14 janeiro, 2020

Para refletir


A autoridade não é comando, mas coerência e testemunho

Quanto mal fazem os cristãos "incoerentes" e os pastores "esquizofrênicos" que não dão testemunho, afastando-se assim do estilo do Senhor, da sua autêntica "autoridade": a homilia do Papa Francisco na Casa Santa Marta foi um comentário ao Evangelho proposto pela liturgia do dia.

"Jesus ensinava como quem tem autoridade". O Evangelho de Marcos (Mc 1,21-28) narra Jesus que ensina no templo e a reação que suscita entre as pessoas o seu modo de agir com "autoridade", diferentemente dos escribas. É desta comparação que o Papa se inspirou para explicar a diferença que existe entre "ter autoridade", "autoridade interior", como Jesus, e "exercitar a autoridade sem tê-la, como os escribas". Estes, mesmo sendo especialistas no ensinamento da lei e ouvidos pelo povo, não eram críveis.



O estilo de Jesus

Qual é a autoridade que Jesus tem? É o estilo do Senhor, aquela 'senhoria' – digamos assim – com a qual o Senhor se movia, ensinava, curava, ouvia. Este estilo  senhorio – que é algo que vem de dentro – mostra... O que mostra? Coerência. Jesus tinha autoridade porque era coerente com aquilo que ensinava e aquilo que fazia, isto é, como vivia. Aquela coerência é o que dá a expressão de uma pessoa que tem autoridade: “Esta pessoa tem autoridade porque é coerente”, ou seja, dá testemunho. A autoridade se mostra nisto: coerência e testemunho.

Os escribas, pastores esquizofrênicos que não dizem e não fazem

Ao contrário, os escribas não eram coerentes e Jesus, afirmou o Papa, de um lado adverte o povo a "fazer o que diziam, mas não o que faziam"; de outro, não perde a ocasião para repreendê-los, porque "com esta atitude caíram em uma esquizofrenia pastoral”, segundo Francisco: diziam uma coisa e faziam outra. E o Papa recordou que isso acontece em vários episódios do Evangelho: às vezes, Jesus reage colocando-os de lado, às vezes não dando a eles nenhuma resposta e, ainda, “qualificando-os":

E a palavra que Jesus usa para qualificar esta incoerência, esta esquizofrenia, é “hipocrisia”. É um terço de qualificativos! Vamos pegar o capítulo 23 de Mateus; muitas vezes diz: “hipócritas por isso, hipócritas …”. Jesus os qualifica “hipócritas”. A hipocrisia é o modo de agir daqueles que têm responsabilidade sobre as pessoas – neste caso, responsabilidade pastoral -, mas não são coerentes, não são senhores, não têm autoridade. E o povo de Deus é manso e tolera; tolera muitos pastores hipócritas, muitos pastores esquizofrênicos que dizem e não fazem, sem coerência.

A incoerência cristã é um escândalo

Mas o povo de Deus que tanto tolera – acrescentou Francisco – sabe distinguir a força da graça. E o Papa explicou fazendo referência à Primeira Leitura de hoje, em que o idoso Eli "tinha perdido toda a autoridade e tinha ficado somente com a graça da unção" e, com aquela graça abençoou e fez um milagre em Ana, que por sua vez suplicava para ser mãe. Este episódio serviu para Francisco fazer uma consideração acerca dos cristãos e dos pastores:

O povo de Deus distingue bem entre a autoridade de uma pessoa e a graça da unção. “Mas você vai se confessar com aquela pessoa, que é isso, isso e isso?” – “Mas para mim ele é Deus. Ponto. Ele é Jesus”. E esta é a sabedoria do nosso povo, que tolera tantas vezes, tantos pastores incoerentes, pastores como os escribas, e também cristãos que vão à missa todos os domingos e depois vivem como pagãos. E as pessoas dizem: “Isto é um escândalo, uma incoerência”. Quanto mal fazem os cristãos incoerentes que não dão testemunho e os pastores incoerentes, esquizofrênicos, que não dão testemunho!

O Papa concluiu a homilia pedindo ao Senhor para que todos os batizados tenham a "autoridade", "que não consiste em comandar e aparecer, mas em ser  coerente, ser testemunha e, por isso, ser companheiro de estrada no caminho do Senhor ".

Gabriella Ceraso – Cidade do Vaticano
Vatican News

13 janeiro, 2020

Há crianças feridas escondidas em adultos "difíceis"



Ricos e pobres, cada vez mais separados


Mais abastados tendem a morar em bairros separados da confusão da grande cidade enquanto os menos felizardos enfrentam condições pós-apocalípticas de poluição e superpopulação.
A reportagem é de Sergio C. Fanjul, publicada por El País, 12-01-2019.
Nas cidades as pessoas diferentes vivem em locais diferentes: se chama segregação urbana. A segregação pode ocorrer por diversos motivos, como a etnia e os estilos de vida, mas o fator mais importante é o econômico. Os que têm mais dinheiro podem escolher onde moram, para os mais pobres a escolha não é tão ampla. Os primeiros moram em bairros melhores, com melhores serviços, melhor construção e qualidade ambiental. Os pobres precisam se resignar a morar em bairros onde tudo é um pouco mais precário e até a expectativa de vida alguns anos menor. A influência da segregação residencial na trajetória vital das pessoas se chama “efeito bairro”, muitas vezes traduzido em fracasso escolar, desigualdade e falta de oportunidades.
Estudos e especialistas dizem que a segregação aumenta, em correlação às crescentes desigualdades provocadas pelo modelo econômico vigente, o que pode provocar problemas nas megacidades para as quais nos dirigimos. As Nações Unidas preveem que 68% da população morará em cidades em 2050, na Espanha 80% já estão nelas. As cidades são e serão os cenários dos conflitos sociais presentes e futuros.
“Os ricos e pobres estão morando em distâncias crescentes uns dos outros, e isso pode ser desastroso à estabilidade social e ao poder competitivo das cidades”, diz um estudo realizado durante a primeira década deste século por várias universidades europeias (Socio-Economic Segregation in European Capital Cities). Entre as causas estão a globalização, a reestruturação do mercado de trabalho, a diferença de renda, a decadência do Estado de bem-estar social e a mercantilização da moradia. A gentrificação e a turistificação são, além disso, processos que contribuem a essa separação entra as pessoas que, de acordo com suas condições vitais, deixam de conviver com outros grupos diferentes. Se o interessante das cidades era sua condição de caldo de pessoas e culturas, essa característica pode estar chegando ao seu fim.

A centrífuga urbana

As coisas nem sempre foram assim. Na segunda metade do século XIX, como lembra o sociólogo Richard Sennett em seu recente ensaio Construir e Habitar, os edifícios, por mais imponentes que fossem, podiam abrigar oficinas no térreo, depois andares nos quais morava a burguesia e os andares mais altos, que eram piores e menores, em que moravam trabalhadores humildes. Havia contato entre as classes sociais, a segregação ocorria no próprio edifício, nem tanto em escala urbana. Mas com a chegada dos transportes, como o bonde, já não era preciso que as classes populares morassem junto com as mais abastadas. A produção industrial as levou à periferia: “A cidade operava como uma centrífuga que separava especialmente as classes”, escreve Sennett. O elevador (físico, não social) permitiu que os ricos morassem em andares altos sem a necessidade de subir escadas. E agora estão na moda as coberturas de luxo, coisa à época impensável.
Por que a segregação urbana não é desejável? Além das razões relacionadas com a justiça social, existem outras: “A segregação é prejudicial do ponto de vista da inovação, as cidades muito segregadas expulsam os trabalhadores que não podem viver nelas e têm dificuldades para crescer no futuro”, diz Esteban Moro, pesquisador da Universidade Carlos III de Madri e do MIT (Instituto Tecnológico de Massachusetts). A aglomeração da diversidade humana nas primeiras cidades, há 7.500 anos, afirma o ensaísta científico Steven Johnson em seu livro De Onde Vêm as Boas Ideias, foi o que acelerou o processo de inovação com invenções simultâneas como o alfabeto, a moeda, a pavimentação, a roda e a navegação. “Além disso, a segregação impede que algumas pessoas vejam os problemas das outras, e assim é difícil que se peça uma redistribuição da riqueza. As pessoas de rendas mais altas podem chegar a se opor às políticas sociais”, acrescenta Moro.
De fato, o contato traz o carinho e a segregação o anula. De acordo com as pesquisas em neurociência social de Lasana Harris, da Universidade de Duke, e Susan Fiske, de Princeton, (citadas pela jornalista Marta Peirano em seu recente livro O Inimigo Conhece o Sistema), quando não temos contato com outros grupos perdemos a capacidade de empatizar com eles, e até se desativam as áreas cerebrais que se ocupam da compreensão e da identificação. Desumanizamos os diferentes e os preconceitos aparecem.
É verdade que o bairro em que moramos é importante, mas também é verdade que passamos até 80% de nosso tempo fora de casa, de modo que, como Moro descobriu analisando dados obtidos de celulares através de técnicas de big data, os lugares que frequentamos durante o dia também são importantes. É o que demonstra o projeto Atlas da Desigualdade que o pesquisador desenvolve no MIT MediaLab, em que analisa outros fatores da segregação além do local de residência em algumas cidades dos Estados Unidos. Por exemplo, a segregação também ocorre em lojas e restaurantes, em bares, em cabeleireiros, em shoppings, os “terceiros lugares” (cada vez mais relacionados com o consumo, e em decadência em relação às relações digitais) que não são o domicílio e o trabalho. Os ricos e os pobres não frequentam os mesmos.

Distopias segregadas

Os ricos partiram e agora vivem em um satélite artificial, longe da superfície terrestre em que os menos felizardos enfrentam condições pós-apocalípticas de poluição e superpopulação. No satélite dos abastados, por outro lado, a água é abundante, o ar está limpo e se vive com todas as comodidades. Isso ainda não passou à realidade, mas é o enredo do filme de ficção científica Elysium (Neill Blomkamp, 2013) que se passa no ano de 2154. Um retrato da segregação levado ao extremo.
Mas, ainda que pareça extremo, um fenômeno não muito diferente está acontecendo sobre a superfície do planeta. As chamadas gated communities aumentam, principalmente nos países mais desiguais: bairros fechados em que os privilegiados moram cercados de muros, câmeras de vigilância e aproveitando seus próprios serviços. Outro filme retrata uma dessa comunidades, Zona do Crime (Rodrigo Plá, 2007). E indo ainda mais além, onde a realidade iguala a ficção: o movimento seasteading, apoiado por papas do Vale do Silício como Peter Thiel, cofundador do PayPal, pretende criar utopias anarcocapitalistas para ricos em ilhas artificiais (e paraísos fiscais) nas águas do Taiti, não sem escândalo, como denuncia o documentário The Seasteaders, de Jacob Hurwitz-Goodman e Daniel Keller.
Na EspanhaMadri e Barcelona também são amostras de segregação. Em Madri a segregação ocorre notoriamente no eixo norte-sul: na parte noroeste, salvo exceções, estão as rendas mais altas; os tradicionais bairros operários (Vallecas, Usera, Carabanchel etc.) estão abaixo do rio Manzanares, no sudeste. “Na parte norte está o privilégio, no sul a vulnerabilidade”, diz o sociólogo Daniel Sorando, da Universidade Complutense de Madri, participante do estudo pan-europeu citado. De acordo com a pesquisa, Madri é a capital mais segregada da Europa e a segunda em desigualdade social. Em Barcelona, segundo aponta o urbanista Oriol Nel·lo, do departamento de Geografia da Universidade Autônoma de Barcelona, a segregação ultrapassa as divisas da capital catalã e ocorre entre diferentes municípios: Sant Cugat del Vallès não é a mesma coisa do que que Sant Adrià de Besòs.
Nesse tipo de capitais a força que separa as classes sociais é maior, pela constante chegada de visitantes e trabalhadores, muitos deles altamente qualificados, à procura de oportunidades em grandes empresas. A socióloga Saskia Sassen (prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais 2013) batizou esses nodos mundiais de capital e informação de “cidades globais” e, ainda que muitos lugares queiram se transformar em globais, isso não necessariamente beneficiará a maioria de seus habitantes.

O direito à cidade

Nova Agenda Urbana das Nações Unidas, nascida de sua reunião sobre a Moradia e o Desenvolvimento Sustentável Hábitat III, de 2016 (realizada a cada 20 anos), aponta a segregação como um dos grandes desafios das cidades. E pela primeira vez coloca o direito à cidade, um conceito criado pelo filósofo Henri Lefebvre e reivindicado posteriormente pelo geógrafo David Harvey e diferentes movimentos sociais do século XXI.
“As injustiças sociais se refletem em questões espaciais: a segregação, a gentrificação, a especulação se manifestam no modo em que as pessoas vivem”, diz Antonio Campillo, professor da Universidade de Murcia e autor do recente ensaio Um Lugar no Mundo, Justiça Espacial e Direito à Cidade. A precarização tem um componente fundamental, de acordo com o professor, na falta de posse dos meios de vida mais básicos, como a moradia. “O direito à cidade fala de todas as dimensões que permitem levar uma vida digna”, diz o autor; “uma das coisas reivindicadas é a ordenação urbana com critérios de justiça social e ambiental, e a promoção de políticas participativas para que a população seja atora na vida da cidade: a cidade é de todos e é preciso fazê-la entre todos”.
O que mais pode ser feito para aliviar a segregação? “São necessárias políticas que não podem ser só locais, e sim supralocais e de caráter transversal”, diz Nel·lo, “não somente melhorar o espaço público e a acessibilidade, e sim todos os âmbitos da vida da população”. Entre as soluções apresentadas está o investimento em educação, transporte público, mobilidade social e urbanismo, regulamentar o mercado da moradia em áreas tensionadas com preços de aluguel desorbitados, aumentar a moradia social e, principalmente, misturá-la na cidade sem criar guetos. Nesse sentido, a Prefeitura de Barcelona aprovou em 2018 um plano em que qualquer nova promoção imobiliária é obrigada a incluir 30% de moradias acessíveis (as políticas de moradia da Prefeitura receberam em junho o prêmio European Responsible Housing Award). Desse modo, pessoas de diferentes estratos compartilharão escadas e empatizarão.
Fonte: IHU

10 janeiro, 2020

O perigo dia e noite dentro de nossas casas! Redes sociais são mais viciantes que álcool e cigarro



- Redes sociais facilitam o tráfego humano

- Instagram prejudica a mente, prejudica o sono e aumenta o medo dos jovens de ficar por fora dos acontecimentos e tendências

A cada hora, oito pessoas desaparecem no Brasil, dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Entre os desaparecidos crianças e adolescentes. Muitos desses para tráfico humano, e desses um grande número para exploração sexual.

Pesquisas indicam que as redes sociais têm facilitado o recrutamento de vítimas para o tráfico humano.

Redes sociais como Facebook, LinkedIn e outras são amplamente utilizadas para facilitar a intermediação, principalmente para fins de exploração sexual.

Instagram avaliado como o mais prejudicial à mente, Aplicativo tem impacto negativo no sono e na autoimagem principalmente dos adolescentes e jovens, mostra pesquisa.

Estudos mostram que o compartilhamento de fotos pelo Instagram impacta negativamente o sono, a autoimagem e a aumenta o medo dos jovens de ficar por fora dos acontecimentos e tendências.

Redes sociais são mais viciantes que álcool e cigarro – é o que diz a pesquisa realizada pela instituição de saúde pública do Reino Unido, Royal Society for Public Health, em parceria com o Movimento de Saúde Jovem. E, dentre elas, o Instagram foi avaliado como a mais prejudicial à mente dos jovens.

Papa Francisco: É mentiroso quem diz que ama a Deus e não ama a irmã e o irmão




A primeira carta de João, fala do amor, nosso querido papa Francisco explica que o apóstolo, afirmou, entendeu o que é o amor, o experimentou, e entrando no coração de Jesus, entendeu como se manifestou. A sua carta nos diz, portanto, como se ama e como fomos amados.

Francisco explica que o início do amor vem de Deus “Eu começo a amar, ou posso começar a amar, porque sei que Ele me amou por primeiro, nós amamos Deus porque Ele nos amou por primeiro, se Ele não nos tivesse amado, certamente nós não poderíamos amar”.

Para nos levar a entender, Francisco diz Se uma criança recém-nascida, de poucos dias, pudesse falar, certamente explicaria esta realidade: “Sinto-me amada pelos pais”. E aquilo que os pais fazem com o filho, Deus fez conosco: nos amou por primeiro. E isso faz nascer e crescer a nossa capacidade de amar. Esta é uma definição clara do amor: nós podemos amar a Deus porque Ele nos amou por primeiro.

É mentiroso quem diz que ama a Deus e não ama a irmã e o irmão, explica o papa, o apóstolo afirma “Se alguém diz que ama a Deus, mas odeia o seu irmão, é um mentiroso”. O papa vai além e afirma, João não diz que é um mal-educado ou que errou, mas que é um mentiroso, e também nós devemos aprender isto:

Eu amo a Deus, rezo, entro em êxtase e tudo… e depois descarto os outros, odeio os outros ou não os amo, simplesmente, ou sou indiferente aos outros… Não diz “você errou”, mas “você é mentiroso”. E esta palavra na Bíblia é clara, porque ser mentiroso é justamente o modo de ser do diabo: é o Grande Mentiroso, nos diz o Novo Testamento, é o pai da mentira. Esta é a definição de Satanás que a Bíblia nos dá. E se você diz amar a Deus e odeia o seu irmão, você está do outro lado: é um mentiroso. Nisto não há concessões.

Francisco coloca que muitos podem encontrar justificativas para não amar, alguém pode dizer: "Eu não odeio, padre, mas existem tantas pessoas que fazem mal para mim ou que não posso aceitar porque são mal-educadas ou rudes".

E o papa nos remete ao amor indicado por João quando escreve: “Aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê” e afirma: "Se você não é capaz de amar as pessoas, dos mais próximos aos mais distantes com quem convive, você não pode nos dizer que ama a Deus: você é um mentiroso."

Para Francisco o amor "se expressa praticando o bem" no dia a dia, não há somente o sentimento, o ódio, pode existir o desejo de não "se envolver" nas coisas dos outros.

Se uma pessoa diz: "Eu, para estar bem limpo, só bebo água destilada": você morrerá! Porque isso não serve para a vida. O verdadeiro amor não é água destilada: é água todos os dias, com os problemas, com os afetos, com os amores e com os ódios, mas é isso. Amar a concretude, o amor concreto: não é um amor de laboratório. Isso nos ensina o apóstolo, com essas definições assim tão claras. Mas existe uma maneira de não amar a Deus e de não amar o próximo um pouco escondido, o que é indiferença. "Não, eu não quero isso: eu quero água destilada. Eu não me envolvo com o problema dos outros." Você deve, para ajudar, para rezar.

Francisco traz presente uma expressão de São Alberto Hurtado, que dizia: "É bom não fazer o mal; mas é mal não fazer o bem”. O verdadeiro amor "deve levar a praticar o bem (...), a sujar as mãos nas obras de amor". Não é fácil, mas por esse caminho de fé existe a possibilidade de vencer o mundo, a mentalidade do mundo que "nos impede de amar."

Papa Francisco apresenta o cominho “aqui não entram os indiferentes, aqueles que lavam as mãos dos problemas, aqueles que não querem envolver-se nos problemas para ajudar, para fazer o bem; não entram os falsos místicos, aqueles com o coração destilado como a água, que dizem amar a Deus, mas não amam o próximo".

"Que o Senhor nos ensine estas verdades: a segurança de termos sido amados por primeiro e a coragem de amar os irmãos".

09 janeiro, 2020

Morte e Vida Severina | Animação - Completo




Morte e Vida Severina em Desenho Animado

Morte e Vida Severina em Desenho Animado é uma versão audiovisual da obra prima de João Cabral de Melo Neto, adaptada para os quadrinhos pelo cartuinista Miguel Falcão. Preservando o texto original, a animação 3D dá vida e movimento aos personagens deste auto de natal pernambucano, publicado originalmente em 1956.

Em preto e branco, fiel à aspereza do texto e aos traços dos quadrinhos, a animação narra a dura caminhada de Severino, um retirante nordestino, que migra do sertão para o litoral pernambucano em busca de uma vida melhor.

Antidepressivos


Campanha da Fraternidade Ecumênica em 2021


A CF 2021 já tem tema e lema e será ecumênica

Tema: “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”
Lema: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade”, Ef. 2.14.

A primeira Campanha da Fraternidade Ecumênica foi realizada em 2000, com o tema “Dignidade humana e paz” e lema “Novo milênio sem exclusões”.

 A segunda, em 2005, abordou “Solidariedade e Paz” e “Felizes os que promovem a paz”.

A Campanha de 2010 tratou da “Economia e Vida”, a partir do lema “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”.

A última Campanha da Fraternidade Ecumênica realizada pela CNBB e pelo Conic foi em 2016 com tema “Casa comum, nossa responsabilidade” e lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5.24), com foco no saneamento básico, desenvolvimento, saúde integral e qualidade de vida aos cidadãos.

Fonte dos dados: CNBB


08 janeiro, 2020

“Ateu corrompido” é dedicada a Dom Helder Câmara, pelas comemorações de seus 80 anos.




Ateu corrompido - Alceu Valença

Eu vinha descendo a ladeira
E ouvi no sussurro do vento
Que a vida se dá por inteiro
Ao homem que é só sentimento

Descendo a ladeira
Da Igreja da Sé
Ateu comovido
Em busca de fé

Fé em Deus, fé na terra, nos astros
Nos riachos, nas matas, nos lagos
No trabalho, fé nos sindicatos
Fé nos búzios, nas conchas do mar

07 janeiro, 2020

O evangelho dessa terça-feira, 07/01/2020 - Marcos, 6,34-44


Naquele tempo:
Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas.
Quando estava ficando tarde, os discípulos chegaram perto de Jesus e disseram:
'Este lugar é deserto e já é tarde.
Despede o povo, para que possa ir aos campos e povoados vizinhos comprar alguma coisa para comer.'
Mas, Jesus respondeu:
 'Dai-lhes vós mesmos de comer.'
Os discípulos perguntaram:
'Queres que gastemos duzentos denários para comprar pão e dar-lhes de comer?'
Jesus perguntou:
'Quantos pães tendes? Ide ver.'
Eles foram e responderam:
'Cinco pães e dois peixes.'
Então Jesus mandouque todos se sentassem na grama verde, formando grupos.
E todos se sentaram, formando grupos de cem e de cinqüenta pessoas.
Depois Jesus pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu,
pronunciou a bênção, partiu os pães e ia dando aos discípulos, para que os distribuíssem.
comeram, ficaram satisfeitos, 43e recolheram doze cestos cheios de pedaços de pão e também dos peixes.
O número dos que comeram os pães era de cinco mil homens.
Palavra da Salvação.


"Opinião: CEBs, Comunidades Eclesiais de Base missionárias"



Em 2019, percorremos as Regiões Pastorais da Arquidiocese de Maringá, o texto base foi o evangelho de hoje. Veja a síntese:

"Opinião: CEBs, Comunidades Eclesiais de Base missionárias"

Abrir-se a situações novas, assumir novos riscos, insistência com uma boa dose de carinho, ternura e paixão. Isso é lindo. Em vez de medo, saborear o risco, os desafios, o perigo e a ousadia.

Temos a certeza de que a evangelização é uma obra coletiva, as Comunidades Eclesiais de Base, através do Conselho Pastoral, os CPCs devem ser elo de comunhão e animadores do caminho de evangelização, fomentando a arte da denúncia e do anúncio sobre a figura do profeta, assim, o profetismo implica ato de denúncia da realidade dura, opressora, discriminadora e que nega a vida em sua integralidade, bem como no ato do anúncio de uma vida transformada que se da ao conhecer Jesus e com Ele fazer lindas experiências.

Para tanto, uma Comunidade Eclesial de Base toda missionária em saída se faz necessária.

Procuramos juntos trilhar, iluminados pelo evangelho de Marcos 6, 31-44, Atos dos Apóstolos 2, Ezequiel capítulo 37 e as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2019-2023, orientações comuns e claras para todas as Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs.

Confirmamos um caminho que já estamos trilhando, procurando responder aos desafios atuais que exigem “uma Igreja missionária toda em saída”, como reafirma o Papa Francisco. Não há ruptura entre a missão de Jesus e a nossa. O ministério de Jesus se prolonga no testemunho de suas seguidoras e dos seus seguidores.

Abrir-se a situações novas, assumir novos riscos, insistência com uma boa dose de carinho, ternura e paixão. Isso é lindo. Em vez de medo, saborear o risco, os desafios, o perigo e a ousadia.

É assim que precisam ser os Conselhos Pastoral das CEBs.  Assumir a frase dita por Jesus aos discípulos: “Vocês é que têm de lhes dar de comer”, estar atento à realidade local, daí vem o protagonismo dos CPCs, da responsabilidade amorosa pelo cuidado das pessoas e o anúncio do Evangelho. Para tanto, a pauta da reunião de um CPC tem que ir além dos itens enviados pelo Conselho Pastoral Paroquial, precisa refletir sua realidade local e lançar as redes.

“A Igreja ‘em saída’ é a comunidade de discípulos missionários que ‘primeireiam’, que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam. A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor e, por isso, ela sabe ir à frente, tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos.

Vive um desejo inesgotável de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a Sua força difusiva (...) Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se até a humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo” (Evangelli Gaudium).

As CEBs, a casa da Palavra, do Pão, da Caridade e da Ação Missionária. Sair, ir ao encontro das famílias, para sentir quanto que elas são humanas, sentir sua fragilidade, ser uma porta de esperança “ir ao encontro das famílias, com atenção especial e ternura de quem coloca uma ovelha ferida no colo” (DGAE). Isso é muito profundo.

Para as famílias feridas, elas encontram apoio em Deus na comunidade com outras famílias. Para muitas famílias o amor era vivido pelo dever, dever de dar comida, dar estudo, entre outros. Essas famílias também vieram de famílias sem afeto e ternura. Muitos experimentaram o afeto e a ternura no grupo de jovens, na comunidade, levando-as a viver esse afeto e ternura na família, fortalecendo o laço de dever e ternura antes não vividos. Com a comunidade aprendem a dialogar.

Percebemos que muitas famílias, movidas pelo dever, mesmo sem afeto e carinho mantiveram unidas e superaram, outras não conseguiram e fracassaram, dores e sofrimento.

Muitas famílias não sentem esse amor com Deus, experiência para poder superar as feridas e serem mais fortes e muitas não alcançam essa experiência antes de fracassar e vão vivendo experiências difíceis, duas, três uniões.

Mas nem por isso as famílias deixam de ser parte do Plano de Deus. O amor de Deus pode curar as minhas, as suas e as feridas das famílias.

O Evangelho de Mateus e Lucas relata a genealogia de Jesus, história de geração a geração até chegar a Jesus. Ao resgatar a genealogia de Jesus, percebemos famílias com marcas doloridas, problemas e conflitos, famílias muita humana, com ideal de amor, mas também com situações difíceis e desafiadoras.  E nem por isso Deus desistiu delas, com elas forma o povo de Israel.

Somos chamados, as Comunidades Eclesiais de Base são chamadas a comprometerem-se, porque é a Igreja que mais está perto das famílias. Deus confia as Famílias às CEBs. Hoje é preciso perguntar: CEBs, como estão às famílias?

As CEBs como sendo a Igreja mais perto das famílias precisam continuar sendo o canal de esperança para recuperar as famílias que precisam ser recuperadas, ser o sustento para manter aquelas que estão bem.

Canal de esperança, que acolhe sem julgamento; que se faz próximo para acompanhar, para alcançar discernimento, caminhos e integrar as famílias na comunidade, conforme pede o Papa Francisco na exortação Amoris Laetitia, sobre o amor na família.

Que as CEBs não se intimidam ao ouvir “santo de casa não faz milagre”, “para mudar tem que ser com gente de fora”, porque as pessoas conhecem nossas fraquezas e fragilidades. E a pergunta: Santo de fora faz milagre? Quem transforma a realidade é Deus. Santos amparam com seus exemplos e orações.

Nós também e as CEBs também, apoiamos, nos colocamos à disposição de Deus, nossa fé e nossa vida. Maria foi capaz de ver a água transformar em vinho porque acreditou. As CEBs precisam assumir e estar a serviço das famílias.

Quem esta mais perto é o responsável, mas não só perto, estar aberto para Deus conduzir. O primeiro responsável é quem esta mais perto e consciente da tarefa. As CEBs precisam criar mecanismos, meios para encorajar as pessoas a estarem a serviço da família que mais perto dela geograficamente está e Deus dá os meios e a força. Encorajar as pessoas, não baseado em cobranças, afirmar e motivar que podemos fazer. Deus vai ajudar, vamos conseguir!

As CEBs não podem se fechar diante das novas configurações familiares seja elas homoafetivas ou não. Essas configurações ameaçam a configuração mais de acordo com a fé judaica cristã. Não cabe às CEBs julgar. É preciso postura de abertura, acolhida, acompanhamento e discernimento comunitário, pelo Conselho Pastoral da CEB, o CPC, pelo Conselho Pastoral Paroquial, o CPP e o padre, para integrar, essa deve ser a postura.

As CEBs precisam continuar sendo uma Igreja em saída, que “primeireiam”, que se envolve, que acompanha, que frutifica e festeja (EG 24). Não se intimidar. “Ousemos um pouco mais no tomar iniciativa!”, como nos pede papa Francisco na Evangelii Gaudium.

Lucimar Moreira Bueno (Lúcia)
Assessora das CEBs na Arquidiocese de Maringá

O texto encontra-se publicado no site da Arquidiocese de Maringá e CEBs do Brasil




06 janeiro, 2020

As CEBs e as “Comunidades Missionárias”


por Celso Pinto Carias

(Assessor da Ampliada Nacional das CEBs e do Setor CEBs da CNBB)

As novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil / 2019-2023 – DGAE – (Documento 109) apresentam uma necessidade pastoral chamada pelo documento de comunidade eclesial missionária. Após o primeiro momento de recepção e depois da realização do Sínodo para a Amazônia, podemos agora nos debruçar sobre esta proposta pastoral com mais tranquilidade.


O documento reflete, nitidamente, um grande esforço para celebrar a comunhão eclesial. Usa de imagens significativas: comunidade missionária, Palavra, Pão, Caridade e Ação missionária. E pela primeira vez as diretrizes enfrentam, de forma mais contundente, o desafio da realidade urbana. Contudo, como se costuma afirmar na tradição eclesial católica, fica o desafio da recepção.

Nossa perspectiva, quanto às diretrizes atuais, é a de que elas possam permitir uma tomada de consciência na direção da complexidade do trabalho pastoral de evangelização na realidade histórica do século XXI, afim de não cair em propostas superficiais. Trata-se, como tem afirmado continuamente o Papa Francisco, de instalar processos. Possivelmente, daqui a quatro anos, se possa partir para uma realização mais prática de sugestões que repercutam com mais efetividade no interior da vida eclesial.

Na reflexão aqui apresentada o objetivo é modesto, mas relevante se queremos, de fato, levar em consideração a complexidade sob a qual se assenta o trabalho pastoral em nossos dias. Se desejamos ser Igreja em Saída e se queremos construir a unidade, será preciso colocar em prática a sinodalidade, isto é, caminhar juntos para que não haja uma padronização dos caminhos pastorais na direção de projetos uniformizadores. Projetos que podem não levar em consideração à rica e saudável diversidade espiritual da Igreja Católica e que podem cair na autorreferencialidadade e no clericalismo que também tanto o Papa Francisco tem falado.

Embora, por exemplo, o documento 109 traga de volta o conceito de comunidade com força, fato que na tradição latino americana vinha desde Medellin, ele precisará ainda ser aprofundado nos próximos anos, pois houve uma perda do vigor sinodal que esta forma de organização da vida eclesial representa para enfrentar os desafios do mundo de hoje, sobretudo das culturas urbanas. Neste sentido, foi uma pena que não se aproveitasse a experiência que as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) acumularam nas últimas décadas.

Na conjuntura atual estamos vivendo o temor de certos conceitos sem esgotarmos os seus verdadeiros significados. A acusação de ideologização é apressada e vigorosa, trazendo uma suspeita injustificada, pois predomina até mesmo o desconhecimento do conceito. Na onda da pós-verdade, das fake news, etc., o que antes era visto de forma crítica agora pode ser vista como demoníaca. Até mesmo o Papa Francisco, no interior da Igreja Católica, tem sido alvo deste temor. E pior, muitas vezes quem faz os ataques se considera puro do ponto de vista ideológico. Percebemos, nas entrelinhas do documento, certo temor em desagradar quem não considera as CEBs uma expressão legitima da ação evangelizadora da Igreja, embora diversos documentos magisteriais tenham reconhecido as mesmas. Para citar apenas um documento, entre tantos, bastaria o número 51 da Redemptoris Missio de São João Paulo II, onde se afirma que elas são um sinal de vitalidade da Igreja.

Porém, no limite espacial destas linhas, vamos apontar três conceitos que, a partir do 109, merecem ser aprofundados: missão, culturas urbanas, e comunidade missionária.

Missão. As DGAE apresentam, evidentemente, fundamentação teológica para refletir sobre a missão. Destacamos, como exemplo, os números 18, 23, e 36, entre outros. Porém, há uma afirmação no 36 que deveria guiar o conjunto das reflexões: Toda comunidade cristã é essencialmente missionária, “Igreja em saída”.

Avaliamos que ainda não se retirou suficientemente os elementos fundamentais de uma teologia da missão a partir do Concílio Vaticano II. Predomina-se uma perspectiva quantitativa, isto é, aumento de fiéis, ou mesmo de certa “burocracia” sacramental. O documento não acentua tal perspectiva, mas quando não leva em consideração tal realidade corre o risco de ser interpretado nesta direção. Evidentemente também que não se deve considerar o expansão numérica de fiéis como algo ruim, mas este não pode ser o assento principal.

Para alargar as possibilidades de reflexão, trazemos aqui alguns pontos que o saudoso teólogo José Comblin fez ainda pelos idos de 1973, em um pequeno livro intitulado justamente de Teologia da Missão. É simplesmente extraordinária a atualidade desta obra. Ela repercute a tentativa de ler os sinais dos tempos como indicou São João XXIII na abertura do Concílio Vaticano II. Temos tido muita dificuldade para ler estes sinais e renovar a Igreja na linha de responder os desafios oriundos da mudança de época pela qual estamos passando. Geralmente respondemos perguntas novas com respostas velhas. Às vezes as respostas até parecem boa, mas são superficiais e não vão até as raízes da realidade cultural (EN 20).

Vamos recordar alguns assentos importantes de Comblin. É preciso recordar sempre que a igreja vem depois da missão e não antes. A missão é de Jesus Cristo. Ninguém deveria se colocar no processo missionário sem um profundo enraizamento no Projeto do Nazareno. Um ponto de partida fundamental é a ação do Verbo na história, isto é, Deus que vem ao encontro das pessoas. Portanto, missão é antes de mais ir ao encontro das pessoas na situação em que elas se encontram. Diz Comblin: Jesus Cristo veio para dirigir a palavra a Pedro, João, André e a todos os Pedros, Joões, Antônios ou Severinos da História. Hoje certamente o nosso teólogo acrescentaria nomes femininos também: Antônias e Severinas. Enfim, poderíamos resumir dizendo que o papel da Igreja não é levar os seres humanos para Deus, mas trazer Deus para os seres humanos.

A missão é força e fraqueza. Quando caímos na tentação do poder dominador com o mais belo dos objetivos que é levar a Boa Nova de Jesus, corrompemos a estrutura fundamental do agir de Deus. Quanto sofrimento, por exemplo, tem causado a questão da pedofilia? Assim, mesmo que demore, um dia os alicerces caem, pois será uma casa construída sobre areia. E a missão é antes de qualquer coisa uma ação testemunhal. São Paulo VI repete por seis vezes a necessidade do testemunho na Evangelli Nuntiandi (ns. 6, 15, 21, 26, 41 e 76). No 41 o Papa reconhece a repetição, mas insisti: E antes de mais nada – sem querermos repetir tudo aquilo já recordado anteriormente – é conveniente realçar isto: para a Igreja, o testemunho de uma vida autenticamente cristã, … Por fim, a missão exige que não levemos nem ouro, nem prata, nem alforge, nem duas túnicas, nem sandálias e nem cajado (Mt 10,10). Não se pode pensar a missão em termos de poder, mas somente em termos de serviço.

Ao longo da recepção das DGAE deveremos aprofundar o caráter intrinsecamente missionário da Igreja em todas as dimensões nas quais a missão se realiza. Precisaremos de um processo pedagógico que leve em consideração os mecanismos pelos quais a sociedade funciona. E aqui a questão das culturas urbanas merece grande atenção. Esta é uma questão sem volta. Desejos de retorno ao passado não vão conduzir a Igreja em uma direção missionária adequada.

Culturas urbanas. A questão urbana vem sendo apresentada como um desafio há bastante tempo. Ao final do Concílio Vaticano II já começou a aparecer algumas reflexões de bispos, teólogos e sociólogos. Podemos citar um documento elaborado em 1980, mas preparado no final dos anos 70, produzido pelos bispos do Regional Sul 1 da CNBB: Pastoral de Comunidades e Ministérios, no qual já se fala desta realidade. Por sinal, também consideramos o documento de uma enorme atualidade. Parece que retrocedemos desde então.

Contudo, de forma mais orgânica, é a primeira vez que as Diretrizes enfrentam a questão. Sem dúvida há uma complexidade na temática. No Objetivo Geral se fala de evangelizar no Brasil cada vez mais urbano. Na verdade, a questão urbana não pode mais ser reduzida a dimensão territorial. Trata-se de uma mentalidade com consequências em diversos níveis, inclusive o territorial naturalmente. Hoje não podemos mais separar o mundo rural do urbano.

As Diretrizes avançam quando reconhecem e trabalham a perspectiva urbana em relação ao trabalho pastoral. No entanto, como já dito, será necessário um olhar mais penetrante para dentro da realidade urbana. Apenas para exemplificar, como podemos fazer chegar a Palavra, os valores, os princípios fundamentais da vida cristã, no contexto de grandes metrópoles onde o direito a cidade é negado de forma ostensiva e desumana? Falemos somente do direito ao descanso semanal, que tradicionalmente é o Domingo. Precisaríamos de muitas páginas se quiséssemos enfrentar honestamente esta questão.

A questão do direito à cidade é fundamental no processo de ocupação urbana. Para nós é uma diretriz cujo exercício está associado ao conjunto dos Direitos Humanos. Contudo, as cidades, no atual estágio das relações capitalistas, tornaram-se um grande balcão de negócios. O caso típico de Barcelona na Espanha, que é citada predominantemente como um bom exemplo, não se configura exatamente como os arautos de tal posição apregoam. Os mais pobres estão sendo excluídos do direito fundamental de usufruir dos avanços construídos em grandes eventos, e são tratados como cidadãos de segunda categoria. No Brasil este fator é mais grave. E a causa não pode ser reduzida apenas ao mercado imobiliário, mas sobretudo ao modo como se pensa a cidade. Como diz Raquel Rolnik, urbanista que muito tem nos ajudado nesta reflexão, “a cidade inclui sem incluir”. Por quê? Na verdade, em nome de uma modernização dos grandes centros urbanos, empurram-se os mais pobres cada vez mais longe de seus postos de trabalho e de atendimentos humanitários básicos. Até mesmo a escola pode não estar perto de casa. Os mais pobres não têm acesso aos equipamentos sociais e culturais produzidos nessas reformas urbanas. Portanto, é uma questão eminentemente política. Imaginar que se possa evangelizar abstraindo a realidade na qual o ser humano está envolvido seria como tratar depressão como uma mera situação de força de vontade.

Ora, assim sendo, uma pastoral centralizada em matrizes paroquiais que estão longe da vida cotidiana do povo abrem espaço para as pessoas estarem em comunidades religiosas que se aproximem de sua vida seja qual for a denominação, ou até mesmo de tradições não filiadas diretamente ao cristianismo. Também é uma realidade que pode ser usada, justamente por não se perceber a dimensão política da mesma, até mesmo por grupos criminosos. Favelas, morros, periferias das periferias, cortiços, ou mesmo condomínios de classe média, muitas vezes não possuem presença significativa de agentes de pastoral católicos. E agentes que possam ter um mínimo de condição humana para tratar com gente.

As DGAE 2019-2023 inclusive não usam com o devido rigor o conceito de individualidade. O aprofundamento da dimensão individual na modernidade, do ponto de vista antropológico, não foi algo ruim, muito pelo contrário. Foi e é uma critica de coletivismos que passavam por cima da subjetividade humana. Agora, o individualismo sim é um problema. Porém, o documento não faz uma boa distinção entre estes dois conceitos (ex. 49 e 53).

Portanto, temos muito ainda a refletir se queremos alcançar a realidade social onde de fato as pessoas estão. Muitas vezes na Igreja Católica começamos a enfrentar os problemas, mas corremos o risco de não dar continuidade. Estas diretrizes, por exemplo, precisariam estar em profunda sintonia com o Documento 100: Comunidade de Comunidades: uma nova paróquia.

Para enfrentar o desafio das culturas urbanas a vida comunitária é fundamental. Diversos setores da sociedade têm percebido, até mesmo pessoas sem adesão religiosa estão percebendo isso. Um grande exemplo são as chamadas ecovilas, lugares de consciência ambiental e comunitária. E aqui a experiência cristã tem uma longa tradição que não pode ser engolida, aí sim, pelos individualismos e subjetivimos de uma lógica da concorrência religiosa onde os indivíduos, homens e mulheres, crianças e jovens, podem ser reduzidos a consumidores e clientes, ou mesmo reduzidos a escravos do desempenho, sem tempo para nada, e que pode levar, como diz o filosofo Byung-Chul Han, no livro Sociedade do Cansaço, a um infarto da alma.

Comunidades missionárias. Como já foi indicado, o documento afirma que toda comunidade cristã é essencialmente missionária. Assim sendo, o que seria propriamente uma comunidade missionária? Aqui também está um conceito que vai merecer maiores esclarecimentos nos próximos anos.

Entendemos perfeitamente que o desafio da realidade urbana nos convoca para uma ação missionária para a qual não temos todas as respostas. A missão se torna um imperativo fundamental se pretendemos, como fez o cristianismo em outros tempos, inculturar o Evangelho neste novo cenário civilizatório que se apresenta. Sem dúvida, será preciso chamar a atenção para um estado permanente de missão. Neste sentido, compreende-se que a comunidade eclesial missionária, sustentada pelos pilares da Palavra, do Pão, da Caridade e, especificamente, da Ação Missionária, seja um norteador pastoral que possa nutrir planos de ação que respondam as necessidades do mundo de hoje.

Nos capítulos 3 e 4 da DGAE se procura dar indicativos para que haja uma ação eclesial que concretize o objetivo geral da mesma. Mas será necessário especificar melhor o modo operacional de um fazer pastoral que reconheça a diversidade das espiritualidades e das organizações eclesiásticas. Não se pode reduzir esta ação a um único modelo, como por exemplo, o pentecostal. Seria traição à tradição católica.

Precisaremos estar abertos a um diálogo que contemple a larga experiência latino-americana, entre as quais se encontram as Comunidades Eclesiais de Base. Compreendemos que as diretrizes não fazem oposição entre comunidades missionárias e comunidades de base. Mas quando não se leva em consideração a diversidade pastoral que enriqueceu a Igreja, inclusive missionariamente falando, com multiplicação de comunidades em vários contextos, e não somente rural, mas também em periferias de cidade, corre-se o risco de cair naquilo que Papa Francisco tanto tem chamado de autorreferencialidade.

O Documento 100 já preconiza a necessidade das paróquias atuarem como rede. Preconiza a descentralização das matrizes para valorizar as comunidades, sejam territoriais, sejam ambientais. No número 319 faz uma série de sugestões que em muitos lugares ainda não se percebeu que aí está um caminho.

Ora, lembrando de novo o limite espacial deste texto, não é possível falar de comunidades eclesiais missionárias, se não for resgatado uma forma de viver a fé cristã que possibilite experimentar a vida no contexto onde ela se encontra e aí verificar que “Deus habita a cidade”. Mergulhados/as na dinâmica da urbanidade, seja no interior ou na metrópole, em uma luta pela sobrevivência que pode nos adoecer a ponto de acreditarmos, contrariamente aos princípios fundamentais do Caminho de Jesus Cristo, que a violência pode ser uma saída, que ódio é uma experiência legitima, que existem pessoas que podem ser humilhadas e perseguidas por viverem de modo diferente de nós, então estaremos muito longe do que São Paulo VI nos disse sobre evangelização e que agora o Papa Francisco nos recordou, de forma brilhante, na Evangelli Gaudium.

E aqui uma Igreja toda ela ministerial se torna, como nos primeiros anos do Caminho, uma característica tremendamente atual para responder aos desafios do mundo de hoje. E aqui as CEBs tem o seu lugar. Que possamos responder aos desafios com o critério paulino: Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus (Fl 2,5).

Já não estamos na cristandade!


“Irmãos e irmãs, já não estamos na cristandade! Já não somos os únicos que produzem cultura, nem os primeiros nem os mais ouvidos”, afirma o papa Francisco


“Estamos a viver, não simplesmente uma época de mudanças, mas uma mudança de época. Encontramo-nos, portanto, num daqueles momentos em que as mudanças já não são lineares, mas epocais; constituem opções que transformam rapidamente o modo de viver, de se relacionar, de comunicar e elaborar o pensamento, de comunicar entre as gerações humanas e de compreender e viver a fé e a ciência. Muitas vezes acontece viver a mudança limitando-se a envergar um vestido novo e, depois, permanecer como se era antes. Lembro-me da expressão enigmática que se lê num famoso romance italiano: «Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude» (Il Gattopardo, de Giuseppe Tomasi de Lampedusa)”, afirma o papa Francisco no memorável discurso à Cúria Romana, proferido no dia 21-12-2019.

Segundo o papa, “a humanidade chama, interpela e provoca, isto é, chama a sair para fora e não temer a mudança”.

E Francisco adverte contra “a tentação de assumir a atitude da rigidez. Esta nasce do medo da mudança e acaba por disseminar estacas e obstáculos pelo terreno do bem comum, tornando-o um campo minado de incomunicabilidade e ódio. Lembremo-nos sempre de que, por trás de qualquer rigidez, jaz um desequilíbrio. A rigidez e o desequilíbrio nutrem-se, mutuamente, num círculo vicioso. E hoje esta tentação da rigidez tornou-se tão atual”.

Eis o discurso.
«E o Verbo fez-Se homem e veio habitar connosco» (Jo 1, 14).

Queridos irmãos e irmãs!

Para todos vós, as minhas...continue lendo, clique AQUI

Campanha da Fraternidade 2020 - VÍDEO OFICIAL - CNBB





Campanha da Fraternidade 2020
Vídeo oficial
Fraternidade 2020
Tema é “Fraternidade e vida: dom e compromisso”
Lema “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33-34)

O vídeo apresenta experiências de cuidado com a vida em suas
várias dimensões encontradas Brasil afora e poderá ser utilizado para auxiliar
as reflexões sobre a temática proposta pela Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil (CNBB) para a Quaresma de 2020.

Segundo a editora Edições CNBB, que prepara os materiais da
Campanha da Fraternidade, o vídeo oferece um panorama completo, com todo o
referencial necessário “para viver, difundir e praticar os preceitos desta
edição da CF”. E, neste ano, não será colocado um DVD à venda, mas oferecido
diretamente às comunidades.

“Além de uma abordagem fundamentada para cada um dos pilares:
‘Viu, Sentiu e Cuidou’, o vídeo auxiliará nossas comunidades na divulgação e
aprofundamento do tema e do lema da Campanha, bem como na assimilação da
relevância do assunto para a nossa sociedade”, lê-se na descrição do vídeo no
Youtube. Os pilares citados nesta explicação referem-se à parábola do Bom
Samaritano, que inspira e ensina o compromisso de cuidar do dom da vida.

O secretário executivo de Campanhas da CNBB, padre Patriky
Samuel Batista, ressalta as diversas ações de cuidado em favor da vida promovidas
pela Igreja em várias partes do Brasil e também “as diversas situações onde a
vida tem sido descuidada e necessita de uma intervenção evangélica fruto de um
coração convertido pela Palavra de Deus”.

O vídeo intercala experiências de cuidado com a vida com
frases de Santa Dulce dos Pobres, segundo padre Patriky, “a grande inspiradora,
boa samaritana para os dias atuais”, exemplo de que “Vida doada é vida
santificada”.



Fonte: CNBB

04 janeiro, 2020

EPIFANIA: Deus se manifesta sempre, mas a partir de dentro



“Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande” (Mt 2,10)

O relato evangélico deste domingo é desconcertante: o Deus, escondido na fragilidade humana, não é encontrado pelos que vivem instalados no poder ou fechados na segurança religiosa. Ele se deixa revelar àqueles que, guiados por pequenas luzes, buscam incansavelmente uma esperança para o ser humano, na ternura e na pobreza da vida.

Para além da intencionalidade do evangelista Mateus, o texto contém um profundo simbolismo, carregado de sabedoria. Tudo começa com uma “estrela”. É a luz interior (intuição, insight) que desencadeia o processo de busca e nos põe a caminho. Pode aparecer de maneira inesperada, em qualquer momento e, com frequência, costuma surgir numa situação de crise que, ao remover nossos hábitos, faz com que nos abramos a uma dimensão mais profunda.

Estar a caminho de Belém é fazer a travessia em direção a nós mesmos. Ao buscar uma Criança na Gruta, buscamos nossa verdade mais profunda e original, a verdade interna da alegria e do amor, do sentida da vida, em meio a um mundo no qual a maioria só parece buscar coisas externas, afastando-se de si mesmos. A luz que aqui importa é a tua, a nossa, a minha, ou seja, a de Deus que ilumina o caminho da vida, que nos leva até Jesus e com Jesus nos leva ao Reinado do Pai, que é a plenitude de nossa própria vida.

Peregrinos somos todos, mas não em guerra de estrelas (star-wars) e sim em um caminho messiânico que leva ao ouro, incenso e mirra de Belém, que é o sinal da verdade da vida. Trata-se sempre da voz do desejo que nos habita, e que não é outra coisa que expressão de nossa verdadeira identidade que nos chama para “voltar à casa”. Com efeito, o caminho no qual o desejo nos introduz é o caminho da verdade; a estrela sempre conduz à verdade. E sabemos ou intuímos que a verdade vai nos desnudar de tudo aquilo que havíamos absolutizado. Por esse motivo, é importante que nos perguntemos se realmente buscamos a verdade..., ou nos conformamos com qualquer coisa que a substitua.

A estrela não tem outra finalidade que a de conduzir-nos à “casa”, nossa gruta interior. Mas, apenas iniciamos o caminho, aparecem as dificuldades: os apegos que não estamos dispostos a soltar, as formas de viver que se fizeram habituais, o medo do incômodo que toda mudança supõe, o susto diante do desconhecido... e, em último termo, a ignorância básica que nos faz acreditar naquilo que não somos e nos mantém acomodados na noite da insatisfação existencial.

Os Magos (sábios) do Oriente são símbolo do ser humano em sua busca de Deus, em seu desejo de infinito e plenitude. Esta é a “impressão digital” de artista que Deus deixou em todos nós: a saudade do divino, do sublime, do infinito, do pleno, do Outro.

A estrela simboliza a força dos desejos mais profundos do ser humano (no latim, a palavra desejo “de-sid-erium”, contém a raiz “sid”: sideral, firmamento, horizonte). Portanto, quem deseja transgride as estreitas fronteiras da vida e se deixa conduzir para além de si mesmo; quem não ativa os desejos profundos, limita-se a vegetar, a cercar-se de proteção, a buscar segurança... atrofiando a própria existência. Só os nobres desejos, presentes em nosso interior, alimentam o espírito de busca, acendem a criatividade e nos movem ao encontro do novo e do diferente.

Se levássemos a sério o movimento de “saída” dos Magos, muitas coisas poderiam mudar: o interior de nós mesmos, nosso entorno mais próximo, a estrutura social, as igrejas, as religiões, a ecologia... O “quê” da questão não está nos verbos senão no sujeito ativo que gera o ato de sair, buscar e encontrar.

Como os Magos, precisamos ativar a capacidade de abrir a janela que nos conecta com a vida dos outros e nos permite continuar interessados, com paixão e com lucidez (para ter boas fontes de informação), por tudo aquilo que está ocorrendo em nosso convulsionado mundo. Visitar ambientes que talvez nunca tivemos ocasião de conhecer, sair de nossos espaços rotineiros e conhecidos, abrir-nos às surpresas da vida...

Os Magos perguntam àqueles que podem ajudá-los. Hoje precisamos dialogar com mais profundidade.

Todo ser humano é aventureiro por essência; com ardor, ele anseia por uma causa última pela qual viver, um valor supremo que unifique a multiplicidade caótica de suas vivências e experiências, um projeto que mereça sua entrega radical. Para dar sentido à sua vida e realizar-se como pessoa, o ser humano necessita da autotranscedência, isto é, viver para além de si mesmo, de seus impulsos, caprichos, interesses.

Ele carrega dentro de si a sede do infinito, a criatividade, a capacidade de romper fronteiras, os sonhos, a luz... Portador de uma força que o arrasta para algo maior que ele, não se limita ao próprio mundo; traz uma aspiração profunda de ser pleno, de realização, de busca do “mais”...

O desejo do encontro é força determinante para se manter acesa a chama da dinâmica da busca. É uma chama que se mantém acesa em proporção ao sentido e à grande importância de quem ou do que se busca. Vale a pena buscar o que é importante e encontrar Aquele que responde às razões mais profundas da busca.

Os Magos ensinam como devemos nos mobilizar para viver esse deslocamento (geográfico, interno, social...) para acolher intensamente a surpresa do encontro: caminham em busca, observam os sinais com atenção, desfrutam o trajeto com alegria, porque a alegria consiste em caminhar para o outro, entram no lugar onde Maria já oferece o ambiente aberto... É interessante notar este detalhe do texto do evangelho: “viram o menino com Maria, sua mãe” (v. 11); tudo indica que o tinham em frente, no centro, como o mais importante. Maria põe o Filho fácil de ser encontrado. Nem sequer perguntam por Ele, já o descobrem imediatamente. Não estabelecem diálogo com a mãe. Vão mudos e diretos ao objetivo. Podemos aqui intuir o regozijo de Maria, pois sua felicidade é que a humanidade descubra seu Filho como ela o descobriu.

Uma vez dentro, os visitantes se prostram, se abaixam, reconhecem, identificam, adoram. Em seguida abrem seus cofres e oferecem seus presentes. O relato diz que os magos levaram ouro, incenso e mirra. A meta, para a qual aponta a voz do desejo, requer desapego e desprendimento de nossos “tesouros”. E isso só é possível quando compreendemos que aquilo à qual nos havíamos apegado se esvazia diante da verdade d’Aquele diante de quem estamos.

Procuremos, neste dia festivo, seguir os passos do processo de busca-encontro-manifestação que os Magos experimentaram. Eles buscavam o Rei dos judeus porque “viram sua estrela”, e o encontram em um menino, em casa, com sua mãe, Maria. Descobrem o divino no humano mais frágil. Este é o núcleo da mensagem do relato da Adoração dos Magos. O divino está no humano. Quanto mais humano mais divino.

Como os Magos, também nós somos buscadores de Deus. E, como eles, devemos nos perguntar: a quê Deus buscamos? Onde o encontraremos? Como é possível saber que de fato o encontramos?

A Epifania consiste no encontro com Recém-nascido em Belém; o reconhecimento recíproco transforma os Magos em testemunhas vivas da Boa-Nova. Transformados, eles mesmos se tornam Boa-Nova e assim anunciam, em diálogo vivo, a Luz das nações.

Epifania é deter-nos a contemplar aquela Criança, o Mistério de Deus que se faz homem na humildade e na pobreza; mas é, sobretudo, acolher de novo em nós mesmos aquele Menino, que é Cristo Senhor, para viver de sua mesma vida, para fazer que seus sentimentos, seus pensamentos, suas ações, sejam nossos sentimentos, nossos pensamentos, nossas ações. Celebrar a Epifania é, portanto, manifestar a alegria, a novidade, a luz que o Nascimento de Jesus trouxe e que afeta toda a nossa existência, para sermos, também nós, portadores da alegria, da autêntica novidade, da luz de Deus aos outros.

Texto bíblico:  Mt 2,1-12

Na oração: Em sua aparente simplicidade, o relato dos Magos nos apresenta perguntas decisivas: diante de quem nos ajoelhamos? Como se chama o “deus” que adoramos no fundo de nosso ser? Como cristãos, adoramos o Menino de Belém? Colocamos a seus pés nossas riquezas? Estamos dispostos a escutar seu chamado para entrar na lógica do Reinado de Deus e sua justiça?

- O que os Magos despertam em nós, hoje?

Pe. Adroaldo Palaoro sj

Fonte: centro Loyola