22 maio, 2020
ARTIGO | O BRASIL PERDEU A CAPACIDADE DE SENTIR DOR?
O Brasil registrou na terça-feira (19) o recorde de mais de 1.000 mortes por Covid-19 em 24 horas e não houve qualquer comoção à altura dessa catástrofe. Pelo contrário, na sequência do anuncio mórbido se ouviu de políticos importantes frases insensatas. O presidente...Continue lendo AQUI.
Bispo suíço nomeia primeira mulher vigária episcopal da história
Cargo de vigário episcopal é ocupado exclusivamente por
padres, segundo o Direito Canônico
A diocese de Lausana, Genebra e Friburgo, na Suíça, será a
primeira na história da Igreja Católica a ter uma mulher como vigária
episcopal, um cargo habitualmente ocupado por padres. A leiga Marianne
Pohl-Henzen foi nomeada pelo bispo Charles Morerod e assumirá funções em 1º
agosto.
Marianne Pohl-Henzen irá substituir um dos atuais vigários,
o padre Pascal Marquard, do qual foi adjunta nos últimos oito anos. Ela será
nomeada delegada episcopal da parte de língua alemã da diocese, mas não
receberá oficialmente o título de “vigário episcopal”, já que segundo o direito
canônico ele está reservado aos padres.
Mesmo sem a titulação canônica, suas função será a mesma de
um vigário-episcopal, o que supõe pertencer ao conselho episcopal da diocese (o
órgão de assessoria do bispo nas suas funções de gestão) e ocupar o segundo
cargo mais importante na diocese, a seguir ao próprio bispo. Licenciada em
Filologia (alemã e clássica) e Teologia, Marianne tem quase 20 anos de
experiência na coordenação de equipes pastorais, é catequista, mãe de três
filhos e avó de quatro netos.
Na diocese de Lausanne, Genebra e Freiburg, existem cinco
vigários episcopais que correspondem aos cinco vicariados diocesanos. Há também
um vigário para as vocações.
Fonte: Dom Total
Não há poder paralelo. ‘Tanto a milícia quanto o tráfico têm relações diretas com o poder do Estado’. Entrevista especial com José Cláudio Alves
Na avaliação do sociólogo, a realidade das periferias e
favelas cariocas será muito mais difícil depois da pandemia
Foto: Divulgação/ONG Viva Rio
Por: João Vitor Santos e Patricia Fachin | 22 Mai 2020
Projetar como será a realidade nas periferias e favelas cariocas pós-pandemia “é um exercício de imaginação”, mas a tendência é que sejam reforçadas “as estruturas de poder da face ilegal do Estado, tanto no tráfico quanto nas milícias”, afirma José Cláudio Alves à IHU On-Line. Segundo ele, a atuação do tráfico para garantir as medidas de isolamento nas periferias e se autoproteger e, de outro lado, das milícias, para manter o funcionamento do comércio e benefícios a aliados para continuar arrecadando dinheiro, vai projetar tanto milicianos quanto candidatos apoiados pelo tráfico nas próximas eleições municipais no Rio de Janeiro. “Essa estrutura tende a se projetar porque vai lançar mão dos recursos do clientelismo para beneficiar aqueles que são seus aliados nesses espaços”, menciona.
Na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp, o sociólogo relata como tem sido a atuação do tráfico, das milícias e de setores que detêm o monopólio de serviços em municípios do interior do Rio de Janeiro durante a pandemia. “Na cidade de Caxias existe uma única funerária, que tem o monopólio dos enterros e, agora com as mortes pelo coronavírus, essa funerária cobra valores altíssimos para a população: algo em torno de 2.500 reais pelo enterro, com caixão simples. É uma coisa estapafúrdia. Hoje, essa funerária faz um jogo de disputa de poder com a prefeitura, dizendo que o preço do enterro popular que a prefeitura quer pagar não corresponde à realidade. Então, a funerária não quer fazer esses enterros e a prefeitura diz que não pode pagar pelos enterros porque os valores cobrados são altos”, informa.
Nas áreas onde o “Estado já opera matando”, ressalta, se observa uma sobreposição. “As áreas onde as pessoas morriam por conta do confronto com o aparato policial, com a milícia ou com as facções do tráfico, estão sendo recobertas também pelo maior número de mortos em decorrência da pandemia. Então, existe uma continuação da necropolítica em outra dimensão, que acaba sendo uma face da mesma moeda: a moeda da violência, que reprime e recai sobre esses conjuntos segregados, racialmente discriminados, que são mantidos à margem da pobreza, sem acesso a recursos, à escolaridade”, observa.
José Cláudio Alves lembra ainda que as eleições municipais deste ano “são decisivas para deputados e senadores se perpetuarem em 2022, então, a Câmara de Deputados e o Senado não têm o menor interesse em tocar os processos de impeachment abertos contra o presidente. O interesse deles é outro: é distribuir renda desse governo para as suas bases eleitorais se protegerem contra a pandemia e, consequentemente, para as pessoas os verem como benfeitores e votarem nos seus aliados eleitorais nos locais onde eles estão”.
Na entrevista a seguir, ele diz que o futuro pós-pandemia será ainda mais difícil para aqueles que vivem nas periferias. “Como será a realidade da saúde pública nessas áreas depois da pandemia? Vai ser melhor? Tudo indica que não, porque os recursos estão sendo destinados de uma forma inadequada e o SUS, se virou herói nacional, foi por mera contingência, porque não tinha outro sistema que pudesse dar conta desse sofrimento e dessa pandemia. O SUS apareceu num cenário de crescimento e expansão, mas isso não foi nada planejado e o pós-pandemia não garante que o SUS possa receber algum tipo de aporte para, nessas áreas de periferias e favelas, melhorar a condição de atendimento”, lamenta.
AQUI a entrevista
Covid-19 – Casos sem sintomas ou com sintomas leves ‘são a chama que mantém a contaminação’ no Brasil, avalia especialista
Cientistas veem Brasil como epicentro da pandemia num futuro próximo e, com dados subdimensionados pela testagem somente de casos mais graves, sem condições reais de enfrentamento.
A reportagem é de Rose Talamone, publicada por Jornal da USP e reproduzida por EcoDebate, 21-05-2020.
Um dos maiores problemas enfrentados pela ciência de dados no monitoramento do novo coronavírus são os dados mal coletados e restritos, afirma Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e coordenador do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) que acompanha a evolução da pandemia em Estados e municípios do País. Para ele, “casos sem sintomas ou com sintomas leves são a chama que mantém a epidemia”, já que não são testados e os infectados não fazem um isolamento restrito.
Os boletins oficiais divulgados diariamente sobre o número de infectados não refletem a realidade da pandemia no Brasil, pois se baseiam nas internações; só nesses casos é que são feitos os testes para detecção do vírus, alerta o professor. Enquanto os registros oficiais mostravam pouco mais de 165 mil infectados no dia 11 de maio, por exemplo, as projeções dos pesquisadores de Ribeirão Preto chegavam a 2,3 milhões.
Mesmo projetando o País como novo epicentro da pandemia, Alves diz que essas estimativas são feitas sempre para baixo, pois a metodologia empregada utiliza o número de mortes pela doença e não o de infectados. E até esse indicador, feito através dos óbitos, também não reflete a realidade, argumenta, já que ele é igualmente subnotificado. O fato é considerado grave pelos pesquisadores pois as ações de planejamento e as políticas públicas para controle da pandemia dependem de dados reais.
Como exemplo, Domingos Alves cita a diferença entre os números utilizados pelo seu grupo e os levantados pela Universidade Federal de Pelotas, estimando a infecção para o Estado do Rio Grande do Sul. Os pesquisadores gaúchos encontraram, para um mesmo período de tempo, sete vezes mais casos naquele Estado do que os boletins oficiais notificaram. “Eles apontavam o número de infectados em torno de 5,7 mil pessoas, e nós, em torno de 5 mil”, diz.
Monitoramento de casos e óbitos confirmados de covid-19.
(Gráficos encaminhados pelo pesquisador
Casos confirmados no Brasil e em SP; ao contrário da Europa, nós ainda não estamos descendo a curva, muito pelo contrário. Estamos em plena subida.
Usando essa metodologia, o professor afirma que não dá para fazer projeções para um futuro mais distante, mas é possível afirmar que os números devem dobrar em uma semana. “Até onde sabemos, tanto no Brasil como no Estado de São Paulo, o número de casos ainda está crescendo num comportamento exponencial. Ou seja, nós não conseguimos ver o pico da epidemia ainda. Então, supondo que o crescimento é exponencial, tanto no Brasil quanto no Estado de São Paulo, esses números devem dobrar num prazo de até uma semana.” Alves acredita que o afrouxamento das medidas de restrição e mobilidade devem piorar a situação desses números. Para o professor, os municípios devem antes apresentar evidências de que a epidemia está sob controle. “O número de casos tem que começar a diminuir de maneira sustentável; ou seja, o número de casos caindo em qualquer proporção, num prazo de duas a três semanas, seria uma evidência de que as medidas de contenção poderiam começar a ser relaxadas, mantendo ainda um distanciamento social importante e observando se o número de casos não vão crescer de novo.”
Segundo Alves, os municípios de Campos do Jordão e São Sebastião, no Estado de São Paulo, são exemplos de locais que estão monitorando corretamente a pandemia. São Sebastião está testando a população e, ao encontrar casos suspeitas ou confirmados, as pessoas são colocadas em isolamento.
Fonte: IHU
Livro Papa Francesco - Vida Aprós A Pandemia
Livro Papa Francesco - Vida Aprós A Pandemia
Nos primeiros meses de 2020, o Papa Francisco refletiu com
frequência sobre a pandemia do coronavírus, à medida que esta se apoderou da
família humana.
O livro, oito textos significativos, falados e escritos pelo
papa entre 27 de março e 22 de abril.
A quem e como falou ele? O que disse, e por quê?
Para além das suas ocasiões específicas, estes oito textos
poderiam ser lidos em conjunto como uma única progressão do seu pensamento e
como uma mensagem rica à humanidade.
A coletânea tem dois objetivos.
O primeiro objetivo
É o de sugerir uma direção, chaves de leitura e diretrizes
para a reconstrução de um mundo melhor que possa nascer desta crise da
humanidade.
O segundo objetivo
É, em meio a tanto sofrimento e perplexidade, semear a
esperança.
O Papa fundamenta claramente esta esperança na fé, porque «
com Deus, a vida não morre jamais ».
(conforme prefácio do livro)
O livro foi lançado pela editora oficial do Vaticano.
No link o livro para ler online, imprimir ou baixar
19 maio, 2020
Pandemia da ignorância: emburrecemos na última década ou é só mais acesso?
Não é uma frase proposotalmente malescrita num chamativo fundo colorido. É um artigo relativamente grande com uma reflexão relevante e pertinente. Sugiro a leitura e que se pense a respeito.
Penso que ser ignorante não é nenhuma vergonha, é uma situação. Todos ignoramos algo da realidade ou das informações, interpretação sobre ela. O problema é ignorar a própria ignorância. O problema é fazer da própria ignorância ou das dúvidas legítimas uma convivência para manter-se numa postura de arrogância e justificativa para a preguiça em superar os preconceitos infundados.
Não, o problema não é a ignorância em si. O problema é não estar atento à sua própria ignorância e ser mera peça na engrenagem que faz das suspeitas, desinformação, distorções dos fatos e do tumulto como estratégia política.
O texto acima é do padre Genivaldo Ubinge, publicado em seu perfil no Facebook.
Penso que ser ignorante não é nenhuma vergonha, é uma situação. Todos ignoramos algo da realidade ou das informações, interpretação sobre ela. O problema é ignorar a própria ignorância. O problema é fazer da própria ignorância ou das dúvidas legítimas uma convivência para manter-se numa postura de arrogância e justificativa para a preguiça em superar os preconceitos infundados.
Não, o problema não é a ignorância em si. O problema é não estar atento à sua própria ignorância e ser mera peça na engrenagem que faz das suspeitas, desinformação, distorções dos fatos e do tumulto como estratégia política.
O texto acima é do padre Genivaldo Ubinge, publicado em seu perfil no Facebook.
A baixo segue o texto e Matheus Pichonelli
Pandemia da ignorância: emburrecemos na última década ou é só mais acesso?
Está provado, mas isso a mídia não vai mostrar: amigo do primo do vizinho contou que um panda chinês morre de infarto cada vez que alguém manda no grupo de WhatsApp aquela receita milagrosa para matar o coronavírus na base do chá ou da água quente.
Não, a história acima não é verdade. Mas, se esta mesma mensagem viesse embalada num card mal desenhado com os devidos créditos a um cientista desconhecido formado por uma universidade inexistente, a chance de ela replicar era razoável. Por muito menos, houve quem gravasse um tutorial de como afogar o vírus com uma overdose de quinino da água tônica. Tem gente convicta também de que uísque e mel são tiro-e-queda para brecar a pandemia. Que álcool em gel não tem a mesma eficácia do bom e velho vinagre. E que tudo bem beber ou injetar desinfetante só porque Donald Trump mandou.
No meio de tanta desinformação, o drama de quem tem o ...
A REPAM pede ação unitária para evitar uma tragédia humanitária e ambiental na Amazônia
Foto: Insituto Socioambiental | Prefeitura de Manaus
Uma tragédia humanitária e ambiental é o grande perigo que a Amazônia enfrenta, um território de 33 milhões de habitantes, incluindo 3 milhões de indígenas de 400 povos diferentes, além de 120 povos em isolamento voluntário ou contato inicial. Para dizer a verdade, a região está ameaçada há anos, uma situação que se acelerou nas últimas semanas, o que pode levar a um colapso estrutural.
A reportagem é de Luis Miguel Modino publicado pelo IHU. Leia AQUI a reportagem
Coronavírus: o que dizem os estudos publicados sobre cloroquina, defendida por Bolsonaro e Trump
Houve pressão por parte de Bolsonaro para que Brasil autorizasse uso da cloroquina em pacientes com coronavírus no Brasil, mas ex-ministro Nelson Teich afirmou que medicamento era uma incerteza
Considerada pelo presidente Jair Bolsonaro como arma no combate à pandemia do coronavírus e pivô da saída de Nelson Teich do comando do Ministério da Saúde na última sexta-feira (15), o medicamento cloroquina não tem eficácia e segurança cientificamente comprovadas contra a covid-19.
Atualmente, no Brasil, o uso é autorizado só em pacientes em estado crítico e moderado já internados em hospitais, quando médico e paciente concordam com o uso. Mas o presidente, Jair Bolsonaro, vinha defendendo o uso do medicamento e pressionara Teich para autorizar o uso de cloroquina em pacientes em estágio inicial da covid-19 no Brasil. Apoiadores do presidente também têm cobrado a liberação imediata do medicamento.
Leia a matéria na integra publicada por BBC AQUI
Mensagem do Papa para o 106º para Dia Mundial do Migrante e do Refugiado
MENSAGEM DO SANTO PADRE
para o 106o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado
27 de setembro de 2020
Forçados, como Jesus Cristo, a fugir.
Acolher, proteger, promover e integrar os deslocados internos.
No discurso que dirigi, nos primeiros dias deste ano, aos membros do Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé, mencionei entre os desafios do mundo contemporâneo o drama dos deslocados dentro da própria nação: « Os conflitos e as emergências humanitárias, agravadas pelas convulsões climáticas, aumentam o número dos deslocados e repercutem-se sobre as pessoas que já vivem em grave estado de pobreza. Muitos dos países atingidos por estas situações carecem de estruturas adequadas que permitam atender às necessidades daqueles que foram deslocados » (9/I/2020).
A Secção «Migrantes e Refugiados» do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral publicou as Orientações Pastorais sobre as Pessoas Deslocadas Internamente (5/V/2020), um documento que visa inspirar e animar as ações pastorais da Igreja nesta área em particular.
Por tais razões, decidi dedicar esta Mensagem ao drama dos deslocados dentro da nação, um drama – muitas vezes invisível – que a crise mundial causada pela pandemia do Covid-19 exacerbou. De facto, esta crise, devido à sua veemência, gravidade e extensão geográfica, redimensionou tantas outras emergências humanitárias que afligem milhões de pessoas, relegando para um plano secundário, nas Agendas políticas nacionais, iniciativas e ajudas internacionais, essenciais e urgentes para salvar vidas. Mas, «este não é tempo para o esquecimento. A crise que estamos a enfrentar não nos faça esquecer muitas outras emergências que acarretam sofrimentos a tantas pessoas» (Francisco, Mensagem Urbi et Orbi , 12/IV/2020).
À luz dos acontecimentos dramáticos que têm marcado o ano de 2020 quero, nesta Mensagem dedicada às pessoas deslocadas internamente, englobar todos aqueles que atravessaram e ainda vivem experiências de precariedade, abandono, marginalização e rejeição por causa do vírus Covid-19.
E, como ponto de partida, gostaria de tomar o mesmo ícone que inspirou o Papa Pio XII ao redigir a constituição apostólica Exsul Familia (1/VIII/1952): na sua fuga para o Egito, o menino Jesus experimenta, juntamente com seus pais, a dramática condição de deslocado e refugiado «marcada por medo, incerteza e dificuldades (cf. Mt 2, 13-15.19-23). Infelizmente, nos nossos dias, há milhões de famílias que se podem reconhecer nesta triste realidade. Quase todos os dias, a televisão e os jornais dão notícias de refugiados que fogem da fome, da guerra e doutros perigos graves, em busca de segurança e duma vida digna para si e para as suas famílias» (Francisco, Angelus , 29/XII/2013). Em cada um deles, está presente Jesus, forçado – como no tempo de Herodes – a fugir para Se salvar. Nos seus rostos, somos chamados a reconhecer o rosto de Cristo faminto, sedento, nu, doente, forasteiro e encarcerado que nos interpela (cf. Mt 25, 31-46). Se O reconhecermos, seremos nós a agradecer-Lhe por O termos podido encontrar, amar e servir.
As pessoas deslocadas proporcionam-nos esta oportunidade de encontrar o Senhor, «mesmo que os nossos olhos sintam dificuldade em O reconhecer: com as vestes rasgadas, com os pés sujos, com o rosto desfigurado, o corpo chagado, incapaz de falar a nossa língua» (Francisco, Homilia , 15/II/2019). É um desafio pastoral ao qual somos chamados a responder com os quatro verbos que indiquei na Mensagem para este mesmo Dia de 2018: acolher, proteger, promover e integrar. A eles, gostaria agora de acrescentar seis pares de verbos que traduzem ações muito concretas, interligadas numa relação de causa-efeito.
É preciso conhecer para compreender . O conhecimento é um passo necessário para a compreensão do outro. Assim no-lo ensina o próprio Jesus no episódio dos discípulos de Emaús:
«Enquanto [estes] conversavam e discutiam, aproximou-Se deles o próprio Jesus e pôs-Se com eles a caminho; os seus olhos, porém, estavam impedidos de O reconhecer» ( Lc 24, 15-16). Frequentemente, quando falamos de migrantes e deslocados, limitamo-nos à questão do seu número. Mas não se trata de números; trata-se de pessoas! Se as encontrarmos, chegaremos a conhecê-las. E conhecendo as suas histórias, conseguiremos compreender. Poderemos compreender, por exemplo, que a precariedade, que estamos dolorosamente a experimentar por causa da pandemia, é um elemento constante na vida dos deslocados.
É necessário aproximar-se para servir . Parece óbvio, mas muitas vezes não o é. «Um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele [do homem espancado e deixado meio-morto] e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele» ( Lc 10, 33-34). Os receios e os preconceitos – tantos preconceitos – mantêm-nos afastados dos outros e, muitas vezes, impedem de «nos aproximarmos» deles para os servir com amor.
Abeirar-se do próximo frequentemente significa estar dispostos a correr riscos, como muitos médicos e enfermeiros nos ensinaram nos últimos meses. Aproximar-se para servir vai além do puro sentido do dever; o maior exemplo disto, deixou-no-lo Jesus, quando lavou os pés dos seus discípulos: tirou o manto, ajoelhou-Se e pôs mãos ao humilde serviço (cf. Jo 13, 1-15).
Para reconciliar-se é preciso escutar . No-lo ensina o próprio Deus que quis escutar o gemido da humanidade com ouvidos humanos, enviando o seu Filho ao mundo: «Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, (...) para que o mundo seja salvo por Ele» ( Jo 3, 16.17). O amor, que reconcilia e salva, começa pela escuta. No mundo de hoje, multiplicam-se as mensagens, mas vai-se perdendo a atitude de escutar. É somente através da escuta humilde e atenta que podemos chegar verdadeiramente a reconciliar-nos. Durante semanas neste ano de 2020, reinou o silêncio nas nossas ruas; um silêncio dramático e inquietante, mas que nos deu ocasião para ouvir o clamor dos mais vulneráveis, dos deslocados e do nosso planeta gravemente enfermo. E, escutando, temos a oportunidade de nos reconciliar com o próximo, com tantas pessoas descartadas, connosco e com Deus, que nunca Se cansa de nos oferecer a sua misericórdia.
Para crescer é necessário partilhar . A primeira comunidade cristã teve, na partilha, um dos seus elementos basilares: «A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum» ( At 4,32). Deus não queria que os recursos do nosso planeta beneficiassem apenas alguns. Não, o Senhor não queria isso! Devemos aprender a partilhar para crescermos juntos, sem deixar ninguém de fora. A pandemia veio-nos recordar que estamos todos no mesmo barco. O facto de nos depararmos com preocupações e temores comuns demonstrou-nos mais uma vez que ninguém se salva sozinho. Para crescer verdadeiramente, devemos crescer juntos, partilhando o que temos, como aquele rapazito que ofereceu a Jesus cinco pães de cevada e dois peixes (cf. Jo 6, 1-15); e foram suficientes para cinco mil pessoas...
É preciso coenvolver para promover . Efetivamente, assim procedeu Jesus com a mulher samaritana (cf. Jo 4, 1-30). O Senhor aproxima-Se, escuta-a, fala-lhe ao coração, para então a guiar até à verdade e torná-la anunciadora da boa nova: «Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz! Não será Ele o Messias?» (4, 29). Por vezes, o ímpeto de servir os outros impede-nos de ver a sua riqueza íntima. Se queremos verdadeiramente promover as pessoas a quem oferecemos ajuda, devemos coenvolvê-las e torná-las protagonistas da sua promoção. A pandemia recordou-nos como é essencial a corresponsabilidade, pois só foi possível enfrentar a crise com a contribuição de todos, mesmo de categorias frequentemente subestimadas. Devemos «encontrar a coragem de abrir espaços onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade» (Francisco, Meditação na Praça de São Pedro , 27/III/2020).
É necessário colaborar para construir . Isto mesmo recomenda o apóstolo Paulo à comunidade de Corinto: «Peço-vos, irmãos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que estejais todos de acordo e que não haja divisões entre vós; permanecei unidos num mesmo espírito e num mesmo pensamento» ( 1 Cor 1, 10). A construção do Reino de Deus é um compromisso comum a todos os cristãos e, para isso, é necessário que aprendamos a colaborar, sem nos deixarmos tentar por invejas, discórdias e divisões. No contexto atual, não posso deixar de reiterar que «este não é tempo para egoísmos, pois o desafio que enfrentamos nos une a todos e não faz distinção de pessoas» (Francisco, Mensagem Urbi et Orbi , 12/IV/2020). Para salvaguardar a Casa Comum e torná-la cada vez mais parecida com o plano original de Deus, devemos empenhar-nos em garantir a cooperação internacional, a solidariedade global e o compromisso local, sem deixar ninguém de fora.
Quero concluir com uma oração inspirada no exemplo de São José, particularmente quando foi forçado a fugir para o Egito a fim de salvar o Menino:
«Pai, confiastes a São José o que tínheis de mais precioso: o Menino Jesus e sua mãe, para os proteger de perigos e ameaças dos malvados.
Concedei-nos, também a nós, a graça de experimentar a sua proteção e ajuda. Tendo ele provado o sofrimento de quem foge por causa do ódio dos poderosos, fazei que possa confortar e proteger todos os irmãos e irmãs que, forçados por guerras, pobreza e carências, deixam a sua casa e a sua terra a fim de se lançarem ao caminho como refugiados rumo a lugares mais seguros.
Ajudai-os, pela sua intercessão, a terem força para prosseguir, conforto na tristeza, coragem na provação.
Dai a quem os recebe um pouco da ternura deste pai justo e sábio, que amou Jesus como um verdadeiro filho e amparou Maria ao longo do caminho.
Ele, que ganhou o pão com o trabalho das suas mãos, possa prover àqueles a quem a vida tudo levou, dando-lhes a dignidade dum trabalho e a serenidade duma casa.
Nós Vo-lo pedimos por Jesus Cristo, vosso Filho, que São José salvou fugindo para o Egito, e por intercessão da Virgem Maria, a quem ele amou como esposo fiel segundo a vossa vontade. Amen».
Roma, em São João de Latrão, na Memória de Nossa Senhora de Fátima, 13 de maio de 2020.
18 maio, 2020
Toque de recolher das 23 às 5 da manhã, multa pelo não uso de máscara
Toque de recolher das 23 às 5 da manhã, multa pelo não uso
de máscara e multa de R$ 200 pelo descumprimento da medida.
Novo decreto com mais medidas restritivas de prevenção
contra o coronavírus na cidade de Maringá-Paraná
Decreto n.º 690/2020
O toque de recolher passa a vigorar de 23h às 5h do dia
seguinte.
A multa pelo descumprimento do toque de recolher será de R$
200,00 (duzentos reais) por pessoa, além de o infrator responder criminalmente
nos termos dos artigos 131 (perigo de contágio de moléstia grave) e 268
(infração de medida sanitária preventiva), do Código Penal Brasileiro.
Os serviços de alimentação (bares, restaurantes e similares)
funcionarão até 22h, com consumo interno até 22h30min, e após este horário
apenas por delivery e drive thru.
Proibido o consumo de bebida alcoólica e a aglomeração de
pessoas nas calçadas, postos de combustíveis ou proximidades dos
estabelecimentos.
Aqui a íntegra do Decreto n.º 690/2020
Boletim coronavírus de Maringá – Paraná
Maringá registra 28 novos casos no fim de semana
Os números reforçam a necessidade de as pessoas entenderem a seriedade das medidas de prevenção.
Maringá registrou 28 novos casos de coronavírus nos boletins deste fim de semana.
O município agora tem 160 casos positivos, 97 recuperados e 6 óbitos.
Dos 10 pacientes positivos internados, 7 estão na enfermaria e 3 na UTI.
São 289 pacientes suspeitos em situação de isolamento domiciliar. Já suspeitos internados são 18. Dos 3335 casos notificados, 2868 foram encerrados.
Perfil dos novos casos
Os novos resultados positivos se referem a 5 homens, de 31, 34, 37, 50 e 51 anos, e 3 mulheres, de 59, 64 e 85 anos.
Fonte: site da Prefeitura do Município de Maringá
17 maio, 2020
16 maio, 2020
Maringá registra 20 novos casos de covid-19 em 24 horas
O boletim sobre coronavírus de Maringá divulgado há pouco pela prefeitura reforça a necessidade de as pessoas entenderem a seriedade das medidas de prevenção. São 20 novos casos confirmados em 24 horas.
Na véspera de completar dois meses desde a implantação dos primeiros decretos rígidos, fundamentais para preparação da cidade para a pandemia, o município registra 152 casos positivos de covid-19.
O número de recuperados permanece 97 e de óbitos, 6.
Os casos novos se referem aos seguintes perfis:
2 crianças, de 6 meses e 5 anos
12 mulheres, de 19, 27, 29, 31, 34, 36, 40, 45, 54, 54, 61 e 69 anos
6 homens, de 19, 36, 37, 37, 39 e 43 anos
É fundamental que as saídas desnecessárias sejam evitadas e que a população não se descuide sobre a utilização de máscaras, uso de álcool em gel e outros hábitos que dificultam a transmissão do coronavírus. Ninguém está imune. As provas, infelizmente, são o bebê de 6 meses e a criança de 5 anos. (PMM)
A LISTA - Música de Renato Teixeira e Osvaldo Montenegro
A Lista
Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber
Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você
Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você
Compositores: Oswaldo Montenegro
15 maio, 2020
O NOJO
O NOJO
(Eliane Brum)
A menina tem pouco mais de dois anos. Está trancada em casa
com os pais há dois meses devido à pandemia de covid-19. Sente falta dos amigos
da creche, sente falta da sorveteria, sente falta da rua. Mas este não é o
problema da menina. Nem é o problema de seus pais. O problema é que a menina
tem medo. E não do vírus. Mas daquele que ela chama de “o homem mau”. Tem
dificuldade de dormir, quer ficar agarrada à mãe, acorda assustada à noite. A
menina tem pesadelos com “o homem mau”. E, quando desperta, “o homem mau”
continua lá.
O “homem mau” é Jair Bolsonaro. De todo o medo daqueles que
estão ao seu redor, a menina entendeu que o vírus vai ficar do lado de fora, se
permanecerem em casa. Mas o homem mau não tem limites. Ele abusa. Invade.
Viola. Mata. Os pais criaram uma história, a de que as árvores cresceram e
cobriram o prédio, e assim o homem mau não enxerga a casa deles e, como não
enxerga, não pode lhes fazer mal. Ela olha com seus olhos imensos, quer
acreditar, mas já compreendeu que nem mesmo as árvores podem protegê-la, até
porque descobriu que o homem mau também derruba a floresta. Há um novo vilão, e
ele não vem dos contos de fadas ou dos filmes da Pixar.
Como ser uma criança e lidar com um vilão que é real, se nem
os adultos parecem saber como se defender dele, se nesse conto da realidade
ninguém parece saber como parar o vilão real? Se essa história parece não ter
outro final que não seja a morte? A menina ainda não tem recursos para nomear o
horror de estar num mundo a mercê de um vilão, e também o horror de perceber
que nem seus pais, que nessa idade são quase todo o seu universo, podem
protegê-la dele. Então, só balbucia: “o homem mau”, “o homem mau”, “o homem
mau”. E não dorme.
Eu escuto muito. É minha profissão escutar muito e escutar
pessoas de todas as cores, origens e classes sociais. A criança expõe, com os
poucos recursos de que dispõe aos dois anos, um pânico que vai muito além dela
e se espalha por todas as faixas etárias. Se o mundo vive um momento
especialíssimo, o de uma pandemia global que está matando uma parte da espécie
humana, nós, no Brasil, estamos sendo violentados dia após dia pela perversão
do homem no poder em meio à expansão exponencial de um vírus que pode nos matar
e já começou a matar pessoas que amamos. Tenho escutado gente muito diferente
entre si afirmando que passou a ter reações físicas diante da imagem de
Bolsonaro. Ou da voz. Ou mesmo se outra pessoa pronuncia o nome do presidente
do Brasil.
Também acontece comigo. Comecei a sentir náusea diante de
qualquer alusão a Bolsonaro. Não o enjoo de quando como um alimento que me faz
mal. Mas o enjoo do asco. Sou possuída pelo nojo. Há mulheres que têm essa
reação diante do estuprador, quando por alguma razão são obrigadas a vê-lo
novamente. Outras pessoas manifestam reação semelhante no convívio com o
sequestrador. Outras na presença do torturador. Bolsonaro é tudo isso. Ele tem
nos violentado, sequestrado nossa sanidade, nos ameaçado com sua
irresponsabilidade deliberada e também nos torturado todos os dias, usando para
isso a máquina do Estado.
Somos um país de reféns, e o sequestrador está matando. Ele
mata quando boicota as ações de combate à covid-19. Ele mata quando dissemina
mentiras sobre remédios sem comprovação científica de eficácia. Ele mata quando
contradiz a ciência. Ele mata quando diz que a covid-19 é um “resfriadinho”.
Ele mata quando afirma que “o vírus não é tudo isso”. Ele mata quando forja a
falsa oposição entre se proteger da doença e “salvar” a economia. E ele pode
estar matando literalmente quando vai às ruas estimular outras pessoas a ir
para as ruas, quando espirra e aperta mãos com seus dedos lambuzados de ranho,
quando manipula celulares alheios, quando faz selfies com seus seguidores,
quando pega crianças no colo. Ele mata e tenta dar um golpe quando faz tudo
isso em manifestações golpistas contra a democracia, contra o Congresso e
contra o Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro mata quando, diante de milhares de
brasileiros mortos por covid-19, ele zomba, tripudia e debocha: “E daí?”. Como
diz Emicida, “eleja um assassino e espere um genocídio”.
Está acontecendo agora. Neste momento. É grande a
possibilidade de que, no futuro, Bolsonaro seja julgado pelo Tribunal Penal
Internacional e seja condenado por crimes contra a humanidade, como aconteceu
com outros perversos antes dele. Pelo menos duas denúncias já alcançaram a
corte. Mas, quando isso acontecer, será muito tarde. Poderemos estar todos
mortos.
O que vamos fazer agora, já? Ou vamos deixar “o homem mau”
nos matar a todos? O que, afinal, vamos dizer às crianças que esperam ser
protegidas por nós?
Tenho nojo de Bolsonaro. Cada palavra que contorce sua face
ao sair da boca é uma palavra violenta. O homem cospe cadáveres. Seus três
filhos mais velhos são suas cópias, numeradas, como ele mesmo diz (zeroum,
zerodois, zerotrês...), comprovadamente estúpidos como o pai e também
perversos, pelo menos um deles claramente rondando a psicopatia. Precisei
escrever um livro para compreender como foi possível eleger o pior humano para
a presidência do Brasil. E não paro de seguir tentando compreender. Mas, para
além de compreender, é preciso impedir. Nossa emergência é barrar Bolsonaro,
porque a cada segundo a pilha de cadáveres aumenta. Não são números “os
inumeráveis”, são pessoas que alguém amou.
Temos informação, pesquisa e capacidade de interpretação dos
fatos para concluir que Bolsonaro não é uma anomalia, no sentido de que só
existe ele. Se fosse assim, seria bem mais fácil. Bolsonaro representa uma
parcela dos brasileiros. Não teria sido eleito não fosse esse núcleo que se
identifica com ele e o reconhece como espelho. Segundo as pesquisas, Bolsonaro
é a expressão de quase um terço dos brasileiros, que o apoiam mesmo em sua
política de morte —ou provavelmente o apoiam exatamente pela sua política de
morte. Teremos que nos debruçar por muito tempo e com muito afinco para
compreender como nos tornamos um país capaz de produzir um tipo de humano tão
desprezível e tão violento. Já temos bastante material de pesquisa para
começar.
Sabemos também que não é apenas o Brasil. O mundo já
produzia pessoas capazes de urrar de prazer diante de execuções de outros seres
humanos ou diante de pessoas sendo devoradas por animais na arena antes de o
Brasil existir. A história é pródiga em mostrar a massa gritando e pedindo mais
sangue, mais dor, mais violência. Os horrores do século 20, como o nazismo, tão
em evidência no momento, estão bem próximos de nós. Mas era possível desejar
que talvez pudéssemos ter chegado ao século 21 com mais capacidade de lidar com
nossa humana monstruosidade, mais aptos a nos proteger de personagens como
Bolsonaro.
Por uma série de razões, já presentes no fato de termos sido
o último país das Américas a abolir a escravidão negra, a sociedade brasileira
tem suas deformações particulares para lidar. Como, por exemplo, a que nos faz
um dos países campeões em linchamentos. Uma parcela dos brasileiros gosta de
derramar o sangue dos outros, goza com a dor dos outros, traveste seu horror
pessoal em moralidade. Amarra uma bandeira do Brasil no pescoço e vai defecar
pela boca em praça pública, ameaçando todo o já desorganizado e insuficiente
combate ao coronavírus e, portanto, condenando os mais desprotegidos à morte. É
o pessoal capaz de buzinar na frente de hospitais, onde pessoas agonizam, e
trancar ambulâncias no trânsito. Nós os conhecemos, seguidamente eles fazem
parte da família.
Nenhum deles, porém, tinha chegado à presidência. Sempre
parava no Congresso. E, então, esse limite foi rompido. O limite em que um
Bolsonaro deixa de ser o pária do Congresso, o bufão que garantia sua reeleição
como deputado mas não tinha nenhuma influência real, para se converter no
presidente do Brasil. E mais: no “mito”. Ele assume o poder e, como anunciou
que faria, converte o Governo numa máquina de produção de morte.
Sabemos que Bolsonaro não conquistou essa façanha sozinho.
Que ele foi apoiado por parte das elites nacionais, em todas as áreas. Muitos
já compreenderam o que fizeram e o abandonaram por medo de contaminar sua
biografia com o sangue produzido em quantidades cada vez maiores por Bolsonaro.
Hoje quase só restaram os piratas do empresariado, os generais com nostalgia de
ditadura, os predadores do agronegócio e os evangélicos de mercado. Não é pouco
o que ainda restou. Mas é menos do que já foi. Quem ainda tem o que perder,
como Sergio Moro —herói decaído, mas não tanto que não tenha esperança de
juntar os cacos—, está debandando. Do sangue, afinal, ninguém escapa. E há cada
vez mais sangue nesse governo.
Já escrevi bastante sobre isso, antes e depois da eleição.
Os artigos estão disponíveis para quem quiser lê-los. Agora, porém, preciso
repetir que Bolsonaro está nos matando. É imperativo agir no modo emergência.
Lutar contra Bolsonaro já não é apenas lutar por bandeiras essenciais como
justiça social, igualdade de raça e de gênero, equidade na distribuição da
renda, taxação das grandes fortunas, preservação da Amazônia e de seus povos.
Passamos a um estágio muito mais agudo. Lutamos hoje para nos manter vivos,
porque Bolsonaro boicota as ações contra o coronavírus. Bolsonaro não é
coveiro, categoria corajosa e digna de brasileiros. Bolsonaro é assassino.
Não podemos lidar com um perverso como se o que ele faz
fosse do jogo democrático. Nossa pergunta é clara: como vamos impedir Bolsonaro
de usar a máquina do Estado para continuar a matar?
Nossos vizinhos temem por suas fronteiras. O Paraguai já
constatou que a maioria de seus casos estão vindo do Brasil. No mundo inteiro o
Brasil está se tornando um pária dominado por um pária. Brasileiros já são
olhados com desconfiança. Governados por um maníaco, vivemos uma explosão no
crescimento da contaminação por covid-19 e ninguém quer o vírus voltando a
entrar pela sua porta depois de tanto esforço para tentar controlá-lo. O
planeta já começa a enxergar uma tarja de risco biológico na nossa testa. É
isso, sim, que pode prejudicar a economia por muito mais tempo.
Prestem atenção em quem está morrendo mais. São os negros,
são os pobres. São os presos trancados em viveiros de vírus, numa violação de
direitos inacreditável até para os padrões medievais do Brasil. Quem está
morrendo mais são aqueles que desde a campanha Bolsonaro trata como matáveis
—ou como coisas. O vírus mata cada vez mais nas aldeias indígenas e vai se
espalhando pela floresta amazônica. Quando os invasores europeus chegaram, os
vírus e as bactérias que trouxeram com eles exterminaram 95% da população
indígena entre os séculos 16 e 17. Há chance de que o novo coronavírus produza
um genocídio dessa dimensão caso não exista um movimento global para impedi-lo.
Bolsonaro já demonstrou que apreciaria se os indígenas
desaparecessem ou se tornassem outra coisa. “Humanos como nós”, nas suas
palavras. Humanos vendedores e arrendadores de terra, humanos mineradores,
humanos plantadores de soja e de cascos de boi, humanos amantes de
hidrelétricas, de ferrovias e de rodovias. Humanos que se descolam da natureza
e a convertem em mercadoria.
São os povos indígenas que colocam literalmente seus corpos
diante da destruição da Amazônia e de outros biomas. Mas parte dos apoiadores
de Bolsonaro, que hoje também lideram campanhas de “abertura do comércio” nas
cidades amazônicas, tem matado os indígenas (e também camponeses e quilombolas)
à bala. O vírus pode completar o extermínio de uma forma muito mais rápida e
numa escala muito maior. Basta fazer exatamente o que Bolsonaro está fazendo:
nada para protegê-los e tudo para estimular a ruptura das regras sanitárias da
Organização Mundial da Saúde; nada para protegê-los e tudo para estimular a
invasão de suas terras por garimpeiros e grileiros. O que está em curso é
exatamente isso: um genocídio.
E também ecocídio, porque na Amazônia esses entes não andam
separados. Como sabemos, os destruidores da floresta não fazem home office. O
desmatamento avança aceleradamente, aproveitando a oportunidade da pandemia. Os
alertas cresceram 64% em abril, depois de já terem batido recordes no início do
ano. Bolsonaro demitiu os chefes de fiscalização do Ibama que estavam tentando
impedir o massacre da floresta. Está militarizando tanto a saúde, ao colocar
militares em postos importantes do ministério, quanto a proteção do meio
ambiente, ao subordinar o Ibama e o ICMBio ao Exército nas ações de
fiscalização. Em toda a região, camponeses, ribeirinhos e indígenas denunciam
que os caminhões cheios de árvores recém derrubadas não param de atravessar as
estradas vindos da floresta. Eles gritam. Mas quem os escuta?
Bolsonaro está transformando (também) a Amazônia num
gigantesco cemitério. Ele é tão perverso que usa a pandemia para matar a
floresta e tudo o que é vivo. O presidente do Brasil pode se tornar o primeiro
vilão da história que, sem poder nuclear, tem grande poder de destruição. Sem
floresta amazônica não há como controlar o superaquecimento global. Sem
controlar o superaquecimento global o futuro será hostil para a espécie humana.
Se a Amazônia chegar ao ponto de não retorno, do qual se aproxima velozmente,
seu território poderá se tornar um disseminador de vírus nos próximos anos.
Neste momento, por mais que os demais países promovam ações de controle e
fechem suas fronteiras, sem conter o novo coronavírus num país com 210 milhões
de habitantes será muito difícil controlar a pandemia no planeta.
É disso que se trata. É real. Aqueles que lavam as mãos,
como disse o ator Lima Duarte, “o fazem numa bacia de sangue”. Lima Duarte fez
essa declaração após o suicídio de seu colega Flávio Migliaccio, que tirou a
própria vida dolorosamente decepcionado com o Brasil e com os brasileiros. Eu
iria ainda mais adiante que Lima Duarte. Quem segue com Bolsonaro não está
apenas lavando as mãos numa bacia de sangue. Está matando junto com ele. Uma
das perversidades do perverso é produzir cúmplices. E é isso que Bolsonaro faz.
Não é possível testemunhar o que está acontecendo e seguir com o humano monstro
sem se tornar o humano monstro. Não haverá sabonete, álcool gel, desinfetante
capaz de apagar esse sangue das mãos dos assassinos, estejam eles na Fiesp, no
Congresso ou no Theatro Municipal.
O que vamos dizer à criança de dois anos que denuncia a
nossa impotência em protegê-la quando ela pede socorro contra “o homem mau”?
Neste momento, seguidores de Bolsonaro se aglomeram em
Brasília. Alegam que estão praticando a desobediência civil. Como tudo o que
tocam vira mentira, todas as palavras saem estupradas depois de passar por sua
boca, o que fazem nada tem a ver com desobediência civil, conceito caro a
tantos movimentos que tornaram o mundo mais justo e igualitário. O que
exercitam diariamente é a mais vil obediência ao maníaco do Planalto e também
aos seus próprios instintos de morte, ao seu gozo por sangue e pela dor dos
outros. O que treinam cotidianamente é a obediência ao seu próprio sadismo e
desejo de violência que Bolsonaro libertou pelo exemplo e pela impunidade que
desfrutou. Tentam encobrir seus piores instintos com a bandeira do Brasil, da
qual também se apropriaram como se o país pertencesse apenas a quem mata o
Brasil.
Desobediência civil hoje é ficar em casa apesar do maníaco
que manda sair. Desobediência civil é cuidar de todos os outros apesar do
perverso que diz “e daí?”. Desobediência civil é desobedecer ao projeto de
genocida que está no poder. E para isso é necessário usar os instrumentos de
nossa cada vez mais ferida democracia para tirá-lo de lá e impedir que continue
matando. É isso ou dizer para a criança de dois anos que somos covardes demais
para protegê-la e, depois da palavra o gesto, abrir a porta da casa para a
morte.
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Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora
de Brasil, Construtor de Ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro
(Arquipélago). Site: elianebrum.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter,
Instagram e Facebook: @brumelianebrum
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