O que segue a baixo, é newsletter, recebido em meu e-mail, do "Brasil de Fato (19/06/2026)
O fentanil e a mentira da guerra às drogas
Em 27 de maio de 2026, o senador Flávio Bolsonaro reuniu-se com Donald Trump em Washington e pediu que os Estados Unidos declarassem o PCC e o Comando Vermelho organizações terroristas estrangeiras. Um dia depois, o Departamento de Estado (DEA) anunciou a classificação. Em 5 de junho, ela entrou em vigor.
O governo brasileiro rejeitou a medida. O Ministério da Justiça já havia concluído, em 2025, que as facções não se enquadram na lei antiterrorismo brasileira por não terem motivação ideológica, política ou religiosa. Para o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a decisão americana é uma "forçação de barra" com "caráter político muito mais do que técnico". Concordamos.
A rejeição à medida não neutraliza as consequências práticas. Sob a legislação estadunidense, organizações designadas como terroristas estrangeiras podem ser alvo de congelamento de bens, bloqueio de transações internacionais e, em casos precedentes, de operações militares em território de terceiros países. Faz parte da construção de uma narrativa que busca justificar o injustificável, embasando parte da opinião pública para atuação de medidas políticas e militares. Mais uma vez os EUA estão agindo como donos do mundo.
Já vimos isso acontecer diversas vezes na América Latina. O desespero de perda de controle de Trump o faz retomar muitas medidas que recuperam e atualizam a Doutrina Monroe.
O mesmo roteiro
O discurso do combate às drogas como instrumento de intervenção é tão antigo quanto o imperialismo estadunidense.
Em 1989, Manuel Noriega, general panamenho que, durante anos, serviu à CIA, foi preso e extraditado sob acusação de narcotráfico quando deixou de ser útil a Washington. Na Colômbia, o Plano Colômbia distribuiu bilhões em armamentos sob o argumento do combate ao tráfico. A cocaína continuou fluindo.
Na Nicarágua dos anos 1980, o relatório de mais de mil páginas do Subcomitê de Terrorismo e Narcóticos do Senado estadunidense concluiu que grupos da Contra financiados pela CIA estavam envolvidos no tráfico de cocaína, e que a agência impediu investigações da própria DEA sobre essas redes.
Na Bolívia, Evo Morales expulsou a DEA em 2008 depois de documentar o envolvimento da agência no tráfico que alegava combater. Em janeiro de 2026, o mesmo argumento do narcotráfico justificou o sequestro do presidente legítimo da Venezuela, Nicolás Maduro, país submetido há anos a sanções econômicas criminosas e sabotagens de infraestrutura.
Em todos esses casos, o roteiro é o mesmo. Classificar um governo ou organização como ameaça ao combate às drogas, construir a narrativa internacionalmente e, então, intervir. O que muda é apenas o alvo.
A contradição e a epidemia de dentro
Em 1971, Nixon declarou a "guerra às drogas". Em 1994, John Ehrlichman, seu chefe de política doméstica, descreveu o que ela realmente foi: "A campanha de Nixon em 1968, e a Casa Branca depois, tinham dois inimigos: a esquerda antibelicista e a população negra. Não podíamos tornar ilegal ser contra a guerra ou ser negro. Mas associando os hippies à maconha e os negros à heroína, e então criminalizando pesadamente os dois, poderíamos desarticular essas comunidades." A entrevista foi publicada pela Harper's Magazine em 2016.
Enquanto exportava esse discurso para o mundo, o capital farmacêutico estadunidense fabricava a maior epidemia de dependência química da história recente. Em 1996, a Purdue Pharma lançou o OxyContin, vendido como analgésico de baixo risco de dependência, autorizado inclusive pela FDA, agência governamental responsável por monitorar questões de saúde pública. Era uma grande mentira.
A empresa enviou representantes a médicos de regiões desindustrializadas, onde trabalhadores carregavam no corpo anos de mineração sem saúde pública para ampará-los. Miravam a região conhecida como Cinturão de Ferrugem. Em 2020, a Purdue Pharma pagou mais de US$ 5 bilhões em penalidades por subornar médicos e enganar a DEA. A família Sackler, dona da Purdue, preservou a fortuna. O filme “Máfia da Dor”, de 2023, retrata muito bem essa história.
O fentanil veio quando os opioides prescritos ficaram mais difíceis de obter. Cinquenta vezes mais potente que a heroína, distribuído em microgramas. Em 2022, 73 mil americanos morreram por overdose de fentanil, segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês). Em 2024, após intervenção federal, o número caiu para 54 mil. As cenas de pessoas nas ruas sob o efeito da droga tomam as redes sociais e são assustadoras. Síntese do que o capitalismo é capaz de fazer com os seres humanos.
Os estados com maiores taxas de overdose em 2024 são West Virginia, o mais pobre da nação, ex-coração da mineração de carvão destruído pela desindustrialização; Alasca, que concentra as maiores populações de nativos americanos do país; e o Distrito de Colúmbia, com os maiores índices de desigualdade racial urbana dos EUA. São as comunidades que o capital abandonou depois de extrair o trabalho, os recursos e o território.
O país que registra dezenas de milhares de mortes anuais por fentanil dentro de suas próprias fronteiras se apresenta ao mundo como autoridade moral no combate às drogas de outros países. Recebe o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, golpista e preso, para negociar o enquadramento jurídico que abre portas para intervenção militar em solo brasileiro. E classifica como terroristas internacionais organizações criminosas do Brasil, deixando de fora as milícias ligadas à família que fez o pedido.
A China reagiu invocando o princípio de não interferência. O Brasil precisa fazer o mesmo, com clareza e firmeza. A narrativa que se constrói em torno do PCC e do CV como ameaça global, se não contestada agora, estará disponível amanhã para justificar intervenções sobre as quais o Brasil não terá controle. Conhecemos o roteiro. Vimos em Caracas, capital da Venezuela, o que ele produz.
O Brasil de Fato cobre essa história porque ela revela o sistema. E esse sistema exporta muito mais do que drogas.
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Nina Fideles
Diretora-executiva
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