04 maio, 2020

Em nota, Bispos da Amazônia Brasileira exigem medidas urgentes dos governos para combater a Covid-19 na região


Em nota, Bispos da Amazônia Brasileira exigem medidas urgentes dos governos para combater a Covid-19 na região

Diante do cenário da pandemia de Covid-19 na Amazônia, 67 bispos que atuam na Amazônia Brasileira assinaram um nota pública divulgada na manhã desta segunda-feira (04). No texto, liderado pela Comissão Episcopal Especial para a Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil/CNBB, eles convocam a Igreja e toda a Sociedade para exigir medidas urgentes do Governo Federal, do Congresso Nacional, dos Governos Estaduais e das Assembleias Legislativas.

De acordo com os bispos, os dados do coronavírus na região são alarmantes. Eles lembram dos povos tradicionais, que exigem um maior cuidado e tratamento diferenciado, e também das populações urbanas, especialmente das pessoas que vivem nas periferias das grandes cidades. Na nota, eles afirmam que “a região possui a menor proporção de hospitais do país, de baixa e alta complexidades (apenas 10%)”, o que requer uma atuação urgente dos governos.

Ao final do texto, que foi traduzido para diferentes línguas, inclusive o Tukano (língua indígena), os bispos convocam toda a Igreja e a sociedade para exigirem 13 pontos aos governos, entre eles: “realizar testagem na população indígena para adotar as necessárias medidas de isolamento e evitar a disseminação da COVID-19; fortalecer as medidas de fiscalização contra o desmatamento, mineração e garimpo, sobretudo em terras indígenas e tradicionais e áreas de proteção ambiental; e revogar o Decreto nº 10.239/2020, voltando o Conselho Nacional da Amazônia Legal para o Ministério do Meio Ambiente, com a participação de representantes da FUNAI e do IBAMA e de outras organizações da sociedade civil, indígenas ou indigenistas como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que atuam na Amazônia”.









03 maio, 2020

Juristas, políticos e entidades reagem a nova participação de Bolsonaro em ato antidemocracia


Presidente cumprimentou apoiadores aglomerados em ato pró-intervenção militar e contra Congresso e STF. Ele disse que 'chegamos no limite' e que 'não vai admitir mais interferência'.


Manifestantes se aglomeraram em frente ao Palácio do Planalto para pedir o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, além de defender uma "intervenção militar com Bolsonaro" e criticar o ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Sem máscara, Bolsonaro cumprimentou o grupo e ajudou a estender uma bandeira na rampa do Planalto.

Bolsonaro declarou, em fala transmitida nas redes sociais, que tem "as Forças Armadas ao lado do povo" e que "não vai aceitar mais interferência". Disse, ainda, que pede a "Deus que não tenhamos problemas nesta semana, porque chegamos no limite". Leia na íntegra AQUI.

Lento e sem testes, Brasil escolhe a roleta russa do coronavírus


Infelizmente, a polêmica em relação a postura do presidente tira o foco de um problema muito maior: a falta de estratégias e de decisões cruciais para enfrentar a crise.


Enquanto o fla-flu nas redes sociais corre solto, o país continua tendo na prática e não somente no discurso uma das mais fracas e lentas reações à pandemia de todo planeta. Se trata de uma política de Estado que freou e continua freando ações essenciais na fase inicial do combate ao contágio com o coronavírus e que poderá resultar no colapso simultâneo do SUS, da atividade econômica e da coesão social. Leia a Matéria na íntegra AGUI.

Diferença entre Prevenir e Preocupar


"eu sou a porta das ovelhas"


“eu sou a porta das ovelhas”

O Profeta Ezequil exilado e falando aos exilados da Babilónia profetiza que ao longo da história de Israel os líderes foram maus “pastores” que não cuida das ovelhas, mas de seus interesses próprios “Vocês bebem o leite, vestem a lã, matam as ovelhas gordas, mas não cuidam do rebanho. Vocês não procuram fortalecer as ovelhas fracas, não dão remédio para as que estão doentes, não curam as que se machucaram, não trazem de volta as que se desgarraram e não procuram aquelas que se extraviaram. Pelo contrário, vocês dominam com violência e opressão.” (Ezequiel 34, 3-4). Ezequiel diz o próprio Deus vai agora assumir a condução do seu Povo “... Eu mesmo vou procurar as minhas ovelhas.” (Ezequeil 34,11).

Em Jesus a promessa de Deus se cumpre. O evangelho de hoje 4º Domingo da Páscoa, João 10,1-10, consiste em denúncias dos falsos dirigentes (pastores) da igreja, da política, da economia, da sociedade em geral, porque são ladrões e bandidos (cf. Jo 10,1).

Ao contrário, Jesus é "o Pastor" que entra pela porta, a sua missão foi-Lhe confiada pelo Pai, "Pastor" descendente de Davi (cf. Ez 34,23). Jesus enviado por Deus para conduzir o seu Povo para onde há vida em plenitude. “Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz .... E, depois de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz.” (João 10, 2-4). Jesus conhece cada ovelha e com cada uma quer ter uma relação pessoal de amor, de proximidade, de comunhão. Não obrigará ninguém a responder-Lhe; mas os que responderem ao seu chamamento farão parte do seu "rebanho".

Jesus se apresenta como sendo “a porta” – “Em verdade, em verdade vos digo, eu sou a porta das ovelhas.” (João 10,7). Ninguém pode ser “pastor”, ninguém pode ser um líder, um político, uma liderança se não tiver os mesmos sentimentos, a mesma atitude de Jesus. Ninguém deve deixar-se enganar, Jesus é a porta da vida em plenitude. Passar pela porta é entregar-se a Ele, as suas propostas. Jesus é a contraposição, enquanto os falsos “pastores” rouba, mata e destrói Ele da vida. “Eu sou a porta. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem. O ladrão só vem para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” (João, 10, 9-10)

Diante de tantas vozes enganadoras, que negam a vida, que rouba, mata e destrói, como distinguir a “voz” de Jesus? É preciso manter diariamente um relacionamento gostoso com ele, diálogo íntimo, abrir-se a Ele e pedir sempre discernimento e deixar nosso coração encher-se de ternura e amor, sensível as dores e angustias, alegrias e sonhos do nosso povo, não nos calando diante dos falsos líderes que não age como o Bom Pastor que cuida de suas ovelhas.

Eu, Lucimar Moreira Bueno

Petição para proteger indígenas da Covid-19 têm assinaturas de Paul McCartney, Madonna, Chico Buarque e Gisele Bündchen


Manifestado criado pelo fotógrafo Sebastião Salgado, que passou últimos anos fotografando a Amazônia, pede ação para evitar 'genocídio indígena'





Já em dificuldades em tempos normais face às crescentes invasões de suas terras, as comunidades indígenas da Amazônia se veem ameaçadas pela progressão do Covid-19 na região — alvo de alertas do Ministério Público Federal (MPF) e de diversas entidades indigenistas. Para endossar a urgência da causa, o fotógrafo Sebastião Salgado, que passou os últimos sete anos fotografando na Amazônia, tema de sua próxima exposição, organizou um manifesto para que os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário brasileiros intervenham e evitem um extermínio indígena por conta da pandemia.

O apelo de Salgado, em forma de petição, será lançado neste domingo com a assinatura de mais de 60 personalidades nacionais e internacionais. O manifesto alerta para a precária assistência em comunidades indígenas e para a preocupação com as consequências de um contágio em massa. O MPF já havia ressaltado, ao solicitar medidas imediatas de órgãos públicos, que “viroses respiratórias foram vetores do genocídio indígena em diversos momentos da história do país”.

— A situação é muito grave. Se o coronavírus chegar às comunidades indígenas, será um genocídio, porque elas não têm os mesmos anticorpos que possuímos para as doenças europeias, de brancos. A responsabilidade do Brasil será muito grande se isso ocorrer, e o país será levado às cortes internacionais por não ter tomado posição em relação a populações em perigo, julgado e condenado — afirma Salgado, que está de quarentena em sua casa, em Paris.

Entre os signatários da petição, que será disponibilizada online na plataforma Avaaz para novas adesões, figuram nomes ligados à música, como Paul McCartney, Madonna e Chico Buarque; e ao cinema, como os atores Brad Pitt e Richard Gere, as atrizes Meryl Streep e Glenn Close, e os cineastas Oliver Stone, Pedro Almodóvar, Alfonso Cuarón e Fernando Meirelles. A lista inclui também o escritor Mario Vargas Llosa, a modelo brasileira Gisele Bündchen, o príncipe Albert de Mônaco e o cientista brasileiro Carlos Nobre.


— Fernando Meirelles produziu um curto vídeo, com cerca de 20 fotografias de índios, para ser usado nas redes sociais. Gisele Bündchen vai ajudar também a divulgar entre seus seguidores. Vamos lançar em vários países. Tenho grande esperança de que isso possa viralizar e que leve a uma real e séria preocupação nacional — diz Salgado.

Pressão internacional

Salgado, que se tornou em 2017 membro da Academia de Belas Artes da França, passou naquele ano 20 dias em uma aldeia da etnia korubo no Vale do Javari, a segunda maior terra indígena do país. O fotógrafo brasileiro acusa o governo federal de promover um desmonte na Fundação Nacional do Índio (Funai), retirando apoio financeiro, material e humano da entidade, além de boicotar ações destinadas a proteger comunidades indígenas de invasões de grileiros. Em abril, o Ministério do Meio Ambiente exonerou diretores do Ibamaresponsáveis por operações contra madeireiros e garimpeiros. As exonerações ocorreram duas semanas após o Ibama realizar uma série de operações no Pará contra invasores de terras indígenas.

De acordo com Salgado, o Vale do Javari conta com a maior concentração de população isolada do mundo, mas tem sido alvo de invasões, denunciadas por entidades indigenistas, tanto do garimpo e da extração ilegal de madeira quanto de grupos religiosos. Para o fotógrafo, uma pressão internacional a exemplo da que se formou durante as queimadas da Amazônia, no ano passado, pode incentivar uma tomada de posição por parte do governo federal.

— Nesta pandemia, o governo federal está preocupado com um resultado econômico, possivelmente, para ter um resultado eleitoral, e com uma posição muito incoerente em relação à proteção dos indígenas. Todas as ações do governo brasileiro após a chegada do presidente Bolsonaro ao poder são de desestabilização dos territórios e das comunidades indígenas — lamentou.

Fonte: O Globo

José Saramago - in "As palavras"


"  As palavras
As palavras são boas.
As palavras são más.
As palavras ofendem.
As palavras pedem desculpa.
As palavras queimam.
As palavras acariciam.
As palavras são dadas, trocadas,
oferecidas, vendidas e inventadas.
As palavras estão ausentes.
Algumas palavras sugam-nos, não nos largam:
são como carraças: vêm nos livros, nos jornais,
nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes,
nas cartas e nos cartazes.
As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam,
impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas.
O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo
de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras
que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas.
Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam,
julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras. (...)
(...)

Daí que seja urgente moldar
as palavras para que a sementeira se mude em
seara. Daí que as palavras sejam instrumento
de morte - ou de salvação. Daí que a palavra só valha
o que valer o silêncio do ato.

Há também o silêncio. O silêncio, por definição,
é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina,
observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo.
O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser,
a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele
as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as
más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão. "

(José Saramago - in "As palavras")

02 maio, 2020

Ave Maria da Rua - Raul Seixas


Ouvi a Voz do Pastor


“Ouvindo a voz do pastor eu vou, eu vou feliz.
Seguindo o caminho do bom pastor serei feliz.
Prá campos bem vastos e verdejantes, vai nos
levar, e águas bem claras não vistas antes, 
nos indicar.

“Ele é Jesus, Ele é o bom pastor, Ele é o
caminho, é o amor. Porta e segurança, luz na
escuridão, vida no amor nos deu de herança.

Eu sei que lá fora a escuridão é bem cruel, mas
sei que a porta está bem cuidada, por Deus fiel. A
ovelha querida se distanciou, Ele a buscou a festa
foi grande entre todos nós, que o céu cantou.

Ele é Jesus, Ele é o bom pastor, Ele é o
caminho, é o amor. Porta e segurança, luz na
escuridão, vida no amor nos deu de herança.

Eu tenho certeza da voz que vem do bom
pastor e quando me chama diz o meu nome,
com muito amor. Então sua vida na cruz nos
deu, foi grande a dor, prá sermos unidos num só
rebanho e só Ele o pastor.”

Ele é Jesus, Ele é o bom pastor, Ele é o
caminho, é o amor. Porta e segurança, luz na
escuridão, vida no amor nos deu de herança.”

Prece

“Rezemos hoje pelos governantes, que têm a responsabilidade de cuidar de seus povos nestes momentos de crise: chefes de Estado, chefes de governo, legisladores, prefeitos, governadores… Para que os Senhor os ajude e lhes dê força, porque o trabalho deles não é fácil. E quando houver diferenças entre eles, entendam que, nos momentos de crise, devem ser muito unidos para o bem do povo, porque a unidade é superior ao conflito.” (Papa Francisco)

Política, família, amigos e o Diabo - Por Celso Pinto Carias / “mendigo de Deus”

O texto é do meu amigo/irmão Celso Pinto Carias. Ele é "O Cara"



Política, família, amigos e o Diabo  - Por Celso Pinto Carias / “mendigo de Deus”

Escrevo não para convencer alguns familiares e poucos amigos que pensam diferente de mim. Já percebi que chegamos a uma situação na qual esta tarefa é um tanto quanto inglória. Quase sempre a conversa termina assim: “esta é a sua opinião” ou “é tudo faria do mesmo saco”. Escrevo para desabafar e talvez me explicar um pouco melhor para quem discorda. Por fim, para continuar com familiares e amigos em uma relação de respeito.

Contudo, quando alguém defende que a terra é plana, por exemplo, e eu demonstro com muita paciência, com fontes e argumentos que de Galileu aos nossos dias são irrefutáveis, que a terra é redonda, e alguém diz “essa é a sua opinião”, aí conversa fica difícil, muitas vezes se chega a brigar. Mas desde o tempo que estudei filosofia, e faz tempo, fui melhorando na capacidade de ser convencido. Nem sempre é fácil, pois abandonar uma ideia pode significar abandonar um modo de viver. E, evidentemente, nem sempre consigo. Mas me esforço. Agora, quando alguém diz “essa é a sua opinião” se corta pela raiz a chance de crescer e mudar de perspectiva.

Engraçado, se alguém diz “Deus não existe”, não é considerado “opinião”. Antes de ser interpelado, devo afirmar que acredito em Deus, sou cristão, pretenso seguidor de Jesus Cristo. Mas não há argumento irrefutável para demonstrar que Deus existe. Os ateus ultimamente precisam tomar cuidado para não serem linchados. Pode haver uma agressividade, um ódio, em quem afirma crer, completamente incompatível com o que diz crer, pelo menos se for adepto do cristianismo.

Existe também o pessoal que montou um tribunal com promotores, juízes e advogados para defender Deus. Tadinho, Ele não consegue defender a Si mesmo. Afinal, quem vai “salvar” Deus quando ele é pretensamente “agredido” por uma escola de samba? Vamos supor que por uma “doutrinação” extremamente competente todos os seres humanos se tornassem ateus. Deus deixaria de existir? Que fé é essa que só pode existir se quem não crer for eliminado? Como é fácil projetar em Deus nossa própria agressividade, nossa própria violência, nossos interesses mais mesquinhos.

Mas engraçado ainda, é ver o pessoal falando do DIABO como uma entidade extremamente poderosa que tem enganado Deus faz milhares de anos. E o diabo é sempre o outro, o que pensa diferente de mim. Até o Papa Francisco, coitado, já foi chamado de diabólico. Creem mais no “cramunhão” do que em Deus. A palavra é de origem grega, diabolôs, que significa aquele que divide.

Muito interessante no Brasil, depois que um sujeito chegou ao posto máximo da Republica, que fala de Deus toda hora, e, aliás, sempre de forma muito imprópria, a divisão só aumentou. Famílias se dividiram, amigos deixaram de serem amigos, e este sujeito só falta ser considerado a segunda encarnação de Deus, a primeira foi Jesus de Nazaré.  Assim sendo, quem divide a família? Engraçado, vejo gays que cuidam de seus pais enquanto filhos que ser afirmam heteros os abandonam.

Quando Cristo Jesus foi tentado, segundo o Evangelho cristão, “aquele que divide” apresentou algumas possiblidades para a sua missão: usar Deus para fugir da condição humana, buscar a salvação pelo extraordinário e utilizar o poder dominador para salvar (Mt 4,1-11). Jesus, em perfeita harmonia com aquele que chamou de Pai, escolheu outro caminho. Alguém acha que foi tudo uma performance, um teatro de Jesus, para dizer que ele é o cara? Ou foi uma forma de mostrar o modo de Deus agir na história? Eu fico com a resposta que foi uma forma de mostrar como Deus age na nossa vida.

Assim sendo, na política, cuja fama não anda nada boa, é preciso agir como Jesus para não provocar mais divisão. Precisamos ter capacidade reflexiva para avaliar a vida assim como ela é, e não criar um mundo imaginário.  A política não pode ser nem demonizada e nem santificada. Ela é um instrumento de utilização do poder.

A afirmação que acaba de ser feita pode ser contestada: “eu só vejo divisão na política”. Sim, ela é complexa, não conseguimos ver todos os aspectos que estão em jogo, e os interesses que justificam as posturas mais terríveis. Contudo, no mundo humano não há perfeição. Assim, precisamos ter capacidade crítica para tentar verificar as diversas possibilidades que estão contidas no universo da política.

A política é um instrumento de organização da vida em sociedade. E não podemos deixar de perceber que a vida humana exige organização social, das mais simples as mais sofisticadas.  E toda organização social tem um dimensão política (lembrando: polis em grego é cidade, política deve ser a arte de governar a cidade em vista do bem comum). Uma tribo indígena tem política, em uma família tem política, em um clube de futebol tem política. A política não é tudo, mas em tudo existe uma dimensão política.

Certamente que se pode absolutizar uma determinada forma de ver e interpretar o mundo. E com esta forma escolher pessoas para dirigir caminhos sociais que personifiquem uma visão autoritária ou deformada da realidade. Aqui mora um perigo. E que pode acontecer em todas as correntes de pensamento. No que se chama de esquerda ou direita, por exemplo. É isto que a Bíblia chama de “idolatria”. Podemos nos tornar incapazes de ver os limites que perpassam a condição humana. No cristianismo, por exemplo, nunca deveríamos escolher uma pessoa em particular como grande salvadora, pois para quem se afirma cristão isso já aconteceu com a presença de Jesus Cristo. Mas podemos escolher pessoas limitadas que se aproximem dos valores que Ele deixou e, ao mesmo tempo, ter capacidade crítica para avaliar sempre que se fizer necessário. Sem cair na perspectiva de que o bem só está comigo e com o outro não. A filosofia chamou isso “maniqueísmo”, uma luta eterna entre o bem o mal. Na verdade, estamos todos e todas metidos no interior do bem e do mal. Podemos ser anjos ou demônios para as pessoas que nos cercam. Por isso precisamos como disse Jesus, vigiar.

Portanto, leitor ou leitora que chegou até aqui. A unidade não é feita por iguais, mas por pessoas que estão dispostas a manter sempre o fundamental, ou seja, a dignidade humana. A divisão é provocada por interesses de poder dominador, e pode se dá em um país ou em uma família, mas é sempre diabólica. Não há ideologia imune a divisão. Sim, todos têm ideologia, isto é, um conjunto de ideias que justificam o nosso agir no mundo. Assim, reafirmando, o critério é a dignidade fundamental de todo ser humano.

Não teremos um paraíso terrestre. Entretanto, podemos ter condições de construir um mundo cada vez melhor. Há quem diga não ser mais possível. Perdeu a esperança na humanidade. Mas o mundo já passou por tantas coisas horríveis e nós ainda estamos aqui. Suspeito que ainda estaremos por muito tempo, pois o AMOR, que é o grande elo de unidade da realidade humana, é a própria personificação de Deus. No barco do amor cabe todo mundo: os que creem e os que não creem. Só não cabe o DIABO, isto é, aquele que divide e provoca dor e sofrimento. O pai da mentira. Não se informem por Whatsapp, mas busquem exercer a capacidade crítica que para quem crê é dada pelo próprio Deus.  É isso.

01 maio, 2020

Papa: a ninguém falte o trabalho e a justa retribuição



Prece


“Hoje, que é festa de São José operário, também Dia dos Trabalhadores, rezemos por todos os trabalhadores. Por todos. Para que não falte trabalho a nenhuma pessoa e todos sejam justamente retribuídos e possam gozar da dignidade do trabalho e da beleza do repouso.” (Papa Francisco)

30 abril, 2020

Poema sobre Jesus Companheiro em tempo de Páscoa.


Poema sobre Jesus Companheiro em tempo de Páscoa.

Há quem me fale de um Jesus
Do alto de um pedestal
Eu prefiro ouvi-lo daqui
Da sombra de meu quintal
Debaixo de uma mangueira
Falar da vida inteira
De tudo que Ele sabe, afinal…
Falar dos tempos de outrora
Dos mais remotos na mente…
Aqueles que por descuido,
Sempre fogem da gente!
Ou a gente que foge deles
Por estratégia sabida
Dessas que pra seguir na vida
A gente veste e caminha…
Porque nem toda lembrança
São boas pra se carregar
Porque ou nos diminui
Ou nos definha…
Mas é sobre Jesus
Que quero falar…
Esse que uns chamam de Mestre,
Outros, chamam de Senhor…
Mas eu, sem vergonha
E nem pudor…
Chamo de Jesus Companheiro!
Aquele que nos toca no caminho
E faz na nossa mangueira seu ninho
E de repente, já virou parente
Que vem toda semana
Passar a Páscoa com a gente!

(Joara Reis)

29 abril, 2020

AO VIVO | Últimas notícias sobre o coronavírus e a crise política no Brasil

Enquanto o Brasil observa a escalada do novo coronavírus ―são mais de 5.000 mortes por covid-19 registrados, mais que a China―, o país se aprofunda na crise política. Na manhã desta quarta-feira, o ministro do STF Alexandre de Moraes suspendeu a nomeação de Alexandre Ramagem para a diretoria da Polícia Federal, por considerar que a indicação atende a um interesse pessoal do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O Supremo Tribunal Federal também determinou a abertura de inquérito contra o ministro da Educação, Abraham Weintraub, por crime de racismo por uma publicação feita por ele ironizando a gestão chinesa perante a pandemia. O Brasil é o 9º país em mortes causadas pelo novo coronavírus. O ministro da Saúde, Nelson Teich, reconheceu nesta terça um “agravamento” da crise, mas Bolsonaro se esquivou: “E daí? Lamento", disse.

Vejam as matérias acima. Clique AQUI


"E daí? Lamento. Eu sou Messias, mas não faço milagre"


"E daí? Lamento. Eu sou Messias, mas não faço milagre"

Essa a fala do homem Bolsonaro, que não respeita a vida, nem respeita a ciência, ignora as causas e à luta de quem defendem a vida. Um ser que mesmo esforçando o máximo impossível vê nele algumas virtudes, mesmo alargando a lista de virtudes humanas.

Mais de cinco mil mortes pela Covid-19 e esse homem diz "E daí? Lamento. Eu sou Messias, mas não faço milagre".

Dados do Ministério da Saúde de terça-feira (19) mostram que subiu para 5.017 o número de mortes provocadas pela Covid-19 no Brasil. Com isso, o país ultrapassou a China, que registra oficialmente 4.643.

28 abril, 2020

QUEM É O DEUS DO PRESIDENTE? Dom Silvio Guterres Dutra - Bispo de Vacaria (RS)


Com chavões do tipo “acredito em Deus”, “Deus abençoe nossa pátria querida”, além do conhecido mote de campanha “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, Bolsonaro se dirige frequentemente à nação com discursos que, mesmo recheados de boas e piedosas intenções, são absurdamente equivocados, revelando uma radical ausência de saudável discernimento e de qualquer razoabilidade.

Neste momento da nossa história, mais do que em qualquer outro período, ouvir a ciência e as autoridades competentes é a melhor maneira de viver a genuína fé cristã, fé que não nega a razão, antes dialoga e interage com ela.

Além disso, as falas do presidente são verdadeira apologia ao ódio, à ignorância e ao fanatismo, realidades que não só não encontram nenhum respaldo na experiência cristã, como são rechaçadas como contrárias ao projeto de vida dos filhos de Deus.

Infelizmente, alguns dos chamados “apoiadores” de Bolsonaro têm protagonizado verdadeiras cenas farisaicas de orações públicas, de flagrante falsa veneração às imagens sacras de Nossa Senhora de Fátima e do Jesus da Divina Misericórdia no intento de dar legitimidade aos seus pensamentos. Ao seu tempo, Jesus foi vítima de todas estas coisas desprezíveis defendidas por Bolsonaro e por muitos dos seus discípulos. O que mais o presidente tem feito é disseminar divisão e confusão, tarefas que nunca foram atribuídas ao Deus Único, mas sim ao seu adversário, o “pai da mentira”. Como, de sã consciência, e em nome do Deus de Jesus Cristo, alguém seria capaz de defender o retorno da sanguinária ditadura militar no Brasil?

Num tempo em que os próprios teólogos cristãos são desafiados a repensar a questão de Deus em meio a uma espécie de politeísmo prático que vivemos, creio que eu não seja o único a me perguntar: a que “deus” Bolsonaro se dirige? E embora eu já tenha um pensamento formado sobre a identidade da divindade evocada pelo presidente, por enquanto o que me é mais claro é que não se trata do Deus de Jesus Cristo, o Deus que eu conheci na minha juventude, o Deus do êxodo, o Deus dos profetas, enfim o Deus que convoca para a paz e para a fraternidade, que indica o caminho do diálogo e da compaixão.

Se o “deus” evocado pelo presidente, um “deus” que está sempre a procura de um inimigo para eliminar, fosse o único possível, eu pediria imediatamente para ser acolhido na fileira dos ateus. Cada vez fica mais fácil compreender os ateus e mais difícil compreender os que se dizem cristãos e não cessam de usar o “Nome de Deus em vão”.

Mas nem tudo está perdido. A Boa Notícia é a de que esse “deus”, o do presidente, não é o único. Felizmente temos a liberdade de escolher Outro. Que o Espírito Santo nos dê o discernimento correto neste tempo em que todos deveríamos ter um único foco, o cuidado da vida, no combate ao inimigo comum, o coronavirus!

27 abril, 2020

Dom José publica artigo e critica a “reinvindicação” da Eucaristia em tempos de pandemia


“Quem vai fazer a seleção na entrada? Quem vai estar na porta do templo para mandar de volta para casa o idoso, o cardíaco, o diabético, o fumante e outros dos grupos de riscos que teimosamente desejarem participar? Quem não levar sua máscara e seu álcool vai ser excluído da “sadia” assembleia celebrante? Quem garante para si mesmo que o vírus inexiste na sua exuberante saúde aparente? Vale passar na igreja de carro ou a pé e pegar “seu pedaço” de Eucaristia e ir embora, sem celebração, sem assembleia litúrgica, sem saborear a vida comunitária celebrante?”, indaga o bispo.



Dom José publica artigo e critica a “reinvindicação” da Eucaristia em tempos de pandemia. Matéria publicada no site da CNBB, 27 de abril de 2020.

Segue a íntegra da matéria:

Dom José Carlos de Souza Campos, bispo de Divinópolis (MG), em seu artigo intitulado “pensando nas pessoas dos grupos de risco” questiona o fato de algumas pessoas que se julgam fora dos grupos de risco acharem que podem reivindicar para si a Eucaristia; que as igrejas estejam abertas e que haja celebrações com as pessoas que “não apresentam risco”.

“Quem vai fazer a seleção na entrada? Quem vai estar na porta do templo para mandar de volta para casa o idoso, o cardíaco, o diabético, o fumante e outros dos grupos de riscos que teimosamente desejarem participar? Quem não levar sua máscara e seu álcool vai ser excluído da “sadia” assembleia celebrante? Quem garante para si mesmo que o vírus inexiste na sua exuberante saúde aparente? Vale passar na igreja de carro ou a pé e pegar “seu pedaço” de Eucaristia e ir embora, sem celebração, sem assembleia litúrgica, sem saborear a vida comunitária celebrante?”, indaga o bispo.

Dom José Carlos afirma que tais questionamentos parecem não terem sido feitas por “piedosas pessoas famintas de Eucaristia”, que segundo ele tentam se enquadrar nos “grupos seletos” que podem celebrar e comungar nas igrejas. “A piedade eucarística destes irmãos autoriza que haja castas que podem e castas que não podem comungar nesta hora (processo seletivo espiritual das espécies)”, argumenta o bispo.

O bispo, no entanto, questiona se o princípio da igualdade – ninguém pode – não seria mais justo e bíblico. Ele admite, ainda, que a postura de certos grupos da Igreja e de pessoas com discursos de “saudade de Eucaristia” leva a esquecer exatamente dos patriarcas da fé, os mais velhos; a desconsiderar os mais frágeis, os doentes de doenças graves e crônicas; a criar uma Igreja dos “sadios” e dos “outros”.

E questiona se – numa possível fome em casa, só os mais novos comerão do pouco existente na dispensa, deixando morrer de fome primeiro os mais velhos ou comerão todos um pouquinho do que ainda resta –, pois de acordo com ele o pouquinho do que ainda resta é a “comunhão espiritual”. “Todos comem deste “pouco” mesmo que insuficiente para matar e saciar completamente a fome espiritual da Eucaristia. Mas todos igualmente! Novos e idosos, sadios e doentes, santos e pecadores, os de comunhão diária e os de comunhão dominical. Sem seleção espiritual, sem ‘eugenia espiritual’”, reitera o bispo.

Dom José Carlos afirma ser lamentável a perda do sentido da Igreja como o “Corpo Místico de Cristo”. “Todos estamos interligados e unidos a Ele, nossa Cabeça e Princípio. Se uns comungam, o Corpo todo se alimenta. Somos um Corpo e não simplesmente sujeitos crentes individuais, com a necessidade de cada um ter de se alimentar para alimentar, só desta forma, o Corpo inteiro”, disse.

Dom José acha que perdeu-se o senso da comunhão eclesial, da circulação dos bens espirituais no Corpo inteiro de Cristo, a Igreja, pois, de acordo com ele, as pessoas fixaram seus olhares erradamente na comunhão sacramental individual como única forma de vivência da fé eucarística e dos seus efeitos. “A comunhão eucarística tomada abundantemente até antes da pandemia não nos educou para a comunhão mística que existe entre os batizados, mesmo que nem todos tenham acesso à vida sacramental. Precisamos pensar nisto!”, reiteirou.

Dom José ressaltou algumas meditações que podem ser feitas neste tempo de pandemia e de carência eucarística. O primeiro ponto, destacado pelo bispo, é o de que não existem grupos de risco. Quem, porventura, fosse à Igreja comungar ou quem ficasse em casa estaria igualmente desprotegido pelos contatos e proximidades.

No segundo ponto, o bispo destaca que um membro da Igreja que comungar fortalece a Igreja toda, o Corpo inteiro. O terceiro ponto é o de que deixar de fora os idosos e os debilitados na saúde, abrindo a possibilidade de comungar sacramentalmente aos demais, é deixar fragilizarem-se espiritualmente, por falta desta comunhão, aqueles que “nos educaram na fé e aqueles que estão mais necessitados dos remédios espirituais”.

O quarto ponto citado por dom José é o erro de fazer de conta que nada está acontecendo e voltar tudo ao normal. Para ele, isso será uma imperdoável irresponsabilidade e um descompromisso com a vida. “Só para pensar! Temos tempo para isto em quarentenas! Está sobrando tempo para pensar, para conviver em casa e para rezar na nossa Igreja doméstica e no silêncio do nosso quarto interior”, finalizou o bispo.

Pastoral da Pessoa Idosa - “Ligue para uma pessoa idosa hoje”

Cuidando até o fim com o “coração nas mãos”. Pacientes terminais e COVID-19. Artigo de Alexandre A. Martins

"o cuidado é uma arte na qual regras e protocolos não são suficientes para determiná-lo. O cuidado é uma arte exercida 'com o coração nas mãos'. 


"Se, por um lado, temos o desafio de parar a proliferação do coronavírus, cuidar dos infectados e dos doentes com Covid-19, por outro, precisamos entender que pessoas estão morrendo devido à Covid-19. Contudo, nunca podemos aceitar que elas morram como objetos largados em um leito hospitalar ou no chão de um corredor de algum pronto-socorro. O valor da vida humana não permite isso, nem mesmo em meio a um contexto excepcional de urgência e escassez", escreve Alexandre A. Martins, professor de bioética e ética social na Marquette University em Wisconsin, nos EUA.
Segundo ele, "o cuidado é uma arte na qual regras e protocolos não são suficientes para determiná-lo. O cuidado é uma arte exercida 'com o coração nas mãos'. Nos momentos mais desafiadores, a arte do 'coração nas mãos' encontra caminhos criativos para promover o cuidado e ajudar as pessoas a morrer com dignidade. A arte do 'coração nas mãos' encontra caminhos para confortar famílias sofrendo porque não podem se despedir dos que amam, enterrados em uma vala comum sem direito a um funeral".

Eis o artigo.

existência de um ser racional como nós inclui saber que a vida tem um limite. Somos seres finitos para os quais a existência acaba, isto é, nós morreremos. A consciência dessa realidade ainda impacta a maioria dos membros da nossa espécie. É difícil aceitar que muitas pessoas que amamos vão morrer; e que nós também morreremos. Há aqueles que olham para a morte como o fim de um processo biológico experienciado por qualquer organismo vivo. Isso é verdade. Dessa forma, a morte não deveria ser algo dramático; é apenas o fim do processo de um organismo vivo que levará ao início de outro processo na natureza, tal como a decomposição. Lembro aqui as palavras de Antoine Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Como parte da natureza, estamos no mesmo processo de transformação bioquímica. Contudo, esse processo de transformação não é visto de modo tão simples quando somos confrontados com a morte de pessoas que amamos ou mesmo com a nossa própria morte.
Acabamos de celebrar a Páscoa, a festa da vitória da vida sobre a morte. Os cristãos professam a fé na esperança da ressurreição: a morte não é a última palavra, mas, sim, a vida eterna no amor misericordioso de Deus. Páscoa é a fé no Mistério Pascal da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Contemplando a sua cruz, raios de esperança resplandecem a partir do amor crucificado que derrotou a morte. Iluminados pelo Mistério Pascal, a morte torna-se apenas uma passagem da existência histórica à salvação escatológica. Particularmente para os cristãos, o fim de uma existência histórica não deveria ser o pior dos males, mas apenas parte de um processo que unifica o imanente com o transcendente no seio da existência de Deus. Porém, o drama da morte ainda está presente nos sentimentos, até mesmo dos fiéis mais piedosos.
morte não é um acontecimento fácil. Claro que algumas pessoas lidam melhor com a morte do que outras. Acompanhado pacientes terminais e estando com eles e seus familiares nos últimos minutos de vida em várias ocasiões, testemunhei que a morte é um momento forte da vida, uma mistura de sofrimento e esperança, de dor e amor. Considerando essa realidade paradoxal, prefiro transferir meu olhar para o processo de morte e me pergunto como podemos tornar a morte menos dolorosa, já que, como animais racionais, desenvolvemos tecnologia suficiente para melhorar e prolongar nossas vidas. Em outras palavras: o problema não é a morte em si mesma, mas evitar que a vida acabe sem dignidade.
São Camilo de Lellis (1550-1614), fundador da Ordem dos Ministros do Enfermos, conhecida como Camilianos, iniciou sua obra com doentes abandonados no Hospital São Tiago do Incuráveis em Roma. Num tempo em que cuidar dos enfermos não era algo nobre e muitas vezes era uma forma de punição, Camilo de Lellis reuniu um grupo de pessoas que desejavam cuidar dos doentes com compaixão e ternura. “Mais coração nas mãos” era uma das frases favoritas de Camilo para encorajar seus companheiros no modo como eles deveriam cuidar dos enfermos.
No século XVI, a medicina não era tão desenvolvida como hoje. As pessoas doentes não tinham bons prognósticos e, em muitas situações, a doença se tornava praticamente uma sentença de morte. A Europa também enfrentou muitas pragas, epidemias de doenças contagiosas que mataram muitas pessoas. Durante as pragas, uma das principais medidas era pôr as pessoas infectadas em quarentena e deixá-las morrer isoladas em vista de conter a proliferação da praga. São Camilo e seus companheiros acreditavam que essas pessoas desafortunadas mereciam mais do que morrer sozinhas. Elas eram seres humanos que mereciam cuidado especial para morrer bem. Assim, muitos camilianos arriscaram suas vidas para cuidar das vítimas das pragas com “o coração em suas mãos”. Vários camilianos até morreram servindo esses enfermos e foram, mais tarde, reconhecidos como mártires da caridade pela Igreja Católica. Contudo, uma das coisas mais interessantes ocorridas durante períodos de pragas foi que os camilianos ficaram conhecidos como padres da boa morte.
pandemia do coronavírus e da Covid-19 impõe desafios à vida e à morte. Atualmente, medidas como pôr em quarentena os infectados para que morram isolados, visando conter o avanço das contaminações pelo vírus são impensáveis. Uma das medidas mais encorajadas é o distanciamento social entre as pessoas saudáveis, em quarentena em suas próprias casas. Ademais, agirmos para identificar os infectados e disponibilizar assistência médica aos doentes com Covid-19. Muitas pessoas com a mesma doença, necessitando do mesmo tratamento ao mesmo tempo, criam um gigantesco drama para qualquer sistema de saúde no mundo; mesmo os países mais ricos sofrem com escassez de recursos médicos e muitas questões éticas surgem na busca de melhor responder à pandemia e ao seu impacto no sistema de saúde. Decisões dramáticas precisam ser tomadas. O objetivo é parar o avanço do vírus e cuidar dos enfermos com a ajuda da medicina moderna. Todavia, muitas pessoas continuam morrendo, mais do que em qualquer situação normal.
Se, por um lado, temos o desafio de parar a proliferação do coronavírus, cuidar dos infectados e dos doentes com Covid-19, por outro, precisamos entender que pessoas estão morrendo devido à Covid-19. Contudo, nunca podemos aceitar que elas morram como objetos largados em um leito hospitalar ou no chão de um corredor de algum pronto-socorro. O valor da vida humana não permite isso, nem mesmo em meio a um contexto excepcional de urgência e escassez. A morte é, sim, o fim de um processo biológico; mas a dignidade da vida humana – algo intrínseco dado por Deus antes mesmo da existência individual, como afirma a tradição cristã, ou um valor inerente, como é reconhecida pela Declaração dos Direitos Humanos – não nos dá a opção de deixar que esse processo chegue ao seu fim sem o cuidado necessário para uma boa morte.
Por mais conscientes que sejamos sobre o fim da existência, ainda temos dificuldade para aceitar a morte. Mesmo acreditando na esperança da ressurreição, sofremos diante da passagem da vida histórica à escatológica. Independentemente da dramaticidade da situação e do tamanho do sofrimento, o cuidado é uma virtude moral que ajuda as pessoas a morrer com dignidade.
cuidado na vida da pessoa, esteja ela saudável ou doente, é uma arte de atençãosensibilidade e compaixão. Há quem afirme que cuidado é uma parte essencial da existência humana. Outros são ainda mais radicais e dizem que a essência do ser humano é cuidado. As pessoas gostam de ser cuidadas, e parece que há um impulso na maioria das pessoas que as leva a gostar de cuidar dos outros. Se é verdade que cuidado é parte da existência humana tanto quanto a morte, o cuidado também deve se realizar no fim da vida, para que a dignidade seja promovida na passagem final da vida à morte.
cuidado é uma arte na qual regras e protocolos não são suficientes para determiná-lo. O cuidado é uma arte exercida “com o coração nas mãos”. Nos momentos mais desafiadores, a arte do “coração nas mãos” encontra caminhos criativos para promover o cuidado e ajudar as pessoas a morrer com dignidade. A arte do “coração nas mãos” encontra caminhos para confortar famílias sofrendo porque não podem se despedir dos que amam, enterrados em uma vala comum sem direito a um funeral.
A existência tem um fim. Uma existência com sentido parece ser aquela que experienciou o cuidado entre a alegria e a dor, a felicidade e o sofrimento. O cuidado é uma virtude que dá sentido para a alegria e a esperança capaz de superar o sofrimento. Sendo uma virtude durante a vida, o cuidado mostra a beleza humana da criatividade na busca de meios para ajudar a morrer, cuidando “com o coração nas mãos”.
Fonte: IHU

26 abril, 2020

COVID-19: A ENFERMIDADE DA SOLIDÃO



Celso Pinto Carias / “mendigo” de Deus

A morte é uma realidade da qual não podemos fugir. É a única verdade absolutamente consensual. Ninguém diz: nunca morreremos. Pode-se acreditar, naturalmente, na continuidade eterna da vida, mas na história humana que conhecemos diretamente não há possibilidade de não passar pela morte. E ela provoca reações das mais diversas na existência de homens e mulheres. Pode ser um medo contido ou um completo desespero.

E no mundo de hoje, a morte ganhou uma característica que a torna uma experiência ainda mais difícil. Ela foi privatizada. Deixou de ser um acontecimento que envolve toda a comunidade onde a pessoa que morre vive. Quando se morre em casa é um problema. O morrer é também um produto com o qual se ganha dinheiro. E nas regiões de muita violência ela pode ser banalizada.

A medicina evoluiu muito, mas também, em certo sentido se desumanizou. Morre-se, muitas vezes, isolado em uma UTI sem que parentes ou amigos possam acompanhar. É verdade que a Medicina Paliativa tem mostrado o quanto é fundamental estar próximo de quem vai morrer, mas esta área médica caminha ainda de forma lenta. Médicos tem dificuldade de lidar com a morte, de transmitir de forma humanizada a notícia de que alguém morreu.

Neste contexto estamos diante da COVID-19. O novo coranavirus, que tem virado o mundo de cabeça para baixo, está aí revelando uma série de coisas que já sabíamos, mas que não dávamos importância. Precisamos resgatar valores fundamentais da convivência humana que nos ajude a passar pela morte com mais tranquilidade. Mas nesta situação imediata de pandemia não temos tanto tempo para rever o nosso itinerário. Assim, surgem perguntas: o que podemos fazer para diminuir o impacto desta enfermidade que isola o doente de tudo e todos? Até no sepultamento há o impedimento de proximidade.

Neste momento podemos aproveitar o isolamento para repensar a sociedade de consumo. O nosso consumo tem sido produtor de morte. Sim. Se não somos capazes de viver com o suficiente. Se achamos que tudo que compramos é para a nossa “felicidade” e, portanto, não tem consequência alguma para o resto do mundo, estamos criando condições para o surgimento de muitos outros vírus.

Se acreditamos em Deus, podemos repensar a nossa relação com Ele. Deus não é um “negociador de salvação” que fica em seu escritório verificando se nossas orações, nosso louvor, nossa adoração, tem fé suficiente para mudar a história. Deus, na perspectiva cristã, é Aquele que se envolve conosco em todas as situações: na saúde e na doença, na tristeza e na alegria. Ele é a razão pela qual vivemos e não uma “bolsa de investimentos” da qual poderemos obter toda a riqueza necessária para a “felicidade”.

Neste momento podemos fazer aquilo que nossa inteligência, para quem crê dada pelo próprio Deus, através da ciência, diminua a proporção de dor e sofrimento que a COVID-19 produzirá. O vírus pode passar por nós sem produzir sintoma algum. Mas pode passar pela vida de pessoas que serão isoladas e seus parentes ou amigos não terão como estar junto para diminuir o sofrimento da passagem definitiva. Muitas vezes temos uma fé tremendamente egoísta: “Deus não permitirá que aconteça isso comigo”. Mas será que Ele permite que aconteça com tanta gente boa que conhecemos?

Assim, se você tem um pouco de compaixão, um pouco de amor ao próximo, seguirá as recomendações para evitar que a propagação da doença seja acelerada e o sistema de saúde tenha condições de salvar mais vidas do que deixar morrer. Não se trata de salvar apenas a própria pele. De fato, a grande maioria não terá complicações com a COVID-19. Mas se coloque no lugar de alguém que pode adoecer por conta da irresponsabilidade de governos e respectivamente sua, se banaliza as medidas de  prevenção.

Não deixemos que mais pessoas morram solitárias e que
familiares e amigos não possam se quer viver o luto de forma humana.

Estas linhas foram terminadas no terceiro domingo de Páscoa de 2020. Muitas Igrejas cristãs leem o Evangelho conhecido como “Os discípulos de Emaus”.  A morte do mestre entristece este casal que caminha quase sem esperança. Sim, a morte pode paralisar. Mas eles caminham juntos, eles acolhem o peregrino, eles partilham o pão, e aí descobrem que existe uma presença muito maior que toda a nossa limitação. Podemos chamar tal presença de Deus revelado em Jesus Cristo ressuscitado. Mas podemos chamar também de uma profunda experiência de AMOR que pode ser sentida por qualquer pessoa, desde que ela se coloque no CAMINHO do AMOR. Um forte e caloroso abraço virtual.

Fonte: CEBs do Brasil