18 abril, 2018

Ponto de partida é a libertação de Lula. Entrevista com José Luís Fiori

O filme da direita e dos ultraliberais acabou e foi muito ruim. Eles perderam o discurso, não têm nada a propor ao Brasil e vão se dividir cada vez mais. A crise econômica seguirá com efeitos mais dolorosos. A libertação de Lula é a grande causa que unirá as forças progressistas do Brasil e da América do Sul. É preciso fazer avançar a ideia de uma frente pela democracia.
A entrevista é de Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena, publicado por Tutaméia, 15-04-2018.
As ideias são do sociólogo e cientista político José Luís Fiori, professor de economia política internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A Eleonora de Lucena, diretora do Tutaméia, ele afirma: “Nesse momento, o ponto de partida necessário e inevitável das forças progressistas só pode ser a luta pela libertação de Lula. Não necessariamente para que ele seja candidato, mas porque hoje a sua libertação significa simbolicamente o primeiro passo para a restituição da democracia e da justiça nos seus devidos lugares”.
E analisa: “A direita e os seus juízes conseguiram transformar o ex-presidente num mito e numa força política que acompanhará a sociedade e política brasileira por muitos e muitos anos”.
Para Fiori, não adianta pensar agora em candidaturas alternativas que não vão ganhar ou não vão governar nesse quadro atual. “Ou se muda esse quadro e se junta um conjunto de forças poderosas, ou não haverá governo progressista viável de nenhum tipo, seja quem for o indivíduo ou candidato. A menos as forças progressistas queiram repetir a candidatura simbólica do dr. Ulysses Guimarães em 1974”, declara.
Autor, entre outros, de “O Poder Global” (Boitempo, 2007) e de “História, Estratégia e Desenvolvimento” (Boitempo, 2014), Fiori organizou obras essenciais para uma reflexão do mundo contemporâneo, como “Pode e Dinheiro” (com Maria da Conceição Tavares, Vozes, 1997) e “O Poder Americano” (Vozes, 2004).
Na sua avaliação, a crise desencadeada pelo golpe de 2016 e a divisão na sociedade brasileira vão continuar por muito tempo e exigirão enorme paciência estratégica. “Não adianta achar que vai se virar a mesa na próxima meia hora”, defende.
Nesta entrevista por correio eletrônic, Fiori trata das diversas forças políticas em embate e lança uma hipótese sobre a dissolução do núcleo intelectual e ideológico do golpe de 2016: a derrota de Hillary deixou sem apoio os seus operadores internos – o que fez o governo golpista cair nas mãos de um grupo da “segunda divisão”– já quase todo na cadeia, que estava inteiramente despreparado para governar o Brasil”.

Eis a entrevista.

Qual o impacto político da prisão de Lula?
Muito grande, acho mesmo que a história política do Brasil terá um antes e um depois dessa prisão.
Ele sairá “maior, mais forte e mais verdadeiro”, como ele disse no discurso do dia 7, em São Bernardo?
Tenho impressão que sim. E acho que a explicação disso se encontra no próprio discurso do ex-presidente, quando ele diz que já deixou de ser uma pessoa física e se transformou numa ideia, num movimento social e político, num verdadeiro mito. E todos sabemos que as ideias e os mitos não conseguem ser presos nem destruídos. Na verdade, Lula foi sempre um grande negociador e um reformista, e sua genialidade foi demonstrar que, em certos momentos da história, o reformismo é absolutamente revolucionário. Trata-se de um líder absolutamente fora do comum e acima de seus contemporâneos, graças à sua inventividade e à sua intuição estratégica, que é absolutamente extraordinária.
É possível fazer comparações ou traçar algum paralelo com outras situações históricas vividas no passado?
Veja bem, se eu me mantiver apenas no campo da minha experiência pessoal, devo te dizer que ainda criança me tocou assistir ao golpe de Estado de 1954, junto com o suicídio e a Carta Testamento de Getúlio Vargas. Depois, vivi o golpe de 1964 e escutei o discurso do presidente João Goulart, na Central do Brasil, que acabou sendo também uma espécie de discurso de despedida. Alguns anos depois, assisti ao vivo e em cores o violento e traumático golpe militar do Chile, tendo escutado pelo rádio o último discurso de Salvador Allende, no dia 11 de setembro de 1973. Foram todos momentos decisivos ou mesmo heroicos da história.
Mas o discurso de Lula do dia 7 de abril, na cidade de São Bernardo, teve uma grande diferença com relação aos outros, porque foi o discurso de um homem que decidiu sobreviver e lutar. De um político que decidiu enfrentar os seus acusadores acusando-os de peito aberto e sem medo das represálias. De um pacifista que conseguiu manter e defender sua posição sem oferecer a outra face. De um líder carismático que conseguiu fazer – sob a máxima pressão pessoa l– uma belíssima homenagem às utopias humanas, ao mesmo tempo em que traçava as linhas básicas do seu futuro governo. Isso realmente não tem precedente que eu saiba.
Por outro lado, eu não havia nascido e não assisti quando Juan Domingo Perón foi preso e depois libertado pela população para logo em seguida ser eleito presidente da Argentina, em 1946. Mas assisti a transmissão ao vivo, pela televisão, da libertação de Nelson Mandela, aclamado pelo povo e imediatamente eleito presidente da África do Sul. E tenho uma impressão muito forte, como analista político, que mais cedo ou mais tarde isto também acontecerá no Brasil, com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por mais que isso cause engulhos às forças conservadoras e direitistas do nosso país.
No imediato, o que que o senhor espera que possa acontecer?
Uma grande mobilização no Brasil e pelo mundo afora contra a prisão e a favor da libertação do ex-presidente. Mas acho que, no imediato, as pessoas próximas e que gostam pessoalmente do ex-presidente deveriam estar muito atentas com relação à sua integridade física. Sobretudo se tiverem em conta o fanatismo, o rancor, a crueldade e o ressentimento dos que o encarceraram.
Qual será o futuro político das pessoas que o julgaram e encarceraram?
O mais provável é que venham a ter o mesmo destino de todos os “savonarolas” que já existiram através da história. Apesar de que, no caso brasileiro, essas pessoas não têm o menor fôlego pessoal e intelectual para se transformarem em lideranças carismáticas. São figuras menores, já cumpriram o papel que lhes foi encomendado e devem voltar para o anonimato de onde vieram.
E qual o impacto mais geral sobre a sociedade brasileira?
Essa grande encenação – e, sobretudo, esse final patrocinado pelo STF – consolidou uma divisão e uma polarização da sociedade brasileira que que deverá durar por muitos e muitos anos. Vai ser muito difícil de reverter isso. Também vai ser muito difícil sair desse buraco imediato, porque o Estado, as autoridades públicas e a sociedade brasileira aparecem divididos de cima abaixo. Os golpistas estão completamente divididos. O Congresso está quase rachado e desmoralizado. O STF está partido ao meio, perdeu a sua aura de neutralidade e sua credibilidade foi rebaixada por suas brigas internas e por suas sessões infindáveis, marcadas pelo exibicionismo dos seus juízes com seu palavreado gongórico e quase sempre inócuo. Para não falar finalmente da divisão interna da própria Igreja católica. Aliás, dos que se esconderam atrás do silêncio para não se posicionarem frente à prisão do ex-presidente, quem mais me impressionou foi a CNBB. A ausência cúmplice ou envergonhada de algumas de suas principais lideranças no Brasil foi lamentável. Fez lembrar sua participação no golpe de 1964, quando as senhoras conservadoras sacudiam seus terços no lugar de bater panelas.
Como deveriam agir daqui para frente as forças progressistas?
Os caminhos estratégicos vão sendo construídos no caminhar e devem sempre tomar em conta os objetivos e as iniciativas dos adversários. Mas, nesse momento, o ponto de partida necessário e inevitável das forças progressistas só pode ser a luta pela libertação de Lula. Não necessariamente para que ele seja candidato, mas porque hoje a sua libertação significa simbolicamente o primeiro passo para a restituição da democracia e da justiça nos seus devidos lugares.
A ideia de uma frente pela democracia, contra o fascismo e pela soberania pode avançar?
Mais do que nunca. A direita e os ultraliberais já implementaram todas suas ideias e reformas através do golpe e dos seus executores. Depois da destituição da presidenta Dilma Rousseff e da prisão do ex-presidente Lula já não lhes resta mais nenhuma “causa” nem “ideia”. Seu filme acabou e foi muito ruim. A crise econômica seguirá e seus efeitos se farão cada vez mais dolorosos. A direita ultraliberal já não tem mais nada para dizer ou propor para o Brasil, que não seja a tal da “reforma da previdência que não conseguiram fazer e a privatização da Petrobras, duas propostas extremamente impopulares.
Até onde o PT deve esticar a corda e manter a candidatura Lula?
Como já disse, do meu ponto de vista, o ex-presidente Lula já não é mais apenas uma candidatura. Ele é uma causa e é a grande causa que unirá daqui para frente as forças progressistas do Brasil e da América do Sul. Não adianta pensar, no momento, em candidaturas “alternativas” que não vão ganhar ou simplesmente não vão governar nesse quadro que aí está. Ou se muda esse quadro e se junta um conjunto de forças poderosas, ou não haverá governo progressista viável de nenhum tipo, seja quem for o indivíduo ou candidato. A menos que as forças progressistas queiram repetir a candidatura simbólica do dr. Ulysses Guimarães em 1974.
É bom que as pessoas entendam que essa crise aberta pelo golpe de Estado e essa divisão da sociedade brasileira – promovida ativamente pela imprensa conservadora – devem continuar ainda por muito tempo e exigirão uma enorme paciência estratégica. Não adianta achar que vai se virar a mesa na próxima meia hora.
Quem poderia ser o maior beneficiado da saída definitiva de Lula da corrida eleitoral?
Em primeiro lugar, ele já não sairá mais nem da corrida eleitoral nem da história política futura. Como já dissemos, a direita e os seus juízes conseguiram transformar o ex-presidente num mito e numa força política que acompanhará a sociedade e política brasileira por muitos e muitos anos.
Qual o impacto da prisão de Lula dentro do PT? Alguns esperam esvaziamento do partido. É correto pensar assim?
Acho que não. Pelo contrário, creio que o PT deve crescer daqui para frente. Mas não sou do PT e não conheço nem sei avaliar corretamente a sua dinâmica interna. Mas com certeza os seus adversários e a imprensa conservadora deverão inventar ou incentivar, daqui para frente, divisões e lutas internas, jogando uns contra os outros de forma a esvaziar a causa unitária do PT, pela libertação e absolvição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Qual o impacto da prisão na parcela da população que apoiou o golpe de Estado?
Num primeiro momento, devem tomar champanhe ou cerveja, dependendo da classe social de cada um. Mas, atenção, porque o efeito emocional dessa prisão se esgota em si mesmo. A grande massa dos que estão comemorando nesse momento muito brevemente se dará conta de que a prisão de Lula não modificará nada em suas vidas. Todos serão obrigados a voltar a viver as suas angústias e seus medos de cada dia – para não falar nos que terão que voltar a conviver com sua própria mediocridade pessoal.
Então, qual o caminho das forças golpistas?
Deverão se dividir cada vez mais. Deverão entrar numa luta à morte, depois que perderam o seu grande denominador comum, que era o golpe e a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Será uma guerra sem quartel, e presumo que não sobrará pedra sobre pedra. E essa mesma divisão das forças de direita acabará impedindo qualquer tentativa de suspensão das eleições de outubro de 2018. Eles não têm mais unidade para nada e terão que se enfrentar entre si. O PMDB já foi literalmente descabeçado, com a prisão de algumas de suas principais lideranças nacionais e de quase todas as suas lideranças golpistas que hoje estão na cadeira. E não é improvável que esse quadro piore ainda mais depois que o sr. Temer sair do Palácio do Planalto.
Por outro lado, o PSDB se autodestruiu, com a opção pelo golpe de Estado do seu candidato derrotado nas eleições presidenciais de 2014, que depois se viu envolvido em situações cada vez mais escabrosas. Seus caciques paulistas estão todos brigados entre si, seus intelectuais completamente desmobilizados e desmoralizados ideologicamente. E o seu principal líder vive um momento de declínio intelectual, político e ético, depois de ter sido o grande patrocinador da candidatura do sr. Aécio. Mas, sobretudo, depois de ter justificado de forma bisonha e de ter participado diretamente do golpe de Estado, antes de se afastar do governo que ele mesmo ajudou a criar.
DEM, por sua vez, é um partido que não tem fôlego nacional e está transformado numa quase caricatura da antiga direita baiana e carioca. O conjunto das outras siglas que compõem a "base parlamentar” do golpe de Estado não possui nenhuma consistência ou identidade própria e estará sempre ao lado do “balcão de negócios”.
Por fim, depois desses últimos três ou quatro anos, a Globo se transformou numa organização político-ideológica explícita e de direita, agressiva, insidiosa e com enorme poder de fogo. Mas perdeu completamente a posição de “meio de informação” da sociedade brasileira, se transformando no principal inimigo de todas as forças progressistas, democráticas, defensoras da soberania nacional e de um choque distributivo na sociedade brasileira.
É possível identificar as forças externas que atuaram no golpe de 2016?
Tenho a impressão que que as “forças externas” que participaram desse golpe de Estado e dessa destruição física e moral da sociedade, da economia e da política brasileira não se preocuparam em apagar as suas impressões digitais. É muito fácil de olhar e identificá-las.
Um aspecto menos discutido desse problema, entretanto, é a influência que possa ter tido a eleição de Donald Trump na rápida desintegração do bloco golpista e na perda completa de rumo dos seus líderes tucanos, incluindo a desmontagem moral do seu candidato presidencial. Uma boa hipótese para quem se interessa por esses assuntos é que esse golpe de 2016 foi concebido durante o período da administração Obama e contava com a vitória certa de Hillary Clinton – integrante ilustre da ala protetora e patrocinadora do PSDB desde sua fundação e durante toda a administração de Bill Clinton, na década de 1990.
Isso talvez explique a surpreendente implosão e desmontagem do bloco golpista no Brasil, com o desaparecimento completo do seu núcleo intelectual e ideológico inicial que que estava todo no PSDB, incluindo o seu principal líder que teria sido completamente descalçado com a derrota dos Clinton, virando uma espécie de “biruta de aeroporto”, que vai virando de um lado para o outro segundo a ocasião e segundo a sua luta pela sobrevivência pessoal. Como consequência, os líderes intelectuais do golpe teriam tido que deixar a administração do governo nas mãos de um grupo da “segunda divisão”, de baixíssimo nível intelectual e que já está quase todo na prisão, inteiramente despreparado para governar o Brasil.
Fonte: IHU

16 abril, 2018

Muito bom - Boulos fala agora: Povo Sem Medo ocupam triplex do Guarujá!

O que esta em jogo na ocupação do triplex! 
Se é do Lula o povo foi convidado e pode ficar lá. Quem vai pedir reintegração de posse? 
Se não é de Lula, o judiciário vai ter que explicar porque é que prendeu o Lula por conta desse triplex. 
Esse é o jogo. 
 A ocupação vem para revelar a farsa judicial que foi feito. 
O Lula foi condenado sem prova, condenação política com objetivo de tirá-lo do processo eleitoral, levou a prisão de maneira arbitrária. O objeto da prisão esse triplex, e se o triplex é dele ele disse que o povo poderia entrar e ocupar, estamos autorizado pelo proprietário.
Mas se o triplex não é dele o Juiz Sérgio Moro vai ter que se explicar, ou quem pedir a reintegração de posse, vai ter que se explicar porque prendeu o lula, por um apartamento que não é dele. A ocupação é para fazer denúncia da farsa judicial.

A leitura da Bíblia por um grupo de cristãos LGBT. A lógica do dom (Jo 15, 1-8)

Nas dependências de uma paróquia de Florença, Santo Antônio de Pádua ao Romito, um encontro em nome da Palavra que dá abertura à hospitalidade e ao compartilhamento entre um grupo de paroquianos e um grupo de homossexuais cristãos. Cada um leva a si mesmo, sua própria humanidade que prescinde de qualquer escolha específica. Imagem difícil de visualizar até poucos anos atrás.
A informação é de Giusi D'Urso, publicada por Adista, 07-04-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.
Cada leitura de uma passagem do Evangelho é um encontro que desperta uma emoção pela beleza humana e, ao mesmo tempo, divina do que é afirmado. Uma beleza subversiva em relação aos estereótipos comportamentais humanos. Estereótipos que não preveriam nem tal hospitalidade e nem tal compartilhamento.
O encontro com a passagem de João 15, 1-8, que fala do Deus lavrador que cura a própria videira com seus ramos e frutos, expressa plenamente essa emoção. Antecipada pelo profeta Isaías: "Naquele dia haverá uma vinha de vinho tinto, cantai-lhe! Eu, o Senhor, a guardo; e a cada momento a regarei, para que ninguém lhe faça dano, de dia e de noite a guardarei”. No contexto evangélico Cristo torna-se a videira verdadeira, "Eu sou a videira verdadeira", a resposta às expectativas do Antigo Testamento em que a vinha era a alegoria daquele povo de que Deus esperava os frutos. Agora, o próprio Senhor se torna não só um dom, mas a resposta do homem a Deus. Só permanecendo enraizados em Cristo como homens podemos dar frutos, "Permanecei em mim, e eu vou permanecer em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto, se não permanecerdes em mim". O texto de João constitui, portanto, um aviso, a ser acolhido com seriedade, uma vez que a perda de profunda comunhão com Cristo leva os ramos a não dar mais frutos, e secar, "Sem mim nada podeis fazer". Tal comunhão se manifesta na adesão ao espírito evangélico, que prescinde da adesão a uma confissão religiosa, e que significa participação na humanidade de Deus. Mesmo de maneira não-consciente, simplesmente indo ao encontro do outro. Tudo isso implica um sentido de responsabilidade para a vida que nos foi dada. Responsabilidade para responder ao dom com o dom, ao cuidado com o cuidado. De fato, os seguidores de Cristo dispensam todas as formas de legalismo, que torna árido o praticante, e leva a uma liberdade interior desobstruída de todos os condicionamentos humanos e orientada apenas pelo amor, a Cristo e ao próximo, do qual aquela responsabilidade que foi mencionada é um evidente sinal "vocês já estão limpos, pela palavra que lhes tenho falado". E os frutos que virão serão um pouco como a parábola dos talentos, cada um de nós irá responder de acordo com o número de talentos que lhe foram doados. Quem souber investir esses talentos dará frutos, de outra forma, se os enterrar por medo de perdê-los, será como o ramo seco que vai ser cortado.
Uma das consequências dessa prática de adesão é que, como afirmado no versículo 7: "Se permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e vos será dado", que significa simplesmente que "o que vocês quiserem, o que constitui o maior desejo do vosso coração, peçam-no e isso se realizará em vocês" Interpretação menos trivial do que aparentemente parece pelas palavras do texto.
A alegria será o maior fruto, a alegria da comunhão com o Pai, o lavrador, e com a humanidade, os ramos repletos de frutos. De fruto humano.
Hoje a emoção do encontro com o Evangelho ocorre dentro da igreja, com uma expectativa mais ampla, pela esperança está nascendo das palavras do Papa Franciscoque propõem, seguindo precisamente o espírito evangélico, uma lógica alternativa àquela do mundo, a lógica do dom, em oposição àquela da posse. Desse sinal dos tempos temos que tirar proveito, para preservá-lo para o futuro.
Desde 2001 o Grupo Kairós (gays, lésbicas e transgêneros cristãos de Florença) está em caminho para que cada mulher e cada homem possam viver a própria fé em plenitude (cf. Jo 10, 10). Os textos da lectio de oração da Kairós podem ser baixados no site kairosfirenze.wordpress.com.
Fonte: IHU

MTST ocupa tríplex no Guarujá que levou Lula à prisão

Em uma ação que consumiu menos de cinco minutos, cerca de 30 militantes sem-teto invadiram nesta segunda (16) o apartamento tríplex atribuído ao ex-presidente Lula e pivô de sua condenação na Lava Jato.


A reportagem é de Catia Seabra e Mônica Bergamo, publicada no br.noticias.yahoo.com, em 16/04/2018

Em uma ação que consumiu menos de cinco minutos, cerca de 30 militantes sem-teto invadiram nesta segunda (16) o apartamento tríplex atribuído ao ex-presidente Lula e pivô de sua condenação na Lava Jato.

O grupo faz parte do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), coordenado por Guilherme Boulos, pré-candidato à Presidência pelo PSOL e uma das lideranças sociais mais próximas de Lula.

“É uma denúncia da farsa judicial que levou Lula à prisão. Se o tríplex é dele, então o povo está autorizado a ficar lá. Se não é, precisam explicar por que ele está preso”, diz Boulos.

A ação foi acompanhada pela reportagem da Folha de S.Paulo. Cerca de cem pessoas, divididas em 20 ônibus, chegaram ao edifício Solaris de madrugada para o ato.

Uma parte do grupo, cerca de 30 militantes, pulou as grades de acesso ao prédio e subiu 16 lances de escada. Ao chegar ao apartamento, após arrombamento da porta, os militantes encontraram uma geladeira, um fogão e um micro-ondas, além de camas.

Eles fixaram bandeiras do movimento na varanda com vista para o mar. Da sacada do prédio, gritam: “Não tem arrego. Ou solta o Lula ou não vai ter sossego”.

Integrante da Frente Povo Sem Medo, da qual o movimento faz parte, Andreia Barbosa afirma que o grupo ficará o tempo que for necessário para fazer uma demonstração de que Lula é inocente. “Se o apartamento é do Lula, ele que peça a integração de posse”, diz Andreia.

A Polícia Militar foi acionada e está no local.

Um representante do condomínio bateu na porta, que esta travada por um pedaço de madeira, e perguntou se os militantes tinham ciência de que estavam cometendo um crime. Em resposta, ouviu que só deixarão apartamento com decisão judicial.

ALIADO

Boulos esteve ao lado de Lula o tempo todo no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, nas horas que antecederam a prisão, e mobilizou integrantes de um acampamento próximo para engrossarem as manifestações em torno do prédio que pediam que o petista não se entregasse.

No dia da prisão, ao discursar em uma missa em homenagem a dona Marisa, Lula chamou Boulos para a frente do caminhão de som e disse que ele tinha “futuro”.

Um dia depois, Lurian, a filha de Lula, discursou para integrantes do MTST, agradeceu o apoio e disse que Boulos era como “um filho” para Lula.

Lutas, conquistas e perspectivas!

75 anos da CLT - 30 anos da Constituição Federal de 1988 - 02 anos do Golpe.

Em 2018 lembramos os setenta e cinco anos da CLT, os trinta anos da Constituição Federal de 1988 os dois anos anos do golpe.

A CLT e a  Constituição Federal  são conquistas do povo,  da classe trabalhadora que vem sendo constantemente atacadas desde o golpe.

O direito de se orgulhar é de quem ousa lutar e resistir.

Desigualdade no Brasil é o dobro da oficial


Desigualdade no Brasil é o dobro da oficial

Ano a ano, pesquisas reforçam que o Brasil é um país desigual. Porém, um levantamento mostra que a concentração de renda é ainda mais alarmante do que as estatísticas oficias reportam. Dados divulgados na quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, em 2017, as famílias da classe A ganharam 22 vezes a renda das famílias das classes D/E. No entanto, esse abismo social tem quase o dobro do tamanho – a diferença entre os extremos da pirâmide é de cerca de 42 vezes.

A reportagem é de Anna Carolina Papp, publicada por O Estado de S. Paulo, 14-04-2018.

Levantamento da Tendências Consultoria Integrada com base em dados da Receita Federal mostra que, em 2016, as famílias com renda mensal acima de 20 salários mínimos abocanhavam 38% da renda nacional. Já segundo os dados oficiais, da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (Pnad), a classe A detinha apenas 14,9% da massa de renda.

Os economistas Adriano Pitoli e Camila Saito, responsáveis pelo estudo, fizeram uma espécie de Pnad “ajustada” para chegar a um número mais preciso sobre distribuição de renda. Para as famílias com ganhos de até cinco salários mínimos por mês, foram utilizados os dados tradicionais da Pnad. Já para a população que ganha acima desse valor, foram consideradas as declarações de Imposto de Renda. Os dados de 2016 estão consolidados. Já o de 2017 é uma projeção com base no histórico, uma vez que as informações da Receita referentes a 2017 só serão divulgados ao final deste ano.

“Apesar de já apontar enorme desigualdade, a Pnad tende a subestimar os dados de renda, pois as pessoas não informam corretamente o seu rendimento”, diz Adriano Pitoli. Ele explica que a Pnad, por ser declaratória, não mensura de forma precisa algumas fontes de renda, como ativos financeiros, aluguéis e ganhos eventuais, como dividendos, indenizações e FGTS.

A pesquisa aponta ainda que a subestimação fica maior à medida que se avança na pirâmide. Nas famílias com renda de cinco a dez salários mínimos por mês, a massa de renda ajustada pela Receita é 25% maior do que a apurada pelo IBGE. Entre os brasileiros que ganham entre 20 e 40 salários mínimos, o número ajustado é mais que o dobro do oficial – 159,6%. Já na faixa de brasileiros com ganhos acima de 160 salários, a diferença é gritante – quase 120 vezes maior.

A desigualdade se deteriorou por conta da crise e o impacto é maior sobre as extremidades – os mais pobres e os mais ricos”, diz Pitoli. Ele afirma que, se por um lado a significativa participação de empregadores na classe A (27% dos chefes de domicílio) possibilita reações mais agudas e rápidas em períodos de recessão ou de recuperação, o elevado peso de servidores nesse estrato tende a atenuar esse efeito. Além disso, a despeito das perdas com a crise, as classes mais altas tiveram um grande ganho financeiro nesse período, uma vez que os juros estavam em patamar elevado.

Mesmo a comemorada evolução da massa de renda real em 2017 (2,3%), após dois anos de retração, esconde desigualdade. Os empregadores foram os que tiveram maior queda de renda em 2016 (-6,8%), mas também, como apontou Pitoli, a mais rápida recuperação: alta de 12,4% no ano passado. Já entre os trabalhadores por conta própria, que cresceram em meio à alta do desemprego, praticamente não houve melhora (0,1%).

Tamanho do bolo. A pesquisa também mostra que o País, apesar de mais desigual, é mais rico – com o ajuste, a massa de renda total cresceu 50,4% em relação à apurada pelo IBGE. “Apesar de o ‘bolo ter aumentado’, a renda não foi acompanhada por crescimento econômico”, observa Marcelo Neri, ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pesquisador do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Nós já saímos da recessão, mas o desenvolvimento precisa vir da produtividade partilhada – que cresce mais na base. E isso acontece com educação e incentivo a pequenos negócios.

Uma linda e abençoada semana a todas e a todos!

Lembre-se: As mãos que ajudam são mais sagradas do que os lábios que rezam. 

Madre Teresa de Calcutá

Pela PAZ na Síria e em outras regiões do mundo!

Pela PAZ na Síria e em outras regiões do mundo!

“ Estou profundamente transtornado com a atual situação mundial em que, não obstante os instrumentos à disposição da comunidade internacional, não se consegue concordar uma ação comum a favor da paz na Síria e em outras regiões do mundo. Enquanto rezo pela paz, e convido todas as pessoas de boa vontade a continuarem a fazer o mesmo, me apelo novamente a todos os responsáveis políticos, para que prevaleçam a justiça e a paz.” Papa Francisco

Oração


Oração:

"Obrigado, Senhor, pelas testemunhas corajosas e «imprudentes» que continuas a enviar à tua Igreja. Obrigado pelos profetas incomodos. Uns e outros sacodem adversários e amigos, dentro e fora dos nossos ambientes, provocam a difusão do evangelho em meios onde não pareceria possível penetrar.
Dá-nos coragem para enfrentarmos decididamente incompreensões e mal- entendidos, por causa do teu nome. Dá-nos força para nos lançarmos a caminhos não andados, porque o teu evangelho há-de chegar «aos confins da terra». Amém."

Fonte: Dehonianos

Para refletir

Diz São João Bosco: "Não adianta nada ficar lamentando os males. É preciso arregaçar as mangas e dar tudo para eliminá-los".

13 abril, 2018

Árvore que não gera a morte!

É uma árvore que não gera a morte, mas a vida; que não difunde as trevas, mas a luz; que não expulsa do Paraíso, mas nele introduz. A esta árvore subiu Cristo, como um rei que sobe no carro triunfal, e venceu o demônio, detentor do poder da morte, para libertar o gênero humano da escravidão do tirano.


Sobre esta árvore o Senhor, como um valente guerreiro,ferido durante o combate em suas mãos, nos pés e em seu lado divino, curou as chagas dos nossos pecados, isto é, curou a nossa natureza ferida pela serpente venenosa.

Se antes, pela árvore, fomos mortos, agora, pela árvore, recuperamos a vida; se antes, pela árvore, fomos enganados, agora, pela árvore, repelimos a astúcia da serpente. Sem dúvida, novas e extraordinárias mudanças! Em vez da morte, nos é dada a vida; em lugar da corrupção, a incorrupção; da vergonha, a glória.


[...] 
Já desde o começo do mundo, houve figuras e alegorias desta árvore que anunciavam e Indicavam realidades verdadeiramente admiráveis. Repara bem, tu que sentes um grande desejo de saber:

Não é verdade que Noé, com seus filhos e esposas, e os animais de toda espécie, escapou da morte do dilúvio, por ordem de Deus, numa frágil arca de madeira?


E o que dizer da vara de Moisés? Não era figura da cruz quando transformou a água em sangue, quando devorou as falsas serpentes dos magos, quando separou as águas do mar como poder do seu golpe, quando as fez voltar ao seu curso normal, afogando os inimigos e salvando aqueles que eram o povo de Deus?

Símbolo da cruz foi também a vara de Aarão, quando se cobriu de folhas num só dia para indicar quem devia ser o sacerdote legítimo.


Abraão também prenunciou a cruz, quando colocou seu filho amarado sobre o feixe de lenha.

Pela cruz, a morte foi destruída e Adão recuperou a vida. Pela cruz, todos os apóstolos foram glorificados, todos os mártires coroados e todos os que crêem, santificados. Pela cruz, fomos revestidos de Cristo ao nos despojarmos do homem velho. Pela cruz, nós, ovelhas de Cristo, fomos reunidos num só rebanho e destinados às moradas celestes."


(Dos Sermões de São Teodoro Estudita, séc. IX)

*detalhes da obra iconográfica de Dom Ruberval Monteiro na Paróquia São Sebastião, de Ponta Grossa-PR


O Espírito Santo nos torna corajosos!


Para o papa o tempo pascal foram para os apóstolos "tempo de alegria" pela Ressurreição de Jesus Cristo. Mas havia duvidas entre eles, mas quando da vinda do Espírito Santo, a alegria se tornou "corajosa".

Francisco ensina que antes da vinda do Espírito Santo, eles "entendiam porque viam o Senhor, mas não entendiam tudo.Foi o Espírito Santo que os fez entender tudo".

Francisco apresenta três característica dos apóstolos:

- Obediência

Atos 5,27-33, nos mostra que os Apóstolos são levados diante do Sinédrio, onde o sumo sacerdote lhes recorda a proibição de ensinar em nome de Jesus.

E Pedro responde; "É preciso obedecer antes a Deus que aos homens". A palavra "obediência" reaparece Evangelho, Jo 3,31-36.

E Francisco, então, aponta para "uma vida de obediência" que é aquela que caracteriza os apóstolos que receberam o Espírito Santo:

Obediência para seguir a estrada de Jesus, que "obedeceu até ao fim" como no Monte das Oliveiras.
Obediência que consiste em fazer a vontade de Deus.
Obediência que é o caminho que o Filho "nos abriu", afirmou ele, para mostrar que o cristão, portanto, "obedece a Deus", assim como fizeram os apóstolos.

- Testemunho

O papa afirma que a segunda característica dos apóstolos, é "o testemunho":

"o testemunho cristão incomoda".

O testemunho cristão não conhece "meio-termo" entre o mundo e nós, mas "Conhece a paciência de acompanhar as pessoas que não compartilham o nosso modo de pensar, a nossa fé, de tolerar, mas jamais de vender a verdade":

"Primeiro, obediência. Segundo, testemunho, que incomoda tanto. E todas as perseguições que existem, daquela época até hoje... Pensem nos cristãos perseguidos na África, no Oriente Médio... Mas existem mais do que nos primeiros tempos, na prisão, degolados, enforcados por confessar Jesus. Testemunho até o fim."

- Concretude

A terceira característica a concretude dos apóstolos - falavam de coisas concretas, "não de fábulas".

Assim como os apóstolos viram e tocaram, cada um de nós, "tocou Jesus na própria vida", disse o papa:

"Acontece que muitas vezes os pecados, os comprometimentos, o medo, nos fazem esquecer este primeiro encontro, do encontro que nos mudou a vida. Eh sim, nos remete a uma lembrança, mas a uma lembrança aguada; nos faz cristãos mas como "colônia de rosas". Aguados, superficiais. Pedir sempre a graça ao Espírito Santo da concretude. Jesus passou pela minha vida, pelo meu coração. O Espírito entrou em mim. Talvez, depois, tenha esquecido, mas a graça da memória do primeiro encontro."

11 abril, 2018

Uma caravana de migrantes que lutam e sonham - Artigo de Eduardo Febbro

“A caravana é uma amostra de todos os horrores humanos sofridos pelos povos da América Central em face da indiferença global do resto dos países do Continente. O objetivo é cruzar a fronteira e entrar em território estadunidense”. A análise é de Eduardo Febbro, em artigo publicado por Página/12, 08-04-2018. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

As dóceis colinas de Oaxaca encerram o segredo do último ataque de nervos do patético presidente de peruca artificial que dirige a maior democracia do mundo. O rosto de María Colindres Ortega traz as marcas do vazio e do cansaço. Essa deputada hondurenha, do Partido Livre do ex-presidente Manuel Zelaya, é uma das integrantes da caravana de 1.500 migrantes vindos de HondurasEl Salvador e Guatemala que tinha a intenção de chegar à fronteira norte e entrar nos Estados UnidosDonald Trump ficou sabendo da intenção desses migrantes e deslocou a Guarda Nacional para a região.

Cada vez que Mister Twitt se levanta iracundo, transfere seu mau humor para o México. Desta vez, Donald Trump atravessou a fronteira com um tuite em que anunciou o deslocamento da Guarda Nacional para vários pontos da fronteira entre os Estados Unidos e o México. Com isso, retirou os alicerces da campanha eleitoral para as eleições presidenciais de 1º de julho próximo, em que os candidatos da situação, pelo menos até agora, não conseguem fazer sombra ao favorito nas pesquisas, Manuel López Obrador, à frente do movimento Morena.

O “corrido” trumpista é uma mistura de notas improvisadas que indignaram os mexicanos e, mais uma vez, obrigou a presidência a se posicionar contra o vandalismo do vizinho. Na falta de verba pública para a construção do muro entre os dois países que Trump prometeu durante a campanha presidencial, o chefe de Estado dos Estados Unidos militarizou a fronteira. As primeiras unidades das tropas da Guarda Nacionaldos Estados Unidos começaram a ser mobilizadas neste fim de semana no Arizona e no Texas.

Ao mesmo tempo, todo o aparato trumpista voltou-se para culpar o México e hasteou a bandeira de maior sucesso da extrema direita dos Estados Unidos: a imigração. O procurador-geral Jeff Sessions ordenou a implementação de uma política de “tolerância zero” com a entrada de imigrantes ilegais através da fronteira nos distritos do sul da CalifórniaArizonaNovo México, do oeste e sul do Texas. Essas gesticulações parecem ineficazes contra os apenas 90 segundos que são necessários para que um ilegal salte a cerca de seis metros que divide o território entre os dois países em pontos como Ciudad Juárez.

A raiva tuiteira contra o México tem sua origem nestas colinas de Oaxaca, capital do Mezcal e uma das mais belas regiões do México. Parte da caravana de 1.500 centro-americanos continuou sua rota, outra parou no município de Matías Romero, em Oaxaca, alguns de seus integrantes também foram para a cidade de Puebla para consultas legais e há migrantes que decidiram viajar para a capital e ver como ficam no país que, antes e depois das fanfarronadas trumpistas, lhes oferecia “um abraço de reconciliação e muita solidariedade”, segundo disse María Colindres Ortega. A história que a levou ao México com a intenção de migrar para os Estados Unidos é uma das faces mais cruéis desta região da América Latina.

A ex-deputada empreendeu a travessia mais perigosa depois que o candidato presidencial Juan Orlando Hernández venceu as eleições em um clima marcado por suspeitas e fraudes tão evidentes que até mesmo a Organização dos Estados Americanos (OEA) considerou-as irregulares. A manchada vitória de Juan Orlando Hernández provocou a morte de pelo menos 30 pessoas e depois uma repressão sistemática dos líderes sociais e políticos de Honduras. A perseguição colocou a ex-deputada a caminho do exílio. “É um abismo para mim. Eu tive que fugir de Hondurase deixar meus sete filhos lá. Pensei que cruzaria a fronteira com os Estados Unidos e ali pediria asilo político. Agora eu não sei como tudo isso vai acabar”.

A caravana é uma amostra de todos os horrores humanos sofridos pelos povos da América Central em face da indiferença global do resto dos países do Continente. Cegados pela Venezuela, os governos liberais não dizem uma única palavra sobre os crimes contra a humanidade cometidos aos povos da América Central. Pablo, um salvadorenho que fugiu com toda a sua família, escapou da chantagem, dos assassinatos e roubos das gangues criminosas que pululam no país. Todos parecem ter saído do inferno.

“É mais seguro atravessar o México do que ficar no nosso país”, revelou Jorge Vinedos, guatemalteco que saiu com sua família e algumas tralhas nas costas. Outros migrantes escaparam da perseguição sexual. Na caravana há cerca de uma dúzia de hondurenhos ligados à comunidade LGBT. Ninguém quer dar o seu nome e não há necessidade de perguntar sobre as agressões ou os espancamentos que sofreram. No corpo estão gravadas as profundas cicatrizes das torturas e dos espancamentos com que foram punidos.

Os integrantes da caravana não esperavam nem a reação de Trump, nem a solidariedade dos oaxaquenhos. “Quando vimos as primeiras mulheres chegarem com pratos de arroz, feijão e muitos outros alimentos, não conseguimos acreditar. Não vinham ao nosso encontro para nos chutar ou maltratar. Elas nos traziam a vida”, conta Marta, uma salvadorenha que começou nas estradas com seus dois filhos e sua sogra e parou na cidade de Matías Romero junto com os outros.

México é apertado por três nós: sua própria migração para o norte, a chegada dos migrantes vindos de Cuba ou da América Central com o único objetivo de atravessar a fronteira com os Estados Unidos e as iracundas e grosseiras mensagens de DonaldTrump. O tuite de Trump com a decisão de mobilizar a Guarda Nacional para impedir a entrada desses migrantes acabou por lhes fazer um favor: destapou uma onda de solidariedade nacional e, mais uma vez, colocou Trump como um fantoche sem inspiração ou senso político para nada.

O presidente dos Estados Unidos acusa o México de não mover as peças para impedir a imigração ilegal, mas os números contradizem seus ataques de baixo nível patriótico. De acordo com dados de ambos os lados, enquanto as deportações de mexicanos e centro-americanos atingiram porcentagens históricas nos Estados Unidos, a travessia de ilegais atingiu igualmente mínimos históricos. “São gesticulações de política interna que acabam atingindo o México”, diz Rodrigo Abeja, um dos responsáveis pela organização Povos sem Fronteiras, que agora apoia legalmente a caravana de migrantes em seus esforços junto às autoridades do México e dos Estados Unidos.

Não é a primeira vez que Washington militariza sua fronteira com o México, mas Donald Trump faz isso com a única metodologia que sabe usar: a agressão, a ofensa, a mentira e a humilhação do país vizinho. No sábado, no exato momento em que a Guarda Nacional estava se instalando na fronteira em apoio à Patrulha de FronteiraTrump tuitou outra de suas malvadezas: “Estamos selando a nossa fronteira sul. As pessoas do nosso grande país querem segurança e proteção”. Tudo está dito nos pontos suspensivos que se seguem. Para o Mister Tweet, o México é a insegurança. Para o presidente, essas tropas são “o início do muro”.

Na última quinta-feira, o presidente mexicano Peña Nieto respondeu a Trump através das redes sociais. Com uma mistura de tato político e ironia, o presidente mexicano disse: “Presidente Trump, se você quiser chegar a acordos com o México, estamos prontos. Como demonstramos até agora, estamos sempre dispostos a dialogar com seriedade, com boa fé e com um espírito construtivo. Se suas recentes declarações derivam de frustrações decorrentes de questões de política interna, de suas leis ou do seu Congresso, dirija-se a eles e não aos mexicanos. Não vamos permitir que a retórica negativa defina nossas ações. Nós só vamos agir no melhor interesse dos mexicanos”.

Com o argumento da caravana dos migrantes centro-americanos, Trump conseguiu colocar algumas pedras militares em seu sonhado muro. O problema, no entanto, continua a ser do México, em plena campanha eleitoral, e dos migrantes. A caravana foi se dispersando sem que muitos de seus integrantes desistissem de seu projeto de chegar à fronteira para pedir asilo político. As possibilidades são remotas.

Os membros das ONGs norte-americanas que se transferiram para o México para assessorar os imigrantes adiantam números impressionantes. Um deles, Alex Mensing, recorda que em 2017, “do grupo de cerca de 200 pessoas que pediram asilo, apenas três conseguiram. O resto segue esperando até hoje”. Estão agora ali, divididos entre OaxacaPuebla e algumas cidades perto da Cidade do México. Eles são as vítimas e os heróis desse desastre humano: o ogro do norte usa os migrantes para alimentar os seus eleitores e seus furibundos aliados da extrema direita. O México sofre de ambos os lados, e eles param onde podem, ali onde uma mão mexicana lhes oferece água, teto, arroz e feijão com os quais saciarão a fome, a solidão e o desamparo até que volte a amanhecer, e saberá Deus como será o seu destino nesse novo dia desta infinita noite do migrante.

Fonte: IHU