21 agosto, 2026

Um grande passado pela frente


Olá, em mais uma eleição polarizada, a bola de cristal da esquerda e da direita continua sendo o espelho retrovisor.

.Naftalina. Se depender dos lançamentos oficiais das candidaturas presidenciais, ninguém deve esperar grandes novidades na terceira eleição disputada entre petistas e bolsonaristas. Ao invés de propostas para o futuro, tanto Lula quanto Flávio apostam no passado. De volta ao berço do PT e de sua própria trajetória, Lula conseguiu emular o famoso comício da Vila Euclides, relembrou sua história política e marcos de seus governos, apostando na nostalgia como valor, como se viu também no seu primeiro vídeo de campanha. A estratégia parte da ideia de que a juventude não conheceu ou não reconhece as políticas dos governos petistas como conquistas, mas também aposta num setor do eleitorado que nunca foi tão numeroso, os 60 +, onde Lula tem superado os adversários. Tanto que eles foram citados no discurso, assim como as mulheres - outro fiel da balança - e devem ganhar destaque nos programas de governo. Por sua parte, Flávio repete o passado para tentar convencer o eleitor de que ele é o pai. Os bolsonaristas partiram do seu berço eleitoral, Copacabana, e Flávio pretendia ir no dia seguinte para Juiz de Fora, palco da facada de 2018. O discurso de lançamento repetiu o mote Deus, Pátria e Família, e o discurso antipetista, que no fim das contas é o que dá liga à extrema-direita. Além disso, não se pode esperar novidades nos programas de governo. Lula deixou de fora a possibilidade de Tarifa Zero e reforçou políticas que não conseguiu implementar neste mandato, como a criação do Ministério da Segurança Pública. Já Flávio, repetiu as promessas do bolsonarismo de limitar a ação do STF e requentou os símbolos de Milei, como a motosserra, para propor um Estado mínimo. Mas os contrastes dos programas não estão só nas propostas. A palavra “educação” é citada 42 vezes no programa de Lula e apenas 9 no de Bolsonaro. A palavra mais repetida no programa petista é “cultura”, 86 vezes, e no programa bolsonarista são “facções criminosas” e “segurança”, 9 vezes, seguida por “agronegócio”, com 7 menções. Porém, talvez não sejam só os candidatos que estão presos ao passado, mas também os eleitores. A pesquisa Quaest continua demonstrando a polarização do eleitorado: Lula vence no nordeste, entre as mulheres, católicos, pretos e pardos e até 2 salários mínimos; Flávio vence no sul e sudeste, brancos, evangélicos e acima de 2 salários. Para Alon Feuerwerker, a polarização é ainda mais simples: é basicamente entre quem acha que o Estado deve aumentar impostos sobre os ricos para garantir o bem-estar social da maioria e quem acha que o Estado não funciona e não deve se meter na economia e na sociedade.

.Heranças malditas. O tom consevador das eleições também é reflexo do perfil dos candidatos: será a eleição menos concorrida desde 2010, com candidatos em média mais velhos e mais ricos que nas anteriores, enquanto o PT sai enfraquecido, com o menor número de candidaturas desde as eleições de 1994. O sentimento de volta ao passado é fruto, ainda, das dificuldades de superar velhos problemas. Por mais que Lula sonhe em elevar o debate, o tiroteio em torno da corrupção deve prevalecer tanto porque a direita achou o escândalo de Lulinha para explorar - turbinado pela mídia - quanto porque o envolvimento de Flávio com Vorcaro não pode ser ignorado. Outro problema antigo é a questão ambiental. Há 20 anos, a descoberta do pré-sal embalou o sonho de um Brasil próspero, autônomo e ambientalmente sustentável regado a royalties de petróleo. Agora, a descoberta de reservas na margem equatorial deve ser explorada pela campanha petista como um novo “passaporte para o futuro”, com poucas preocupações sérias com o meio ambiente. Mas, a verdade é que o fim da “taxa das blusinhas” hoje dá mais votos que a preservação de florestas e rios. O principal avanço em relação ao passado nessas eleições parece ser mesmo a retomada do discurso da soberania, mas, nesse caso, a pauta não tem a ver com o petróleo e sim com a agressividade de Washington na área comercial. Por isso, Lula - o presidente e o candidato - seguirá buscando o diálogo como solução, mas também denunciando nos fóruns internacionais a conduta imperialista de Trump e a tentativa de ingerência nas eleições brasileiras. Mas a pior contradição da esquerda está dentro de casa e é a relação de amor e ódio com o centrão. O silêncio da campanha petista sobre o clientelismo e o fisiologismo regado a emendas parlamentares se explica pelo pragmatismo da própria eleição, já que todos dependem dos “currais” eleitorais controlados pelos caciques do centrão. Além disso, o Planalto conta com a boa vontade dos presidentes da Câmara e do Senado para manter acesa a esperança de fazer andar o fim da jornada 6X1.

.Ponto Final: nossas recomendações.

.A reprimarização do Brasil e a possível virada. Marcio Pochmann reflete sobre as quatro décadas de financeirização e as oportunidades da conjuntura atual. No Outras Palavras.

.Mineradoras estrangeiras detêm 4 a cada 10 projetos de terras raras no país. O Repórter Brasil mapeia os investimentos em terras raras no Brasil.

.Super-ricos do Brasil pagaram só 4,6% de Imposto de Renda em 2023, contra 27,5% da classe média. Relatório da Oxfam mostra a realidade regressiva do sistema tributário brasileiro. No Brasil de Fato.

.A promessa de ‘legado da COP30’ em Belém começa com um data center sem licença ambiental. O BEL1 avança sem respostas sobre licenciamento, consumo de energia e impacto ambiental e social. No Intercept.

.Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil. A Pública mapeia quem são e o que propõem os candidatos policiais e militares.

.A poesia encarnada de Pedro Casaldáliga. Maria Salete Magnoni analisa a poesia do bispo que enfrentou a ditadura e os ruralistas do Araguaia. No Outras Palavras.

.O que significa ser socialista nos EUA hoje? Na Pública, James Green analisa o avanço e os limites do socialismo democrático no centro do imperialismo global.

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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

Mensagem para o XI Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação

Na mensagem para o XI Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, celebrado em 1º/09, Leão XIV alerta para as feridas provocadas pelas guerras e pela degradação ambiental e recorda que a construção da paz exige uma conversão pessoal e coletiva. “As verdadeiras ferramentas para construir a paz não são as armas de destruição, mas sim a verdade, o diálogo, a paciência, a bondade, a justiça, a misericórdia, a compreensão, o cuidado e o amor.”




MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIV

PARA O XI DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO
PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO 2026

1º de setembro de 2026

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“Transformarão as suas espadas em relhas de arados e as suas lanças em foices” (Isaías 2, 4)


Queridos irmãos e irmãs,

Nosso Senhor Jesus Cristo veio para que tenhamos vida e a tenhamos em abundância (cf. Jo 10, 10). Este dom da vida está no cerne da nossa missão como discípulos e do chamamento comum para construir uma civilização do amor. Ao celebrarmos este Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, somos mais uma vez convidados a contemplar o dom da vida e a valorizar a terra que a sustenta, pois estas são formas concretas de louvar o nosso Criador.

Hoje, testemunhamos muitas crises e muito sofrimento humano. Parece, ao mesmo tempo, que a perturbação do equilíbrio harmonioso da criação está a acelerar. Estes fenómenos não deixam de estar relacionados: constituem um único apelo à cura e à paz, proveniente dum mundo ferido.

O Deus da vida, revelado em Jesus Cristo, oferece uma paz que o mundo não pode dar: «Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz» (Jo 14, 27). Esta paz não é superficial nem efémera, mas brota do amor perene de Cristo e do seu cuidado por cada pessoa humana.

No entanto, esta promessa de paz contrasta fortemente com as realidades que observamos em muitas partes do mundo. O profeta Isaías falou de um tempo em que as nações «transformarão as suas espadas em relhas de arados» (Is 2, 4), mudando aquilo que destrói a vida naquilo que a sustenta. Hoje, porém, testemunhamos com demasiada frequência exatamente o contrário, já que os esforços continuam a ser direcionados para a violência e a guerra.

A guerra deixa feridas que vão muito além do campo de batalha. Ela ceifa vidas, separa famílias e obriga milhões de pessoas a fugir para longe dos seus lares, aumentando assim o medo, a injustiça e a divisão (cf. Gaudium et Spes, 77-82). A guerra deixa também para trás uma destruição social e ecológica que perdura por gerações. Além disso, a interação entre os conflitos armados e a degradação ambiental cria frequentemente um ciclo vicioso, que destrói ecossistemas, contamina recursos essenciais, como o ar e a água, e compromete a segurança alimentar. Isto faz crescer a pobreza, a desigualdade e novas tensões sociais que podem contribuir para o surgimento de mais conflitos.

Mais ainda, a guerra cria feridas que danificam todo o tecido da vida, prejudicando não só as pessoas e as comunidades, mas também a sua rede mais ampla de relações com a inteira família humana e a sua harmonia com a criação. Isso revela uma incapacidade ainda maior de viver à imagem e semelhança de Deus, de respeitar a vida e de cuidar da terra que nos foi confiada. Não se trata apenas dum fracasso político, mas também moral e espiritual. Enraizada em desejos distorcidos e no uso indevido da liberdade e do poder humanos, a guerra apresenta-se como um contratestemunho do Evangelho da paz.

As crises mencionadas acima exigem não só responsabilidade, mas também uma conversão do coração que dê fruto numa maior fidelidade a Deus, no amor mútuo e no respeito pelo dom da criação. Realmente, as discórdias que vemos no mundo, como a violência, a injustiça e a degradação ecológica, não são simplesmente o resultado de sistemas ou estruturas insuficientes, mas estão ligadas «com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem» (Gaudium et Spes, 10). Na verdade, o coração humano é o lugar onde acontecem as lutas fundamentais e onde a nossa condição decaída se revela. Não é meramente a sede das emoções, mas o centro da pessoa: o lugar onde convergem razão, desejo, vontade e consciência. É aqui que lutamos com desejos contraditórios que existem dentro de nós entre amor e indiferença, verdade e ilusão, justiça e injustiça (cf. Tg 1, 14–15). As feridas da guerra e a degradação da terra estão, portanto, intimamente ligadas à condição do coração humano. Os conflitos que atormentam a humanidade são, em muitos aspectos, a expressão exterior da discórdia e da divisão interiores. Quando o coração está deformado, as relações sofrem e as estruturas que construímos começam a refletir essa desordem.

O Papa Bento XVI recordou-nos que «os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque os desertos interiores tornaram-se tão amplos» (Homilia na Santa Missa para o início do ministério petrino do Bispo de Roma, 24 de abril de 2005). Isto convida-nos a reconhecer que, de certa forma, o que está quebrado à nossa volta também está quebrado dentro de nós. Portanto, para construir uma sociedade pacífica não devemos apenas reformar as estruturas, mas também renovar os nossos corações. As causas profundas dos conflitos e da exploração da criação têm origem numa crise ética e cultural, que inclui a perda do sentido dos limites, a vontade de domínio, a busca do lucro imediato e a incapacidade de reconhecer a dignidade, concedida por Deus a cada pessoa humana.

O apelo profético a «transformar as espadas em relhas de arados» (Is 2, 4) não é simplesmente um ideal para as nações, mas um chamamento individual, que nos convida a transformar o mal em vida. Esta transformação, todavia, não pode ser alcançada por meio de mudanças apenas exteriores. Ela exige, em colaboração com a graça de Deus, uma conversão pessoal e coletiva mais radical: um regresso a Deus, que reordenará os nossos desejos, curará as nossas feridas e nos ajudará a crescer na virtude.

Sem esta transformação interior, a paz continuará a ser frágil e de curta duração. Mas, onde os corações se renovam, começam a abrir-se novas possibilidades. O que tem sido utilizado para a destruição pode ser redirecionado para a vida, para o cuidado dos pobres, para a alimentação dos famintos e para a salvaguarda da criação. Este é o caminho da autêntica conversão ecológica, onde os efeitos do nosso encontro com Jesus Cristo se tornam evidentes na nossa relação com o mundo que nos rodeia (cf. Francisco, Laudato Si’, 217). A paz, então, começa no coração e flui para as nossas relações, comunidades e para o mundo inteiro.

Embora os desafios que temos pela frente sejam enormes, Deus não nos deixa sem os meios para a cura e a transformação. Em vez das armas de guerra, o Deus da paz concede-nos a força para curar, reconciliar e construir uma civilização do amor. Desta forma, somos chamados a salvaguardar os muitos “ecossistemas” que nos foram confiados: os ecossistemas da criação, das relações humanas e do próprio coração humano.

Imaginemos um mundo em que as energias atualmente investidas na guerra fossem canalizadas para o desenvolvimento humano integral, a superação da pobreza, a proteção da dignidade humana e a reconciliação entre os povos. Tal visão reflete a fé na vinda do Reino de Deus.

As verdadeiras ferramentas para construir a paz não são as armas de destruição, mas sim a verdade, o diálogo, a paciência, a bondade, a justiça, a misericórdia, a compreensão, o cuidado e o amor. Estas qualidades brotam de corações moldados pelo Evangelho e sustentados pela graça de Deus. Só estas qualidades possuem o poder de transformar os indivíduos, renovar as comunidades e curar as feridas do nosso mundo.

Queridos irmãos e irmãs, o caminho que temos pela frente é claro, embora não seja fácil. Somos chamados a deixar que os nossos corações sejam renovados, para que possamos procurar a paz e cuidar da criação. A Escritura diz-nos para guardarmos os nossos corações, pois tudo o que fazemos brota deles (cf. Pr 4, 23).

Se assumirmos esta tarefa com humildade e fé, tornar-nos-emos colaboradores na obra divina de renovação. Lenta, mas certamente, passaremos do deserto ao jardim, da divisão à comunhão e da violência à paz.

Que o Senhor nos conceda a coragem de percorrer este caminho, para que, no nosso tempo, as espadas sejam verdadeiramente transformadas em relhas de arados, a promessa do Evangelho se enraíze mais profundamente no nosso mundo e a paz de Cristo reine sobre toda a criação.

Vaticano, 15 de agosto de 2026, Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria.


LEÃO PP. XIV