Silenciar para compreender a si mesmo e aos outros. E também silenciar para levar os outros a te compreender...
03 julho, 2020
Reflexão sobre Maria Madalena, texto de Mercedes Lopes
Leia a reflexão sobre Maria Madalena, texto de Mercedes Lopes.
(CEBI – Boletim Por Trás da Palavra n. 143, 2004, p. 17-21)
Normalmente, quando se pergunta a uma pessoa quem foi Maria Madalena, ela responde quase sem pensar: uma pecadora arrependida. No entanto, nenhum texto dos evangelhos diz que Maria Madalena foi pecadora pública. Que dizem os evangelhos sobre ela?
Nos evangelhos, Maria Madalena é a mulher mais citada pelo nome. Além disso, ela aparece sempre realizando funções muito importantes para as origens do Cristianismo:
- Como discípula de Jesus (Lc 8,1-3);
- Como testemunha da sua crucifixão (Mc 15,40-41; Mt 27,55-56; Lc 23,49; Jo 19,25);
- Como testemunha do seu sepultamento (Mc 15,47; Mt 27,61);
- Como testemunha da sua ressurreição (Mc 16,1-8; Mt 28,1-10; Lc 24,1-10; Jo 20,1;20,1 1-8);
- Como enviada aos Onze com uma mensagem de Jesus (Mt 28,10; Jo 20,17-18).
Chama a atenção o fato de Maria Madalena ser citada em primeiro lugar em todos estes textos. A única exceção é Jo 19,25, onde a mãe de Jesus aparece em primeiro lugar. A citação de Maria Madalena em primeiro lugar parece indicar sua liderança no grupo das discípulas de Jesus. Além disso, o Evangelho de Marcos deixa claro que ela e suas companheiras eram modelo para as pessoas da comunidade que buscavam seguir Jesus: Elas o seguiam e serviam quando estava na Galileia. E ainda muitas outras que subiram com ele para Jerusalém (Mc 15,40-41). Sabemos que o serviço amoroso é uma das características que marcava a identidade dos discípulos e discípulas de Jesus, segundo a comunidade de João: Vocês devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei o exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz (Jo 13,14-15). Na comunidade de Marcos, a pessoa mais importante é aquela que se coloca a serviço de todos (Mc 9,35). Então, como foi que transformaram a discípula modelo em pecadora arrependida?
Que horror, ela tinha sete demônios!
Teriam interpretado mal a expressão Maria Madalena, da qual haviam saído sete demônios? (Lc 8,2). Esta expressão, que aparece somente em Lucas e no apêndice de Marcos (Mc 16,9), criou uma série de preconceitos contra Maria Madalena. Mas para o Evangelho de Lucas, a possessão não significa pecado e, sim, doença. O número 7, sempre simbólico, parece indicar a gravidade da situação. Dentro do contexto de Lucas, podemos interpretar que Maria Madalena padecia de uma grave doença nervosa ou psicossomática. No encontro com Jesus, ela recupera a harmonia interior e entra em um processo de crescimento e amadurecimento pessoal, até atingir a plenitude do seu ser na experiência pascal.
Seu gesto era de arrependimento e muito amor
Teriam confundido Maria Madalena com a pecadora anônima que lavou os pés de Jesus com suas lágrimas e os secou com seus cabelos? (Lc 7,36-50). Porém, não há neste texto de Lucas nenhuma relação entre a moça do perfume e Maria Madalena. Segundo o texto de Marcos, que já citamos, Maria Madalena seguia Jesus desde a Galileia. Portanto, ela devia ser conhecida na tradição por seu nome: Maria, e sua procedência: Magdala. A mulher que é apresentada neste texto de Lc 7,37 parece que não pertencia à comunidade dos discípulos e discípulas. É uma mulher marginalizada, anônima, corajosa e decidida, que toma a iniciativa de entrar na casa de Simão, o fariseu, e fazer com Jesus o rito de acolhida que seu anfitrião havia omitido. Rito que era muito importante para as pessoas que percorriam longas distâncias a pé, pelas estradas poeirentas da Palestina.
Quanta confusão!
E a confusão continua, pois aquela mulher anônima do episódio narrado por Lc 7,36-50 passou a ser identificada com as mulheres anônimas que ungiram Jesus para a sepultura (Mc 14,3-9 e Mt 26,6-13). Uma leitura atenta destes textos vai mostrar que os ritos que realizam são diferentes. No texto de Lucas, o próprio narrador trata de esclarecer que se trata de um rito de acolhida e coloca esta explicação no diálogo de Jesus com Simão. Nos Evangelhos de Marcos e de Mateus, o rito está situado no contexto da Páscoa. Marcos faz questão de informar que faltavam apenas dois dias para a Páscoa e os Ázimos (Mc 14,1). Mostra que o contexto era conflitivo, pois a execução de Jesus já estava decidida: os chefes dos sacerdotes e os fariseus apenas procuravam um ardil para matá-lo (Mc 14,1b). É justamente neste contexto que está a unção de Jesus, feita por uma mulher anônima (Mc 14,3-9). O texto de Marcos está muito próximo do texto de João 12,1-8. Tanto Marcos como João nos contam que o perfume derramado pela mulher no corpo de Jesus era nardo puro (Mc 14,3 e Jo 12,3). Marcos nos informa ainda que este episódio da unção para a sepultura se passou em Betânia (Mc 14,3). Tudo isso parece ligar os textos de Marcos, Mateus e João (Mc 14,3-9; Mt 26,6-13 e Jo 12,1-8) e ajuda a compreender a importância desde ritual. Sua protagonista parece ser Maria de Betânia, a irmã de Marta e de Lázaro. O gesto de unção de Jesus para a sepultura é ao mesmo tempo profético e solidário com seu projeto e sua entrega sem limites.
Mulher chorona, de cabelos compridos e perfumados
A imagem de Maria Madalena está ligada a cabelos compridos, perfume e lágrimas. Sabemos que a tradição das lágrimas está relacionada à sua angustiosa busca do corpo de Jesus, naquela madrugada do primeiro dia da semana (Jo 20,1.11-18). Mas perfume e cabelos longos expressam a identificação de Maria Madalena com Maria de Betânia, a irmã de Marta, que segundo o Evangelho de João foi quem ungiu Jesus para o sepultamento (Jo 12,1-8). E aqui vale a pena falar um pouco mais de Maria de Betânia, a discípula que gostava de ficar sentada aos pés de Jesus, escutando-o (Lc 10,39). Discípula amada (Jo 11,5), que consegue encher a casa (comunidade) de perfume (Jo 12,3). Seu gesto amoroso será repetido por Jesus na celebração da Ceia (Jo 13,2-5). Segundo Jesus, em memória dela, seu gesto seria contado onde quer que fosse proclamado o Evangelho (Mc 14,9).
Ela foi investida de autoridade
Maria permaneceu no jardim, procurando Jesus, depois que Pedro e o outro discípulo foram embora. Ela chorava angustiada e confundiu Jesus com o jardineiro. No entanto, ela o reconhece imediatamente quando Jesus a chama pelo nome. Em toda a Bíblia, chamar pelo nome faz parte dos relatos de missão. Às vezes, acontece mudar o nome, para indicar a missão que a pessoa vai realizar. Mas, em Jo 20,16, Jesus a chama pelo nome com que sempre a havia chamado – talvez do mesmo jeito e com o mesmo tom de voz. E provavelmente Maria responde também da maneira como sempre o tratou: Rabuni. Sem pretender ser fundamentalista, quero mostrar como neste relato simbólico se revela a importância da missão de Maria Madalena nas primeiras comunidades cristãs: Maria é chamada pelo nome; reconhece imediatamente a voz de Jesus; chama-o de Mestre em aramaico; depois, é enviada por Jesus com uma mensagem para os outros discípulos. Da maneira como este episódio é descrito, parece um evento de fundação, no qual Maria Madalena foi investida de autoridade.
De onde vem a confusão?
Esta confusão a respeito de Maria Madalena pode ter muitas causas. Uma delas pode ser uma leitura muito rápida dos textos bíblicos, ou mesmo um exemplo da pouca importância que se dá à memória do discipulado das mulheres. Até pode ser que a intenção tenha sido a de buscar na figura de Madalena como uma pecadora arrependida um apelo à conversão, mostrando como todos os pecados podem ser perdoados quando a pessoa se arrepende. No entanto, parece haver urna intenção menos explícita, parecida com estas propagandas que hoje se faz através das novelas. De maneira sutil, a deturpação da figura de Maria Madalena mantém uma velha atitude de suspeita em relação às mulheres, passando a ideia de que sua natureza e seus corpos são espaços perigosos, de possessão demoníaca, identificada com pecado. Os corpos inferiorizados e culpabilizados são mais facilmente submetidos.
Desta maneira, a discípula fiel, que acompanhou Jesus durante sua vida pública, a amiga e companheira que esteve presente na crucifixão e que permaneceu diante do túmulo; aquela que fez a maravilhosa experiência da ressurreição, podendo afirmar com toda a convicção Vi o Senhor!, foi transformada em pecadora arrependida. Mesmo que esta deturpação da figura de Maria Madalena não fosse muito consciente, ela é um desvelamento do medo que o androcentrismo tem de perder o poder. Se a tradição da discípula e apóstola permanecesse, haveria o perigo de que as mulheres descobrissem a sua importância nas origens do Cristianismo e se sentissem animadas a assumir com autoridade, dignidade e pleno direito seus espaços de reflexão, decisão e também no ministério ordenado das igrejas cristãs. Estariam lado a lado com os homens, mantendo a memória fiel de Jesus de Nazaré, fazendo circular o amor pleno e sem medo, exercendo o poder de defender e fortalecer a vida.
Fonte: CEBI
Com islâmicos, Brasil tenta esvaziar resolução sobre direito das mulheres
O governo de Jair Bolsonaro aprofunda uma postura ideológica em negociações diplomáticas sobre uma resolução que condena a discriminação de gênero e tenta fortalecer o direito das mulheres. O texto sob consideração no Conselho de Direitos Humanos da ONU ganhou importância principalmente no momento em que a pandemia revela a disparidade no mundo e como a crise vem afetando de forma desproporcional as mulheres...continue lendo aqui
02 julho, 2020
01 julho, 2020
Papa Francisco nomeia dom Severino Clasen para a arquidiocese vacante de Maringá (PR)
O Papa Francisco nomeou nesta quarta-feira, 1º de julho, dom Severino Clasen como bispo da arquidiocese de Maringá (PR). A circunscrição religiosa estava vacante desde o dia 20 novembro de 2019, quando o pedido de renúncia por motivo de saúde de dom Anuar Battisti foi aceito pelo Santo Padre. Desde 4 de setembro de 2011, dom Severino é bispo titular da diocese de Caçador (SC). A diocese de Maringá estava sob os cuidados de dom João Mamede Filho, bispo de Umuarama (PR).
Trajetória do novo bispo de Maringá
Dom Severino Clasen tem três irmãos e quatro irmãs, sendo duas delas religiosas da Congregação Franciscanas de São José. Ingressou no seminário menor em 1968, em Ituporanga (SC).
Severino Clasen tornou-se franciscano ao ingressar na província da Imaculada em janeiro de 1976. Em seguida, fez os estudos de Filosofia e Teologia no Instituto Teológico de Petrópolis e foi ordenado sacerdote em 10 de julho de 1982. Neste mesmo mês, passou a ser vigário paroquial de Concórdia, em Santa Catarina, e em 1988 foi transferido para Porto União. No ano seguinte, tornou-se o responsável pela pastoral vocacional da província da Imaculada.
Foi reitor e pároco do Santuário São Francisco, no Largo São Francisco de São Paulo, e foi nomeado bispo para a diocese de Araçuaí (MG), no Vale do Jequitinhonha, em 11 de maio de 2005.
Foi ordenado bispo por dom Lorenzo Baldisseri, então núncio apostólico no Brasil, no dia 25 de junho de 2005, na cidade de Ituporanga. A posse episcopal ocorreu no dia 10 de julho de 2005, em Araçuaí. Seu lema episcopal é “Acolher e cuidar”. No dia 11 de maio de 2011, foi eleito presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), tendo sido reeleito para um mandato que exerceu até 2019.
No dia 6 de julho de 2011, o Papa Bento XVI o nomeou para a diocese de Caçador (SC), transferindo-o da diocese de Araçuaí. Dom Severino foi empossado no dia 4 de setembro de 2011. Atualmente é presidente do Regional Sul 4 da CNBB, eleito na última 57ª Assembleia da CNBB.
30 junho, 2020
28 junho, 2020
24 junho, 2020
Hoje choro pela vida tirada de meu primo Leandro pela Covid-19
Leandro pertencia a Paróquia São Mateus Apóstolo, cidade de Maringá – Pr. Seus pais graças a Deus recuperam da Covid-19, Leandro não conseguiu, mais uma vida tirada pelo coronavírus.
Que bom que não seja verdade, mas percebo que o isolamento tem levado ao distanciamento, a incapacidade de sentir a dor do outro, ao distanciamento do outro, o papa Francisco esses dias escreveu "Deus nos criou para a comunhão, para a fraternidade, e agora, mais do que nunca, mostrou-se ilusória a pretensão de focar tudo sobre si mesmo".
Ilusória, mas muitos as/os envolvidos por essa pretensão de si mesmo, fortalecido pelo uso das redes sociais, num mundo que supervaloriza o status e as aparências.
Nós lideranças leigas e ordenadas precisamos ficar atentos, quando distanciamos da base (CEBs, Paróquias, Arq/Dioceses), deixamos de pastorear. Quando o apóstolo Pedro diz “pastoreai o rebanho de Deus” (1Pedro 5.2), ele tem tudo isso em mente. Um pastor do povo de Deus é responsável por cuidar dele.
É preciso refletir, como nós lideranças leigas e ordenadas estamos nos comportando e agindo nesse período marcado por angustias, dores, desesperanças e isolamento. Como nós estamos usando nossas redes sociais particulares e de nossas CEBs, Paróquias e Arq/Dioceses.
A frase do papa Francisco “a pretensão de focar tudo sobre si mesmo” é ampla, vário sentidos, social, econômico, político e pastoral. Quando focamos em nós mesmo, deixamos de pastorear, distanciamos da base a ponto de não ver o sofrimento de quem devemos cuidar.
Distanciar da base, do rebanho é perigoso, focar em outra direção pode levar a perder o gosto ou ao distanciamento da missão de cuidar das ovelhas. Em nossas paróquias, na Rua da CEBs onde moramos, a dores e sofrimentos e nós estamos sabendo, estamos sendo solidários, ou estamos distante, usando o nosso tempo focado em outra direção.
Não podemos nos distanciar da base porque ela nos provoca, leva a compartilhar sentimentos, de entender e comprometer com o que outro sente, nos faz mais humano. Temos as redes sociais particular e as redes sociais das CEB, Paróquia e das Arq/Dioceses, como elas estão sendo usadas por nós lideranças, precisamos nos organizar para que essas redes sociais sejam usando com o nosso povo, principalmente com nossas lideranças, para levar a não distanciar da base e comprometer-se com elas, porque é preciso cuidar do rebanho que esta ferido, machucado, é preciso aproximar, sorrir e também chorar junto.
Tenho conversado com o padre Genivaldo sobre a necessidade do uso das redes sócias para esse objetivo. Temos as redes sociais da CEBs de Maringá, a paróquia onde ele é pároco também tem suas redes sociais. Ele esta pensando sobre, vamos nos organizar. Deixemos ser guiados pelo Espírito Santo, fiquemos atentos porque para o Espírito Santo agir precisamos nos abrir a Ele.
O nosso Deus que é todo amor acolhe em seus braços o Leandro e tantos outr@s que fizeram sua passagem tendo suas vidas tiradas pelo Covid-19 e esse nosso Deus que caminha sempre conosco dê força aos familiares e amigos.
23 junho, 2020
Prece
Rezemos juntos, para que o nosso Deus nos de a graça de não
termos medo, de sermos fortes com voz profética diante dos desafios da via,
mesmo se não formos compreendidos, mas o nosso Deus nos ama e nos protege
sempre, e não tenhamos dúvidas que a profecia é dom de Deus, a palavra
profética se revela a todas e a todos que tem coração humilde.
Restituição para Base
"Santidade, temos medo de sermos tentados pela inércia, mas pensamos que talvez V.S. espere de nós, pessoas de fé que tanto receberam dos carismas da Igreja pós-conciliar, uma disponibilidade de restituir com nosso testemunho o sinal do que recebemos ao longo dos anos, também da Comunidade de Bose. Pedimos para conhecer como demonstrá-lo, recebendo plena luz sobre os objetivos e propósitos de uma intervenção, não usual, por parte da Igreja", escrevem vários autores ao Papa Francisco, em carta publicada por Settimana News, 22-06-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a carta.
Sua Santidade, Papa Francisco,
Conhecendo Vossa atenção pastoral e o carinho que O une ao seu rebanho, escrevemos porque recorremos a V.S. por um motivo que consideramos muito importante.
O motivo é a situação em que se encontram hoje muitas pessoas de fé que há décadas frequentam a Comunidade de Bose como local de reflexão, oração, formação, levando depois seu testemunho e seu empenho até as paróquias e os lugares onde vivem e trabalham. Um grande número de pessoas que, não apenas na Itália, estão passando por um grande sofrimento, desconforto e perplexidade nos últimos dias, devido às notícias vindas da Comunidade após o decreto singular da Santa Sé de 13 de maio. Muitos outros crentes, que só ouviram falar de Bose, estão neste momento expressando sua preocupação na mídia, temendo serem deixados "no meio do nevoeiro" com relação às suas perguntas, tendo que confiar em notícias contraditórias que também podem causar muito dano.
Também nós, que estamos escrevendo, um grupo pequeno, mas talvez representativo, acompanhamos com apreensão as notícias destes dias, oramos nos dias de Pentecostes ao Espírito, para que a Comunidade, com o apoio adequado, pudesse mostrar gestos exemplares de misericórdia; agora estamos desorientados porque não entendemos a prorrogação desse silêncio em relação ao que foi decidido. Não, não é curiosidade, Santo Padre, nem queremos cair na tentação de "eu sou de Paulo, eu de Apolo e eu de Cefas", pelo contrário: precisamos de transparência para dar testemunho de unidade, de participação plena no sofrimento de todas as pessoas envolvidas, para entender a perspectiva da Igreja, que hoje interveio com propósitos que não conhecemos e, não estando informados, não entendemos.
Estamos cientes das precauções necessárias de discrição sobre as vivências e as relações, mas não entendemos por que justamente as pessoas envolvidas não possam conhecer as razões das decisões, enquanto nós precisamos entender em que contexto vivemos a nossa fé, quais são os obstáculos que nós também teremos agora que enfrentar. De fato, não conseguimos intuir para que direção a Comunidade será acompanhada e de que formas diferentes ela poderá continuar a expressar, sem as pessoas que constituem suas históricas raízes, plena continuidade em relação ao esforço de radicalidade evangélica e de diálogo ecumênico.
De nossa parte, para sermos fiéis ao dever de testemunhar a Verdade como essencial vocação batismal, pensamos que não poderíamos nos permitir sermos meros espectadores. Depois de refletir, orar pela comunidade, pelas pessoas envolvidas, pelas hierarquias eclesiásticas, por nós mesmos, ora acreditamos que devemos pedir o dom da confiança de sermos considerados cristãos sempre em caminho, mas já adultos o suficiente para conseguir entender a complexidade da situação.
Santidade, temos medo de sermos tentados pela inércia, mas pensamos que talvez V.S. espere de nós, pessoas de fé que tanto receberam dos carismas da Igreja pós-conciliar, uma disponibilidade de restituir com nosso testemunho o sinal do que recebemos ao longo dos anos, também da Comunidade de Bose. Pedimos para conhecer como demonstrá-lo, recebendo plena luz sobre os objetivos e propósitos de uma intervenção, não usual, por parte da Igreja.
Estamos confiantes, Papa Francisco, de que Sua preocupação com todas as formas de sofrimento e sua incansável missão de parrésia farão com que compreenda plenamente nosso sofrido pedido. Oramos por V.S., como muitas vezes nos pede, para que possa sempre continuar nesse caminho, que abriu tantos corações e doado tantos momentos de autêntica Esperança.
Fonte: IHU
21 junho, 2020
Pai Nosso dos Mártires
Pai Nosso dos Mártires
Pai nosso, dos pobres marginalizados
Pai nosso, dos mártires, dos torturados
Teu nome é santificado naqueles que morrem defendendo a vida
Teu nome é glorificado, quando a justiça é nossa medida
Teu reino é de liberdade, de fraternidade, paz e comunhão
Maldita toda a violência que devora a vida pela repressão
Queremos fazer tua vontade, és o verdadeiro Deus libertador
Não vamos seguir as doutrinas corrompidas pelo poder opressor
Pedimos-te o pão da vida, o pão da segurança, o pão das multidões
O pão que traz humanidade, que constrói o homem em vez de canhões
Perdoa-nos quando por medo ficamos calados diante da morte
Perdoa e destrói os reinos em que a corrupção é a lei mais forte
Protege-nos da crueldade, do esquadrão da morte, dos prevalecidos
Pai nosso revolucionário, parceiro dos pobres, Deus dos oprimidos
Pai nosso, revolucionário, parceiro dos pobres, Deus dos oprimidos
Pai nosso, dos pobres marginalizados
Pai nosso, dos mártires, dos torturados
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Zé Vicente, cantor, poeta, músico, compositor.
20 junho, 2020
19 junho, 2020
A MORTE NÃO PEDE LICENÇA - Celso Pinto Carias (“mendigo de Deus”)
"Que possamos, quando o vírus não mais nos assustar, abraçar as pessoas e dizer que a vida não se consume pelo ter, que a vida de todos os seres humanos e do planeta dependerá de nossa capacidade de encontrar um VIVER capaz de harmonizar todas as dimensões da vida."
A MORTE NÃO PEDE LICENÇA
Celso Pinto Carias (“mendigo de Deus”)
Esta semana tive notícia de três mortes bem dramáticas. Um presbítero meu colega na PUC-Rio, que conhecia há anos, Pe. Marcos, 52 anos, levado pela COVID; uma criança, 7 anos, afilhada de um amigo, Larissa; e Caio, jovem de 28 anos, filho de um casal amigo. A criança fez um transplante que não deu certo, e o jovem estava à espera de um.
Meu pai morreu aos 54 depois da quinta operação de hérnia, minha mãe aos 62 por um infarto dentro de um ônibus, e minha irmã mais nova aos 46. Uma amiga, com pouco mais de 40 anos, Rosangela, depois de ir a uma missão na África, morreu de malária, pois a identificação aqui no Rio do tipo de malária demorou.
Finalmente, a COVID-19 já deixou enlutada quase 50 mil famílias. Muitas vidas poderiam ter sido salvas se não fosse este desgoverno geral em suas várias instâncias.
A morte sempre envolve muitos sentimentos. E, em muitos casos, dependendo da situação, tais sentimentos podem causar muito sofrimento. Quando o pai de Caio me ligou fiquei muito triste, pois não tinha muito que dizer para o meu amigo.
O que tudo isso pode nos ensinar? São Francisco de Assis chamava a morte de irmã. Esta pandemia, por exemplo, pode mostrar para nós que uma sociedade com alto grau de empatia com o outro é capaz de superar muita dificuldade. É capaz até de vivenciar a morte como uma dor que deixa a marca profunda da saudade, mas que não nos impede de continuar buscando o real sentido da vida. E por isso, podemos olhar para ela e chamar de irmã.
Porém, podemos passar pela pandemia continuando a construir uma sociedade que se isola da compaixão, e não da proteção, ou que pensa no sapato que deve comprar no shopping ou quinquilharias na Rua Uruguaiana no Centro do Rio, como substitutos do viver, como drogas que dão satisfação momentaneamente, e por isso, quando a morte chega, olhar para ela com grande medo. Uma sociedade assim está fadada a encontrar a morte como um terror, como uma experiência de individualismo tão grande que causará mais sofrimento ainda, que nenhum remédio é capaz de curar.
Penso que nossas orações não devem implorar por não morrer, pois todos e todas morremos. Mas deve implorar por aprender a morrer. Ouvi muita dor na voz do meu amigo, mas ouvi algo muito edificante também: “quem sabe não seja o melhor, são anos de internações e sofrimentos”.
Senhor, que possamos aprender a morrer. Que possamos estar do lado dos que sofrem com uma esperança que aponta para a plenitude da vida que começa aqui e agora em cada gesto de amor. Que possamos, quando o vírus não mais nos assustar, abraçar as pessoas e dizer que a vida não se consume pelo ter, que a vida de todos os seres humanos e do planeta dependerá de nossa capacidade de encontrar um VIVER capaz de harmonizar todas as dimensões da vida. E assim, poderemos olhar para a morte como parte de nosso processo existencial e poder abraça-la como irmã.
18 junho, 2020
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