10 junho, 2020

A “inutilidade” das mídias católicas

reunião entre Bolsonaro e lideranças de mídias católicas explicitou um modelo de negócios desviante e desvirtuado, que alimenta um círculo vicioso: se evangelizar é preciso, para evangelizar é preciso de dinheiro; para supostamente “evangelizar” massivamente por meio de um gigantesco aparato de telecomunicação, é preciso de muito dinheiro; para arrecadar muito dinheiro, é preciso recorrer a todos os meios possíveis.
A opinião é de Moisés Sbardelotto, jornalista e professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos. Seu livro mais recente é "Comunicar a fé: por quê? Para quê? Com quem?" (Ed. Vozes, 2020).
Eis o artigo.
videoconferência entre o presidente Jair Bolsonaro e padres e leigos que controlam boa parte do sistema de comunicação midiática católica, noticiada pelo jornal O Estado de São Paulo no último sábado, 6 de junho, expôs um forte viés político-econômico, evidenciado especialmente nas falas citadas na reportagem e audíveis na gravação da reunião. Não é difícil perceber a “barganha” – reiterada e nada sutil –, denunciada pela nota conjunta da CNBB, da Signis Brasil e da Rede Católica de Rádio.
Mas, antes que o leitor e a leitora tirem conclusões precipitadas sobre o título deste texto, façamos uma breve reflexão sobre o conteúdo do vídeo noticiado e sobre a reportagem do Estadão.
A reunião começa tendo como foco a “defesa da vida e da família”, nas palavras do parlamentar que inicia as falas. É chocante o contrassenso – para dizer o mínimo – das supostas “lideranças católicas” ali presentes em debater tais questões justamente com o atual presidente da República, que, em plena pandemia, vem praticando uma verdadeira necropolítica antivida e antifamília. A suposta postura “antiaborto” do presidente é apenas uma grande cortina de fumaça diante do escandaloso “aborto social” de tantas pessoas entregues inermes ao coronavírus, sob o pretexto de que “a economia não pode parar”.
Mas o ponto em questão aqui não é Bolsonaro, que só piora o contexto. É a postura das mídias católicas.
Durante a reunião, ouviram-se afirmações como a de um padre que disse: “Nós somos uma potência”, referindo-se a tais mídias. “Nós somos a maioria”, complementou um deputado ligado à bancada autointitulada “católica”. Um empresário orgulhou-se de que sua empresa de comunicação católica seria a “quarta maior rede de TV digital do país”.
Evidencia-se aí aquilo que o Papa Francisco denuncia na Evangelii gaudium como “autocomplacência egocêntrica” e “funcionalismo empresarial”, no qual “o principal beneficiário não é o povo de Deus, mas sim a Igreja como organização” (EG 95). Profeticamente, Francisco já dizia na mesma exortação apostólica: “Nesse contexto, alimenta-se a vanglória daqueles que se contentam com ter algum poder e preferem ser generais de exércitos derrotados” (EG 96).
Diante da “derrota” que os levou justamente a pedir favores governamentais, o escambo negociado pelos empresários das TVs com o presidente envolveu – nas palavras de algumas daquelas lideranças – “mídia positiva”, comunicação “daquilo de bom que o governo pode estar realizando e fazendo pelo nosso povo” e de apoio explícito ao governo.
“Nós queremos estar juntos”, disse um dos padres presentes na reunião. Outro clérigo afirmou: “Sentimos saudade do senhor (...) desejaria tê-lo mais próximo”. Um dos deputados falou que o presidente “pode contar 100% nas matérias pertinentes em apoio ao governo”. Um empresário completou: “Bolsonaro é uma grande esperança”. Lisonjas e bajulações que envergonham qualquer cristão que segue Aquele que disse que é preciso “dar a César o que é de César” – e não elogiar César por ser César.
Em troca, essas lideranças pediram “mais investimentos”, mais “veiculações publicitárias governamentais”, acesso ou renovação facilitados de outorgas e tecnologias, e até ajuda na liberação de passaporte brasileiro a um dos padres estrangeiros presentes.
Como não chamar isso de “barganha”, como definiu a nota conjunta da CNBB, da Signis Brasil e da RCR? Que outro termo podemos utilizar para definir tais apelos?
Para quem assistiu ao vídeo, não houve maldade, nem distorção, nem vício, nem desfiguração na reportagem de Felipe Frazão. Julgar o atraso na publicação da matéria (no dia 6 de junho, embora a reunião tenha ocorrido no dia 21 de maio) como algo encomendado ou valorizar o silêncio de outros jornais a esse respeito é contraproducente e não diminui em nada a gravidade daquilo que se pode assistir e ouvir na gravação.
Se há uma “economia que mata” (cf. EG 53), essa reunião explicitou também um modelo de negócios desviante e desvirtuado, que, neste caso, mata a própria Igreja, em um círculo vicioso: se evangelizar é preciso, para evangelizar é preciso de dinheiro; para supostamente “evangelizar” massivamente por meio de um gigantesco aparato de telecomunicação, é preciso de muito dinheiro; para arrecadar muito dinheiro, é preciso recorrer a todos os meios possíveis.
Em tudo isso, vêm à tona as limitações que certos setores da Igreja têm na “relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós”, como denuncia Francisco. “Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro (...) Por detrás desta atitude, escondem-se a rejeição da ética e a recusa de Deus” (EG 55, 57). E o papa afirma ainda: “O dinheiro deve servir, e não governar!” (EG 58).
Quando essa “economia que mata” se infiltra no âmbito eclesial, confunde-se a ação evangelizadora com práticas de um “mercado de bens religiosos”, de “concorrência religiosa”, de “marketing religioso”.
Diante de tudo isso, é preciso recordar, reconhecer e reafirmar a “inutilidade” das mídias católicas. Ou, melhor, a sua tríplice “inutilidade”: do ponto de vista econômico-financeiro, informacional e também da evangelização.

“Inutilidade” econômico-financeira

Ao contrário do que a reunião tornou evidente, a comunicação midiática católica não deveria aceitar o “domínio do dinheiro” sobre a evangelização, muito menos ter o lucro como foco principal. É preciso de dinheiro para evangelizar, mas a evangelização não deve depender exclusivamente do dinheiro. Se o dinheiro “impede” que se evangelize, não se entendeu bem o que significa evangelização.
O filósofo italiano Nuccio Ordine, em seu livro-manifesto “A utilidade do inútil” (Ed. Zahar) critica a concepção segundo a qual todas as coisas que não trazem lucro são consideradas inúteis. Pelo contrário, o autor defende a ideia de utilidade em relação ao valor essencial das coisas, que está “completamente desvinculado de qualquer fim utilitarista”.
No mesmo sentido, a comunicação midiática católica também deveria explicitar claramente a sua “natureza gratuita e livre de interesses, distante de qualquer vínculo prático e comercial”, nas palavras de Ordine. Seria uma bela demonstração de estar no mundo da indústria da informação sem ser desse mundo (cf. Jo 17,16).
Gratia gratis data: a Graça é dada de graça. A comunicação dessa graça, portanto, não pode ser considerada um “produto”, porque não deve demandar qualquer tipo de troca ou retorno. O amor de Deus é desinteressado, é dado “de maneira unilateral, isto é, sem pedir nada em troca”, afirmou Francisco na mensagem ao 1º Dia Mundial dos Pobres, em 2017.
A evangelização, reafirma Francisco, “tem o seu fundamento último na iniciativa livre e gratuita de Deus” (EG 111) e deve ser “dirigida gratuitamente”, principalmente aos pobres, como “destinatários privilegiados do Evangelho” (EG 48). Se acolhemos a Graça “de graça”, somos convidados a comunicá-la também de graça, como diz Jesus (Mateus 10, 8), sem interesses – “inutilmente”, do ponto de vista econômico-financeiro.
Segundo Ordine, a lógica do lucro solapa as bases das instituições. Embora muitas delas – como as redes midiáticas católicas – sejam fonte de receitas extraordinárias, sua existência não deveria estar subordinada aos ganhos imediatos ou aos benefícios comerciais. Diante de uma “economia da exclusão e da desigualdade social” e da “cultura do descartável” (EG 53), a comunicação midiática católica deveria ser um exemplo público da “utilidade do inútil”, ou seja, o contraponto a uma “utilidade dominante que, em nome de um interesse exclusivamente econômico, está progressivamente matando [...] o horizonte civil [e eclesial] que deveria inspirar toda atividade humana”, como afirma o filósofo italiano.
A comunicação midiática católica teria que evidenciar “a importância vital dos valores que não se podem pesar ou medir com instrumentos calibrados para avaliar a quantitas e não a qualitas. E, ao mesmo tempo, reivindicar o caráter fundamental daqueles investimentos que não trazem retorno imediato e muito menos financeiro”, segundo Ordine.
Por se situar em um universo que não apenas depende do mundo econômico, mas também o gera e o alimenta – como o universo da indústria da informação – a comunicação midiática católica deveria ser o mais imponente e evidente “obstáculo ao delírio da onipotência do dinheiro e do utilitarismo”, como afirma o filósofo italiano.
Parafraseando o autor, é possível dizer: é bem verdade que tudo se pode comprar, até “mídia positiva”, apoio político e passaportes. Mas não a coerência com o Evangelho. O preço a ser pago por isso é de outra natureza, que, em Jesus, não foi o sucesso nem a fama, mas sim o fracasso e o escárnio; não foi a imortalidade idolátrica, mas sim a morte, e morte de cruz.
Por isso, as mídias católicas deveriam reconhecer a sua “inutilidade” do ponto de vista econômico-financeiro e evidenciar a sua “não busca” daquilo que é útil, do lucro, do dinheiro fácil. Sua “utilidade” é de outro tipo. Afirma Ordine: “No mundo em que vivemos, dominado pelo homo œconomicus, certamente não é fácil compreender a utilidade do inútil e a inutilidade do útil (quantas mercadorias desnecessárias são consideradas úteis e indispensáveis?)”. Isso também vale para o universo religioso.
Mas a comunicação católica tem custos, alguém poderá objetar. Sim, é verdade. E justamente aquela reunião expõe uma necessidade premente de repensar com “ousadia e criatividade” (cf. EG 33) os modelos de financiamento e de autossustentabilidade financeira das mídias católicas. Como afirmou o teólogo Cesar Kuzma, “se não mudarmos esta estrutura, este modo de entender a Igreja, fatos como este irão se repetir, bem como outros escândalos. O Evangelho se serve da estrutura, mas não pode servir a esta”.
Portanto, se não servem para lucrar, para que servem as mídias católicas? Se não servem ao dinheiro, a quem servem?

“Inutilidade” informacional

As mídias católicas, por meio de sua produção de informações, como bens públicos concedidos pelo Estado, são chamadas a servir à construção do bem comum e da convivência civil e democrática.
Do ponto de vista do que a lei brasileira exige de uma mídia massiva, particularmente do rádio e da televisão, existem alguns princípios demandados pela própria Constituição Federal. São eles:
I - Preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;
II - Promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;
III - Regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;
IV - Respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família (art. 221).

Fazer isso é o mínimo que se espera de uma rádio ou de um canal de TV no Brasil. Por isso, é preciso reconhecer também a “inutilidade” das mídias católicas do ponto de vista informacional. Pois, se um canal católico consegue cumprir tais princípios, não fez nada mais do que sua obrigação legal perante a Constituição. Como diz o Evangelho de Lucas: “Quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: ‘Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer’” (Lc 17,10).
Quando não o fazem ou, pior, quando fazem o contrário disso, as mídias católicas estão descumprindo a própria lei. Comparando tais princípios constitucionais com a grade de programação de certos canais católicos, sua conformidade à legislação fica em questão. Muitas vezes, a programação é praticamente toda confessional, quando não proselitista. Mas o anúncio do Evangelho e a confissão da fé cristã são algo bem diferente de qualquer “proselitismo político ou cultural, psicológico ou religioso”, como afirmou Francisco em sua mensagem às Pontifícias Obras Missionárias, em maio deste ano.
Há, além disso, uma questão de política comunicacional. Basta olhar para o número de canais católicos de TV aberta que temos no país: AparecidaCanção NovaEvangelizarHorizonteImaculadaNazaréPai EternoRede VidaSéculo 21. Algo incomparável com qualquer outro país de maioria católica do mundo. Trata-se de um aparato comunicacional muito dispendioso, que, muitas vezes, gera uma concorrência financeira e religiosa desnecessária. Como justificativa para isso, afirma-se que, se a Igreja não “ocupar” tais espaços, eles serão ocupados por outros grupos religiosos, e o catolicismo perderá fiéis e visibilidade. Mas os objetivos da comunicação católica seriam apenas arrebanhar adeptos e visibilizar o catolicismo?
Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil lembra ainda que rádio e TV são “um bem público entregue temporariamente a determinados beneficiários que devem prestar contas de seus atos” (DCIB 196). Então, o que a atual estrutura de comunicação diz sobre a própria Igreja? O que diz também sobre a sua relação com o Estado e a sociedade brasileiros? A Igreja defende que “compete aos grupos midiáticos agir com independência, quer em relação aos Governos e partidos políticos, quer em relação aos anunciantes” (DCIB 204). A reunião explicitou outro modo de ação.
Como defendem tanto a nota conjunta da CNBBSignis Brasil e RCR quanto a nota da Província dos Jesuítas do Brasil, divulgadas após a reportagem do sábado, a Igreja busca estabelecer com o Estado “relações institucionais (...) pautadas pelos valores do Evangelho e nos valores democráticos, republicanos, éticos e morais”. Portanto, em nome de tais valores, em favor da própria democracia, da pluralidade cultural e da liberdade religiosa, como evitar uma possível concentração de poder midiático nas mãos de grupos ligados ao catolicismo?
Quanto a isso, a Igreja tem em suas mãos uma forma de contribuir ativamente com a democratização da comunicação no Brasil, mediante um maior investimento nas diversas mídias descentralizadas, de nível paroquial ou diocesano. Elas são um grande exemplo de comunicação popular e alternativa, uma comunicação em que “o povo é seu protagonista”, feita “pelo povo, a partir dele e para ele” (DCIB, n. 147).
Diante dessa realidade, a pergunta retorna com ainda mais força: se as mídias católicas não fazem nada mais do que sua obrigação legal, para que mais elas servem? Ou, pior, se não fazem sequer isso, para que servem? A quem servem?

“Inutilidade” na evangelização

Uma resposta para a pergunta anterior – talvez a central e definidora do caráter “católico” de uma mídia – seja a evangelização, a comunicação da Boa Nova.
Como já disse Paulo VI, “a Igreja se sentiria culpada diante do seu Senhor, se não adotasse esses poderosos meios [de comunicação social], que a inteligência humana torna cada dia mais aperfeiçoados” (Evangelii nuntiandi, EN 45). Mas ela os adota para “propagar e firmar o Reino de Deus”, como afirma um dos principais documentos sobre a comunicação católica, o decreto conciliar Inter mirifica, emitido a pedido do Concílio Vaticano II (n. 2). Esse é o seu sentido primordialmente católico.
Entretanto, as estratégias do “mercado comunicacional religioso”, pelo contrário, muitas vezes acabam manifestando aquilo que o Papa Francisco chama de “mundanismo espiritual”, que, mesmo com “aparências de religiosidade e até mesmo de amor à Igreja”, buscam, no fundo, “a glória humana e o bem-estar pessoal”, empresarial ou institucional (EG 93). Ou seja, “uma maneira sutil de procurar ‘os próprios interesses, não os interesses de Jesus Cristo’”.
O anúncio de Cristo, porém, “não é nem proselitismo, nem publicidade, nem marketing”, como disse Francisco em uma missa matinal na Casa Santa Marta em novembro de 2018. Evangelizar, segundo Paulo VI, é, acima de tudo, “testemunhar, de maneira simples e direta, o Deus revelado por Jesus Cristo, no Espírito Santo” (EN 26). 
Se e quando colaboram com essa ação evangelizadora, as mídias católicas são novamente “servas inúteis” de Deus e da Igreja. Não fazem nada mais do que o que a sua vocação pede. A força, o dinamismo, a criatividade, a inspiração evangelizadores não são “autocriação” dos próprios comunicadores, mas sim dom de Deus. “O diálogo da salvação foi aberto espontaneamente por iniciativa divina”, e nós somos meros “prolongadores”, como afirmava Paulo VI. Mas, para que efetivamente ajudemos nessa comunicação, e não a atrapalhemos ou a obstaculizemos, “o nosso diálogo deve ser sem limites nem cálculos” (Ecclesiam suam, n. 42).
“Se a nossa partilha do Evangelho é capaz de dar bons frutos – afirmou Bento XVI –, em última análise é pela força que a própria Palavra de Deus tem de tocar os corações, e não tanto por qualquer esforço nosso. A confiança no poder da ação de Deus deve ser sempre superior a toda e qualquer segurança que possamos colocar na utilização dos recursos humanos” (Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2013). Portanto, a comunicação cristã não é uma heroica tarefa pessoal, mas sim “obra de Deus”, reitera Francisco (EG 12).
Porém, muitas vezes, as mídias católicas reforçam uma suposta centralidade da vida da Igreja na pessoa do padre, como empresário de sucesso e estrela midiática, alimentando aquele clericalismo tão denunciado por Francisco. Isso fica explícito em vários programas de rádio e TV. Foi evidenciado na reunião com o presidente. E foi reiterado também em uma nota posterior à reunião, divulgada por uma das redes católicas, em que se afirma que “o Padre tem a obrigação sacerdotal de mostrar o caminho de Deus a todos”. Supõe-se que, sem “o Padre”, os leigos não teriam a capacidade de encontrar tal caminho por conta própria.
Soma-se a isso a constante promoção de devocionalismos e ritualismos em certos programas católicos, que geralmente têm como fim a busca de “milagres”, sejam eles em termos de benefícios pessoais ou econômicos. Para isso, é prática recorrente a venda de penduricalhos da fé, anunciados quase como amuletos. Fomentam-se, assim, “crenças fatalistas ou supersticiosas” (EG 69), que se afastam muito da “autêntica espiritualidade popular” (EG 124), deturpando e prejudicando a ação evangelizadora da Igreja como um todo.
Em nome da humildade cristã, portanto, é bom reconhecer – sem medo e buscando tirar daí todas as consequências – a “inutilidade” das mídias católicas também em relação à evangelização. Elas não são essenciais à ação evangelizadora. Pode-se dizer que elas também não são mais opcionais em um mundo cada vez mais midiatizado, mas, mesmo sem elas, a Palavra de Deus tem a força para chegar aos confins do universo, mediante a pequenez e a singeleza do testemunho cristão.
Paulo VI, ao falar das vias de evangelização, já afirmava:
“Acima de tudo, sem repetir tudo o já recordamos anteriormente, é bom sublinhar isto: para a Igreja, o testemunho de uma vida autenticamente cristã, entregue nas mãos de Deus, em uma comunhão que nada deve interromper, mas igualmente doada ao próximo com um zelo sem limites, é o primeiro meio de evangelização. (...) É, portanto, mediante a sua conduta, mediante a sua vida, que a Igreja há de, acima de tudo, evangelizar o mundo; ou seja, mediante o seu testemunho vivido de fidelidade ao Senhor Jesus, de pobreza e de desapego, de liberdade diante dos poderes deste mundo; em uma palavra, de santidade” (EN 41).
O que se viu naquela reunião foi algo bem diferente disso. E, para além das lideranças presentes, é toda a comunicação católica que sai manchada desse episódio. O eufemismo de que as mídias lá presentes eram apenas de “inspiração católica” não minimiza o estrago. As explicações e justificativas que foram publicadas após a reportagem do Estadão foram recebidas quase que apenas internamente, nos ambientes intraeclesiais. Do ponto de vista da opinião pública, foi a Igreja como um todo que “barganhou”. Foram postas em xeque a sua coerência e a sua confiabilidade públicas, não apenas da instituição e da sua hierarquia, nem somente de setores dela.
Só resta esperar, com esperança, que tais grupos midiáticos católicos reconheçam a sua “inutilidade”, revejam as suas práticas e alianças, cumpram o seu papel constitucional e democrático, e contribuam com – e não atrapalhem – a ação evangelizadora da Igreja, que é “tornar o Reino de Deus presente no mundo” (EG 176). Ou seja, fazer com que a vida social aqui no Brasil, já no ano do Senhor de 2020, seja “um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos” (EG 180). Essa é a sua “utilidade”. Para isso, é preciso que os comunicadores e comunicadoras católicos sejam coerentes e honrados perante Aquele a quem dizem seguir, em sentido oposto ao contratestemunho que vimos e ouvimos naquela infeliz reunião.

Prece


Rezemos juntos “Nestes momentos de dor, as pessoas fazem tantas coisas boas, mas não faltam também idéias para aproveitar do momento para si, para o próprio lucro. Rezemos Juntos para que o Senhor dê a todos nós uma consciência reta, transparente.” (papa Francisco)

O Papa: trabalho infantil, fenômeno que priva meninos e meninas de sua infância


Na Audiência Geral desta quarta-feira, Francisco fez "um apelo às instituições para que façam todos os esforços para proteger os menores, preenchendo as lacunas econômicas e sociais que estão na base da dinâmica distorcida em que eles infelizmente estão envolvidos".
Mariangela Jaguraba - Vatican News

Na Audiência Geral desta quarta-feira (10/06), o Papa Francisco fez um apelo contra o trabalho infantil. Recordou que na próxima sexta-feira, 12 de junho, celebra-se o Dia Mundial contra a Exploração do Trabalho Infantil, “fenômeno que priva meninos e meninas de sua infância e põe em risco seu desenvolvimento integral”, e chamou a atenção para a situação das crianças nesse tempo marcado pelo coronavírus.

Na atual situação de emergência sanitária, em vários países, muitas crianças e adolescentes são obrigados a trabalhar em empregos inadequados à sua idade para ajudar suas famílias em condições de extrema pobreza. Em muitos casos, essas são formas de escravidão e reclusão, resultando em sofrimentos físico e psicológico. Todos somos responsáveis ​​por isso. Faço um apelo às instituições para que façam todos os esforços para proteger os menores, preenchendo as lacunas econômicas e sociais que estão na base da dinâmica distorcida em que eles infelizmente estão envolvidos. As crianças são o futuro da família humana: todos temos a tarefa de promover seu crescimento, saúde e serenidade!

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o trabalho infantil envolve 150 milhões de crianças de 5 a 14 anos. O Dia Mundial contra a Exploração do Trabalho Infantil foi instituído pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2002, a fim de conscientizar a sociedade, trabalhadores, empregadores e governos do mundo todo contra o trabalho infantil.

De acordo com a OIT, antes da difusão da Covid-19, quase 100 milhões de crianças tinham sido resgatadas do trabalho infantil até 2016. Isso fez com que o número de crianças nessa situação caísse de 246 milhões, no ano 2000, para 152 milhões, em 2016, segundo a última estimativa global divulgada.

O trabalho infantil é proibido no Brasil, mas atinge pelo menos 2 milhões e 400 mil crianças de 5 a 17 anos, segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua 2016, do IBGE.

Fonte: Vatican News, por Mariangela Jaguraba

09 junho, 2020

OMS garante: pessoas sem sintomas estão transmitindo o vírus

"Para a agência de Saúde, não existem dúvidas: pessoas assintomáticas também transmitem o coronavírus"

A OMS nega que tenha dado qualquer sinal de que esteja defendendo para a possibilidade de uma abertura mais rápida das economias e que estudos tenham concluído de forma definitiva que pessoas sem sintomas não repassam o covoronavírus. 

Para a agência de Saúde, não existem dúvidas: pessoas assintomáticas também transmitem o coronavírus. O que não se sabe é qual a proporção dessas pessoas que, de fato, tem a capacidade de contaminar outras. Ontem, a chefe da unidade de doenças emergentes da OMS, Maria Van Kerkhove, afirmou que algumas pesquisas indicam que pacientes assintomáticos têm poucas chances de transmitir a covid-19. 

Ela, porém, citou apenas um estudo de pequeno porte. Imediatamente, milícias digitais do governo iniciaram uma campanha para indicar que tal declaração significaria o fim das quarentenas.... Veja mais AQUI

Carta aberta. A paz no mundo não pode prescindir de um pedido de desculpas às mulheres das pelas hierarquias eclesiásticas

"Se a Igreja Católica teme um cisma dentro dela - devido às manobras esquálidas urdidas pelo conservadorismo - também deveria se questionar sobre a possibilidade de um cisma por parte das mulheres. Até agora, na Itália, teve as características de um movimento silencioso, embora crescente. Por enquanto não somos defensoras de rupturas, mas nossa sede de justiça importa a alguém?".
A carta é de vários autores, publicada por Fine Settimana, 06-06-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a carta.

1. Introdução

A carta que segue deveria ter sido enviada à imprensa em 8 de março deste ano (2020). Não foi possível fazê-lo pelas razões a todos/as conhecidas. As assinaturas na parte inferior da carta, que serviam como apresentação para o lançamento da coleta de assinaturas, abrangem uma variedade de posições. Esse é um fato relevante; destaca que a "questão" que levantamos não se limita ao mundo católico. Ela traz uma questão transversal. As representações do feminino elaboradas e dispensadas pela Igreja Católica, de fato, têm efeitos performativos não apenas sobre os católicos/as, mas se estendem a latitudes muito mais amplas. A fenomenologia com a qual a Igreja Católica Romana se relaciona com as mulheres é determinante no plano da economia dos bens simbólicos, uma economia transversal e generalizada, baseada em uma estrutura patriarcal e em uma ideologia androcêntrica. As outras instituições/comunidades religiosas acabam sendo (em variado grau), todas afetadas. Durante o período transcorrido, tivemos a oportunidade de conversar com muitas mulheres que em origem não eram signatárias. A troca renovada de ideias foi muito proveitosa, fortaleceu o compartilhamento do texto da carta e a decisão de divulgá-la, permitindo também desfazer algumas questões que queremos explicitar aqui.
1. Esse é um aviso, não uma lamúria vitimista. Nesse documento está escrito que não haverá paz sem uma profunda conversão do clero em relação à iniquidade com a qual ele agiu em relação às mulheres. Com isso, a carta instituía a evidência de um fato que em nossa liberdade afirmamos. Se a igreja não enfrentar esse nó de maneira teológica, operacional e coerente, não silenciaremos sobre o perseverar na sinceridade e na falta de credibilidade. Se a Igreja Católica teme um cisma dentro dela - devido às manobras esquálidas urdidas pelo conservadorismo - também deveria se questionar sobre a possibilidade de um cisma por parte das mulheres. Até agora, na Itália, teve as características de um movimento silencioso, embora crescente. Por enquanto não somos defensoras de rupturas, mas nossa sede de justiça importa a alguém?
2. A lista de frases injuriosas que nos foram reservadas (seção mínima de um "patrimônio” ilimitado) designa um passado que pesa e não passa; cuja memória não deve ser apagada nem ignorada virando a página. Acreditamos que somente a partir da assunção responsável dessas afirmações, os representantes do poder clerical masculino possam tomar consciência dessa triste "arqueologia" que os moldou. Se as frases não são mais citadas, não por isso os sintomas causados por elas desapareceram - como bem sabe qualquer pessoa que conheça os rudimentos da psicanálise. Para despotenciá-las devem ser assumidas e processadas. Somente repercorrendo a origem e o caminho do mysterium iniquitatis será possível alcançar uma autêntica praxe redimida, visível em seus efeitos, a comportamentos que, no autênticos sentir e agir, deem prova de não temer as mulheres e compreender o valor e o poder espiritual desse recíproco "estar diante", expresso em Gênesis 2,18. A carta não é uma mônada sem relações. Para nós, é uma "pedra angular" (Sl. 118) e, ao mesmo tempo, uma semente de mostarda (Mc 4,31), da qual gostaríamos que nascesse um questionamento, um confronto, um relacionamento, um devir que não podemos prever. Entre as próximas etapas, pensamos em um encontro, no qual se poderá participar e construir juntos, compartilhando a sede de justiça e a alegria do Ruah!
3. Carta aberta.
Não foram mulheres ateias, anticlericais ou agnósticas que promoveram e assinaram este texto; mas mulheres de fé, mulheres que orientaram sua consciência para uma espiritualidade simples e ao mesmo tempo abertas ao sopro do Ruah, mulheres sedentas de verdade e justiça, em busca de horizontes de fé cada vez mais profundos e dilatados, mulheres que acreditam e praticam - na humildade, mas também na coragem do testemunho - a sororidade e a irmandade humanas das quais Jesus foi testemunha clarividente. É à questão da presença de mulheres na Igreja que queremos nos referir: não é absolutamente um pedido de compartilhamento de poder, de cooptação para dentro no atual sistema clerical, mas é, em vez disso, a questão de assumir nos fatos da centralidade das relações, à qual remete o enunciado fundador: "Homem e mulher os criou".
As relações entre mulheres e homens na Igreja estão doentes há muito tempo, porque estão imbuídas de estereótipos engessados sobre as mulheres: visões degradantes, que deformam sua imagem negando a integridade. A partir de tais premissas, o desvalor do feminino é a lógica consequência. E não venham nos responder que a Igreja venera Maria, que seria superior a todos os apóstolos e, portanto, com ela venera todas as mulheres; porque é a pessoa encarnada que deve ser respeitada, as mulheres em carne e osso, e não sua transfiguração imaginária. Do quanto "a exaltação ideal da mulher tenha servido para cobrir sua insignificância histórica", fizemos - infelizmente - uma milenária experiência. O Evangelho falava outra língua: a do discipulado de iguais, para usar a famosa expressão do teólogo Schüssler-Fiorenza; a mensagem do evangelho é um testemunho de liberdade para mulheres e homens. As Jornadas Mundiais da Paz foram instituídas na Igreja Católica - e nós as apoiamos. Almeja-se a paz, mas, ao mesmo tempo, reconhece-se a contradição de um mundo que prega a paz, porém invocando-a com base em relações falsas, imbuídos de suspeitas/ desconfianças mútuas. Mas há uma contradição ainda mais originária. Por que não se compreende que a primeira raiz de uma relação de submissão, o primeiro núcleo fundador de relações de dominação, reside nas relações mulher/homem?
Não haverá paz sem essa consciência e sem uma conversão profunda. Portanto, chegou a hora de retornar à mensagem do Evangelho e para que a Igreja repare seus erros históricos. Tomamos nota dos primeiros passos realizados: em 1992, João Paulo II reabilitou Galileu Galilei, reconhecendo que "foi um erro condenar Galileu ... [que] sofreu muito - não podemos esconder - por homens e organismos da Igreja". No "dia do perdão" do Jubileu do ano 2000, o papa pediu perdão pelos erros cometidos com os tribunais da Inquisição; naquela ocasião mencionou as mulheres, mas foi apenas um aceno irrelevante: "rezamos pelas mulheres muitas vezes humilhadas e marginalizadas". Em 2018, o Papa Francisco pediu desculpas pelo comportamento da Igreja em relação às vítimas de padres pedófilos: "Algumas vítimas acabaram tirando a própria vida. Essas mortes pesam tanto no meu coração quanto na consciência de toda a Igreja".
Todas essas tomadas de posição são etapas louváveis. Ainda mais esta última, que não se limitou a ser um ato genérico de contrição, mas tornou-se operacional no reconhecimento do direito das vítimas e dos tribunais estatais, de restaurar a justiça condenando os culpados e compensando as vítimas. Precisamente como mulheres de fé, acreditamos que chegou a hora, agora, de a hierarquia da Igreja Católica peça desculpa às mulheres, dos séculos passados e dos dias atuais. Ela nunca negou ou se distanciou das afirmações injuriosas dos Padres da Igreja, Apologistas cristãos ou Santos, frases que atestam esse teor: "Você não sabe, mulher, que você também é Eva? Neste mundo, ainda vige a condenação de Deus contra o seu sexo; também deve permanecer a condição de acusada [...] Você é a porta do diabo! Você enganou o único a quem o diabo não foi capaz de ludibriar! Você destruiu a imagem de Deus, o homem! Por causa do que você fez, o Filho de Deus teve que morrer! " (Tertuliano, De Cultu Feminarum, I, 1-2). “Quanto a mim, acredito que as relações sexuais devem ser radicalmente evitadas. Penso que nada degrade o espírito do homem tanto quanto as carícias de uma mulher e as relações corporais que fazem parte do matrimônio" (Agostino, Soliloquia I, 10,17).
4. "A esposa será salva se gerar filhos que permanecerão virgens, se o que ela perdeu for recuperado em seus descendentes e se a queda e a corrupção da raiz forem compensadas pela flor e pelo fruto" (Jerônimo, Adversus Jovinianum 1, 27; PLXXIII, 260). “O homem nasceu da mulher! Não há nada mais abjeto” (São Bernardo, Sermo in Feria IV ° Hebdamodae Sanctae, 6, SBO V, 60). "Em relação à natureza particular, a fêmea é um ser defeituoso e deficiente. [...] De fato, a virtude ativa contida na semente do homem tende a produzir uma semente perfeita, semelhante a si mesmo do sexo masculino. O fato de que possa derivar uma mulher pode depender da fraqueza da virtude ativa ou da disposição da matéria"(São Tomás, Summa Theologica I, 92, I, ad I).
Não podemos deixar de mencionar o que expoentes oficiais da Igreja escreveram, disseram e realizaram contra as chamadas bruxas. Um florilégio de retórica misógina é o Malleus Maleficarum (em 1484, o Papa Inocente VIII emitiu a Bula Summis Desiderantes Affectibus, com o qual dava mandato a dois inquisidores alemães para redigir um Corpus de sentenças para combater a bruxaria). Relatamos a seguinte passagem da obra, porque não deve ser deixada na sombra:
“Mas como nestes tempos esta perfídia se encontra com mais frequência entre as mulheres do que entre os homens, podemos agregar, ao que foi dito o seguinte: que como são mais débeis de mente e de corpo, não é de se estranhar que caiam em maior medida sob o feitiço da bruxaria.... de fato, parecem ser de natureza diferente daquela dos homens ...; a razão natural é mais carnal que o homem, como fica claro analisando suas muitas abominações carnais. E devemos apontar o defeito na formação da primeira mulher, que foi formada de uma costela curva, isto é, a costela do peito, que se encontra encurvada, por assim dizer, em direção contrária à do homem. E devido a este defeito é um animal imperfeito, sempre engana.... no caso da primeira mulher, que tinha pouca fé; pois quando a serpente perguntou por que não comiam de todas as árvores do Paraíso, já em sua resposta mostrava que duvidava, e que tinha pouca fé na palavra de Deus. E tudo isso é mostrado pela etimologia da palavra; pois Femina provem de  e Menos, considerando que é muito débil para manter e conservar a fé.... Embora tenha sido o diabo que induziu Eva a pecar, foi Eva que seduziu Adão, e já que o pecado de Eva não teria nos levado à morte de alma e corpo, se não tivesse seguido a culpa de Adão, induzida por Eva e não pelo diabo, portanto a mulher é mais amarga que a morte”. Esses são apenas fragmentos de um sistema simbólico e de uma economia teológica kyriarcal muito maior e mais difundida, um sistema tão poderoso e de ação profunda que para decifrá-lo exigiria um volume inteiro - e talvez não fosse suficiente.
5. Sobre pronunciamentos dessa natureza não deveria haver sinais de conversão? Não seria por esse gesto que se abririam as condições de possibilidade de uma convivência baseada no reconhecimento mútuo de igual dignidade? "Nelson Mandela e Desmond Tutu nos ensinaram com os processos sobre a verdade, a justiça e a reconciliação na África do Sul: é a admissão de violência cometida por quem a exerceu que deixa as vítimas livres e permite que falem e recomecem a viver". (1 Letizia Tomassone, Violenza e giustizia di genere nelle chiese protestanti, in Paola Cavallari (ed), Non solo reato anche peccato. Religioni e violenza contro le donne, Effatà, 2019)
No contexto dessa economia teológica kyeriarcal, sintetizamos brevemente algumas violações graves das quais o clero masculino se manchou (com a cumplicidade às vezes de mulheres consagradas) contra o sexo feminino: durante séculos, excluiu a mulher do reconhecimento de ser imagem de Deus, pois a imago Dei era atributo reservado exclusivamente para o homem. Estruturou através dos séculos uma visão cultural da mulher que prejudicou seriamente as relações entre homens e mulheres, legitimando com o carisma do sagrado (que é um projeto divino, foi dito por séculos) as relações de dominação e submissão que caracterizaram as culturas patriarcais. Muitas vezes usou e explorou o trabalho das mulheres consagradas como trabalho escravo, sem reconhecimento econômico e social. Exerceu (não sabemos quanto, porque tudo está coberto pelo sigilo) abusos espirituais, de consciência e sexuais.
Contribuiu, com a demonização do corpo feminino e a construção da imagem da "mulher tentadora", para legitimar a visão de que as mulheres são as responsáveis pelas atitudes de assédio/abuso de homens. Quis controlar em detalhes a sexualidade e o corpo feminino, ignorando a esfera do desejo sexual feminino e nunca colocando em discussão as formas de autorreferenciais e não interativas da sexualidade masculina. Não tomou uma distância radical do consumo da pornografia e da prostituição, através de um profundo questionamento da sexualidade masculina.
Ainda não implementou uma reforma séria da liturgia, da linguagem pastoral e catequética, que reconheça a subjetividade das mulheres. Não alertou as traduções dos textos sagrados impregnadas de preconceito patriarcal.
Perpetua uma visão desequilibrada da relação homem / mulher através da exclusão das mulheres não só de ministérios, mas também de todos os órgãos de decisão dentro da Igreja.
O reconhecimento de tais frases injuriosas seria um primeiro passo, especialmente se não fosse uma simples declaração de princípio, mas fosse acompanhada de ações concretas e um começo de colaboração com as mulheres comprometidas em colocar uma barragem, por meio da geração de uma nova visão cultural, ao dramático fenômeno de violência contra as mulheres e aos feminicídios.
Esta carta com as assinaturas de quem a assina será enviada ao Presidente da Conferência Episcopal. E, em seguida, à imprensa e aos sites.
As mulheres que, embora não sejam crentes, acreditam que o simbólico religioso tenha sido e continue sendo determinante na construção de relações injustas entre os sexos são calorosamente convidadas a se juntarem a nós. Agradecemos a todas.
Para comunicações e adesões, podem escrever para cavallaripaola1@gmail.com.
Primeiras signatárias:
Paola Cavallari – Observatório inter-religioso sobre violência contra as mulheres – OIVD
Carla Galetto – Grupos de mulheres Comunidade de Base – CdB Doranna Lupi – Grupos de mulheres Comunidade de base – CdB
Paola Morini – Observatório inter-religioso sobre violência contra as mulheres – OIVD

31 de março de 2020.
Fonte: IHU

06 junho, 2020

NOTA DE ESCLARECIMENTO

NOTA DE ESCLARECIMENTO

Sobre a reportagem “Por verbas, TVs católicas oferecem a Bolsonaro apoio ao governo”, com a manchete na primeira página “Ala da Igreja Católica oferece a Bolsonaro apoio em troca de verba”, do jornal O ESTADO DE SÃO PAULO em 06.06.20, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por meio da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação, juntamente com a SIGNIS Brasil e a Rede Católica de Rádio (RCR), associações que reúnem as TVs de inspiração católica e as rádios católicas no Brasil, esclarecem que não organizaram e não tiveram qualquer envolvimento com a reunião entre o presidente da República, Jair Bolsonaro, representantes de algumas emissoras de TV de inspiração católica e alguns parlamentares, e nem ao menos foram informadas sobre tal encontro.

Informamos que as emissoras intituladas “de inspiração católica” possuem naturezas diferentes. Algumas são geridas por associações e organizações religiosas, outra por grupo empresarial particular, enquanto outras estão juridicamente vinculadas a dioceses no Brasil. Elas seguem seus próprios estatutos e princípios editoriais. Contudo, nenhuma delas e nenhum de seus membros representa a Igreja Católica, nem fala em seu nome e nem da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que tem feito todo o esforço, para que todas as emissoras assumam claramente as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil.

Recebemos com estranheza e indignação a notícia sobre a oferta de apoio ao governo por parte de emissoras de TV em troca de verbas e solução de problemas afeitos à comunicação. A Igreja Católica não faz barganhas. Ela estabelece relações institucionais com agentes públicos e os poderes constituídos pautada pelos valores do Evangelho e nos valores democráticos, republicanos, éticos e morais.

Não aprovamos iniciativas como essa, que dificultam a unidade necessária à Igreja, no cumprimento de sua missão evangelizadora, “que é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (Papa Francisco, EG, 176), considerando todas as dimensões da vida humana e da Casa Comum. É urgente, sim, nestes tempos difíceis em que vivemos, agravados seriamente pela pandemia do novo coronavírus, que já retirou a vida de dezenas de milhares de pessoas e ainda tirará muito mais, que trabalhemos verdadeiramente em comunhão, sempre abertos ao diálogo.

Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação da CNBB
SIGNIS Brasil
RCR

05 junho, 2020

Prece

Rezemos juntos “(...) para que aqueles que sofrem encontrem caminhos de vida, deixando-se tocar pelo Coração de Jesus.” (Papa Francisco)

Quanto mais perto estivermos do Coração de Jesus

“O discípulo a quem Jesus mais amava, aquele que conhecia melhor o coração de Jesus, recostado junto a Ele (Jo 13, 23) também foi o primeiro a reconhecer Jesus ressuscitado às margens do lago da Galileia (Jo 21, 7). Quanto mais próximo alguém estiver do Coração de Jesus, mais perceberá suas alegrias e sofrimentos pelos homens, mulheres e crianças deste mundo; e reconhecerá Sua presença hoje como ontem, atuando no mundo. Quanto mais perto estivermos do Coração de Jesus, menos indiferentes seremos ao que nos cerca, desejando nos comprometer com Jesus Cristo neste mundo, a serviço de sua missão de compaixão.” (Papa Francisco)

Ipatinga e mais 13 cidades pedem socorro por falta de leitos de UTI



Municípios vão cobrar ao Governo de Minas o envio de respiradores e profissionais de saúde; aumento de casos e mortes preocupa prefeitos.

Ipatinga tem cerca de 260 mil habitantes e apenas 27 leitos de UTI, que atendem também as cidades vizinhas. A ocupação está, atualmente, em 93%. Em caso de lotação, as demandas vão para uma lista de regulação, controlada pelo SUS Fácil, responsável por transferir os pacientes que precisarem de internação para o município mais perto que estiver disponível. 

Leia a matéria de Luíza Lanza publicado por R7. Clique AQUI

04 junho, 2020

Carta-denúncia Mineração e pandemia: essencial é a vida!



A população brasileira vem acompanhando o crescimento alarmante do número de casos de coronavírus no país e os reflexos da pandemia na dinâmica social, no sistema de saúde e no aprofundamento da crise econômica. Embora o contexto seja de caos social, com destaque para o sofrimento enfrentado por mais de 31 mil famílias que perderam seus entes, o setor minerário brasileiro segue sua marcha de exploração dos/as trabalhadores/as e da natureza.

Apoiadas pelo Governo Bolsonaro – que incluiu a mineração como “atividade essencial” por meio da publicação do Decreto nº 10.329/2020 – as empresas de mineração não paralisaram suas atividades, mesmo diante da recomendação expressa da Organização Mundial de Saúde (OMS) e dos especialistas no tema de que a prioridade neste momento é garantir o isolamento social. Desta forma, em plena crise sanitária, milhares de famílias de funcionários/as do setor e das populações localizadas nos arredores das minas estão sendo expostas a grave risco de contaminação. Tratar a atividade mineral como essencial, em meio a uma pandemia, retirando o direito ao isolamento social de trabalhadores e trabalhadoras, impondo que estes se aglomerem, é irresponsável.

Por outro lado, as mineradoras vêm apostando em ações de mídia e de propaganda para tentar criar uma imagem de que se importam com a saúde da população e que têm “responsabilidade social”. Esta imagem que as empresas buscam passar para a sociedade esconde o que de fato significa a continuidade das atividades minerárias no país: aumento das taxas de lucros das empresas e ameaça à vida de milhares de pessoas. Enquanto divulgam cartazes e vídeos com supostas iniciativas sociais, mantém trabalhadores/as e comunidades sob o medo constante de contaminarem-se pelo coronavírus.

Na Bahia, a situação não é diferente. Circulação de funcionários, explosões, realização de pesquisas em novas áreas, desmatamento da vegetação nativa, avanço sobre territórios de comunidades tradicionais e outras diversas ações seguem sendo realizadas, devido à manutenção do funcionamento dos empreendimentos de mineração espalhados nos municípios do estado, a exemplo da Mineração Caraíba S/A, em Curaçá, Juazeiro e Jaguarari; e da Mineradora Galvani, em Campo Alegre de Lourdes.

As duas empresas acima citadas têm dado continuidade às atividades durante o período da pandemia. Ao analisar os dados sobre a contaminação do coronavírus, verifica-se, por exemplo, que dois dos municípios onde estão instaladas encontram-se com altos índices de contaminação: segundo informações da Prefeitura de Campo Alegre de Lourdes, em 02/06/2020, existiam 27 casos confirmados, 88 notificações e 01 óbito. Na mesma data, o cenário em Curaçá era de 32 casos confirmados (Boletim epidemiológico nº 70 da SESAB) e 43 em investigação (informação veiculada pela Prefeitura), de um total de 223 notificações (informação veiculada pela Prefeitura). Destes casos, diversos aparentam ter relação com as atividades de mineração. Por outro lado, sabe-se que não há estrutura no Sistema Único de Saúde nestes locais que consiga absorver a explosão do número de pessoas contaminadas.

Preocupadas com este contexto, especialmente no momento em que se aproxima o pico de contaminação, as organizações abaixo listadas, compondo a Articulação em Defesa da Vida no Enfrentamento ao modelo mineral do Norte da Bahia, vêm por meio desta carta denunciar a situação e exigir que os poderes públicos adotem medidas para garantir os direitos dos/as trabalhadores/as do setor minerário, sobretudo o direito ao isolamento social com manutenção integral de seus salários, bem como de toda a população que sofre com risco de contaminação em função dos fatos já expostos, seja na cidade ou no campo. Destaca-se ainda a necessidade de que sejam realizadas ações de proteção dos povos e comunidades tradicionais que estão sob ameaça de contaminação em função das atividades minerárias, de modo que os moradores, muitos incluídos em grupos de risco, tenham a sua integridade preservada e que, em última instância, seja defendido o jeito tradicional de viver destes grupos!

Nada mais se espera que o compromisso com a vida e com a saúde da população e, nas palavras do Papa Francisco na Encíclica Laudato Si, que possamos cuidar da “nossa casa comum”, defendendo a natureza para as atuais e próximas gerações, lembrando sempre que “tudo está estreitamente interligado no mundo” e que “o meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos”!

Assinam este documento:

Articulação Estadual das Comunidades Tradicionais de Fundos e Fechos de Pasto;

Articulação e Coordenação Paroquial da Juventude – ACPJ;

Articulação Sindical da Borda do Lago de Sobradinho;

Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia – AATR;

Cáritas Brasileira Regional NE 3;

Coletivo Carrapicho Virtual;

Central das Associações Integradas de Uauá – Cachiu;

Central de Fundo e Fecho de Pasto, Senhor do Bonfim;

Coletivo de Jovens da região CUC (Canudos, Uaua e Curaçá);

Comissão Pastoral da Terra – CPT;

Conselho Indigenista Missionário – Cimi;

Conselho Pastoral dos Pescadores – CPP;

Cooperativa de Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá – COOPERCUC;

Fórum das entidades populares de Campo Alegre de Lourdes;

Fórum das entidades populares de Curaçá;

Instituto Popular Memorial de Canudos – IPMC;

Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – IRPAA;

Instituto Social Antônio Conselheiro, UAUÁ – ISAC;

Movimento Pela Soberania Popular na Mineração – MAM;

Movimento dos trabalhadores rurais sem Terra – MST;

Paróquia Bom Jesus da Boa Morte, Curaçá;

Pastoral Operária;

Serviço de Assistência Socioambiental no Campo e Cidade – Sajuc;

Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais – Sasop.

"O respirar dos adormecidos é um ruído que inquieta. Como se neles soasse uma outra alma. "


"O respirar dos adormecidos é um ruído que inquieta. Como se neles soasse uma outra alma. "

(Terra Sonâmbula, de Mia Couto)

Promoção em prol a Casa de Nazaré


A Casa de Nazaré, entidade de acolhida e recuperação de mulheres em situação de dependência química está iniciando uma campanha de caldo de mandioca.



Há três modos de adquirir:

1. Retirando no local
2. Delivery (+ R$ 5,00)
3. Comprando nas saídas das missas na Paróquia São Mateus (sábado e domingo à noite).

É necessário reservar previamente - fone: 3028 6232 ou 99925 0933 - caso for retirar na Casa de Nazaré ou pedir delivery.

Endereço da Casa, pra quem for retirar no local:
Rua Rio Samambaia, 1691 - Conj. Hab. Inocente Vila Nova Júnior, Maringá - PR

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Casa de Nazaré

Atendimento Espiritual
Padre Genivaldo Ubinge

PÚBLICO ALVO
Dependentes de substancias psicoativas do sexo feminino a partir dos 16 anos, inclusive gestantes.

FINALIDADE
Proporcionar um tratamento qualificado para mulheres usuárias de substancias psicoativos do Município de Maringá e Região, garantindo a permanência até o final do tratamento (período de nove meses).

OBJETIVO GERAL
A Casa de Nazaré tem por objetivo apoiar mulheres que fazem uso indevido de substancias psicoativo, visando à reintegração dos mesmos ao convívio social e familiar.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Elevar a auto-estima e a participação na vida social promovendo, a partir das palestras e oficinas, a autonomia de cada residente;

Proporcionar o desenvolvimento pessoal através da arte, cultura e atividades que possam despertar aptidão empreendedora;

Encaminhar as famílias das residentes para grupos de apoio (AMOR EXIGENTE).

Proporcionar palestras informativas (grupo de convivência) e espirituais, promovendo a prevenção de uso e abuso de substancias psicoativas.

Desenvolver trabalho com equipe interdisciplinar com vistas ao reconhecimento do atendido como um ser integral, estabelecendo espaço de interlocução e de intervenção com profissionais de diferentes áreas.

METODOLOGIA:
A entidade busca uma prática que não produz modelos de Instituições de confinamento, e sim um equipamento social dotado de recursos humanos e materiais que propiciam acolhimento, convivência, atividades pedagógica, ocupacionais, recreativas, atendimento psicológico, odontológicos, médico e espiritual, visando o desenvolvimento humano, integral e social e dos direitos de cidadania das residentes e de suas famílias que se encontram em situação de vulnerabilidade, exclusão e risco social.

O processo de tratamento é respaldado a partir da terapia, orientado pelo tripé ORAÇÃO-TRABALHO-DISCIPLINA e estudo dos 12 passos. A ORAÇÂO é à base do programa, por meio dela buscam-se levar a presença de Deus a todas as internas, em um ambiente de muita paz, fé e confiança na nova vida que está por vir. O TRABALHO apóia e impulsiona o êxito do processo de recuperação das internas, todos os serviços da Casa de Nazaré são realizados pelas internas e supervisionados pela equipe responsável, consistindo em uma terapia ocupacional. A disciplina norteia todas as atividades, com o intuito de atingir grandes resultados, é necessário seguir normas e princípios que possam sustentar a terapia. Na busca pela paz, as internas também recebem, semanalmente, atendimento psicossocial, evangelização e aprendem a fazer trabalhos manuais.

Bolsonaro veta destinação de R$ 8,6 bilhões de fundo extinto para ações contra coronavírus

O presidente Jair Bolsonaro vetou o uso do saldo remanescente do Fundo de Reservas Monetárias, de cerca de R$ 8,6 bilhões, para o combate ao novo coronavírus. A decisão foi publicada na edição desta quarta-feira (3) do "Diário Oficial da União".

A destinação do dinheiro tinha sido aprovada em maio pelo Congresso Nacional durante a análise de medida provisória editada por Bolsonaro e que extinguiu o fundo.

Ao justificar o veto, Bolsonaro argumentou que a ... Continue lendo AQUI

A estratégia “Bíblia e fuzil”. Assim, Trump desafia os protestos

Bíblia e fuzil. Foi o próprio presidente Trump quem esclareceu que essa será sua estratégia para enfrentar os protestos deflagrados nos Estados Unidos e, acima de tudo, usá-la em chave eleitoral para a reeleição em novembro. Ele fez isso na segunda-feira à noite, anunciando sua intenção de mobilizar o exército para esmagar manifestantes que violam a lei e deixando-se fotografar em frente à Igreja de São João com a sagrada Escritura nas mãos. A bispa daquela igreja episcopal, Mariann Budde, denunciou "o uso político da religião, antitético ao ensino de Jesus".
A reportagem é de Paolo Mastrolilli, publicada por La Stampa, 03-06-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.
O mesmo foi feito pelo arcebispo católico de Washington, o negro Gregory, porque ontem o presidente foi ao Santuário Nacional São João Paulo II, e não falta quem tema a militarização ditatorial da América.
Os protestos continuaram ontem, mudando o epicentro: mais tranquila Minneapolis, onde a autópsia de George Floyd conduzida pela família confirmou o homicídio por asfixia; mais agitadas WashingtonLousivilleLos AngelesSt. LouisLas Vegas e Nova York, submetidas à ação de saqueadores.
De fato, Trump imediatamente se aproveitou disso, acusando o...continue lendo AQUI