19 junho, 2026

Só acaba quando o juiz apita


Só acaba quando o juiz apita


Olá, imersa no escândalo do Master e nas disputas internacionais, a eleição brasileira tem favorito, mas só terá ganhador depois de outubro.

.Sai Neymar, entra Lula. As chances eleitorais de Lula crescem na mesma proporção que a família Bolsonaro cria problemas para si mesma. Não bastam as relações íntimas de Flávio com Vorcaro, que já leva um antigo aliado da família, Silas Malafaia, a tomar distância, assim como uma parte significativa do eleitorado evangélico. Nem a autossabotagem de Jair, depois que uma arma registrada em seu nome foi apreendida com seu segurança em uma blitz, o que pode comprometer sua prisão domiciliar. Agora a condenação de Eduardo só ajuda a aprofundar a crise. E, mesmo que ele não seja preso de imediato, porque Trump não tem pressa de extraditá-lo e deve explorar a situação para atrapalhar as eleições brasileiras, a família Bolsonaro continuará nas páginas policiais. Além de reabilitar Alexandre de Moraes no STF, que andava meio apagado desde as revelações de sua proximidade com Vorcaro, a condenação de Eduardo dá mais munição para a campanha de Lula. Afinal, se nos gramados a moral do Brasil anda baixa, é na diplomacia que o país tem se vestido verde e amarelo. Indiretamente, o próprio Trump ajuda Lula sempre que mostra desprezo por seus aliados, como ao confundir Flávio e Eduardo, ou quando ataca o Brasil, dando a oportunidade perfeita para Lula contra-atacar e marcar pontos dentro de casa. O presidente brasileiro já entendeu que as bilaterais com Trump mais atrapalham do que ajudam e tem preferido usar os temas quentes - como o combate ao terrorismo, tarifaço e eleições - para fazer o enfretamento público à ingerência estrangeira, defender a soberania brasileira e, de lambuja, ser o porta voz dos Brics e das nações mais pobres na reunião do G7. Ao mesmo tempo, enquanto Flávio Bolsonaro gerencia as crises na família e na campanha, Lula busca conquistar os eleitores de centro. Daí sua fala calculada dizendo que nunca foi um esquerdista. Afinal, apesar de um cenário polarizado, tudo leva a crer que a eleição será decidida pelos eleitores independentes.

.Oi, sumido. Nos poucos dias que faltam até o recesso parlamentar de julho, o plano do governo era aprovar três matérias estratégicas: a PEC do fim da escala 6×1, a criação da Política Nacional de Minerais Críticos e a PEC da Segurança Pública. Porém, com os empecilhos criados por Alcolumbre e sem acordo na Câmara e no Senado para votar os vetos presidenciais, a semana terminou morna. A falta de protagonismo do Congresso é similar à de Neymar e do presidente do Banco Central. Depois de um breve protagonismo na liquidação do Banco Master, Gabriel Galípolo seguiu confortável no banco de reservas e sem muita vontade de entrar em campo. Mas é muito difícil passar incólume como presidente do Banco Central quando o escândalo do Master só cresce, revelando como Daniel Vorcaro comprou boa parte da República com cheques sem fundos, e quando o pix está no centro dos ataques dos EUA ao país. Além disso, Galípolo tomou posse apresentado por Lula como um “garoto de ouro” que todos esperavam que interromperia a alta crescente dos juros, mas que na prática levou a Selic ao mais alto patamar num ano eleitoral dos últimos vinte anos. E se depender da última reunião do Copom, o cenário não deve se alterar. Ainda que o BC tenha reduzido os juros para 14,25%, o confuso comunicado emitido após a reunião dá sinais de que o raquítico ciclo de cortes chegou ao fim, para alegria da Faria Lima. Com exceção dos banqueiros, a necessidade de cortar os juros, ao lado de Endrik, é um dos poucos consensos da sociedade brasileira, capaz de juntar a CUT à Confederação Nacional da Indústria. E esse não é o único ruído entre Galípolo e o Planalto. O presidente do BC defende a PEC 65 que completa a autonomia do Banco Central, e que substituiria o conceito de “empresa pública” por “entidade pública de natureza especial”. Isso permitiria que o BC gerenciasse seu próprio orçamento sem depender da Lei Orçamentária da União, mas também reduzindo a vinculação direta ao Executivo. Por sua vez, a proposta tem oposição do ministro da Fazenda, Dario Durigan, endossada por um manifesto de economistas do calibre de Bresser Pereira, Luiz Gonzaga Belluzzo e Paulo Nogueira Jr.

.Classificado para a final. Além de Donald Trump, o outro grande puxador de votos dessas eleições será Daniel Vorcaro. Aparentemente, a falta de molho das tentativas de delação vinham justamente da aposta do banqueiro em esperar um cenário mais confortável após as eleições. Em outras palavras, contar com uma vitória de Flávio. Além do desempenho de Bolsonarinho nas pesquisas não ajudar, da parte da PGR Vorcaro já gastou suas chances, e a percepção na Polícia Federal é de que, com o material apreendido nos celulares, a delação vai se tornando desnecessária. Tanto é que, sem abrir a boca, só nesta semana, a investigação têm aprofundado as relações financeiras entre o banqueiro e Ciro Nogueira, encontrando hospedagens pagas para o líder do PP e o presidente da Câmara Hugo Motta, que também teria recebido “empréstimos” para uma cunhada. Até um obscuro ex-ministro da Cidadania do governo Bolsonaro, Ronaldo Vieira, já teve suas relações com o banqueiro reveladas. Além disso, uma ação de busca e apreensão na casa do senador Jaques Wagner (PT-BA) acendeu o alerta no governo de que o caso pode respingar diretamente no PT e na base aliada e, indiretamente, em Lula. A PF já prepara a próxima fase de investigações mirando em operadores do mercado financeiro que lucraram com as fraudes do Master. Portanto, não há chances de que o caso se encerre ou não respingue nas eleições presidenciais até outubro. Além da disputa pelo Executivo e da lama no Legislativo, o Master voltou ao centro do STF nesta semana. Por trás da discussão do pedido de prisão domiciliar do Vorcaro pai, apareceram as divergências dos bastidores da Corte, que estavam mais discretas desde a substituição de Dias Toffoli por André Mendonça na relatoria do caso. Gilmar Mendes, único a defender a prisão domiciliar, aproveitou para alfinetar Mendonça, que não se fez de rogado e rebateu. Na segunda turma, especificamente, o fiel da balança será Nunes Marques, uma incógnita em se tratando do Master, mas que neste episódio acompanhou o relator.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.Os vencedores da guerra no Irã. Quem são os 41 magnatas que aumentaram sua riqueza em US$ 23,5 bilhões especulando com petróleo, gás e fertilizantes. Na Revista Ópera.

.Argumento original de Dark Horse tinha jornalista como inimiga número 1. Na fantasia milionária dos Bolsonaros, a imprensa era a inimiga a ser batida. No Intercept.

.Quem são os brasileiros deportados dos EUA? O Observatório de Deportações traça um perfil dos 3 mil brasileiros deportados por Trump. N’A Terra é Redonda.

.O trabalho invisível que sustenta as cozinhas solidárias. Como funcionam e os desafios que enfrentam as 4 mil cozinhas solidárias nas periferias. N’O Joio e o Trigo.

.Aqueles dias em Havana. No Jornal da USP, Daniel Afonso da Silva relembra a prisão do jovem Milton Santos pela ditadura militar.

.O que motivou a pintura de ruas na véspera da Copa do Mundo. Da convocação de Neymar às doações de tintas, as razões para a volta das ruas pintadas para a Copa. Na Agência Mural.

.João Saldanha: o comunista que virou técnico da seleção tricampeã na ditadura. No Brasil de Fato Entrevista, biógrafo resgata a trajetória do técnico que levou o Brasil ao tricampeonato.

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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

O fentanil e a mentira da guerra às drogas

O que segue a baixo, é newsletter, recebido em meu e-mail, do "Brasil de Fato (19/06/2026)


O fentanil e a mentira da guerra às drogas

Em 27 de maio de 2026, o senador Flávio Bolsonaro reuniu-se com Donald Trump em Washington e pediu que os Estados Unidos declarassem o PCC e o Comando Vermelho organizações terroristas estrangeiras. Um dia depois, o Departamento de Estado (DEA) anunciou a classificação. Em 5 de junho, ela entrou em vigor.

O governo brasileiro rejeitou a medida. O Ministério da Justiça já havia concluído, em 2025, que as facções não se enquadram na lei antiterrorismo brasileira por não terem motivação ideológica, política ou religiosa. Para o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a decisão americana é uma "forçação de barra" com "caráter político muito mais do que técnico". Concordamos.
A rejeição à medida não neutraliza as consequências práticas. Sob a legislação estadunidense, organizações designadas como terroristas estrangeiras podem ser alvo de congelamento de bens, bloqueio de transações internacionais e, em casos precedentes, de operações militares em território de terceiros países. Faz parte da construção de uma narrativa que busca justificar o injustificável, embasando parte da opinião pública para atuação de medidas políticas e militares. Mais uma vez os EUA estão agindo como donos do mundo.

Já vimos isso acontecer diversas vezes na América Latina. O desespero de perda de controle de Trump o faz retomar muitas medidas que recuperam e atualizam a Doutrina Monroe.

O mesmo roteiro

O discurso do combate às drogas como instrumento de intervenção é tão antigo quanto o imperialismo estadunidense.

Em 1989, Manuel Noriega, general panamenho que, durante anos, serviu à CIA, foi preso e extraditado sob acusação de narcotráfico quando deixou de ser útil a Washington. Na Colômbia, o Plano Colômbia distribuiu bilhões em armamentos sob o argumento do combate ao tráfico. A cocaína continuou fluindo.

Na Nicarágua dos anos 1980, o relatório de mais de mil páginas do Subcomitê de Terrorismo e Narcóticos do Senado estadunidense concluiu que grupos da Contra financiados pela CIA estavam envolvidos no tráfico de cocaína, e que a agência impediu investigações da própria DEA sobre essas redes.

Na Bolívia, Evo Morales expulsou a DEA em 2008 depois de documentar o envolvimento da agência no tráfico que alegava combater. Em janeiro de 2026, o mesmo argumento do narcotráfico justificou o sequestro do presidente legítimo da Venezuela, Nicolás Maduro, país submetido há anos a sanções econômicas criminosas e sabotagens de infraestrutura.

Em todos esses casos, o roteiro é o mesmo. Classificar um governo ou organização como ameaça ao combate às drogas, construir a narrativa internacionalmente e, então, intervir. O que muda é apenas o alvo.

A contradição e a epidemia de dentro

Em 1971, Nixon declarou a "guerra às drogas". Em 1994, John Ehrlichman, seu chefe de política doméstica, descreveu o que ela realmente foi: "A campanha de Nixon em 1968, e a Casa Branca depois, tinham dois inimigos: a esquerda antibelicista e a população negra. Não podíamos tornar ilegal ser contra a guerra ou ser negro. Mas associando os hippies à maconha e os negros à heroína, e então criminalizando pesadamente os dois, poderíamos desarticular essas comunidades." A entrevista foi publicada pela Harper's Magazine em 2016.

Enquanto exportava esse discurso para o mundo, o capital farmacêutico estadunidense fabricava a maior epidemia de dependência química da história recente. Em 1996, a Purdue Pharma lançou o OxyContin, vendido como analgésico de baixo risco de dependência, autorizado inclusive pela FDA, agência governamental responsável por monitorar questões de saúde pública. Era uma grande mentira.

A empresa enviou representantes a médicos de regiões desindustrializadas, onde trabalhadores carregavam no corpo anos de mineração sem saúde pública para ampará-los. Miravam a região conhecida como Cinturão de Ferrugem. Em 2020, a Purdue Pharma pagou mais de US$ 5 bilhões em penalidades por subornar médicos e enganar a DEA. A família Sackler, dona da Purdue, preservou a fortuna. O filme “Máfia da Dor”, de 2023, retrata muito bem essa história.

O fentanil veio quando os opioides prescritos ficaram mais difíceis de obter. Cinquenta vezes mais potente que a heroína, distribuído em microgramas. Em 2022, 73 mil americanos morreram por overdose de fentanil, segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês). Em 2024, após intervenção federal, o número caiu para 54 mil. As cenas de pessoas nas ruas sob o efeito da droga tomam as redes sociais e são assustadoras. Síntese do que o capitalismo é capaz de fazer com os seres humanos.

Os estados com maiores taxas de overdose em 2024 são West Virginia, o mais pobre da nação, ex-coração da mineração de carvão destruído pela desindustrialização; Alasca, que concentra as maiores populações de nativos americanos do país; e o Distrito de Colúmbia, com os maiores índices de desigualdade racial urbana dos EUA. São as comunidades que o capital abandonou depois de extrair o trabalho, os recursos e o território.

O país que registra dezenas de milhares de mortes anuais por fentanil dentro de suas próprias fronteiras se apresenta ao mundo como autoridade moral no combate às drogas de outros países. Recebe o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, golpista e preso, para negociar o enquadramento jurídico que abre portas para intervenção militar em solo brasileiro. E classifica como terroristas internacionais organizações criminosas do Brasil, deixando de fora as milícias ligadas à família que fez o pedido.

A China reagiu invocando o princípio de não interferência. O Brasil precisa fazer o mesmo, com clareza e firmeza. A narrativa que se constrói em torno do PCC e do CV como ameaça global, se não contestada agora, estará disponível amanhã para justificar intervenções sobre as quais o Brasil não terá controle. Conhecemos o roteiro. Vimos em Caracas, capital da Venezuela, o que ele produz.

O Brasil de Fato cobre essa história porque ela revela o sistema. E esse sistema exporta muito mais do que drogas.

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Nina Fideles
Diretora-executiva