25 maio, 2020

Transmidiatizar as narrativas da vida e do Evangelho

“Transmidiatizar” a Boa Nova envolve uma ação de partilha ativa, criativa e expansiva dessa mensagem com outras pessoas, “em todas as épocas, com todas as linguagens, por todos os meios”, como diz Francisco. Com isso, realiza-se também uma reconstrução colaborativa e participativa do universo narrativo-existencial do Evangelho, a partir da realidade de vida dessas pessoas, em seus tempos e lugares específicos.

A opinião é de Moisés Sbardelotto, jornalista e professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Seu livro mais recente é "Comunicar a fé: por quê? Para quê? Com quem?" (Ed. Vozes, 2020).




Eis o artigo.

“O ser humano é um ser narrador.” Esse fato embasa a reflexão proposta pelo Papa Francisco em sua mensagem para o 54º Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado neste domingo, 24 de maio, intitulada “‘Para que possas contar e fixar na memória’ (Ex 10, 2). A vida faz-se história”.

No texto, Francisco convida principalmente a contar “boas histórias”, um convite desafiador “no meio da confusão das vozes e mensagens que nos rodeiam”. E é um desafio ainda maior para a Igreja hoje, chamada a comunicar a Boa Nova por excelência “pelo mundo inteiro” e “a toda a criatura” (cf. Mc 16,15). Mas o ambiente comunicacional contemporâneo também apresenta algumas potencialidades que podem contribuir nesse sentido.
O húmus da narração

A “narratividade original” do ser humano, resgatada por Francisco, reforça a ideia de que, assim como somos seres que pensam (Homo sapiens) e seres que fazem (Homo faber), somos mais ainda seres que contam, relatam, narram aos outros aquilo que pensam e aquilo que fazem (Homo fabulator). Essa humana narratividade se expressa desde os primórdios da espécie, passando por toda a história oral, escrita, audiovisual e digital, “em forma de conto, de romances, de filmes, de canções, de notícias”, como exemplifica o papa.

As histórias e as narrativas são também alimento e vestuário do ser humano. “Desde a infância, temos fome de histórias, assim como temos fome de alimento”, diz Francisco. E, assim como o ser humano precisa de vestes “para cobrir a própria vulnerabilidade”, ele também precisa se “revestir” de histórias.

E não é por acaso que a própria palavra “texto” vem do latim “textum”, ou seja, teia, tecido. “Tecendo” os fios das nossas relações, vamos compondo o tecido da nossa própria vida. Por isso, o ser humano “é um ser em realização”, afirma o papa, porque “descobre-se e enriquece-se nas tramas dos seus dias”. 

A narratividade, portanto, é constitutiva do nosso húmus, da nossa humanidade, e revela “o entrelaçamento dos fios pelos quais estamos unidos uns aos outros”. Fazemos parte de um “tecido vivo”, diz Francisco, em que “as histórias influenciam a nossa vida, mesmo sem termos consciência disso”, e os relatos “moldam as nossas convicções e os nossos comportamentos, podem ajudar-nos a entender e a dizer quem somos”.
Narrativas conectadas e narradores autonomizados

Nos últimos anos, com o processo de digitalização, a narração de fatos e histórias vem ganhando desdobramentos significativos. Em culturas cada vez mais digitais, essas práticas se complexificam ainda mais. Os meios tecnológicos de acesso, produção, distribuição e consumo de sentido hoje (às vezes em um único aparelho físico, como o smartphone) estão ao alcance da imensa maioria da população. A “tecelagem dos fios” relacionais e simbólicos ocorre, cada vez mais, na trama das “redes de redes” sociais e tecnológicas, em um processo crescente de conectivização. Pessoas, textos, imagens, sons, vídeos tornam-se potencialmente “conectáveis” à distância de um clique (ou de um toque na tela).

A internet, pela sua facilidade de acesso e de uso, e pela expansão do alcance e da abrangência das interações sociais, possibilita, assim, que as pessoas “comuns” comuniquem uma “palavra pública” – especialmente aquelas que historicamente não tinham acesso aos artefatos tecnológicos industriais ou empresariais de comunicação. O ambiente digital torna-se um espaço de autonomia, para além do controle das instituições sociais, políticas ou econômicas que, ao longo da história, monopolizaram o processo de produção da informação.

Trata-se de uma autonomização que aponta, justamente, para a “mutação nas condições de acesso dos atores individuais à discursividade midiática, produzindo transformações inéditas nas condições de circulação”, como já afirmava Eliseo Verón (1935-2014), professor da Universidade de Buenos Aires. Autonomamente, qualquer pessoa hoje pode decidir os conteúdos que quer comunicar e os interagentes com os quais quer se comunicar, com um simples toque de dedo na tela de seu celular. Com a comunicação digital, “é o homem comum, sem qualquer visibilidade corporativa, que dá à ambiência da comunicação e da informação generalizadas o estatuto de nova esfera existencial”, segundo Muniz Sodré, professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil.

Contudo, em meio a essa facilidade da comunicação atual, em que qualquer pessoa pode se comunicar potencialmente com o mundo, vai se constituindo nos últimos anos uma verdadeira “desordem informacional”, como já apontava um relatório do Conselho da Europa em 2017, um fenômeno em que a falsidade e a nocividade se alimentam reciprocamente. Ou, nas recentes palavras da Organização Mundial da Saúde, trata-se de uma verdadeira “infodemia”, diante das inúmeras falsidades, boatos e mentiras compartilhadas, por exemplo, durante a pandemia do coronavírus, produzindo uma grande desinformação médica e sanitária. Como se não bastassem as fake news, já analisadas e denunciadas por Francisco em sua mensagem de 2018, tudo isso alcança hoje “níveis exponenciais”, como no caso das deepfakes, mencionadas pelo papa na mensagem deste ano.

Nesses processos, quase não nos damos conta da quantidade de “fofocas e intrigas”, “violência e falsidade”, “histórias destrutivas e provocatórias, que corroem e rompem os fios frágeis da convivência”, “informações não verificadas”, discursos banais e falsamente persuasivos”, “proclamações de ódio”, como aponta Francisco, que consumimos a todo instante na nossa dieta midiática cotidiana.

Junto a isso soma-se a “guerra de narrativas” que marca o jogo político-midiático contemporâneo. A verdade dos fatos – ou mesmo apenas a sua veracidade – não tem mais valor algum: interessa apenas a “minha” versão, a “minha” opinião. “Minha versão é melhor do que a sua! Minha mentira é maior do que a sua!” Fenômeno que, por exemplo no Brasil, produziu a situação cada vez mais bizarra e surreal, infelizmente, em que o país se encontra do ponto de vista político, desfiando e rasgando crescentemente o tecido social.

Diante de todo esse fenômeno de “falsificação cada vez mais sofisticada”, Francisco destaca quatro antídotos principais: sabedoria, coragem, paciência e discernimento. São eles que permitem “receber e criar relatos belos, verdadeiros e bons” e rejeitar os falsos e malvados. Com eles, é possível redescobrir “histórias que tragam à luz a verdade daquilo que somos” e, por sua vez, contar “histórias que edifiquem, e não as que destruam; histórias que ajudem a reencontrar as raízes e a força para avançar juntos”.
A conectividade digital e as narrativas transmídia

Em meio a tais luzes e sombras do cenário atual, surgem também novas experiências narrativas. Hoje, fala-se de “narrativas transmídia”, ou seja, narrativas que são construídas utilizando-se os recursos e as potencialidades das várias mídias. Estas se articulam para contar uma mesma história, que, ao mesmo tempo, se desdobra em diversas histórias paralelas, seja por meio de livros, filmes, jogos, histórias em quadrinhos, vídeos, sites, blogs, redes sociais digitais, aplicativos etc. 

Trata-se de um processo em que “cada meio [mídia] dá uma contribuição à construção do mundo narrativo; evidentemente, as contribuições de cada meio ou plataforma de comunicação diferem entre si (...) As narrativas transmídia não são simplesmente uma adaptação de uma linguagem a outra”, como afirma Carlos Scolari, professor de Comunicação da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, em seu livro “Narrativas transmedia: Cuando todos los medios cuentan” (p. 24, trad. livre). Cada meio acionado é chamado a fazer aquilo que pode fazer de melhor para ajudar a contar uma “boa história”, que é aquela “capaz de transcender os limites do espaço e do tempo” e que, mesmo à distância de séculos, “continua sendo atual, porque alimenta a vida”, como afirma Francisco na mensagem.

Sinal disso são, por exemplo, fenômenos do entretenimento como as sagas Star Wars, Matrix, Harry Potter, Walking Dead, entre outras, cujas narrativas não se restringem a uma única linguagem nem a uma única mídia, mas, justamente, “transpassam” as fronteiras midiáticas, “transmidiatizam-se”, desdobrando-se de formas inovadoras em cada mídia. Assim, a própria ideia de narrativa se desvincula cada vez mais de uma certa “matriz escritural”, reinventando-se nas diversas linguagens e potencialidades abertas pela digitalização e pela conectivização. 

Do ponto de vista religioso, podemos dizer que a própria Bíblia é um dos maiores exemplos de “narrativa transmídia” em toda a história. Primeiro, a Escritura é multimídia: trata-se de um “livro de livros”, com diversos gêneros literários. Como diz Francisco, “a Sagrada Escritura é uma História de histórias. Quantas vivências, povos, pessoas nos apresenta!”. Mas é também transmídia, ao ser uma mesma “história da salvação” desdobrada em incontáveis leituras, releituras, lugares, tempos, contextos etc. ao longo da história.

Portanto, a Bíblia não é apenas uma “coleção de textos”, mas sim um grande e complexo “tecido de textos”, um magistral intertexto, que, ao longo da história, se “transmidiatizou” em novos textos, códices, livros, panfletos, mosaicos, afrescos, pinturas, esculturas, vitrais, construções arquitetônicas, teatros, cantos, músicas, fotografias, filmes, programas de TV e de rádio, sites, aplicativos... em uma circulação incomensurável de sentidos construídos a incontáveis mãos de inúmeros homens e mulheres de diversas épocas e regiões.
Participação e colaboração

Além disso, o principal diferencial das narrativas transmídia é que elas dão “espaço e voz” ao leitor/espectador para que possa participar criativa e colaborativamente do desdobramento e expansão de sentidos em torno da história. Esse processo envolve uma “estratégia narrativa que, além de expandir os mundos de ficção em diferentes meios e plataformas, também dá importância à participação dos fãs nessa expansão”, como afirma Scolari.

Se a sociedade é formada por diferentes “públicos”, cada um com seus gostos e interesses, as narrativas transmídia podem favorecer com que uma mesma história seja “desfrutada” pelos mais diversos públicos, nas suas linguagens e nos meios que mais favoreçam a sua experiência comunicacional. Isso é potencializado pela circulação comunicacional em rede, por meio de uma grande complexidade de interações igualmente transmidiáticas. Mas, mais importante em tudo isso é que os leitores e espectadores também colaboram para a expansão e o desdobramento criativo dos enredos, das histórias e dos universos narrativos, a partir de suas próprias reconstruções de sentido publicizadas em rede.

O mesmo ocorre com o texto bíblico. A rede inter e multitextual da Bíblia só ganha sentido a partir da leitura, meditação, oração e contemplação pessoal e comunitária. A experiência interpretativa dessas pessoas concretas, ao ser compartilhada com outros, “reescreve” o texto bíblico e seu universo de sentido em novos tempos e lugares, ampliando-o e complexificando-o

O problema da comunicação contemporânea, muitas vezes, é justamente uma forma de narração que se crê autônoma e independente, autocentrada e autossuficiente, “narcísica”. A outra pessoa – o leitor/espectador – não é sequer levada em consideração, é mero objeto apassivado e meio coisificado para alcançar determinados fins (econômicos, principalmente). Ou, no pior dos casos, é narrativamente assassinada, simbolicamente aniquilada em nome de tais fins, como no caso dos discursos de ódio.
Jesus, narrador transmídia avant la lettre

Para superar isso, Francisco apresenta como exemplo o “Narrador por excelência”, Jesus. Nele, “o Deus da vida comunica-se contando a vida”, diz o papa, seja por meio das conversas pessoais em torno da mesa ou a caminho para outra localidade, seja por meio dos discursos na montanha, à margem do lago ou no meio da multidão. Nas parábolas de Jesus, narrações breves, tiradas da vida cotidiana, afirma o papa, “a vida faz-se história, e depois, para o ouvinte, a história faz-se vida: essa narração entra na vida de quem a escuta e a transforma”.

Em Jesus, portanto, temos um narrador transmídia primordial, pois, como afirma Francisco, o Evangelho “pede ao leitor que participe da mesma fé para partilhar a mesma vida. (...) Deus se entreteceu pessoalmente na nossa humanidade, dando-nos assim uma nova forma de tecer as nossas histórias”. Estabelece-se um tecido relacional entre Jesus, a sua narrativa e o leitor/ouvinte, que não para por aí, mas pede para se entrelaçar com outros fios relacionais. “Por obra do Espírito Santo – diz o papa –, cada história, até mesmo a mais esquecida, até mesmo aquela que parece escrita nas linhas mais tortas pode tornar-se inspirada, pode renascer como uma obra-prima, tornando-se um apêndice do Evangelho.”

Nesse sentido, “transmidiatizar” o Evangelho, por um lado, significa dar origem a “uma particular forma narrativa que se expande através de diferentes sistemas de significação (verbal, icônico, audiovisual, interativo etc.) e meios (cinema, histórias em quadrinhos, televisão, videogames, teatro etc.)”, como afirma Scolari. Ao longo da história, a Igreja soube fazer isso com grande originalidade, mas hoje é preciso ser ainda mais “ousados e criativos” (Evangelii gaudium, n. 33). Para isso, é preciso seguir um duplo “fio da meada”: primeiro, a pessoa de Jesus, eixo em torno do qual gira não apenas o Evangelho; e, em segundo lugar, o “universo narrativo-existencial” onde Jesus se encarna: “A sua história leva à perfeição o amor de Deus pelo ser humano e, ao mesmo tempo, a história de amor do ser humano por Deus”, afirma Francisco. A partir desses dois fios narrativo-existenciais entrelaçados, é possível se entregar à “liberdade incontrolável da Palavra, que é eficaz a seu modo e sob formas tão variadas que muitas vezes nos escapam, superando as nossas previsões e quebrando os nossos esquemas” (EG, n. 22).

Por outro lado, e principalmente, “transmidiatizar” a Boa Nova envolve uma ação de partilha ativa, criativa e expansiva dessa mensagem com outras pessoas, “em todas as épocas, com todas as linguagens, por todos os meios”, como afirma o papa na mensagem. Com isso, realiza-se também uma reconstrução colaborativa e participativa do universo narrativo-existencial do Evangelho, a partir da realidade de vida dessas pessoas, em seus tempos e lugares específicos. 

Toda pessoa que ouve, vê, lê, recebe o Evangelho, portanto, é chamada a “transmidiatizar” essa Boa Nova em sua vida e em sua comunicação, prolongando-a e expandindo-a no aqui-agora da história. Afinal, a verdadeira narrativa cristã – transmídia ou não – é aquela que, segundo Francisco, “cheira a Evangelho e dá testemunho do Amor que transforma a vida”.

Fonte: IHU

Mensagem para o 54º Dia Mundial das Comunicações Sociais

“Celebra-se (...) o Dia Mundial das Comunicações Sociais, dedicado este ano ao tema da narração. Que este evento nos estimule a contar e compartilhar histórias construtivas que nos ajudem a entender que somos todos parte de uma história maior do que nós mesmos e que podemos olhar para o futuro com esperança se realmente nos preocuparmos uns com os outros, como irmãos”


« “Para que possas contar e fixar na memória” (Ex 10, 2).

A vida faz-se história »

Desejo dedicar a Mensagem deste ano ao tema da narração, pois, para não nos perdermos, penso que precisamos de respirar a verdade das histórias boas: histórias que edifiquem, e não as que destruam; histórias que ajudem a reencontrar as raízes e a força para prosseguirmos juntos. Na confusão das vozes e mensagens que nos rodeiam, temos necessidade duma narração humana, que nos fale de nós mesmos e da beleza que nos habita; uma narração que saiba olhar o mundo e os acontecimentos com ternura, conte a nossa participação num tecido vivo, revele o entrançado dos fios pelos quais estamos ligados uns aos outros.

1. Tecer histórias

O homem é um ente narrador. Desde pequenos, temos fome de histórias, como a temos de alimento. Sejam elas em forma de fábula, romance, filme, canção, ou simples notícia, influenciam a nossa vida, mesmo sem termos consciência disso. Muitas vezes, decidimos aquilo que é justo ou errado com base nos personagens e histórias assimiladas. As narrativas marcam-nos, plasmam as nossas convicções e comportamentos, podem ajudar-nos a compreender e dizer quem somos.

O homem não só é o único ser que precisa de vestuário para cobrir a própria vulnerabilidade (cf. Gn 3, 21), mas também o único que tem necessidade de narrar-se a si mesmo, «revestir-se» de histórias para guardar a própria vida. Não tecemos apenas roupa, mas também histórias: de facto, servimo-nos da capacidade humana de «tecer» quer para os tecidos, quer para os textos. As histórias de todos os tempos têm um «tear» comum: a estrutura prevê «heróis» – mesmo do dia-a-dia – que, para encalçar um sonho, enfrentam situações difíceis, combatem o mal movidos por uma força que os torna corajosos, a força do amor. Mergulhando dentro das histórias, podemos voltar a encontrar razões heroicas para enfrentar os desafios da vida.

O homem é um ente narrador, porque em devir: descobre-se e enriquece-se com as tramas dos seus dias. Mas, desde o início, a nossa narração está ameaçada: na história, serpeja o mal.

2. Nem todas as histórias são boas

«Se comeres, tornar-te-ás como Deus» (cf. Gn 3, 4): esta tentação da serpente introduz, na trama da história, um nó difícil de desfazer. «Se possuíres…, tornar-te-ás…, conseguirás…»: sussurra ainda hoje a quem se utiliza do chamado storytelling para fins instrumentais. Quantas histórias nos narcotizam, convencendo-nos de que, para ser felizes, precisamos continuamente de ter, possuir, consumir. Quase não nos damos conta de quão ávidos nos tornamos de bisbilhotices e intrigas, de quanta violência e falsidade consumimos. Frequentemente, nos «teares» da comunicação, em vez de narrações construtivas, que solidificam os laços sociais e o tecido cultural, produzem-se histórias devastadoras e provocatórias, que corroem e rompem os fios frágeis da convivência. Quando se misturam informações não verificadas, repetem discursos banais e falsamentepersuasivos, percutem com proclamações de ódio, está-se, não a tecer a história humana, mas a despojar o homem da sua dignidade.

Mas, enquanto as histórias utilizadas para proveito próprio ou ao serviço do poder têm vida curta, uma história boa é capaz de transpor os confins do espaço e do tempo: à distância de séculos, permanece atual, porque nutre a vida.

Numa época em que se revela cada vez mais sofisticada a falsificação, atingindo níveis exponenciais (o deepfake), precisamos de sapiência para patrocinar e criar narrações belas, verdadeiras e boas. Necessitamos de coragem para rejeitar as falsas e depravadas. Precisamos de paciência e discernimento para descobrirmos histórias que nos ajudem a não perder o fio, no meio das inúmeras lacerações de hoje; histórias que tragam à luz a verdade daquilo que somos, mesmo na heroicidade oculta do dia a dia.

3. A História das histórias

A Sagrada Escritura é uma História de histórias. Quantas vicissitudes, povos, pessoas nos apresenta! Desde o início, mostra-nos um Deus que é simultaneamente criador e narrador: de facto, pronuncia a sua Palavra e as coisas existem (cf. Gn 1). Deus, através deste seu narrar, chama à vida as coisas e, no apogeu, cria o homem e a mulher como seus livres interlocutores, geradores de história juntamente com Ele. Temos um Salmo onde a criatura se conta ao Criador: «Tu modelaste as entranhas do meu ser e teceste-me no seio de minha mãe. Dou-Te graças por me teres feito uma maravilha estupenda (…). Quando os meus ossos estavam a ser formados, e eu, em segredo, me desenvolvia, recamado nas profundezas da terra, nada disso Te era oculto» (Sal 139/138, 13-15). Não nascemos perfeitos, mas necessitamos de ser constantemente «tecidos» e «recamados». A vida foi-nos dada como convite a continuar a tecer a «maravilha estupenda» que somos.

Neste sentido, a Bíblia é a grande história de amor entre Deus e a humanidade. No centro, está Jesus: a sua história leva à perfeição o amor de Deus pelo homem e, ao mesmo tempo, a história de amor do homem por Deus. Assim, o homem será chamado, de geração em geração, a contar e fixar na memória os episódios mais significativos desta História de histórias: os episódios capazes de comunicar o sentido daquilo que aconteceu.

O título desta Mensagem é tirado do livro do Êxodo, narrativa bíblica fundamental que nos faz ver Deus a intervir na história do seu povo. Com efeito, quando os filhos de Israel, escravizados, clamam por Ele, Deus ouve e recorda-Se: «Deus recordou-Se da sua aliança com Abraão, Isaac e Jacob. Deus viu os filhos de Israel e reconheceu-os» (Ex 2, 24-25). Da memória de Deus brota a libertação da opressão, que se verifica através de sinais e prodígios. E aqui o Senhor dá a Moisés o sentido de todos estes sinais: «Para que possas contar e fixar na memória do teu filho e do filho do teu filho (…) os meus sinais que Eu realizei no meio deles. E vós conhecereis que Eu sou o Senhor» (Ex 10, 2). A experiência do Êxodo ensina-nos que o conhecimento de Deus se transmite sobretudo contando, de geração em geração, como Ele continua a tornar-Se presente. O Deus da vida comunica-Se, narrando a vida.

O próprio Jesus falava de Deus, não com discursos abstratos, mas com as parábolas, breves narrativas tiradas da vida de todos os dias. Aqui a vida faz-se história e depois, para o ouvinte, a história faz-se vida: tal narração entra na vida de quem a escuta e transforma-a.

Também os Evangelhos – não por acaso – são narrações. Enquanto nos informam acerca de Jesus, «performam-nos»[1] à imagem de Jesus, configuram-nos a Ele: o Evangelho pede ao leitor que participe da mesma fé para partilhar da mesma vida. O Evangelho de João diz-nos que o Narrador por excelência – o Verbo, a Palavra – fez-Se narração: «O Filho unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem O contou» (1, 18). Usei o termo «contou», porque o original exeghésato tanto se pode traduzir «revelou» como «contou». Deus teceu-Se pessoalmente com a nossa humanidade, dando-nos assim uma nova maneira de tecer as nossas histórias.

4. Uma história que se renova

A história de Cristo não é um património do passado; é a nossa história, sempre atual. Mostra-nos que Deus tomou a peito o homem, a nossa carne, a nossa história, a ponto de Se fazer homem, carne e história. E diz-nos também que não existem histórias humanas insignificantes ou pequenas. Depois que Deus Se fez história, toda a história humana é, de certo modo, história divina. Na história de cada homem, o Pai revê a história do seu Filho descido à terra. Cada história humana tem uma dignidade incancelável. Por isso, a humanidade merece narrações que estejam à sua altura, àquela altura vertiginosa e fascinante a que Jesus a elevou.

Vós «sois uma carta de Cristo – escrevia São Paulo aos Coríntios –, confiada ao nosso ministério, escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne que são os vossos corações» (2 Cor 3, 3). O Espírito Santo, o amor de Deus, escreve em nós. E, escrevendo dentro de nós, fixa em nós o bem, recorda-no-lo. De facto, re-cordar significa levar ao coração, «escrever» no coração. Por obra do Espírito Santo, cada história, mesmo a mais esquecida, mesmo aquela que parece escrita em linhas mais tortas, pode tornar-se inspirada, pode renascer como obra-prima, tornando-se um apêndice de Evangelho. Assim as Confissões de Agostinho, o Relato do Peregrino de Inácio, a História de uma alma de Teresinha do Menino Jesus, os Noivos prometidos (Promessi sposi) de Alexandre Manzoni, os Irmãos Karamazov de Fiódor Dostoevskij… e inumeráveis outras histórias, que têm representado admiravelmente o encontro entre a liberdade de Deus e a do homem. Cada um de nós conhece várias histórias que perfumam de Evangelho: testemunham o Amor que transforma a vida. Estas histórias pedem para ser partilhadas, contadas, feitas viver em todos os tempos, com todas as linguagens, por todos os meios.

5. Uma história que nos renova

Em cada grande história, entra em jogo a nossa história. Ao mesmo tempo que lemos a Escritura, as histórias dos Santos e outros textos que souberam ler a alma do homem e trazer à luz a sua beleza, o Espírito Santo fica livre para escrever no nosso coração, renovando em nós a memória daquilo que somos aos olhos de Deus. Quando fazemos memória do amor que nos criou e salvou, quando metemos amor nas nossas histórias diárias, quando tecemos de misericórdia as tramas dos nossos dias, nesse momento estamos a mudar de página. Já não ficamos atados a lamentos e tristezas, ligados a uma memória doente que nos aprisiona o coração, mas, abrindo-nos aos outros, abrimo-nos à própria visão do Narrador. Nunca é inútil narrar a Deus a nossa história: ainda que permaneça inalterada a crónica dos factos, mudam o sentido e a perspetiva. Narrarmo-nos ao Senhor é entrar no seu olhar de amor compassivo por nós e pelos outros. A Ele podemos narrar as histórias que vivemos, levar as pessoas, confiar situações. Com Ele, podemos recompor o tecido da vida, cosendo as ruturas e os rasgões. Quanto nós, todos, precisamos disso!

Com o olhar do Narrador – o único que tem o ponto de vista final –, aproximamo-nos depois dos protagonistas, dos nossos irmãos e irmãs, atores juntamente connosco da história de hoje. Sim, porque ninguém é mero figurante no palco do mundo; a história de cada um está aberta a possibilidades de mudança. Mesmo quando narramos o mal, podemos aprender a deixar o espaço à redenção; podemos reconhecer, no meio do mal, também o dinamismo do bem e dar-lhe espaço.

Por isso, não se trata de seguir as lógicas do storytelling, nem de fazer ou fazer-se publicidade, mas de fazer memória daquilo que somos aos olhos de Deus, testemunhar aquilo que o Espírito escreve nos corações, revelar a cada um que a sua história contém maravilhas estupendas. Para o conseguirmos fazer, confiemo-nos a uma Mulher que teceu a humanidade de Deus no seio e – diz o Evangelho – teceu conjuntamente tudo o que Lhe acontecia. De facto, a Virgem Maria tudo guardou, meditando-o no seu coração (cf. Lc 2, 19). Peçamos-Lhe ajuda a Ela, que soube desatar os nós da vida com a força suave do amor:

Ó Maria, mulher e mãe, Vós tecestes no seio a Palavra divina, Vós narrastes com a vossa vida as magníficas obras de Deus. Ouvi as nossas histórias, guardai-as no vosso coração e fazei vossas também as histórias que ninguém quer escutar. Ensinai-nos a reconhecer o fio bom que guia a história. Olhai o cúmulo de nós em que se emaranhou a nossa vida, paralisando a nossa memória. Pelas vossas mãos delicadas, todos os nós podem ser desatados. Mulher do Espírito, Mãe da confiança, inspirai-nos também a nós. Ajudai-nos a construir histórias de paz, histórias de futuro. E indicai-nos o caminho para as percorrermos juntos.

Roma, em São João de Latrão, na Memória de São Francisco de Sales, 24 de janeiro de 2020. 

[Franciscus]

[1] Cf. Bento XVI, Carta enc. Spe salvi (30/XI/2007), 2: «A mensagem cristã não era só "informativa", mas "performativa". Significa isto que o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera factos e muda a vida».

23 maio, 2020

Estimular qualidade do sono na quarentena é eficaz contra doenças


O sono é uma função importante para a saúde, pois ele permite não só a restauração e recuperação energética do corpo, mas também, melhora o humor e o aprendizado. O sono é uma função importante para a saúde, pois ele permite não só a restauração e recuperação energética do corpo, mas também, melhora o humor e o aprendizado. Diante da situação atual, dormir bem é uma estratégia importante para evitar o adoecimento mental e físico.

Veja dicas listadas pela Psicologia da Universidade Cruzeiro do Sul, Ksdy Maiara Moura Sousa, que podem ser eficazes na melhora da qualidade do sono.

- Estabeleça horários para dormir e acordar: a rotina do sono é fundamental para estabelecer e manter o nosso ritmo biológico. O nosso cérebro adora previsibilidade e essa rotina beneficia o nosso sistema.

- Evite ficar o dia todo no quarto ou de pijama: levante, abra a janela do quarto, coloque uma roupa para passar o dia. Isso mostra ao seu cérebro que o dia começou e faz com que ele se prepare para as atividades programadas.

- Exponha-se à luz solar e seja ativo durante o dia: o nosso corpo precisa produzir hormônios que induzam ou que levem ao sono. “Uma maneira adequada é se expor à luz solar, pois, assim, o corpo entende que o dia foi feito para estarmos ativos e a noite para descansar”.

- Evite dormir muitas horas durante o dia: visto que nosso cérebro precisa associar dia com atividade e noite com descanso, se dormirmos muito durante o dia, a tendência é dormir muito mais tarde à noite. “Isso pode alterar seu ritmo biológico e levá-lo a desenvolver um quadro de insônia”.

- Use seu quarto e sua cama apenas para dormir: não trabalhe, leia, se alimente ou estude na cama. Seu cérebro precisa entender que ali é um local de descanso.

- Diminua o uso de aparelhos eletrônicos duas horas antes de dormir: a luz dos celulares e das TVs é extremamente estimulante, impedindo que o cérebro relaxe.

- Evite consumir bebidas estimulantes e alcoólicas perto do horário de dormir: o consumo de café, chás estimulantes e energéticos podem prejudicar o início do sono, aumentando as chances de insônia. “O álcool, apesar de causar sonolência, leva a um sono de pouca qualidade”.

- Faça atividade física durante o dia: praticar exercícios físicos ajuda na qualidade e consolidação do sono, porém, se possível, evite fazer atividades intensas à noite.

- Planeje o dia: tenha uma rotina de trabalho e estudo com local, horários e tarefas a serem realizadas no dia, dessa forma, você não se sobrecarrega ou passa a noite trabalhando.

- Anote os pensamentos e ideias antes de ir para a cama: fazer isso evita os pensamentos incontroláveis antes de dormir, diminuindo o estresse e a ansiedade.

- Medite, respire e relaxe antes de ir para cama: ter um momento para respirar e meditar auxilia muito a desacelerar a mente, favorecendo uma boa noite de sono.

- Não espere o sono chegar na cama. “Ir para a cama sem sono pode aumentar a ansiedade e condicionar a associar o quarto e a hora de dormir como algo ruim, por isso, é importante praticar atividades relaxantes antes de dormir”.

Fonte: Agência Brasil

22 maio, 2020

Para descontrair


ARTIGO | O BRASIL PERDEU A CAPACIDADE DE SENTIR DOR?


O Brasil registrou na terça-feira (19) o recorde de mais de 1.000 mortes por Covid-19 em 24 horas e não houve qualquer comoção à altura dessa catástrofe. Pelo contrário, na sequência do anuncio mórbido se ouviu de políticos importantes frases insensatas. O presidente...Continue lendo AQUI.

Bispo suíço nomeia primeira mulher vigária episcopal da história


Cargo de vigário episcopal é ocupado exclusivamente por padres, segundo o Direito Canônico


A diocese de Lausana, Genebra e Friburgo, na Suíça, será a primeira na história da Igreja Católica a ter uma mulher como vigária episcopal, um cargo habitualmente ocupado por padres. A leiga Marianne Pohl-Henzen foi nomeada pelo bispo Charles Morerod e assumirá funções em 1º agosto.

Marianne Pohl-Henzen irá substituir um dos atuais vigários, o padre Pascal Marquard, do qual foi adjunta nos últimos oito anos. Ela será nomeada delegada episcopal da parte de língua alemã da diocese, mas não receberá oficialmente o título de “vigário episcopal”, já que segundo o direito canônico ele está reservado aos padres.

Mesmo sem a titulação canônica, suas função será a mesma de um vigário-episcopal, o que supõe pertencer ao conselho episcopal da diocese (o órgão de assessoria do bispo nas suas funções de gestão) e ocupar o segundo cargo mais importante na diocese, a seguir ao próprio bispo. Licenciada em Filologia (alemã e clássica) e Teologia, Marianne tem quase 20 anos de experiência na coordenação de equipes pastorais, é catequista, mãe de três filhos e avó de quatro netos.

Na diocese de Lausanne, Genebra e Freiburg, existem cinco vigários episcopais que correspondem aos cinco vicariados diocesanos. Há também um vigário para as vocações.

Fonte: Dom Total

Não há poder paralelo. ‘Tanto a milícia quanto o tráfico têm relações diretas com o poder do Estado’. Entrevista especial com José Cláudio Alves


Na avaliação do sociólogo, a realidade das periferias e favelas cariocas será muito mais difícil depois da pandemia

Foto: Divulgação/ONG Viva Rio


Por: João Vitor Santos e Patricia Fachin | 22 Mai 2020

Projetar como será a realidade nas periferias e favelas cariocas pós-pandemia “é um exercício de imaginação”, mas a tendência é que sejam reforçadas “as estruturas de poder da face ilegal do Estado, tanto no tráfico quanto nas milícias”, afirma José Cláudio Alves à IHU On-Line. Segundo ele, a atuação do tráfico para garantir as medidas de isolamento nas periferias e se autoproteger e, de outro lado, das milícias, para manter o funcionamento do comércio e benefícios a aliados para continuar arrecadando dinheiro, vai projetar tanto milicianos quanto candidatos apoiados pelo tráfico nas próximas eleições municipais no Rio de Janeiro. “Essa estrutura tende a se projetar porque vai lançar mão dos recursos do clientelismo para beneficiar aqueles que são seus aliados nesses espaços”, menciona. 
Na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp, o sociólogo relata como tem sido a atuação do tráfico, das milícias e de setores que detêm o monopólio de serviços em municípios do interior do Rio de Janeiro durante a pandemia. “Na cidade de Caxias existe uma única funerária, que tem o monopólio dos enterros e, agora com as mortes pelo coronavírus, essa funerária cobra valores altíssimos para a população: algo em torno de 2.500 reais pelo enterro, com caixão simples. É uma coisa estapafúrdia. Hoje, essa funerária faz um jogo de disputa de poder com a prefeitura, dizendo que o preço do enterro popular que a prefeitura quer pagar não corresponde à realidade. Então, a funerária não quer fazer esses enterros e a prefeitura diz que não pode pagar pelos enterros porque os valores cobrados são altos”, informa. 
Nas áreas onde o “Estado já opera matando”, ressalta, se observa uma sobreposição. “As áreas onde as pessoas morriam por conta do confronto com o aparato policial, com a milícia ou com as facções do tráfico, estão sendo recobertas também pelo maior número de mortos em decorrência da pandemia. Então, existe uma continuação da necropolítica em outra dimensão, que acaba sendo uma face da mesma moeda: a moeda da violência, que reprime e recai sobre esses conjuntos segregados, racialmente discriminados, que são mantidos à margem da pobreza, sem acesso a recursos, à escolaridade”, observa. 
José Cláudio Alves lembra ainda que as eleições municipais deste ano “são decisivas para deputados e senadores se perpetuarem em 2022, então, a Câmara de Deputados e o Senado não têm o menor interesse em tocar os processos de impeachment abertos contra o presidente. O interesse deles é outro: é distribuir renda desse governo para as suas bases eleitorais se protegerem contra a pandemia e, consequentemente, para as pessoas os verem como benfeitores e votarem nos seus aliados eleitorais nos locais onde eles estão”. 
Na entrevista a seguir, ele diz que o futuro pós-pandemia será ainda mais difícil para aqueles que vivem nas periferias. “Como será a realidade da saúde pública nessas áreas depois da pandemia? Vai ser melhor? Tudo indica que não, porque os recursos estão sendo destinados de uma forma inadequada e o SUS, se virou herói nacional, foi por mera contingência, porque não tinha outro sistema que pudesse dar conta desse sofrimento e dessa pandemia. O SUS apareceu num cenário de crescimento e expansão, mas isso não foi nada planejado e o pós-pandemia não garante que o SUS possa receber algum tipo de aporte para, nessas áreas de periferias e favelas, melhorar a condição de atendimento”, lamenta. 
AQUI a entrevista

Covid-19 – Casos sem sintomas ou com sintomas leves ‘são a chama que mantém a contaminação’ no Brasil, avalia especialista

Cientistas veem Brasil como epicentro da pandemia num futuro próximo e, com dados subdimensionados pela testagem somente de casos mais graves, sem condições reais de enfrentamento.
A reportagem é de Rose Talamone, publicada por Jornal da USP e reproduzida por EcoDebate, 21-05-2020.
Um dos maiores problemas enfrentados pela ciência de dados no monitoramento do novo coronavírus são os dados mal coletados e restritos, afirma Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e coordenador do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) que acompanha a evolução da pandemia em Estados e municípios do País. Para ele, “casos sem sintomas ou com sintomas leves são a chama que mantém a epidemia”, já que não são testados e os infectados não fazem um isolamento restrito.
Os boletins oficiais divulgados diariamente sobre o número de infectados não refletem a realidade da pandemia no Brasil, pois se baseiam nas internações; só nesses casos é que são feitos os testes para detecção do vírus, alerta o professor. Enquanto os registros oficiais mostravam pouco mais de 165 mil infectados no dia 11 de maio, por exemplo, as projeções dos pesquisadores de Ribeirão Preto chegavam a 2,3 milhões.
Mesmo projetando o País como novo epicentro da pandemia, Alves diz que essas estimativas são feitas sempre para baixo, pois a metodologia empregada utiliza o número de mortes pela doença e não o de infectados. E até esse indicador, feito através dos óbitos, também não reflete a realidade, argumenta, já que ele é igualmente subnotificado. O fato é considerado grave pelos pesquisadores pois as ações de planejamento e as políticas públicas para controle da pandemia dependem de dados reais.
Como exemplo, Domingos Alves cita a diferença entre os números utilizados pelo seu grupo e os levantados pela Universidade Federal de Pelotas, estimando a infecção para o Estado do Rio Grande do Sul. Os pesquisadores gaúchos encontraram, para um mesmo período de tempo, sete vezes mais casos naquele Estado do que os boletins oficiais notificaram. “Eles apontavam o número de infectados em torno de 5,7 mil pessoas, e nós, em torno de 5 mil”, diz.
Monitoramento de casos e óbitos confirmados de covid-19.
(Gráficos encaminhados pelo pesquisador
Gráficos encaminhados pelo pesquisador.

Gráficos encaminhados pelo pesquisador.
Casos confirmados no Brasil e em SP; ao contrário da Europa, nós ainda não estamos descendo a curva, muito pelo contrário. Estamos em plena subida.
Usando essa metodologia, o professor afirma que não dá para fazer projeções para um futuro mais distante, mas é possível afirmar que os números devem dobrar em uma semana. “Até onde sabemos, tanto no Brasil como no Estado de São Paulo, o número de casos ainda está crescendo num comportamento exponencial. Ou seja, nós não conseguimos ver o pico da epidemia ainda. Então, supondo que o crescimento é exponencial, tanto no Brasil quanto no Estado de São Paulo, esses números devem dobrar num prazo de até uma semana.” Alves acredita que o afrouxamento das medidas de restrição e mobilidade devem piorar a situação desses números. Para o professor, os municípios devem antes apresentar evidências de que a epidemia está sob controle. “O número de casos tem que começar a diminuir de maneira sustentável; ou seja, o número de casos caindo em qualquer proporção, num prazo de duas a três semanas, seria uma evidência de que as medidas de contenção poderiam começar a ser relaxadas, mantendo ainda um distanciamento social importante e observando se o número de casos não vão crescer de novo.”
Segundo Alves, os municípios de Campos do Jordão e São Sebastião, no Estado de São Paulo, são exemplos de locais que estão monitorando corretamente a pandemia. São Sebastião está testando a população e, ao encontrar casos suspeitas ou confirmados, as pessoas são colocadas em isolamento.
Fonte: IHU

Livro Papa Francesco - Vida Aprós A Pandemia



Livro Papa Francesco - Vida Aprós A Pandemia


Nos primeiros meses de 2020, o Papa Francisco refletiu com frequência sobre a pandemia do coronavírus, à medida que esta se apoderou da família humana.

O livro, oito textos significativos, falados e escritos pelo papa entre 27 de março e 22 de abril.

A quem e como falou ele? O que disse, e por quê?

Para além das suas ocasiões específicas, estes oito textos poderiam ser lidos em conjunto como uma única progressão do seu pensamento e como uma mensagem rica à humanidade.

A coletânea tem dois objetivos.

O primeiro objetivo
É o de sugerir uma direção, chaves de leitura e diretrizes para a reconstrução de um mundo melhor que possa nascer desta crise da humanidade.

O segundo objetivo
É, em meio a tanto sofrimento e perplexidade, semear a esperança.

O Papa fundamenta claramente esta esperança na fé, porque « com Deus, a vida não morre jamais ».

(conforme prefácio do livro)

O livro foi lançado pela editora oficial do Vaticano.

No link o livro para ler online, imprimir ou baixar


É tempo de Cuidar!


19 maio, 2020

Pandemia da ignorância: emburrecemos na última década ou é só mais acesso?

Não é uma frase proposotalmente malescrita num chamativo fundo colorido. É um artigo relativamente grande com uma reflexão relevante e pertinente. Sugiro a leitura e que se pense a respeito.

Penso que ser ignorante não é nenhuma vergonha, é uma situação. Todos ignoramos algo da realidade ou das informações, interpretação sobre ela. O problema é ignorar a própria ignorância. O problema é fazer da própria ignorância ou das dúvidas legítimas uma convivência para manter-se numa postura de arrogância e justificativa para a preguiça em superar os preconceitos infundados.

Não, o problema não é a ignorância em si. O problema é não estar atento à sua própria ignorância e ser mera peça na engrenagem que faz das suspeitas, desinformação, distorções dos fatos e do tumulto como estratégia política.

O texto acima é do padre Genivaldo Ubinge, publicado em seu perfil no Facebook.


A baixo segue o texto e Matheus Pichonelli



Pandemia da ignorância: emburrecemos na última década ou é só mais acesso?

Está provado, mas isso a mídia não vai mostrar: amigo do primo do vizinho contou que um panda chinês morre de infarto cada vez que alguém manda no grupo de WhatsApp aquela receita milagrosa para matar o coronavírus na base do chá ou da água quente. 

Não, a história acima não é verdade. Mas, se esta mesma mensagem viesse embalada num card mal desenhado com os devidos créditos a um cientista desconhecido formado por uma universidade inexistente, a chance de ela replicar era razoável. Por muito menos, houve quem gravasse um tutorial de como afogar o vírus com uma overdose de quinino da água tônica. Tem gente convicta também de que uísque e mel são tiro-e-queda para brecar a pandemia. Que álcool em gel não tem a mesma eficácia do bom e velho vinagre. E que tudo bem beber ou injetar desinfetante só porque Donald Trump mandou.

No meio de tanta desinformação, o drama de quem tem o ... 

Continue lendo o texto de Matheus Pichonelli AQUI.

A REPAM pede ação unitária para evitar uma tragédia humanitária e ambiental na Amazônia

Foto: Insituto Socioambiental | Prefeitura de Manaus


Uma tragédia humanitária e ambiental é o grande perigo que a Amazônia enfrenta, um território de 33 milhões de habitantes, incluindo 3 milhões de indígenas de 400 povos diferentes, além de 120 povos em isolamento voluntário ou contato inicial. Para dizer a verdade, a região está ameaçada há anos, uma situação que se acelerou nas últimas semanas, o que pode levar a um colapso estrutural.

A reportagem é de Luis Miguel Modino publicado pelo IHU. Leia AQUI a reportagem

Coronavírus: o que dizem os estudos publicados sobre cloroquina, defendida por Bolsonaro e Trump

Houve pressão por parte de Bolsonaro para que Brasil autorizasse uso da cloroquina em pacientes com coronavírus no Brasil, mas ex-ministro Nelson Teich afirmou que medicamento era uma incerteza

Considerada pelo presidente Jair Bolsonaro como arma no combate à pandemia do coronavírus e pivô da saída de Nelson Teich do comando do Ministério da Saúde na última sexta-feira (15), o medicamento cloroquina não tem eficácia e segurança cientificamente comprovadas contra a covid-19.
Atualmente, no Brasil, o uso é autorizado só em pacientes em estado crítico e moderado já internados em hospitais, quando médico e paciente concordam com o uso. Mas o presidente, Jair Bolsonaro, vinha defendendo o uso do medicamento e pressionara Teich para autorizar o uso de cloroquina em pacientes em estágio inicial da covid-19 no Brasil. Apoiadores do presidente também têm cobrado a liberação imediata do medicamento.

Leia a matéria na integra publicada por BBC AQUI

Forçado como Jesus Cristo, a fugir


Mensagem do Papa para o 106º para Dia Mundial do Migrante e do Refugiado



MENSAGEM DO SANTO PADRE
para o 106o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado
27 de setembro de 2020


Forçados, como Jesus Cristo, a fugir.

Acolher, proteger, promover e integrar os deslocados internos.

No discurso que dirigi, nos primeiros dias deste ano, aos membros do Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé, mencionei entre os desafios do mundo contemporâneo o drama dos deslocados dentro da própria nação: « Os conflitos e as emergências humanitárias, agravadas pelas convulsões climáticas, aumentam o número dos deslocados e repercutem-se sobre as pessoas que já vivem em grave estado de pobreza. Muitos dos países atingidos por estas situações carecem de estruturas adequadas que permitam atender às necessidades daqueles que foram deslocados » (9/I/2020).


A Secção «Migrantes e Refugiados» do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral publicou as Orientações Pastorais sobre as Pessoas Deslocadas Internamente (5/V/2020), um documento que visa inspirar e animar as ações pastorais da Igreja nesta área em particular. 


Por tais razões, decidi dedicar esta Mensagem ao drama dos deslocados dentro da nação, um drama – muitas vezes invisível – que a crise mundial causada pela pandemia do Covid-19 exacerbou. De facto, esta crise, devido à sua veemência, gravidade e extensão geográfica, redimensionou tantas outras emergências humanitárias que afligem milhões de  pessoas, relegando para um plano secundário, nas Agendas políticas nacionais, iniciativas e ajudas internacionais, essenciais e urgentes para salvar vidas. Mas, «este não é tempo para o esquecimento. A crise que estamos a enfrentar não nos faça esquecer muitas outras emergências que acarretam sofrimentos a tantas pessoas» (Francisco, Mensagem Urbi et Orbi , 12/IV/2020).


À luz dos acontecimentos dramáticos que têm marcado o ano de 2020 quero, nesta Mensagem dedicada às pessoas deslocadas internamente, englobar todos aqueles que atravessaram e ainda vivem experiências de precariedade, abandono, marginalização e rejeição por causa do vírus Covid-19.


E, como ponto de partida, gostaria de tomar o mesmo ícone que inspirou o Papa Pio XII ao redigir a constituição apostólica Exsul Familia (1/VIII/1952): na sua fuga para o Egito, o menino Jesus experimenta, juntamente com seus pais, a dramática condição de deslocado e refugiado «marcada por medo, incerteza e dificuldades (cf. Mt 2, 13-15.19-23). Infelizmente, nos nossos dias, há milhões de famílias que se podem reconhecer nesta triste realidade. Quase todos os dias, a televisão e os jornais dão notícias de refugiados que fogem da fome, da guerra e doutros perigos graves, em busca de segurança e duma vida digna para si e para as suas famílias» (Francisco, Angelus , 29/XII/2013). Em cada um deles, está presente Jesus, forçado – como no tempo de Herodes – a fugir para Se salvar. Nos seus rostos, somos chamados a reconhecer o rosto de Cristo faminto, sedento, nu, doente, forasteiro e encarcerado que nos interpela (cf. Mt 25, 31-46). Se O reconhecermos, seremos nós a agradecer-Lhe por O termos podido encontrar, amar e servir.


As pessoas deslocadas proporcionam-nos esta oportunidade de encontrar o Senhor, «mesmo que os nossos olhos sintam dificuldade em O reconhecer: com as vestes rasgadas, com os pés sujos, com o rosto desfigurado, o corpo chagado, incapaz de falar a nossa língua» (Francisco, Homilia , 15/II/2019). É um desafio pastoral ao qual somos chamados a responder com os quatro verbos que indiquei na Mensagem para este mesmo Dia de 2018: acolher, proteger, promover e integrar. A eles, gostaria agora de acrescentar  seis pares de verbos que traduzem ações muito concretas, interligadas numa relação de causa-efeito.


É preciso conhecer para compreender . O conhecimento é um passo necessário para a compreensão do outro. Assim no-lo ensina o próprio Jesus no episódio dos discípulos de Emaús:
«Enquanto [estes] conversavam e discutiam, aproximou-Se deles o próprio Jesus e pôs-Se com eles a caminho; os seus olhos, porém, estavam impedidos de O reconhecer» ( Lc 24, 15-16). Frequentemente, quando falamos de migrantes e deslocados, limitamo-nos à questão do seu número. Mas não se trata de números; trata-se de pessoas! Se as encontrarmos, chegaremos a conhecê-las. E conhecendo as suas histórias, conseguiremos compreender. Poderemos compreender, por exemplo, que a precariedade, que estamos dolorosamente a experimentar por causa da pandemia, é um elemento constante na vida dos deslocados.


É necessário aproximar-se para servir . Parece óbvio, mas muitas vezes não o é. «Um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele [do homem espancado e deixado meio-morto] e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele» ( Lc 10, 33-34). Os receios e os preconceitos – tantos preconceitos – mantêm-nos afastados dos outros e, muitas vezes, impedem de «nos aproximarmos» deles para os servir com amor.
Abeirar-se do próximo frequentemente significa estar dispostos a correr riscos, como muitos médicos e enfermeiros nos ensinaram nos últimos meses. Aproximar-se para servir vai além do puro sentido do dever; o maior exemplo disto, deixou-no-lo Jesus, quando lavou os pés dos seus discípulos: tirou o manto, ajoelhou-Se e pôs mãos ao humilde serviço (cf. Jo 13, 1-15).


Para reconciliar-se é preciso escutar . No-lo ensina o próprio Deus que quis escutar o gemido da humanidade com ouvidos humanos, enviando o seu Filho ao mundo: «Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, (...) para que o mundo seja salvo por Ele» ( Jo 3, 16.17). O amor, que reconcilia e salva, começa pela escuta. No mundo de hoje, multiplicam-se as mensagens, mas vai-se perdendo a atitude de escutar. É somente através da escuta humilde e atenta que podemos chegar verdadeiramente a reconciliar-nos. Durante semanas neste ano de 2020, reinou o silêncio nas nossas ruas; um silêncio dramático e inquietante, mas que nos deu ocasião para ouvir o clamor dos mais vulneráveis, dos deslocados e do nosso planeta gravemente enfermo. E, escutando, temos a oportunidade de nos reconciliar com o próximo, com tantas pessoas descartadas, connosco e com Deus, que nunca Se cansa de nos oferecer a sua misericórdia. 


Para crescer é necessário partilhar . A primeira comunidade cristã teve, na partilha, um dos seus elementos basilares: «A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum» ( At 4,32). Deus não queria que os recursos do nosso planeta beneficiassem apenas alguns. Não, o Senhor não queria isso! Devemos aprender a partilhar para crescermos juntos, sem deixar ninguém de fora. A pandemia veio-nos recordar que estamos todos no mesmo barco. O facto de nos depararmos com preocupações e temores comuns demonstrou-nos mais uma vez que ninguém se salva sozinho. Para crescer verdadeiramente, devemos crescer juntos, partilhando o que temos, como aquele rapazito que ofereceu a Jesus cinco pães de cevada e dois peixes (cf. Jo 6, 1-15); e foram suficientes para cinco mil pessoas...


É preciso coenvolver para promover . Efetivamente, assim procedeu Jesus com a mulher samaritana (cf. Jo 4, 1-30). O Senhor aproxima-Se, escuta-a, fala-lhe ao coração, para então a guiar até à verdade e torná-la anunciadora da boa nova: «Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz! Não será Ele o Messias?» (4, 29). Por vezes, o ímpeto de servir os outros impede-nos de ver a sua riqueza íntima. Se queremos verdadeiramente promover as pessoas a quem oferecemos ajuda, devemos coenvolvê-las e torná-las protagonistas da sua promoção. A pandemia recordou-nos como é essencial a corresponsabilidade, pois só foi possível enfrentar a crise com a contribuição de todos, mesmo de categorias frequentemente subestimadas. Devemos «encontrar a coragem de abrir espaços onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade» (Francisco, Meditação na Praça de São Pedro , 27/III/2020). 


É necessário colaborar para construir . Isto mesmo recomenda o apóstolo Paulo à comunidade de Corinto: «Peço-vos, irmãos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que estejais todos de acordo e que não haja divisões entre vós; permanecei unidos num mesmo espírito e num  mesmo pensamento» ( 1 Cor 1, 10). A construção do Reino de Deus é um compromisso comum a todos os cristãos e, para isso, é necessário que aprendamos a colaborar, sem nos deixarmos tentar por invejas, discórdias e divisões. No contexto atual, não posso deixar de reiterar que «este não é tempo para egoísmos, pois o desafio que enfrentamos nos une a todos e não faz distinção de pessoas» (Francisco, Mensagem Urbi et Orbi , 12/IV/2020). Para salvaguardar a Casa Comum e torná-la cada vez mais parecida com o plano original de Deus, devemos empenhar-nos em garantir a cooperação internacional, a solidariedade global e o compromisso local, sem deixar ninguém de fora. 


Quero concluir com uma oração inspirada no exemplo de São José, particularmente quando foi forçado a fugir para o Egito a fim de salvar o Menino:

«Pai, confiastes a São José o que tínheis de mais precioso: o Menino Jesus e sua mãe, para os proteger de perigos e ameaças dos malvados. 
Concedei-nos, também a nós, a graça de experimentar a sua proteção e ajuda. Tendo ele provado o sofrimento de quem foge por causa do ódio dos poderosos, fazei que possa confortar e proteger todos os irmãos e irmãs que, forçados por guerras, pobreza e carências, deixam a sua casa e a sua terra a fim de se lançarem ao caminho como refugiados rumo a lugares mais seguros.
Ajudai-os, pela sua intercessão, a terem força para prosseguir, conforto na tristeza, coragem na provação.
Dai a quem os recebe um pouco da ternura deste pai justo e sábio, que amou Jesus como um verdadeiro filho e amparou Maria ao longo do caminho.
Ele, que ganhou o pão com o trabalho das suas mãos, possa prover àqueles a quem a vida tudo levou, dando-lhes a dignidade dum trabalho e a serenidade duma casa.
Nós Vo-lo pedimos por Jesus Cristo, vosso Filho, que São José salvou fugindo para o Egito, e por intercessão da Virgem Maria, a quem ele amou como esposo fiel segundo a vossa vontade. Amen».


Roma, em São João de Latrão, na Memória de Nossa Senhora de Fátima, 13 de maio de 2020.