03 julho, 2026

E se o Brasil virar uma Venezuela?

O que segue a baixo, é newsletter, recebido em meu e-mail, do "Brasil de Fato" (03/07/2026).

E se o Brasil virar uma Venezuela?

Quem diria que a divisão da Terra em camadas, a união das placas da América do Sul e do Caribe e a capacidade da litosfera de segurar suas tensões trariam mais más notícias para um país que está tendo um 2026 já bastante desafiador, e desde seus primeiros dias.

Não, este não é um texto sobre geologia. Mas, no dia 24 de junho, dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 atingiram a Venezuela, afetando especialmente a capital, Caracas, sua região metropolitana e o litoral, com ênfase na cidade de La Guaira.

Em um ano no qual sua população já viveu um bombardeio que deixou diversos militares mortos e muitos moradores traumatizados, que teve como consequência o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira combatente Cília Flores, aparentemente os Estados Unidos não são o único inimigo — mesmo que sigam sendo um dos principais.

Passados nove dias da maior tragédia natural vivida pela Venezuela em mais de um século, a força e a dedicação para resgatar a população são inspiradoras. No último informe, o número de mortos ultrapassava os 2,2 mil, mas o de resgatados era mais de 6,4 mil. Os feridos e desabrigados são muitos, mas há assistência interna e estrangeira, abrigos temporários, hospitais de campanha, equipes de resgate e campanhas solidárias.

A solidariedade nessas horas merece atenção. Porque ela vem de países que estão mais bem supridos, como a China, de alguns que têm seus próprios escombros a lidar, como a Rússia, e até daqueles que conhecem bem o que é passar por dificuldades, mas não por isso deixariam de estender as mãos, como Cuba.

A Venezuela não está sozinha. Pelo menos, não agora. Já são mais de 30 países que enviaram equipes de resgate e ajuda humanitária para este momento tão difícil. Afinal, é preciso buscar, quebrar, apoiar, medicar, confortar, cuidar e, para tudo isso, quanto mais pessoas, melhor. A Organização das Nações Unidas está envolvida e tem até cachorros vietnamitas participando da busca por sobreviventes.

Mas e depois? Em algum momento, infelizmente, a busca deve parar de encontrar pessoas com vida e vai servir mais para oferecer um fim de respeito para quem padeceu. Os feridos serão tratados e receberão alta, podendo voltar a viver, mas não necessariamente voltar à vida anterior, porque passar por um evento deste tamanho muda um destino para sempre.

E o país passará por um longo processo de reconstrução. O caminho, me parece, é este: destruição, busca e acolhimento, aceitação, superação e reconstrução. Mas como realmente ocorre o processo de reconstrução e recuperação de uma nação que sofre influências externas na intensidade que acontece com a Venezuela?

O país vive uma crise histórica devido às sanções e bloqueios impostos pelos Estados Unidos, que minam aspectos econômicos e dificultam o acesso a equipamentos e tecnologias de resgate essenciais — e não só agora, que são ainda mais necessários.

Essa agressão política reduz o potencial de resposta rápida da Venezuela para lidar com um desastre natural como este, pois não há insumos, não há profissionais qualificados, não há abertura e sequer há dinheiro para superar as adversidades. E não são só os Estados Unidos: a União Europeia trata essa tragédia da mesma forma que faria há 500 anos, com indiferença e insensibilidade.

E, se é para ser justa, os próprios Estados Unidos estão fazendo parte da ajuda humanitária nos resgates após os terremotos. Enviando médicos militares e, de alguma forma, aumentando sua presença em um lugar onde ela já é imposta? Sim. Mas essa é a realidade.

Ainda assim, a dupla agressão, política e natural, poderia fazer qualquer um desistir. Mas, tal qual os brasileiros, os venezuelanos não desistem nunca. A força latina de um povo que lutou para se libertar corre no sangue da sua população até agora, e é isso que os mantém em frente.

Cada novo sobrevivente é comemorado. Cada nova ajuda é celebrada. A esperança, a dedicação e o empenho que já faziam parte do dia a dia do venezuelano, inclusive em um ano com mais debilidades, tentam se fortalecer em meio a tanta dor.

A Venezuela resiste. A Venezuela se recupera. Não vai ser fácil. Assim como a última semana foi bastante triste e pesada, infelizmente este sentimento vai perdurar e os próximos meses não serão leves. Mas, sem esperança, fica difícil viver. E se tem uma coisa que o latino-americano tem, é vontade de viver.

-----------------------------------
Rafaella Coury
Supervisora de edição

Nenhum comentário: