26 junho, 2026

Sem libertadores

Sem libertadores

Olá, jogando em casa, Lula é capaz de driblar a oposição, mas tudo fica mais difícil com a derrota das esquerdas na América Latina.

.Aldeia gaulesa. Com as vitórias da extrema-direita no Peru e na Colômbia, o mapa da América do Sul está perigosamente pintado de azul, vermelho e branco. Além do Brasil, apenas Uruguai, Suriname, Guiana e Venezuela não são governados pela direita. E, se alguém imaginava que a “química” dos encontros entre Lula e Trump seriam suficientes para tirar o país da mira dos EUA, a ilusão acabou - como já admitem diplomatas e assessores do presidente Lula - principalmente depois de Trump ter postado um artigo que definia o “Brasil como o próximo grande teste”. Ainda pior, segundo pesquisa da UnB, em 70% das eleições no continente nos últimos três anos, os vitoriosos tiveram a segurança pública como tema central, um assunto em que a esquerda patina e em torno do qual o governo ainda não conseguiu aprovar seus principais projetos. Por sua vez, o candidato de Trump, Flávio Bolsonaro, sabe que não pode perder o vento a seu favor. Além de planejar uma turnê internacional para visitar outros líderes da extrema-direita, começando por Javier Milei, Bolsonarinho também se ofereceu para participar de uma audiência pública do escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) para discutir as tarifas que ele mesmo ajudou a impor contra o Brasil. Foi demais até para o Itamaraty, que costuma ser moderado nas suas declarações, mas que subiu o tom em uma nota contra o que chamou de “traidores da Pátria”, sem citar nomes. Até aqui, o cabo eleitoral Trump tem mais prejudicado do que ajudado Flávio, visto como responsável pelo tarifaço contra o país, além do infalível Eduardo, que agora propõe que os EUA bombardeiem o Brasil. Além disso, Lula se sai muito melhor no quesito defensor da soberania e, mesmo lentamente, as pesquisas têm melhorado para o presidente - a aprovação voltou a subir, assim como a expectativa com a economia. Porém, contra Donald Trump, não convém baixar a guarda.

.Esse jogo não é 1 x 1. A ideia de que o caso Master atinge todos do mesmo modo é conveniente para a direita, mas não corresponde ao placar do jogo até agora. É verdade que o governo teve sua primeira baixa com o afastamento de Jaques Wagner da liderança no Senado, o que fragiliza ainda mais a interlocução com Davi Alcolumbre. No entanto, quem mais perdeu até agora foi Flávio Bolsonaro, pois além do impacto nas pesquisas, o destino do dinheiro que supostamente financiaria o filme Dark Horse ainda pode dar o que falar se André Mendonça der andamento ao pedido de investigação feito pela PGR. Flávio ainda é atingido indiretamente por outro escândalo financeiro: a fraude do Digimais. É que o banco ligado ao pastor Edir Macedo sofreu um bloqueio de R$670 milhões devido às suspeitas de que teria operado de forma similar ao Master, maquiando a contabilidade para esconder a real situação financeira da instituição. A importância política do caso é que ele tem potencial de movimentar a base evangélica, que já vinha sofrendo decepções depois das revelações dos vínculos do Master com a Igreja da Lagoinha, frequentada por Nikolas Ferreira. E, enquanto Flávio tem trabalhado para fidelizar os evangélicos, como demonstra a atenção dispensada aos pastores em sua recente visita ao norte do país, Lula tenta conquistá-los. Isso explica porque, tanto a direita quanto a esquerda, silenciaram sobre o escândalo do Digimais. Mas Flávio ainda pode perder votos da base evangélica por outro motivo. É que, seguindo mais uma vez o tradicional espírito autodestrutivo da família, ele conseguiu comprar uma briga feia com Michelle Bolsonaro, que veio a público denunciá-lo, o que pode render a perda de votos não só dos evangélicos, de quem Michelle tem proximidade, mas também das mulheres. Flávio deve ganhar a solidariedade do PL, mas não se sabe ainda de que lado Jair vai ficar, afinal a disputa não é pontual, e sim pelo espólio e futuro do bolsonarismo.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.A explosão de cubanos pedindo refúgio no Brasil. Com a crise na ilha, os cubanos superam os venezuelanos em Roraima, principal porta de entrada ao Brasil. Na BBC.

.Endividamento da população está ligado a questões estruturais, diz pesquisador. O geógrafo Kauê Lopes dos Santos explica como a desigualdade social e o aumento do custo de vida alimentam o endividamento. Na Agência Pública.

.Bancadas do Cocar: movimento indígena lança 47 pré-candidaturas em 2026. Território, educação e combate às mudanças climáticas une as candidaturas indígenas. Na Pública.

.Primeiros governos Lula responderam ao Brasil dos Racionais MC's. Saberemos responder ao Brasil de Emicida? Só gerir o presente não é suficiente, a geração de Emicida quer falar de futuro e inclusão em escala. Texto de Pedro Abramovay, na Gama.

.Os ‘Messias’ da machosfera. Documentário da BBC detalha a ação dos influenciadores que lucram atacando mulheres.

.Haiti volta à Copa após 50 anos, mas torcedores ficam de fora. Proibidos de entrar nos EUA e perseguidos pelo ICE, a comunidade haitiana foi excluída da Copa.

.Quando Maradona criou um sindicato para confrontar a FIFA. A breve trajetória da Associação Internacional de Futebolistas Profissionais (AIFP) criada por Don Diego. Na Jacobin.

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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile

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