13 junho, 2016

Rio Mamoré

Rio Mamoré
Rio Mamoré separa Brasil e Bolívia.
De barco, aproximadamente 10 minuto de um país ao outro.
Guajará Mirim - Rondônia

12 junho, 2016

Jogando vôlei em Guajará Mirim - Rondônia

A tarde hoje no seminário para descontrair um joguinho de vôlei.
Guajará Mirim - Rondônia

Hoje o dia no seminário em Guajará Mirim - Rondonia

Hoje o dia no seminário com participação dos padres, religiosas, seminaristas e missionárias e missionários.
Guajará Mirim - Rondônia.

Por aqui também muita festa

Por aqui também muita festa.
Arraial celebrando a festa do Padroeiro da Comunidade São António - Guajará Mirim - Rondônia.

Catedral Nossa Senhora do Seringueiro de Guajará Mirim.

Catedral Nossa Senhora do Seringueiro de Guajará Mirim.

11 junho, 2016

Uma experiência marcante!

Já em Guajará Mirim desde o amanhecer, agora a tarde acompanhei as religiosas Aparecida de Fátima Garcia (a da foto) e Maria Vieira, entrega de uma cesta básica a uma família do Jardim das Esmeralda, um dos bairros mais pobre da cidade. O senhor pai de cinco filhos partilhou as dificuldades e relatou que com o bolsa família consegue pagar a água e a energia elétrica, sem ela estaria muito mais difícil.

10 junho, 2016

A caminho de Guajará Mirim - Rondonia

No aeroporto de Maringá a caminho de Guajará Mirim até o dia  27/06/2016.
Minha sobrinha acompanhou até aqui no aeroporto.
Nesse período,  eu e o Pe. Genivaldo Ubinge estaremos visitando a Diocese de Guajará-Mirim em Rondônia, “Igreja Irmã” da Arquidiocese de Maringá, dentro do projeto “Igrejas Irmãs”, da CNBB.

08 junho, 2016

A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil, diz CPI

Depois que você terminar de ler este texto e tomar um cafezinho, um jovem negro terá sido morto no Brasil. É este o país que salta do relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, que será divulgado esta semana em Brasília: todo ano, 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos são assassinados. São 63 por dia. Um a cada 23 minutos.

A reportagem é de Fernanda da Escóssia e publicada por BBC Brasil, 06-06-2016. 

A CPI toma por base os números do Mapa da Violência, realizado desde 1998 pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz a partir de dados oficiais do Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde. O último Mapa é de 2014 e contabiliza os homicídios de 2012: cerca de 30 mil jovens de 15 a 29 anos são assassinados por ano no Brasil, e 77% são negros (soma de pretos e pardos).

Depois de sete meses de trabalho, com 21 audiências públicas em sete Estados brasileiros, o relatório do senador Lindbergh Farias (PT-RJ) apresenta um diagnóstico amplo, com números e pesquisas de várias fontes e períodos.

Cataloga histórias recentes e de ampla repercussão, como a de Eduardo de Jesus, de 10 anos, morto por um policial militar no Complexo do Alemão, zona norte do Rio, em abril de 2015. Recupera outras já quase esquecidas, como a de Ana Paula Santos, morta em 2006 em Santos, São Paulo, aos 20 anos, quando estava grávida de nove meses. O marido dela e o bebê também foram assassinados.

"Dudu me disse: Mãe, minha irmã Patrícia está quase chegando, vou esperar na varanda de casa. Eu disse: Vai, filho. Ele foi esperar a irmã e nunca voltou. Logo depois ouvi o estouro, a gritaria, e vi meu filho caído sem vida. Era um menino saudável, ótimo aluno", relembra a diarista Terezinha Maria de Jesus, mãe de Eduardo.

Um milhão de mortes

Especialistas costumam usar a palavra epidemia para se referir à mortandade de jovens no Brasil, especialmente de jovens negros. De acordo com o Mapa da Violência, a taxa de homicídios entre jovens negros é quase quatro vezes a verificada entre os brancos (36,9 a cada 100 mil habitantes, contra 9,6). Além disso, o fato de ser homem multiplica o risco de ser vítima de homicídio em quase 12 vezes.

Weiselfiz adiantou à BBC Brasil dados preliminares do Mapa que será divulgado este ano: de 1980 a 2014, o número de mortes por arma de fogo no Brasil soma quase um milhão. Entre 1980 e 2014 morreram 967.851 pessoas vítimas de disparo de arma de fogo, sendo 85,8% por homicídio. "Entre 1980 e 2014 os homicídios cresceram 592,8%, setuplicando sua incidência", analisa o sociólogo.

Em entrevista por e-mail, por intermédio de sua assessoria, o senador Lindbergh Farias diz que "o principal destaque da CPI foi reconhecer aquilo que os movimentos negros, sobretudo de jovens, vêm dizendo há muito tempo: um verdadeiro genocídio da nossa juventude negra".

"A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Isso equivale à queda de mais de 150 jatos, cheios de jovens negros, todos os anos. Genocídio da população negra é a expressão que melhor se enquadra à realidade atual do Brasil", afirma.

Autos de resistência

A CPI destaca a responsabilidade do Estado, seja por ação ou omissão. "Em um ambiente onde a omissão do poder público suscita o aparecimento de grupos organizados de traficantes, bem como de milícias, os índices de violência contra a juventude negra atingem o paroxismo. De outro lado, o crescimento da violência policial contra esses jovens também é uma chocante realidade. Situações envolvendo a morte de jovens negros, sobretudo aquelas cujas justificativas da ação policial se apoiam nos chamados autos de resistência", afirma o relatório.

Autos de resistência são, com variações de nomenclatura de um Estado brasileiro para outro, registros de mortes ocorridas em supostos confrontos nos quais o policial afirma ter atirado para se defender.

Em caso de resistência à prisão, o Código de Processo Penal autoriza o uso de quaisquer meios para que o policial se defenda ou vença a resistência. Determina também que seja lavrado um auto, assinado por duas testemunhas - daí o nome auto de resistência. Muitas vezes, tais registros escondem execuções em "confrontos" que nunca aconteceram.

Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que, entre 2009 e 2013, as polícias brasileiras mataram 11.197 pessoas em casos listados como autos de resistência - seis mortes por dia, sabendo que o total é subnotificado, pois alguns Estados não repassaram dados ao FBSP.

O relatório também cita uma pesquisa do sociólogo e professor da UFRJ Michel Misse realizada em 2005, no Rio de Janeiro, indicando que, entre os inquéritos de autos de resistência, 99,2% foram arquivados ou nunca chegaram à fase de denúncia.

O delegado de Polícia Civil Orlando Zaccone fez dos autos de resistência o tema sua tese de doutorado em Ciência Política defendida na UFF (Universidade Federal Fluminense).

Ao analisar 314 casos de auto de resistência de 2003 a 2010 no Rio, Zaccone aponta a responsabilidade não só da polícia, mas também do Ministério Público, na construção de uma rotina em que a maior preocupação é saber se o morto era ou não ligado ao tráfico - em vez de esclarecer as circunstâncias de sua morte.

"A folha de antecedentes penais do morto é usada sistematicamente para pedir o arquivamento. Várias instituições se articulam nesse processo, o que caracteriza uma política de Estado na qual se admite que há pessoas extermináveis", analisa Zaccone.

A criação de um protocolo único para registrar autos de resistência está entre as recomendações do relatório final da CPI, assim como a criação de um banco de dados nacional com indicadores consolidados e sistematizados de violência.

A unificação das Polícias Militar e Civil é outra recomendação. O relator da CPI, Lindbergh Farias, destaca as linhas de atuação no Congresso: implementação do Plano Nacional de Enfrentamento ao Homicídio de Jovens, sugerido em comissão especial da Câmara; aprovação do projeto de lei 4.471/2012 - que extingue os autos de resistência, determina a abertura de inquérito e abre a possibilidade de prisão em flagrante do policial em caso de auto de resistência; aprovação da PEC 51 (que, entre outras medidas, desmilitariza e unifica as polícias).

"Toda polícia deve realizar o ciclo completo do trabalho policial (preventivo, ostensivo, investigativo). Sepulta-se, assim, a jabuticaba institucional: a divisão do ciclo do trabalho policial entre militares e civis. Esta é uma batalha que teremos à nossa frente no Congresso", afirma Lindbergh.

A PEC 51 e o projeto que extingue os autos de resistência enfrentam a oposição de parlamentares mais ligados a corporações policiais. Muitos argumentam que o projeto 4.471 pode acabar amedrontando o policial que está em campo, em confronto real com criminosos.

Um dos pontos abordados pela CPI é justamente o alto número de mortes de policiais brasileiros, que acabam sendo não só os principais agentes, mas também vítimas da violência. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública citados pela CPI, só em 2013 foram assassinados em serviço quase 500 policiais.

Questionado pela BBC Brasil, o corregedor da PM do Rio, coronel Welste Medeiros, afirmou que a corporação não se omite em apurar crimes de seus membros e tem buscado soluções para otimizar investigações de crimes cometidos por policiais.

Entre elas, destaca parcerias com o Ministério Público, ampliação da atuação da corregedoria da PM e realização de projetos com universidades para análise dos dados de violência policial.

Foi criado o Programa de Gestão do Uso da Força e da Arma de Fogo, por meio do qual os policiais que mais fizeram disparos de armas de fogo nos últimos seis meses são identificados e submetidos a um programa de treinamento que inclui desde simuladores de tiros até avaliação psicológica e metodologia de abordagem de pessoas e veículos.

'A gente vira número'

A CPI jogou luz também sobre um tema pouco discutido, as mortes de jovens infratores abrigados em unidades para ressocialização. Na audiência pública realizada em 15 de junho de 2015, foram apresentados os dados oficiais do Sinase (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo): em 2013, 29 adolescentes infratores morreram sob custódia do Estado.

A causa mais comum das mortes foi o "conflito interpessoal" (59% do total), seguido de conflito generalizado (17%) e de uma proporção estarrecedora de suicídios dentro do sistema - 14%. O país tem cerca de 24 mil adolescentes em "situação de privação de liberdade", ou seja, mantidos em unidades para ressocialização. Segundo o Sinase, 57,41% deles são pretos ou pardos, enquanto em 17,15% dos casos não houve resposta sobre cor ou raça.

País afora, mães negras choram o assassinato dos filhos. Débora Maria Silva, mãe do gari Édson Rogério Silva dos Santos, ainda não viu alguém ser responsabilizado pela morte dele, em maio de 2006, em Santos.

Segundo o relatório da CPI, ele foi um dos mais de 400 mortos numa onda de violência na região iniciada depois que uma facção criminosa assassinou 43 agentes do Estado. Na sequência, uma forte repressão policial fez outras vítimas. De acordo com testemunhas, Édson foi abordado por policiais num posto de gasolina, seguido e assassinado.

"Fiquei até doente depois que ele morreu. Um dia sonhei com meu filho, como uma visão, e ele me dizia: Mãe, vai lutar pelos vivos", conta Débora, que se tornou uma ativista e criou o movimento Mães de Maio, agregando mães de jovens assassinados na região em 2006.

A ela se juntaram várias outras mães que perderam seus filhos, como Vera Lúcia Santos, mãe de Ana Paula Santos, a jovem assassinada grávida. "Depois de quase dez anos, a gente vai perdendo a esperança. A gente vira número, vira tese. E mais gente continua morrendo. A impressão é de que é um mês de maio contínuo", lamenta Vera Lúcia.

Terezinha de Jesus, mãe do menino Eduardo, foi embora do Rio depois de receber ameaças anônimas de morte. A investigação da Polícia Civil concluiu que os policiais militares agiram em legítima defesa, mas o Ministério Público não concordou e denunciou pelo crime um policial, que irá a julgamento.

Terezinha agora divide o tempo entre o acompanhamento do caso e os cuidados com o restante da família. Ela tem mais quatro filhos e quatro netos, entre eles o novo Eduardo da casa: um bebê de cinco meses e olhos redondos como os do tio. É filho de Patrícia, a irmã que Eduardo de Jesus esperava na varanda de casa quando foi morto.



06 junho, 2016

Michel Temer cria mais de 14 mil novos cargos com o apoio da Câmara

Em meio à crise, na calada da noite e com o aval de Michel Temer, Câmara cria 14.419 novos cargos federais, quase quatro vezes o número de cargos comissionados que o presidente interino prometeu cortar este ano. Medida contraria discurso de enxugamento do poder público.
Junto com os reajustes para 16 categorias de servidores públicos dos três poderes da República, aprovados ontem ontem (2) na Câmara dos Deputados, os parlamentares deram sinal verde para o governo interino de Michel Temer criar 14.419 novos cargos federais.

A iniciativa vai na contramão do discurso que antecedeu e preparou o terreno para o processo que afastou a presidente Dilma Rousseff.

De acordo com reportagem da Folha de S. Paulo, a criação dos novos cargos foi inserida no projeto de lei que concedeu aumento aos servidores da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).

Dos 14 mil cargos criados, a Folha especifica que 4.732 são de técnicos administrativos em educação. Outros 516 postos são para de analista (sem especificar a área) para o Comando do Exército. Se aprovada pelo Senado, os novos cargos deverão ser preenchidos por meio de concurso.

Sem considerar o custo para os cofres públicos dos novos cargos, o pacote de reajustes aprovado pela Câmara, visando a angariar apoio político ao governo interino trará impacto no Orçamento de ao menos R$ 58 bilhões até 2019.
Contradição

A criação de quase 14,5 mil postos corresponde a quase quatro vezes mais cargos federais que Michel Temer prometeu cortar assim que assumiu a presidência de forma interina.

Em maio, ele havia pedido ao então ministro do Planejamento, Romero Jucá, o corte de 4.000 cargos de comissões e outras formas de contratação sem concurso, como forma de diminuir os gastos públicos.

“Cortes corresponderão ao dobro do que governo anterior disse que faria e não cumpriu”, afirmou Jucá, na época, antes de deixar o cargo.

O projeto que prevê a criação das vagas ainda passará pelo Senado. O líder do PMDB na Câmara, deputado Baleia Rossi (SP), disse que o Senado irá revisar a pauta bomba aprovada pelos parlamentares que criou mais de 14 mil cargos federais.

Fonte: http://www.pragmatismopolitico.com.br

Mulheres nas universidades: por que precisamos aprender a contar?

Há algumas semanas, um post de Cristiane Brasileiro ganhou grande atenção nas redes sociais. Ela mostrava, de forma clara, como as mulheres começam como maioria na graduação e terminam como minoria chocante nos mais altos círculos de poder.

A pergunta que não quer calar é: o que faz com que as mulheres parem no meio do caminho? Ainda há muito a percorrer para apontarmos todas as fontes de desigualdade no mundo acadêmico, mas fica aqui o convite de Cristiane Brasileiro à reflexão.

MULHERES QUE CONTAM

A Folha de S. Paulo publicou no dia 9 de abril uma enquete junto a um grupo de intelectuais a respeito de um eventual impeachment da presidenta Dilma Rousseff. No mesmo dia, a professora Giovanna Dealtry, do curso de Letras da UERJ, resolveu fazer uma conta simples e publicar o resultado nas redes sociais: dos 30 entrevistados, só três mulheres.

A partir dessa provocação, muita gente se pronunciou repudiando o viés visivelmente sexista que estava presente nas escolhas do jornal. No entanto, lamento dizer: só houve a repetição de um padrão de desequilíbrio na representação dos gêneros que tem sido largamente assumido dentro da própria comunidade acadêmica.

Algumas estatísticas são notáveis. As mulheres são, atualmente, 60% dos estudantes universitários brasileiros; entre os mestres, são 53%; entre os doutores, caem para 47%. Na hora de avançar na carreira, no entanto, vai se acentuando de forma assustadora a tendência já visível nos dados anteriores: somos apenas 23% entre os pesquisadores 1A do CNPq, e muito menos do que isso entre os professores titulares.

Alargando o olhar, podemos notar também que as áreas de pesquisa com maior concentração de mulheres recebem muito menos incentivos financeiros do que as dominadas predominantemente por homens.

Tento entender o que acontece no meio desse caminho, seja através do esforço em coletar pilhas de depoimentos de acadêmicas sobre o assunto, seja através da busca e da análise das poucas estatísticas já produzidas.

E é num contexto de observação e experiência própria que chamo a atenção para o que mais me espanta: o aparente sequestro em massa das acadêmicas se dá sem que ninguém levante essa questão muito claramente e não encontramos quase nada a respeito nas grandes bases de artigos científicos disponíveis.

Consequentemente, não sabemos bem se as mulheres vão emburrecendo com a idade ou se o nosso tempo vai sendo ocupado com filhos e faxinas de um jeito que o dos nossos colegas de trabalho nunca é.

Não sabemos se somos ouvidas com a mesma disposição que os nossos colegas em congressos e concursos ou se temos tido mais vacilos e inibições quando nos apresentamos em público.

Não sabemos se somos igualmente estimuladas a sermos assertivas ou se simplesmente somos mais autocríticas e temos menos prática em autopromoção.

Não sabemos se nos falta ambição ou se, muito diferentemente, nossa ambição tem sido sempre podada. Ou, ainda, se estamos menos convencidas de que encher o Lattes de publicações em revistas de circulação muito restrita seja mesmo um alto objetivo ao qual deveríamos dedicar as nossas vidas.

Já que toquei no tema da desconcertante escassez de pesquisa sobre as marcas de gênero dentro do universo acadêmico: no Conselho Deliberativo do CNPq há 18 membros e só duas mulheres; no Conselho Superior da CAPES, entre os membros natos, há apenas uma mulher entre sete pessoas. E, no fim das contas, as decisões sobre que linhas de pesquisas importam e quais são consideradas irrelevantes estão sendo determinadas, em boa medida, por esse pessoal.

Entre os membros natos do Conselho da Educação Básica da CAPES não há nenhuma mulher. E é na Educação Básica que, há muitas décadas, se concentra o trabalho das mulheres, que hoje ainda representam 84% dos profissionais. É também nesse nível de ensino que estão os salários mais baixos do magistério, supostamente porque ensinar a jovens e crianças é um ofício “menos qualificado” ou “menos exigente”.

Esse exemplo nos dá uma pista importante sobre como se constrói a noção de “valor” no mercado: mulheres não ganham menos porque fazem trabalhos pouco qualificados, mas sim são esses trabalhos que passam a ser vistos como desqualificados quando são realizados principalmente por mulheres.

Por isso estou muito convencida de que para uma abordagem sistêmica que dê conta de exibir mais do que uma coleção de dolorosos incêndios, precisamos nos acostumar a contar.

Contar no nível macro, mas também nas mesas redondas organizadas pelos nossos colegas; contar que diferentes funções homens e mulheres têm assumido nesse universo; contar quem assina como autor e quem de fato escreve osartigos publicados; contar quem são os professores bolsistas e quem tem carteira assinada; contar quem são os presidentes das nossas associações, os reitores, os Ministros da Educação e os que são recebidos por eles.

E contar levando seriamente em consideração aquilo que minha colega da UERJ lembrou: afinal, qual é a proporção de homens e mulheres nisso aí? (E quanto silêncio se tem feito sobre isso? Que histórias de vida estão por trás desses números? Que justificativas nos têm sido dadas para o que vemos? Por quem? Até quando?) 

Enquanto contamos, só sugiro ainda o seguinte: pensemos não só no que “falta” às mulheres para sua permanência e seu progresso na carreira acadêmica, mas no que falta à própria academia para recebê-las, apoiá-las em suas trajetórias, e até se recriar a partir do impacto da presença delas.

Da ausência de creches nas universidades ao que se valoriza nos concursos para docentes, da naturalização de estupros ao fetiche pelos números de publicações em detrimento do impacto social do que se produz, dos desequilíbrios na distribuição de verbas por áreas à precarização dos contratos de docentes na EaD, veremos que as marcas de gênero estão bem mais profundamente enraizadas e disseminadas em nossa cultura acadêmica do que a enganadora palavra “universidade” jamais nos faria supor.

*Cristiane Brasileiro é doutora em Letras pela PUC-Rio. Atua no ensino superior há 20 anos como professora ou coordenadora de cursos. Mãe solteira de uma filha grande e de um filho pequeno.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/

04 junho, 2016

Não perder o gosto de viver

No caminho da vida não existem só flores e nem só espinhos. Somos um misto de grandes alegrias e tristezas, fruto do sucesso e do insucesso, de amigos e inimigos, de luzes e trevas, de ganhos e perdas, que na somatória só fica o que somos capazes de assumir sem medo e com fé.

O realismo da vida me leva a viver cada momento com aquilo que é. Recordo uma frase do então papa João XXIII: “Encontramo-nos na terra emprestados, mas não devemos perder o gosto de viver”. É difícil compreender  que a cada dia da vida o tempo não se repete e o que tempo que temos é curto e passa rápido. Viver o provisório, com suas causas e coisas, depende do grau de  confiança que deposito e a prontidão em aceitar acertos e desacertos.

Em um texto no blog do jornalista Ronaldo Nezo eu li: “Um pensador certa feita disse: ‘Quando a alma chora, olho da janela do meu quarto e do, alto do meu prédio, não vejo a beleza da cidade. Vejo apenas a chance de silenciar meus tristes ais; de calar minhas lágrimas; de penetrar e me perder no esquecimento.  Caro amigo, estar no mundo é estar sujeito aos prazeres e desprazeres da vida. Ainda que se apele para a razão, nossas emoções muitas vezes falam mais alto. E se provocam sorrisos, não raras vezes também nos fazem chorar. Quem deseja viver intensamente, terá dias em que o sorriso vai brotar fácil em seus lábios; mas também deve aceitar que lágrimas não desejadas vão descer pela sua face. Nessas horas, muitas vezes a vida perde o sentido”.

Ninguém esta isento de problemas financeiros, de perda de emprego, de traição amorosa, depressão,  de frustração nas escolhas feitas,  sentimentos de que não valeu a pena o que fez ou deixou de fazer, vontade de que tudo se acabe, que mundo não seja mundo e sim fim de tudo. Nestas horas parece que deixar de viver é a única saída,  afinal a vida não nos pertence, é o maior presente de Deus.

Talvez o que está faltando de fato é um espaço maior para que o Deus da vida seja a direção de tudo e não as coisas de Deus que tomaram conta da  vida. O coração humano não precisa de coisas, quantas coisas sobrando e quantos mendigando um pouco de atenção, de amor e de afeto, proporcionando um caminho novo de que vale apena viver.

Nestes momentos em que não vemos mais por onde e como caminhar, resta-nos um olhar que vem do coração, de uma força superior às nossas, um olhar com os olhos de Deus; e isso só é possível pela fé. Uma fé que faz ver além das aparências, que faz brotar uma esperança viva capaz de dissipar as trevas, e devolver a luz e contemplar a beleza de amar e ser amados. As coisas passam, só amor permanece. O gosto de viver retorna quando somos capazes de ver a vida como presente de Deus e que só Ele tem o poder de tirá-la. 

Nada deste mundo pode dominar o direito de viver e viver com dignidade. O vazio,  a falta de sentido, o desgosto da vida desaparecerá, quando somos capazes de orar e fazer da vida uma oração e não somente fazer uma oração na vida. O gosto de viver será sempre vivo, quando as cruzes são pontes a atravessar e as vitórias lições para toda a vida e os joelhos calejados de tanto orar.

Dom Anuar Battisti é Arcebispo de Maringá-PR