Esse é um momento propício para falar de liberdade.
10 junho, 2019
Filme da Disney-Pixar , Coco
Filme da Disney-Pixar , Coco.
Esse é o filme citado na matéria postada a baixo " A pele não sofre de Alzheimer, ela sempre se lembra de uma carícia ou uma cicatriz".
"Pessoas com Alzheimer ou outra demência precisam de uma reconexão com o mundo
O mais recente filme da Disney-Pixar , Coco, nos mostra de uma forma muito emocional como podemos nos reconectar com as pessoas com Alzheimer, como podemos acessar sua pele, seus sentimentos mais profundos. Ele nos mostra com “Don’t forget me”, uma música que, sem dúvida, dá um sabor terno ao afeto emocional que ela causa."
A pele não sofre de Alzheimer, ela sempre se lembra de uma carícia ou uma cicatriz
Há um tipo de equívoco generalizado: pessoas com Alzheimer ou outros tipos de demência tendem a se desconectar do mundo externo presente para entrar em seu mundo interior distante e irreal. Isso não é verdade. No entanto, quando pensamos que a pessoa que sofre da doença de Alzheimer já não é a pessoa que deveria ser, eles acabam perdendo sua identidade em face da sociedade e seus sentimentos quase automaticamente perdem seu valor.
> Se nos colocarmos no lugar da pessoa com demência, perceberemos que é normal ter medo da insistência dos outros, não saber expressar o que precisa ou o que está sentindo, não entender o que os outros dizem nem reconhecr as pessoas que se aproximam, tampouco saber ou lembrar-se dos nomes das coisas.
> Nós raramente nos colocamos no lugar das pessoas com Alzheimer. No entanto, se o fizéssemos, perceberíamos que isso diariamente pode parecer aterrorizante e desconcertante. Nós entenderíamos ansiedade ou outras reações emocionais que parecem desproporcionais à nossa visão “saudável” do mundo.
> O método de validação, uma terapia centrada na pessoa
> Na última década, os modelos de atenção e comunicação centrados no indivíduo ressurgiram. Esses modelos terapêuticos e de relacionamento consideram muito importante que as pessoas ao redor do paciente de Alzheimer sejam estimulantes e abertas.
> Em outras palavras, devemos procurar ter empatia com a pessoa com demência, manter sua identidade e gerar uma atitude abrangente diante dessas ” alterações comportamentais ” que desconcertam e causam tanto mal-estar nos cuidadores e familiares.
Os autores que promovem esse modelo de atenção enfatizam a necessidade de preservar o princípio da dignidade de cada pessoa. Portanto, é necessário usar a empatia para estar em sintonia com a realidade interna das pessoas afetadas pela demência.
O objetivo é ser capaz de proporcionar segurança e força, fazendo com que a pessoa se sinta “validada” e expresse seus sentimentos. Pois somente quando uma pessoa pode se expressar novamente, sua dignidade é restaurada.
Por quê? Porque validar significa reconhecer os sentimentos da pessoa. Validar é dizer a ela que seus sentimentos estão certos. Ao negar sentimentos, negamos o indivíduo, cancelamos sua identidade e, como resultado, criamos uma enorme lacuna emocional.
Princípios básicos do método de validação
Os princípios básicos do método de validação são:
• Aceite a pessoa sem julgar (Carl Rogers)
• Trate a pessoa como um indivíduo único (Abraham Maslow)
• Os sentimentos expressos pela primeira vez e depois reconhecidos e validados por um interlocutor confiável perderão intensidade. Quando ignorados ou negados, os sentimentos se tornam mais fortes. ” Um gato ignorado se transforma em tigre” ( Carl Jung )
• Todos os seres humanos são preciosos, independentemente do estado de desorientação em que se encontram (Naomi Feil)
• Quando a memória recente falha, recupere o equilíbrio restaurando memórias antigas. Quando a visão falhar, vamos usar o olho do espírito para poder ver. Quando a audição vai embora, vamos ouvir os sons do passado (Wiler Penfield)
Pessoas com Alzheimer ou outra demência precisam de uma reconexão com o mundo
O mais recente filme da Disney-Pixar , Coco, nos mostra de uma forma muito emocional como podemos nos reconectar com as pessoas com Alzheimer, como podemos acessar sua pele, seus sentimentos mais profundos. Ele nos mostra com “Don’t forget me”, uma música que, sem dúvida, dá um sabor terno ao afeto emocional que ela causa.
O fato de a pessoa perder a capacidade de se expressar verbalmente não significa que ela não precise se expressar. É, portanto, essencial adaptar-se às necessidades das pessoas afetadas, conectar-se ao humor delas e se misturar umas com as outras.
Como Tomaino (2000) disse, “é sempre surpreendente ver uma pessoa que está completamente fora de contato com o presente por causa de uma doença como a de Alzheimer, voltar à vida quando ouvem uma música familiar . A resposta da pessoa pode variar de uma mudança de posição a um movimento saltitante: do som à resposta verbal.
Normalmente, há uma resposta, uma interação.
Muitas vezes, essas respostas aparentemente delirantes podem dizer muito sobre a preservação de uma pessoa e como as histórias pessoais ainda podem estar perfeitamente presentes na memória “
Fonte: Pensar Contemporâneo
Traduzido de Nos Pensées
Seleção estreia no Mundial da França, 40 anos após mulheres serem proibidas de jogar futebol no Brasil
Neste domingo (9), a seleção feminina entra em campo para disputar a Copa do Mundo da França, evento que já conta com uma audiência recorde: cerca de 40 milhões de europeus assistiram o primeiro jogo quando as francesas bateram as sul-coreanas por 4 a 0. Mas nem sempre foi assim. Entre as ditaduras do Estado Novo (Getúlio Vargas) e a Militar, mulheres brasileiras foram presas por se aventurarem nos gramados, reservados apenas aos homens. No entanto, elas nunca pararam de jogar, mesmo clandestinamente.
Assinado por Getúlio Vargas em 14 de abril de 1941, durante a ditadura do Estado Novo, o artigo 54 do decreto-lei 3.199, afirmava que ”às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”.
A proibição da presença feminina em campos de futebol durou quase 40 anos, e vigorou entre 1941 e 1979, marcando gerações de brasileiras que não puderam exercer seu talento nos gramados. O argumento sexista de que o futebol poderia ferir a “natureza feminina” serviu para criar um vácuo no esporte feminino, em prol da “dedicação ao lar” e “à família”.
Em declarações à imprensa brasileira, Aira Bonfim, historiadora e pesquisadora, responsável pela implementação do Centro de Referência do Futebol Brasileiro, no Museu do Futebol, em São Paulo, afirma que era “como se você, por quase 40 anos, construísse uma ideia, uma cultura e uma proibição moral”.
Em 1965, após o golpe de 1964 que instaura a Ditadura Militar no Brasil, o recente governo militar decide tornar expressa a proibição de mulheres jogarem futebol, e inclui na lei uma série de esportes considerados “inapropriados para mulheres”, como futebol, pólo aquático e rúgbi. Mas a proibição não se limitava apenas às esportistas.
A brasileira Lea Campos, 75, que marcou o futebol brasileiro e mundial ao se tornar a primeira mulher árbitra do Brasil e do mundo, relatou à Folha de S. Paulo nesta quinta-feira (6) ter sido presa mais de 15 vezes entre 1967 e 1971, por desobedecer ao decreto assinado por Vargas. Ela conta que, quando a polícia invadia o campo para prender as jogadoras, ela se oferecia como responsável, enquanto árbitra da partida.
Clandestinidade
A literatura especializada mostra que a saída das jogadoras, entre esses “anos de chumbo”, foi jogar bola nas periferias ou em locais clandestinos, onde “não pudessem ser vistas”. Literalmente, mulheres jogando bola, em 1940, se tornavam “caso de polícia”, como demonstram vários registros históricos da imprensa mineira da época.
Curiosamente, pouco antes do decreto de Vargas, criminalizando o futebol feminino, o ano de 1940 viu surgir em Belo Horizonte o primeiro time feminino de Minas Gerais, que ganhou repercussão nacional, uma agremiação chamada Mineiras F.C., que veio se juntar a times como Casino Realengo e S.C. Brasileiro, que frequentavam normalmente as páginas dos jornais esportivos brasileiros, antes da onda de repressão iniciada pelo decreto da Era Vargas.
Mesmo com o fim da proibição de mulheres jogarem futebol no Brasil, em 1979, a regulamentação da modalidade feminina só aconteceu em 1983, e graças à mobilização das próprias jogadoras. Especialistas avaliam que os cerca de 40 anos de proibição do esporte no Brasil deixaram um saldo extremamente negativo, com péssimas condições de trabalho e falta de patrocinadores. Além de tudo, um enorme vácuo em relação à criação de uma cultura brasileira do futebol feminino, no país das chuteiras. O futebol feminino foi sufocado e relegado à clandestinidade com argumentos banais e sem respaldo médico.
Elas estão de volta
Depois da primavera feminista e da era #metoo, as garotas brasileiras voltam aos gramados neste domingo (9), estreando no Mundial contra a Jamaica, na cidade de Grenoble, no leste da França. As jamaicanas disputam sua primeira Copa do Mundo. Já as brasileiras, estão em seu oitavo torneio.
O Brasil sofre com contusões e traz um histórico de nove derrotas nos últimos amistosos. A seleção sofrerá ainda em sua estreia com as ausências de duas jogadoras experientes: a zagueira Erika, lesionada no tornozelo e substituída por Daiane, e a atacante e estrela do time, Marta, que ainda se recupera de dores na coxa e deve ficar no banco, segundo o técnico Vadão.
Fonte: RFI
Lava Jato: entenda os desdobramentos após vazamento de conversas
'A semana começou com uma bomba que deve estar tirando o sono de muitos em Brasília e Curitiba. O site The Intercept Brasil revelou supostas conversas entre o ex-juiz da Operação LavaJato, Sergio Moro, com o procurador do Ministério Público Federal, Deltan Dallagnol. Nelas, os integrantes das investigações contra a corrupção combinavam estratégias, trocavam informações dos bastidores dos processos e anunciavam decisões antes de serem julgadas.'
O professor de Direito Constitucional Pedro Serrano explica todos os cenários e defende que processo de Lula deve ser anulado imediatamenteA semana começou com uma bomba que deve estar tirando o sono de muitos em Brasília e Curitiba. O site The Intercept Brasil revelou supostas conversas entre o ex-juiz da Operação Lava Jato, Sergio Moro, com o procurador do Ministério Público Federal, Deltan Dallagnol. Nelas, os integrantes das investigações contra a corrupção combinavam estratégias, trocavam informações dos bastidores dos processos e anunciavam decisões antes de serem julgadas.
Se comprovada, a atitude de ambos pode ser considerada crime e os processos envolvidos podem ser anulados. É o que explica o professor de Direito Constitucional da PUC-SP, Pedro Serrano. “A primeira coisa que precisa ser feita é uma investigação de onde partiu essas mensagens e se não foram modificadas. Há mecanismos na justiça que conseguem comprovar isso”, defende Serrano.
Em um cenário em que as mensagens foram obtidas de forma lícita, através de algum membro que participava do grupo das conversas, Moro e Dallagnol podem responder por crime na justiça. O procurador do Ministério Público pode sofrer também um processo disciplinar e ser afastado do cargo. Já o atual ministro da Justiça terá grandes dificuldades em conseguir a vaga no STF, prometida pelo presidente Jair Bolsonaro. Entretanto, Serrano acredita que o cenário não é esse e que as conversas foram obtidas através de hackers.
Caso Lula
O Ministério Público Federal sustenta essa tese e diz que os celulares dos envolvidos foram hackeados. Se isso for comprovado, Serrano explica que as provas se tornam ilegais e não podem ser utilizadas em um processo criminal contra os envolvidos. Porém, podem ser usadas para anular processos que foram citados na conversa, como é o caso do ex-presidente Lula. “Se comprovado, acho necessário que o sistema de justiça anule o processo do Lula imediatamente. Não dá para amenizar o conteúdo que estava ali, é extremamente grave”, diz Serrano.
A defesa de Lula já anunciou que entrará com um pedido de anulação do processo por falta de imparcialidade do juiz – vale lembrar que o ex-presidente foi julgado por Moro e está preso há mais de um ano em Curitiba. Serrano explica que isso é possível, pois o artigo 254, inciso 4º, do Código de Processo Penal diz que quando o juiz orienta uma das partes, seja a defesa ou acusação, ele é obrigado a se declarar suspeito e o processo é anulado. “Ao orientar o Ministério Público, Moro se demonstrou totalmente parcial, portanto, isso é uma prova da parcialidade dele no processo que deve ser anulado”, pontuou Serrano.
O jurista explica que qualquer órgão de jurisdição pode fazer a anulação dos processos e com isso todas as provas são descartadas. Caso isso ocorra, Lula será solto imediatamente.
Se forem comprovadas as conversas, ainda de acordo com Pedro Serrano, a Operação Lava Jato não corre o risco de acabar, mas todos os processos envolvidos nas conversas podem ser anulados. “Há uma suspeita gravíssima de que o judiciário foi utilizado para fins políticos, isso é muito grave e deve ser imediatamente resolvido”, conclui Serrano.
Fonte: Carta Capital
O poder de cura do abraço e do contato físico
"Há momentos em que um simples abraço é tudo o que você precisa para recarregar e viver."
Você imagina o que causa contato físico em nossos corpos? um abraço, uma carícia, uma massagem ou simplesmente um aperto de mão, têm o poder de nos renovar.
Nos últimos tempos, devido à tecnologia digital, cada vez mais pessoas não têm contato físico. Beijos, abraços, apertos de mão são frequentemente substituídos pelas reações do Facebook ou de outras redes sociais. Muitos pensam que na esfera emocional uma “saudação digital” e uma saudação física são a mesma coisa, mas não é assim.
Por causa disso, muitos passam muitas horas, muitas vezes até mesmo alguns dias sem contato físico. Isso pode ter um impacto muito negativo na nossa saúde, muito mais do que podemos imaginar.
O contato físico simples causa respostas biológicas e emocionais por parte do nosso corpo que levam a benefícios significativos e importantes para a saúde. Apenas segure uma criança, acaricie um animal, abrace uma pessoa carinhosamente, massageie ou simplesmente cumprimente-a com um longo aperto de mão, para ativar uma profunda mudança benéfica no corpo, tanto emocional quanto física.
Quando somos acariciados, abraçados ou entramos em qualquer tipo de contato físico com outras pessoas, as terminações nervosas da pele enviam mensagens para o cérebro, da mesma forma que percebemos, por exemplo, calor e dor. Essas mensagens ativam uma resposta biológica e emocional em nosso corpo.
O fato de que um abraço, um beijo, um aperto de mão ou uma massagem pode nos melhorar emocionalmente é bem conhecido, mas dificilmente alguém imagina seus benefícios mesmo no plano físico.
Os benefícios do contato físico
– Combate depressão, ansiedade e estresse. Um contato físico agradável ativa a produção de serotonina (o hormônio do bom humor), a dopamina (o hormônio do prazer) e a ocitocina (o hormônio do amor), hormônios fundamentais para a saúde mental. Esses hormônios reduzem a ansiedade, combatem a depressão, aumentam a sensação de segurança, estimulam uma sensação de maior calma e paz, promovem uma sensação geral de bem-estar e reduzem a produção de cortisol, o principal hormônio relacionado ao estresse.
Não por acaso quando estamos tristes ou tensos, apenas um simples abraço para liberar toda a tensão em nós, para então ficarmos muito mais calmos, relaxados e regenerados psicologicamente.
– Estimula o desejo sexual. Em particular, a oxitocina (hormônio produzido devido ao contato físico) também é chamada de “hormônio do amor”, pois estimula o desejo sexual, a afetividade e a empatia.
– Fornece energia. Um simples abraço estimula a produção de hemoglobina, que transporta oxigênio para os tecidos, fornecendo energia ao organismo.
– Fortalece a auto-estima. Quando entramos em contato físico com uma pessoa que nos abraça, aperta nossas mãos ou nos beija, nossa auto-estima é fortalecida, nos aceitamos melhor e somos mais bem aceitos pelos outros.
– Melhora a pressão arterial e frequência cardíaca. Como descrito acima, um contato físico agradável e prolongado, como um longo abraço, ou uma “mão na mão”, reduz os efeitos físicos nocivos do estresse, graças aos “hormônios da felicidade” que o corpo libera. O estresse tem um impacto negativo na pressão arterial e na frequência cardíaca.
“Há momentos em que um simples abraço é tudo o que você precisa para recarregar e viver.”
Artigo escrito por Stephen Littleword / Salutecobio
Bolsonaro não é ultradireitista, soberanista, fascista. Ele é demente
Não há como definir a ideologia bolsonarista, somente cabe dizer que com o eleito em 2018 pela maioria a demência tornou-se forma de governo
Tenho a dolorosa certeza de que os analistas da monstruosa crise provocada pelo golpe de 2016, impulsionado desde 2014 pela Lava Jato e obrado pelos próprios poderes da República, e finalmente coroado pela eleição de Jair Bolsonaro, nada sabem a respeito do seu país. Para citar um exemplo recente, leio no Estadão de sábado 1º de junho que, em visita a Goiás, o capitão defendeu a “agenda conservadora”. Conservadora? Salvo raras exceções, jornalistas, colunistas, pensadores dos mais diversos matizes imaginam viver em outro lugar que não o Brasil.
Uma terminologia viável até hoje em países democráticos e civilizados não se adapta às nossas circunstâncias: conservadores e progressistas não medram por aqui. Esquerda e direita são termos inaceitáveis quando a casa-grande e a senzala continuam de pé. Não há como definir a ideologia bolsonarista, somente cabe dizer que com o eleito em 2018 pela maioria a demência tornou-se forma de governo. Bolsonaro não é ultradireitista, soberanista, fascista. Ele é demente. A irreparável enfermidade que o acomete, e aos filhos, e ao governo em peso, a sua incapacidade política, a sua ignorância abissal, a sua visão primitiva do mundo, o seu temperamento atrabiliário o impossibilitam definitivamente a cumprir a tarefa que os eleitores lhe entregaram e que os generais garantem. Temos razões de sobra para temer, entretanto que o Brasil o mereça, imerso cada vez mais em uma Idade Média dos tempos mais obscuros.
Cabem no cenário a jactância cômica dos privilegiados que já sonharam com Paris e hoje com Miami, o ódio social e de classe insopitável e de inaudita ferocidade, enquanto os desvalidos, a maioria sofredora e resignada, sem consciência da cidadania, não percebem o destino que lhe reservou uma distribuição de renda iníqua e a incompetência de uma pretensa esquerda.
Permito-me apresentar um sucinto questionário dedicado a quem desconhece seu país. As perguntas, poucas para simplificar o serviço, começam da seguinte maneira: qual é o país democrático e civilizado onde… Aqui a questão se explicita e aguarda a resposta.
… as Forças Armadas, em vez de proteger as fronteiras como instrumento apolítico de defesa nacional e do próprio Estado, determinam o destino da nação, se preciso de armas em punho?
… o único líder popular é condenado e preso sem provas para impedir sua participação em um pleito presidencial que inevitavelmente venceria?
… os poderes da República unem-se para rasgar a Constituição e desferir o enésimo golpe de Estado em uma sequência implacável que caracteriza 130 anos de história?
… a mídia, praticamente em peso, funciona como porta-voz oficial da minoria privilegiada e dos seus interesses?
… mais de 60 mil homicídios são cometidos anualmente?
… o ciclópico desequilíbrio social consagra-o como um dos mais atrasados do mundo?
Se a conclusão não precipitar a constatação de que o Brasil não é democrático e civilizado, e nunca foi a não ser em raros dias de esperança, quando pareceu ter encontrado o rumo, localizaremos com precisão quem não é capaz de entender onde vive. É o resultado da ignorância nativa. Caso típico, e recentíssimo, o do terrorista Cesare Battisti, finalmente capturado na Bolívia pela polícia italiana depois de 30 tentativas frustradas da brasileira. A chamada esquerda verde-amarela o considerava um herói com o aval de professores universitários e ministros do STF, sem contar o ex-ministro da Justiça Tarso Genro: não se conforma ao insinuar que a confissão do assassino contumaz foi extraída à força, conforme antigos e celebrados hábitos verde-amarelos.
Desta ignorância, desta enevoada visão do mundo faz parte a ideia de que Bolsonaro é fascista. Antes de mais nada vale esclarecer que regimes totalitários são, para dizer pouco, execráveis de todos os pontos de vista. Mas cada qual, ao vingar, se adaptou às circunstâncias do país em que se deu. O salazarismo em Portugal, o falangismo na Espanha, o stalinismo na Rússia soviética, o nazismo na Alemanha. Espero que Salazar, Franco, Stalin, Mussolini queimem nas chamas do Inferno, mesmo assim não eram dementes. Quanto a Hitler, cabem justificadas dúvidas: o regime tinha sido muito eficaz na industrialização da Alemanha e de ferocidade sem paralelo na busca insana da raça pura. No confronto, os Autos de Fé empalidecem.
O fascismo é um fenômeno tipicamente italiano, uma nódoa na história que medeia entre as duas Guerras Mundiais do século passado. Quanto ao seu líder, Benito Mussolini, filiado inicialmente ao Partido Socialista, jornalista que lidava com desembaraço com seu vernáculo, pretendia pelos caminhos fascistas transformar a Itália em potência mundial. O país perdera 600 mil soldados na Primeira Guerra Mundial, tinha uma economia basicamente agrícola e apresentava um desequilíbrio econômico e social profundo entre o Norte e o Sul. Munido de uma retórica grandiloquente, embora empolgante aos ouvidos provincianos, o fascismo foi fortemente nacionalista e decisivo na criação da indústria automobilística e naval.
Vivi a infância e a primeira adolescência durante a ditadura totalitária do fascio e, chegada a hora de ir para a escola, o meu pai, redator-chefe do principal jornal genovês, liberal à moda antiga e antifascista até a medula, me remeteu para o colégio das Marcelinas, tão avessas a Mussolini quanto ele, que, aliás, estava longe de ser católico praticante. Tenho a melhor lembrança daquelas suaves senhoras de touca levemente brejeira a não dispensar rendinhas, e do primário de classes mistas, alunos e alunas, muitos deles e delas judeus a motivar a minha inveja no momento da aula de Catecismo, quando eram enviados ao parque frondoso a cercar o colégio. Minha primeira paixão derretia-se aos pés da colega Simonetta Avigdor.
Vigorava a lei racial ditada por Hitler, amigos judeus dos meus pais, no entanto, levavam uma vida normal. Basta uma morte na consciência para condenar um ser humano e não busco desculpas ao observar que 8 mil judeus italianos chegaram aos campos de extermínio, enquanto foram 200 mil os franceses durante o governo do general Petain. A diferença explica-se à luz do temperamento e dos humores peninsulares. Derrubado, em julho de 1943, pelos integrantes do Grande Conselho do Fascismo, encabeçados por Dino Grandi e Galeazzo Ciano, na perspectiva da iminente derrota fruto da aliança com Hitler, o Duce foi preso em uma fortaleza dos Apeninos, da qual seria libertado por um comando nazista para fundar no norte a República de Saló, cujos janízaros prenderam meu pai em abril de 1944. Mussolini morreu fuzilado pelos partigiani ao fugir para a Suíça, juntamente com a amante, e acabou pendurado de cabeça para baixo na bomba de gasolina de uma praça periférica de Milão. Conto isso tudo para sublinhar que semelhança entre Mussolini e Bolsonaro não há alguma, mesmo porque a Itália não é o Brasil.
Aqui, entre os opositores de Bolsonaro, ainda há quem acredite na conciliação das elites, como se a porta da mansão pudesse se abrir para quem se preocupa com a sorte do povo. CartaCapital sabe o quanto a ideia é falaciosa, daí nosso apoio incondicional à greve geral convocada para o próximo dia 14. Esperamos que o recente exemplo argentino seja imitado e que saiba expor sua repulsa ao bolsonarismo, à sua patética veia totalitária, ao seu desvairado entreguismo, à sua incurável demência.
Fonte: Carta Capital
07 junho, 2019
Pentecostes
Pentecostes nos desafia!
'A paz esteja convosco'
'Como o Pai me enviou, também eu vos envio'.
'Recebei o Espírito Santo'.
O Espírito Santo guia, renova e dá frutos. É ele que ilumina cada um de nós, mulheres e homens, revelando Jesus ressuscitado, e nos ensina, mostra o caminho de como sermos parecidos com Ele, ser sua presença amorosa e acolhedora. Nos desafia com o entusiasmo e a coragem de Maria e dos apóstolos de falar da ressurreição e ser força vida da Igreja.
No dia de Pentecostes o Espírito Santo desceu com poder sobre os Apóstolos; teve assim início a missão da Igreja no mundo e hoje somos nós convocados a dar continuidade a essa missão.
O mundo precisa dos frutos, dos dons do Espírito Santo, Gálatas, 5, 22-23, resume de forma desafiadora o fruto que o Espírito Santo produz em nossas vidas. Os frutos são:
Amor - Alegria - Paz - Paciência - Bondade – Benevolência - Fé - Mansidão e Domínio de Si. O dom de Deus manifesta-se na gratuidade, isso é lindo.
Para o amado Papa Francisco, “A Igreja de Pentecostes é uma Igreja que não se resigna a ser inócua, elemento decorativo. É uma Igreja que não hesita em ir para fora, ao encontro das pessoas, para anunciar a mensagem que lhe foi confiada, embora essa mensagem perturbe e inquiete as consciências”.
Eu, Lucimar Moreira Bueno (Lúcia)
'Comunicar é talvez o desafio que devemos ter com os jovens'
“Comunicar é talvez o desafio que devemos ter com os jovens. A comunicação, a comunhão. Ensinar-lhes que a informática é algo bom, sim, ter algum contato, mas não é essa a linguagem: é uma linguagem "gasosa". A verdadeira linguagem é comunicar. Comunicar, falar... E esta é uma obra de filigrana, de fazer "renda" como dizem aqui. É um trabalho a ser feito passo a passo. Quem trabalha com os jovens, portanto, não deve impor, mas sim "acompanhar, guiar e ajudar para que o encontro com o Senhor os faça ver qual é o caminho da vida". (Papa Francisco)
06 junho, 2019
Pra você que correu pra linha do pênalti pra inocentar Neymar de estupro
Você aí que correu pro gol pra chamar Neymar de menino e a moça de vagabunda, você está ajudando a difundir o que nós chamamos de cultura de estupro. Uma cultura que sempre culpa a vítima e que faz com que um grande número de mulheres não denuncie. Porque sabemos que o que está acontecendo com a moça que acusou Neymar acontece com todas as vítimas", escreve Lola Aronovich, professora da Universidade Federal do Ceará - UFC, em artigo publicado no seu blog 'Escreva Lola Escreva', 03-06-2019.
Eis o artigo.
Estou um pouco sem tempo e nem ia escrever sobre o caso Neymar, mas depois de ver que um grupo de agentes de segurança pública está dizendo que ele deveria imitar o goleiro Bruno, e depois de um troll comentar "eu sabia que você não iria falar daquela vagabunda", decidi arranjar um tempinho e escrever.
A esta altura todo mundo que não vive numa caverna sabe que, na sexta-feira, noticiou-se um boletim de ocorrência com uma denúncia de estupro contra Neymar. O caso aconteceu no dia 15 de maio, quando o staff do jogador pagou as despesas para que uma modelo brasileira se encontrasse com ele em Paris (ela voltou ao Brasil no dia 17).
Anteontem, o pai de Neymar foi recebido por Datena em seu programa de TV (Brasil Urgente). Disse que o sexo foi consentido e que houve uma tentativa de extorsão por parte de um advogado em nome da vítima. Datena, que foi acusado de assédio sexual por uma jornalista, chamou o jogador de 27 anos de "menino" (três vezes), "moleque" (quatro vezes), "jovenzinho" e "garoto" e, não preciso nem dizer, o defendeu.
O apresentador ainda se queixou que essas notícias de acusação têm muita repercussão, mas, "se você for considerado inocente lá na frente", pouco se noticia. Dois pontinhos, antes de seguir em frente. Um, essas acusações têm tanta repercussão justamente por causa de programas sensacionalistas como o dele. Dois, um escroque que tem um programa em rede nacional há décadas reclamando que não tem espaço para repercutir sua "inocência" é muita cara de pau.
Para "provar" sua inocência, Neymar colocou as mensagens trocadas e as imagens sensuais que a moça mandou pra ele. Nem precisava! Pra grande maioria das pessoas que imediatamente inocentam o jogador e condenam a mulher, só o fato d'ela ter ido pra Paris se encontrar com ele num hotel já mostra que ela queria transar com ele. E, se ela queria, então não houve estupro, né? Essa gente provavelmente não acredita que existe estupro marital. E crê que uma prostituta não pode ser estuprada -- afinal, ela vive de fazer sexo. É só o cara pagar que pode fazer o que quiser com ela!
Luciana Bugni lembrou que Neymar tem 119 milhões de seguidores, e que, entre eles, há inúmeras crianças. O vídeo que ele divulgou teve mais de 20 milhões de visualizações antes de ser removido. Além da exposição típica de pornografia da vingança -- Neymar está sendo investigado pelo vazamento das fotos --, seu vídeo é bastante didático. Como diz Luciana, "Mostrar essas conversas parte da premissa machista de que a mulher que manda nudes é uma vagabunda. E, se mandou nudes, 'merece ser comida'. [...] E estimula o pensamento de que a mulher que demonstra desejos sexuais é uma piranha, mas o homem que faz isso é o comedor".
Eu já fui essa pessoa que crê que, se uma mulher vai ao quarto de um cara à noite, é obviamente porque ela quer dar pra ele; logo, se houve sexo, foi consentido. Eu, que sou feminista assumida desde criança, achei a maior bobagem quando o Mike Tyson foi acusado de estupro, em 1991. Afinal, Desiree Washington, concorrente a Miss Black America, entrou porque quis no quarto de hotel de Tyson, então um jovem mito do boxe. Se ela entrou no quarto era porque queria transar, né? (felizmente, o júri não pensou como eu, e Tyson foi condenado a seis anos de prisão).
Como eu disse lá em cima, agentes de segurança pública estão compartilhando esta imagem num grupo, sugerindo que Neymar deveria tratar sua "Maria Chuteira" como o goleiro Bruno tratou a sua. Mas não é sério, claro, é só brincadeirinha, nós feministas é que não temos senso de humor quando não rimos de piadas sobre estupro e feminicídio. Depois o pessoal estranha por que uma mulher não denuncia a violência contra ela. Vai denunciar pra quem? Pro agente de segurança pública que "brinca" com o caso de uma mulher que foi assassinada e cujo corpo foi devorado por cachorros?
Um blog do MBL (não vou por o link aqui, não dou ibope pra reaças) estampou que você precisa apoiar Neymar nessa "treta ridícula". O blog dá o nome completo da vítima e diz que mulheres acusam homens famosos injustamente de estupro para se promoverem. Assim, "criminalizam a masculinidade" (note que quem associa masculinidade a estupronão sou eu, uma feminista -- é um misógino). E conclui que "Neymar foi corajoso em expor sua intimidade para defender sua honra". Nossa, que coragem a do "garoto"! Expor mensagens em que uma mulher diz que quer transar com ele!
Não entendi bem de onde deduzem que a moça que acusou Neymar quer a fama. Ela foi à polícia denunciar. Não apareceu em programa de TV. Não divulgou vídeo na internet. Não é ela que está divulgando seu nome. Pelo contrário, o caso corre em segredo de justiça. Quem está divulgando nome e fotos da moça é a trupe que defende o jogador. E ele mesmo. E Neymar, que pagou R$ 8 milhões num acordo com a Receita Federal(não é verdade que o governo Temer perdoou uma dívida de 200 milhões do jogador, mas é verdade que Neymar sonegou impostos, assim como vários outros atletas), não é qualquer um. Ele tem muito poder, muita fama.
Outra coisinha: se a mulher quisesse mesmo armar pro pobre menino Neymar, teria deixado um monte de mensagens "comprometedoras", antes e depois do ato?
Segundo o Uol Esporte apurou, a moça entregou à polícia um dossiê com imagens e documentos que não constam no BO. Quatro fontes que tiveram acesso às imagens dizem que o jogador foi agressivo e estava alterado antes do suposto estupro.
A moça realizou exames no dia 21 de maio, e o laudo médico aponta "hematomas, problemas gástricos, perda de peso e sintomas de stress pós-traumático". A reportagem do Uol viu e verificou as imagens anexadas no laudo (feito por um profissional de um hospital de renome), e constatou que há "hematomas grandes e escuros na região das nádegas e das pernas".
Agora o pai de Neymar já mudou um pouco a versão. Disse que Neymar viu que o celular da moça estava de pé, "como se estivesse carregando. Ele viu que estava filmando e aí pediu para ela ir embora. Ele emitiu a passagem de volta dela. O Neymar até tenta filmar, tenta gravar, mas ele erra. Coloca no bolso e não consegue". Bem confusa essa versão, não?
Porém, apesar dos indícios de que houve estupro sim, muita gente (mulheres inclusive, até feministas) acham que as mensagens que a mulher mandou pro jogador já são provas incontestáveis de que o sexo foi consensual.
É uma coisa assustadora, mas boa parte das mulheres transa com o mesmo cara depois de ser estuprada. Há muitos casos de mulheres que são estupradas e se encontram com o sujeito outra vez, e são estupradas de novo. Quem não entende como isso é frequente deve pensar que estupro só é cometido pelo total estranho numa rua deserta à noite. 70% dos estupros são cometidos por conhecidos da vítima. Na maior parte das vezes a vítima não corta contato com o marido, namorado, chefe, pai, tio, amigo etc que a estuprou. É até um mecanismo de defesa: ela transa com ele novamente para tentar se convencer que não foi estupro.
No excelente Eu Nem Imaginava que era Estupro, de Robin Warshaw, um livro publicado em 1988, baseado numa pesquisa feita pela revista Ms. em 32 campi dos EUAcom 6.100 estudantes universitários, homens e mulheres, revelou números aterradores.
Se as mulheres fossem apenas atacadas por um homem estranho numa rua escura à noite, reconheceriam aquilo como estupro. Mas quando é por um conhecido, fica mais confuso. Portanto, uma das primeiras reações das vítimas é negação ("não, eu não fui estuprada").
A segunda é dissociação (a vítima se afasta psicologicamente, se vê à distância. Na ótima série Big Little Lies, uma mulher que é estuprada se imagina assistindo à cena do banheiro. Ela deixa seu corpo).
A terceira reação é a auto-acusação (a vítima sente-se culpada).
A quarta reação: ignorar a “voz interior”. Todxs nós temos instintos e intuições. Talvez mulheres mais que homens, por uma questão de sobrevivência. Mas muitas vezes ignoramos esses instintos (recomendo o livro Virtudes do Medo, de Gavin de Becker, especialista em segurança).
Quinta reação: não se defender. Somos educadas para não fazer escândalo. E muitas vezes não nos defendemos pelo medo de sermos ainda mais machucadas fisicamente. Além de homens costumarem ser mais fortes, altos e pesados, eles aprendem a brigar desde cedo. Mulheres não.
Sexta reação: não denunciar. Não preciso nem explicar isso. Todas nós conhecemos mulheres que já foram agredidas, estupradas, espancadas, e não levaram as acusações adiante, por uma série de motivos.
Sétima reação: tornar-se uma vítima novamente. Um dos números mais perturbadores da pesquisa explicada por Warshaw é que 42% das mulheres que foram estupradas disseram que fizeram sexo de novo como o estuprador. Como não viram o que aconteceu como estupro, tenderam a pensar “É paranoia minha”, “Eu o entendi mal”, “Vou dar uma segunda chance”. Há também um outro dado terrível: 41% das mulheres estupradas acham que serão estupradas novamente.
E aí: deixa de ser estupro porque a mulher se encontra com o cara de novo? Deixa de ser estupro porque a mulher escreveu numa mensagem que queria vê-lo outra vez? Deixa de ser estupro porque a mulher pediu pra que ele trouxesse um presente para o filho dela?
A moça que acusa Neymar pode estar mentindo? Pode (as imagens dos hematomas do laudo médico desfavorecem esta versão). E, se ela fez acusação falsa de estupro, pode ser presa por isso. Ela pode ter tentado extorquir Neymar? Pode.
Mas você aí que não viu a linha do impedimento e correu pro gol pra chamar Neymar de menino e a moça de vagabunda, você está ajudando a difundir o que nós chamamos de cultura de estupro. Uma cultura que sempre culpa a vítima e que faz com que um grande número de mulheres não denuncie. Porque sabemos que o que está acontecendo com a moça que acusou Neymar acontece com todas as vítimas (vale a pena ler este post que mostra como jogadores de futebol quase nunca são punidos pelos estupros que cometem. Ou você acha que quem tem fama e dinheiro "não precisa" estuprar?).
Fica a dica: em vez de se preocupar com as falsas acusações de estupro, que são mínimas, que tal se preocupar com o número baixíssimo de estupros que são denunciados, julgados, e acabam em condenação? E, mais uma vez, pare de atacar a vítima.
Fonte: IHU
"Não há democracia com fome, nem desenvolvimento com pobreza, nem justiça na desigualdade", afirma Papa Francisco
"O lawfare, além de colocar em sério risco a democracia dos países, geralmente é utilizado para minar os processos políticos emergentes e propor a violação sistemática dos direitos sociais. Para garantir a qualidade institucional dos Estados é fundamental detectar e neutralizar esse tipo de práticas que resultam da imprópria atividade judicial em combinação com operações multimidiáticas paralelas", afirma o papa Francisco, em intervenção na Cúpula Pan-Americana de Juízes, em 04-06-2019, promovida pela Pontifícia Academia de Ciências Sociais, no Vaticano sobre o tema: "Direitos sociais e doutrina franciscana”. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.
Eis o discurso.
Senhoras e senhores, é motivo de alegria e também de esperança encontra-los nessa Cúpula, na qual deram uma citação que não se limite somente a vocês, mas sim que evoca o trabalho que realizam conjuntamente com advogados, assessores, fiscais, defensores, funcionários e evoca também aos seus povos com o desejo e a busca sincera para garantir a justiça, e especialmente a justiça social, para que possa chegar a todos. Vossa missão, nobre e pesada, pede para se consagrar ao serviço da justiça e do bem-comum com o chamado constante a que os direitos das pessoas e especialmente dos mais vulneráveis sejam respeitados e garantidos. Dessa maneira, vocês ajudam aos Estados que não renunciem a sua mais excelsa e primária função: fazer-se serviço do bem-comum do seu povo. “A experiência ensina que – assinalava João XXIII – quando falta uma ação apropriada dos poderes públicos no econômico, o político ou o cultural, se produz entre os cidadãos, sobretudo em nossa época, um maior número de desigualdades em setores cada vez mais amplos, resultando assim que os direitos e deveres da pessoa humana carecem de toda eficácia prática” (Pacem in Terris, 63).
Celebro essa iniciativa de se reunir, assim como a realizada o ano passado na cidade de Buenos Aires, na qual mais de 300 magistrado e funcionários judiciais deliberaram sobre os Direitos Sociais, à luz da Evangelii Gaudium, Laudato Si’ e o discurso aos Movimentos Populares em Santa Cruz de la Sierra. Dali saiu um conjunto interessante de vetores para o desenvolvimento da missão que tem entre mãos. Isso nos recorda a importância e, porque não, a necessidade de se encontrar para enfrentar os problema de fundo que vossas sociedades estão atravessando e, como sabemos, não podem ser resolvidos simplesmente por ações isoladas ou atos voluntários de uma pessoa ou de um país, mas sim que reivindica a geração de uma nova atmosférica; isso é, uma cultura marcada pelas lideranças compartilhadas e valentes que saibam envolver outras pessoas e outros grupos até que frutifiquem em importantes acontecimentos históricos (cf. Evangelii Gaudium, 223) capazes de abrir caminhos às gerações atuais, e também às futuras, semeando condições para superar as dinâmicas de exclusão e segregaçãode modo que a desigualdade não tenha a última palavra (cf. Laudato Si’,53.164). Nossos povos reivindicam esse tipo de iniciativas que ajudem a deixar todo tipo de atitude passiva ou espectadora como se a história presente e futura tivesse que ser determinada e contada por outros.
Me preocupa constatar que se levantam vozes, especialmente de alguns “doutrinários”, que tratam de “explicar” que os direitos sociais já são “velhos” - Papa Francisco
Nos toca viver uma etapa histórica de transformações onde se põe em jogo a alma de nossos povos. Um tempo de crise – crise: o caráter chinês, riscos, perigos e oportunidades, é ambivalente, muito sábio isso – tempo de crise – na qual se verifica um paradoxo: por um lado, um fenomenal desenvolvimento normativo, por outro uma deterioração no gozo efetivo dos direitos consagrados globalmente. É como início dos nominalismos, sempre começam assim. É mais, cada vez, e com maior frequência, as sociedades adotam formas anômicas de fato, sobretudo em relação às leis que regulam os direitos sociais, e o fazem com diversos argumentos. Essa anomia está fundamentada por exemplo em carências orçamentárias, impossibilidade de generalizar benefícios ou o caráter-programático mais que o operativo dos mesmos.
Me preocupa constatar que se levantam vozes, especialmente de alguns “doutrinários”, que tratam de “explicar” que os direitos sociais já são “velhos”, estão fora de moda e não tem nada que contribuir a nossas sociedades. Desse modo, confirmam políticas econômicas e sociais que levam a nossos povos à aceitação e justificativa da desigualdade e da indignidade. A injustiça e a falta de oportunidades tangíveis e concretas por trás de tantas análises incapazes de se colocar aos pés do outro – e digo pés, não sapatos, porque em muitos casos essas pessoas não têm –, é também uma forma de gerar violência: silenciosa, porém violenta ao fim. A normatividade excessiva nominalista, independentista, desemboca sempre na violência.
“Hoje vivemos em imensas cidades que se mostram modernas, orgulhosas e até vaidosas. Cidades – orgulhosas de sua revolução tecnológica e digital – que oferecem inumeráveis prazer e bem-estar para uma minoria feliz..., porém os nega o teto a milhares de vizinhos e irmãos nossos, inclusive crianças, e se os chama, elegantemente, 'pessoas em situação de rua'. É curioso como no mundo das injustiças, abundam os eufemismos” (Encontro Mundial dos Movimentos Populares, 28-10-2014). Parecia que as Garantias Constitucionais e os Tratados Internacionais ratificados, na prática, não tem valor universal.
Não há democracia com fome, nem desenvolvimento com pobreza, nem justiça na desigualdade - Papa Francisco
A “injustiça social naturalizada” – ou seja, como algo natural – e, portanto, invisibilizada que somente recordamos ou reconhecemos quando “alguns fazem barulho nas ruas” e são rapidamente catalogados como perigosos ou molestados, termina por silenciar uma história de postergações e esquecimentos. Permitam-me dizer, isso é um dos grandes obstáculos que encontra o pacto social e que debilita o sistema democrático. Um sistema político-econômico, para seu desenvolvimento saudável, necessita garantir que a democracia não seja somente nominal, mas sim que possa se ver moldada em ações concretas que velem pela dignidade de todos os seus habitantes sob a lógica do bem-comum, em um chamado à solidariedade e uma opção preferencial pelos pobres (cf. Laudato si’, 158). Isso exige os esforços das máximas autoridades, e por certo do poder judicial, para reduzir a distância entre o reconhecimento jurídico e a prática do mesmo. Não há democracia com fome, nem desenvolvimento com pobreza, nem justiça na desigualdade.
Quantas vezes a igualdade nominal de muitas das nossas declarações e ações não faz mais que esconder e reproduzir uma desigualdade real e subjacente, que esconde que se está diante de uma ordem fictícia. A economia dos papeis, a democracia adjetiva, e a mídia concentrada geram uma bolha que condiciona todos os olhares e opções desde o amanhecer até o pôr do sol [1]. Ordem fictícia que iguala em sua virtualidade, porém que, no concreto, amplia e aumenta a lógica e as estruturas da exclusão-expulsãoporque impede um contato e compromisso real com o outro. Impede o concreto, a tomada do controle do que é concreto.
Nem todos partem do mesmo lugar na hora de pensar a ordem social. Isso nos questiona e nos exige pensar novos caminhos para que a igualdade ante a lei não degenere na propensão da injustiça. Em um mundo de virtualidades, mudanças e fragmentação – estamos na época do virtual -, os Direitos sociais não podem ser somente exortativos ou apelativos, nominais, mas sim sejam farol e bússola para a estrada porque “a saúde das instituições de uma sociedade tem consequências no meio ambiente e na qualidade de vida humana” (Laudato si’, 142).
Se nos pede lucidez de diagnóstico e capacidade de decisão diante o conflito, se nos pede não nos deixarmos dominar pela inércia ou pela atitude estéril como quem os olha, os nega ou os anula e segue adiante, como se nada passasse, lavam as mãos para poder continuar com suas vidas. Outros entram de tal maneira no conflito que ficam prisioneiros, perdem horizontes e projetam nas instituições as próprias confusões e insatisfações. O convite é olhar de frente para o conflito, sofrê-lo e resolvê-lo transformando-o no enganche de um novo processo (Evangelii Gaudium, 227).
Assumindo que o conflito é claro que o nosso compromisso é o de nossos irmãos para dar operacionalidade aos direitos sociais com o compromisso de buscar a desmantelar todos os argumentos que prejudicam a sua concretude, e isso através da aplicação ou a criação de uma legislação capaz de levantar as pessoas no reconhecimento da sua dignidade. As lacunas legais, tanto em termos de legislação adequada como de acessibilidade e cumprimento, desencadearam círculos viciosos que privam as pessoas e as famílias das garantias necessárias para o seu desenvolvimento e bem-estar. Essas lacunas são geradoras de corrupção que encontram nos pobres e no meio ambiente os primeiros afetados.
Aproveito essa oportunidade para manifestar minha preocupação por uma nova forma de intervenção exógena nos cenários políticos dos países através do uso indevido dos procedimentos legais e tipificações judiciais - Papa Francisco
Nós sabemos que o direito não é apenas a lei ou as regras, mas também uma prática que configura as ligações, o que os transforma de algum modo, "praticantes" do direitosempre que confrontado com as pessoas e realidade. E isso convida a mobilizar toda a imaginação legal para repensar as instituições e lidar com as novas realidades sociais que estão sendo vivida [2]. É muito importante neste sentido, que as pessoas que alcançam as mesas de você e seus bancadas sentir que vieram antes deles, que você vir em primeiro lugar, que você conhecê-los e entendê-los na sua situação particular, mas especialmente reconhecê-los em sua plena cidadania e em seu potencial para serem agentes de mudança e transformação. Nunca perca de vista os setores populares não são primariamente um problema, mas uma parte ativa da face de nossas comunidades e nações, eles têm todo o direito de participar na busca de soluções e construindo inclusive. "O quadro político e institucional não é apenas para evitar más práticas, mas também para incentivar as melhores práticas, estimular a criatividade buscando novas maneiras de facilitar as iniciativas pessoais e coletivas" (cf. Laudato si', 177).
É importante incentivar que desde o início da formação profissional, os operadores legais possam fazer contato real com as realidades, conhecendo em primeira mão e compreendendo as injustiças quais um dia terão de enfrentar. É também necessário encontrar todos os meios e mecanismos para que os jovens em situações de exclusão ou marginalização possam ser treinados para que possam desempenhar o papel necessário. Muito tem sido dito para eles, também precisamos ouvi-los e dar-lhes voz nessas reuniões. O leitmotiv implícito de todo o paternalismo jurídico-socialvem à mente: tudo para o povo, mas nada com o povo. Tais medidas nos permitirão estabelecer uma cultura do encontro "porque nem conceitos nem ideias se amam [...]. A entrega, a verdadeira entrega, surge do amor de homens e mulheres, crianças e idosos, povos e comunidades ... rostos, rostos e nomes que enchem o coração "(II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, Santa Cruz de la Sierra, 9 de julho de 2015).
O lawfare, além de colocar em sério risco a democracia dos países, geralmente é utilizado para minar os processos políticos emergentes e propor a violação sistemática dos direitos sociais - Papa Francisco
Aproveito esta oportunidade de reunir-me convosco para manifestar a minha preocupação por uma nova forma de intervenção exógena nos cenários políticos dos países através do uso indevido de procedimentos legais e tipificações judiciais. O lawfare, além de colocar a democracia dos países em sério risco, é geralmente usado para minar os processos políticos emergentes e tender para a violação sistemática dos direitos sociais. A fim de garantir a qualidade institucional dos Estados, é fundamental detectar e neutralizar este tipo de práticas que resultam de uma atividade judicial imprópria em combinação com operações multimídia paralelas. Sobre isso eu não paro, mas o julgamento anterior da mídia é conhecido por todos.
Isso nos lembra que, em muitos casos, a defesa ou a priorização dos direitos sociaissobre outros tipos de interesses, vocês vão lidar não apenas com um sistema injusto, mas também com um sistema de comunicação poderoso, que distorce muitas vezes o âmbito de suas decisões, vai questionar a sua honestidade e também a sua probidade, eles podem até mesmo julgá-lo. É uma batalha assimétrica e erosiva em que para superá-lo é necessário manter não só a força, mas também a criatividade e uma elasticidade adequada. Quantas vezes os juízes enfrentam na solidão as paredes da difamação e da reprovação, se não da calúnia! Certamente, requer uma grande força para lidar. "Felizes são aqueles que são perseguidos por praticar a justiça, porque a eles pertence o Reino dos Céus" (Mt 5,10), disse Jesus. A este respeito, estou satisfeito que um dos objetivos desta reunião é a criação de um Comitê Permanente Pan-Americano de Juízes e Juízas pelos Direitos Sociais, que tenha um dos objetivos superar a solidão na magistratura, fornecendo apoio e assistência mútua para revitalizar o exercício de sua missão. A verdadeira sabedoria não é alcançada com um mero acúmulo de dados - que é enciclopedismo - uma acumulação que acaba saturando e obscurecendo uma espécie de poluição ambiental, mas com a reflexão, o diálogo e o generoso encontro entre as pessoas, aquele confronto adulto, saudável, faz nós todos crescermos (cf. Laudato Si', 47).
Em 2015, eu dizia aos membros dos movimentos populares: “Vocês têm um papel essencial, não apenas exigindo e reivindicando, mas fundamentalmente criando. Vocês são poetas sociais: criadores de obras, construtores de casas, produtores de alimentos, especialmente para os descartados pelo mercado mundial" (II Encontro Mundial de Movimentos Populares, Santa Cruz de la Sierra, 9 de julho de 2015). Queridos magistrados: Você tem um papel essencial: deixem-me dizer-lhe que também são poetas, são poetas sociais quando não têm medo de "serem protagonistas na transformação do sistema judicial, baseado na coragem, na justiça e na primazia da dignidade da pessoa humana"[3] sobre qualquer outro tipo de interesse ou justificativa. Eu gostaria de concluir dizendo: "Felizes são aqueles que têm fome e sede de justiça; felizes são aqueles que trabalham pela paz "(Mt 5,6,9). Muito obrigado!
Fonte: IHU
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