09 julho, 2020

Sobre a Fé

SOBRE A FÉ 

1. A luz da fé é a expressão com que a tradição da Igreja designou o grande dom trazido por Jesus. Eis como Ele Se nos apresenta, no Evangelho de João: « Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em Mim não fique nas trevas » (Jo 12, 46). E São Paulo exprime-se nestes termos: « Porque o Deus que disse: "das trevas brilhe a luz", foi quem brilhou nos nossos corações » (2 Cor 4, 6). No mundo pagão, com fome de luz, tinha-se desenvolvido o culto do deus Sol, Sol invictus, invocado na sua aurora. Embora o sol renascesse cada dia, facilmente se percebia que era incapaz de irradiar a sua luz sobre toda a existência do homem. De facto, o sol não ilumina toda a realidade, sendo os seus raios incapazes de chegar até às sombras da morte, onde a vista humana se fecha para a sua luz. Aliás « nunca se viu ninguém — afirma o mártir São Justino — pronto a morrer pela sua fé no sol ».[1] Conscientes do amplo horizonte que a fé lhes abria, os cristãos chamaram a Cristo o verdadeiro Sol, « cujos raios dão a vida ».[2] A Marta, em lágrimas pela morte do irmão Lázaro, Jesus diz-lhe: « Eu não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus? » (Jo 11, 40). Quem acredita, vê; vê com uma luz que ilumina todo o percurso da estrada, porque nos vem de Cristo ressuscitado, estrela da manhã que não tem ocaso. 

Uma luz ilusória? 

2. E contudo podemos ouvir a objecção que se levanta de muitos dos nossos contemporâneos, quando se lhes fala desta luz da fé. Nos tempos modernos, pensou-se que tal luz poderia ter sido suficiente para as sociedades antigas, mas não servia para os novos tempos, para o homem tornado adulto, orgulhoso da sua razão, desejoso de explorar de forma nova o futuro. Nesta perspectiva, a fé aparecia como uma luz ilusória, que impedia o homem de cultivar a ousadia do saber. O jovem Nietzsche convidava a irmã Elisabeth a arriscar, percorrendo vias novas (…), na incerteza de proceder de forma autónoma ». E acrescentava: « Neste ponto, separam-se os caminhos da humanidade: se queres alcançar a paz da alma e a felicidade, contenta-te com a fé; mas, se queres ser uma discípula da verdade, então investiga ». [3] O crer opor-se-ia ao indagar. Partindo daqui, Nietzsche desenvolverá a sua crítica ao cristianismo por ter diminuído o alcance da existência humana, espoliando a vida de novidade e aventura. Neste caso, a fé seria uma espécie de ilusão de luz, que impede o nosso caminho de homens livres rumo ao amanhã. 

3. Por este caminho, a fé acabou por ser associada com a escuridão. E, a fim de conviver com a luz da razão, pensou-se na possibilidade de a conservar, de lhe encontrar um espaço: o espaço para a fé abria-se onde a razão não podia iluminar, onde o homem já não podia ter certezas. Deste modo, a fé foi entendida como um salto no vazio, que fazemos por falta de luz e impelidos por um sentimento cego, ou como uma luz subjectiva, talvez capaz de aquecer o coração e consolar pessoalmente, mas impossível de ser proposta aos outros como luz objectiva e comum para iluminar o caminho. Entretanto, pouco a pouco, foi-se vendo que a luz da razão autónoma não consegue iluminar suficientemente o futuro; este, no fim de contas, permanece na sua obscuridade e deixa o homem no temor do desconhecido. E, assim, o homem renunciou à busca de uma luz grande, de uma verdade grande, para se contentar com pequenas luzes que iluminam por breves instantes, mas são incapazes de desvendar a estrada. Quando falta a luz, tudo se torna confuso: é impossível distinguir o bem do mal, diferenciar a estrada que conduz à meta daquela que nos faz girar repetidamente em círculo, sem direcção. 

Uma luz a redescobrir 

4. Por isso, urge recuperar o carácter de luz que é próprio da fé, pois, quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor. De facto, a luz da fé possui um carácter singular, sendo capaz de iluminar toda a existência do homem. Ora, para que uma luz seja tão poderosa, não pode dimanar de nós mesmos; tem de vir de uma fonte mais originária, deve porvir em última análise de Deus. A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo. Por um lado, provém do passado: é a luz duma memória basilar — a da vida de Jesus –, onde o seu amor se manifestou plenamente fiável, capaz de vencer a morte. Mas, por outro lado e ao mesmo tempo, dado que Cristo ressuscitou e nos atrai de além da morte, a fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso « eu » isolado abrindo-o à amplitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas trevas. Dante, na Divina Comédia, depois de ter confessado diante de São Pedro a sua fé, descreve-a como uma « centelha / que se expande depois em viva chama / e, como estrela no céu, em mim cintila ». [4] É precisamente desta luz da fé que quero falar, desejando que cresça a fim de iluminar o presente até se tornar estrela que mostra os horizontes do nosso caminho, num tempo em que o homem vive particularmente carecido de luz. 

5. Antes da sua paixão, o Senhor assegurava a Pedro: « Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça » (Lc 22, 32). Depois pediu-lhe para « confirmar os irmãos » na mesma fé. Consciente da tarefa confiada ao Sucessor de Pedro, Bento XVI quis proclamar este Ano da Fé, um tempo de graça que nos tem ajudado a sentir a grande alegria de crer, a reavivar a percepção da amplitude de horizontes que a fé descerra, para a confessar na sua unidade e integridade, fiéis à memória do Senhor, sustentados pela sua presença e pela acção do Espírito Santo. A convicção duma fé que faz grande e plena a vida, centrada em Cristo e na força da sua graça, animava a missão dos primeiros cristãos. Nas Actas dos Mártires, lemos este diálogo entre o prefeito romano Rústico e o cristão Hierax: « Onde estão os teus pais? » — perguntava o juiz ao mártir; este respondeu: « O nosso verdadeiro pai é Cristo, e nossa mãe a fé n’Ele ».[5] Para aqueles cristãos, a fé, enquanto encontro com o Deus vivo que Se manifestou em Cristo, era uma « mãe », porque os fazia vir à luz, gerava neles a vida divina, uma nova experiência, uma visão luminosa da existência, pela qual estavam prontos a dar testemunho público até ao fim. 

6. O Ano da Fé teve início no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II. Esta coincidência permite-nos ver que o mesmo foi um Concílio sobre a fé, [6] por nos ter convidado a repor, no centro da nossa vida eclesial e pessoal, o primado de Deus em Cristo. Na verdade, a Igreja nunca dá por descontada a fé, pois sabe que este dom de Deus deve ser nutrido e revigorado sem cessar para continuar a orientar o caminho dela. O Concílio Vaticano II fez brilhar a fé no âmbito da experiência humana, percorrendo assim os caminhos do homem contemporâneo. Desta forma, se viu como a fé enriquece a existência humana em todas as suas dimensões. 

7. Estas considerações sobre a fé — em continuidade com tudo o que o magistério da Igreja pronunciou acerca desta virtude teologal [7] — pretendem juntar-se a tudo aquilo que Bento XVI escreveu nas cartas encíclicas sobre a caridade e a esperança. Ele já tinha quase concluído um primeiro esboço desta carta encíclica sobre a fé. Estou-lhe profundamente agradecido e, na fraternidade de Cristo, assumo o seu precioso trabalho, limitando-me a acrescentar ao texto qualquer nova contribuição. De facto, o Sucessor de Pedro, ontem, hoje e amanhã, sempre está chamado a « confirmar os irmãos » no tesouro incomensurável da fé que Deus dá a cada homem como luz para o seu caminho. 

Na fé, dom de Deus e virtude sobrenatural por Ele infundida, reconhecemos que um grande Amor nos foi oferecido, que uma Palavra estupenda nos foi dirigida: acolhendo esta Palavra que é Jesus Cristo — Palavra encarnada –, o Espírito Santo transforma-nos, ilumina o caminho do futuro e faz crescer em nós as asas da esperança para o percorrermos com alegria. Fé, esperança e caridade constituem, numa interligação admirável, o dinamismo da vida cristã rumo à plena comunhão com Deus. Mas, como é este caminho que a fé desvenda diante de nós? Donde provém a sua luz, tão poderosa que permite iluminar o caminho duma vida bem sucedida e fecunda, cheia de fruto? 
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ARTA ENCÍCLICA LUMEN FIDEI 
DO SUMO PONTÍFICE FRANCISCO 

É por isso que eu digo na angústia

"É por isso que eu digo na angústia:
«Quem me dera ter asas de pomba
e voar para achar um descanso!
Fugiria, então, para longe,
e me iria esconder no deserto.
Acharia depressa um refúgio
contra o vento, a procela, o tufão»."

Salmo 54

Ó meu Deus, escutai minha prece,
não fujais desta minha oração,
Dignai-vos me ouvir, respondei-me:

a angústia me faz delirar!
Ao clamor do inimigo estremeço,
e ao grito dos ímpios eu tremo.
Sobre mim muitos males derramam,
contra mim furiosos investem.

Meu coração dentro de mim se angustia,
e os terrores da morte me abatem;
o temor e o tremor me penetram,
o pavor me envolve e deprime!

É por isso que eu digo na angústia:
"Quem me dera ter asas de pomba
e voar para achar um descanso!
Fugiria, então, para longe,
e me iria esconder no deserto.
Acharia depressa um refúgio
contra o vento, a procela, o tufão".

Ó Senhor, confundi as más línguas;
dispersai-as, porque na cidade
só se vê violência e discórdia!

Dia e noite circundam seus muros,
dentro dela há maldades e crimes,
a injustiça, a opressão moram nela!
Violência, imposturas e fraudes
já não deixam suas ruas e praças.

Se o inimigo viesse insultar-me,
poderia aceitar certamente;
se contra mim investisse o inimigo,
poderia, talvez, esconder-me.

Mas és tu, companheiro e amigo,
tu, meu íntimo e meu familiar,
com quem tive agradável convívio
com o povo, indo à casa de Deus!

Eu, porém, clamo a Deus em meu pranto,_
e o Senhor me haverá de salvar!
Desde a tarde, à manhã, ao meio-dia,
faço ouvir meu lamento e gemido.

O Senhor há de ouvir minha voz,
libertando a minh'alma na paz,
derrotando os meus agressores,
porque muitos estão contra mim!

Deus me ouve e haverá de humilhá-los,
porque é Rei e Senhor desde sempre.
Para os ímpios não há conversão,
pois não temem a Deus, o Senhor.

Erguem a mão contra os próprios amigos,
violando os seus compromissos;
sua boca está cheia de unção,
mas o seu coração traz a guerra;
suas palavras mais brandas que o óleo,
na verdade, porém, são punhais.

Lança sobre o Senhor teus cuidados,
porque ele há de ser teu sustento,
e jamais ele irá permitir
que o justo para sempre vacile!

Vós, porém, ó Senhor os lançais
no abismo e na cova da morte.
Assassinos e homens de fraude
não verão a metade da vida.
Quanto a mim, ó Senhor, ao contrário:
ponho em vós toda a minha esperança!

08 julho, 2020

Rezemos juntos


Rezemos juntos
Para que Deus nos conceda a graça de não nos tornarmos insensíveis ao “encontro com o outro” que é “um encontro com Cristo”. A graça de reconhecermos Jesus nos estrangeiros, pobres, doentes e descartados da sociedade.

Papa: inimaginável o inferno vivido pelos migrantes nos campos de detenção


Na missa de aniversário dos 7 anos da histórica visita de Francisco a Lampedusa, o Pontífice ressaltou que conhecemos uma "versão destilada" do que acontece nos campos de detenção na Líbia. O Papa também alertou novamente para a “globalização da indiferença”, “um pecado” dos cristãos de hoje, que nos torna insensíveis ao “encontro com o outro” que também é “um encontro com Cristo”. O convite à conversão - de reconhecer Jesus nos estrangeiros, pobres e doentes -, foi renovado pelo Pontífice na missa desta quarta-feira (8), na Casa Santa Marta.
Leia a matéria AQUI

07 julho, 2020

Projeto "Caminhos de santidade: a vida dos santos” Beato Bento XI

Sou quem viu a dor de perto! A dor e o silêncio a partir das Lamentações



Sou quem viu a dor de perto! A dor e o silêncio a partir das Lamentações

Por Rafael Rodrigues da Silva*

O Livro das Lamentações é um pequeno livreto de salmos e orações do povo que expressa a dor que sentiram diante da invasão do império babilônico que arrasou a cidade, matou muita gente, violentou mulheres e crianças e saqueou as riquezas da cidade.

Os Salmos de Súplica mostram a situação difícil e grave que uma pessoa ou comunidade está vivendo. O pedinte diante dos conflitos e tensões suplica para que Deus possa ouvi-lo. Seja o grito de um doente que pede a Deus a cura (Sl 6; 38) ou do justo que é injustamente caluniado e perseguido (Sl 7) ou que Deus não esqueça dos pobres no julgamento (Sl 10). Assim poderíamos percorrer todos salmos de súplica e perceber que as orações de lamento têm várias maneiras de apresentar as queixas diante de Deus (“Javé, escuta minhas palavras, leva em conta o meu gemido. Ouve atento meu grito por socorro…” – Sl 5).

No Livro das Lamentações encontramos uma mistura entre cantos fúnebres, lamentos individuais e coletivos. É um livro que gira em torno da situação de cerco, cativeiro, fome e destruição da cidade através da ação dos babilônicos (597-587 a.E.C.). Ali aparecem os lamentos em tom coletivo nos capítulos 1-2 e 4-5 e o grande lamento individual do capítulo 3, que está no centro do livro. Valeria a pena ler atentamente estas orações e perceber as marcas de opressão, os resultados do processo de desumanização e os sinais de resistência do povo. Os gritos e o silêncio pela dor de muita gente ecoam nestes cantos e revelam em cada linha o sangue derramado, a luta pela vida e a teimosia da esperança.

No Livro das Lamentações ecoa o silêncio de Deus diante do grito e da dor do povo. Por que está acontecendo tudo isto? Quais as causas? De quem é a culpa? Onde está Deus? Tudo aconteceu porque pecamos? E por aí seguem as interrogações que estão no silêncio e no grito do povo. Quando começam a juntar as incertezas e inquietações, abre-se um espaço fundamental tanto para ecoar a dor e sofrimento, quanto para descrever os instrumentos de opressão e de desumanização presentes por trás de cada lágrima e cada grito.

A terceira lamentação começa com esta afirmação: “Eu sou aquele que viu a dor de perto!” Este “ver” implica em olhar com atenção, ouvir, sentir e experienciar a dor. Certamente esta frase que abre o lamento quer provocar uma pergunta em meio ao silêncio: “qual foi a for que você viu?”

Eu vi muita gente gemendo com fome e na busca por pão (1,11); crianças pedindo comida e ninguém lhes dava nada (4,4); outras crianças morrendo no colo de suas mães (2,12); muitas crianças e bebês desfalecendo pelas ruas  (2,11); muita gente arriscando a vida para trazer alimento para casa (5,9) e os anciãos e lideranças foram mortos enquanto buscavam por comida (1,19); muita gente tentando desfazer de objetos para aplacar a fome em meio aos ataques (1,11). Nossa pele queima como forno, torturada pela fome (5,10).

Eu vi o povo pagando pela água para beber e pela lenha (5,4) e o sentimento de todos de que era melhor morrer pela espada do invasor do que morrer lentamente de fome (4,9).

Eu vi as mulheres sendo violentadas e as jovens sendo abusadas (5,11); os velhos sendo desrespeitados (5,12.14); os jovens sem alegria e obrigados aos trabalhos forçados (5,13.15). A morte reinava dentro e fora de casa (1,20; 2,20).

Eu vi muita tristeza e a cidade estava em completo luto e pranto (1,4), onde os jovens não cantavam mais (1,4; 5,14), os velhos não se reuniam nas portas (5,14), as festas se transformaram em lamentos (5,15) e as jovens não dançavam por causa da tristeza (1,4; 2,10). Acabou a alegria e não há consolo diante de muita dor (1,2.9.16; 2,13; 5,15).

Eu vi a opressão e a exploração, onde os jovens foram deportados e outros obrigados aos trabalhados forçados (1,18; 5,13). Não há quem nos livre e o jugo chegou ao nosso pescoço (4,17; 5,5). O povo esgotado pela opressão e sem descanso (1,3; 5,5).

No Livro das Lamentações ecoa a resistência e a luta do povo oprimido. Em cada canto da cidade e em cada canto do país começa um mo(vi)mento que lembra, recorda, recolhe histórias e experiências, resiste, protesta e teimosamente “esperançam” Recriam a vida a partir do grito e do silêncio. Na escuridão lembram uma antiga profecia: “O povo que era andava nas trevas viu uma grande luz, e uma luz brilhou para os que habitavam uma terra tenebrosa. Multiplicaste sua alegria, aumentaste seu prazer. Vão alegrar-se diante de ti, como na alegria da colheita, como no prazer dos que repartem despojos de guerra. Porque como no dia de Madiã, quebraste a canga de suas cargas, a vara que batia em suas costas e o bastão do capataz de trabalhos forçados. Porque toda bota que pisa com barulho e toda capa empapada de sangue serão queimadas, devoradas pelas chamas. Pois criança nasceu para nós, filho foi dado para nós” (Is 9,1-5a).

Este momento novo de recriar a vida e de esperançar tem seu pontapé inicial no arriscar a vida pela vida (“Arriscamos a própria vida pelo pão” – Lm 5,9) e sua força na confiança do Deus da vida que escuta seus gritos, choros e silêncios. Em meio a tamanha dor era preciso desconstruir a necroteologia do “abandono de Deus” e do “castigo pelo pecado”. Ah! Teologia da escuridão que justificava tudo e determinava que o povo oprimido era o único culpado e responsável por sua dor e sofrimento.  Esta teologia descreva que a situação do povo empobrecido e oprimido era resultado do castigo de Deus. A cidade solitária e banhada em lágrimas, foi castigada/desolada/afligida por Javé (1,4.5.12; 3,32), que do céu  jogou um fogo e armou um laço contra a cidade(1,13). Tornou as culpas do povo um fardo e entregou-os nas mãos dos invasores (1,14), dispersou todos os fortes e pisou na cidade como pisa a uva no lagar (1,15) e ordenou que os opressores atacassem (1,17). Em sua ira, Javé escureceu o templo (2,1), arrasou sem piedade todas as moradas e em seu furor, destruiu as fortalezas (2,2), cortou o poder de Israel e cruzou os braços (2,3). Javé concluiu seu ódio e derramou sua ira (4,11), os espalhou e não cuida mais deles (4,16).

Desconstruir esta visão de um Deus que despreza, abandona. castiga e destrói, o povo oprimido e machucado não foi tarefa fácil. Aparece neste pequeno livro de cantos de lamento a dimensão da confiança em Deus: que Javé possa olhar para o sofrimento (1,9), “Olha, Javé, e presta atenção: como estou rebaixada!” (1,11), Javé é justo (1,18). A terceira lamentação que faz um contraponto entre um Deus surdo diante das súplicas (3,8) e as lembranças que transmitem esperança (3,21): a solidariedade e a compaixão de Javé (3,22 e 32 – práticas fundamentais na defesa e caminhada dos profetas, especialmente na profecia de Oséias). O canto reconhece que a força destas ações de Javé está na fidelidade, pois “Javé é bom para os que nele esperam e o procuram” (3,25). Bom aguardar em silêncio (3,26), porque Javé não rejeita para sempre (3,31).

A confiança e certeza da solidariedade e compaixão de Deus, tem reforço nestas duas estrofes do canto:

“Do fundo da fossa, invoquei teu nome, ó Javé.

Ouve minha voz, não feches o ouvido ao meu apelo.

Tu vieste na hora em que eu chamei, e respondeste: Não tenha medo.

Tu te encarregaste de defender a minha causa e resgatar minha vida.

Tu viste, Javé, que sofro injustiça: julga minha causa.

Viste a vingança deles contra mim.” (3,55-60)



A certeza maior que o povo tem é que Javé permanece para sempre e que se renova a aliança: “faze que voltemos para ti, Javé, e voltaremos; renova os tempos passados” (ver 5,19-22).

Portanto, no Livro das Lamentações o silêncio pela dor se transforma em resistência e faz da teimosia da esperança qual flor sem defesa, bonita e nascida em terra seca sem adubo”. Do silêncio, do grito e da dor brota uma flor que na teimosia aponta que Deus escuta os clamores do povo, enxuga as lágrimas, é solidário e faz justiça.

O povo desde o cativeiro transmitiu seus cantos e o silêncio pela dor. Canto que fortalece a resistência e a luta.  Canto que descreve a dor que viram e vivenciaram naqueles dias terríveis do ano de 587 a.E.C.  E recebemos deste povo uma pergunta: Qual a dor que vocês estão vendo no Brasil nestes dias da Covid-19 no ano de 2020?

Reflitam e demonstrem para tantos irmãos e irmãs a dor que vocês estão vendo.

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*Diretor Nacional do CEBI, assessor bíblico e professor.

Fonte: CEBI

05 julho, 2020

Empresa destrói lavoura do MST destinada a doação de alimentos na pandemia

Aconteceu na sexta-feira, nos fundões do Brasil, lá onde a vida pulsa e a solidariedade move o trabalho de trabalhadores rurais, no acampamento Valdair Roque, de Quinta do Sol, no Paraná, que plantam hortaliças para doar a famílias carentes durante a pandemia. 

Logo cedo, Victor Vicari Rezende, um dos proprietários da área, que pertencente à Usina Sabarálcool, acompanhado de 14 homens, alguns encapuzados, e de dois tratores, deu a ordem para a destruição das lavouras em fase de colheita plantadas por 50 famílias do Movimento Sem Terra (MST). 

No mesmo dia, a Horta Comunitária Antonio Tavares, das comunidades Terra Livre e Mãe dos Pobres, doaram 1500 quilos de alimentos orgânicos a...continue lendo...

Projeto "Caminhos de santidade: a vida dos santos” Santo Antônio Maria Z...

Ampliada das CEBs Regional Sul 2 realiza reunião on line

“Assim, justificados pela fé, estamos em paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. (...) E a esperança não engana, pois o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. ” Romanos 5, 1 ss.


A Ampliada das CEBs Regional Sul 2 esteve reunida no dia 04 de julho para encaminhamentos e reflexões necessárias nesse tempo de conjuntura complexa, agravado pela pandemia. Pela impossibilidade de deslocamento e cuidado com a vida, o encontro aconteceu virtualmente contando com a presença da maioria das dioceses paranaenses. Dom Manoel, referencial das CEBs Sul 2 participou no primeiro momento, em razão de compromisso previamente agendado.


Dentre os pontos de pauta tratados destacamos a leitura da Carta Consulta enviada pelo Secretariado do 15º Intereclesial acerca de mudança de data do encontro, em razão das dificuldades e impedimentos apresentados por esse contexto de pandemia que tem assolado as comunidades. Por unanimidade as CEBs do Regional Sul 2 aceitou a data proposta: 18 a 22 de julho de 2023, ressaltando a pertinência dos aspectos apresentados para que a mudança ocorra. 

Ficou também decidido ações de comunicação, animação e formação, visto que a realidade atual apresenta-se como oportuna para que se possa apropriar dos meios de comunicação e tecnologias, usando-as em favor da organização, formação e animação das comunidades. Um projeto será implementado para que se possa produzir, lives, rodas de conversa e material escrito, abordando os temas da Campanha da Fraternidade e do Intereclesial, fazendo um link com o contexto da/pós pandemia, trazendo luzes e esperança para nossas gentes. 

Também foram pensadas possibilidades e datas prováveis para a realização do 8º Intereclesial do Paraná, que não pode ser realizado em abril desse ano em razão das medidas de isolamento social. 

As dioceses presentes partilharam as dores e resistências vivenciadas nesse tempo, deixando claro o papel das lideranças em manter acesa nas comunidades e nas pessoas a chama da Esperança, fundada na Palavra de Deus, na Partilha e na busca da Justiça. 

As CEBs do Regional Sul 2 demonstrou alegria pela vinda de Dom Severino para a Arquidiocese de Maringá, o que por certo nos fortalecerá nessa caminhada, em sintonia com o Evangelho de Jesus de Nazaré e com as propostas do Papa Francisco para sermos “igreja em saída”, no cuidado da casa comum e especialmente junto aos que sofrem. Bem Vindo Dom Severino! 

Em sintonia com a humanidade que vive as dores desse momento de doença, morte, incerteza e descaso com a vida, agravado por governantes e autoridades indiferentes a dor do povo, a Ampliada das CEBs do Regional Sul 2 pediu a Nossa Senhora proteção, rezando a Oração Maria da Pandemia de Roberto Malvezzi, rogando que o Magnificat se faça e que os oprimidos sejam libertados, pela Palavra, pela fé e resistência esperançosa de povo de Deus. 

Oração MARIA DA PANDEMIA Roberto Malvezzi (Gogó) 
Maria da Pandemia, 
Rogai pelos que estão entubados nos hospitais, 
Buscando um pouco de ar para sobreviver, 
Agonizando e morrendo na solidão. 
Rogai por seus familiares e amigos, 
Nessa hora de angústia, 
Quando a dor é maior. E a esperança menor. 
Rogai pelos médicos, enfermeiras, 
Profissionais da limpeza, religiosos, 
Todos os que cuidam dos contaminados. 
Livrai-nos da indiferença e dos indiferentes, 
Dos adoradores da morte, 
Dos que celebram as desgraças alheias, 
Dos que deveriam ser os primeiros em responsabilidade 
E se colocam de forma fria e sórdida diante desses tormentos. 
Rogai para que Deus ilumine os cientistas, 
Que seja encontrado rapidamente um caminho 
Para neutralizar a ação do vírus. 
Quando tudo passar, 
Que o ar permaneça limpo, 
Que as águas permaneçam puras, 
Que as florestas permaneçam em pé, 
Que nossas ruas tenham o silêncio da paz, 
Que nosso céu permaneça azul 
Que todas as formas de vida continuem celebrando sua liberdade 
Que a humanidade aprenda que a Terra não é lugar só da humanidade. 
Que todos vivemos em uma Casa Comum Amém!

Texto: Leoni Alves Garcia - Comunicação das CEBs Regional Sul 2

03 julho, 2020

Silenciar!

Silenciar para compreender a si mesmo e aos outros. E também silenciar para levar os outros a te compreender...

Caetano Veloso - Terceira Margem do Rio

Reflexão sobre Maria Madalena, texto de Mercedes Lopes


Leia a reflexão sobre Maria Madalena, texto de Mercedes Lopes.
(CEBI – Boletim Por Trás da Palavra n. 143, 2004, p. 17-21)

Normalmente, quando se pergunta a uma pessoa quem foi Maria Madalena, ela responde quase sem pensar: uma pecadora arrependida. No entanto, nenhum texto dos evangelhos diz que Maria Madalena foi pecadora pública. Que dizem os evangelhos sobre ela?
Nos evangelhos, Maria Madalena é a mulher mais citada pelo nome. Além disso, ela aparece sempre realizando funções muito importantes para as origens do Cristianismo:
  • Como discípula de Jesus (Lc 8,1-3);
  • Como testemunha da sua crucifixão (Mc 15,40-41; Mt 27,55-56; Lc 23,49; Jo 19,25);
  • Como testemunha do seu sepultamento (Mc 15,47; Mt 27,61);
  • Como testemunha da sua ressurreição (Mc 16,1-8; Mt 28,1-10; Lc 24,1-10; Jo 20,1;20,1 1-8);
  • Como enviada aos Onze com uma mensagem de Jesus (Mt 28,10; Jo 20,17-18).
Chama a atenção o fato de Maria Madalena ser citada em primeiro lugar em todos estes textos. A única exceção é Jo 19,25, onde a mãe de Jesus aparece em primeiro lugar. A citação de Maria Madalena em primeiro lugar parece indicar sua liderança no grupo das discípulas de Jesus. Além disso, o Evangelho de Marcos deixa claro que ela e suas companheiras eram modelo para as pessoas da comunidade que buscavam seguir Jesus: Elas o seguiam e serviam quando estava na Galileia. E ainda muitas outras que subiram com ele para Jerusalém (Mc 15,40-41). Sabemos que o serviço amoroso é uma das características que marcava a identidade dos discípulos e discípulas de Jesus, segundo a comunidade de João: Vocês devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei o exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz (Jo 13,14-15). Na comunidade de Marcos, a pessoa mais importante é aquela que se coloca a serviço de todos (Mc 9,35). Então, como foi que transformaram a discípula modelo em pecadora arrependida?
Que horror, ela tinha sete demônios!
Teriam interpretado mal a expressão Maria Madalena, da qual haviam saído sete demônios? (Lc 8,2). Esta expressão, que aparece somente em Lucas e no apêndice de Marcos (Mc 16,9), criou uma série de preconceitos contra Maria Madalena. Mas para o Evangelho de Lucas, a possessão não significa pecado e, sim, doença. O número 7, sempre simbólico, parece indicar a gravidade da situação. Dentro do contexto de Lucas, podemos interpretar que Maria Madalena padecia de uma grave doença nervosa ou psicossomática. No encontro com Jesus, ela recupera a harmonia interior e entra em um processo de crescimento e amadurecimento pessoal, até atingir a plenitude do seu ser na experiência pascal.
Seu gesto era de arrependimento e muito amor 
Teriam confundido Maria Madalena com a pecadora anônima que lavou os pés de Jesus com suas lágrimas e os secou com seus cabelos? (Lc 7,36-50). Porém, não há neste texto de Lucas nenhuma relação entre a moça do perfume e Maria Madalena. Segundo o texto de Marcos, que já citamos, Maria Madalena seguia Jesus desde a Galileia. Portanto, ela devia ser conhecida na tradição por seu nome: Maria, e sua procedência: Magdala. A mulher que é apresentada neste texto de Lc 7,37 parece que não pertencia à comunidade dos discípulos e discípulas. É uma mulher marginalizada, anônima, corajosa e decidida, que toma a iniciativa de entrar na casa de Simão, o fariseu, e fazer com Jesus o rito de acolhida que seu anfitrião havia omitido. Rito que era muito importante para as pessoas que percorriam longas distâncias a pé, pelas estradas poeirentas da Palestina.
Quanta confusão! 
E a confusão continua, pois aquela mulher anônima do episódio narrado por Lc 7,36-50 passou a ser identificada com as mulheres anônimas que ungiram Jesus para a sepultura (Mc 14,3-9 e Mt 26,6-13). Uma leitura atenta destes textos vai mostrar que os ritos que realizam são diferentes. No texto de Lucas, o próprio narrador trata de esclarecer que se trata de um rito de acolhida e coloca esta explicação no diálogo de Jesus com Simão. Nos Evangelhos de Marcos e de Mateus, o rito está situado no contexto da Páscoa. Marcos faz questão de informar que faltavam apenas dois dias para a Páscoa e os Ázimos (Mc 14,1). Mostra que o contexto era conflitivo, pois a execução de Jesus já estava decidida: os chefes dos sacerdotes e os fariseus apenas procuravam um ardil para matá-lo (Mc 14,1b). É justamente neste contexto que está a unção de Jesus, feita por uma mulher anônima (Mc 14,3-9). O texto de Marcos está muito próximo do texto de João 12,1-8. Tanto Marcos como João nos contam que o perfume derramado pela mulher no corpo de Jesus era nardo puro (Mc 14,3 e Jo 12,3). Marcos nos informa ainda que este episódio da unção para a sepultura se passou em Betânia (Mc 14,3). Tudo isso parece ligar os textos de Marcos, Mateus e João (Mc 14,3-9; Mt 26,6-13 e Jo 12,1-8) e ajuda a compreender a importância desde ritual. Sua protagonista parece ser Maria de Betânia, a irmã de Marta e de Lázaro. O gesto de unção de Jesus para a sepultura é ao mesmo tempo profético e solidário com seu projeto e sua entrega sem limites.
Mulher chorona, de cabelos compridos e perfumados 
A imagem de Maria Madalena está ligada a cabelos compridos, perfume e lágrimas. Sabemos que a tradição das lágrimas está relacionada à sua angustiosa busca do corpo de Jesus, naquela madrugada do primeiro dia da semana (Jo 20,1.11-18). Mas perfume e cabelos longos expressam a identificação de Maria Madalena com Maria de Betânia, a irmã de Marta, que segundo o Evangelho de João foi quem ungiu Jesus para o sepultamento (Jo 12,1-8). E aqui vale a pena falar um pouco mais de Maria de Betânia, a discípula que gostava de ficar sentada aos pés de Jesus, escutando-o (Lc 10,39). Discípula amada (Jo 11,5), que consegue encher a casa (comunidade) de perfume (Jo 12,3). Seu gesto amoroso será repetido por Jesus na celebração da Ceia (Jo 13,2-5). Segundo Jesus, em memória dela, seu gesto seria contado onde quer que fosse proclamado o Evangelho (Mc 14,9).
Ela foi investida de autoridade 
Maria permaneceu no jardim, procurando Jesus, depois que Pedro e o outro discípulo foram embora. Ela chorava angustiada e confundiu Jesus com o jardineiro. No entanto, ela o reconhece imediatamente quando Jesus a chama pelo nome. Em toda a Bíblia, chamar pelo nome faz parte dos relatos de missão. Às vezes, acontece mudar o nome, para indicar a missão que a pessoa vai realizar. Mas, em Jo 20,16, Jesus a chama pelo nome com que sempre a havia chamado – talvez do mesmo jeito e com o mesmo tom de voz. E provavelmente Maria responde também da maneira como sempre o tratou: Rabuni. Sem pretender ser fundamentalista, quero mostrar como neste relato simbólico se revela a importância da missão de Maria Madalena nas primeiras comunidades cristãs: Maria é chamada pelo nome; reconhece imediatamente a voz de Jesus; chama-o de Mestre em aramaico; depois, é enviada por Jesus com uma mensagem para os outros discípulos. Da maneira como este episódio é descrito, parece um evento de fundação, no qual Maria Madalena foi investida de autoridade.
De onde vem a confusão?
Esta confusão a respeito de Maria Madalena pode ter muitas causas. Uma delas pode ser uma leitura muito rápida dos textos bíblicos, ou mesmo um exemplo da pouca importância que se dá à memória do discipulado das mulheres. Até pode ser que a intenção tenha sido a de buscar na figura de Madalena como uma pecadora arrependida um apelo à conversão, mostrando como todos os pecados podem ser perdoados quando a pessoa se arrepende. No entanto, parece haver urna intenção menos explícita, parecida com estas propagandas que hoje se faz através das novelas. De maneira sutil, a deturpação da figura de Maria Madalena mantém uma velha atitude de suspeita em relação às mulheres, passando a ideia de que sua natureza e seus corpos são espaços perigosos, de possessão demoníaca, identificada com pecado. Os corpos inferiorizados e culpabilizados são mais facilmente submetidos.
Desta maneira, a discípula fiel, que acompanhou Jesus durante sua vida pública, a amiga e companheira que esteve presente na crucifixão e que permaneceu diante do túmulo; aquela que fez a maravilhosa experiência da ressurreição, podendo afirmar com toda a convicção Vi o Senhor!, foi transformada em pecadora arrependida. Mesmo que esta deturpação da figura de Maria Madalena não fosse muito consciente, ela é um desvelamento do medo que o androcentrismo tem de perder o poder. Se a tradição da discípula e apóstola permanecesse, haveria o perigo de que as mulheres descobrissem a sua importância nas origens do Cristianismo e se sentissem animadas a assumir com autoridade, dignidade e pleno direito seus espaços de reflexão, decisão e também no ministério ordenado das igrejas cristãs. Estariam lado a lado com os homens, mantendo a memória fiel de Jesus de Nazaré, fazendo circular o amor pleno e sem medo, exercendo o poder de defender e fortalecer a vida.
Fonte: CEBI

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