02 junho, 2020

O que é fascismo?

O que é fascismo?
O fascismo foi um movimento político que surgiu na Itália sob a liderança de Benito Mussolini, que assumiu o poder desse país a partir de 1922 com a Marcha sobre Roma.

fascismo é entendido por cientistas políticos e historiadores como a forma radical da expressão do espectro político da direita conservadora. No entanto, é importante dizer que nem toda política praticada pela direita conservadora é extremista como o fascismo. Essa ideia também vale para o espectro político da esquerda, uma vez que nem toda política praticada por ela é radicalizada como o que foi visto pelo stalinismo, o regime totalitário liderado por Josef Stalin, entre 1927 e 1953, na União Soviética.

Afinal, o que é fascismo?

fascismo é um conceito que gera muito debate por sua complexidade, já que é um movimento político que se adapta a diferentes circunstâncias e apropria-se de ideais de diferentes ideologias. De toda forma, o fascismo, enquanto movimento político e social, possui uma retórica populista que explora assuntos como a corrupção endêmica da nação, crises na economia ou “declínio dos valores tradicionais e morais” da sociedade. Além disso, defende que mudanças radicais no status quo (expressão em latim para referir-se ao “estado atual das coisas”) devem acontecer.

Uma vez que ocupa espaços de poder, o fascismo transforma-se em um regime extremamente autoritário, baseado na exclusão social, portanto, hierárquico e bastante elitista. O termo “fascismo” pode ser usado para referir-se:
1. Ao fascismo surgido na Itália e liderado por Benito Mussolini.
2. À expressão extrema do fascismo sob a ideologia nazista, desenvolvida por Adolf Hitler.
3. Aos regimes que surgiram durante o período entre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda inspirados ideologicamente no fascismo italiano, como foram os casos do salazarismo, em Portugal, do franquismo, na Espanha, do movimento Ustasha, na Croácia etc.

Características do fascismo
O fascismo clássico, forma como o fascismo italiano é conhecido entre os historiadores, possuía algumas características:
1. Implantação de um sistema unipartidário ou monopartidário, no qual apenas o próprio partido fascista tinha direito à atuação no sistema político nacional;
2. Culto ao chefe/líder como forma de colocá-lo como a única pessoa capaz de guiar a nação ao seu destino;
3. Desprezo pelos valores liberais, nos quais estão inclusas as liberdades individuais e a democracia representativa;
4. Desprezo por valores coletivistas, como o socialismo, comunismo e anarquismo;
5. Desejo de expansão imperialista baseada na ideia de domínio de povos mais fracos;
6. Vitimização de determinados grupos da sociedade ou de um povo com o objetivo de iniciar uma perseguição contra aqueles que eram vistos como “inimigos do povo”;
7. Uso da retórica contra os métodos políticos tradicionais afirmando que estes eran incapazes de combater as crises e de levar a nação à prosperidade;
8. Exaltação dos “valores tradicionais” em detrimento de valores considerados “modernos”;
9. Mobilização das massas;
10. Controle total do Estado fascista sobre assuntos relacionados à economia, política e cultura.

O que foi o fascismo italiano?
A expressão “fascismo” foi cunhada pelo italiano Benito Mussolini (1883-1945), que criou, em 1919, uma organização chamada Fasci Italiani di Combattimento. O termo “fasci”, que significa feixe, faz referência ao feixe de hastes de madeira com um machado no centro – símbolo da unidade do poder político na Roma Antiga.
Mussolini começou sua carreira política em um núcleo socialista italiano. O vínculo de Mussolini com o socialismo italiano foi interrompido em 1914 quando publicou em jornal socialista um artigo defendendo a participação da Itália na Primeira Guerra Mundial. Esse rompimento aconteceu porque os socialistas italianos eram radicalmente contra a entrada do país na guerra.

Mussolini, então, alinhou seu discurso político com o viés nacionalista italiano. Entre 1919 e 1920, o fortalecimento político de movimentos de orientação socialista levou classes conservadoras na Itália a alinharem-se com o fascismo italiano. O fascimo ganhou muita força nas regiões rurais do centro da Itália.
Nesse contexto, a partir da organização Fasci Italiani di Combattimento, surgiu o Partido Nacional Fascista. O grande objetivo era tomar o poder da Itália tanto por via eleitoral quanto por meio de atos violentos contra opositores. O uso da violência pelos fascistas, inclusive, chegou a ser elogiado por determinadas classes da sociedade italiana que viam a agressividade como uma forma de enfraquecer os socialistas.
Mussolini chegou ao poder em 1922 após membros do Partido Nacional Fascista realizarem a chamada Marcha sobre Roma. Essa marcha aconteceu no dia 28 de outubro de 1922. Nela, fascistas de toda a Itália marcharam em direção a Roma, capital do país, para pressionar o então rei, Vitor Emanuel III, a empossar Mussolini como seu chefe de Estado (ou primeiro-ministro). Muitos fascistas contaram com apoio governamental para chegarem à capital italiana.
O resultado da Marcha sobre Roma foi que o rei destituiu o primeiro-ministro empossado e convocou Benito Mussolini a formar a base do novo governo, agora sob o controle dos fascistas. Monarquistas e conservadores da direita comemoraram a posse de Mussolini, liberais aceitaram a situação, e socialistas opuseram-se, no entanto, não tiveram forças para controlar o crescimento do fascismo. Com o tempo, Mussolini conseguiu controlar todo o Estado italiano.
O Partido Nacional Fascista planejou um modelo de Estado forte, no qual o poder executivo fosse centralizado e a figura do líder, o duce (em italiano), incontestável. O culto à personalidade de Mussolini tornou-se uma das principais características do fascismo italiano. Essa veneração do chefe de Estado também se espalhou para outros países da Europa e para outros continentes nessa época.
Dessa inspiração, surgiram os movimentos que são conhecidos entre os historiadores (e já citados neste texto) como “fascismo espanhol”, no caso de Francisco Franco; “fascismo português”, no caso de Francisco Oliveira Salazar; e “fascismo alemão”, no caso do nazismo de Adolf Hitler.

Neofascimo
Atualmente, utiliza-se o termo “neofascista” como referência a regimes políticos que possuem características semelhantes às dos fascismos tradicionais (italiano, alemão, espanhol, português, etc), mas que possuem certas diferenças ideológicas. Essas diferenciações são decorrentes do contexto de desenvolvimento do neofascismo, que é completamente diferente do contexto dos fascismos do período entreguerras. O elo, portanto, é a aproximação ideológica entre o fascismo clássico e os neofascismos.
São características do “neofascismo”:
1. Chauvinismo: patriotismo exagerado que, muitas vezes, assume posturas violentas e xenófobas.
2. Desprezo pela democracia liberal: apesar disso, o neofascismo não constrói regimes extremamente fechados e totalitários como no caso do fascismo italiano. No neofascismo, podem ser construídos regimes com ar democrático, com eleições, inclusive. No entanto, a ação autoritária e doutrinadora do regime visa a manipular as massas como forma de atender aos interesses fascistas.
3. Medidas antipovo: a ideia de “inimigo externo” do fascismo transformou-se em “inimigo interno” no neofascismo. Assim, grupos internos podem ser encarados como inimigos, e medidas contra eles são tomadas como forma de combater-se a oposição política e o debate de ideias.

Resumo
fascismo foi um movimento que surgiu na Itália na década de 1910 e alcançou o poder desse país na década de 1920, mais precisamente em 1922. A ascensão do fascismo na Itália está diretamente relacionada com a crise econômica que o país viveu. Além disso, tem relação com a frustração italiana com a Primeira Guerra Mundial e com o temor da expansão do socialismo no país.
O líder do fascismo italiano foi Benito Mussolini, político que iniciou sua carreira em movimentos socialistas, mas que, ao longo da década de 1910, foi alinhando seu discurso a pautas nacionalistas que agradavam e aproximavam-no do conservadorismo italiano. Sua popularização foi decorrente do uso da violência para reprimir grupos socialistas.
O termo “fascismo” pode ser usado para referir-se, especificamente, ao fascismo italiano, mas historiadores estendem seu uso para outros regimes daquela época, como o nazismo alemão, a Ustasha croata, o franquismo espanhol, etc. Atualmente, também há utilização do termo “neofascismo” para referir-se a movimentos políticos hodiernos que possuem aproximações ideológicas com o fascismo.
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*Crédito da imagem: Everett Historical / Shutterstock
**Crédito da imagem: withGod / Shutterstock
***Crédito da imagem: Olga Popova / Shutterstock


Por Daniel Neves Silva (Historiador)
      Cláudio Fernandes (Mestre em História)

Fonte: Brasil Escola

Oração indígena do silêncio


Live CEBs do Basil


4ª Carta às Comunidades: As CEBs em tempos de pandemia da COVID-19


Rondonópolis/MT, 01 de junho de 2020 (em memória de São Justino).

Carta às Comunidades em tempo da pandemia de COVID-19

Estimadas comunidades eclesiais espalhadas e organizadas no Brasil e na América Latina!

“Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos debilitados. Dizei às pessoas deprimidas: Criai ânimo, não tenhais medo” (Is 35,3); “Eis que eu estou convosco todos os dias” (Mt 28,20); “Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder” (Ef 6:10); “Vigiai, permanecei firmes na fé, portai-vos corajosamente, sede fortes! Fazei tudo com grande amor fraternal” (1Cor 16,13 ). “Tudo posso naquele que me conforta” (Fp 4:13) com estas palavras de fé e de esperança o Secretariado do 15º Intereclesial e a Coordenação Nacional da CEBs saúdam todos os irmãos e irmãs de caminhada das CEBs, neste tempo de pandemia de COVID-19.

Comungamos do mesmo sentimento, das mesmas preocupações e das dores de quem perdeu um ente querido neste tempo que atravessamos.

Estamos em comunhão com o nosso Papa Francisco, que tem sido uma voz profética aos povos, governos, culturas e raças sobre o cuidado com a pessoa, acima de tudo. “A narrativa dos discípulos de Emaús, nos dá a certeza de que nas noites escuras da vida e da história, o Senhor permanece conosco, Ele caminha conosco” (Lc 24, 13-35) nos encoraja o Papa. Mantemos a comunhão com os Bispos do Brasil que nos animam ao nos dizer: “Este tempo grave de Pandemia fechou as portas de nossas igrejas, mas a Igreja não está fechada, ela continua alimentando seus filhos e filhas através da oração, da Palavra, das celebrações transmitidas pelas TVs Católicas, rádios e mídias sociais, continua assistindo aos pobres e mais necessitados pela caridade e criando redes de solidariedade”.

Certamente muitos olhares se voltam para a sua comunidade, o desejo de se encontrar com pessoas, de abraçar, de sorrir, de sentar juntos, de animar a comunidade, de promover a vida da comunidade, de visitar os idosos e necessitados. Porém, neste tempo estamos fazendo aprendizado de coisas que já estavam sendo esquecidas pela vida moderna, como a importância da “Igreja doméstica”, a leitura da Palavra de Deus, a oração em família, bem como o cuidado com as pessoas.

Nossa esperança é de que em breve nos veremos novamente em comunidade, mas não iguais como antes, mas, tanto as instituições como as pessoas devem voltar diferentes, com nova visão de vida, de cuidado, de fraternidade, de tolerância, de respeito ao outro e a nossa Casa Comum. É importante recordar que no mundo há muito sofrimento em decorrência do vírus; famílias enlutadas, fome, violência, desemprego e pobreza. Na comunidade são milhares de idosos, doentes, crianças, pobres que clamam pela presença dos cristãos, daí a importância da solidariedade, comunhão e de gestos concretos.

A comunidade é experiencial de vida. É um valor internalizado dentro de nós. Não são três ou cinco meses que vão tirar este valor dentro de nós, mas ao contrário, vivemos um tempo de fortalecer nossas convicções, de amor à comunidade, de desejo de se doar mais ainda, de criar esta prática de nossa fé: vida que brota das comunidades eclesiais de base.

Estamos iniciando o mês de junho, conhecido como mês dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, bondoso, acolhedor, aquele que diz: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28).

Esse é um tempo de olhar para dentro de si, rever posturas e convicções, mas tempo também de abrir o coração para as pessoas, a realidade em que vivemos e o cuidado com este planeta em que habitamos.

Seja você um apaixonado/a pela vida das comunidades. Irradie esperança, entusiasmo. Desperte desejo de retorno à comunidade, fortaleça-se na fé e na caridade. Utilize diariamente as Redes Sociais para animar a comunidade.

Com abraço fraterno!!!

Secretariado do 15º Intereclesial das CEBs
Coordenação da Ampliada Nacional das CEBs

01 junho, 2020

“A gente pede a Deus que a pandemia não chegue nas áreas indígenas, porque eles estão totalmente desassistidos”. Entrevista com Dom Edson Damian

Entrevista com Dom Edson Damian

Recebi Dom Edson Damian em minha casa no dia 15 de setembro de 2017. Na manhã deste dia, dele um e-mail "estou em Maringá podemos nos encontrar a tarde?". Conhece-lo foi maravilhoso. São Gabriel da Cachoeira onde ele atua como bispo, localizada no oeste do estado do Amazonas, na fronteira com Colômbia e Venezuela. As terras indígenas abrangem mais de oitenta por cento do território municipal. É um dos maiores municípios do Brasil. Diocese mais isolada, mais indígena e mais pobre do Brasil.

Segue a entrevista concedida a Luis Miguel Modino, publicado pelo IHU em 01/06/2020.

Foto em minha casa no dia da visita
Foto em minha casa no dia da visita


A situação da Amazônia diante da pandemia do COVID-19 está sendo motivo de preocupação para o mundo e para a Igreja. O Papa Francisco, no Regina Coeli da Solenidade de Pentecostes, invocava “o Espírito Santo para que dê luz e força à Igreja e à sociedade na Amazônia, duramente provada pela pandemia”. O Santo Padre afirmava que “muitos são os contagiados e os falecidos, inclusive entre os povos indígenas, particularmente vulneráveis”. Os números recolhidos pela REPAM, falam de 155.592 casos confirmados e 7.449 falecidos até 29 de maio, 1861 casos e 473 falecidos dentre os povos indígenas.

No Brasil, a diocese com a porcentagem mais elevada de indígenas, mais de 90%, é São Gabriel da Cachoeira. Seu bispo é Dom Edson Damian, que desde o início da pandemia tem se integrado no comitê local de enfrentamento e combate ao coronavírus, colocando a disposição diferentes espaços da diocese. Por enquanto, uma boa notícia é que a porcentagem de óbitos ainda não é muito elevada. Os casos, se concentram nas cidades de São Gabriel e Barcelos, enquanto as comunidades do interior estão se esforçando em controlar a pandemia.

Os povos indígenas podem ser considerados entre “os mais pobres e indefesos daquela querida região”, como tem falado neste 31 de maio o Papa Francisco, quem os encomendava a MariaMãe da Amazônia, fazendo um chamado para que “não falte a ninguém a assistência de saúde”. O próprio bispo reconhece sentir “medo diante de um vírus tão avassalador e que em pouco tempo se espalho no mundo inteiro”. Ele lembra do Papa Francisco, especialmente da oração que ele fez no dia 27 de março numa Praça São Pedro deserta, e também de “Charles de Foucauld, que é o homem da fraternidade universal”, que será canonizado nos próximos meses.

O bispo afirma que “há evidencias que o governo não está à altura de coordenar esta tarefa em meio a uma pandemia que está causando perdas de milhares de vidas humanas e grande sofrimento para as famílias”, lembrando as propostas muito urgentes feitas pelos bispos da Amazônia. Frente a essa falta de capacidade, Dom Edson Damian, destaca a necessidade de aprender com os povos indígenas, sempre “desprezados, descartados pela cultura ocidental, etnocêntrica e dominadora”.

É tempo de assumir a Evangelii Gaudium e a Laudato Si, segundo o bispo de São Gabriel da Cachoeira, de “nos perguntar o que é essencial que a Igreja retome”, ainda mais num Brasil onde “é coisa de doer o coração e partir a alma, as imensas desigualdades sociais deste país”. Ele resume a missão eclesial em “testemunhar com coragem e alegria Jesus Cristo, ligar o Evangelho com a vida, e engajar-se em todas as instituições e movimentos para defender os direitos humanos dos pobres e cuidar da nossa casa comum”.

Eis a entrevista.


Qual é a situação dos povos indígenas em São Gabriel da Cachoeira diante da pandemia de coronavírus?
Aqui há muitos casos de pessoas atingidas pela COVID-19, mais de 1.600 casos notificados aqui em São Gabriel e mais de 400 em Barcelos, mas o que surpreende é a relação entre a alta taxa de contaminados e o baixo número de óbitos, comparando com as outras regiões do nosso país. Foram até ontem 21 óbitos em São Gabriel e 13 em Barcelos. Por enquanto, nos assusta o número de pessoas contaminadas, mas os óbitos são poucos.
Qual a causa em relação com esse baixo número de óbitos? Existe subnotificação, como acontece em alguns lugares?
Um aumento no número das pessoas contaminadas está havendo na verdade aqui, e em relação aos mortos, até agora, que a gente saiba, foram apenas dois nas comunidades ribeirinhas distantes, porque eles quando a situação fica mais complicada, eles são trazidos de helicóptero ou de pequenos aviões até a cidade.
Como é que os povos indígenas estão reagindo?
No início houve um grande cuidado, aqui em São Gabriel, e foram tomadas boas medidas preventivas para impedir a chegada do vírus, foram suspensos todos os barcos e aviões que transportavam as pessoas de Manaus para a região, e também vigilância nas balsas que trazem alimentos e combustíveis. Mas algumas pessoas chegaram clandestinamente e não se submeteram ao isolamento. Os dois primeiros casos foram anunciados no dia 21 de abril, houve tristeza e indignação. Eu lembro que uns dias antes, a primeira vítima do coronavírus foi um taxista em Barcelos.
Na realidade das comunidades espalhadas ao longo do Rio Negro e seus afluentes houve poucos casos notificados, mas a gente teme que poderão aparecer mais, devido às aglomerações que aconteceram na cidade para receber o beneficio social dos 600,00 reais. Não havia distanciamento nas filas, ninguém de máscara, alguns poderiam ter contraído o vírus e poderão espalha-lo nas aldeias. Tudo é muito próximo e muito partilhado, e não usam máscaras os nossos indígenas.
Ainda ontem, o médico coordenador do DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) Alto Rio Negro, informou-nos que as comunidades estão se cuidando, não aceitando visita de pessoal de outras comunidades e principalmente de não índios. Algumas comunidades até colocaram placas lá, não estacione aqui, não pare aqui na comunidade. Nos polos base do DSEI tem presença permanente de equipes de enfermagem e médicos que passam temporariamente. Mas os nossos parentes indígenas, eles estão fazendo uso intensivo da medicina caseira, com ervas medicinais, e eles dizem que está impedindo a contaminação e, quem sabe, até a cura dos contaminados. Usam muito limão, gengibre, mangarataia, jambu, boldo, cidreira, alho, e outras plantas medicinais, sem esquecer os benzimentos dos pajés. Eu inclusive, estou usando essas medicinas caseiras e tomando muito chá.
São Gabriel tem organizado um comitê de crisis onde participa a diocese. Como esse comitê está ajudando no combate da COVID-19 na região?
Em São Gabriel tem o fórum interinstitucional, que congrega as principais instituições locais, que acostuma reunir-se para enfrentar problemas e buscar soluções conjuntas. Ele nasceu depois da morte do advogado Pedro Yamaguchi Ferreira. O pai dele, deputado federal, Paulo Teixeira, do PT de São Paulo, veio aqui e incentivou para que se formasse esse fórum interinstitucional. Se conseguiram bons projetos do governo federal. A partir desse nosso fórum surgiu o comitê de enfrentamento e combate ao coronavírus.
São realizadas reuniões quase que diárias na casa dos saberes da FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), onde a gente acompanha os dados da epidemia, o que cada instituição está fazendo e como pode colaborar. Desde o início a diocese participa, eu estou presente, e colocamos a disposição do DSEI a casa de encontros da diocese, situada a dois quilômetros da cidade, num espaço muito agradável e aprazível, para colocar as pessoas que precisam, justamente os indígenas afetados pelo vírus. Eles recebem acompanhamento médico e também medicinal.
Também, há poucos dias, colocamos a disposição um hospital que foi durante muito tempo administrado pelos salesianos e salesianas, e servia para outras finalidades. Agora está sendo transformado em hospital de campanha. Aqueles atingidos pelo vírus que estão precisando de cuidados especiais, eles saem da casa de encontros da diocese e vem para este local, que é do lado da diocese. Os que precisam de cuidados ainda maiores são levados para o hospital que é administrado pelo exército, com recursos federais, estaduais e municipais, onde existem 14 ventiladores e outros recursos para terapia semi-intensiva. Os doentes graves, em condições de serem transportados, são levados para UTIs em Manaus.
A boa notícia é que no dia 25 chegou uma equipe dos Médicos sem Fronteiras, que são um surpreendente presente de Deus. Eles já estavam ajudando em Manaus e escolheram dois municípios do interior do estado, São Gabriel e Tefé. Eles vão permanecer oito semanas para ajuda complementar daquilo que mencionei acima. São médicos, enfermeiros, e outras pessoas que ajudaram a enfrentar a COVID em outros países. Por tanto, são pessoas que já tem muita experiência no combate ao coronavírus, e também trarão medicamentos e outros materiais necessários. É uma equipe muito preparada, nos impressionou pela capacidade que eles têm, e certamente irão nos ajudar. Eles disseram que em 15 dias já terão montado esse hospital de campanha aqui no prédio da diocese.
Pessoalmente, como bispo da diocese, como está vivendo este momento, quais os sentimentos que tem presentes nas últimas semanas?
Quem não sente medo diante de um vírus tão avassalador e que em pouco tempo se espalho no mundo inteiro. Além do medo, o sentimento de vulnerabilidade, ninguém pode se sentir imunizado, pois não há vacinas e nem outro medicamento que tenha efeito imediato. Eu me senti muito solidário com o querido Papa Francisco durante a inesquecível oração que realizou ao entardecer do dia 27 de março, no deserto da Praça São Pedro, símbolo impressionante da nossa vulnerabilidade, da nossa precariedade.
Achei inesquecíveis as palavras que ele diz logo no início, “a semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento”. A seguir o Papa faz como que una análise da situação e ele compara a pandemia com as aberrações do nosso tempo. Como ele diz, “avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente”.
Junto com isso cresce no mudo inteiro, cresce em todos nós, a solidariedade, a fraternidade, a gente deve lembrar que somos uma mesma humanidade, que estamos todos no mesmo barco. Como é importante nesses dias a fraternidade universal. Há poucos dias, a gente recebeu com alegria a notícia da canonização de Charles de Foucauld, que é o homem da fraternidade universal. Só acharemos uma saída dessa situação todos juntos, e numa situação difícil, desesperada como a nossa, é importante saber que o Senhor Ressuscitado está conosco no barco, e que podemos nos agarrar e seguir em frente com a esperança que nunca decepciona.
Os bispos da Amazônia, a REPAM e as organizações indígenas, têm advertido sobre a possibilidade de uma tragédia humanitária e ambiental diante do COVID-19. Tendo em conta a situação vivida em São Gabriel da Cachoeira, o senhor pensa que é possível isso acontecer?
A gente pede a Deus que não aconteça, e pelo que a gente percebe por aqui, não há sinais de que algo mais grave possa acontecer. Estamos prevenidos para tudo, mas é importante a gente se dar conta de que os nossos povos indígenas tem baixíssima imunidade. Além disso, marcados por tantas doenças trazidas pelos não índios que vieram para cá. Eles estão fragilizados também pelas continuas malárias, dengues, e outras doenças tropicais. É por isso que a gente fica agradecido a Deus e pede que não chegue nas áreas indígenas, porque eles estão totalmente desassistidos.
Além disso, aqui em São Gabriel, uma população grande, com 45 mil habitantes, um hospital com 14 respiradores, mas nenhuma UTI. Nós esperamos agora, com os médicos sem fronteiras que chegaram, eles estarão aqui e agirão para nos ajudar nesse sentido também.
O que o senhor pediria como bispo de São Gabriel, também como presidente do Regional Norte1 da CNBB, ao governo federal, estadual, e também para a Igreja do Brasil, diante da realidade que está sendo vivida na Amazônia e na diocese?
A nossa Igreja da Pan-Amazônia já se manifestou, escrevemos juntos um documento. É claro que os documentos não repercutem muito neste momento, mas eu acho que aí está feito um análise da situação e aquilo que a Igreja pede, ali são feitas propostas muito urgentes. Eu ajudei a escrever em parte aquele documento, e naqueles itens finais, as propostas que a Igreja faz para o governo nas suas diferentes instituições, elas continuam atualíssimas.
Os bispos apresentamos 13 medidas urgentes, que partiam da necessidade de salvar vidas humanas e do fortalecimento de políticas públicas, em especial do Sistema Único de Saúde (SUS). Junto com isso repudiar discursos que desqualificam as estratégias científicas, restringir a entrada de pessoas em todos os territórios indígenas, realizar testagem na população indígena, fornecer os equipamentos de proteção individual e proteger os profissionais de saúde. Também garantir a segurança alimentar e fortalecer as medidas de fiscalização contra o desmatamento, mineração e garimpo, assim como garantir a participação nos espaços de deliberações políticas e rejeitar projetos governamentais que prejudicam a Amazônia e seus povos.
Além disso, nós estamos estarrecidos diante do governo federal, é impressionante diante da tragédia, que já levou quase trinta mil pessoas, e com imensos atingidos, e o nosso governo não se preocupa com isso, mas com outras coisas. Há evidencias que o governo não está à altura de coordenar esta tarefa em meio a uma pandemia que está causando perdas de milhares de vidas humanas e grande sofrimento para as famílias. É uma afronta para todos nós ver o presidente da República e seus ministros ameaçarem prender governadores e prefeitos porque não fazem aquilo que eles querem, prender os ministros do Supremo Tribunal, mostrar interesse em destruir as leis de proteção ambiental, destilaram ódio às populações indígenas, quilombolas. É hora de uma grande unidade de todos nós para salvar a democracia, salvar a Constituição, e gritar por uma saúde que esteja à altura de atender essas necessidades urgentíssimas do povo de todo o Brasil.
Acabamos de celebrar a  Semana Laudato Si, e o senhor sempre destacou a grande capacidade de preservação do meio ambiente que os povos do Rio Negro têm desenvolvido ao longo da história. Tem quem relaciona esta pandemia, e adverte sobre futuras pandemias ainda mais graves, com a falta de cuidado da casa comum. A Semana Laudato Si, o cuidado da casa comum, deve ser um motivo a mais para aprender com os povos indígenas no cuidado da casa comum?
Sem dúvida alguma, os povos indígenas, que vivem há milhares anos aqui na Amazônia, eles sabem conviver com o meio ambiente sem destruir, e além disso, é uma tristeza perceber que esses povos indígenas, que tem tanto a ensinar, eles sempre foram desprezados, descartados pela cultura ocidental, etnocêntrica e dominadora. É por isso que a Laudato Si, o Sínodo para a Amazônia e a exortação do PapaQuerida Amazônia, são importantíssimas, porque valorizam tudo aquilo que os índios já sabem e nos ensinam, valorizar essas culturas do bem viver. Com isso se reforça essa ideia da integralidade, onde recordamos as sábias palavras do Papa Francisco: “é uma ilusão pensar que numa sociedade doente, permaneceríamos saudáveis”.
Os índios nos ensinam essa vivência em harmonia com o todo, as plantas, os rios, os animais, os minerais, e é isso que torna possível uma vida saudável, seja física, seja psíquica, espiritualmente. Aprendemos com as comunidades indígenas que somos parte de um tudo, e não patrões de tudo o que existe, não superiores, mas guardiões, responsáveis pelo cuidado, pela continuidade da obra da Criação de Deus. Os povos indígenas são os guardiões da floresta, dizem que nesta região, aqui da bacia do Rio Negro, menos de 3% das florestas foram derrubadas, a floresta está de pé, e isso é uma lição para todo o Brasil.
Os cientistas nos advertem de que 17% da Amazônia já foi destruída, se chegar ao 20% a Amazônia não se refaz mais, e aí se instala um desequilíbrio que vai afetar o mundo inteiro. A começar que não existirão mais os rios voadores, que levam as chuvas para o Sudeste do Brasil, para o Cone Sul, serão os primeiros a sentir o drama da seca, da falta de água. Então, como é importante o que os nosso índios nos ensinam. As áreas da Amazônia melhor preservadas são aquelas que são as terras indígenas, tão ameaçadas agora por esse ministro do meio ambiente que quer, na calada da noite, aproveitando o drama do coronavírus, para passar muitas leis e possibilitar a invasão das terras indígenas.
De cara ao futuro, como sociedade, mas também como Igreja, o Papa Francisco nos chama a construir a sociedade e a Igreja da pós-pandemia. Segundo seu olhar, quais deveriam ser os elementos fundamentais para construir a sociedade e a Igreja da pós-pandemia?
Quando a tempestade da COVID-19 começar a refecer, nós devemos assumir com vigor os dois documentos proféticos do nosso querido Papa Francisco, a Evangelii Gaudium e a Laudato Si. O Papa nos aponta, nos indica, com uma clareza meridiana e evangélica, como deverá ser uma Igreja em saída, que também assume com uma coragem evangélica fomentar o cuidado da casa comum. Já começamos a nos perguntar o que é essencial que a Igreja retome, regenere, e permite que o Espírito de Pentecostes assuma como missão especial.
Se Cristo está caminhando conosco, e esta mesmo neste momento trágico, para onde Ele quer nos levar. O amor por Jesus, que só merece ser amado apaixonadamente, como nos dizia Charles de Foucauld, nos conduzirá sempre para amar e servir a todos, começando com o amor preferencial pelos pobres, pelos excluídos, nas periferias geográficas e existenciais. É a Igreja enlameada, que vai vir das periferias, onde estão os últimos, os esquecidos, os abandonados, aqueles que a gente descobriu com essa história dos 600,00 reais. Quantos milhões de brasileiros que nem certidão de nascimento têm, é coisa de doer o coração e partir a alma, as imensas desigualdades sociais deste país.
Além disso, a COVID confirma a Laudato Si, que reúne a espiritualidade de Francisco de Assis com a melhor ciência sobre o cuidado da nossa IrmãMãe Terra. Uma das características mais notáveis da Laudato Si é o diálogo com a ciência moderna. Desde o início, o cuidado pastoral do Papa Francisco com a pandemia, levou em consideração as recomendações dos cientistas, dos médicos especialistas. Por fim, o mundo pós COVID-19 exigirá que os católicos, todos nós, assumamos com responsabilidade a fé e a missão como discípulos missionários do Senhor Crucificado e Ressuscitado. Na Igreja e na sociedade, as comunidades cristãs missionárias deverão testemunhar com coragem e alegria Jesus Cristo, ligar o Evangelho com a vida, e engajar-se em todas as instituições e movimentos para defender os direitos humanos dos pobres e cuidar da nossa casa comum.

Prece

Prece: 

Rezemos juntos, “Aquilo que digo agora são pequenas palavras para ajudar a contemplar, em silêncio, este mistério. Naquele momento, Ela deu à luz a todos nós: deu à luz a Igreja. 'Mulher’ – diz-lhe o Filho – ‘eis os teus filhos’. Não diz ‘mãe’: diz ‘mulher’. Mulher forte, corajosa; mulher que estava ali para dizer: ‘Este é meu Filho: não O renego’”. Deixemo-nos tocar para “(...) que seja o Espírito Santo a dizer, a cada um de nós, aquilo de que nós precisamos". (Papa Francisco) 

Evangelho - Jo 19,25-27


1ª Segunda-Feira depois de Pentecostes Do Tempo Comum
Evangelho - Jo 19,25-27



Naquele tempo:
25Perto da cruz de Jesus, estavam de pé
a sua mãe, a irmã da sua mãe, Maria de Cléofas,
e Maria Madalena.
26Jesus, ao ver sua mãe
e, ao lado dela, o discípulo que ele amava,
disse à mãe:
"Mulher, este é o teu filho".
27Depois disse ao discípulo:
"Esta é a tua mãe".
Daquela hora em diante,
o discípulo a acolheu consigo.
Palavra da Salvação.

31 maio, 2020

“Não consigo respirar”

"Não consigo respirar”

É preciso respeito, conhecimento e valorização da história, cultura e experiências das diversidades das populações: negra, quilombola, indígena, cigana, do campo, lésbica, gay, bissexual, travesti e transexual.

Não deixemos que roube o direito de respirar em um mundo racista, “não consigo respirar” isso dói em mim e precisa doer em você.

Celebramos hoje Pentecostes, é sopro, sopro da vida, sopro que tem nos levar a movimentar-se, a indignar-se, a gritar diante das injustiças, porque é sopro de Deus.

Não existe direitos iguais no mundo capitalista, não somos todos iguais em direitos e deveres, não existe oportunidade para tod@s, não vivemos numa sociedade livre de preconceito em relação diversidade de povos e culturas.

O negro asfixiado por policiais nos EUA ele clamou “Não me mate”, não foi ouvido, “não consigo respirar”, e são muitas as pessoas totalmente inocentes que tem suas vidas ceifadas. Triste.

Sequência - Solenidade de Pentecostes: Sete Dons do Espírito Santo

Sequência

Espírito de Deus,
enviai dos céus
um raio de luz!

Vinde, Pai dos pobres,
dai aos corações
vossos sete dons.

Consolo que acalma,
hóspede da alma,
doce alívio, vinde!

No labor descanso,
na aflição remanso,
no calor aragem.

Enchei, luz bendita,
chama que crepita,
o íntimo de nós!

Sem a luz que acode,
nada o homem pode,
nenhum bem há nele.

Ao sujo lavai,
ao seco regai,
curai o doente.

Dobrai o que é duro,
guiai no escuro,
o frio aquecei.

Dai à vossa Igreja,
que espera e deseja,
vossos sete dons.

Dai em prêmio ao forte
uma santa morte,
alegria eterna.
Amém.

30 maio, 2020

Prece

Rezemos juntos "Precisamos que o Espírito Santo nos dê olhos novos, abra a nossa mente e o nosso coração para enfrentar o momento presente e o futuro com a lição aprendida: somos uma só humanidade. Ninguém se salva sozinho. Ninguém." (Papa Francisco)

Produção de Mudas | Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis

29 maio, 2020

Formação para membros da articulação de CEBs da Diocese de Crato

Diocese de Crato – NE 1

Promove mais uma encontro de formação para membros da articulação de CEBs da Diocese de Crato. Objetivando esperançar a caminhada nesse tempo de isolamento social. Mas pondo a Igreja – casa doméstica em comunhão, celebração e participação.

Acontecerá nessa terça – 02 de junho 2020 / 19hs, tendo como assessora Solange Rodrigues – Iser / direto do Rio de Janeiro, via-online.


Ameaças e oportunidades da Igreja católica no Brasil nos próximos 5 anos...

28 maio, 2020

Carta aberta à Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil

"A fé cristã, com todos os problemas históricos que não se pode negar, sempre teve o carisma da unidade, do diálogo, da paz e da solidariedade. Então, uma humilde sugestão para a nossa realidade brasileira, que pode ser exemplo para o mundo: a CNBB, através de sua presidência, poderia ser a mediadora de um grande debate virtual para garantir a democracia", escreve Celso Pinto Carias, doutor em Teologia pela PUC-Rio, assessor das CEBs do Brasil e do Setor CEBs da Comissão Pastoral Episcopal para o Laicato da CNBB e, nas palavras do autor, "um mendigo de Deus".

Eis a carta.

“Como sou pouco e sei pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando por inteiro”
(Ariano Suassuna)

No dia seguinte a exibição da reunião ministerial liberada pelo ministro do Supremo Celso de Melo, um padre muito meu amigo fez um pedido inusitado: fazer uma nota pedindo que a CNBB se pronunciasse a respeito. Respondi dizendo que não estava muito inspirado, pois me sentia navegando em um barco à vela, sem vento, sem bússola e em uma noite sem estrelas. E certamente, a CNBB não faria tal nota. Mas este padre é um santo homem, e aí resolvi escrever esta carta aberta. Não sei se vai ao encontro do amigo. Mas vou tentar.

Mais algumas coisas, além da santidade do padre, motivaram-me. Lembrei-me de um filme que eu e família assistimos na semana passada: “A menina que roubava livros”. Em uma cena na qual um judeu está sendo levado pelos nazistas, conhecido dos moradores da localidade de longa data, e um personagem vai ao encontro da polícia dizer que o judeu era um bom homem. É empurrado e bate com a cabeça no chão. Em casa a menina pergunta: “Por que eles fizeram isto com o senhor?” Resposta: “Minha ação tentou mostrar a humanidade deles, e neste momento eles odeiam isso”. A outra foi o término da homilia de domingo passado (24/05) do padre que acompanha a Comunidade que participo (Batismo do Senhor) em Duque de Caxias, RJ (Estamos fazendo orações simultâneas duas vezes por dia pelo Whatsapp e domingo comungamos da Palavra, claro em nossas casas. O padre faz uma breve homilia). No final ele disse: “Jesus é a nossa humanidade junto de Deus”. E ainda encontrei a frase do Suassuna no facebook de um amigo.

Ora, em que uma cartinha “mixuruca” poderia alterar neste quadro um tanto quanto desolador? Não sei. Mas sei que não quero sentir minha humanidade se esvaindo, e como seguidor de Jesus Cristo gostaria, pela mediação Dele, sentir minha humanidade junto de Deus. E aí, resolvi dizer algumas palavras.

Na Conferência de Aparecida, em 2007, os bispos da América Latina e do Caribe já observaram que estamos diante de uma grave crise. Crise que vem se aprofundando, e em vários níveis: social, político, econômico e cultural. E agora, diante de tal crise, aparece a pandemia pelo coronavírus. E se a covid-19, doença provocada pelo vírus, parasse de matar agora, já teria causado uma das mais violentas tragédias dos últimos tempos. Muitos podem perguntar: “E daí? Vamos rezar pelo fim da crise e da pandemia e pronto”. Porém, não posso me conformar com isso. A oração é antes mais nada um ato de comunhão com Deus, e não um balcão de negócios.

Não posso me conformar que uma primeira iniciativa, logo no início do isolamento, de algumas dioceses, tenha sido organizar como o dízimo seria pago. Evidentemente sei da necessidade da manutenção. Sei também, principalmente, que graças a Deus, muitas iniciativas de solidariedade surgiram e continuam a acontecer. Mas a situação é muito grave. Grave porque há uma crise que ultrapassa uma doença virótica altamente perigosa. E por favor, quem diz não é um modesto teólogo da Baixada Fluminense, mas a grande maioria dos infectologistas e centros de pesquisa do mundo, das mais diversas concepções ideológicas.

Muita dificuldade para entender como setores que se afirma cristãos, com um legado cultural que fez surgir de Agostinho a Teilhard de Chardin, homens e mulheres inspirados pelo Caminho de Jesus, com enorme capacidade de diálogo com a realidade da vida, possa reduzir a análise do que está acontecendo pelo víeis moral e com concepções ideológicas de baixíssimo valor intelectual. Não é possível, repito, não é possível, que depois de tantas figuras emblemáticas na realidade cultural, ainda haja cristãos e cristãs que se colocam do lado da mais absurda ignorância.

Bem antes da pandemia, quando algumas revelações começaram a aparecer quanto ao governo atual, um bispo me disse: “Tudo bem, o importante é que tiramos a esquerda”. Depois da queda do Muro de Berlim, o que é esquerda e direita? Diria o meu mestre na arte de refletir teologia: “O dualismo antropológico platônico continua forte, gordo e corado”. O bem e o mal, anjos e demônios, fé e vida, e por aí vai. Um maniqueísmo que parece não cessar nunca. É difícil compreender que Deus criou a vida por inteiro? Que não há competição entre corpo e alma? Que é uma unidade?

Não se trata de defender governo “A” ou atacar governo “B”. Não se trata de “torcer” para dar certo ou errado, como se estivéssemos em um torneio de política. A realidade política, social e econômica é bem mais complexa que uma partida de futebol. “Ah, tá bom, a reunião foi ridícula, mas é melhor defender a família, Deus, etc. do que aqueles ladrões e aborteiros esquerdistas”. Custo a acreditar que pessoas com formação filosófica e teológica façam análises tão rasteiras.

Pergunto-me, apenas pergunto, se por trás de desculpas tão grosseiras não estaria uma perspectiva de manutenção de privilégios. Rotula-se determinados conceitos como demoníacos e aí nenhum debate prospera. Cultiva-se ódio, prega-se violência, apoiam-se em fundamentalismos bíblicos que estão superados faz décadas, para iludir um povo muito religioso e que sempre sofreu sob o impacto da injustiça. Recordam que havia teologia para justificar a escravidão? Alguém é capaz de negar?

Irmãos e irmãs. A situação é dramática. Sabe-se que já havia uma crise econômica que espreitava o planeta. A pandemia certamente será uma grande justificativa para aprofundar ainda mais dores e sofrimentos ao povo. E todos nós que trabalhamos com o simbólico não podemos ser instrumentalizados pelo poder da acumulação, mas devemos estar a serviço do outro e da outra. Devemos lavar os pés uns dos outros. Ou achamos que o serviço foi só um teatro de Jesus de Nazaré? “Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus” (Fl 2,5).

Assim sendo, somos interpelados, em profunda comunhão com o Pai, por meio de Jesus Cristo, em unidade com o Espírito Santo, a agir como homens e mulheres que acreditam no Amor de Deus. Nestes dias o Evangelho de João tem nos alertado que poderemos sofrer tribulações. Mas vamos nos omitir?

Durante a pandemia devemos escutar a voz de quem estuda com profundidade tal situação. Podem errar? Naturalmente. Mas na dúvida não ultrapasse. Por que pressa em abrir as igrejas? Parecemos àqueles setores que acreditam ser a economia mais importante que a vida. E o Papa Francisco já alertou: “Esta economia mata” (EG). A pandemia nos alerta para reconstruir o caminho espiritual de nossa fé que pode estar centrada em prédios e não na Comunidade propriamente. Que pode estar centrada em vaidades pessoais na lógica do sucesso midiático. Voltemos a sinodalidade da origem de nossa fé. Mais do que nunca é preciso caminhar juntos.

A fé cristã, com todos os problemas históricos que não se pode negar, sempre teve o carisma da unidade, do diálogo, da paz e da solidariedade. Então, uma humilde sugestão para a nossa realidade brasileira, que pode ser exemplo para o mundo: a CNBB, através de sua presidência, poderia ser a mediadora de um grande debate virtual para garantir a democracia. A Igreja sozinha não consegue. Sozinho ninguém consegue. Mas podemos tentar unir todos os setores sociais que acreditam que os direitos humanos são valores fundamentais desenvolvidos pelo mundo moderno, e não uma ONG para defender bandidos.

Pelo amor de Deus. Não existe intervenção militar democrática. Sabemos que a democracia não é perfeita. Aliás, a democracia representativa já deu sinais claros de esgotamento. Precisamos caminhar para uma democracia participativa. Mas como diria Winston Churchil: “A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras”. Não deixemos que a institucionalidade cristã, mas uma vez, precise no futuro explicar por que se deixou envolver com o que tem de pior na sociedade. Que um futuro papa não tenha que repetir o grandioso gesto de São João Paulo II em pedir perdão por erros que foram cometidos nos passado.

Sejamos capazes de nutrir aquela esperança apocalíptica dos primeiros tempos: “Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e ele, Deus-com-eles, será o seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!” (Ap 21, 3-4).
Nota do autor

Pela Graça de Deus sou doutor em Teologia pela PUC-Rio. Consegui até publicar livros. Hoje, além de professor na PUC, sou assessor das CEBs do Brasil e do Setor CEBs da Comissão Pastoral Episcopal para o Laicato da CNBB. Mas gosto de me apresentar como “mendigo de Deus”, expressão que encontrei em livro de teologia para designar o trabalho teológico: um pedinte diante de Deus. Que Ele tenha misericórdia do nosso Brasil, sobretudo dos excluídos morrendo de covid-19 e familiares recebendo o atestado de óbito como Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) sem ter o luto respeitado.

Fonte: IHU