Olá! Nem a esquerda nem a direita saíram das urnas da mesma forma que entraram.
.Esperança equilibrista. Foi uma vitória histórica. Lula não apenas derrotou Flávio Bolsonaro, como também Donald Trump, Javier Milei, a extrema-direita latino-americana e mundial, as big techs e, de lambuja, André Mendonça e Kássio Nunes. Tudo isso com uma votação expressiva, impossível de ser questionada, apesar das tentativas iniciais dos derrotados. Mais do que à trajetória do maior líder popular da história do país, a vitória se deve às mobilizações de milhões de pessoas nas ruas e nas redes, como o próprio Lula reconheceu em seu discurso, indicando que a comunicação digital e a participação popular devem ter maior espaço no próximo governo. Com um Congresso controlado pela extrema-direita, a ficha no Planalto caiu de que as mobilizações serão mais decisivas para garantir a governabilidade do que os acordos com o centrão. É verdade que o governo precisa dos votos do centrão, mas a expansão do PL também assustou a outra turma da direita e as conveniências mútuas podem levar à recondução de Hugo Motta e Davi Alcolumbre, além de nomes para compor o governo. Mas, vitaminado pelas ruas e pelas urnas, o Planalto já avisou que desta vez não vai admitir traição. Lula contabiliza tudo isso olhando para os muitos desafios pela frente: a bomba da dívida pública e o fracasso do arcabouço fiscal; a pressão da Faria Lima por cortes sociais - outra que não sabe perder e usou a bolsa para chantagear o governo no dia seguinte; a reforma do Judiciário; a regulação das big techs e, claro, a relação com os Estados Unidos. Sem contar que o governo Lula 3 ainda não terminou e o Planalto ainda quer fechar o ano limpando a pauta, aprovando a PEC da Segurança, a MP das Bets e apresentar o projeto da Tarifa Zero.
.Wilson! A trajetória de Flávio Bolsonaro nessas eleições acabou tão desacertada quanto começou. Feito sucessor por peso do sobrenome e por capricho do pai, o zero-um chegou a cogitar sua desistência logo de saída se lhe pagassem o preço certo. Mas, ao longo de 2026 a candidatura emplacou, derrubando concorrentes como Ronaldo Caiado e Romeu Zema e mostrando que o bolsonarismo continuava encantando o eleitor conservador. Com um programa vago e aproveitando os ventos do antipetismo e da insatisfação com o governo, o barco avançou apesar das intempéries dos incontáveis escândalos em que Flávio estava metido. Não se pode dizer que o saldo da aventura foi negativo. No primeiro turno, a candidatura de Flávio saiu na frente, e ainda ajudou a puxar votos para o PL, que elegeu 121 deputados e 19 senadores, tornando-se o maior partido dentro do Congresso, além de 6 governadores. Porém, quando a mobilização dos eleitores de Lula ganhou corpo, a confusão tomou conta da campanha bolsonarista, baseada na soberba, na negação do passado e no vazio de propostas reais. Frente à derrota e ao reconhecimento do resultado por parte das instituições da República e da comunidade internacional, inclusive do próprio PL e aliados, Flávio optou pelo golpismo, num gesto desesperado para manter vivo seu chiqueirinho. Rogério Marinho, ficou ao lado do pupilo até o final, talvez tentando convencê-lo a não navegar no oceano incerto da contestação das urnas. Mas o rapaz preferiu a fuga e o vitimismo, mantendo o padrão recorrente entre os seguidores do ex-capitão. Agora, ao abandonar eleitores e aliados à própria sorte e afirmar ser um exilado político que lidera a oposição desde o exterior, Flávio se tornou uma caricatura, um náufrago que perdeu a razão e conversa com uma bola de vôlei numa ilha distante. Nem mesmo Donald Trump endossou tamanha irracionalidade. Seu destino deve ser o mesmo de Eduardo Bolsonaro: um pária internacional condenado pela Justiça brasileira e refém dos interesses norte-americanos, enquanto for útil.
.O novo que ainda não nasceu. Depois das eleições de 2026, nada será como antes. A começar pelo futuro do lulismo e da esquerda. Lula é o principal personagem dessa história desde 1989. Participou de sete disputas presidenciais, venceu quatro delas e fará seu último mandato. Neste período, a esquerda se tornou mais plural, com partidos antigos e novos, do centro à extrema-esquerda, como PDT, PSB, Rede, PSol, UP, dentre outros. Mas o PT continua sendo o principal partido desse campo, o que é reforçado pela cláusula de barreira que penaliza as pequenas agremiações. Houve também renovação de quadros, com jovens deputados eleitos e com futuro promissor. Mas ainda não há uma liderança com a envergadura sequer próxima à de Lula e, para piorar, aquele cotado inicialmente como seu sucessor, Fernando Haddad, não só perdeu a eleição para o governo de São Paulo como foi queimado na ingrata tarefa de ministro da Fazenda. Agora, a esquerda tem apenas quatro anos para resolver esse imbróglio ou contentar-se com um picolé de chuchu. Do outro lado, o bolsonarismo vive seu próprio dilema. Talvez seja cedo para decretar seu fim, como querem alguns, mas certamente está em curso um desfecho ambíguo e frágil. Apesar do sucesso eleitoral do PL e dos cinco membros da família Bolsonaro que se elegeram no Congresso, o agrupamento segue sem liderança depois que Flávio cometeu suicídio político e enquanto Jair estiver preso. Afinal, todo mundo sabe que Carlos Bolsonaro e Jair Renan são incapazes de liderar coisa alguma, e é provável que Michelle tente carreira solo. Daí a insistência do PL na anistia ou no indulto ao ex-presidente. Outro cotado para a liderança do bloco, Tarcísio de Freitas, continua demonstrando pouca pressa e muito receio de indispor-se com os Bolsonaros. Além disso, a extrema-direita se renovou ainda mais do que a esquerda e uma parte desse campo, como o MBL, mesmo compartilhando o viés fascistizante do bolsonarismo, não pretendem ficar à sua sombra. Alguns analistas mais otimistas ainda apostam que, com o ocaso do bolsonarismo, haveria espaço para a reconstrução de uma direita democrática, o que parece improvável tendo em vista o cenário latino-americano e mundial. Mas isso só o tempo dirá.
.Ponto Final: nossas recomendações.
.Mapeamento expõe rede de interesses estrangeiros que atua em favor de Flávio Bolsonaro. Pesquisa mostra a rede de relações internacionais montada para interferir nas eleições brasileiras. No Brasil de Fato.
.As abelhas na cidade: a organização dos entregadores da China em Ganzhou. Como os entregadores estão organizados na China. Na Revista Opera.
.Pessoal, urgente: dá para replicar o Exército do Lula em outros países?? No Diplô Brasil, Gabi Juns analisa o sucesso do Janonismo cultural.
.Prisão ou porta – o Bolsa Família nos dados. Pedro Paulo Zahluth Bastos detalha o impacto do Bolsa Família para o país. Em A terra é Redonda.
.Como a imaginação radical pode nos salvar. Na Jacobin, Livia Almendary fala sobre a força da arte e da literatura na batalha contra o fascismo.
.Overman: com Caco Ciocler, filme inspirado em quadrinho da Laerte derrota vilão ‘Capitalista Imundo’. No Conversa Bem Viver, Caco Ciocler fala sobre seu novo filme.
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Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

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