Rumo às finais
Olá, se a trupe de Neymar ficou pelas oitavas, na política, agora é que começa a fase do mata-mata.
.Do pescoço pra baixo é canela. Jogando no campo do adversário, nas audiências do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), o governo brasileiro demonstrou uma paciência e precisão dignas do ataque norueguês. Enquanto, publicamente, o Planalto afirma que, em termos de negociações, tudo o que podia, já foi feito; na prática, aposta em outra frente, a OMC, onde os EUA é obrigado a negociar com o Brasil se quiser destravar suas pautas globais. Sem fazer uso da palavra na audiência, o Brasil viu 63 das 78 entidades presentes se manifestarem contra o tarifaço, inclusive organizações estadunidenses. O Itamaraty aproveitou e foi para o ataque, afirmando em nota, que “entre os 34 brasileiros inscritos, só Flávio Bolsonaro não se posicionou contrário às medidas contra o Brasil”. Aliás, o Itamaraty saiu de sua letargia para também criticar a classificação das facções criminosas como terroristas de forma unilateral e de alertar que isso poderia significar inclusive o uso da “força militar dos Estados Unidos em território brasileiro.” Na estratégia petista, o flanco continua sendo a segurança pública, como se vê nas dificuldades da campanha de Fernando Haddad em São Paulo. Com as propostas do governo paradas no Congresso, restam as ações da PF como cartão de visita do governo sobre o tema. Mas nem só de futebol-arte vive a política. Pensando em vencer em outubro, o Planalto também distribuiu acenos ao núcleo duro da oposição: pagou R$32 bilhões em emendas parlamentares até junho; negocia uma medida provisória sobre as dívidas do agronegócio, que podem ter um impacto fiscal de R$140 bilhões, e tem mandado recados ao mercado financeiro de que, em comparação com os Bolsonaros, Lula sim é um gestor fiscalmente responsável e austero. A favor de Lula contam ainda as previsões de elevação de crescimento da economia pelo FMI e o despreparo de Flávio para lidar com crises, já que ser fã de Donald Trump não ajuda a derrubar tarifas e nem a lidar com cenários como uma nova disparada dos preços do petróleo.
.Mais perdido em campo que a seleção brasileira. Apesar de senador experimentado e candidato à presidente, Flávio Bolsonaro tem se mostrado tão habilidoso na política quanto Casemiro com a bola. Isso começa pela tentativa de surfar na onda da nova direita latino-americana com o apoio de Trump, que fracassou e deu a Lula o argumento da soberania. Percebendo o erro, o candidato do PL aproveitou a audiência do USTR em Washington para tentar reverter a situação. Além de participar de penetra, Flávio argumentou que as tarifas foram uma resposta do governo norte-americano à perseguição sofrida por seu pai no Brasil. Uma tese que não poderia nem sequer ser assumida pelo governo Trump, sob pena do tarifaço ser revertido na Suprema Corte, e ainda ajudou a confirmar o argumento de Lula de que a família Bolsonaro conspirou para sabotar a economia brasileira junto com o governo dos Estados Unidos em nome de seus próprios interesses. Mas quando joga em casa, a inabilidade de Flávio não é menor. O problema não são apenas os aliados na política fluminense e nacional que não saem das páginas policiais por envolvimento com todo o tipo de contravenção. É que, ao queimar as pontes com Michelle, Flávio perdeu uma importante aliada, a senadora Damares Alves, ampliou o fogo amigo bolsonarista contra si mesmo e ainda afastou o público feminino, do qual nunca foi muito próximo. Nesse caso, a escolha de uma mulher para vice é uma oportunidade para mitigar o problema e contrastar com a chapa Lula-Alckmin. A ex-presidente da Caixa, Daniella Marques, seria uma potencial “Posto Ipiranga” de Flávio, tida como favorita devido à sua interlocução com a Faria Lima, o que também ajudaria a colocar a economia em primeiro plano na campanha, como insiste Valdemar Costa Neto. Porém, ela tem dois problemas: sua ligação com o Banco Digimais, investigado recentemente por um escândalo financeiro, e a falta de apoio de seu partido, o Republicanos, que ainda discute se apoiará a candidatura do PL ou manterá neutralidade, como provavelmente farão o União Brasil e o Progressistas. Já a vereadora do PL, Priscila Costa, preferida de Michelle, seria o nome ideal para apaziguar as relações familiares, mas com menor peso político. Há também os partidários de um quadro mais ligado ao agronegócio, como Tereza Cristina (PP), mas a atual senadora tem outros planos políticos.
.Ponto Final: nossas recomendações.
.‘Não somos uma nação em disputa e não somos uma colônia’ . O presidente de Cuba Miguel Díaz-Canel concede entrevista exclusiva ao Brasil de Fato.
.Como Milei quer transformar a Argentina em um laboratório desregulado de IA e quais os riscos. O plano argentino de oferecer desregulamentação e impunidade para atrair as Big Techs. No Brasil de Fato.
.A IA não vai acabar com o trabalho – vai piorar os empregos. No Intercept Brasil, Juliane Furno escreve sobre o papel da IA na reorganização do trabalho sob o capitalismo.
.O Brasil de empreendedores desamparados. O Outras Palavras mostra como a realidade dos trabalhadores autônomos está distante da ideologia do empreendedorismo.
.Veja quem são os pré-candidatos ao governo e ao Senado em cada estado. A relação de todos os pré-candidatos aos governos e ao Senado nos 26 estados e no Distrito Federal. Na Folha.
.O que a "remada viking" da Noruega revela sobre a cultura sindical do país. Na Jacobin, as raízes sindicais e coletivas da comemoração da torcida norueguesa.
.Bubista, o treinador de Cabo Verde, a voz dos pobres no futebol. As preocupações sociais do técnico da seleção mais simpática da Copa. No Instituto Humanistas.
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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

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