12 setembro, 2019

O amor é o sal que tempera o mundo



O amor é o sal que tempera o mundo

“Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.“(Mateus. 5:13)

O ensino de Jesus no monte é profético e revolucionário. Seu ensino é uma trilha que nos leva para um caminho de construção a partir de um novo paradigma, que aponta para um novo modo de vida, sob a ética do amor em práticas utópicas. Jesus partilha a palavra viva, palavra que desafia os novos discípulos e discípulas a uma profunda reflexão, animadora e cheia de esperança. São as Boas Novas de alegria e refrigério para um povo cansado, um novo caminho de fé em meio as múltiplas desigualdades e injustiças. Um ensino prático, a partir das vivências do dia a dia das pessoas, de suas angústias, medos, sofrimentos, alegrias e esperança. Um ensino pautado em propostas concretas, na unção do Espírito em uma missão libertadora. Jesus é o ungido enviado do Pai. (Lucas 4:18-19).

Nessa passagem do Evangelho de Mateus, no capítulo cinco e versículo treze, Jesus ensina sobre a missão de ser o Sal da Terra. Os discípulos e discípulas recebem do seu Mestre a importante missão de temperar o mundo, ou seja, salgar o que está sem sabor, sem alegria, mundo de injustiças e opressões, marcado pelos abusos dos sistemas dominantes contra os pequeninos e sem voz, aqueles que Deus escolheu para revelar a beleza, virtudes e bondades do seu Reino ( Mateus. 11:25). Temperar o mundo com amor não se reduz a meras palavras no ar ou discursos ensaiados, mas na prática concreta, que é a encarnação dos valores do reino de Deus. Temperar é amar como Jesus amou (João. 13:34). Essa é a missão de todos nós: amar.

Segundo o ensino de Jesus, os que não amam seus irmãos e irmãs, não podem dar sabor à vida, vida essa repleta de desafios, tribulações e desesperanças, e, portanto não tem relevância no Reino de Deus. Os que estão infectados pelo desamor, que semeiam a murmuração, a divisão e o ódio, negam o Evangelho e tornam-se semelhantes a um tipo de sal inútil, sem valor e sem serventia, pois a exemplo do seu Mestre, os discípulos e discípulas devem ser conhecidos não pela falta de compaixão, mas pelo espírito de bondade e ternura, em um profundo desejo de amar uns aos outros (João. 15:17). Jesus não escolheu a quem deveria amar, Ele não tem prediletos, Jesus amou a todos, aliás, até os seus mais terríveis inimigos que planejavam matá-lo por questões políticas e religiosas. Jesus demonstrou na prática o amor do Pai pelo mundo, realizou sua missão até aos últimos minutos de morte na cruz (João. 3:16).

O evangelista Marcos também faz uma narrativa sobre as palavras de Jesus quanto a missão de ser sal da terra. Jesus faz um questionamento sobre a qualidade do sal, produto caro e de grande importância no comércio da época. Ora, se o sal não der o devido sabor, como haverá de temperar? Como haveremos de encarnar o amor no mundo para que de fato haja paz entre as pessoas e libertação dos oprimidos? Jesus adverte que os que pretendem caminhar com Ele, devem ter sal em si mesmo, ou seja, todos nós temos a missão de viver um novo modo de vida, temperando o mundo com amor, demostrando compaixão, partilha, solidariedade, misericórdia e paz. (Marcos. 9:50).

Esse é também o conselho desafiador do apóstolo Paulo aos irmãos e irmãs da comunidade de Colossos. Paulo recomenda que a palavra proferida por eles, seja agradável, palavras amorosas, de ânimo, fé e esperança. Palavras contrárias ao preconceito, ao desânimo, divisão, discórdia e discussões tolas que não trazem edificação. Palavras acolhedoras que animam as comunidades a prosseguir no caminho de libertação. Palavras temperadas com o sal do amor. (Colossenses. 4:6).

Em que contexto devemos dar sabor à vida nos dias de hoje? Como salgar? Vivemos em um mundo de desigualdades e opressões, preconceitos e exclusão. O mundo de hoje não é diferente do tempo de Jesus. Os pobres sofrem com a desigualdade social, que concentra a riqueza em uma minoria rica, os negros e negras sofrem o racismo do dia a dia, os LGBT’S o preconceito e a violência, as mulheres vitimadas pelo feminicídio, como também muitos outros grupos de excluídos. Que sejamos sal fora do saleiro, temperando o mundo com o amor libertador de Jesus.



Texto de  Marcos Aurélio dos Santos  

Fonte: CEBI

Oração


09 setembro, 2019

'Quem mora na periferia recebe a maior dose de poluição', alerta médico especialista em saúde ambiental

Saldiva destaca que até nos efeitos da poluição a desigualdade faz diferença. 

 "Para mim, foi um Power Point que a natureza colocou para nós: 'Vocês não acreditam que a fuligem da Amazônia está chegando ao Sudeste? Pode deixar que eu vou fazer uma aula para vocês."

Há décadas, um dos cientistas mais importantes do Brasil precisa ficar cara a cara com a poluição: seja aquela composta por partículas detectáveis apenas em laboratórios ou aquela que deixa marcas pretas em pulmões de pacientes, uma espécie de "tatuagem" que comprova em necropsias os danos que a contaminação do ar pode fazer à saúde.
Mas Paulo Saldiva, médico patologista e diretor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), diz que, como paulistano convicto, ciclista e fotógrafo nas horas vagas, até ele ficou surpreso com a tarde da segunda-feira do dia 19 de agosto, que "virou" noite precocemente e exibiu uma cor ocre logo atribuída às queimadas que avançaram pelo país. 
Foto: Divulgação/IEA-USP
"Surpreendeu a todos", resumiu Saldiva em entrevista à BBC News Brasil no campus da Faculdade de Medicina da USP. "Para mim, foi um Power Point que a natureza colocou para nós: 'Vocês não acreditam que a fuligem da Amazônia está chegando ao Sudeste? Pode deixar que eu vou fazer uma aula para vocês.'"
O pesquisador aponta que aquele ar esfumaçado tinha "cara de biomassa" e assim foi confirmado por evidências depois. A poluição do ar pode ter várias origens, como a combustão de gasolina e de elementos naturais e orgânicos, a biomassa - como as florestas queimadas cuja fuligem chegou a São Paulo ou a cana-de-açúcar, que no passado envolvia o uso do fogo em seu cultivo e também escurecia o céu paulista.
Aquela segunda-feira foi um alarme que já apita no ambiente acadêmico há muito tempo - Saldiva diz que, após décadas de acúmulo de evidências sobre os malefícios da poluição do ar para o planeta e para a saúde humana, a ciência fez sua parte e chegou a hora da ação.
E é o viés da saúde que, para ele, pode ajudar a convencer aqueles que não são "convertidos" à pauta ambiental. Afinal, ele e os colegas de várias partes do mundo estimam que, por ano, pelo menos 5 milhões de pessoas morrem prematuramente no mundo por causas relacionadas à poluição do ar.
Cientistas representantes de cinco academias de ciência e medicina pelo mundo se juntaram na redação de uma declaração conjunta apresentada em junho na Organização das Nações Unidas (ONU) reunindo as principais evidências científicas sobre a associação entre a poluição do ar e saúde.
Elas são "inequívocas" e comprovam que a poluição pode prejudicar a saúde "do início ao fim da vida" e danifica "praticamente todos os sistemas do corpo humano" - dos pulmões ao coração, cérebro e pele, diz o documento. A contaminação do ar é uma das principais causas de pneumonia, bronquite e asma em crianças; atrasa o desenvolvimento dos pulmões nelas e em adolescentes; e contribui também para condições que afetam milhões de adultos e idosos no mundo, como câncer, diabetes, doenças cardíacas e acidente vascular cerebral.
Também há indícios crescentes de que a poluição do ar contribui para a demência em adultos e afeta o desenvolvimento do cérebro das crianças.
Produzindo no Brasil, Saldiva - ele mesmo afetado desde cedo por uma das condições mais prejudicadas pela poluição, a asma - acumula centenas de publicações em periódicos renomados internacionalmente e a participação em grupos de pesquisas sobre anatomia, saúde ambiental e antropologia médica. Já estudou com colegas como detectar alterações desde fetos a trabalhadores do trânsito, como taxistas, após a exposição a poluentes.
"A poluição é um fator de risco de saúde que você não tem escolha - o cigarro você escolhe se acende ou não", aponta, destacando outra dimensão recorrente em sua fala, a desigualdade.
"Onde tem mais carro, tem mais poluição. Mas quem leva o carbono nos pulmões? Quem mora na periferia".
"É justamente esse pessoal que tem menor condições de controlar doenças cardíacas, a saúde respiratória, diabetes, é quem vai receber a maior dose de poluição."
A entrevista é de Mariana Alvim, publicada por BBC News Brasil, 08-09-2019.
Eis a entrevista.
Os paulistanos se surpreenderam com a fumaça na segunda-feira 19, e uma crise internacional começou ali. Foi um sintoma realmente atípico?
Surpreendeu a todos. Eu mesmo sou paulistano, ando pela cidade fotografando, nunca tinha visto aquilo. Para mim, foi um Power Point que a natureza colocou para nós: vocês não acreditam que a fuligem da Amazônia está chegando ao Sudeste? Pode deixar que eu vou fazer uma aula para vocês.
A transferência de poluição, o fluxo a longa distância, inclusive transcontinental de poluentes, é um fenômeno conhecido há muito tempo.
Se você for ver os mapas de transporte (de poluentes) a longa distância, que o satélite consegue detectar por técnicas de espectroscopia, você vai ver que uma parte dos precursores de ozônio (compostos químicos como metano e monóxido de carbono que, na presença da radiação solar e outros elementos, podem formar o ozônio) sintetizados no Sudeste do Brasil podem chegar à África do Sul; uma parte do chumbo emitido em processos industriais na China chega nas Américas.
Temos (referindo-se a São Paulo) um fluxo com a Amazônia em zigue-zague: a Amazônia manda coisas (poluentes) para nós, e nós exportamos também. Isso já é conhecido há umas duas décadas, graças aos satélites e novas ferramentas. A bacia aérea é fluida, ela não tem os limites de uma bacia hidrográfica.
Que fumaça de queima de biomassa escurecia o céu, isso já era conhecido, mesmo em São Paulo. A queima da cana-de-açúcar antes da colheita fazia com que houvesse alterações atmosféricas e também doenças. A gente estudou muito isso. Foi um caso bem conhecido de science based policy (política baseada em evidências científicas).
Por sorte - na verdade, azar das pessoas, mas sorte para a política -, eram cidades com uma estrutura de visibilidade e cidadania mais capacitada, no interior de São Paulo.
Você tinha cidades ilhadas por plantações de cana, e o juiz e o promotor público moravam ali.
Eles podiam ver que a fuligem negra caía e as pessoas adoeciam. Ao mesmo tempo, a cidade dependia daquela atividade econômica. Nos anos 1990, isso gerou, depois de um conflito, um protocolo de intenções que levou à progressiva mecanização da colheita da cana. Havia também, além da pressão local, a pressão de importadores (por técnicas menos poluentes).
Chegou-se a um bom termo, a própria indústria se sofisticou.
A fumaça originada em incêndios da Amazônia e esta história da cana-de-açúcar têm em comum, então, a queima de biomassa. O que se sabe sobre esse tipo particular de poluição para a saúde?
Naquela segunda-feira, no fundo, queimou celulose (das árvores). Pesquisadores da química mostraram que aquilo que era visível, que tinha cara de biomassa, também tinha reteno - um hidrocarboneto característico da queima da biomassa. É o DNA, você consegue saber a paternidade da partícula ali.
Já publicamos um trabalho na Scientific Reports mostrando o efeito de poluentes emitidos pela queima de biomassa em marcadores de DNA.
(Saldiva se refere a um estudo do qual foi coautor publicado em 2017 e que mostrou que a exposição a poluentes originados em queimadas na Amazônia, no caso do estudo de amostras coletadas em Porto Velho, causam danos no DNA das células do pulmão.)
Também já comparamos partículas de biomassa com poluentes do tráfego - quer dizer, não é porque é da natureza que esta é menos tóxica.
A gente também estudou biomassa em casas que usam fogão (à lenha) para esquentar ou cozinhar. Você olha a parede e ela está preta; e quanto mais pobre, mais usa - inclusive, agora está crescendo como consequência do aumento do preço do gás, até mesmo em zonas urbanas.
No mundo, são 3,5 milhões de pessoas que morrem anualmente por poluição intradomiciliar por causa disso, mas essas casas não têm voz. Já no caso da cana de açúcar no Estado de São Paulo teve mais visibilidade e suscitou políticas porque caiu na primeira classe do Titanic. Lá, tinha bote salva-vidas para todo mundo.
Poluição é coisa do hemisfério sul, é pobreza.
Como assim?
Primeiro, você precisa gerar informação. Há publicações mostrando que onde há poluição não tem artigos (científicos); e onde tem artigos, não tem poluição.
Para a poluição, você precisa gerar informação, mas a informação não basta. Por exemplo, eu estou machucado, pois caí de bicicleta. Quando eu desço uma escada, eu tenho todas as informações necessárias para não cair - a partir da minha visão, da experiência, da dor que eu estou sentindo.
Se eu estiver, caindo, eu vou ter que tomar uma decisão sobre qual parte do meu corpo vai ser atingida (na queda). A não ser que o lobby do joelho seja mais forte. Temos leis dinamarquesas, mas a aplicação depende de princípios e valores.
Quais são os pontos fracos do nosso corpo diante da poluição?
Tudo o que está no cigarro acontece na poluição: câncer de pulmão, derrame cerebral, infarto do miocárdio, doenças respiratórias, internações....
Só que como é muito mais gente exposta (à poluição), o risco atribuível é maior. E a poluição é um fator de risco de saúde sobre o qual você não tem escolha - o cigarro você escolhe se acende ou não. Na média em São Paulo, (a exposição à poluição) dá quatro cigarros por dia que você não escolhe. Um fumante leve.
E é desigual. Onde tem mais carro, tem mais poluição. Mas quem leva o carbono nos pulmões? Quem mora na periferia. Esse indivíduo fica mais tempo no trânsito, onde as concentrações e a exposição (a poluentes) são maiores.
(O pesquisador mostra à repórter diferentes mapas da cidade de São Paulo: um com manchas de níveis de poluição registradas pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo, maiores ao centro do traçado; e outro com a prevalência de câncer de pulmão causado pela poluição, mostrando maior destaque em partes periféricas da cidade. O estudo combinou dados de autópsias, poluentes e trajetos de pacientes.)
Há algo que uma pessoa dessas pode fazer para se prevenir da exposição à poluição?
Não consegue, esse é o problema. Você está na marginal Pinheiros, na marginal Tietê (vias em São Paulo que margeiam rios), olha para o rio e pensa: nossa, que rio poluído. Mas seu risco é zero, porque você não é obrigado a beber aquela água nem tomar banho naquele rio.
Só que você não consegue evitar os canos de escapamento que te circundam.
Uma máscara efetiva tem que ser filtro HEPA (sigla para "High Efficiency Particulate Air", em tradução livre do inglês algo como "retenção de partículas de alta eficiência"), que é duro, você não consegue respirar muito tempo.
Você pode falar: bom, vou sair em um horário que não tem pico de tráfego. Tudo bem, todo mundo pode? Seu ônibus faz isso? Você pode falar: pratique caminhada. Que horas, se a pessoa chega em casa depois de trabalhar 14 horas por dia? Tem calçada? Ela pode ser assaltada?
"Coma melhor." Mas aquele churrasquinho grego com suco de anilina custa muito mais barato do que comer comida boa. As pessoas vão deixando de ter tempo para se cuidar. Você não precisa mais ter um feitor que te escravize: você já incorporou ele.
E é justamente esse pessoal que tem menor condições de controlar doenças cardíacas, a saúde respiratória, diabetes, é quem vai receber a maior dose de poluição.
O perfil da poluição mudou em São Paulo ao longo do tempo?
A cidade trocou chaminés grandes (das indústrias) por pequenas chaminés móveis, que são os veículos. O orgulho de São Paulo eram as indústrias, mas toda cidade que vai se sofisticando deixa de produzir bens industriais.
Com a necessidade de isolamento, aumento das restrições ambientais, preço do terreno, as indústrias vão para outras cidades. E dá muito mais dinheiro vender serviço - comércio, lazer, banco...
Por isso você falou anteriormente que a poluição é um problema do hemisfério sul, pois economias avançadas, falando de uma forma geral, fizeram uma transição para serviços?
Tem uma coisa chamada "racismo ambiental". Certos processos mais sujos, por exemplo reciclar a bateria do seu celular, você acha que isso vai ser feito onde? Ásia e África. O Brasil está no Euro 6 (padrão da União Europeia para classificar veículos comercializados de acordo com a emissão de poluentes e segundo o qual quanto maior o grau, maior a restrição; a previsão é que o padrão Euro 6 entre em vigor no Brasil em 2023) e exporta Euro 3, que é pior, para América Latina e África.
A mesma empresa multinacional produz tecnologias diferentes conforme o código (de cada país).
O que há de evidências científicas, beirando quase o incontestável, sobre a relação entre poluição e saúde?
Tudo. O número de evidências científicas se avolumou de tal forma que cinco academias se juntaram, inclusive a Academia Brasileira de Ciências (ABC), para apresentar um statement (uma declaração) na ONU (além da ABC, participaram da produção do documento apresentado em junho: Academia de Ciências da África do Sul; Academia Nacional de Ciências da Alemanha Leopoldina; Academia Nacional de Medicina dos EUA; e Academia Nacional de Ciências dos EUA).
Era como dizer: "gente, não precisa saber de mais nada para tomar medidas." Já se sabe que a adoção delas não só salvam vidas, mas dão lucro.
As informações já temos, o que falta para nós são princípios e valores. Mas esse artigo está em falta no almoxarifado da política. Na política, você tem muito setor de entregas, com as promessas; recursos humanos também está ruim. É isso que está faltando.
Como fazer a pauta ambiental chegar e mobilizar quem já não é "convertido", inclusive em países como o nosso em que a oportunidade de acesso ao conhecimento é um privilégio?
Se você falar em tomar medidas sustentáveis para, daqui a 80 anos, o primeiro ser vivo beneficiado será o urso polar, e ninguém é convencido. Agora, as pessoas podem (ser convencidas) sabendo que práticas sustentáveis são boas para o planeta mas também agora, na janela de tempo delas - por exemplo, que a diminuição da poluição a nível local melhora a saúde.
Quando você deixa seu carro em casa e reduz a emissão de gases do efeito estufa, diminui também a poluição local. E você, por exemplo, caminha para pegar o transporte público, tendo cobenefícios imediatos, como a redução do risco de osteoporose.
Você comendo menos carne, reduz o risco de uma série de doenças crônicas e degenerativas, como arterioesclerose e câncer do tubo digestivo. Mas está faltando o conhecimento chegar ao cidadão comum - as universidades, como no Brasil, confundiram autonomia com isolamento.
A parte feliz disso é que as coisas estão melhorando. Pega um jovem hoje: ele quer ter um carro com aquele mesmo ímpeto de 20, 30 anos atrás?
Em alguns recortes socioeconômicos não, mas me pergunto se em outros também...
Eu também não sei, não sei se na periferia o cara não vai querer comprar a motinho dele porque não tem alternativa. Mas e se desse alternativa (de transporte público) para ele?
Se você for ver no Estadão (jornal) o que era legal em um apartamento há 20 anos, os atributos eram: metros quadrados, número de quartos e número de vagas na garagem. Hoje, não.
Tem um provérbio recorrentemente compartilhado por aí que diz: "Só depois da última árvore derrubada, do último peixe morto, o homem irá perceber que o dinheiro não se come". Você acha que isso vai acontecer mesmo?
Não, eu sou otimista.
A desigualdade no mundo foi criada depois que tivemos a grande revolução cognitiva, criando a linguagem e também aprendemos a plantar e domesticar animais.
Com isso, aumentou a população e foi preciso criar uma hierarquia. Porque isso veio também com uma ansiedade. Ao acumular bens, você começou a se preocupar com o futuro: vai chover ou não? Alguém vai roubar meu rebanho?
Para conversar com mais gente do que aquelas que você põe em uma caverna, faz construções sociais desiguais.
Mas está melhorando porque o conhecimento da desigualdade está maior. Se tivesse Instagram, não tinha Hiroshima e Nagasaki (cidades japonesas bombardeadas com armas nucleares pelos EUA na Segunda Guerra Mundial) - a visão desses lugares destruídos seria intolerável, assim como a menina com Napalm (Kim Phuc, que apareceu em foto com o corpo queimado depois de um ataque com napalm no Vietnã nos anos 70) ou o menino na frente do tanque (manifestante fotografado bloqueando a passagem de tanques após massacre na Praça da Paz Celestial, na China, em 1989).
Bolsonaro está voltando (recuando) não porque tenha mudado de opinião, mas porque a imagem da Amazônia queimando chegou no mundo inteiro e criou um superego, um sistema de controle, mais eficiente.
Os agricultores sabem que, se queimar (a floresta), não vão conseguir vender.
Mas não é limitado o alcance dessas pautas (ambientais)? Por exemplo, de vez em quando há escândalos como esse, mas o lixo eletrônico continua sendo produzido...
Não tenha dúvidas de que isso reduziu. Hoje seria impossível a Inglaterra fazer uma guerra do ópio contra a China. Impossível, impossível. Se você analisar em uma escala de tempo maior, existe uma menor capacidade de executar perversidades.
Mas é preciso uma mudança cultural - na própria ciência, às vezes é preciso morrer um população para que novas ideias venham. Na política, vai acontecer a mesma coisa.
O cérebro humano consome muita energia, e como a cabeça não pode nascer muito grande (para viabilizar o parto), você precisa maturá-lo por anos. Isso envolve empatia, solidariedade, toda uma organização social.
Nós fomos programados para isso.
Para o quê?
Colaboração. Nós (a espécie humana) apostamos nessa cabeça, e ela vai nos dar soluções - como trouxe. Eu já vi mais gente melhorar em UTI do que em igrejas. Depois que o cara passa na UTI, ele vai refletir - e nós estamos na UTI agora.

Fonte: IHU

06 setembro, 2019

7º Encontrão Arquidiocesano das CEBs e Abertura do Mês Missionário Extraordinário

Arquidiocese de Maringá - Paraná
Em cartazes
7º Encontrão Arquidiocesano das CEBs 





04 setembro, 2019

Resistir não basta – É preciso projeto - Celso Pinto Carias


Resistir não basta – É preciso projeto

Esse é título de um excelente artigo que o meu "irmão" Celso Pinto Carias escreveu e publicado hoje pelo IHU

"Entre a angústia e a esperança, o desânimo e a vontade de mudar, entre a descrença e a fé, entre a vida e a sobrevivência, entre a paralisação e o movimento, queremos sugerir alguns pontos de reflexão que consideramos fundamental se quisermos, de fato, ver no horizonte um sinal de outro mundo possível", escreve Celso Pinto Carias, doutor em Teologia pela PUC-Rio e assessor do setor CEBs da CNBB.  




Eis o artigo.

Estamos vivendo, em nossos dias, uma Guerra das Trincheiras, como ficou conhecida a Primeira Guerra Mundial. Cada grupo cava um longo buraco no chão (trincheiras) e se tenta avançar para lá e para cá. Ora se avança, ora se recua. No meio, entre as trincheiras, está a terra de ninguém. Sim, era assim que as tropas chamavam o território entre as linhas de trincheiras. Ali, na terra de ninguém, milhões de soldados morreram.
crise civilizatória, na qual estamos mergulhados, dificulta tremendamente que se possa analisar a realidade com sabedoria suficiente para encontrar caminhos. Assim, por maior que seja a nossa capacidade intelectual e analítica, a visão pode ficar obscurecida a ponto de se ver apenas o que deseja ver. Os ouvidos podem ficar insensíveis a qualquer som que não tenha sido codificado antes como o único que possa ser ouvido. E quando uma grande crise se apresenta, é hora de construir o novo.
Quando participávamos na marcha em memória de Marielle Franco e Anderson Silva, alguns dias depois do brutal e covarde assassinato, com um grupo de amigos conversávamos se aquela marcha não deveria ser silenciosa, com velas nas mãos, como a querer escutar e ver exatamente para onde deveríamos continuar a caminhar na busca por um mundo justo, fraterno e solidário. Naquela marcha a terra de ninguém não se encontrava ali, como não tem se encontrado nas diversas marchas de todas as cores ideológicas. Marielle estava em uma trincheira, onde também se morre. Anderson na terra de ninguém. Eu, você que possivelmente lê este texto, estamos em uma trincheira, mas não estamos na terra de ninguém.
As favelas, os morros, os cortiços, as periferias geográficas e existenciais, os/as moradores/as de rua, as emergências dos hospitais públicos, as escolas sem carteiras, as prostitutas, os índios, os quilombolas, os LGBTs que vivem em guetos, as mulheres que sofrem violência doméstica e sequer conhecem a lei Maria da Penha, as pequenas igrejas evangélicas que sustentam o psicológico dos pobres, os devotos católicos passando de joelhos pela passarela da Basílica de Aparecida agradecendo um milagre, e todos e todas que culpamos por vender literalmente o seu voto por um bujão de gás, ou de votar naquele que o tráfico ou miliciano indica, não se encontram nas trincheiras, mas na terra de ninguém. Aqui é uma luta inglória pela sobrevivência, onde a lógica racionalista das análises ajuda bem pouco.
Sim, é hora de resistência. Porém, resistir sem saber para onde ir é completamente insuficiente. Pode ser um avanço pela terra de ninguém, domina-se a trincheira inimiga, mas que poderá, no próximo ataque, ser reconquistada pelo mesmo inimigo. Há quem diga ser necessário resistir primeiro, e depois conversar sobre projetos. O atual quadro da realidade planetária parece nos indicar que não temos tanto tempo para fazer uma coisa sem a outra. Novas decepções de governabilidade talvez não gerem mais apenas ultraconservadores, neofacistas, ódio ao pobre (aporofobia) e naturalização da mortena terra de ninguém, mas um absoluto caos. Resistência e Projeto devem caminhar juntos.
Entre a angústia e a esperança, o desânimo e a vontade de mudar, entre a descrença e a fé, entre a vida e a sobrevivência, entre a paralisação e o movimento, queremos sugerir alguns pontos de reflexão que consideramos fundamental se quisermos, de fato, ver no horizonte um sinal de outro mundo possível. Faremos em poucas páginas, sinteticamente, tentando entabular uma conversa nesta era digital, na qual poucas páginas podem ser muitas, e correndo o risco de deixar muitas lacunas ou fazer afirmações sem sentido.

1. Pare, olhe e escute: o caso Brasil.

caso Brasil é bastante emblemático, embora esteja situado em uma movimentação planetária. Vamos abordar por proximidade. Podemos constatar, sem dados colhidos por pesquisas, de modo muito esquemático, que a população brasileira pode ser dividida em três grupos: 30% progressistas, 30% conservadores ou reacionários, como diz o prof. Roberto Romano salvando o conceito conservador, com quem concordamos. 40% flutuam entre as duas. Mas sem maniqueísmo, isto é, podem existir pessoas boas e más em todos os grupos. Os grupos simplesmente revelam uma tendência.
Observando o processo eleitoral para presidente depois da constituição cidadã de 1988, constata-se que Lula e Dilma, em nenhuma oportunidade, ganharam em primeiro turno. Conseguiram convencer parcela dos 40% que eram a melhor opção. Outra parcela dos 40% vota nulo ou não vota, entre eles pessoas bem pobres. Os mais pobres entre os pobres (miseráveis) não comparecem nas urnas.
Os 30% que perderam para Lula e Dilma, mantinham-se calados, mas não convencidos. Quem nunca ouviu pessoas dizendo que “no tempo da ditadura era melhor”, que “bandido bom é bandido morto”, que “esse pessoal dos direitos humanos é que atrapalham”? Embora podendo pertencer a famílias desastrosas, geralmente por violência doméstica, colocam a culpa da “destruição das famílias” nos gays.
As crises econômicas foram aparecendo. A crise ambiental foi se agravando. Bom, a solução seria uma partilha. Mas 1% da população planetária que detém 90% da riqueza não é simpática à ideia de partilha. Então, inicia-se um processo de desgaste da política como reguladora do Bem Comum, pois uma boa política poderia obrigar a repartição.
Em dado momento, governos progressistas conseguem chegar à estrutura de regulação do Bem Comum (BrasilEquadorBolívia, por exemplo). No entanto, embora tenham conseguindo diminuir índices de pobreza mantiveram mecanismos de governabilidade nos quais princípios éticos, antes defendidos com veemência, agora precisavam ser relativizados. Aparece um sentimento de traição para muitos dos 40%.
Em uma guerra de trincheiras não se consegue observar toda a realidade que envolve a vida de quem está lutando. Como diz José Saramago, para ver a ilha se faz necessário sair da ilha. Constituem-se bolhas impenetráveis, e dentro delas bolhas menores que não se deixam penetrar. O que se tem afirmado, tradicionalmente pela esquerda e pela direita, pode ser caracterizado como duas grandes bolhas.
É interessante a análise de Byung-Chul Han, coreano fixado na Alemanha, professor de filosofia na Universidade de Berlim. Estamos em uma sociedade do cansaço onde o desempenho conta mais que o dever. Nesta sociedade se constituiu uma dinâmica de auto exploração que possibilita um forte sentimento de liberdade. Mas acontece que o trabalhador se torna escravo de si mesmo com grande sensação de liberdade. Diz Han: Agressor e vítima não podem mais ser distinguidos (Sociedade do Cansaço, 30). É uma sociedade depressiva, neuroral, como afirma o filósofo. Uma sociedade que insiste fazer das pessoas indivíduos superpoderosos, basta afirmar as palavras mágicas: eu posso, nós podemos, “we can” de Obama. Indivíduos que podem acabar mergulhados em patologias psíquicas ou até mesmo no suicídio. No universo religioso cristão seria como afirmar que Jesus Cristo ressuscitou sem passar pela cruz.
Quanto tempo vai ser necessário para entender que os 30% de reacionáriosconseguiram o espaço simbólico de suas convicções e contam, para facilitar suas escolhas, com a arrogância daqueles que se colocam como defensores do povo sem o povo? Entre os 30% de progressistas se encontram muitos insensíveis a autocrítica e assim deixam parcela considerável dos 40% assumirem a desesperança do caminho político oficial como alternativa.
Eu avisei, não faço parte desta turma, povo burro, e o contra-ataque daqueles/as que não se deixaram penetrar pelo discurso maldoso das mentiras, não dialoga com pessoas boas entre os 40%. A psicologia já demonstrou que este discurso não funciona.
É interessante fazer o exercício de percorrer as mídias digitais em comentários sobre atrocidades de quem governa atualmente o Brasil. Nenhum argumento é capaz de fazer com que mudem de opinião. No futuro talvez seja necessário fazer o que um general americano fez com a população de uma pequena cidade alemã que tinha um campo de concentração ao lado e não acreditavam. Ele fez toda a cidade entrar no campo e dá de cara com o horror dos cadáveres amontoados.
Portanto, é preciso parar, olhar e escutar. E a tarefa se agiganta na medida em que se percebem as questões de fundo. Será preciso superar o mito messiânico de que lideranças por seu carisma e capacidade serão capazes de mudar as coisas sem um projeto que perceba a crise civilizatória e reoriente a direção. Pessoas, líderes, são importantes, mas urge superar o desejo de um rei salvador que irá reinar com justiça e retidão independente dos poderes que, de fato, controlam o mundo. Este é um arquétipo, como diria C. Jung, que parece estar profundamente enraizado no inconsciente.

2. Poder, governo e outro mundo possível.

Quando reis e rainhas disputavam riquezas e territórios era possível verificar a íntima relação entre poder e governo. Na modernidade e na atual crise civilizatória esta relação já não é tão próxima, embora, naturalmente, governos seja expressão de poder. Contudo, governos hoje podem estar alinhados com uma estrutura de poder que não se apresenta facilmente ao cidadão e à cidadã. Há governos que são verdadeiras marionetes. Na maioria das cidades, prefeitos podem ser meros gerentes dos investimentos das grandes corporações. Copa do Mundo de futebol, Olimpíadas, por exemplo, foram meros pretextos para tentar reorganizar a cidade do Rio de Janeiro a partir de setores econômicos. Sabe-se que nem em Barcelona, como alguns apregoam, o tal legado foi tão significativo para o conjunto da população. Fora os desvios, evidentemente.
Byung-Chul Han pode nos ajudar mais uma vez. No livro O que é poder ele diz: Quanto mais poderoso for o poder, mais silenciosamente ele atuará. Onde ele precise dar mostras de si, é porque já está enfraquecido (p.10). As análises, muitas vezes, não dão conta da complexidade do poder, de suas mediações simbólicas que procuram não uma obediência pela coerção, pela violência, mas pela capacidade de penetrar na existência humana como uma necessidade: o poderoso toma seu lugar na alma do outro. Sem mediações o poder pode chegar ao máximo da violência. É preciso criar uma sensação de liberdade, sem correntes e açoites. É preciso aprofundar tal reflexão se queremos outro mundo possível, pois se assim não fizermos continuaremos a não nos comunicar com os atingidos pela dominação.
Ora, estamos vivendo um momento no qual a estratégia do poder reacionário foi capaz de naturalizar situações outrora consideradas absurdas. E quem se opõe ao que foi naturalizado pode ser considerado réu de morte sem nenhum problema de consciência. E, mais uma vez, o caso Brasil, é bastante expressivo para explicar tal situação. Quantas vezes não se ouvem nos bairros periféricos: se morreu é porque estava devendo.
Ao estar diante do absurdo de pessoas em situação precária que defendem propostas de perda de direitos, pode-se ter uma sensação de absoluta incompreensão. Mas sair para o contra-ataque ofensivo não colabora para mudar substancialmente esta realidade. O pobre é predominantemente vítima. Vítima de um sistema que produz desejos inalcançáveis para ele, vítima de mecanismos que penetram com profundidade sua existência, vítimas de uma luta pela sobrevivência na terra de ninguém.
Símbolos como sinal de arminha, palavras grosseiras que são interpretadas como autenticidade, discursos que finalmente podem ser feitos em praça pública, sem censura intelectual, sem a vergonha de ser taxado de ignorante, pois há uma legitimação simbólica do poder, tornam-se natural. Chega de ser corrigido por um intelectual arrogante que vai me demonstrar com palavras difíceis que a terra não é plana e que problemas climáticos existem. Que o fogo na Amazônia foi ateado por ongs diabólicas. Agora eu posso voltar a dizer para “minha mulher” que o lugar dela é na cozinha, e a minha religião, predominantemente o cristianismo, voltará a justificar tal postura como vontade de Deus. É incrível como aprendemos pouco com Paulo Freire, isto é, concordamos com ele que existe uma educação bancária, mas fazemos formação bancária.
É hora do novo. O novo poderá demorar mais ou menos, depende de nossa capacidade de visualizar o Caminho. Quanto sofrimento tal construção custará? Impossível fazer previsão. Entretanto, podemos buscar com sinceridade, com simplicidade e sem arrogância, favorecer a construção do novo ou continuar a resistir dominando trincheiras para depois voltar ao mesmo lugar. Como fazer este Processo? Sim, é processo, não há receitas. Então, para não dizer que não falei de flores, vão aqui alguns elementos que consideramos essenciais para tal projeto.
a) Uma primeira etapa se faz necessária. Sem ela nenhum projeto será construído. Trata-se da luta para salvar a Democracia. Como tem dito com insistência o amigo e sociólogo Luiz Alberto Gomes de Souza, a constituição de uma Frente Ampla Democrática é fundamental. O discurso do poder reacionário insiste em afirmar que as instituições estão funcionando perfeitamente. Não estão. Setores progressistas continuam agindo como se estivessem. Continuam pensando em termos meramente eleitorais, por exemplo. Basta levar à presidência o grande líder e tudo será resolvido. Não será. Assim, todos e todas que acreditam na democracia precisam estar juntos neste primeiro momento, sem exceção. Na mídia digital quando alguém convida para trilhar este caminho, aparecem os dogmáticos de plantão: “Ciro não”, “Marina já era”. Muito maniqueísmo. Luiz Alberto gosta de lembrar, com razão, o papel do menestrel das alagoasTeotônio Vilela, que vindo da Arena, partido da Ditadura Militar brasileira, tornou-se um dos protagonistas da democracia brasileira. O grande advogado das diretas já, Heráclito Fontoura Sobral Pinto, advogado de defesa do comunista Luiz Carlos Prestes, idoso subindo aos palanques para defender a democracia, um católico fervoroso nada identificado com a esquerda. É preciso constituir uma cidadania ativa e não uma cidadania consumista. Essa história de ninguém solta a mão de ninguém deve se tornar uma realidade e não um discurso bonito.
b) Conjuntamente, paralelamente, ao mesmo tempo, não se pode perder de vista para onde se quer ir. Aqui não será fácil construir consenso. O caminho será longo. Contudo, é imperativo se debruçar sobre qual mundo queremos. Nós, por exemplo, compartilhamos que dentro da atual lógica desenvolvimentista não há salvação. Como diz o economista francês Serge Latouche, Para onde vamos? De cara contra o muro. Estamos a bordo de um bólido sem piloto, sem marcha a ré e sem freio, que vai arrebentar contra os limites do planeta. (Pequeno tratado do decrescimento sereno, p. XII). É preciso avançar recuando. Não dá para acreditar, como diz Kenneth Bouling, em artigo de 1973, citado por Latouche, que um crescimento infinito é possível em um mundo finito, conclui ele, ou é louco ou é economista. (p.16).
Neste momento da história humana, compartilhamos os indicativos dados por companheiros e companheiras da nossa América Latina, como o equatoriano Alberto Acosta e o boliviano Pablo Solón, que bebem na fonte do sumak kawsay, expressão indígena de difícil tradução, mas cabe o que tem se chamado de Bem Viver. É preciso buscar alternativas sistêmicas, dialogando com todos e todas que buscam outro mundo possível: decrescimento, comuns, ecofeminismo, direitos da Mãe Terra, desglobalização, entre outros. Muitos dirão: utopia sem sentido. Sem sentido é um mundo extrativista que suga cada vez mais as condições de vida em completo desequilíbrio com a natureza. Mariana e Brumadinho são ponta de iceberg. Liberais e socialistas têm pautado suas propostas por um produtivismo que passa por cima de qualquer racionalidade. Por isso, precisam de mecanismos simbólicos que mantenham o desempenho dos indivíduos a todo custo, gerando muitas vezes depressivos e fracassados. Como diz Chun Han: Sua vida equipara-se à de mortos-vivos. Estão por demais vivos, para morrer, e por demais mortos para viver. (Sociedade do Cansaço, p. 109).
Evidentemente que não se pode abandonar a trincheira da resistência. Mas mesmo ela precisa de criatividade. Continuamos a responder perguntas novas com respostas velhas. Se gasta excessiva energia com iniciativas que já não produzem tanto resultado, como passeatas e greves. Também a resistência precisa ser redimensionada. O exemplo do vira voto nas últimas eleições foi extremamente significativo. A ocupação das escolascom os jovens estudantes também. Sim, precisamos aprender com a juventude. Com todos os limites das manifestações de 2013, ali estavam os jovens a querer nos dizer algo que muitos não quiseram ouvir. Ali vimos parcelas pequenas, mas presentes, da terra de ninguém.
Sim, é hora do novo. O novo pode demorar a nascer, mas nascerá. O tempo da demora vai depender da nossa humildade, da nossa resiliência, da nossa capacidade de integrar, pois como diz Francisco de Roma, tudo está interligado. Podemos insistir na nossa arrogância messiânica, e aí o novo virá com muito mais sofrimentos. Ou podemos aprender com os nossos ancestrais africanos: Ubuntu, eu sou porque nós somos.

03 setembro, 2019

Eu Apoio o Sínodo - Eu apoio o Papa | Dom Ricardo Hoepers





A Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica vai ser realizada de 6 a 27 de outubro de 2019, no Vaticano, em Roma.  


02 setembro, 2019

Terra, trabalho e teto. Nota da Ampliada das CEBs Regional Sul 2


"O meu desejo é a vida do meu povo.” (Est 7,3)Enquanto

Enquanto Ampliada das CEBs Regional Sul 2, estivemos reunidos em São José dos Pinhais, nos dias 31 de agosto e 01 de setembro. O encontro contou com a presença de representantes de 16 Arqui/dioceses do Paraná.

As CEBs da Arquidiocese de Maringá, estava representada por Pe. Genivaldo Ubinge e eu Lucimar Moreira Bueno, somos assessores das CEBs e por Celso Ninno, Coordenador das CEBs na Arquidiocese de Maringá.

Diante da injustiça, da dor e sofrimento causado por interesses de um grupo domante às "famílias de trabalhadores e trabalhadoras rurais despejadas e ameaçadas pela força opressora, que travestida de justiça ameaça com despejo da terra e abandono às margens das estradas", emitimos uma nota exigindo providências das autoridades.


Segue a nota.


Construirão casas e nelas habitarão, plantarão vinhas e comerão seus frutos (Isaías 65, 21).

As Comunidades Eclesiais de Base do Paraná, reunidas em Ampliada nos dias 31 de agosto e 01 de setembro, na cidade de São José do Pinhais, levantam sua voz em defesa das famílias de trabalhadores e trabalhadoras rurais despejadas e ameaçadas pela força opressora, que travestida de justiça ameaça com despejo da terra e abandono às margens das estradas. No Paraná, de maio até agora, já aconteceram despejos em 04 áreas: Fazenda Gasparetto e Trento em Lindoeste; Nardo em Mangueirinha e Quilombo em Londrina, atingindo mais de 400 famílias de trabalhadores e trabalhadoras rurais acampadas, muitas das quais já estavam na área há mais de 15 anos plantando a terra, cuidando da vida e organizando comunidades. Fomos informados que outras 20 áreas já têm autorização do Estado para serem despejadas a partir de 02 de setembro, e outras 50 áreas sendo ameaçadas de despejo, que somaria mais de 40.000 pessoas atingidas por esse sistema “que não vale” e contra o qual gritamos.

Condenamos esse modo de governar que oprime o pobre e coloca fardos pesados sobre os ombros dos trabalhadores e trabalhadoras cansados da luta diária e nos somamos aos que resistem bravamente nas trincheiras contra a retirada de direitos.

Compreendemos a política como nobre exercício da caridade e cumprimento do Evangelho de Jesus de Nazaré. Repudiamos a ausência de diálogo e a imposição da força contra a vida. Repudiamos também a sobreposição do lucro e acúmulo de bens e de terra.

Denunciamos a forma perversa, cruel, ameaçadora e truculenta com que são tratadas as famílias acampadas, a falta de escuta, as violências psicológicas e o desrespeito com o modo de agricultura familiar e de subsistência.
Acreditamos no diálogo e na justiça como instrumentos eficazes na busca pela paz no campo e promoção da vida plena. Em sintonia com toda Igreja do Paraná, reafirmamos o lema da 32º Romaria da Terra, realizada recentemente na cidade de Lindoeste: Nenhum: camponês sem-terra, mulher sem direito, jovem sem educação e criança sem saúde.

As CEBs em comunhão com a Doutrina Social da Igreja – DSI – fruto da Palavra de Deus, reconhecem a Terra-Mãe como herança de Deus para todos seus filhos e filhas, e acreditam na sua função social salvífica da terra, na Justiça como exigência fundante e existencial do Reino de Deus como base, alicerce à garantia dos direitos humanos fundamentais, entre eles a primazia do direito à Terra. A Palavra de Deus se realiza na vida de seu povo através de politicas publicas que transformem as relações de opressão em relações de cuidado.

As Comunidades Eclesiais de Base do Paraná ousam acreditar que a esperança se faz na unidade dos pequenos e que lutar é um verbo a ser conjugado em todas as pessoas e em todos os tempos. “Felizes os mansos porque herdarão a terra!” (Mt 5, 5). Conclamamos a todos e todas a exigirem das autoridades posição e encaminhamentos em favor dessas famílias de trabalhadores e trabalhadoras rurais. Basta de descaso, sofrimento e desolação. Somos a Igreja do Pão, do Pão partilhado, do abraço e da Paz.

Ampliada das CEBs Regional Sul 2

São José dos Pinhais, às margens da nascente do rio Iguaçu, 01 de setembro de 2019.