporações, credores, alguns tratados denominados «de livre comércio» e a imposição de medidas de «austeridade» que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres. Os bispos latino-americanos denunciam-no muito claramente, no documento de Aparecida, quando afirmam que «as instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações».[4] Noutras ocasiões, sob o nobre disfarce da luta contra a corrupção, o narcotráfico ou o terrorismo – graves males dos nossos tempos que requerem uma acção internacional coordenada – vemos que se impõem aos Estados medidas que pouco têm a ver com a resolução de tais problemáticas e muitas vezes tornam as coisas piores.

Da mesma forma, a concentração monopolista dos meios de comunicação social que pretende impor padrões alienantes de consumo e certa uniformidade cultural é outra das formas que adopta o novo colonialismo. É o colonialismo ideológico. Como dizem os bispos da África, muitas vezes pretende-se converter os países pobres em «peças de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigante».[5]

Temos de reconhecer que nenhum dos graves problemas da humanidade pode ser resolvido sem a interacção dos Estados e dos povos a nível internacional. Qualquer acto de envergadura realizado numa parte do Planeta repercute-se no todo em termos económicos, ecológicos, sociais e culturais. Até o crime e a violência se globalizaram. Por isso, nenhum governo pode actuar à margem duma responsabilidade comum. Se queremos realmente uma mudança positiva, temos de assumir humildemente a nossa interdependência. Mas interacção não é sinónimo de imposição, não é subordinação de uns em função dos interesses dos outros. O colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata, gera violência, miséria, emigrações forçadas e todos os males que vêm juntos... precisamente porque, ao pôr a periferia em função do centro, nega-lhes o direito a um desenvolvimento integral. Isto é desigualdade, e a desigualdade gera violência que nenhum recurso policial, militar ou dos serviços secretos será capaz de deter.

Digamos NÃO às velhas e novas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Bem-aventurados os que trabalham pela paz.

Aqui quero deter-me num tema importante. É que alguém poderá, com direito, dizer: «Quando o Papa fala de colonialismo, esquece-se de certas acções da Igreja». Com pesar, vo-lo digo: Cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus. Reconheceram-no os meus antecessores, afirmou-o o CELAM e quero reafirmá-lo eu também. Como São João Paulo II, peço que a Igreja «se ajoelhe diante de Deus e implore o perdão para os pecados passados e presentes dos seus filhos».[6] E eu quero dizer-vos, quero ser muito claro, como foi São João Paulo II: Peço humildemente perdão, não só para as ofensas da própria Igreja, mas também para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América.

Peço-vos também a todos, crentes e não crentes, que se recordem de tantos bispos, sacerdotes e leigos que pregaram e pregam a boa nova de Jesus com coragem e mansidão, respeito e em paz; que, na sua passagem por esta vida, deixaram impressionantes obras de promoção humana e de amor, pondo-se muitas vezes ao lado dos povos indígenas ou acompanhando os próprios movimentos populares mesmo até ao martírio. A Igreja, os seus filhos e filhas, fazem parte da identidade dos povos na América Latina. Identidade que alguns poderes, tanto aqui como noutros países, se empenham por apagar, talvez porque a nossa fé é revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro. Hoje vemos, com horror, como no Médio Oriente e noutros lugares do mundo se persegue, tortura, assassina a muitos irmãos nossos pela sua fé em Jesus. Isto também devemos denunciá-lo: dentro desta terceira guerra mundial em parcelas que vivemos, há uma espécie de genocídio em curso que deve cessar.

Aos irmãos e irmãs do movimento indígena latino-americano, deixem-me expressar a minha mais profunda estima e felicitá-los por procurarem a conjugação dos seus povos e culturas segundo uma forma de convivência, a que eu chamo poliédrica, onde as partes conservam a sua identidade construindo, juntas, uma pluralidade que não atenta contra a unidade, mas fortalece-a. A sua procura desta interculturalidade que conjuga a reafirmação dos direitos dos povos nativos com o respeito à integridade territorial dos Estados enriquece-nos e fortalece-nos a todos.

3.3          A terceira tarefa, e talvez a mais importante que devemos assumir hoje, é defender a Mãe Terra.

A casa comum de todos nós está a ser saqueada, devastada, vexada impunemente. A covardia em defendê-la é um pecado grave. Vemos, com crescente decepção, sucederem-se uma após outra cimeiras internacionais sem qualquer resultado importante. Existe um claro, definitivo e inadiável imperativo ético de actuar que não está a ser cumprido. Não se pode permitir que certos interesses – que são globais, mas não universais – se imponham, submetendo Estados e organismos internacionais, e continuem a destruir a criação. Os povos e os seus movimentos são chamados a clamar, mobilizar-se, exigir – pacífica mas tenazmente – a adopção urgente de medidas apropriadas. Peço-vos, em nome de Deus, que defendais a Mãe Terra. Sobre este assunto, expressei-me devidamente na carta encíclica Laudato si’.

4.            Para concluir, quero dizer-lhes novamente: O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Estou convosco. Digamos juntos do fundo do coração: nenhuma família sem tecto, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice. Continuai com a vossa luta e, por favor, cuidai bem da Mãe Terra. Rezo por vós, rezo convosco e quero pedir a nosso Pai Deus que vos acompanhe e abençoe, que vos cumule do seu amor e defenda no caminho concedendo-vos, em abundância, aquela força que nos mantém de pé: esta força é a esperança, a esperança que não decepciona. Obrigado! E peço-vos, por favor, que rezeis por mim.

[1] JOÃO XXIII, Carta enc. Mater et Magistra (15 de Maio de 1961), 3: AAS 53 (1961), 402.

[2] PAULO VI, Carta enc. Popolorum progressio, 14.

[3] PONTIFÍCIO CONSELHO «JUSTIÇA E PAZ», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 157.

[4] V CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE (2007), Documento de Aparecida, 66.

[5] JOÃO PAULO II, Exort. ap. pós-sinodal Ecclesia in Africa (14 de Setembro de 1995), 52: AAS 88 (1996), 32-33. Cf. IDEM, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 22: AAS 80 (1988), 539.

[6] JOÃO PAULO II, Bula Incarnationis mysterium, 11.