07 julho, 2020
Sou quem viu a dor de perto! A dor e o silêncio a partir das Lamentações
Sou quem viu a dor de perto! A dor e o silêncio a partir das
Lamentações
Por Rafael Rodrigues da Silva*
O Livro das Lamentações é um pequeno livreto de salmos e
orações do povo que expressa a dor que sentiram diante da invasão do império
babilônico que arrasou a cidade, matou muita gente, violentou mulheres e
crianças e saqueou as riquezas da cidade.
Os Salmos de Súplica mostram a situação difícil e grave que
uma pessoa ou comunidade está vivendo. O pedinte diante dos conflitos e tensões
suplica para que Deus possa ouvi-lo. Seja o grito de um doente que pede a Deus
a cura (Sl 6; 38) ou do justo que é injustamente caluniado e perseguido (Sl 7)
ou que Deus não esqueça dos pobres no julgamento (Sl 10). Assim poderíamos
percorrer todos salmos de súplica e perceber que as orações de lamento têm
várias maneiras de apresentar as queixas diante de Deus (“Javé, escuta minhas
palavras, leva em conta o meu gemido. Ouve atento meu grito por socorro…” – Sl
5).
No Livro das Lamentações encontramos uma mistura entre
cantos fúnebres, lamentos individuais e coletivos. É um livro que gira em torno
da situação de cerco, cativeiro, fome e destruição da cidade através da ação
dos babilônicos (597-587 a.E.C.). Ali aparecem os lamentos em tom coletivo nos
capítulos 1-2 e 4-5 e o grande lamento individual do capítulo 3, que está no
centro do livro. Valeria a pena ler atentamente estas orações e perceber as
marcas de opressão, os resultados do processo de desumanização e os sinais de
resistência do povo. Os gritos e o silêncio pela dor de muita gente ecoam nestes
cantos e revelam em cada linha o sangue derramado, a luta pela vida e a
teimosia da esperança.
No Livro das Lamentações ecoa o silêncio de Deus diante do
grito e da dor do povo. Por que está acontecendo tudo isto? Quais as causas? De
quem é a culpa? Onde está Deus? Tudo aconteceu porque pecamos? E por aí seguem
as interrogações que estão no silêncio e no grito do povo. Quando começam a
juntar as incertezas e inquietações, abre-se um espaço fundamental tanto para
ecoar a dor e sofrimento, quanto para descrever os instrumentos de opressão e
de desumanização presentes por trás de cada lágrima e cada grito.
A terceira lamentação começa com esta afirmação: “Eu sou
aquele que viu a dor de perto!” Este “ver” implica em olhar com atenção, ouvir,
sentir e experienciar a dor. Certamente esta frase que abre o lamento quer
provocar uma pergunta em meio ao silêncio: “qual foi a for que você viu?”
Eu vi muita gente gemendo com fome e na busca por pão
(1,11); crianças pedindo comida e ninguém lhes dava nada (4,4); outras crianças
morrendo no colo de suas mães (2,12); muitas crianças e bebês desfalecendo
pelas ruas (2,11); muita gente
arriscando a vida para trazer alimento para casa (5,9) e os anciãos e
lideranças foram mortos enquanto buscavam por comida (1,19); muita gente
tentando desfazer de objetos para aplacar a fome em meio aos ataques (1,11).
Nossa pele queima como forno, torturada pela fome (5,10).
Eu vi o povo pagando pela água para beber e pela lenha (5,4)
e o sentimento de todos de que era melhor morrer pela espada do invasor do que
morrer lentamente de fome (4,9).
Eu vi as mulheres sendo violentadas e as jovens sendo
abusadas (5,11); os velhos sendo desrespeitados (5,12.14); os jovens sem
alegria e obrigados aos trabalhos forçados (5,13.15). A morte reinava dentro e
fora de casa (1,20; 2,20).
Eu vi muita tristeza e a cidade estava em completo luto e
pranto (1,4), onde os jovens não cantavam mais (1,4; 5,14), os velhos não se
reuniam nas portas (5,14), as festas se transformaram em lamentos (5,15) e as
jovens não dançavam por causa da tristeza (1,4; 2,10). Acabou a alegria e não
há consolo diante de muita dor (1,2.9.16; 2,13; 5,15).
Eu vi a opressão e a exploração, onde os jovens foram
deportados e outros obrigados aos trabalhados forçados (1,18; 5,13). Não há
quem nos livre e o jugo chegou ao nosso pescoço (4,17; 5,5). O povo esgotado
pela opressão e sem descanso (1,3; 5,5).
No Livro das Lamentações ecoa a resistência e a luta do povo
oprimido. Em cada canto da cidade e em cada canto do país começa um mo(vi)mento
que lembra, recorda, recolhe histórias e experiências, resiste, protesta e
teimosamente “esperançam” Recriam a vida a partir do grito e do silêncio. Na
escuridão lembram uma antiga profecia: “O povo que era andava nas trevas viu
uma grande luz, e uma luz brilhou para os que habitavam uma terra tenebrosa.
Multiplicaste sua alegria, aumentaste seu prazer. Vão alegrar-se diante de ti,
como na alegria da colheita, como no prazer dos que repartem despojos de
guerra. Porque como no dia de Madiã, quebraste a canga de suas cargas, a vara
que batia em suas costas e o bastão do capataz de trabalhos forçados. Porque
toda bota que pisa com barulho e toda capa empapada de sangue serão queimadas,
devoradas pelas chamas. Pois criança nasceu para nós, filho foi dado para nós”
(Is 9,1-5a).
Este momento novo de recriar a vida e de esperançar tem seu
pontapé inicial no arriscar a vida pela vida (“Arriscamos a própria vida pelo
pão” – Lm 5,9) e sua força na confiança do Deus da vida que escuta seus gritos,
choros e silêncios. Em meio a tamanha dor era preciso desconstruir a
necroteologia do “abandono de Deus” e do “castigo pelo pecado”. Ah! Teologia da
escuridão que justificava tudo e determinava que o povo oprimido era o único
culpado e responsável por sua dor e sofrimento.
Esta teologia descreva que a situação do povo empobrecido e oprimido era
resultado do castigo de Deus. A cidade solitária e banhada em lágrimas, foi
castigada/desolada/afligida por Javé (1,4.5.12; 3,32), que do céu jogou um fogo e armou um laço contra a
cidade(1,13). Tornou as culpas do povo um fardo e entregou-os nas mãos dos
invasores (1,14), dispersou todos os fortes e pisou na cidade como pisa a uva
no lagar (1,15) e ordenou que os opressores atacassem (1,17). Em sua ira, Javé
escureceu o templo (2,1), arrasou sem piedade todas as moradas e em seu furor,
destruiu as fortalezas (2,2), cortou o poder de Israel e cruzou os braços
(2,3). Javé concluiu seu ódio e derramou sua ira (4,11), os espalhou e não
cuida mais deles (4,16).
Desconstruir esta visão de um Deus que despreza, abandona.
castiga e destrói, o povo oprimido e machucado não foi tarefa fácil. Aparece
neste pequeno livro de cantos de lamento a dimensão da confiança em Deus: que
Javé possa olhar para o sofrimento (1,9), “Olha, Javé, e presta atenção: como
estou rebaixada!” (1,11), Javé é justo (1,18). A terceira lamentação que faz um
contraponto entre um Deus surdo diante das súplicas (3,8) e as lembranças que
transmitem esperança (3,21): a solidariedade e a compaixão de Javé (3,22 e 32 –
práticas fundamentais na defesa e caminhada dos profetas, especialmente na
profecia de Oséias). O canto reconhece que a força destas ações de Javé está na
fidelidade, pois “Javé é bom para os que nele esperam e o procuram” (3,25). Bom
aguardar em silêncio (3,26), porque Javé não rejeita para sempre (3,31).
A confiança e certeza da solidariedade e compaixão de Deus,
tem reforço nestas duas estrofes do canto:
“Do fundo da fossa, invoquei teu nome, ó Javé.
Ouve minha voz, não feches o ouvido ao meu apelo.
Tu vieste na hora em que eu chamei, e respondeste: Não tenha
medo.
Tu te encarregaste de defender a minha causa e resgatar
minha vida.
Tu viste, Javé, que sofro injustiça: julga minha causa.
Viste a vingança deles contra mim.” (3,55-60)
A certeza maior que o povo tem é que Javé permanece para
sempre e que se renova a aliança: “faze que voltemos para ti, Javé, e
voltaremos; renova os tempos passados” (ver 5,19-22).
Portanto, no Livro das Lamentações o silêncio pela dor se
transforma em resistência e faz da teimosia da esperança qual flor sem defesa,
bonita e nascida em terra seca sem adubo”. Do silêncio, do grito e da dor brota
uma flor que na teimosia aponta que Deus escuta os clamores do povo, enxuga as
lágrimas, é solidário e faz justiça.
O povo desde o cativeiro transmitiu seus cantos e o silêncio
pela dor. Canto que fortalece a resistência e a luta. Canto que descreve a dor que viram e
vivenciaram naqueles dias terríveis do ano de 587 a.E.C. E recebemos deste povo uma pergunta: Qual a
dor que vocês estão vendo no Brasil nestes dias da Covid-19 no ano de 2020?
Reflitam e demonstrem para tantos irmãos e irmãs a dor que
vocês estão vendo.
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*Diretor Nacional do CEBI, assessor bíblico e professor.
Fonte: CEBI
06 julho, 2020
05 julho, 2020
Empresa destrói lavoura do MST destinada a doação de alimentos na pandemia
Aconteceu na sexta-feira, nos fundões do Brasil, lá onde a vida pulsa e a solidariedade move o trabalho de trabalhadores rurais, no acampamento Valdair Roque, de Quinta do Sol, no Paraná, que plantam hortaliças para doar a famílias carentes durante a pandemia.
Logo cedo, Victor Vicari Rezende, um dos proprietários da área, que pertencente à Usina Sabarálcool, acompanhado de 14 homens, alguns encapuzados, e de dois tratores, deu a ordem para a destruição das lavouras em fase de colheita plantadas por 50 famílias do Movimento Sem Terra (MST).
No mesmo dia, a Horta Comunitária Antonio Tavares, das comunidades Terra Livre e Mãe dos Pobres, doaram 1500 quilos de alimentos orgânicos a...continue lendo...
Ampliada das CEBs Regional Sul 2 realiza reunião on line
“Assim, justificados pela fé, estamos em paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. (...) E a esperança não engana, pois o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. ” Romanos 5, 1 ss.
Texto: Leoni Alves Garcia - Comunicação das CEBs Regional Sul 2
A Ampliada das CEBs Regional Sul 2 esteve reunida no dia 04 de julho para encaminhamentos e reflexões necessárias nesse tempo de conjuntura complexa, agravado pela pandemia. Pela impossibilidade de deslocamento e cuidado com a vida, o encontro aconteceu virtualmente contando com a presença da maioria das dioceses paranaenses. Dom Manoel, referencial das CEBs Sul 2 participou no primeiro momento, em razão de compromisso previamente agendado.
Dentre os pontos de pauta tratados destacamos a leitura da Carta Consulta enviada pelo Secretariado do 15º Intereclesial acerca de mudança de data do encontro, em razão das dificuldades e impedimentos apresentados por esse contexto de pandemia que tem assolado as comunidades. Por unanimidade as CEBs do Regional Sul 2 aceitou a data proposta: 18 a 22 de julho de 2023, ressaltando a pertinência dos aspectos apresentados para que a mudança ocorra.
Ficou também decidido ações de comunicação, animação e formação, visto que a realidade atual apresenta-se como oportuna para que se possa apropriar dos meios de comunicação e tecnologias, usando-as em favor da organização, formação e animação das comunidades. Um projeto será implementado para que se possa produzir, lives, rodas de conversa e material escrito, abordando os temas da Campanha da Fraternidade e do Intereclesial, fazendo um link com o contexto da/pós pandemia, trazendo luzes e esperança para nossas gentes.
Também foram pensadas possibilidades e datas prováveis para a realização do 8º Intereclesial do Paraná, que não pode ser realizado em abril desse ano em razão das medidas de isolamento social.
As dioceses presentes partilharam as dores e resistências vivenciadas nesse tempo, deixando claro o papel das lideranças em manter acesa nas comunidades e nas pessoas a chama da Esperança, fundada na Palavra de Deus, na Partilha e na busca da Justiça.
As CEBs do Regional Sul 2 demonstrou alegria pela vinda de Dom Severino para a Arquidiocese de Maringá, o que por certo nos fortalecerá nessa caminhada, em sintonia com o Evangelho de Jesus de Nazaré e com as propostas do Papa Francisco para sermos “igreja em saída”, no cuidado da casa comum e especialmente junto aos que sofrem. Bem Vindo Dom Severino!
Em sintonia com a humanidade que vive as dores desse momento de doença, morte, incerteza e descaso com a vida, agravado por governantes e autoridades indiferentes a dor do povo, a Ampliada das CEBs do Regional Sul 2 pediu a Nossa Senhora proteção, rezando a Oração Maria da Pandemia de Roberto Malvezzi, rogando que o Magnificat se faça e que os oprimidos sejam libertados, pela Palavra, pela fé e resistência esperançosa de povo de Deus.
Oração MARIA DA PANDEMIA Roberto Malvezzi (Gogó)
Maria da Pandemia,
Rogai pelos que estão entubados nos hospitais,
Buscando um pouco de ar para sobreviver,
Agonizando e morrendo na solidão.
Rogai por seus familiares e amigos,
Nessa hora de angústia,
Quando a dor é maior. E a esperança menor.
Rogai pelos médicos, enfermeiras,
Profissionais da limpeza, religiosos,
Todos os que cuidam dos contaminados.
Livrai-nos da indiferença e dos indiferentes,
Dos adoradores da morte,
Dos que celebram as desgraças alheias,
Dos que deveriam ser os primeiros em responsabilidade
E se colocam de forma fria e sórdida diante desses tormentos.
Rogai para que Deus ilumine os cientistas,
Que seja encontrado rapidamente um caminho
Para neutralizar a ação do vírus.
Quando tudo passar,
Que o ar permaneça limpo,
Que as águas permaneçam puras,
Que as florestas permaneçam em pé,
Que nossas ruas tenham o silêncio da paz,
Que nosso céu permaneça azul
Que todas as formas de vida continuem celebrando sua liberdade
Que a humanidade aprenda que a Terra não é lugar só da humanidade.
Que todos vivemos em uma Casa Comum Amém!
Texto: Leoni Alves Garcia - Comunicação das CEBs Regional Sul 2
04 julho, 2020
03 julho, 2020
Silenciar!
Silenciar para compreender a si mesmo e aos outros. E também silenciar para levar os outros a te compreender...
Reflexão sobre Maria Madalena, texto de Mercedes Lopes
Leia a reflexão sobre Maria Madalena, texto de Mercedes Lopes.
(CEBI – Boletim Por Trás da Palavra n. 143, 2004, p. 17-21)
Normalmente, quando se pergunta a uma pessoa quem foi Maria Madalena, ela responde quase sem pensar: uma pecadora arrependida. No entanto, nenhum texto dos evangelhos diz que Maria Madalena foi pecadora pública. Que dizem os evangelhos sobre ela?
Nos evangelhos, Maria Madalena é a mulher mais citada pelo nome. Além disso, ela aparece sempre realizando funções muito importantes para as origens do Cristianismo:
- Como discípula de Jesus (Lc 8,1-3);
- Como testemunha da sua crucifixão (Mc 15,40-41; Mt 27,55-56; Lc 23,49; Jo 19,25);
- Como testemunha do seu sepultamento (Mc 15,47; Mt 27,61);
- Como testemunha da sua ressurreição (Mc 16,1-8; Mt 28,1-10; Lc 24,1-10; Jo 20,1;20,1 1-8);
- Como enviada aos Onze com uma mensagem de Jesus (Mt 28,10; Jo 20,17-18).
Chama a atenção o fato de Maria Madalena ser citada em primeiro lugar em todos estes textos. A única exceção é Jo 19,25, onde a mãe de Jesus aparece em primeiro lugar. A citação de Maria Madalena em primeiro lugar parece indicar sua liderança no grupo das discípulas de Jesus. Além disso, o Evangelho de Marcos deixa claro que ela e suas companheiras eram modelo para as pessoas da comunidade que buscavam seguir Jesus: Elas o seguiam e serviam quando estava na Galileia. E ainda muitas outras que subiram com ele para Jerusalém (Mc 15,40-41). Sabemos que o serviço amoroso é uma das características que marcava a identidade dos discípulos e discípulas de Jesus, segundo a comunidade de João: Vocês devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei o exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz (Jo 13,14-15). Na comunidade de Marcos, a pessoa mais importante é aquela que se coloca a serviço de todos (Mc 9,35). Então, como foi que transformaram a discípula modelo em pecadora arrependida?
Que horror, ela tinha sete demônios!
Teriam interpretado mal a expressão Maria Madalena, da qual haviam saído sete demônios? (Lc 8,2). Esta expressão, que aparece somente em Lucas e no apêndice de Marcos (Mc 16,9), criou uma série de preconceitos contra Maria Madalena. Mas para o Evangelho de Lucas, a possessão não significa pecado e, sim, doença. O número 7, sempre simbólico, parece indicar a gravidade da situação. Dentro do contexto de Lucas, podemos interpretar que Maria Madalena padecia de uma grave doença nervosa ou psicossomática. No encontro com Jesus, ela recupera a harmonia interior e entra em um processo de crescimento e amadurecimento pessoal, até atingir a plenitude do seu ser na experiência pascal.
Seu gesto era de arrependimento e muito amor
Teriam confundido Maria Madalena com a pecadora anônima que lavou os pés de Jesus com suas lágrimas e os secou com seus cabelos? (Lc 7,36-50). Porém, não há neste texto de Lucas nenhuma relação entre a moça do perfume e Maria Madalena. Segundo o texto de Marcos, que já citamos, Maria Madalena seguia Jesus desde a Galileia. Portanto, ela devia ser conhecida na tradição por seu nome: Maria, e sua procedência: Magdala. A mulher que é apresentada neste texto de Lc 7,37 parece que não pertencia à comunidade dos discípulos e discípulas. É uma mulher marginalizada, anônima, corajosa e decidida, que toma a iniciativa de entrar na casa de Simão, o fariseu, e fazer com Jesus o rito de acolhida que seu anfitrião havia omitido. Rito que era muito importante para as pessoas que percorriam longas distâncias a pé, pelas estradas poeirentas da Palestina.
Quanta confusão!
E a confusão continua, pois aquela mulher anônima do episódio narrado por Lc 7,36-50 passou a ser identificada com as mulheres anônimas que ungiram Jesus para a sepultura (Mc 14,3-9 e Mt 26,6-13). Uma leitura atenta destes textos vai mostrar que os ritos que realizam são diferentes. No texto de Lucas, o próprio narrador trata de esclarecer que se trata de um rito de acolhida e coloca esta explicação no diálogo de Jesus com Simão. Nos Evangelhos de Marcos e de Mateus, o rito está situado no contexto da Páscoa. Marcos faz questão de informar que faltavam apenas dois dias para a Páscoa e os Ázimos (Mc 14,1). Mostra que o contexto era conflitivo, pois a execução de Jesus já estava decidida: os chefes dos sacerdotes e os fariseus apenas procuravam um ardil para matá-lo (Mc 14,1b). É justamente neste contexto que está a unção de Jesus, feita por uma mulher anônima (Mc 14,3-9). O texto de Marcos está muito próximo do texto de João 12,1-8. Tanto Marcos como João nos contam que o perfume derramado pela mulher no corpo de Jesus era nardo puro (Mc 14,3 e Jo 12,3). Marcos nos informa ainda que este episódio da unção para a sepultura se passou em Betânia (Mc 14,3). Tudo isso parece ligar os textos de Marcos, Mateus e João (Mc 14,3-9; Mt 26,6-13 e Jo 12,1-8) e ajuda a compreender a importância desde ritual. Sua protagonista parece ser Maria de Betânia, a irmã de Marta e de Lázaro. O gesto de unção de Jesus para a sepultura é ao mesmo tempo profético e solidário com seu projeto e sua entrega sem limites.
Mulher chorona, de cabelos compridos e perfumados
A imagem de Maria Madalena está ligada a cabelos compridos, perfume e lágrimas. Sabemos que a tradição das lágrimas está relacionada à sua angustiosa busca do corpo de Jesus, naquela madrugada do primeiro dia da semana (Jo 20,1.11-18). Mas perfume e cabelos longos expressam a identificação de Maria Madalena com Maria de Betânia, a irmã de Marta, que segundo o Evangelho de João foi quem ungiu Jesus para o sepultamento (Jo 12,1-8). E aqui vale a pena falar um pouco mais de Maria de Betânia, a discípula que gostava de ficar sentada aos pés de Jesus, escutando-o (Lc 10,39). Discípula amada (Jo 11,5), que consegue encher a casa (comunidade) de perfume (Jo 12,3). Seu gesto amoroso será repetido por Jesus na celebração da Ceia (Jo 13,2-5). Segundo Jesus, em memória dela, seu gesto seria contado onde quer que fosse proclamado o Evangelho (Mc 14,9).
Ela foi investida de autoridade
Maria permaneceu no jardim, procurando Jesus, depois que Pedro e o outro discípulo foram embora. Ela chorava angustiada e confundiu Jesus com o jardineiro. No entanto, ela o reconhece imediatamente quando Jesus a chama pelo nome. Em toda a Bíblia, chamar pelo nome faz parte dos relatos de missão. Às vezes, acontece mudar o nome, para indicar a missão que a pessoa vai realizar. Mas, em Jo 20,16, Jesus a chama pelo nome com que sempre a havia chamado – talvez do mesmo jeito e com o mesmo tom de voz. E provavelmente Maria responde também da maneira como sempre o tratou: Rabuni. Sem pretender ser fundamentalista, quero mostrar como neste relato simbólico se revela a importância da missão de Maria Madalena nas primeiras comunidades cristãs: Maria é chamada pelo nome; reconhece imediatamente a voz de Jesus; chama-o de Mestre em aramaico; depois, é enviada por Jesus com uma mensagem para os outros discípulos. Da maneira como este episódio é descrito, parece um evento de fundação, no qual Maria Madalena foi investida de autoridade.
De onde vem a confusão?
Esta confusão a respeito de Maria Madalena pode ter muitas causas. Uma delas pode ser uma leitura muito rápida dos textos bíblicos, ou mesmo um exemplo da pouca importância que se dá à memória do discipulado das mulheres. Até pode ser que a intenção tenha sido a de buscar na figura de Madalena como uma pecadora arrependida um apelo à conversão, mostrando como todos os pecados podem ser perdoados quando a pessoa se arrepende. No entanto, parece haver urna intenção menos explícita, parecida com estas propagandas que hoje se faz através das novelas. De maneira sutil, a deturpação da figura de Maria Madalena mantém uma velha atitude de suspeita em relação às mulheres, passando a ideia de que sua natureza e seus corpos são espaços perigosos, de possessão demoníaca, identificada com pecado. Os corpos inferiorizados e culpabilizados são mais facilmente submetidos.
Desta maneira, a discípula fiel, que acompanhou Jesus durante sua vida pública, a amiga e companheira que esteve presente na crucifixão e que permaneceu diante do túmulo; aquela que fez a maravilhosa experiência da ressurreição, podendo afirmar com toda a convicção Vi o Senhor!, foi transformada em pecadora arrependida. Mesmo que esta deturpação da figura de Maria Madalena não fosse muito consciente, ela é um desvelamento do medo que o androcentrismo tem de perder o poder. Se a tradição da discípula e apóstola permanecesse, haveria o perigo de que as mulheres descobrissem a sua importância nas origens do Cristianismo e se sentissem animadas a assumir com autoridade, dignidade e pleno direito seus espaços de reflexão, decisão e também no ministério ordenado das igrejas cristãs. Estariam lado a lado com os homens, mantendo a memória fiel de Jesus de Nazaré, fazendo circular o amor pleno e sem medo, exercendo o poder de defender e fortalecer a vida.
Fonte: CEBI
Com islâmicos, Brasil tenta esvaziar resolução sobre direito das mulheres
O governo de Jair Bolsonaro aprofunda uma postura ideológica em negociações diplomáticas sobre uma resolução que condena a discriminação de gênero e tenta fortalecer o direito das mulheres. O texto sob consideração no Conselho de Direitos Humanos da ONU ganhou importância principalmente no momento em que a pandemia revela a disparidade no mundo e como a crise vem afetando de forma desproporcional as mulheres...continue lendo aqui
02 julho, 2020
01 julho, 2020
Papa Francisco nomeia dom Severino Clasen para a arquidiocese vacante de Maringá (PR)
O Papa Francisco nomeou nesta quarta-feira, 1º de julho, dom Severino Clasen como bispo da arquidiocese de Maringá (PR). A circunscrição religiosa estava vacante desde o dia 20 novembro de 2019, quando o pedido de renúncia por motivo de saúde de dom Anuar Battisti foi aceito pelo Santo Padre. Desde 4 de setembro de 2011, dom Severino é bispo titular da diocese de Caçador (SC). A diocese de Maringá estava sob os cuidados de dom João Mamede Filho, bispo de Umuarama (PR).
Trajetória do novo bispo de Maringá
Dom Severino Clasen tem três irmãos e quatro irmãs, sendo duas delas religiosas da Congregação Franciscanas de São José. Ingressou no seminário menor em 1968, em Ituporanga (SC).
Severino Clasen tornou-se franciscano ao ingressar na província da Imaculada em janeiro de 1976. Em seguida, fez os estudos de Filosofia e Teologia no Instituto Teológico de Petrópolis e foi ordenado sacerdote em 10 de julho de 1982. Neste mesmo mês, passou a ser vigário paroquial de Concórdia, em Santa Catarina, e em 1988 foi transferido para Porto União. No ano seguinte, tornou-se o responsável pela pastoral vocacional da província da Imaculada.
Foi reitor e pároco do Santuário São Francisco, no Largo São Francisco de São Paulo, e foi nomeado bispo para a diocese de Araçuaí (MG), no Vale do Jequitinhonha, em 11 de maio de 2005.
Foi ordenado bispo por dom Lorenzo Baldisseri, então núncio apostólico no Brasil, no dia 25 de junho de 2005, na cidade de Ituporanga. A posse episcopal ocorreu no dia 10 de julho de 2005, em Araçuaí. Seu lema episcopal é “Acolher e cuidar”. No dia 11 de maio de 2011, foi eleito presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Laicato da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), tendo sido reeleito para um mandato que exerceu até 2019.
No dia 6 de julho de 2011, o Papa Bento XVI o nomeou para a diocese de Caçador (SC), transferindo-o da diocese de Araçuaí. Dom Severino foi empossado no dia 4 de setembro de 2011. Atualmente é presidente do Regional Sul 4 da CNBB, eleito na última 57ª Assembleia da CNBB.
30 junho, 2020
28 junho, 2020
24 junho, 2020
Hoje choro pela vida tirada de meu primo Leandro pela Covid-19
Leandro pertencia a Paróquia São Mateus Apóstolo, cidade de Maringá – Pr. Seus pais graças a Deus recuperam da Covid-19, Leandro não conseguiu, mais uma vida tirada pelo coronavírus.
Que bom que não seja verdade, mas percebo que o isolamento tem levado ao distanciamento, a incapacidade de sentir a dor do outro, ao distanciamento do outro, o papa Francisco esses dias escreveu "Deus nos criou para a comunhão, para a fraternidade, e agora, mais do que nunca, mostrou-se ilusória a pretensão de focar tudo sobre si mesmo".
Ilusória, mas muitos as/os envolvidos por essa pretensão de si mesmo, fortalecido pelo uso das redes sociais, num mundo que supervaloriza o status e as aparências.
Nós lideranças leigas e ordenadas precisamos ficar atentos, quando distanciamos da base (CEBs, Paróquias, Arq/Dioceses), deixamos de pastorear. Quando o apóstolo Pedro diz “pastoreai o rebanho de Deus” (1Pedro 5.2), ele tem tudo isso em mente. Um pastor do povo de Deus é responsável por cuidar dele.
É preciso refletir, como nós lideranças leigas e ordenadas estamos nos comportando e agindo nesse período marcado por angustias, dores, desesperanças e isolamento. Como nós estamos usando nossas redes sociais particulares e de nossas CEBs, Paróquias e Arq/Dioceses.
A frase do papa Francisco “a pretensão de focar tudo sobre si mesmo” é ampla, vário sentidos, social, econômico, político e pastoral. Quando focamos em nós mesmo, deixamos de pastorear, distanciamos da base a ponto de não ver o sofrimento de quem devemos cuidar.
Distanciar da base, do rebanho é perigoso, focar em outra direção pode levar a perder o gosto ou ao distanciamento da missão de cuidar das ovelhas. Em nossas paróquias, na Rua da CEBs onde moramos, a dores e sofrimentos e nós estamos sabendo, estamos sendo solidários, ou estamos distante, usando o nosso tempo focado em outra direção.
Não podemos nos distanciar da base porque ela nos provoca, leva a compartilhar sentimentos, de entender e comprometer com o que outro sente, nos faz mais humano. Temos as redes sociais particular e as redes sociais das CEB, Paróquia e das Arq/Dioceses, como elas estão sendo usadas por nós lideranças, precisamos nos organizar para que essas redes sociais sejam usando com o nosso povo, principalmente com nossas lideranças, para levar a não distanciar da base e comprometer-se com elas, porque é preciso cuidar do rebanho que esta ferido, machucado, é preciso aproximar, sorrir e também chorar junto.
Tenho conversado com o padre Genivaldo sobre a necessidade do uso das redes sócias para esse objetivo. Temos as redes sociais da CEBs de Maringá, a paróquia onde ele é pároco também tem suas redes sociais. Ele esta pensando sobre, vamos nos organizar. Deixemos ser guiados pelo Espírito Santo, fiquemos atentos porque para o Espírito Santo agir precisamos nos abrir a Ele.
O nosso Deus que é todo amor acolhe em seus braços o Leandro e tantos outr@s que fizeram sua passagem tendo suas vidas tiradas pelo Covid-19 e esse nosso Deus que caminha sempre conosco dê força aos familiares e amigos.
23 junho, 2020
Prece
Rezemos juntos, para que o nosso Deus nos de a graça de não
termos medo, de sermos fortes com voz profética diante dos desafios da via,
mesmo se não formos compreendidos, mas o nosso Deus nos ama e nos protege
sempre, e não tenhamos dúvidas que a profecia é dom de Deus, a palavra
profética se revela a todas e a todos que tem coração humilde.
Restituição para Base
"Santidade, temos medo de sermos tentados pela inércia, mas pensamos que talvez V.S. espere de nós, pessoas de fé que tanto receberam dos carismas da Igreja pós-conciliar, uma disponibilidade de restituir com nosso testemunho o sinal do que recebemos ao longo dos anos, também da Comunidade de Bose. Pedimos para conhecer como demonstrá-lo, recebendo plena luz sobre os objetivos e propósitos de uma intervenção, não usual, por parte da Igreja", escrevem vários autores ao Papa Francisco, em carta publicada por Settimana News, 22-06-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a carta.
Sua Santidade, Papa Francisco,
Conhecendo Vossa atenção pastoral e o carinho que O une ao seu rebanho, escrevemos porque recorremos a V.S. por um motivo que consideramos muito importante.
O motivo é a situação em que se encontram hoje muitas pessoas de fé que há décadas frequentam a Comunidade de Bose como local de reflexão, oração, formação, levando depois seu testemunho e seu empenho até as paróquias e os lugares onde vivem e trabalham. Um grande número de pessoas que, não apenas na Itália, estão passando por um grande sofrimento, desconforto e perplexidade nos últimos dias, devido às notícias vindas da Comunidade após o decreto singular da Santa Sé de 13 de maio. Muitos outros crentes, que só ouviram falar de Bose, estão neste momento expressando sua preocupação na mídia, temendo serem deixados "no meio do nevoeiro" com relação às suas perguntas, tendo que confiar em notícias contraditórias que também podem causar muito dano.
Também nós, que estamos escrevendo, um grupo pequeno, mas talvez representativo, acompanhamos com apreensão as notícias destes dias, oramos nos dias de Pentecostes ao Espírito, para que a Comunidade, com o apoio adequado, pudesse mostrar gestos exemplares de misericórdia; agora estamos desorientados porque não entendemos a prorrogação desse silêncio em relação ao que foi decidido. Não, não é curiosidade, Santo Padre, nem queremos cair na tentação de "eu sou de Paulo, eu de Apolo e eu de Cefas", pelo contrário: precisamos de transparência para dar testemunho de unidade, de participação plena no sofrimento de todas as pessoas envolvidas, para entender a perspectiva da Igreja, que hoje interveio com propósitos que não conhecemos e, não estando informados, não entendemos.
Estamos cientes das precauções necessárias de discrição sobre as vivências e as relações, mas não entendemos por que justamente as pessoas envolvidas não possam conhecer as razões das decisões, enquanto nós precisamos entender em que contexto vivemos a nossa fé, quais são os obstáculos que nós também teremos agora que enfrentar. De fato, não conseguimos intuir para que direção a Comunidade será acompanhada e de que formas diferentes ela poderá continuar a expressar, sem as pessoas que constituem suas históricas raízes, plena continuidade em relação ao esforço de radicalidade evangélica e de diálogo ecumênico.
De nossa parte, para sermos fiéis ao dever de testemunhar a Verdade como essencial vocação batismal, pensamos que não poderíamos nos permitir sermos meros espectadores. Depois de refletir, orar pela comunidade, pelas pessoas envolvidas, pelas hierarquias eclesiásticas, por nós mesmos, ora acreditamos que devemos pedir o dom da confiança de sermos considerados cristãos sempre em caminho, mas já adultos o suficiente para conseguir entender a complexidade da situação.
Santidade, temos medo de sermos tentados pela inércia, mas pensamos que talvez V.S. espere de nós, pessoas de fé que tanto receberam dos carismas da Igreja pós-conciliar, uma disponibilidade de restituir com nosso testemunho o sinal do que recebemos ao longo dos anos, também da Comunidade de Bose. Pedimos para conhecer como demonstrá-lo, recebendo plena luz sobre os objetivos e propósitos de uma intervenção, não usual, por parte da Igreja.
Estamos confiantes, Papa Francisco, de que Sua preocupação com todas as formas de sofrimento e sua incansável missão de parrésia farão com que compreenda plenamente nosso sofrido pedido. Oramos por V.S., como muitas vezes nos pede, para que possa sempre continuar nesse caminho, que abriu tantos corações e doado tantos momentos de autêntica Esperança.
Fonte: IHU
21 junho, 2020
Pai Nosso dos Mártires
Pai Nosso dos Mártires
Pai nosso, dos pobres marginalizados
Pai nosso, dos mártires, dos torturados
Teu nome é santificado naqueles que morrem defendendo a vida
Teu nome é glorificado, quando a justiça é nossa medida
Teu reino é de liberdade, de fraternidade, paz e comunhão
Maldita toda a violência que devora a vida pela repressão
Queremos fazer tua vontade, és o verdadeiro Deus libertador
Não vamos seguir as doutrinas corrompidas pelo poder opressor
Pedimos-te o pão da vida, o pão da segurança, o pão das multidões
O pão que traz humanidade, que constrói o homem em vez de canhões
Perdoa-nos quando por medo ficamos calados diante da morte
Perdoa e destrói os reinos em que a corrupção é a lei mais forte
Protege-nos da crueldade, do esquadrão da morte, dos prevalecidos
Pai nosso revolucionário, parceiro dos pobres, Deus dos oprimidos
Pai nosso, revolucionário, parceiro dos pobres, Deus dos oprimidos
Pai nosso, dos pobres marginalizados
Pai nosso, dos mártires, dos torturados
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Zé Vicente, cantor, poeta, músico, compositor.
20 junho, 2020
19 junho, 2020
A MORTE NÃO PEDE LICENÇA - Celso Pinto Carias (“mendigo de Deus”)
"Que possamos, quando o vírus não mais nos assustar, abraçar as pessoas e dizer que a vida não se consume pelo ter, que a vida de todos os seres humanos e do planeta dependerá de nossa capacidade de encontrar um VIVER capaz de harmonizar todas as dimensões da vida."
A MORTE NÃO PEDE LICENÇA
Celso Pinto Carias (“mendigo de Deus”)
Esta semana tive notícia de três mortes bem dramáticas. Um presbítero meu colega na PUC-Rio, que conhecia há anos, Pe. Marcos, 52 anos, levado pela COVID; uma criança, 7 anos, afilhada de um amigo, Larissa; e Caio, jovem de 28 anos, filho de um casal amigo. A criança fez um transplante que não deu certo, e o jovem estava à espera de um.
Meu pai morreu aos 54 depois da quinta operação de hérnia, minha mãe aos 62 por um infarto dentro de um ônibus, e minha irmã mais nova aos 46. Uma amiga, com pouco mais de 40 anos, Rosangela, depois de ir a uma missão na África, morreu de malária, pois a identificação aqui no Rio do tipo de malária demorou.
Finalmente, a COVID-19 já deixou enlutada quase 50 mil famílias. Muitas vidas poderiam ter sido salvas se não fosse este desgoverno geral em suas várias instâncias.
A morte sempre envolve muitos sentimentos. E, em muitos casos, dependendo da situação, tais sentimentos podem causar muito sofrimento. Quando o pai de Caio me ligou fiquei muito triste, pois não tinha muito que dizer para o meu amigo.
O que tudo isso pode nos ensinar? São Francisco de Assis chamava a morte de irmã. Esta pandemia, por exemplo, pode mostrar para nós que uma sociedade com alto grau de empatia com o outro é capaz de superar muita dificuldade. É capaz até de vivenciar a morte como uma dor que deixa a marca profunda da saudade, mas que não nos impede de continuar buscando o real sentido da vida. E por isso, podemos olhar para ela e chamar de irmã.
Porém, podemos passar pela pandemia continuando a construir uma sociedade que se isola da compaixão, e não da proteção, ou que pensa no sapato que deve comprar no shopping ou quinquilharias na Rua Uruguaiana no Centro do Rio, como substitutos do viver, como drogas que dão satisfação momentaneamente, e por isso, quando a morte chega, olhar para ela com grande medo. Uma sociedade assim está fadada a encontrar a morte como um terror, como uma experiência de individualismo tão grande que causará mais sofrimento ainda, que nenhum remédio é capaz de curar.
Penso que nossas orações não devem implorar por não morrer, pois todos e todas morremos. Mas deve implorar por aprender a morrer. Ouvi muita dor na voz do meu amigo, mas ouvi algo muito edificante também: “quem sabe não seja o melhor, são anos de internações e sofrimentos”.
Senhor, que possamos aprender a morrer. Que possamos estar do lado dos que sofrem com uma esperança que aponta para a plenitude da vida que começa aqui e agora em cada gesto de amor. Que possamos, quando o vírus não mais nos assustar, abraçar as pessoas e dizer que a vida não se consume pelo ter, que a vida de todos os seres humanos e do planeta dependerá de nossa capacidade de encontrar um VIVER capaz de harmonizar todas as dimensões da vida. E assim, poderemos olhar para a morte como parte de nosso processo existencial e poder abraça-la como irmã.
18 junho, 2020
16 junho, 2020
O Perigo!
O Perigo!
No mês de março, percebi e interpretei como preocupante certo exagero, assim sendo a necessidade de equilíbrio e ousadia para não cair na mesmice, mesmo com toda a boa intenção diante do isolamento social e as igrejas fechadas. O ser humano é frágil.
Refletindo a liturgia que estamos celebrando agora no tempo comum, iluminado pelo Evangelho de Mateus, a preocupação aumenta e toma outra direção, o perigo.
Jesus nos apresenta para onde se deve ir o rumo da missão, não é ir distante, ir para longe e sim no ver, escutar e preocupar-se com às pessoas que estão por perto e que precisam de um olhar amigo, de uma palavra amiga, precisam de apoio, precisam de solidariedade, precisam de amor e carinho.
Dar continuidade a missão de Jesus fazendo-se perto das pessoas doentes, d@s idosos, d@s que se encontram à margem da sociedade de maneira simples e despojada, isso mesmo de maneira simples e despojada, sem muitos artifícios porque esse pode levar a aproximar-se de um determinado grupo afastando-se dos que mais a missão precisa levá-lo.
A busca do poder de comunicação via redes sociais é perigoso, um caminho que não havendo equilíbrio pode levar a perder-se a meta. Num mundo que supervaloriza o status e as aparências há perigo de deixar-se envolver pela fama nas redes sociais. Para não perder a fama o acontecido nesses dias que para manter ou expandir sua rede de comunicação padres prometem conteúdo favorável ao governo na pandemia do novo coranavírus.
É nas redes sociais que também a Igreja Católica, padres e lideranças leigas vem se comunicando, a meta, continuar presente com as/os paroquian@s, chegar até a base, as CEBs, enfim, continuar cuidando de quem está sobre seus cuidados. O perigo é perder a meta, é preciso ficar atento e cuidar-se para não deixar-se seduzir pelos encantos de estar na mídia, aí se perde a meta, distância da comunidade, prevalece "eu", como quero estar na mídia, quem eu quero que esteja comigo, quantos vou atingir, perigoso.
Estar nas redes sociais também requer tempo e dedicação. Como será após coronavírus se muitos estiverem muito seduzidos? A internet transforma algumas interações sociais em puramente virtuais. Papa francisco diz que é preciso ter "o cheiro das ovelhas " para isso tem que estar no meio, olhar nos olhos, tocar, abraçar, caminhar junto. Achar o equilíbrio no uso de redes sociais, desafios do após coronavírus e atual também.
Os medicos cubanos estão sendo indicados para o PREMIO NOBEL DA PAZ deste ano.
Os medicos cubanos estão sendo indicados para o PREMIO NOBEL DA PAZ deste ano.
Dispensa argumentos sobre a importância desse reconhecimento. As brigadas de médicos de Cuba já foram em missões humanitárias em praticamente todos os países do hemisfério sul. Milhares deles deixaram seu país, suas famílias, suas comodidades e partiram.
E foram sobretudo em acontecimentos de trágicos, como terremotos no Haiti, a eclosão da EBOLA na Africa(aonde ninguém queria ir e la perderam dois medicos). E até na Europa para ajudar países no combate ao COVID-19.
Estiveram aqui no Brasil, com mais de 14 mil médicos/as, nos ajudando a ir dar atenção em comunidades interioranas, povos indígenas, quilombolas, assentamentos do sem-terra, favelas, lugares em que nenhum médico brasileiro queria ir.
Por isso, pedimos que cada militante se empenhe, assine a petição e passe na sua rede.
Os médicos cubanos são o símbolo da solidariedade internacional entre todos os povos, valor fundamental para reconstruirmos a civilização no post-crise do covid e do capitalismo, que só se norteia pelo lucro.
Agradecemos. Seu empenho
Coletivo das relações internacionais e setor de saude do MST
São paulo, 15 de junho de 2020
Para adherir a la petición ir a: https://www.cubanobel.org/firma_la_peticion
Fotos y videos de los médicos también están disponibles.
Para más información ir a:https://www.cubanobel.org/
Fotografías de libre uso para medios de comunicación: https://www.cubanobel.org/gallery
E ainda, vídeo de 55 minutos sobre a expereincia dos medicos cubanos na africa, no atendimento da ebola: https://youtu.be/y0otZCsFtrI
13 junho, 2020
MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA O IV DIA MUNDIAL DOS POBRES
«Estende a tua mão ao pobre» (Sir 7, 32)
MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
PARA O IV DIA MUNDIAL DOS POBRES
XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM
(15 DE NOVEMBRO DE 2020)
«Estende a tua mão ao pobre» (Sir 7, 32)
«Estende a tua mão ao pobre» (Sir 7, 32): a sabedoria antiga dispôs estas palavras como um código sacro que se deve seguir na vida. Hoje ressoam com toda a densidade do seu significado para nos ajudar, também a nós, a concentrar o olhar no essencial e superar as barreiras da indiferença. A pobreza assume sempre rostos diferentes, que exigem atenção a cada condição particular: em cada uma destas, podemos encontrar o Senhor Jesus, que revelou estar presente nos seus irmãos mais frágeis (cf. Mt 25, 40).
1. Tomemos nas mãos o Ben-Sirá, um dos livros do Antigo Testamento. Nele encontramos as palavras dum mestre da sabedoria que viveu cerca de duzentos anos antes de Cristo. Andava à procura da sabedoria que torna os homens melhores e capazes de perscrutar profundamente as vicissitudes da vida. E fê-lo num período de dura prova para o povo de Israel, um tempo de dor, luto e miséria por causa da dominação de potências estrangeiras. Sendo um homem de grande fé, enraizado nas tradições dos pais, o seu primeiro pensamento foi dirigir-se a Deus para Lhe pedir o dom da sabedoria. E o Senhor não lhe deixou faltar a sua ajuda.
Desde as primeiras páginas do livro, Ben-Sirá propõe os seus conselhos sobre muitas situações concretas da vida, sendo a pobreza uma delas. Insiste que, na contrariedade, é preciso ter confiança em Deus: «Não te perturbes no tempo do infortúnio. Conserva-te unido a Ele e não te separes, para teres bom êxito no teu momento derradeiro. Aceita tudo o que te acontecer e tem paciência nas vicissitudes da tua humilhação, porque no fogo se prova o ouro, e os eleitos de Deus no cadinho da humilhação. Nas doenças e na pobreza, confia n’Ele. Confia em Deus e Ele te salvará, endireita os teus caminhos e espera n’Ele. Vós que temeis o Senhor, esperai na sua misericórdia, e não vos afasteis, para não cairdes» (2, 2-7).
2. Página a página, descobrimos um precioso compêndio de sugestões sobre o modo de agir à luz duma relação íntima com Deus, criador e amante da criação, justo e providente para com todos os seus filhos. Mas, a constante referência a Deus não impede de olhar para o homem concreto; pelo contrário, as duas realidades estão intimamente conexas.
Demonstra-o claramente o texto donde se tirou o título desta Mensagem (cf. 7, 29-36). São inseparáveis a oração a Deus e a solidariedade com os pobres e os enfermos. Para celebrar um culto agradável ao Senhor, é preciso reconhecer que toda a pessoa, mesmo a mais indigente e desprezada, traz gravada em si mesma a imagem de Deus. De tal consciência deriva o dom da bênção divina, atraída pela generosidade praticada para com os pobres. Por isso, o tempo que se deve dedicar à oração não pode tornar-se jamais um álibi para descuidar o próximo em dificuldade. É verdade o contrário: a bênção do Senhor desce sobre nós e a oração alcança o seu objetivo, quando são acompanhadas pelo serviço dos pobres.
3. Como permanece atual, também para nós, este ensinamento! Na realidade, a Palavra de Deus ultrapassa o espaço, o tempo, as religiões e as culturas. A generosidade que apoia o vulnerável, consola o aflito, mitiga os sofrimentos, devolve dignidade a quem dela está privado, é condição para uma vida plenamente humana. A opção de prestar atenção aos pobres, às suas muitas e variadas carências, não pode ser condicionada pelo tempo disponível ou por interesses privados, nem por projetos pastorais ou sociais desencarnados. Não se pode sufocar a força da graça de Deus pela tendência narcisista de se colocar sempre a si mesmo no primeiro lugar.
Manter o olhar voltado para o pobre é difícil, mas tão necessário para imprimir a justa direção à nossa vida pessoal e social. Não se trata de gastar muitas palavras, mas antes de comprometer concretamente a vida, impelidos pela caridade divina. Todos os anos, com o Dia Mundial dos Pobres, volto a esta realidade fundamental para a vida da Igreja, porque os pobres estão e sempre estarão connosco (cf. Jo 12, 8) para nos ajudar a acolher a companhia de Cristo na existência do dia a dia.
4. O encontro com uma pessoa em condições de pobreza não cessa de nos provocar e questionar. Como podemos contribuir para eliminar ou pelo menos aliviar a sua marginalização e o seu sofrimento? Como podemos ajudá-la na sua pobreza espiritual? A comunidade cristã é chamada a coenvolver-se nesta experiência de partilha, ciente de que não é lícito delegá-la a outros. E, para servir de apoio aos pobres, é fundamental viver pessoalmente a pobreza evangélica. Não podemos sentir-nos tranquilos, quando um membro da família humana é relegado para a retaguarda, reduzindo-se a uma sombra. O clamor silencioso de tantos pobres deve encontrar o povo de Deus na vanguarda, sempre e em toda parte, para lhes dar voz, defendê-los e solidarizar-se com eles face a tanta hipocrisia e tantas promessas não cumpridas, e para os convidar a participar na vida da comunidade.
É verdade que a Igreja não tem soluções globais a propor, mas oferece, com a graça de Cristo, o seu testemunho e gestos de partilha. Além disso, sente-se obrigada a apresentar os pedidos de quantos não têm o necessário para viver. Lembrar a todos o grande valor do bem comum é, para o povo cristão, um compromisso vital, que se concretiza na tentativa de não esquecer nenhum daqueles cuja humanidade é violada nas suas necessidades fundamentais.
5. Estender a mão leva a descobrir, antes de tudo a quem o faz, que dentro de nós existe a capacidade de realizar gestos que dão sentido à vida. Quantas mãos estendidas se veem todos os dias! Infelizmente, sucede sempre com maior frequência que a pressa faz cair num turbilhão de indiferença, a tal ponto que se deixa de reconhecer todo o bem que se realiza diariamente no silêncio e com grande generosidade. Assim, só quando acontecem factos que transtornam o curso da nossa vida é que os olhos se tornam capazes de vislumbrar a bondade dos santos «ao pé da porta», «daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus» (Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate, 7), mas dos quais ninguém fala. As más notícias abundam de tal modo nas páginas dos jornais, nos sites da internet e nos visores da televisão, que faz pensar que o mal reine soberano. Mas não é assim. Certamente não faltam a malvadez e a violência, a prepotência e a corrupção, mas a vida está tecida por atos de respeito e generosidade que não só compensam o mal, mas impelem a ultrapassá-lo permanecendo cheios de esperança.
6. Estender a mão é um sinal: um sinal que apela imediatamente à proximidade, à solidariedade, ao amor. Nestes meses, em que o mundo inteiro foi dominado por um vírus que trouxe dor e morte, desconforto e perplexidade, pudemos ver tantas mãos estendidas! A mão estendida do médico que se preocupa de cada paciente, procurando encontrar o remédio certo. A mão estendida da enfermeira e do enfermeiro que permanece, muito para além dos seus horários de trabalho, a cuidar dos doentes. A mão estendida de quem trabalha na administração e providencia os meios para salvar o maior número possível de vidas. A mão estendida do farmacêutico exposto a inúmeros pedidos num arriscado contacto com as pessoas. A mão estendida do sacerdote que, com o coração partido, continua a abençoar. A mão estendida do voluntário que socorre quem mora na rua e a quantos, embora possuindo um teto, não têm nada para comer. A mão estendida de homens e mulheres que trabalham para prestar serviços essenciais e segurança. E poderíamos enumerar ainda outras mãos estendidas, até compor uma ladainha de obras de bem. Todas estas mãos desafiaram o contágio e o medo, a fim de dar apoio e consolação.
7. Esta pandemia chegou de improviso e apanhou-nos impreparados, deixando uma grande sensação de desorientamento e impotência. Mas, a mão estendida ao pobre não chegou de improviso. Antes, dá testemunho de como nos preparamos para reconhecer o pobre a fim de o apoiar no tempo da necessidade. Não nos improvisamos instrumentos de misericórdia. Requer-se um treino diário, que parte da consciência de quanto nós próprios, em primeiro lugar, precisamos duma mão estendida em nosso favor.
Este período que estamos a viver colocou em crise muitas certezas. Sentimo-nos mais pobres e mais vulneráveis, porque experimentamos a sensação da limitação e a restrição da liberdade. A perda do emprego, dos afetos mais queridos, como a falta das relações interpessoais habituais, abriu subitamente horizontes que já não estávamos acostumados a observar. As nossas riquezas espirituais e materiais foram postas em questão e descobrimo-nos amedrontados. Fechados no silêncio das nossas casas, descobrimos como é importante a simplicidade e o manter os olhos fixos no essencial. Amadureceu em nós a exigência duma nova fraternidade, capaz de ajuda recíproca e estima mútua. Este é um tempo favorável para «voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo (...). Vivemos já muito tempo na degradação moral, baldando-nos à ética, à bondade, à fé, à honestidade (...). Uma tal destruição de todo o fundamento da vida social acaba por colocar-nos uns contra os outros na defesa dos próprios interesses, provoca o despertar de novas formas de violência e crueldade e impede o desenvolvimento duma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente» (Francisco, Carta enc. Laudato si’, 229). Enfim, as graves crises económicas, financeiras e políticas não cessarão enquanto permitirmos que permaneça em letargo a responsabilidade que cada um deve sentir para com o próximo e toda a pessoa.
8. «Estende a mão ao pobre» é, pois, um convite à responsabilidade, sob forma de empenho direto, de quem se sente parte do mesmo destino. É um encorajamento a assumir os pesos dos mais vulneráveis, como recorda São Paulo: «Pelo amor, fazei-vos servos uns dos outros. É que toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: ama o teu próximo como a ti mesmo. (...) Carregai as cargas uns dos outros» (Gal 5, 13-14; 6, 2). O Apóstolo ensina que a liberdade que nos foi dada com a morte e ressurreição de Jesus Cristo é, para cada um de nós, uma responsabilidade para colocar-se ao serviço dos outros, sobretudo dos mais frágeis. Não se trata duma exortação facultativa, mas duma condição da autenticidade da fé que professamos.
E aqui volta o livro de Ben-Sirá em nossa ajuda: sugere ações concretas para apoiar os mais vulneráveis e usa também algumas imagens sugestivas. Primeiro, toma em consideração a debilidade de quantos estão tristes: «Não fujas dos que choram» (7, 34). O período da pandemia constrangeu-nos a um isolamento forçado, impedindo-nos até de poder consolar e estar junto de amigos e conhecidos atribulados com a perda dos seus entes queridos. E, depois, afirma o autor sagrado: «Não sejas preguiçoso em visitar um doente» (7, 35). Experimentamos a impossibilidade de estar junto de quem sofre e, ao mesmo tempo, tomamos consciência da fragilidade da nossa existência. Enfim, a Palavra de Deus nunca nos deixa tranquilos e continua a estimular-nos para o bem.
9. «Estende a mão ao pobre» faz ressaltar, por contraste, a atitude de quantos conservam as mãos nos bolsos e não se deixam comover pela pobreza, da qual frequentemente são cúmplices também eles. A indiferença e o cinismo são o seu alimento diário. Que diferença relativamente às mãos generosas que acima descrevemos! Com efeito, existem mãos estendidas para premer rapidamente o teclado dum computador e deslocar somas de dinheiro duma parte do mundo para outra, decretando a riqueza de restritas oligarquias e a miséria de multidões ou a falência de nações inteiras. Há mãos estendidas a acumular dinheiro com a venda de armas que outras mãos, incluindo mãos de crianças, utilizarão para semear morte e pobreza. Existem mãos estendidas que, na sombra, trocam doses de morte para se enriquecer e viver no luxo e num efémero desregramento. Existem mãos estendidas que às escondidas trocam favores ilegais para um lucro fácil e corruto. E há também mãos estendidas que, numa hipócrita respeitabilidade, estabelecem leis que eles mesmos não observam.
Neste cenário, «os excluídos continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe» (Francisco, Exort. ap Evangelii gaudium, 54). Não poderemos ser felizes enquanto estas mãos que semeiam morte não forem transformadas em instrumentos de justiça e paz para o mundo inteiro.
10. «Em todas as tuas obras, lembra-te do teu fim» (Sir 7, 36): tal é a frase com que Ben-Sirá conclui a sua reflexão. O texto presta-se a uma dupla interpretação. A primeira destaca que precisamos de ter sempre presente o fim da nossa existência. A lembrança do nosso destino comum pode ajudar a conduzir uma vida sob o signo da atenção a quem é mais pobre e não teve as mesmas possibilidades que nós. Mas existe também uma segunda interpretação, que evidencia principalmente a finalidade, o objetivo para o qual tende cada um. É a finalidade da nossa vida que exige um projeto a realizar e um caminho a percorrer sem se cansar. Pois bem! O objetivo de cada ação nossa só pode ser o amor: tal é o objetivo para onde caminhamos, e nada deve distrair-nos dele. Este amor é partilha, dedicação e serviço, mas começa pela descoberta de que primeiro fomos nós amados e despertados para o amor. Esta finalidade aparece no momento em que a criança se cruza com o sorriso da mãe, sentindo-se amada pelo próprio facto de existir. De igual modo um sorriso que partilhamos com o pobre é fonte de amor e permite viver na alegria. Possa então a mão estendida enriquecer-se sempre com o sorriso de quem não faz pesar a sua presença nem a ajuda que presta, mas alegra-se apenas em viver o estilo dos discípulos de Cristo.
Neste caminho de encontro diário com os pobres, acompanha-nos a Mãe de Deus que é, mais do que qualquer outra, a Mãe dos pobres. A Virgem Maria conhece de perto as dificuldades e os sofrimentos de quantos estão marginalizados, porque Ela mesma Se viu a dar à luz o Filho de Deus num estábulo. Devido à ameaça de Herodes, fugiu, juntamente com José, seu esposo, e o Menino Jesus, para outro país e, durante alguns anos, a Sagrada Família conheceu a condição de refugiados. Possa a oração à Mãe dos pobres acomunar estes seus filhos prediletos e quantos os servem em nome de Cristo. E a oração transforme a mão estendida num abraço de partilha e reconhecida fraternidade.
Roma, em São João de Latrão, na Memória litúrgica de Santo António, 13 de junho de 2020.
Francisco
11 junho, 2020
A Eucaristia é o “amor enlouquecido de Deus pela humanidade” (Santo Afonso). .
A Eucaristia é o “amor enlouquecido de Deus pela humanidade” (Santo Afonso).
Somos peregrinas e peregrinos em procissão para a casa do Pai. Jesus, o pão da vida não quer que esqueçamos a procissão que nos leva até aos mais pobres e excluídos, onde a dor e sofrimento encontram-se nas casas, nos prédios, nos hospitais, nos presídios, nas ruas e pelos becos e favelas.
O Cristo Eucarístico nos quer eucarísticos, pão da vida atentos às situações de não respeito a vida, as raças e etnias, às desigualdades sociais, às migrações em massa, a corrupção.
A Eucaristia o verdadeiro alimento leva-nos a denunciar todas as situações indignas da mulher e do homem por causa da injustiça, do racismo, da corrupção e da exploração.
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