20 dezembro, 2018

"A boa política está ao serviço da paz"

Mensagem do Papa Francisco para o 52.º Dia Mundial da Paz a ser comemorado no dia primeiro de janeiro de 2019.  


"A boa política está ao serviço da paz"

1. «A paz esteja nesta casa!»

Jesus, ao enviar em missão os seus discípulos, disse-lhes: «Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: “A paz esteja nesta casa!” E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós» (Lc 10, 5-6).

Oferecer a paz está no coração da missão dos discípulos de Cristo. E esta oferta é feita a todos os homens e mulheres que, no meio dos dramas e violências da história humana, esperam na paz.[1] A «casa», de que fala Jesus, é cada família, cada comunidade, cada país, cada continente, na sua singularidade e história; antes de mais nada, é cada pessoa, sem distinção nem discriminação alguma. E é também a nossa «casa comum»: o planeta onde Deus nos colocou a morar e do qual somos chamados a cuidar com solicitude.

Eis, pois, os meus votos no início do novo ano: «A paz esteja nesta casa!»

2. O desafio da boa política

A paz parece-se com a esperança de que fala o poeta Carlos Péguy;[2] é como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência. Como sabemos, a busca do poder a todo o custo leva a abusos e injustiças. A política é um meio fundamental para construir a cidadania e as obras do homem, mas, quando aqueles que a exercem não a vivem como serviço à coletividade humana, pode tornar-se instrumento de opressão, marginalização e até destruição.

«Se alguém quiser ser o primeiro – diz Jesus – há de ser o último de todos e o servo de todos» (Mc 9, 35). Como assinalava o Papa São Paulo VI, «tomar a sério a política, nos seus diversos níveis – local, regional, nacional e mundial – é afirmar o dever do homem, de todos os homens, de reconhecerem a realidade concreta e o valor da liberdade de escolha que lhes é proporcionada, para procurarem realizar juntos o bem da cidade, da nação e da humanidade».[3]

Com efeito, a função e a responsabilidade política constituem um desafio permanente para todos aqueles que recebem o mandato de servir o seu país, proteger as pessoas que habitam nele e trabalhar para criar as condições dum futuro digno e justo. Se for implementada no respeito fundamental pela vida, a liberdade e a dignidade das pessoas, a política pode tornar-se verdadeiramente uma forma eminente de caridade.

3. Caridade e virtudes humanas para uma política ao serviço dos direitos humanos e da paz

O Papa Bento XVI recordava que «todo o cristão é chamado a esta caridade, conforme a sua vocação e segundo as possibilidades que tem de incidência na pólis. (…) Quando o empenho pelo bem comum é animado pela caridade, tem uma valência superior à do empenho simplesmente secular e político. (…) A ação do homem sobre a terra, quando é inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificação daquela cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história da família humana».[4]Trata-se de um programa no qual se podem reconhecer todos os políticos, de qualquer afiliação cultural ou religiosa, que desejam trabalhar juntos para o bem da família humana, praticando as virtudes humanas que subjazem a uma boa ação política: a justiça, a equidade, o respeito mútuo, a sinceridade, a honestidade, a fidelidade.

A propósito, vale a pena recordar as «bem-aventuranças do político», propostas por uma testemunha fiel do Evangelho, o Cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, falecido em 2002:

Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência do seu papel.

Bem-aventurado o político de cuja pessoa irradia a credibilidade.

Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses.

Bem-aventurado o político que permanece fielmente coerente.

Bem-aventurado o político que realiza a unidade.

Bem-aventurado o político que está comprometido na realização duma mudança radical.

Bem-aventurado o político que sabe escutar.

Bem-aventurado o político que não tem medo.[5]

Cada renovação nos cargos eletivos, cada período eleitoral, cada etapa da vida pública constitui uma oportunidade para voltar à fonte e às referências que inspiram a justiça e o direito. Duma coisa temos a certeza: a boa política está ao serviço da paz; respeita e promove os direitos humanos fundamentais, que são igualmente deveres recíprocos, para que se teça um vínculo de confiança e gratidão entre as gerações do presente e as futuras.

4. Os vícios da política

A par das virtudes, não faltam infelizmente os vícios, mesmo na política, devidos quer à inépcia pessoal quer às distorções no meio ambiente e nas instituições. Para todos, está claro que os vícios da vida política tiram credibilidade aos sistemas dentro dos quais ela se realiza, bem como à autoridade, às decisões e à ação das pessoas que se lhe dedicam. Estes vícios, que enfraquecem o ideal duma vida democrática autêntica, são a vergonha da vida pública e colocam em perigo a paz social: a corrupção – nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas –, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da «razão de Estado», a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio.

5. A boa política promove a participação dos jovens e a confiança no outro

Quando o exercício do poder político visa apenas salvaguardar os interesses de certos indivíduos privilegiados, o futuro fica comprometido e os jovens podem ser tentados pela desconfiança, por se verem condenados a permanecer à margem da sociedade, sem possibilidades de participar num projeto para o futuro. Pelo contrário, quando a política se traduz, concretamente, no encorajamento dos talentos juvenis e das vocações que requerem a sua realização, a paz propaga-se nas consciências e nos rostos. Torna-se uma confiança dinâmica, que significa «fio-me de ti e creio contigo» na possibilidade de trabalharmos juntos pelo bem comum. Por isso, a política é a favor da paz, se se expressa no reconhecimento dos carismas e capacidades de cada pessoa. «Que há de mais belo que uma mão estendida? Esta foi querida por Deus para dar e receber. Deus não a quis para matar (cf. Gn 4, 1-16) ou fazer sofrer, mas para cuidar e ajudar a viver. Juntamente com o coração e a inteligência, pode, também a mão, tornar-se um instrumento de diálogo».[6]

Cada um pode contribuir com a própria pedra para a construção da casa comum. A vida política autêntica, que se funda no direito e num diálogo leal entre os sujeitos, renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais. Uma tal confiança nunca é fácil de viver, porque as relações humanas são complexas. Nestes tempos, em particular, vivemos num clima de desconfiança que está enraizada no medo do outro ou do forasteiro, na ansiedade pela perda das próprias vantagens, e manifesta-se também, infelizmente, a nível político mediante atitudes de fechamento ou nacionalismos que colocam em questão aquela fraternidade de que o nosso mundo globalizado tanto precisa. Hoje, mais do que nunca, as nossas sociedades necessitam de «artesãos da paz» que possam ser autênticos mensageiros e testemunhas de Deus Pai, que quer o bem e a felicidade da família humana.

6. Não à guerra nem à estratégia do medo

Cem anos depois do fim da I Guerra Mundial, ao recordarmos os jovens mortos durante aqueles combates e as populações civis dilaceradas, experimentamos – hoje, ainda mais que ontem – a terrível lição das guerras fratricidas, isto é, que a paz não pode jamais reduzir-se ao mero equilíbrio das forças e do medo. Manter o outro sob ameaça significa reduzi-lo ao estado de objeto e negar a sua dignidade. Por esta razão, reiteramos que a escalada em termos de intimidação, bem como a proliferação descontrolada das armas são contrárias à moral e à busca duma verdadeira concórdia. O terror exercido sobre as pessoas mais vulneráveis contribui para o exílio de populações inteiras à procura duma terra de paz. Não são sustentáveis os discursos políticos que tendem a acusar os migrantes de todos os males e a privar os pobres da esperança. Ao contrário, deve-se reafirmar que a paz se baseia no respeito por toda a pessoa, independentemente da sua história, no respeito pelo direito e o bem comum, pela criação que nos foi confiada e pela riqueza moral transmitida pelas gerações passadas.

O nosso pensamento detém-se, ainda e de modo particular, nas crianças que vivem nas zonas atuais de conflito e em todos aqueles que se esforçam por que a sua vida e os seus direitos sejam protegidos. No mundo, uma em cada seis crianças sofre com a violência da guerra ou pelas suas consequências, quando não é requisitada para se tornar, ela própria, soldado ou refém dos grupos armados. O testemunho daqueles que trabalham para defender a dignidade e o respeito das crianças é extremamente precioso para o futuro da humanidade.

7. Um grande projeto de paz

Celebra-se, nestes dias, o septuagésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada após a II Guerra Mundial. A este respeito, recordemos a observação do Papa São João XXIII: «Quando numa pessoa surge a consciência dos próprios direitos, nela nascerá forçosamente a consciência do dever: no titular de direitos, o dever de reclamar esses direitos, como expressão da sua dignidade; nos demais, o dever de reconhecer e respeitar tais direitos».[7]

Com efeito, a paz é fruto dum grande projeto político, que se baseia na responsabilidade mútua e na interdependência dos seres humanos. Mas é também um desafio que requer ser abraçado dia após dia. A paz é uma conversão do coração e da alma, sendo fácil reconhecer três dimensões indissociáveis desta paz interior e comunitária:

- a paz consigo mesmo, rejeitando a intransigência, a ira e a impaciência e – como aconselhava São Francisco de Sales – cultivando «um pouco de doçura para consigo mesmo», a fim de oferecer «um pouco de doçura aos outros»;

- a paz com o outro: o familiar, o amigo, o estrangeiro, o pobre, o atribulado..., tendo a ousadia do encontro, para ouvir a mensagem que traz consigo;

- a paz com a criação, descobrindo a grandeza do dom de Deus e a parte de responsabilidade que compete a cada um de nós, como habitante deste mundo, cidadão e ator do futuro.

A política da paz, que conhece bem as fragilidades humanas e delas se ocupa, pode sempre inspirar-se ao espírito do Magnificat que Maria, Mãe de Cristo Salvador e Rainha da Paz, canta em nome de todos os homens: A «misericórdia [do Todo-Poderoso] estende-se de geração em geração sobre aqueles que O temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes (...), lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre» (Lc 1, 50-55).

Vaticano, 8 de dezembro de 2018.

Franciscus

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[1] Cf. Lc 2, 14: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado».
[2] Cf. Le Porche du mystère de la deuxième vertu (Paris 1986).
[3] Carta ap. Octogesima adveniens (14/V/1971), 46.
[4] Carta enc. Caritas in veritate (29/V/2009), 7.
[5] Cf. «Discurso na Exposição-Encontro “Civitas” de Pádua»: Revista 30giorni (2002-nº 5).
[6] Bento XVI, Discurso às Autoridades do Benim (Cotonou, 19/XI/2011).
[7] Carta enc. Pacem in terris (11/IV/1963), 24 (44).

19 dezembro, 2018

Gente positiva faz bem a si mesma e aos demais!


Moradores de Muriaé (MG) barram mineração e transformam área em Patrimônio Hídrico

Projeto de Lei também prevê incentivos a turismo ecológico, agricultura familiar e atividades de proteção das águas.

Conquista é resultado de anos de movimentações feitas por moradores, 
pelo MAM e por Frei Gilberto Teixeira 
 Foto: Gilselene Mendes  


Mais de 10 mil hectares de mata e 2 mil nascentes foram preservados da mineração. Esse foi o resultado de uma mobilização em Muriaé, na Zona da Mata de Minas Gerais, para proteger o distrito de Belisário, às margens do Parque Estadual Serra do Brigadeiro. A população conseguiu que vereadores aprovassem por unanimidade o Projeto de Lei 192, que nomeia a área como “Patrimônio Hídrico do Município de Muriaé”.

A justificativa do prefeito Ioannis Konstantinos (DEM), conhecido como “Grego”, é de que é papel do município incidir nas políticas de gestão das águas. “A presente proposta (…) tem como condão efetivar a proteção do patrimônio hídrico da área descrita, visando a defesa do meio ambiente”, escreve, “como também impulsionar o envolvimento social na construção de uma política municipal de proteção de recursos hídricos”. A nova lei protege parte do entorno da Serra do Brigadeiro e coloca obstáculos a dez pedidos de mineração da empresa Companhia Brasileira de Alumínio (CBA).

Fruto do movimento da comunidade

A conquista é resultado de anos de movimentações feitas por moradores, pelo Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), por outras organizações populares e por Frei Gilberto Teixeira, padre da Paróquia de Belisário. Desde 2016 a mobilização aumentou com atos políticos, audiências públicas, caminhadas pela água e outras dezenas de ações. As reações também se intensificaram e em fevereiro de 2017 Frei Gilberto chegou a ser ameaçado de morte por um homem armado.

A maior preocupação dos moradores de Belisário é que a mineração destrua a produção natural de água e as nascentes, segundo Frei Gilberto. “Belisário é um grande gerador de água. Aqui, nesse pequeno distrito, nós temos mais de 2 mil nascentes já cadastradas, que abastecem Belisário, Muriaé e as cidades aqui pra baixo. Vemos que a zona de amortecimento do parque e Belisário devem ser protegidas porque, tirando a bauxita, tira também a nossa água. Uma está ligada intimamente à outra. Nós só temos muita água, porque temos muita bauxita”, explica.

A lei prevê ainda o incentivo pelo poder público à realização de atividades econômicas sustentáveis, como o turismo ecológico, a agricultura familiar, a conservação ambiental, promoção de pesquisa científica, educação ambiental e práticas para a construção de uma política municipal de proteção aos recursos hídricos.

27 pedidos de mineração

A Serra do Brigadeiro possui uma das maiores jazidas de bauxita do país - substância que se transforma em alumínio após ser refinada. Desde a década de 1950, a região vem sendo fortemente cobiçada por mineradoras, em especial pela Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), do grupo Votorantim, para aumentar a exploração do composto.

A CBA tem abertos 27 requerimentos de lavra para minerar na zona de amortecimento do Parque Serra do Brigadeiro e entornos. Se forem aprovadas, a mineração irá invadir três Áreas de Proteção Ambiental: a APA Municipal Pico do Itajuru (Muriaé), APA Municipal Serra das Aranhas (Rosário de Limeira) e APA Municipal Rio Preto (São Sebastião da Vargem Alegre).

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Rafaella Dotta
Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG),12 de Dezembro de 2018 às 14:48
Edição: Joana Tavares  


Depressão Não É Meio De Vida, Bipolaridade Não É Frescura, Ansiedade Não É Falta Do Que Fazer


Existe certa dificuldade de se aceitarem as chamadas “doenças da alma”, uma vez que seus sintomas muitas vezes não são visíveis fisicamente.

Estamos tão acostumados a enxergar apenas o que pode ser visto, que tudo aquilo que os olhos não veem cerca-se de hesitações. Materialistas que somos, amantes das aparências, tendemos a neutralizar o que requer profundidade e sentimento.

Nesse contexto, pode-se dizer que há um certo preconceito em relação a estados de espírito, pois, caso não existam sintomas visíveis, a doença existe como?

E é assim que muitas pessoas reagem mal ao se depararem com doenças e/ou transtornos mentais, não os aceitando, inclusive desdenhando de quem padece desses males. Afinal, vendo a pessoa, ali na frente, sem manchas pelo corpo, sem febre, aparentemente normal, a muitos não ocorre perceber que há um mundo dentro de cada um de nós.

Possivelmente, somente quem já passou por um quadro depressivo ou viu algum familiar assim pode dimensionar a dor que isso traz, tanto para quem sofre como para quem ama e convive com ele, da mesma forma ocorrendo com transtorno ansiedade generalizada e bipolaridade.

Todos os envolvidos acabam atingidos de alguma forma, porque as cicatrizes são invisíveis e o pedido de socorro vem do fundo do olhar. Continue lendo, clique AQUI.


Feliz Natal - Setor Família - Arquidiocese de Maringá





Vídeo campanha natalina com o objetivo de sensibilizar as famílias para o verdadeiro significado do Natal.
Setor Família da Arquidiocese de Maringá   

13 dezembro, 2018

Os sentidos da rebelião francesa


Governo Macron recua e entra em crise. Mas as revoltas vão se espalhar e exigem saídas novas. Uma delas: resgatar os cidadãos, emitindo e distribuindo dinheiro

O artigo é de Umair Haque, publicado por Outras Palavras, 11-12-2018. 
A tradução é de Marianna Braghini.  


Há Paris, em chamas. Há a Itália, tomada pela raiva. Há o Reino Unido,cometendo o maior ato de auto-destruição na história recente. Há os Estados Unidos – tantos problemas tenebrosos, de tiroteios em massa à classe média implorando cuidados de saúde a estranhos,online. Ninguém sabe direito por onde começar.

Ena semana passada, houve o G20. O curioso é que o problema central,que surge como uma avalanche de raiva, ressentimento, medo e fúria…sequer esteve na agenda. Na verdade, o que está em pauta é o oposto deste problema. O problema é o Capital. Ele concentrou-senas mãos de alguns poucos, que o ganharam por meios duvidáveis, e depois o enterraram em arcas do tesouro pelo mundo. O resultado é que não há dinheiro suficiente nas mãos das pessoas e sociedades.Voltaremos ao tema, mas primeiro, vamos entender como tudo aconteceu. 

Oque eclode em todo o mundo é que as pessoas sentem-se atoladas,porque de fato estão. Sua renda deixou de crescer, inclusive nos países ricos. Nos EUA, essa tendência começou em 1970 –precisamente no momento em que a segregação racial era vencida. Na Europa, teve início entre cinco e quinze anos atrás. E a questão é que seus líderes, instituições e governos estão dando pouca ou nenhuma atenção ao problema: não têm nenhum plano ou agenda para reverter a desastrosa tendência de estagnação.

“Estagnação”– que na verdade significa escassez de dinheiro em uma sociedade –é precisamente o que aconteceu durante os anos 1930. Deu-se em diferentes nações, de diferentes maneiras. Na Alemanha, as dívidas contraídas após a I Guerra Mundial com o Reino Unido e França eram onerosas demais para ser pagas. A classe média foi levada à ruína e os pobres afundaram na miséria. Nos EUA, a combinação de monopólios e especulação, durante a década de 1920, deixou o país em “depressão”. A poupança média arduamente conquistada fora esbanjada por bancos e fundos em diversos esquemas fraudulentos do tipo “fique rico rápido”. Os resultados foram sempre os mesmos –as condições de vida das pessoas atolaram e começaram a regredir.

Como o fenômeno da estagnação acontece agora? De forma muito parecida.Uma grande crise financeira. Os bancos foram socorridos. Uma geração de governantes neoliberais imaginou que seus países estavam“falidos”. Eles começaram a cortar em investimento social no exato momento em que a economia titubeava – e bang! Este duplo golpe esmagou as pessoas comuns. No Reino Unido, por exemplo, aqueda no padrão de moradia foi a maior em séculos. Nos EUA, a vidadas pessoas começou a desmoronar. A classe média literalmente implodiu, tornando-se uma minoria. Na Alemanha, França, Itália, o conforto e a facilidade de gerações da social democracia estão ameaçados.

Nasceu a era da “austeridade”. Infelizmente é onde estamos hoje.Enquanto Paris queima, enquanto as pessoas se enfurecem, enquanto a Itália se inflama, as pessoas tornam-se furiosas. Os Estados Unidos desmoronaram, o Reino Unido destrói-se em confusão e desorientação.Não há nenhum plano de socorro às sociedades, pessoas, idosos,juventude. Nem ao menos um. E sem tal planejamento, se você entendeu tudo acima, não há nenhuma chance de que o mundo continue em paz, cooperação e prosperidade. 

Sem um socorro às pessoas, o problema central no mundo – a estagnação– não tem solução. Ela prosseguirá, porque a concentração de dinheiro e a resultante escassez deste entre as pessoas e sociedades não irá mudar. Enquanto isso acontece, os cidadãos parecem cada vez mais inclinados a escolher governantes autoritários, extremistas e fanáticos – que de forma inteligente direcionam a fúria contra os que estão abaixo, nas hierarquias sociais: imigrantes, refugiados e assim por diante. Essa é exatamente a lição dos anos 1930 — mas estamos revivendo tudo agora e por algum motivo, parece que nossos governantes estão totalmente alheios (como os conservadores norte-americanos), não se importam muito (como os neoliberais da UE)ou sorriem e convidam ao apocalipse (como os apoiadores do Brexit).

O que significa “um socorro” às pessoas? Do que estariam sendo resgatadas? As sociedades e pessoas necessitam muito ser recapitalizadas – ou seja, precisam de dinheiro suficiente para que os rendimentos voltem a crescer, para que prevaleça um senso de segurança, para desfrutar de um senso de liberdade mais uma vez, para que cresça uma esperança de prosperidade. Por isso, um resgate das pessoas é bem simples. Significa apenas investir o dinheiro criado nas próprias pessoas. Seja diretamente – na forma monetária – ou indiretamente, por meio de mais e melhores hospitais, escolas, mídia, educação e todos os trabalhos que este movimento criaria. Apesar disso, o foco dos governantes – e mesmo da maior parte das pessoas – tornou-se, em grande parte, a“austeridade”. Mas falar em “austeridade” é precisamente o mesmo que dizer “mesmo que eu não tenha dinheiro suficiente para prosperar, e nem o meu país, não quero que ninguém nunca mais tenha dinheiro algum. Prefiro que as pessoas permaneçam pobres e endividadas!” É uma crença engraçada, bizarra e perigosamente insensata — que sugere ignorância completa do mundo, da história e de política econômica.

Um “resgate das pessoas” significa dar dinheiro liberalmente (olá,liberais!). Isso o horroriza? Você vale mais que alguns poucos milhões? Então, você deveria se posicionar a favor da proposta –e não contra ela. Se você é um cidadão médio do mundo rico, sua poupança é bem menor que suas dívidas, porque sua renda não cresce há anos, talvez décadas.

Imprimir dinheiro causa inflação, mas também acaba com os débitos. E portanto resolve ambos problemas de estagnação de uma só vez. Inflação significa que sua renda cresce (não apenas “os preços”) e também significa que suas dívidas encolhem. Você deve querer ambas as coisas nessa conjuntura da história: menor débito e maior renda. O jeito mais simples de pensar a respeito é: você deveria querer mais dinheiro – e não menos – porque o problema é que você não tem o suficiente para levar uma boa vida. Por isso, deveria ser fortemente a favor da criação de dinheiro novo, porque é o único meio que conseguirá obter mais recursos.

E ainda assim você ainda pensa que um resgate individual, ser recapitalizado, é política errada. Você provavelmente está confuso(a) sobre as noções básicas de economia: acha que o ruim é bom, e que o bom é ruim. E é também por conta disso que os governantes atuais falharam na gerência da economia global. Eles cometeram o mesmo erro que você. Eles decidiram que é melhor ser pobre do que ser rico; melhor ser desprovido de poder do que ser empoderado; melhor ser ignorante do que sábio.

De onde vem esse equívoco sobre economia básica – a ideia segundo a qual as sociedades nunca poderiam, nem deveriam criar dinheiro novo e dividi-lo entre as pessoas? Quem ensinou isso? Esta é a internalização da lógica capitalista. Equivale a pensar que o dinheiro existe apenas para ser propriedade privada de um pequeno número de pessoas, em vez de um recurso público do qual dependem uma ou um conjunto de sociedades. As únicas pessoas que se beneficiam da “austeridade” são os verdadeiros capitalistas –aqueles cuja renda vem do capital, pois são donos de toda a dívida. Para eles, é verdade, o investimento social é ruim. Mas não para você! A esta altura, é a única coisa no mundo que pode erguê-lo.

O capitalismo nos ensinou que uma sociedade investindo em si mesma –criando dinheiro e o distribuindo entre as pessoas – é ruim. Por isso, você, como muitas outras pessoas, age furiosamente contra seus próprios interesses. “São aqueles imigrantes! Foram eles que arruinaram minha vida!” Não, não caro amigo. Os imigrantes estão em situação ainda pior que a sua. Hoje todos estão sofrendo porque o capitalismo, por meio do neoliberalismo, convenceu quase todo mundo que é melhor ser pobre do que ser rico. O resultado é uma escassez de dinheiro, um déficit de investimento, porque o capital se empilhou – onde mais? – nas mãos dos capitalistas, em níveis sem precedentes desde os anos 1930.

Porque há pouco estoque de dinheiro e capital para as pessoas comuns? A razão deveria ser óbvia. Porque o acúmulo, entre os super-ricos é grande e injusto demais . A desigualdade tem crescido arrasadoramente e de forma íngreme, todos sabemos – mas o que ela realmente significa é que há muito dinheiro concentrado no topo das sociedades, e muito pouco fluindo para todos os demais. Este dinheiro amontoado no topo literalmente não tem mais nenhum lugar útil para ir – todas as mansões e iates foram comprados. Por isso, há agora setores inteiros cujo único propósito é desviar as fortunas dos super-ricos para paraísos fiscais, para escondê-las em arcas de tesouro. O resultado é que as sociedades estão famintas de dinheiro e as condições de vida estagnaram ou regridem.

Os governantes atuais escolhem “austeridade” em vez de investimento.Significa empobrecimento, ruína e colapso em vez da prosperidade,democracia e abundância. É vital entender que tudo isso é uma escolha — não um tipo de restrição natural. Frequentemente,afirma-se que uma “união mais profunda” da Europa exigiria criar pobreza. Nada poderia ser tão distante da verdade. A Europa, como os Estados Unidos, fez a escolha errada — só que em grau menor. Deixaras pessoas e sociedades famintas de dinheiro é sempre uma escolha,nunca uma necessidade.

“O dinheiro é para os capitalistas — todo mundo estaria melhor assim!”Quanta estupidez! O que realmente aconteceu foi tão previsível quanto péssimo: os capitalistas abocanharam todo o dinheiro em que conseguiram colocar as mãos, espoliando uma sociedade após outra. Depois, esconderam-no em arcas de tesouro enterradas pelo mundo. Mas o resultado é que agora há menos dinheiro para ser gasto,investido, utilizado, compartilhado, trocado, investido.

Ainda assim, os sábios que comandam o mundo coçam suas barbas,perguntando-se: onde iremos conseguir mais dessa mágica substância,deste misterioso poder, o dinheiro? E o mundo se pergunta — em raiva, em fúria, em desespero, junto com eles – nunca entendendo que o dinheiro não tem nenhum segredo. Desde que as pessoas sejam suficientemente corajosas, sábias e honestas para dar uma as outras.

Estados Unidos. Polêmica: o Menino encarcerado e os Magos, atrás do murofronteiriço


Um templo católico de Santa Susana, no povoado de Dedham, em Massachusetts (Estados Unidos), está criando uma ampla polêmica por mostrar um presépio natalino, em sua frente, com o Menino Jesus encarcerado e os três reis magos atrás de uma cerca que se assemelha ao muro fronteiriço, cuja mensagem é criticar a política migratória do presidente Trump contra os centro-americanos da caravana, que buscam asilo nos Estados Unidos.

A reportagem é publicada por Religión Digital,11-12-2018. A tradução é do Cepat.

Fiéis católicos, ativistas e políticos estão em debate a favor e contra o incomum símbolo natalino. Para a paróquia, o presépio não convencional serve como estímulo à luta dos imigrantes.  


“Buscamos pegar uma foto do mundo tal como é e de juntá-la a uma mensagem de Natal”, disse o sacerdote Stephen Josoma. Explicou que a mensagem deste ano questiona a paz na terra, já que Jesus representa as crianças migrantes retidas na fronteira sul, separadas de seus pais.

Os reis magos são a caravana dos migrantes atrás do muro fronteiriço. Eles acreditam que significa muito a mensagem de Jesus. “Jesus falava de cuidar um do outro. Esta não é a maneira de se cuidar mutuamente”, disse Josoma.

“Não estamos buscando escandalizar ninguém”, disse o fiel Pat Ferrone, membro do comitê de Pax Christi, que teve a ideia da exibição. “Estamos buscando refletir uma realidade que é preciso olhar”.

“Aqui é onde se vem para rezar, não para receber pregação sobre o que se deve pensar na política”, disse Helen Watson, que foi à igreja para ver a exibição.

Josoma insiste em que o cenário não é uma escavação nas políticas de administração de Trump. Em vez de ativismo político, chama-o de ativismo evangélico. “Falamos de Mateus 25 alimentando os famintos e acolhendo ao estranho”.

O fiel Phil Mandeville disse que Jesus não era alheio à política. “Cristo foi político, foi pregado em uma cruz por fazer declarações políticas e por sua liderança e essa é a razão pela qual morreu”, disse Mandeville.

O presépio é destinado a ser um símbolo de esperança, e na igreja Santa Susana a esperança é que tenha começado uma conversa.

A ideia do presépio surgiu em uma reunião do comitê de Pax Christi da congregação, um grupo que se reúne mensalmente e busca educar a comunidade sobre assuntos relacionados à paz e a justiça, segundo a página web da igreja.

O nascimento também mostra o menino Jesus fechado em uma cela, com Maria e Joséo olhando. À direita deles, os três reis magos são visíveis atrás de uma rede que se estende do chão ao teto da quadra, simulando manter distantes os estrangeiros, disse Josoma.

Um cartaz com uma flecha contém a palavra “expulsão”, escrita em sinais. Um segundo, sobre o estábulo, expõe uma pergunta aos transeuntes: “Paz na terra?”.

“Isto se parece com o que é a paz na terra?”, questionou o sacerdote, fazendo referência aos eventos recentes em que soldados do Exército, destacados na fronteira com o México, lançaram gases lacrimogêneos para conter centenas de migrantes, incluindo crianças, que tentavam cruzar a fronteira.

“É difícil dizer que somos um povo de paz, quando estamos enviando soldados com gás lacrimogêneo para impedir as pessoas”, disse.

Josoma disse em uma mensagem que não considera que o presépio seja um protesto contra o presidente Trump e as políticas migratórias de seu Governo, mas é mais um estímulo às pessoas de boa vontade. Disse que até o momento a exibição obteve uma resposta mista. “Algumas pessoas olham e não conseguem entender o motivo pelo qual o menino está na cela”. 

Este é o segundo ano que os fiéis da congregação utilizam o presépio para estimular um tema de reflexão sobre os acontecimentos atuais.

No ano passado, o presépio tinha 16 escritos na parede posterior da estrutura, que leva o nome de um lugar onde havia ocorrido um tiroteio em massa e o número de pessoas que morreram.  



Fonte: IHU

11 dezembro, 2018

Declaração Universal dos DIREITOS HUMANOS - 70 anos!


Declaração Universal dos DIREITOS HUMANOS   

Edição comemorativa da Declaração Universal dos Direitos Humanos, partilhada pela CESE.

Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. são dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.  

  A Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada no dia 10 de dezembro de 1948 pela Assembleia Geral das Nações Unidas ONU, tem o Brasil como um dos seus signatários.


A Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Bíblia e as Igrejas

O texto que segue contém os artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e resumos dos artigos do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC) e também do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP). Junto aos artigos da Declaração, do PIDESC e do PIDCP seguem trechos da Bíblia, declarações eclesiásticas e ecumênicas e citações bíblicas pertinentes. Os versículos das Sagradas Escrituras, transcritos neste livreto, são da Tradução Ecumênica da Bíblia, coedição Edições Loyola e Paulinas, São Paulo, 1996. PREÂMBULO Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo; Considerando que o menosprezo e o desrespeito dos direitos humanos levaram a atos bárbaros que ultrajaram a consciência da humanidade, e que o advento de um mundo em que todas e todos gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a A Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Bíblia e as Igrejas 15 salvo do temor e da necessidade, foi proclamado como a mais alta aspiração humana; Considerando essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo império da lei, para que as pessoas não sejam compelidas, como último recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão; Considerando necessário promover o desenvolvimento das relações amistosas entre as nações; Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos do homem e da mulher, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla; Considerando que os Estados Membros se comprometeram a promover, em cooperação com as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos e liberdades fundamentais de todas e todos e sua observância; Considerando que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso.

Acesse AQUI a edição comemorativa da Declaração Universal dos Direitos Humanos, partilhada pela CESE. 


10 dezembro, 2018

Demarcação já!

Demarcação já!
Letra: Carlos Rennó  

Já que depois de mais de cinco séculos
E de ene ciclos de etnogenocídio
O índio vive, em meio a mil flagelos
Já tendo sido morto e renascido

Tal como o povo kadiwéu e o panará

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que diversos povos vêm sendo atacados
Sem vir a ver a terra demarcada
A começar pela primeira no Brasil
Que o branco invadiu já na chegada
A do tupinambá

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que, tal qual as obras da Transamazônica
Quando os milicos os chamavam de silvícolas
Hoje um projeto de outras obras faraônicas
Correndo junto da expansão agrícola
Induz a um indicídio, vide o povo kaiowá

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que tem bem mais latifúndio em desmesura
Que terra indígena pelo país afora;
E já que o latifúndio é só monocultura
Mas a T.I. é polifauna e pluriflora

Ah!

Demarcação já!
Demarcação já!

E um tratoriza, motosserra, transgeniza
E o outro endeusa e diviniza a natureza
O índio a ama por sagrada que ela é
E o ruralista, pela grana que ela dá;

Hum, bah!

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que por retrospecto só o autóc
Tone mantém compacta e muito intacta
E não impacta, e não infecta, e se
Conecta e tem um pacto com a mata

Sem a qual a água acabará

Demarcação já!
Demarcação já!

Pra que não deixem nem terras indígenas
Nem unidades de conservação
Abertas como chagas cancerígenas
Pelos efeitos da mineração

E de hidrelétricas no ventre da Amazônia, em Rondônia, no Pará

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que tal qual o negro e o homossexual
O índio é tudo que não presta, como quer
Quem quer tomar-­lhe tudo que lhe resta
Seu território, herança do ancestral

E já que o que ele quer é o que é dele já

Demarcação, tá?
Demarcação já!

Pro índio ter a aplicação do Estatuto
Que linde o seu rincão qual um reduto
E blinde-­o contra o branco mau e bruto
Que lhe roubou aquilo que era seu

Tal como aconteceu, do Pampa ao Amapá

Demarcação lá!
Demarcação já!

Já que é assim que certos brancos agem

Chamando-­os de selvagens, se reagem
E de não índios, se nem fingem reação
À violência e à violação

De seus direitos, de Humaitá ao Jaraguá

Demarcação já!
Demarcação já!

Pois índio pode ter iPad, freezer, TV, caminhonete, voadeira
Que nem por isso deixa de ser índio
Nem de querer e ter na sua aldeia
Cuia, canoa, cocar, arco, maracá

Demarcação já!
Demarcação já!

Pra que o indígena não seja um indigente
Um alcoólatra, um escravo ou exilado
Ou acampado à beira duma estrada
Ou confinado e no final um suicida
Já velho ou jovem ou pior, piá

Demarcação já!
Demarcação já!

Por nós não vermos como natural
A sua morte sociocultural
Em outros termos, por nos condoermos
E termos como belo e absoluto

Seu contributo do tupi ao tucupi, do guarani ao guaraná

Demarcação já!
Demarcação já!

Pois guaranis e makuxis e pataxós
Estão em nós, e somos nós, pois índio é nós
É quem dentro de nós a gente traz, aliás
De kaiapós e kaiowás somos xarás

Xará

Demarcação já!
Demarcação já!

Pra não perdermos com quem aprender
A comover-­nos ao olhar e ver
As árvores, os pássaros e rios
A chuva, a rocha, a noite, o sol, a arara
E a flor de maracujá

Demarcação já!
Demarcação já!

Pelo respeito e pelo direito
À diferença e à diversidade
De cada etnia, cada minoria
De cada espécie da comunidade
De seres vivos que na Terra ainda há

Demarcação já!
Demarcação já!

Por um mundo melhor ou, pelo menos
Algum mundo por vir; por um futuro
Melhor ou, Oxalá, algum futuro
Por eles e por nós, por todo mundo

Que nessa barca junto todo mundo tá

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que depois que o enxame de Ibirapueras
E de Maracanãs de mata for pro chão
Os yanomami morrerão deveras
Mas seus xamãs seu povo vingarão
E sobre a humanidade o céu cairá

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que, por isso, o plano do krenak encerra
Cantar, dançar, pra suspender o céu
E indígena sem terra é todos sem a Terra
É toda a civilização ao léu

Ao deus­-dará

Demarcação já!
Demarcação já!

Sem mais embromação na mesa do Palácio
Nem mais embaço na gaveta da Justiça
Nem mais demora nem delonga no processo
Nem retrocesso nem pendenga no Congresso
Nem lengalenga, nenhenhém nem blablablá!

Demarcação já!
Demarcação já!

Pra que nas terras finalmente demarcadas
Ou autodemarcadas pelos índios
Nem madeireiros, garimpeiros, fazendeiros
Mandantes nem capangas nem jagunços
Milícias nem polícias os afrontem

Vrá!

Demarcação ontem!
Demarcação já!

E deixa o índio, deixa o índio, deixa os índios lá

Demarcação JÁ - Música dedicada aos povos Indígenas