14 setembro, 2021

De Mauro Morelli a Francisco: por uma igreja sinodal

 "Esperemos que, ao final do Sínodo, o laicato, homens e mulheres, possam ser incluídos em muitos processos decisórios. Que não se venha com a afirmação verdadeira, mas não completa, de que cabe ao leigo e a leiga o 'mundo' e que eles e elas devem deixar todo o resto para os ministros ordenados. Ninguém tem duvida que desde a Constituição Pastoral Gaudium et Spes que o campo principal de atuação do laicato é a sociedade civil", escreve Celso Pinto Carias, doutor em Teologia pela PUC-Rio, assessor das CEBs do Brasil e do Setor CEBs da Comissão Pastoral Episcopal para o Laicato da CNBB e, nas palavras do autor, "um mendigo de Deus".

 Eis o artigo. 

 Introdução 

Desde o início do pontificado de Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, a dinâmica de uma Igreja Sinodal foi reaparecendo. Então, quando ele convoca o Sínodo Geral sobre a sinodalidade que terá o seu cume em outubro de 2023, ficou evidente a sua pretensão em retomar com vigor a eclesiologia do Concílio Vaticano II. 

Um pontificado que já vinha me animando muito no serviço eclesial me deixou ainda mais entusiasmado, pois tive a graça de viver a dinâmica de uma Igreja Sinodal por 23 anos, em Duque de Caxias, RJ, quando outro bispo, Dom Mauro Morelli, tomou posse em 1981 de uma nova diocese que surgia na Baixada Fluminense. 

O que é surpresa para muitos católicos do mundo, não é surpresa para quem viveu, por muito tempo, a graça de uma Igreja com comunhão e participação de todo Povo de Deus. E sabemos que outras dioceses do Brasil e da América Latina também viveram experiências semelhantes. 

A intenção desta narrativa é fazer uma memória reflexiva do caminho realizado na Diocese de Caxias em sintonia, na medida do possível, com outras perspectivas que confirmam a necessidade de uma Igreja Sinodal. Neste sentido, é fundamental nos colocarmos em comunhão com Francisco para aprofundar a sinodalidade como uma perspectiva estrutural da Igreja. Mas sem ilusões. Sabemos que não será fácil, pois há interesses contrários em jogo. Como diz um sábio padre argentino meu amigo, Juan Angel, vamos tentar colocar o pé na porta para ela não mais se fechar. 

Primeiramente vamos recordar brevemente como foi em Caxias. Depois traremos alguns elementos que possibilitam afirmar tradicional, teológica, e evangelicamente, que Caminhar Juntos (Sínodo) não é um mero complemento a eclesiologia do Concílio Vaticano II. Porém, faremos isso de modo sintético e narrativo, pois do pós-concílio até hoje existe ampla bibliografia e experiência que demonstram o fundamento de tal perspectiva. Certamente, nos próximos meses, muita gente competente vai escrever sobre o assunto. Já têm surgido bons trabalhos. Mas esta reflexão tem também um caráter de clamor. Não dá mais para ser tratado como súdito na Igreja. 

1. Diocese de Duque de Caxias e São João de Meriti: uma experiência sinodal

 Em 12 de julho de 1981, com a instalação da Diocese, inicia-se também o ministério pastoral do 1º Bispo: Dom Mauro Morelli. Depois de um ano de escuta ele propõe o Sínodo Diocesano: “Desde o começo percebemos que somos chamados a viver unidos. Para isso precisamos nos conhecer, estudar juntos, conversar, trocar experiências e, principalmente rezar. A Unidade é um dom, mas também um conquista” (Caderno sobre Sínodo publicado em 15 de agosto de 1982). Este Caderno é uma relíquia que mereceria ser publicado integralmente. Faremos somente alguns destaques.

 A caminhada sinodal foi iniciada com a eleição de uma equipe de coordenação formada por padres, religiosas e leigos/as. Na celebração de Pentecostes, 30 de maio de 1982, com representação de todas as comunidades diocesanas o Sínodo foi iniciado oficialmente.

 Duas razões de fundo foram apresentadas para justificar a convocação sinodal:

 a) Descobrir o rosto, a voz e o jeito de nossa Igreja em sintonia com três acontecimentos eclesiais de enorme importância: O Concílio Vaticano II, Conferência de Medellin e a Conferência de Puebla.

 b) Estudar a realidade (Problemas e sofrimentos de nossa vida, de nossa gente e de nossas cidades) e iluminados pelo Evangelho, definir o que faremos juntos com outras religiões e pessoas amantes da justiça – para contribuir com uma sociedade mais humana e justa.

 A partir de então o Sínodo foi se realizando através de um amplo processo de participação de todas as forças vivas da diocese. Foram produzidos materiais que pudessem chegar às mãos dos/as servidores/as mais simples das comunidades. Sem telefone celular e muito menos internet, foi garantida uma estrutura que possibilitou a escuta de muita gente e não apenas de representantes. Reuniões e encontros que passavam por Assembleias Comunitárias até Assembleias Diocesanas. Em palestra proferida em 27 de julho de 1982, no encontro de preparação ao Sínodo, Dom Mauro destaca: “A comunidade é o lugar mais importante para realizar e viver o Sínodo. Nas comunidades é que se forma testemunhas de Cristo. De comunidades vivas e fortes, partem missionários e evangelizadores. Será na procura sincera de todos os membros das comunidades que descobriremos a vontade de Deus a nosso respeito” (Caderno Sínodo, p. 12).

 Depois de muita reflexão, idas e vindas em busca do melhor caminho, Dom Mauro promulga o primeiro documento sinodal: “Batismo na vida e na missão da Igreja – Diretrizes pastorais para o batismo de crianças”, em 25 de dezembro de 1986. Entre os pontos de apresentação do documento destacamos o número 3: “Pelo batismo temos a mesma dignidade. De acordo com os dons recebidos e realizando tarefas diferentes, devemos viver a responsabilidade própria de cada um e de todos os batizados”. E 30 anos depois, em carta apostólica dirigida ao Cardeal Marc Oullet, o Papa Francisco diz absolutamente a mesma coisa: “O primeiro sacramento, que sela para sempre a nossa identidade, e do qual deveríamos ser sempre orgulhosos, é o Batismo... Ninguém foi batizado sacerdote nem bispo. Batizaram-nos leigos e é o sinal indelével que jamais poderá ser apagado”. (Documentos da Igreja – 31 – CNBB, p.12)

 Em 1988, outro documento vai orientar o caminho eclesial na diocese: “Em Assembleia Sinodal, com a participação de 500 delegados das Comunidades, religiosas e pastores, aprovamos o documento: Comunhão, Co-responsabilidade e Coordenação Pastoral da Igreja em Duque de Caxias e São João de Meriti”. E vejam como fui intitulado o Sínodo que começará em outubro de 2021: «Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão». Interessante, não?

 Na apresentação do documento Dom Mauro insiste: “Queremos ser uma Igreja de Comunidades. Uma Igreja clerical ou laicizada não corresponde aos nossos anseios e aos apelos do Espírito, menos ainda poderá testemunhar a Ressurreição do Senhor e contribuir para a libertação do Povo” (Caderno publicado pelas Edições Loyola, p. 9). Este documento sofreu uma pequena revisão feita pelo segundo bispo: Dom José Francisco Resende Dias, em 2009, mas sem nenhuma mudança substancial.

 A síntese aqui apresentada não permite discorrer quanto à imensa riqueza destes anos. Outros processos foram estabelecidos, como a questão da catequese, chegando também à produção de um documento. Porém, não foi possível, antes de terminar o pastoreio de Dom Mauro, enraizar o que seria, possivelmente, o ápice do processo sinodal, isto é, o “Plano Diocesano de Comunhão e Administração de Bens”. A questão dos bens é um nó, sem dúvida, para a Igreja como um todo. E somente em uma Igreja Sinodal será possível viver o que está nos Atos dos Apóstolos: “Os cristãos tinham tudo em comum” (At 2, 42-47).

 A memória do que foi vivido em Duque de Caxias e São João de Meriti nos permite agora acolher a convocação do Papa Francisco com grande esperança. Porém, será necessário participar ativamente do processo, trazendo uma fundamentação que nos permita concluir que a sinodalidade não é apenas uma metodologia, mas elemento fundamental da própria estrutura eclesial. Vamos então, recordar alguns traços que será exigido de nós neste período sinodal até 2023.

 2. “Queremos ser uma Igreja de irmãos”

 Este título é uma frase contida na “Oração pelo Sínodo Diocesano” composta por Dom Mauro: “Queremos ser uma Igreja de irmãos, presença nova do Cristo –pastor na Baixada Fluminense”. Rezamos muitas vezes essa oração em nossas reuniões e encontros.

 Será que desejamos ser, de fato, uma Igreja de irmãos e irmãs como um todo, ou vamos procurar subterfúgios para justificar apenas posições de poder autoritário e de privilégios materiais? Será que seremos capazes de não apenas ampliar mecanismos de consulta, mas de real compromisso com a participação de todo Povo de Deus?

 O Concílio Vaticano II foi chamado por muitos de volta às fontes. E de fato é. Precisaremos, com persistência, lembrar que não se trata de algo absolutamente novo, mas de fidelidade ao Caminho. Seguidores do Caminho, assim os/as primeiros/as que tiveram a graça de encontrar o Senhor se chamavam. Sempre gosto de lembrar isso. E agora o Documento Preparatório para o Sínodo evidencia esta realidade com força.

 O Documento Preparatório (DP), lançado dia 07 de setembro do corrente ano, “Para uma Igreja Sinodal: comunhão, participação e missão”, será um guia imprescindível para esta jornada. Ele é uma síntese que consegue, em poucas páginas, resgatar o essencial. Indica também para a leitura o Discurso na Comemoração do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos, pronunciado pelo Papa Francisco no dia 17 de outubro de 2015, e o documento A sinodalidade na vida e na missão da Igreja, elaborado pela Comissão Teológica Internacional e publicado em 2018.

Mesmo que os documentos tenham uma rigorosa clareza e fundamentação já começam a aparecer interpretações que diminuem a qualidade inclusiva que o Sínodo está propondo. É possível perceber isso quando se acentua o múnus episcopal de governar e ensinar, o que é verdade, mas praticamente não considerando que as pessoas consagradas neste primeiro grau do sacramento da ordem são parte do Povo de Deus. O clericalismo tem uma força cancerígena. Percebemos, já faz algum tempo, como tal perversão pode estar até mesmo no ministério do diaconato permanente. Sem generalizações, constata-se como o diácono casado que viveu, na maioria dos casos, a maior parte de sua vida no estado laical, pode rapidamente se colocar em posição clericalista. Dom Mauro demorou a ordenar diáconos casados, pois insistia que este deveria estar mais a serviço da caridade do que da liturgia. Ele chegou a me convidar, mas disse a ele que seria difícil manter o diaconato permanente na perspectiva do serviço da caridade ou da administração eclesial, por isso não aceitei.

 O processo sinodal instalado por Dom Mauro foi, muitas vezes, acusado de prestigiar o laicato em detrimento do clero. Uma crítica absolutamente injusta. O que o irmão Morelli desejava era uma Igreja toda ela ministerial. Em uma Igreja assim há espaço e importância para todos, e todas também, que desejam seguir, sinceramente, o Caminho de Jesus Cristo. O “e todas também” é apenas para lembrar que no interior do laicato são as mulheres ainda mais marginalizadas no exercício da ministerialidade, e por razões antropológicas e não teológicas. Chega a ser cômico negar ministérios as mulheres lembrando o fato de que Jesus de Nazaré foi um homem e não uma mulher.


Ora, falar de uma Igreja toda ela ministerial está na essência das pretensões do Concílio e em nada diminui o valor e a necessidade do ministério ordenado. Pelo contrário, recoloca a Igreja, como diz o DP, no interior de uma perspectiva constitutivamente sinodal. Citando São João Crisóstomo o documento lembra: “Igreja e Sínodo são sinônimos”. Não há diminuição da missão dos ordenados, sobretudo dos bispos, dentro de uma comunidade hierarquicamente estruturada, mas sim o aprofundamento de que somente caminhando juntos podemos ser, de fato, sacramento universal de salvação.

 Há ainda algo que também começa a ser ressaltado nas primeiras reflexões do processo sinodal. Trata-se de acentuar a dimensão da colegialidade episcopal como o principal conteúdo do processo. Sim, de novo, inegavelmente sínodos são instrumentos de aperfeiçoamento da colegialidade. Contudo, tal realidade deve ser exercida como Povo de Deus. Muitos insistem em afirmar que a Igreja não é uma democracia. No entanto, mesmo não sendo uma democracia, nada impede que exista um método democrático de governar. Este método na Igreja se chama sinodalidade. O DP faz uma observação muito interessante quando começa a explicar o processo prático do Sínodo: “o seu objeto – a sinodalidade – é também o seu método”. A colegialidade precisa ser reflexo deste método. O episcopado não pode se tornar uma espécie de câmara dos senadores romanos que decidem por sua conta e risco. Lembrando o episódio entre Pedro e Cornélio (At 10) o documento narra como Pedro tenta refutar o próprio Deus: “De modo algum, Senhor” (At 10,14). A lógica de Pedro não era inclusiva. Muito interessante, nunca tinha me dado conta de tal interpretação. Há muito disso ainda na vida eclesial: pessoas que querem se colocar no lugar de Deus. Como tem dito frequentemente o Papa Francisco, podem fazer da Igreja uma alfandega, sempre prontos pra fiscalizar erros, e não a Casa do Acolhimento.

 Por último, mas não finalmente, pode-se argumentar que a Tradição Eclesial, ao longo da história, foi aperfeiçoando a doutrina, e, portanto, é preciso ter atenção para isso. E, nesta direção, as normas devem ser seguidas para evitar que a unidade seja maculada por ideologias ou mesmo por interesses escusos. O que também tem todo o fundamento. Mas qual o critério de fundo para elaborar e interpretar leis? Vamos pontuar alguns elementos.

 3. O que salva é o AMOR e não a lei

 Não há dúvida alguma que Jesus Cristo colocou o AMOR como norteador da interpretação da Lei. Isto não significa dizer que o Nazareno foi um anarquista. Não, Ele era um bom judeu. No entanto, quis revelar o principio fundamental que regula todo comportamento, isto é, a inclusão e a defesa da vida. O “era dia de sábado” é repetido muitas vezes nos Evangelhos justamente para afirmar que o ato de amor, feito por Jesus, ou por qualquer pessoa, não pode ser bloqueado pela Lei. Em Mc 3,1-6, narrativa onde o Cristo cura no dia de sábado, o último versículo termina com o desejo que os inimigos dele passaram a ter de um dia mata-lo, o que acabou acontecendo. O DP lembra que não assumir a perspectiva inquietadora da cruz é um sinal evidente daquele que divide os caminhantes. Não querer caminhar juntos é demoníaco.

 Neste sentido, o risco de instrumentalizar o Código de Direito Canônico (CIC) para a manutenção dos interesses que buscam a autorreferencialidade é grande. O meu professor de direito, o Pe. Antônio da Silva Pereira, já falecido, dizia que só se pode interpretar as normas do Código com a eclesiologia do Vaticano II na mente e no coração. Um pouco antes de morrer conseguiu publicar um livro que todos os batizados deveriam ler: “Participação dos leigos nas decisões da Igreja Católica”, Edições Loyola, PUC-Rio, 2014.

 Muitos empunharão o CIC nas mãos e tentarão dizer que isso ou aquilo não é possível porque está na lei. A lei é necessária, pois somos pecadores. Mas ela não pode ser instrumento de opressão. Um conhecido de uma determinada diocese do Brasil me contou que um padre jovem, recém-empossado como pároco, na primeira reunião do Conselho Paroquial, trouxe o livro do CIC, colocou sobre a mesa e disse: “Quem manda aqui sou eu, este livro me autoriza”.

 Pe. Pereira, depois de uma exaustiva análise de textos canônicos, conclui: “Ressalto que essa participação nas decisões com voto deliberativo nem teológica nem juridicamente põe em risco a autoridade da Igreja e de seus pastores, como ficou demonstrado em vários lugares deste volume e na minha tese de doutorado devidamente aprovada pela banca de professores da Gregoriana e que cito na bibliografia geral.” (p. 176).

 Esperemos que, ao final do Sínodo, o laicato, homens e mulheres, possam ser incluídos em muitos processos decisórios. Que não se venha com a afirmação verdadeira, mas não completa, de que cabe ao leigo e a leiga o “mundo” e que eles e elas devem deixar todo o resto para os ministros ordenados. Ninguém tem duvida que desde a Constituição Pastoral Gaudium et Spes que o campo principal de atuação do laicato é a sociedade civil. Mas também não é possível retirar de leigos e leigas a missão de cooperar com o caminho evangelizador por dentro da Igreja, pois pelo batismo todos temos parte na missão, na Igreja e no mundo (Lumen Gentium, 76).

 Conclusão

 É lamentável que bispos eméritos não possam ter uma participação mais efetiva na vida da Igreja. Dom Mauro este mês completa 86 anos. Se não fosse pela distância e pela pandemia, teria encontrado com ele mais vezes, pois toda vez que isso acontece recebo uma injeção de esperança. Ele poderia muito bem contribuir com este Sínodo.

 Do mesmo modo o Papa Francisco, que fará 85 anos em dezembro, é um grande sinal de esperança. Quando terminei de ler a Evangelli Gaudium – A alegria do Evangelho, escrevi abaixo de sua assinatura: obrigado. Gostaria muito de poder dar um abraço nele, mas sou um modesto teólogo periférico. Quem sabe algum amigo não faz chegar a ele esta narrativa (rs).

 Há um longo caminho a ser trilhado que não terminara em 2023 com as conclusões do Sínodo sobre a sinodalidade. Contudo, citando o Papa Francisco, por favor, “Não deixemos que nos roubem a esperança” (EG, 86). Repito: não nos trate como súditos ou como bebês que não podem comer alimento sólido.

 Poucos são os bispos com os quais converso hoje em dia sem medo, pois é preciso medir as palavras para não ser mal interpretado. Não há problema em ser corrigido. Tem uma situação acontecida entre mim e Dom Luciano Bergamin, bispo emérito da Diocese de Nova Iguaçu, que guardo com muito carinho. Ele é um bispo que não tenho medo de conversar. Em palestra ao Conselho de Leigos de sua diocese, fiz uma observação crítica, e isso faz tempo, aos canais de TV de inspiração católica e mencionei a reza do terço no mesmo horário em todos os canais, dizendo que parecia haver uma concorrência entre eles. Então, depois ele me chamou num canto e pediu esclarecimento, pois entendeu que eu estava falando mal da reza do terço. Mas fez o questionamento com muito carinho e sem tom ameaçador. Esclareci. Muitas vezes voltei à diocese para prestar assessoria sem nenhum problema. Um verdadeiro irmão. É isso.

 Não tratamos aqui da Assembleia Eclesial Latino Americana e do Caribe que está em processo. Fomos convidados, enquanto Povo de Deus, para participar da escuta, por sinal, com pouca participação do Brasil. A Assembleia será de 21 a 28 de novembro de 2021. Devemos estar atentos e atentas, pois é parte integrante do caminho sinodal pensado por Francisco.

 Nesta caminhada seria muito importante que outras dioceses no Brasil e na América Latina, quiçá no mundo, também narrassem processos sinodais feitos depois do Concílio Vaticano II. Além de Caxias, tenho ciência de algumas. Cito apenas as que pude ter algum tipo de contato, com maior ou menor intensidade: as dioceses de Nova IguaçuVolta Redonda e Barra do Piraí, por certo tempo Itaguaí e Friburgo, no regional Leste 1, RJ. Tive a graça de conhecer um pouco a diocese de Chapecó em SCCrateús no CE, e a Prelazia de São Feliz do Araguaia no MT. Mas muitas outras realizaram algum tipo de caminhada sinodal.

 Pessoas como eu e tantas outras, talvez não sejam consideradas testemunhos legítimos na constatação da riqueza eclesial destes processos. Mas olhando com esperança para o futuro, sem lamentações ou saudosismo, precisamos abrir novos caminhos. Não por um modismo do tempo, mas porque se faz necessário responder aos novos desafios de um mundo em crise civilizatória. Meu mantra nas últimas duas décadas tem sido: “chega de dar respostas velhas a perguntas novas”.

 Repitamos, com insistência, a Oração do Sínodo Diocesano de Caxias, quem sabe Dom Mauro possa fazer uma adaptação para o Sínodo de agora, com a qual termino citando uma parte:

 Senhor, queremos viver no Teu amor e na fraternidade;

queremos viver, na liberdade, nossa própria vida e caminhada;

queremos ser uma terra de esperança e não de violência;

queremos caminhar rumo ao céu, construindo uma terra nova.

Abençoa nosso povo, Senhor!

Derrama sobre nossas comunidades a luz e força do Santo Espírito.

Ajuda nossa Igreja a viver o Sínodo

como tempo de descoberta e de crescimento na Fé,

tempo de participação e de compromisso,

tempo de comunhão e de missão.

Queremos ser uma Igreja de irmãos,

...........

VENHA A NÓS O TEU REINO E SEJA FEITA A TUA SANTA VONTADE. AMÉM


Fonte: IHU

Adolescentes e celulares, um desafio aos pais: “É preciso proibi-los aos menores de 14 anos”

A última provocação do psicoterapeuta do desenvolvimento Alberto Pellai é a de proibir o celular em casa até o nono ano do Ensino Fundamental. Eis o porquê: não atende às suas necessidades; reduz a probabilidade de sucesso escolar; interfere no desenvolvimento da mente em idade evolutiva; tem um impacto sobre a saúde; cria ansiedade e dependência; gera deseducação sexual e interfere no sono; influi nas reações emocionais e nas relações com os outros.


As crianças não têm os instrumentos cognitivos para gerir as tecnologias. E a experiência na realidade que decorre disso impede o seu crescimento.

A reportagem é de Viviana Dalosio, publicada em Avvenire, 12-09-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A última provocação do psicoterapeuta do desenvolvimento Alberto Pellai é a de proibir o celular em casa até o nono ano do Ensino Fundamental. Eis o porquê: não atende às suas necessidades; reduz a probabilidade de sucesso escolar; interfere no desenvolvimento da mente em idade evolutiva; tem um impacto sobre a saúde; cria ansiedade e dependência; gera deseducação sexual e interfere no sono; influi nas reações emocionais e nas relações com os outros.

Para elencar as razões pelas quais não se deveria dar (ou tirar) o celular dos adolescentes, uma enciclopédia não seria suficiente. E é a isso que se assemelha a última viagem do psicoterapeuta do desenvolvimento Alberto Pellai, junto com a esposa e a psicopedagoga Barbara Tamborini, pela cotidianidade das famílias afetadas pela tecnologia. Que provocativamente leva o título de “Vietato ai minori di 14 anni” [Proibido para menores de 14 anos] (Ed. DeAgostini), não tanto pela nostalgia do passado, mas para demonstrar que dizer “não” é um desafio que ainda pode ser vencido pelos pais, pelo bem dos seus filhos.

 

Eis a entrevista.

 

A partir de onde o livro começa?

A partir da realidade. Hoje, confrontamo-nos com a presença universal e totalizante do smartphone, um fenômeno que diz respeito em primeiro lugar a nós, adultos, e depois aos menores a partir de uma idade cada vez menor: basta pensar que cerca de 1,2 milhão de crianças, entre os 3 e os 8 anos de idade, estão regularmente online. O mercado, além disso, é muito poderoso: os pequenos acabaram dentro dele, representam um público-alvo muito lucrativo, com o resultado cultural dramático de que os sujeitos em idade de desenvolvimento já são vistos como sujeitos que produzem lucro, e não mais como sujeitos em formação. A primeira pergunta que devemos nos fazer é: o que o uso tão massivo do celular já nessa idade produz neles? E a resposta, da qual deriva a necessidade de impor a proibição “forte” que propomos até o nono ano, se baseia em indicações cientificamente fundamentadas: apenas danos.

Por quê?

Porque abaixo dos 14 anos de idade o cérebro humano não é organizado, mas tsunâmico: a adolescência é mudança, crescimento, risco, pesquisa, exploração. À medida que se experimentam situações na realidade, o cérebro aprende a organizá-las e adquire as competências cognitivas relativas. E esse processo, que só pode se desenvolver na realidade, exige gradualidade, assim como a construção de uma casa de vários andares. O celular, com tudo o que oferece e imediatamente ao alcance dos dedos, não pode ser gerido pelas crianças e adolescentes, simplesmente porque eles ainda não têm os instrumentos para isso. Mesmo assim, permitimos que o celular entre na vida dos nossos filhos e a fagocite. As crianças saem zeradas do ponto de vista social e emocional, mais imaturas, incapazes de enfrentar a realidade, cada vez mais irritadas.

“Mas todos têm – repetiria um dos muitos pais convencidos da escolha –, e eles terão que lidar com a tecnologia, mais cedo ou mais tarde...”

Esse é um dos argumentos mais difundidos entre mães e pais, sim. No livro, relatamos muitos argumentos análogos: “Pobrezinho, meu filho ficaria completamente isolado”, “Nós demos algumas regras, e ele usa o celular com responsabilidade”, “No restaurante ou quando estamos na casa dos avós, não podemos abrir mão do celular, porque ele se entediaria”. Mas é realmente assim? A sensação é que muitas vezes os pais renunciam a pôr em campo alternativas práticas à escolha de dar o celular. No caso do restaurante ou da casa dos avós, banalmente, é possível fomentar debates ou atividades que também possam envolver os filhos adolescentes. No caso de uma festinha com os amigos, na qual os pais costumam nos dizer que as crianças ficam todas grudadas na frente das telas, é possível estabelecer como regra inicial que o celular não entra: fica em uma cesta, na entrada, e é retomado no fim.

E aqui também é necessário que os pais dos amigos estejam na mesma linha.

Exatamente, é preciso uma linha comum. À qual nós, adultos, muitas vezes renunciamos, por medo de ficarmos isolados: em vez disso, precisamos conversar com outros pais, da turma ou do bairro, debater esse tema. Quanto mais nós, adultos, tivermos ideias claras e as compartilharmos dentro da comunidade em que vivemos, mais os nossos filhos poderão usufruir de um ambiente de crescimento em que os limites e as fronteiras são fáceis de se respeitar.

E quem já deu um celular? Como se volta atrás?

A nossa sugestão se dirige principalmente aos pais do Ensino Básico e Fundamental, ou seja, a quem ainda não fez a escolha de dar um celular. É uma escolha decisiva, pois envolve a vida e a serenidade dos nossos filhos. Devemos sopesá-la bem e esperar. Para quem já fez essa escolha, é urgente voltar a discuti-la.

Fonte: IHU

13 setembro, 2021

Trechos do livro "O Arroz de Palma", de Francisco Azevedo.

Trechos do livro "O Arroz de Palma", de Francisco Azevedo.

"Família é prato difícil de preparar.
São muitos ingredientes.
Reunir todos é um problema...
Não é para qualquer um.
Os truques, os segredos, o imprevisível.
Às vezes, dá até vontade de desistir...
Mas a vida... sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite.
O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares.
Súbito, feito milagre, a família está servida.
Fulana sai a mais inteligente de todas.
Beltrano veio no ponto; é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade.
Sicrano, quem diria?
Solou, endureceu, murchou antes do tempo.
Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante.
Aquele, o que surpreendeu e foi morar longe.
Ela, a mais apaixonada.
A outra, a mais consistente...
Já estão aí? Todos? Ótimo!
Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados.
Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola.
Não se envergonhe de chorar.
Família é prato que emociona.
E a gente chora mesmo.
De alegria, de raiva ou de tristeza.
Primeiro cuidado:
temperos exóticos alteram o sabor do parentesco.
Mas, se misturados com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar, tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.
Atenção, também, com os pesos e as medidas.
Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto:
é um verdadeiro desastre.
Família é prato extremamente sensível.
Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido.
Outra coisa:
é preciso ter boa mão, ser profissional.
Principalmente na hora que se decide meter a colher.
Saber meter a colher é verdadeira arte.
Às vezes, o ídolo da família, o bonzinho, o bola cheia que sempre ajudou, azedou a comida só porque meteu a colher.
O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita.
Bobagem!
Tudo ilusão!
Família é afinidade, é à Moda da Casa.
E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.
Há famílias doces.
Outras, meio amargas.
Outras apimentadíssimas.
Há também as que não têm gosto de nada. Seria assim, um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha.
Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo.
Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.
Enfim, receita de família não se copia, se inventa.
A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia.
A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel.
Muita coisa se perde na lembrança.
O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer.
Se puder saborear, saboreie.
Não ligue para etiquetas.
Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro.
Aproveite ao máximo.
Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete!

Lançamento da a V Jornada Mundial dos Pobres

Na próxima terça-feira, 14/09, às 10h a CNBB, pastorais sociais e organismos da igreja no Brasil lançam a V Jornada Mundial dos Pobres.

O lançamento poderá ser acompanhado nas redes sociais da CNBB “Facebook e canal do Youtube”.


A Jornada Mundial dos Pobres foi instituída pelo Papa Francisco em 20 de novembro de 2016, na conclusão do Ano Santo Extraordinário da Misericórdia.

O Brasil, adotou-se o tema: “Sentes compaixão?”, um convite a não ter indiferença frente ao sofrimento das pessoas em situação de vulnerabilidade e à crescente pobreza socioeconômica que assola mais 51,9 milhões de brasileiras e brasileiros.

A inspiração bíblica do lema é: “Sempre tereis pobres entre vós”, extraído de Mc. 14, 7.

07 setembro, 2021

'Cada palavra do lema do nosso Grito se faz vida no meio de nós!'

"Cada palavra do lema do nosso Grito se faz vida no meio de nós!
O Reino de Deus exige uma grande partilha social, a começar pelo nosso lar, atingindo toda a sociedade. Não descansamos enquanto não pudermos participar, enquanto não tivermos saúde, comida, moradia, trabalho e renda para todos e todas!"

06 setembro, 2021

🔴 Martírio - Cine TVT Especial


A TVT exibe o longa-metragem Martírio, de Vincent Carelli, em colaboração com Ernersto de Carvalho e Tita.Premiado documentário sobre a insurgência pacífica e obstinada dos povos Guarani-Kaiowá frente ao Agronegócio.

A grande marcha de retomada dos territórios sagrados Guarani Kaiowá através das filmagens de Vincent Carelli, que registrou o nascedouro do movimento na década de 1980.

Vinte anos mais tarde, tomado pelos relatos de sucessivos massacres, Carelli busca as origens deste genocídio, um conflito de forças desproporcionais: a insurgência pacífica e obstinada dos despossuídos Guarani Kaiowá frente ao poderoso aparato do agronegócio.

“A paz é o nome de Deus” (Papa Francisco)

“Diante do grave momento vivido por nosso país, dirijamos nossa oração a Deus, pedindo a bênção da paz para o Brasil.

Pai misericordioso, nós vos pedimos pelo Brasil!

Vivemos um momento triste, marcado por injustiças e violência. Para construirmos a justiça e a paz, em nosso país, necessitamos muito do vosso amor misericordioso, que nunca se cansa de perdoar.

Pai misericordioso, nós vos pedimos pelo Brasil!

Estamos indignados, diante de tanta corrupção e violência que espalham morte e insegurança. Pedimos perdão e conversão. Nós cremos no vosso amor misericordioso que nos ajuda a vencer as causas dos graves problemas do País: injustiça e desigualdade, ambição de poder e ganância, exploração e desprezo pela vida humana.

Pai misericordioso, nós vos pedimos pelo Brasil!

Ajudai-nos a construir um país justo e fraterno. Que todos estejamos atentos às necessidades das pessoas mais fragilizadas e indefesas! Que o diálogo e o respeito vençam o ódio e os conflitos! Que as barreiras sejam superadas por meio do encontro e da reconciliação! Que a política esteja, de fato, a serviço da pessoa e da sociedade e não dos interesses pessoais, partidários e de grupos.

Pai misericordioso, nós vos pedimos pelo Brasil!

Vosso Filho, Jesus, nos ensinou: “Pedi e recebereis”. Por isso, nós vos pedimos confiantes: fazei que nós, brasileiros e brasileiras, sejamos agentes da paz, iluminados pela Palavra e alimentados pela Eucaristia.

Pai misericordioso, nós vos pedimos pelo Brasil!

Vosso filho Jesus está no meio de nós, trazendo-nos esperança e força para caminhar. A comunhão eucarística seja fonte de comunhão fraterna e de paz, em nossas comunidades, nas famílias e nas ruas.

Pai misericordioso, nós vos pedimos pelo Brasil!

Amém!

(Pai nosso! Ave, Maria! Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo!)”


Fonte: CNBB

Mensagem do presidente da CNBB para o Dia da Pátria

Para refletir

“Enquanto os homens
Exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais”

(Caetano Veloso, “Podres Poderes”, 1984)

03 setembro, 2021

Cultivando violência: Fazenda Estrondo

O relatório “Cultivando Violência”, do Greenpeace, denuncia o caso da Agronegócio Condomínio Cachoeira do Estrondo, que fica no município de Formosa do Rio Preto na Bahia, epicentro do Matopiba no Cerrado. O condomínio de fazendas possui um longo histórico de violações ambientais e de direitos humanos. Mesmo assim, a soja produzida na propriedade ainda encontra espaço nos mercados internacionais.


 

Exterminador do futuro: Estrondo inicia desmatamento gigante no Cerrado


Grupo agrícola, que responde na justiça por apropriação indevida de terras, recebeu uma permissão irregular para desmatar uma área de Cerrado nativo maior que a cidade do Recife

Leia a reportagem publicada por Greenpeace Brasil, 02-09-2021.

02 setembro, 2021

'No princípio, há o Amor, o amor de Deus'

"No princípio, há o Amor, o amor de Deus. Tudo aquilo que é vida, tudo o que é belo, bom e verdadeiro vem dali, de Deus que é amor, assim como do coração e do ventre de uma mãe vem a vida humana, do coração e do ventre de uma Mãe veio Jesus, o Amor que se fez carne." (Papa Francisco)

Um estilo de vida ecossustentável: o vídeo do Papa para o mês de setembro

31 agosto, 2021

A Igreja e a Homossexualidade - Por Pe. Marcos Roberto Almeida dos Santos

A população LGBT também precisa do carinho e acolhida em nossas Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs.

Abrir-se a eles para em nossas comunidades somar com seus dons e carismas.

Na sessão dessa terça-feira (31) da Câmara de Vereadores de Maringá-Pr, a convite da vereadora Ana Lúcia Rodrigues a representante da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero da OAB Maringá, doutora Francielle Rocha, esteve presente e defendeu a aprovação do projeto de lei que institui o Conselho Municipal dos Direitos LGBTI+.

Dados apresentando Francielle mostra aumento dos casos de LGBTfobia. “Nos Paraná houve um aumento de 63% de casos de LGBTfobia no ano passado em relação a 2019. Em Maringá mais de 67% das pessoas LGBTI+ foram vítimas de preconceito e discriminação em razão da orientação sexual e identidade de gênero, segundo dados oficiais da prefeitura.”

A vereadora Ana Lúcia citou parte de um texto que já li e avalio como muito bom. O texto de autoria de Pe. Marcos Roberto Almeida dos Santos reflete sobre a população LGBT, constituída por gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais.

Segue o texto:

A IGREJA E A HOMOSSEXUALIDADE

Por Pe. Marcos Roberto Almeida dos Santos
Do clero da Arquidiocese de Maringá

O Concílio Vaticano II (1962-1965) rompeu com o conceito de “fuga mundi”por uma atitude de diálogo e discernimento frente aos valores da modernidade. Na constituição pastoral Gaudium et spes (GS)os padres conciliares manifestaram o desejo de moldar uma Igreja que, fosse sensível às alegrias e as esperanças, bem como as tristezas e as angústias dos homens de hoje (GS 1), perfazendo assim, uma instituição que em resposta ao mandato do Senhor de evangelizar todos os povos, concorresse para tornar a humanidade mais sensível aos valores do Evangelho. Neste intuito de ser uma Igreja em que, toda realidade humana encontre eco em seu coração, o Concílio Vaticano II permiti moldar uma instituiçãocomo expressão do diálogo e do discernimento. Para tanto, à luz do concílio, evangelizar impele manter um intercâmbio permanente entre a Igreja e as diversas culturas vigentes, onde os fiéis iluminados adequadamente pela Palavra de Deus e o Magistério eclesiástico, saibam interpretar a verdade divina revelada por Deus (GS 4 e 44). A liberdade de consciência da pessoa humana, associada a sua autonomia e dever de buscar a verdade, favorece um diálogo sincero, impondo a Igreja o reconhecimento de uma fecunda diversidade entre os seus fiéis (GS 16).

Posto isso, vemos a emergência de nós católicos refletirmos sobre a população LGBT, constituída por gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, não se imiscuindo da visibilidade e emergência deste agrupamento social tão mal compreendido e assimilado na sociedade atual. A Igreja reconhece ser a pessoa humana criada à imagem e semelhança de Deus, não sendo a orientação sexual o critério para se estabelecer a validade ou não da sua relação para com o transcendente, pois qualquer pessoa neste mundo é criatura de Deus e destinatário da sua graça, sendo por isso filho e herdeiro da vida eterna. Deus não ama menos uma pessoa por ela ser gay ou lésbica.

O paradigma inaugurado pelo Concílio Vaticano II permite a cada cristão-católico encontrar meios de acolhida e ajuda a estes nossos irmãos e irmãs, não no intuito de convertê-los e curá-los, mas no sentido de ajudá-los a integrar-se ao convívio social e eclesial e, na imprescindibilidade de devolver-lhe a dignidade humana, tantas vezes ferida e machucada pelo preconceito e pela intolerância à diversidade sexual. A CNBB em seu documento nº 100 sobre a conversão pastoral da paróquia, estabelece que em nossas comunidades cristãs saibamos acolher e integrar as pessoas que vivem em outras configurações familiares diferentes à família tradicional. Os bispos brasileiros alertam: “A Igreja, família de Cristo, precisa acolher com amor todos os seus filhos. [...]. Na renovação paroquial, a questão familiar exige conversão pastoral para não perder nada da Boa-Nova anunciada pela Igreja e, ao mesmo tempo, não deixar de atender, pastoralmente, às novas situações da vida familiar. Acolher, orientar e incluir nas comunidades aqueles que vivem numa outra configuração familiar são desafios inadiáveis”[1]. Dom Frei Severino Clasen, em sua Carta Pastoral publicada neste último 15 de agosto, alertou que o trabalho de evangelização da juventude precisa, imprescindivelmente, considerar a juventude homoafetiva[2].Na diocese de Nova Iguaçu no Rio de Janeiro, se criou a pastoral da diversidade, no intuito de auxiliar a população LGBT no exercício da fé religiosa.Aos poucos vamos percebendo que a Igreja e a sociedade civil vão tomando consciência que, a condição homossexual não é fruto da opção deliberada da pessoa e, portanto, não tendo ela alternativa senão se comportar de modo homossexual.

O pontificado do Papa Francisco inovou na relação de acolhida para com as pessoas homossexuais. Disse ele, em 2013, voltando do Brasil a Roma por ocasião da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro: “Se uma pessoa é gay, procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgar? [...] Não se devem marginalizar estas pessoas”[3]. O papa retoma o ensino do Concílio Vaticano II utilizando-se dos conceitos de liberdade e autonomia da consciência aplicada à realidade das pessoas homossexuais. No documento de Aparecida, resultado da conferência de bispos de toda a América Latina, realizada em 2007 com a participação do Papa Bento XVI e do então Arcebispo de Buenos Aires, Cardeal Bergoglio, convoca toda a Igreja a ir às “periferias existenciais” para o encontro com todos os que sofrem diversas formas de injustiças, carências e conflitos: “Com especial atenção e em continuidade com as Conferências anteriores, fixamos nosso olhar nos rostos dos novos excluídos: os migrantes, as vítimas da violência, os deslocados e refugiados, as vítimas do tráfico de pessoas e sequestros, os desaparecidos, os enfermos de HIV e de enfermidades endêmicas, os tóxicos-dependentes, idosos, meninos e meninas que são vítimas da prostituição, pornografia e violência ou do trabalho infantil, mulheres maltratadas, vítimas da exclusão e do tráfico para a exploração sexual, pessoas com capacidades diferentes, grandes grupos de desempregados/as, os excluídos pelo analfabetismo tecnológico, as pessoas que vivem na rua das grandes cidades, os indígenas e afro-americanos, agricultores sem terra e os mineiros. A Igreja, com sua Pastoral Social, deve dar acolhida e acompanhar essas pessoas excluídas nas respectivas esferas” (DAp. 402).

O Papa Francisco critica uma Igreja autorreferencial e entrincheirada em “estruturas caducas que perderam a capacidade de acolhimento”[4], porque o anúncio do amor salvífico de Deus precede a obrigação moral e religiosa. Na sua exortação apostólica Evangelii Gaudium ensina que devemos evitar desproporções na pregação cristãs, sobretudo quando pregamos mais a lei do que a graça de Deus, mais a Igreja do que Jesus Cristo, mais o Papa do que a Palavra de Deus (cf. EG 38). Nossa pregação moral não é uma ética estoica, não é uma mera filosofia prática e nem um catálogo de pecados e erros, porque o Evangelho é, antes de tudo, resposta a Deus que nos ama e salva, reconhecendo-nos como irmãos e irmãs na procura e no bem de todos (cf. EG 39). A misericórdia deve ser aplicada e vivida por todos os cristãos, inclusive pelos pastores da Igreja, rejeitando com isso todo idealismo estéril sem paciência e misericórdia: “fujam dos padres rígidos! Eles mordem”[5], dizia o papagraciosamente com seu bom humor.

A renovação realizada pelo Papa Francisco se faz com abertura pastoral e novos enfoques doutrinais, através de gestos ousados desencadeando novos processos de evangelização. No início de 2015 recebeu em sua casa a visita do transexual espanhol Diego Neria e de sua companheira Macarena, deixando-se fotografar com ambos.  Nos Estados Unidos recebeu na nunciatura apostólica o seu antigo aluno e amigo gay Yayo Grassi e seu companheiro. Recebeu também o chileno Juan Carlos Cruz, vítima de abuso sexual por um padre, com quem conversou em particular longamente, e na ocasião lhe disse: “Juan Carlos, que você é gay não importa. Deus te fez assim e te ama assim, e eu não me importo. O papa te ama assim. Você precisa estar feliz como você é”, segundo relato do próprio Juan Carlos[6]. Mais recentemente, em 2020, no documentário “Francesco” o Papa Francisco defendeu as uniões civis entre homossexuais: “As pessoas homossexuais têm direito de estar em uma família. Elas são filhas de Deus e têm direito a uma família. Ninguém deverá ser descartado ou ser infeliz. [...] O que precisamos criar é uma lei de união civil. Dessa forma eles são legalmente contemplados”[7].

Aqui nos cabe uma pergunta: Estaria o papa menosprezando a doutrina da Igreja? Na verdade, o Papa Francisco nada alterou doutrinalmente na Igreja católica, mas mudou, ou pelo menos busca mudar, a abordagem da Igreja frente aos grandes problemas da humanidade. Em meio a toda a complexidade da vida humana o papa não hesita em convocar a caridade fraterna como a primeira lei dos cristãos, como ensinou na Exortação Apostólica Amoris laetitia, sobre o amor na família: “Em toda e qualquer circunstância, perante quem tenha dificuldade em viver plenamente a lei de Deus, deve ressoar o convite a percorrer a via caritatis. A caridade fraterna é a primeira lei dos cristãos” (AL 306). Aplicando os gestos e exemplos do papa para com os LGBT´s certamente vários problemas dessa população seriam resolvidos.

Ainda na Exortação Apostólica Amoris laetitia refletindo sobre a família e seus desafios o Papa Francisco referenda o relatório conclusivo dos padres sinodais, quando pede o acolhimento e o respeito pelas pessoas homossexuais, evitando discriminação e qualquer forma de agressão e violência: “Com os Padres sinodais, examinei a situação das famílias que vivem a experiência de ter no seu seio pessoas com tendência homossexual, experiência não fácil nem para os pais nem para os filhos. Por isso desejo, antes de tudo, reafirmar que cada pessoa, independentemente da própria orientação sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com respeito, procurando evitar ‘todo sinal de discriminação injusta’ e particularmente toda forma de agressão e violência. Às famílias, por sua vez, deve-se assegurar um respeitoso acompanhamento, para que quantos manifestam a tendência homossexual possam dispor dos auxílios necessários para compreender e realizar plenamente a vontade de Deus na sua vida” (AL 250).

Mais recentemente, em 2019, a Congregação para a Educação Católica, publicou um documento sobre as questões de gênero e orientação sexual. O documento Homem e mulher os criou: para uma via de diálogo sobre a questão do gender na educação[8], reafirma o ensino tradicional da Igreja sobre antropologia e sexualidade, e ao mesmo tempo abre algumas possibilidades que podem ser promissoras. O referido documento distingui entre ideologia e as diversas pesquisas sobre gênero, realizadas pelas ciências humanas, com grande seriedade no que tange ao modo em que se vive a sexualidade entre homens e mulheres nas suas diversas culturas. Portanto, é necessário extinguir certa histeria que existe em determinados grupos quando se refere em gênero.Além do mais, alerta contra o bullying, exortando que na educação de crianças e jovens, deve-se respeitar suas diferenças e peculiaridades. O presente documento não responde às expectativas daqueles que esperavam da Igreja uma firme condenação dos estudos de gênero, mas se abre ao diálogo e ao debate aberto, afinal está se discutindo ciência, e não ideologias histéricas amplamente divulgadas por redes sociais nada cristãs.

Por fim, a Igreja precisa cada vez mais tomar consciência da população LGBT, e saber acolher em suas comunidades cristãs seus dons e carismas. Cada cristão deve ser o bom samaritano que, ao se encontrar compessoas em estado de vulnerabilidade, como é o caso de muitos homossexuais padecentes,derramar óleo e vinho em suas feridas e cuidar para que sejam inteiramente resgatadas e incluídas em nosso convívio social. A Igreja, enquanto instituição pertence à sociedade civil, deve apoiar e ajudar no discernimento ético e proposição de políticas públicas através de conselhos paritários, no intuito de acompanhar e promover esta parcela da população que clama por seus direitos.

Maringá-PR., 30 de agosto de 2021.




[1] CNBB, Comunidade de comunidades: uma nova paróquia (documento 100), nº 217-218.

[2]Dom Severino Clasen, Carta Pastoral Acolher e Cuidar, nº 226.

[3] PAPA FRANCISCO, Encontro do Santo Padre com os jornalistas durante o voo de regresso do Brasil, 28/06/2013.

[4] PAPA FRANCISCO, Solenidade de Pentecostes – homilia na Santa Missa com os movimentos eclesiais, 19/05/2013.

[5] PAPA FRANCISCO, Discurso do Papa Francisco aos participantes no congresso promovido pela Congregação para o Clero, por ocasião do cinquentenário dos decretos conciliares Optatam Totius e Presbiterorum Ordinis, Roma, 20/11/2015.

[6] El país, 19/05/2018, disponível www.elpais.com.

[8] CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Homem e mulher os criou: para uma via de diálogo sobre a questão do gender na educação, Vaticano, 2019.


O que são os fundamentalismos?

 


Por Ivone Gebara
Publicado no Portal das CEBs



O que são os fundamentalismos?

A palavra fundamentalismo é uma das mais ouvidas tanto no mundo religioso quanto no mundo social e político nesses tempos conturbados que são os nossos. É nessa perspectiva que podemos afirmar que existem muitas formas de fundamentalismo e estas formas abrangem as políticas, as religiões, as formas de educação, enfim toda a produção de conhecimento e das atitudes humanas.

A origem da palavra fundamentalismo vem de fundamento. E quando se fala de fundamento logo se pensa em alicerce, em terreno firme a partir do qual se podem construir casas, edifícios, crenças, saberes e ciência. Mas, no caso que estamos tratando a palavra fundamento, como algumas palavras às quais acrescentamos o sufixo ismo indicam uma espécie de adulteração de seu sentido próprio. O fundamentalismo é assim uma adulteração do fundamento, é colocar outros fundamentos no lugar da sustentação vital de nossas relações, é colocar ideias e leis que favorecem o interesse de minorias privilegiadas. Assim produzem mal-estar social acentuando comportamentos de exclusão de outras pessoas. Por isso, somos convidadas/os a refletir sobre os sentidos que apresentam no mundo das relações sociais, religiosas e políticas.

Os fundamentalismos só se mantem produzindo formas de violência contra as pessoas e eliminando direitos adquiridos embora na aparência não se mostrem assim. Fazem até pensar na parábola da pessoa que saiu a semear (Marcos 4, 1 a 20) e as sementes caíram em terrenos diversos. Os terrenos fundamentalistas acabam fazendo com que as sementes morram, enquanto o bom fundamento, a terra boa, aquela que produz plantas sadias que se tornam árvores e oferecem seus frutos em abundância. Os frutos podem ser partilhados e comidos com alegria. As árvores podem abrigar a diversidade de pássaros, simbolizando a diversidade de pessoas e manifestando a importância da convivência da diversidade na manutenção da vida.

No mundo inseguro em que vivemos, sobretudo, por conta da pandemia covid-19 e da instabilidade econômica e política mundial, os fundamentalismos têm um terreno fértil. Prometem segurança, prometem ordem, prometem paz. Porém para mantê-las ameaçam, distribuem armas, alienam as pessoas do direito de escolher e pensar sobre os rumos de suas vidas. De maneira especial os fundamentalismos religiosos se aliam aos fundamentalismos políticos e acreditam ser a salvação para o povo de muitas formas de pobreza. Entretanto produzem ilusões, autoritarismos e crescente violência. A história humana pode demonstrar as tragédias múltiplas nascidas dos muitos fundamentalismos que fomos capazes de criar.

Por isso temos que estar alertas para não cair em suas armadilhas, para não nos deixarmos iludir por suas promessas as mais diversas, para não sermos tentados por vantagens individuais que são oferecidas a cada instante.

Ser capaz de enfrentar a realidade em que vivemos, analisá-la e dar passos em vista do bem coletivo é um caminho para não cair nas redes fundamentalistas que tudo fazem para nos pescar.

Dar-nos as mãos, conversar sobre nossas vidas reais, sobre nossos limites e possibilidades reais dos projetos que nos oferecem é o que chamamos de capacidade de reflexão crítica. Reflexão com critério, com julgamento real, com análise das possibilidades de um caminho que embora difícil, não nos deixará cair nas ilusões e violências dos muitos fundamentalismos.

25 agosto, 2021

Menina rouba a cena na Audiência Geral

Praticamente durante toda a sua catequese, o Papa Francisco teve companhia no palco.
Correndo de um lado para outro, batendo palmas, parando justamente na frente do Pontífice. 
A mãe tentou tirá-la, mas o Papa pediu que ela ficasse livre.
 Antes de se despedir dos fiéis, Francisco compartilhou uma reflexão: quem rezou por ela, pela sua família e pelos seus pais? Quando vemos uma pessoa que sofre, devemos rezar.


 

22 agosto, 2021

CEBs da Arquidiocese de Maringá

CEBs da Arquidiocese de Maringá, no dia de hoje, 22 de agosto de 2021 em encontro com as e os que representaram a Arquidiocese avaliaram o 8º intereclesial das CEBs do Paraná.

O Encontro foi organizado e conduzido pelo Pe. Genivaldo Ubinge e por mim Lucimar Moreira Bueno (Lúcia).

Com alegria nesse dia o Pe. Donizeti Aparecido Pugin Souza, foi acolhido como Assessor Eclesiástico das CEBs da Arquidiocese de Maringá.

Lucimar Moreira Bueno foi confirmada para continuar como assessora leiga.

O Pe. Genivaldo Ubinge que acompanhava as CEBs como assessor eclesiástico ao passar para o Pe. Donizeti foi convidado para continuar somando na equipe de assessoria.

Continuamos com alegria e na certeza da importância das CEBs, esse lindo jeito profético de ser Igreja, no meio do povo como o povo.





20 agosto, 2021

Artigo – A Carta Pastoral de Dom Severino: Primeiras impressões



Artigo – A Carta Pastoral de Dom Severino: Primeiras impressões


No último dia 15 de agosto nosso arcebispo Dom Frei Severino Clasen publicou sua Carta Pastoral, intitulada Acolher e cuidar, por ocasião do 1º aniversário do início do seu ministério episcopal em nossa arquidiocese de Maringá. Uma carta pastoral é um documento pessoal do bispo onde, costumeiramente, se apresenta reflexões, exortações e proposições para o exercício do seu pastoreio junto aos fiéis.

A exemplo do apóstolo Paulo que se correspondia com as comunidades que fundava exortando e orientando a vida cristã, Dom Severino toma para si esta antiga prática eclesial e nos provoca para refletirmos a caminhada pastoral de nossa Igreja Particular.

O texto da Carta Pastoral, permeado de passagens bíblicas e citações do Magistério recente, é um convite ao diálogo com todas as forças vivas da Igreja diocesana, conclamando padres, diáconos, religiosos e leigos e leigas a reorganizar a ação evangelizadora, a partir da sinodalidade eclesial, tão enfatizada pelo Papa Francisco.

A Carta Pastoral constituída de 159 páginas e distribuída em três capítulos nos faz buscar em nossas raízes históricas e teológicas a compreensão do presente, acrescida da experiência pessoal de um pastor franciscano afeiçoado pela valorização de uma Igreja ministerial, onde todos – todo o Povo de Deus – é parte constitutiva e fundante na edificação do Reino de Deus.

A caminhada de evangelização de nossa arquidiocese agora se mescla na experiência de um pastor vindouro das terras do contestado catarinense, onde juntos, planejaremos os próximos passos na evangelização, almejando um futuro que possibilite a transmissão da fé que nos foi confiada no presente.

Cada geração tem seus próprios desafios no testemunho e na transmissão do Evangelho, mas o Espírito Santo toca a inteligência e a sabedoria de pastores em ouvir o sensus fidei para interpretar os sinais de cada época e transformá-los em ação pastoral.

Dom Severino é o primeiro bispo que não conheceu pessoalmente Dom Jaime Luiz Coelho, na sua missão episcopal de quarenta anos como pastor desta diocese (1957-1997). Na sua Carta Pastoral reconhece a importância deste intrépido bispo na fundação desta Igreja à luz da efervescência do Concílio Vaticano II (1962-1965), no importante auxílio dos religiosos, na formação de um clero autóctone e na organização pastoral de paróquias e pastorais.

Mesmo não conhecendo pessoalmente Dom Jaime, distante há oito anos de sua morte, Dom Severino se utiliza do relato daqueles que testemunharam seu pastoreio, além de buscar nas preciosas páginas do historiador e cronista Padre Orivaldo Robles as informações necessárias para compor o rico mosaico de padres, religiosos e leigos que construíram esta história em nossa diocese.

Na sequência menciona os demais bispos que aqui pastorearam, indicando que não veio para fundar uma nova Igreja, mas dar prosseguimento ao caminho iniciado por seus predecessores. Longe de querer rupturas com sua história, Dom Severino deseja colocar um tijolo a mais neste edifício eclesial, evidentemente com sua própria marca, trazendo consigo suas experiências vividas e sua compreensão de Igreja que os tempos novos lhe impõe no exercício episcopal.

A Carta Pastoral tem um tom positivo a respeito da Arquidiocese quando descreve os seus padres e leigos. Apresenta suas diferenças eclesiológicas e geracionais que, muitas vezes geram conflitos e discórdias, mas que ao final das contas prevalece a comunhão eclesial.

Dom Severino fala bastante dos padres incentivando-os ao trabalho pastoral em fidelidade ao Concílio Vaticano II, exortando-os para viver o ministério presbiteral de acordo com as orientações da Igreja, sem ostentação e privilégios.

Particularmente caro é o seu empenho para com os leigos e os religiosos, pois o bispo além de ser religioso franciscano foi presidente da Comissão para o laicato junto a CNBB, imprimindo-lhe uma forte atenção à formação e organização dos leigos nesta Igreja sinodal que almeja imputar cada vez mais em Maringá. Seja ao clero, ou ao laicato e aos religiosos, para todos exorta a renunciar uma espiritualidade intimista e uma Igreja paralela fora da comunhão eclesial, tão necessária para a catolicidade da Igreja.

O bispo também disponibiliza a Arquidiocese de Maringá na construção de uma sociedade onde a vida civil seja possível a todas as pessoas, indistintamente. A Igreja nunca se imiscuiu de colaborar na resolução dos problemas da cidade, buscando junto com as autoridades políticas e o poder público, consensos e tratativas que favoreçam o interesse coletivo, sobretudo dos mais pobres.

Aliás, nossa arquidiocese acompanha o desenvolvimento da cidade, sendo nossas paróquias testemunhas vivas que o surgimento de um novo bairro é a certeza do surgimento de uma nova comunidade cristã.

O bispo reivindica uma cidade para todos sem exclusão de ninguém, chama a atenção das autoridades políticas e exorta os fiéis a combater o preconceito de cor, gênero, religião, a desigualdade social, as condições econômicas precárias de muitas famílias, entre tantas situações de sofrimento que abatem a população.

O clamor e exortação do pastor se estendem para o cuidado com a natureza, preservando nossas matas e rios, sendo cuidadores da casa comum.

Por fim, o bispo convida a todos para dialogar com ele a respeito da evangelização para os próximos anos. Sua marca pessoal no governo desta Igreja começa na preocupação de dar maior agilidade e qualidade na ação evangelizadora das pastorais, movimentos eclesiais, serviços e organismos presentes na diocese.

Aquilo que inicialmente o bispo apelidou de “guarda-chuva”, se referindo ao conjunto de trabalhos que convergem para uma mesma ou semelhante ação pastoral, Dom Severino propõe reorganizar todas as forças vivas em três categorias pastorais: dimensões, setores e comissões.

A primeira dela contempla três dimensões: a dimensão de comunhão missionária, quando se atenta para a vida interna de uma comunidade; a dimensão sociotransformadora, tendo na Cáritas diocesana o eixo dinamizador de todas as iniciativas sociais da Igreja; e por fim, a dimensão do diálogo Igreja e sociedade, em vista de possibilitar o encontro fraterno e a troca de experiências com outras denominações cristãs e outras religiões não-cristãs.

Na sequência propõe impulsionar algumas iniciativas em setores, fortalecendo aqueles que já existem ou mesmo constituindo novos setores. A família, a juventude, a comunicação e os movimentos eclesiais/novas comunidades são os titulares destes setores que se pretende fazer uma ação evangelizadora comum, respeitando, evidentemente, a especificidade e o carisma de cada um dos segmentos. A unidade na diversidade.

E, por último, o bispo propõe constituir duas comissões, onde todos os segmentos da arquidiocese devem se envolver: a iniciação à vida cristã e a formação sistemática e permanente do laicato.

A Carta Pastoral não é um documento legislativo, por isso não tem força de lei canônica, mas um instrumento onde o bispo se permite em colocar suas ideias para discutir e dialogar com todos.

O momento agora é de acolher a Carta Pastoral, ler atenciosamente os seus ricos parágrafos, discutir com a comunidade e outras pessoas interessadas, no intuito de abrir um grande debate sobre a ação evangelizadora de nossa arquidiocese.

A Assembleia Arquidiocesana será a grande ocasião de sistematizar e refletir as propostas do bispo, juntamente com tantas outras ideias que nascerão do debate desta Carta Pastoral, culminando assim num Plano de Pastoral resultado da sinodalidade e da confirmação episcopal de nosso pastor.

Pe. Marcos Roberto Almeida dos Santos
Maringá-PR., 17 de agosto de 2.021
mralmeidas19@hotmail.com

Fonte: Site da Arquidiocese de Maringá

19 agosto, 2021

Dia 19 de agosto!

Quatro anos. Esse dia ficou marcado como um dia, que não compreendo mais meu coração estava entristecido na manhã daquele sábado. Por volta das nove horas, pressentimento e não demorou a notícia que foi a mais difícil vivida, com saúde estava, mas veio a falecer, meu irmão. Com o nosso Deus ele esta.


18 agosto, 2021

Saiba o que muda na vida dos servidores públicos e da população se a PEC 32 for aprovada

Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 32 da Reforma Administrativa, hoje um ponto de destaque da agenda econômica do governo federal.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), já afirmou que a proposta deve entrar em votação até o final de agosto no Plenário. A medida foi protocolada pelo Planalto em setembro de 2020, e altera uma série de normas que regem o trabalho no funcionalismo público.

Leia a matéria publicada no site Brasil de Fato


PAPA FRANCISCO - AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Irmãos e irmãs, bom dia!

São Paulo, apaixonado por Jesus Cristo, pois tinha entendido bem o que era a salvação, ensinou-nos que os «filhos da promessa» (Gl 4, 28) – isto é, todos nós, justificados por Jesus Cristo – não estão sob o vínculo da Lei, mas são chamados ao estilo de vida exigente na liberdade do Evangelho. No entanto, a Lei existe. Mas existe de outro modo: a mesma Lei, os Dez Mandamentos, mas de outro modo, pois uma vez que o Senhor Jesus veio ela não pode justificar-se por si mesma. E portanto, na catequese de hoje, gostaria de explicar isto. E perguntemo-nos: qual é, segundo a Carta aos Gálatas, o papel da Lei? No trecho que ouvimos, Paulo diz que a Lei foi como um pedagogo. É uma bonita imagem, a do pedagogo sobre o qual falamos na audiência passada, uma imagem que merece ser compreendida no seu justo significado.

Parece que o Apóstolo sugere que os cristãos dividem a história da salvação em duas, e também a própria história pessoal. São dois os momentos: antes de se tornar crentes em Jesus Cristo e depois de ter recebido a fé. No centro está o acontecimento da morte e ressurreição de Jesus, que Paulo pregou a fim de suscitar a fé no Filho de Deus, fonte da salvação, e somos justificados em Cristo Jesus. Somos justificados pela gratuidade da fé em Cristo Jesus. Por conseguinte, partindo da fé em Cristo, há um “antes” e um “depois” em relação à própria Lei, pois a lei existe, os Mandamentos existem, mas há uma atitude antes da vinda de Jesus e outra depois. A história anterior é determinada pelo facto de estar “sob a Lei”. E quem percorria o caminho da Lei se salvava, era justificado; a história sucessiva – depois da vinda de Jesus – deve ser vivida seguindo o Espírito Santo (cf. Gl 5, 25). É a primeira vez que Paulo usa esta expressão: estar “sob a Lei”. O significado subjacente implica a ideia de uma servidão negativa, típica dos escravos: “estar submetido”. O Apóstolo torna-o explícito, dizendo que quando se está “sob a Lei” é como ser “vigiado” e “preso”, uma espécie de prisão preventiva. Este tempo, diz São Paulo, durou muito – desde Moisés até à vinda de Jesus – e perpetua-se enquanto se vive no pecado.

A relação entre a Lei e o pecado será explicada de uma forma mais sistemática pelo Apóstolo na sua Carta aos Romanos, escrita alguns anos após a Carta aos Gálatas. Em síntese, a Lei leva a definir a transgressão e a tornar as pessoas conscientes do próprio pecado: “Fizeste isto, portanto a Lei – os Dez Mandamentos – diz assim: tu estás no pecado”. Aliás, como ensina a experiência comum, o preceito acaba por estimular a transgressão. Na Carta aos Romanos, escreve: «Quando estávamos na carne, as paixões pecaminosas, fortalecidas pela lei, operavam nos nossos membros e produziam frutos para a morte. Agora, porém, livres da lei, estamos mortos para o que nos sujeitara, de modo que servimos num espírito novo e não segundo uma lei antiquada» (7, 5-6). Porquê? Porque veio a justificação de Jesus Cristo. Paulo expõe a sua visão da Lei: «O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a Lei» (1 Cor 15, 56). Um diálogo: tu estás submetido à Lei, e estás ali com a porta aberta ao pecado.

Neste contexto, a referência ao papel pedagógico desempenhado pela Lei assume o seu pleno sentido. Mas a Lei é o pedagogo, que te leva para onde? Para Jesus. No sistema escolar da antiguidade, o pedagogo não tinha a função que lhe atribuímos hoje, ou seja, dar educação a um jovem ou a uma jovem. Naquela época, ele era um escravo cuja tarefa consistia em acompanhar o filho do dono ao mestre e depois trazê-lo para casa. Desta forma devia protegê-lo do perigo, vigiar para que não se comportasse mal. A sua função era bastante disciplinar. Quando o jovem se tornava adulto, o pedagogo cessava as suas funções. O pedagogo ao qual Paulo se referia não era o professor, mas aquele que o acompanhava à escola, vigiava sobre o menino e depois levava-o para casa.

A referência à Lei, nestes termos, permite que São Paulo esclareça a sua função na história de Israel. A Torá, isto é, a Lei, fora um ato de magnanimidade por parte de Deus para com o seu povo. Depois da eleição de Abraão, outro ato importante foi a Lei: definir o caminho para ir em frente. Certamente tinha funções restritivas, mas ao mesmo tempo protegia o povo, educava-o, disciplinava-o e apoiava-o na sua fraqueza, sobretudo com a proteção face ao paganismo; naqueles tempos, havia muitos comportamentos pagãos. A Torá diz: “Existe um único Deus que nos pôs a caminho”. Um ato de bondade do Senhor. E certamente, como eu já disse, tivera funções restritivas, mas ao mesmo tempo, protegera o povo, educara-o, disciplinara-o, apoiara-o na sua debilidade. É por esta razão que o Apóstolo reflete sucessivamente, descrevendo a fase da menoridade. Diz assim: «Enquanto o herdeiro é menino, em nada difere do servo, ainda que seja senhor de tudo, pois está sob o domínio de tutores e administradores, até ao dia determinado pelo pai. Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos subjugados pelos elementos do mundo» (Gl 4, 1-3). Em síntese, a convicção do Apóstolo é que a Lei tem certamente uma função positiva – portanto, como pedagogo, leva em frente – mas é uma função limitada no tempo. A sua duração não pode ser prolongada além, pois está ligada ao amadurecimento das pessoas e à sua escolha de liberdade. Quando se chega à fé, a Lei esgota o seu valor propedêutico e deve dar lugar a outra autoridade. O que isto significa? Que quando acaba a Lei, podemos dizer: “Cremos em Jesus Cristo e fazemos o que nos apetece?”. Não! Os Mandamentos existem, mas não nos justificam. Quem nos justifica é Jesus Cristo. Devemos observar os Mandamentos, mas eles não nos dão a justiça; há a gratuidade de Jesus Cristo, o encontro com Jesus Cristo que nos justifica gratuitamente. O mérito da fé é receber Jesus. O único mérito: abrir o coração. E o que fazemos com os Mandamentos? Devemos observá-los, mas como ajuda para o encontro com Jesus Cristo.

Este ensinamento sobre o valor da lei é muito importante e merece ser considerado cuidadosamente para não cair em equívocos nem dar passos falsos. Far-nos-á bem perguntar-nos se ainda vivemos no período em que precisamos da Lei, ou se estamos bem conscientes de que recebemos a graça de nos tornarmos filhos de Deus para viver no amor. De que maneira vivo? Temendo que se eu não fizer isto, irei para o inferno? Ou vivo também com aquela esperança, com a alegria da gratuidade da salvação em Jesus Cristo? É uma boa pergunta. E também a segunda: desprezo os Mandamentos? Não! Observo-os, mas não como absolutos, pois sei que quem me justifica é Jesus Cristo.

Saudações:

Dirijo uma cordial saudação aos fiéis de língua portuguesa. Queridos irmãos e irmãs, não vos esqueçais que todo o batizado está chamado a viver na liberdade dos filhos de Deus. É o Espírito Santo que vos tornará capazes de viver e testemunhar a vossa fé com alegria e generosidade. Nossa Senhora acompanhe e proteja a vós todos e aos vossos entes queridos!

Resumo da catequese do Santo Padre:

O trecho da Carta aos Gálatas lido no início da Catequese de hoje afirma que, antes que viesse a fé, estávamos encerrados sob a vigilância de uma Lei que exercia a função de um pedagogo (cf. 3, 23-24). Para São Paulo, a história da salvação e a nossa história pessoal se dividem em antes e depois da fé em Cristo, em estar sob a vigilância da lei ou ser guiado pelo Espírito Santo. E, estar sob a vigilância da lei significa estar encerrados, numa espécie de escravidão, cuja raiz é o pecado. Neste sentido, a lei se apresenta como um pedagogo. Este, na antiguidade, era um escravo encarregado de proteger e vigiar um jovem durante o seu processo de educação com um mestre. Tal função disciplinar do pedagogo ajuda a compreender o papel da lei de Moisés que, embora limitada, tinha a missão encaminhar o povo escolhido à uma autoridade superior: Cristo que nos salva, fazendo-nos participar da graça de sermos filhos de Deus.


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